Friday, 24 August 2007

HOMENAGEANDO HOLDEN ROBERTO

No periodo de reflexao que se seguiu ao recente passamento fisico do Lider Historico Angolano, Holden Roberto, aqui assinalado, varios foram os artigos, testemunhos e depoimentos dados a estampa um pouco por todo o mundo.
De alguns dentre os publicados em Portugues vos dou aqui conta - todos extraidos das ultimas duas edicoes do Semanario Angolense.
***

A NOSSA PALAVRA HOJE NÃO É UM GRITO DE LIBERTAÇÃO COMO O LANÇADO HÁ QUARENTA E CINCO ANOS, MAS UM APELO AO DESPERTAR DOS MAIS SONOLENTOS, DOS MAIS INDIFERENTES. DIZER-LHES QUE ESTÁ PRÓXIMO O DIA EM QUE NOS SERÁ POSTA NAS MÃOS A ÚNICA ARMA QUE IMPORTA USAR PARA MUDAR O NOSSO PRESENTE E O NOSSO FUTURO: O VOTO.

Holden Roberto
***
I. Um Documento Histórico
A Upa e Holden Roberto, Segundo Edmundo Rocha
O presente texto foi extraído do livro «Angola – Contribuição ao Estudo do Nacionalismo Moderno Angolano. Período de 1950-1964-Testemunho e Estudo Documental Volume I», editado pela Kilombelombe e escrito pelo nacionalista e médico angolano Edmundo Vicente de Melo Rocha. A referida obra, com a qual conquistou uma das categorias do Prémio Nacional de Cultura e Artes, se debruça sobre a origem dos movimentos que estiveram ligados ao processo de libertação nacional e as suas actividades, muitas das quais desenvolvidas na clandestinidade. Assim como os outros movimentos nacionalistas, Edmundo Rocha, a residir actualmente em Portugal, não deixou de analisar os meandros da criação da UPA/FNLA, bem como a trajectória do seu líder histórico, Álvaro Holden Roberto. Para constar.

O Núcleo Nacionalista Na Emigração No Congo Belga
Origens – A União das Populações de Angola (Upa) nasceu no meio do grupo étnico Bakongo, o qual ocupa um vasto território tanto no noroeste de Angola como na orla marítima dos dois Congos, Belga e Francês. A capital do reino do Congo era S. Salvador do Congo, em território angolano. Os Bakongos mantinham estruturas tradicionais bastante homogéneas e coesas, mesmo durante a colonização.
(…)
No entanto, essa homogeneidade e coesão tribal dos Bakongo iria sofrer graves dissenções internas após a morte do Rei do Kongo, D. Pedro VII, católico, em 1955. A corrente católica, apoiada pelas autoridades portuguesas, sustentava, de harmonia com a tradição, que o futuro rei (Ntotele) deveria permanecer católico e fizeram entronizar D. António Ill, o que não agradou aos Bakongo protestantes, que estimavam que o futuro rei deveria ser protestante, instruído e impregnado de princípios modernos. O grupo dos Bakongo protestantes era dirigido pelo secretário do rei D. Pedro VII, Manuel Barros Nekaka, apoiado por Johnny Eduardo Pinnock, e por Francisco Lulendo, e por seu sobrinho Holden Roberto, os quais suscitaram várias manifestações de desagrado diante da casa do novo Ntotele.
Muitos desses manifestantes seriam presos e detidos durante meses. As autoridades portuguesas arrastaram este problema dinástico, evitando a reeleição de um novo Ntotele.
Decepcionados, os monárquicos Bakongo protestantes orientaram as suas actividades num sentido mais nacionalista e entram em contacto com o cônsul dos Estados Unidos da América em Leopoldville e com o missionário protestante Reverendo George M. Houser, de passagem por Leopoldville em 1955, personalidade destacada do American Committee on África (Acoa), o mais importante organismo anticolonialista americano. Esses contactos foram determinantes para o futuro do movimento nacionalista de origem Bakongo.
(… Continue a ler aqui)

***

II. Alberto Teta Lando
(Presidente da Unac-Uniao Nacional dos Artistas e Compositores)
«Conversas com o mais-velho em Paris inspiraram muitas das minhas músicas»

Para mim, o «velho», como eu lhe tratava, era uma referência. Uma pessoa participativa. Tenho nele um exemplo, sobretudo nos últimos vinte anos. A forma como ele aceitou, historicamente, todas as injustiças, todos os problemas e atribulações que teve, a forma como ele enfrentou estes problemas todos, para mim é grandioso. Vivi muito tempo com o «velho», sobretudo aquando do exílio em Paris. Estava com ele quase todos os dias. Por isso conheço um bocado daquilo que foi Holden Roberto. Para mim foi o homem que despoletou realmente a luta que acabou por nos dar a independência, pois que antes de Agostinho Neto, Savimbi e Holden Roberto, outras tentativas houveram.
(…)
Holden Roberto falava muito no dever que tínhamos de honrar os nossos mortos, aquelas pessoas que morreram a lutar pela liberdade de Angola. Aliás, quando eu cantei «os nossos mortos vão nos aplaudir», era um bocadinho na senda de conversas que eu tinha com Holden. Nós que temos o privilégio de gozar hoje a independência, devemos gozá-la o melhor possível para que os nossos mortos lá de cima possam aplaudir e dizer que valeu a pena terem morrido na luta pela independência. Transformei em poesia um bocadinho daquilo que o velho conversava muitas vezes comigo. O velho Holden era uma pessoa que estava sempre à espera que as coisas melhorassem, e dizia muitas vezes no exílio que a guerra já não tinha razão de ser.
(…)
Holden Roberto inspirou-me muito, principalmente nas últimas composições que fiz. Por exemplo, «o sonho de um camponês» é inspirado de conversas que tive com o velho.

***
III. Holden Segundo Onofre Dos Santos
Com as suas tropas a tentarem forçar a entrada em Luanda Holden estava no Ambriz na noite da Independência, assegura Onofre dos Santos, num curiosíssimo diário sobre os primeiros dias de independência vividos do «outro lado da barricada». Em «Os (meus) dias da Independência», um diário escrito por Onofre dos Santos, reportando-se aos primeiros dias de liberdade em Angola, encontramos aquilo que será uma revelação para muitos angolanos que tiveram no paradeiro de Holden Roberto no dia 11 de Novembro de 1975 um autêntico mistério. Quase uma lenda. Uns diziam que estava no Huambo, juntamente com Jonas Savimbi, a proclamar a efémera «República Democrática de Angola», outros que não, que estava em Kinshasa ao lado de Mobutu Sesse Seko, e outros ainda que estaria na «frente de combate» dirigindo directamente a coligação de forças que tentaram a todo o custo, mas debalde, tomar a capital angolana. Daí, aliás, a celebrizada expressão atribuída ao líder histórico da FNLA, que na véspera da Independência teria dito qualquer coisa como isto: «Amanhã almoçaremos em Luanda!». No seu livro, lançado em Julho de 2002, pela Editorial Notícias, Onofre dos Santos assevera que Holden Roberto estava no Ambriz.
(…)
Depois de longos anos de exílio em França, Holden Roberto regressou à Angola em 1991, pouco depois da assinatura dos Acordos de Paz, em Bicesse. Aí o encontrei na sua suite, no último andar do Hotel Presidente, ao fundo da Avenida Marginal, em Luanda, durante os dias da Conferência Multipartidária que marcou o seu regresso em força à política angolana.
(…)
Holden Roberto é hoje uma figura histórica notável, cujo percurso desde a sua juventude até aos nossos dias merece ser contada. Ele é certamente um dos grandes líderes das independências em África e, sendo um dos maiores, é talvez daqueles de quem menos se sabe. Dele a memória e o imaginário de todos aqueles que viveram os dramas de 1961 em Angola têm guardado uma imagem que não lhe faz justiça. É uma grande pena que o bom povo angolano não tome a iniciativa de lhe fazer o reconhecimento nacional a que ele tem direito e que os estudiosos e historiadores de Angola, e não só, não reconstituam para as novas gerações a vida por ele consagrada com humildade, perseverança inabalável e muita coragem ao longo de mais de cinquenta anos de luta deste idealista, que, mais do que uma arma, transportou nos braços uma verdadeira cruz.

***

IV. Depoimento de Carlinhos Zassala
«Para O Presidente A Política Não Era Um Emprego, Mas Uma Missão»
Membro da direcção da Fnla, o psicólogo Carlinhos Zassala conheceu Holden Roberto no seu tempo de juventude, quando estudava na República Democrática do CongoO presidente Holden Roberto foi uma grande figura, um combatente da liberdade e um grande nacionalista angolano. Comecei por conhecer os seus pais e tios, já em 1956, quando em companhia do meu pai fui estudar para o Matadi, dois anos depois da fundação da União dos Povos do Norte de Angola (Upna).
(…)
Foi uma figura de dimensão nacional e internacional muito influenciada por nacionalistas africanos como Nkwame Nkruma, Julius Nyerere, Leopold Senghor, entre outras figuras. É a pessoa que em 1958, na conferência de Accra, e nas Nações Unidas, levantou a voz para falar da independência de Angola.
(…)
É uma pessoa que admiro bastante, porque dizia que «a política não era um emprego, mas sim uma missão». Mais do que isso, muitas vezes ele dizia que nós devemos cumprir com a missão que nos é dada sem nos preocuparmos com os bens materiais. Hoje em dia é raríssimo encontrar um político que tenha morrido nas condições em que morreu o presidente Holden: sem riquezas nenhumas, apenas uma casa no bairro Azul. É uma pessoa que, na minha opinião, a juventude angolana deveria conhecer, principalmente porque em 1985 desmobilizou o seu exército, por não querer entrar na guerra civil.
(…)
Acompanhei o enterro do presidente em Mbanza Congo e fiquei muito emocionado, porque durante a noite toda não paravam de chegar carros, vindos de diversas partes, das províncias vizinhas, mesmo da Rdc, Baixo Zaire, enfim. Holden Roberto sempre defendeu a liberdade e a terra. Ele dizia muitas vezes que conseguimos a liberdade em 1975 e que «não era possível liberdade sem terra, nem terra sem liberdade». Razão pela qual defendeu sempre que a via para pacificação do país devia ser a do diálogo. Tanto é que esteve por trás de várias negociações que aconteceram entre o Governo e a Unita e que culminariam nos acordos de Bicesse.

QUEM VOS DIZ ISTO É ALGUÉM QUE JÁ PASSOU A BARREIRA DOS OITENTA. NÃO SÃO AMBIÇÕES POLÍTICAS QUE ME ANIMAM E ME OBRIGAM A FAZER MAIS ESTA EXORTAÇÃO. DIZ-SE QUE O DIABO NÃO SABE MAIS DO QUE OS OUTROS POR SER DIABO, MAS PORQUE É MUITO VELHO. NÓS EM ÁFRICA E MUITO ESPECIALMENTE AQUI EM ANGOLA RESPEITAMOS PROFUNDAMENTE OS NOSSOS MAIS-VELHOS, PORQUE ELES SÃO PESSOAS DE MUITA EXPERIÊNCIA.
Holden Roberto

***
V. Apontamentos Sobre Um Monumento Chamado Holden Roberto
(Por Sousa Jamba)
É natural que, depois da morte de uma personalidade pública, as pessoas estejam altamente curiosas sobre a vida do finado. Queremos sempre uma narrativa concisa e clara, que pode encapsular a vida do defunto. Depois de ter ouvido que Holden Roberto faleceu, como várias pessoas, corri logo à Internet para procurar dados sobre a sua vida. Infelizmente, não havia muita coisa.
(…)
Outros jornalistas tentaram propagar a alegação de que Holden Roberto foi agente da Cia. Porém, um olhar atento aos factos revela que a alegada ligação entre a Cia e a Fnla, nos anos 60, foi altamente exagerada. E isto é um facto suportado por académicos que não nutriam simpatia nenhuma por Holden Roberto ou mesmo pela Fnla, como o escritor norte-americano Jerry Bender.
(…)
Mas porque é que Holden Roberto não contestava vigorosamente as tantas inverdades sobre a sua pessoa e o movimento que liderava? Suponho que uma das razões foi a perícia em relações públicas daquele ovimbundu que foi secretário dos Negócios Estrangeiros da União dos Povos de Angola (Upa), Jonas Malheiro Savimbi. Por quase trinta anos, o drama de Angola, passou a ser altamente bipolarizado – de um lado havia os comunistas do Mpla e do outro a Unita, que era pró-ocidental. Jonas Savimbi conseguiu, também, em muitos circuitos africanos, caracterizar o conflito em Angola como sendo, em parte, uma luta entre a identidade africana e várias forças que visavam a sua diluição.

OS ANOS PASSARAM MAS O NOSSO COMBATE CONTINUA O MESMO QUE NASCEU SOB O LEMA DE LIBERDADE E TERRA QUE MARCOU O NOSSO GRITO DE REVOLTA E QUE HOJE EU QUERIA QUE FOSSE UM GRITO DE ALERTA E DE VIGILÂNCIA, MAS QUE TAMBÉM SE CONVERTA NUM GRITO DE ESPERANÇA, PORQUE ANGOLA PODE SER MELHOR DO QUE ESTÁ PARA O POVO ANGOLANO.
Holden Roberto

***

[Mais infomacoes aqui]

No periodo de reflexao que se seguiu ao recente passamento fisico do Lider Historico Angolano, Holden Roberto, aqui assinalado, varios foram os artigos, testemunhos e depoimentos dados a estampa um pouco por todo o mundo.
De alguns dentre os publicados em Portugues vos dou aqui conta - todos extraidos das ultimas duas edicoes do Semanario Angolense.
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A NOSSA PALAVRA HOJE NÃO É UM GRITO DE LIBERTAÇÃO COMO O LANÇADO HÁ QUARENTA E CINCO ANOS, MAS UM APELO AO DESPERTAR DOS MAIS SONOLENTOS, DOS MAIS INDIFERENTES. DIZER-LHES QUE ESTÁ PRÓXIMO O DIA EM QUE NOS SERÁ POSTA NAS MÃOS A ÚNICA ARMA QUE IMPORTA USAR PARA MUDAR O NOSSO PRESENTE E O NOSSO FUTURO: O VOTO.

Holden Roberto
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I. Um Documento Histórico
A Upa e Holden Roberto, Segundo Edmundo Rocha
O presente texto foi extraído do livro «Angola – Contribuição ao Estudo do Nacionalismo Moderno Angolano. Período de 1950-1964-Testemunho e Estudo Documental Volume I», editado pela Kilombelombe e escrito pelo nacionalista e médico angolano Edmundo Vicente de Melo Rocha. A referida obra, com a qual conquistou uma das categorias do Prémio Nacional de Cultura e Artes, se debruça sobre a origem dos movimentos que estiveram ligados ao processo de libertação nacional e as suas actividades, muitas das quais desenvolvidas na clandestinidade. Assim como os outros movimentos nacionalistas, Edmundo Rocha, a residir actualmente em Portugal, não deixou de analisar os meandros da criação da UPA/FNLA, bem como a trajectória do seu líder histórico, Álvaro Holden Roberto. Para constar.

O Núcleo Nacionalista Na Emigração No Congo Belga
Origens – A União das Populações de Angola (Upa) nasceu no meio do grupo étnico Bakongo, o qual ocupa um vasto território tanto no noroeste de Angola como na orla marítima dos dois Congos, Belga e Francês. A capital do reino do Congo era S. Salvador do Congo, em território angolano. Os Bakongos mantinham estruturas tradicionais bastante homogéneas e coesas, mesmo durante a colonização.
(…)
No entanto, essa homogeneidade e coesão tribal dos Bakongo iria sofrer graves dissenções internas após a morte do Rei do Kongo, D. Pedro VII, católico, em 1955. A corrente católica, apoiada pelas autoridades portuguesas, sustentava, de harmonia com a tradição, que o futuro rei (Ntotele) deveria permanecer católico e fizeram entronizar D. António Ill, o que não agradou aos Bakongo protestantes, que estimavam que o futuro rei deveria ser protestante, instruído e impregnado de princípios modernos. O grupo dos Bakongo protestantes era dirigido pelo secretário do rei D. Pedro VII, Manuel Barros Nekaka, apoiado por Johnny Eduardo Pinnock, e por Francisco Lulendo, e por seu sobrinho Holden Roberto, os quais suscitaram várias manifestações de desagrado diante da casa do novo Ntotele.
Muitos desses manifestantes seriam presos e detidos durante meses. As autoridades portuguesas arrastaram este problema dinástico, evitando a reeleição de um novo Ntotele.
Decepcionados, os monárquicos Bakongo protestantes orientaram as suas actividades num sentido mais nacionalista e entram em contacto com o cônsul dos Estados Unidos da América em Leopoldville e com o missionário protestante Reverendo George M. Houser, de passagem por Leopoldville em 1955, personalidade destacada do American Committee on África (Acoa), o mais importante organismo anticolonialista americano. Esses contactos foram determinantes para o futuro do movimento nacionalista de origem Bakongo.
(… Continue a ler aqui)

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II. Alberto Teta Lando
(Presidente da Unac-Uniao Nacional dos Artistas e Compositores)
«Conversas com o mais-velho em Paris inspiraram muitas das minhas músicas»

Para mim, o «velho», como eu lhe tratava, era uma referência. Uma pessoa participativa. Tenho nele um exemplo, sobretudo nos últimos vinte anos. A forma como ele aceitou, historicamente, todas as injustiças, todos os problemas e atribulações que teve, a forma como ele enfrentou estes problemas todos, para mim é grandioso. Vivi muito tempo com o «velho», sobretudo aquando do exílio em Paris. Estava com ele quase todos os dias. Por isso conheço um bocado daquilo que foi Holden Roberto. Para mim foi o homem que despoletou realmente a luta que acabou por nos dar a independência, pois que antes de Agostinho Neto, Savimbi e Holden Roberto, outras tentativas houveram.
(…)
Holden Roberto falava muito no dever que tínhamos de honrar os nossos mortos, aquelas pessoas que morreram a lutar pela liberdade de Angola. Aliás, quando eu cantei «os nossos mortos vão nos aplaudir», era um bocadinho na senda de conversas que eu tinha com Holden. Nós que temos o privilégio de gozar hoje a independência, devemos gozá-la o melhor possível para que os nossos mortos lá de cima possam aplaudir e dizer que valeu a pena terem morrido na luta pela independência. Transformei em poesia um bocadinho daquilo que o velho conversava muitas vezes comigo. O velho Holden era uma pessoa que estava sempre à espera que as coisas melhorassem, e dizia muitas vezes no exílio que a guerra já não tinha razão de ser.
(…)
Holden Roberto inspirou-me muito, principalmente nas últimas composições que fiz. Por exemplo, «o sonho de um camponês» é inspirado de conversas que tive com o velho.

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III. Holden Segundo Onofre Dos Santos
Com as suas tropas a tentarem forçar a entrada em Luanda Holden estava no Ambriz na noite da Independência, assegura Onofre dos Santos, num curiosíssimo diário sobre os primeiros dias de independência vividos do «outro lado da barricada». Em «Os (meus) dias da Independência», um diário escrito por Onofre dos Santos, reportando-se aos primeiros dias de liberdade em Angola, encontramos aquilo que será uma revelação para muitos angolanos que tiveram no paradeiro de Holden Roberto no dia 11 de Novembro de 1975 um autêntico mistério. Quase uma lenda. Uns diziam que estava no Huambo, juntamente com Jonas Savimbi, a proclamar a efémera «República Democrática de Angola», outros que não, que estava em Kinshasa ao lado de Mobutu Sesse Seko, e outros ainda que estaria na «frente de combate» dirigindo directamente a coligação de forças que tentaram a todo o custo, mas debalde, tomar a capital angolana. Daí, aliás, a celebrizada expressão atribuída ao líder histórico da FNLA, que na véspera da Independência teria dito qualquer coisa como isto: «Amanhã almoçaremos em Luanda!». No seu livro, lançado em Julho de 2002, pela Editorial Notícias, Onofre dos Santos assevera que Holden Roberto estava no Ambriz.
(…)
Depois de longos anos de exílio em França, Holden Roberto regressou à Angola em 1991, pouco depois da assinatura dos Acordos de Paz, em Bicesse. Aí o encontrei na sua suite, no último andar do Hotel Presidente, ao fundo da Avenida Marginal, em Luanda, durante os dias da Conferência Multipartidária que marcou o seu regresso em força à política angolana.
(…)
Holden Roberto é hoje uma figura histórica notável, cujo percurso desde a sua juventude até aos nossos dias merece ser contada. Ele é certamente um dos grandes líderes das independências em África e, sendo um dos maiores, é talvez daqueles de quem menos se sabe. Dele a memória e o imaginário de todos aqueles que viveram os dramas de 1961 em Angola têm guardado uma imagem que não lhe faz justiça. É uma grande pena que o bom povo angolano não tome a iniciativa de lhe fazer o reconhecimento nacional a que ele tem direito e que os estudiosos e historiadores de Angola, e não só, não reconstituam para as novas gerações a vida por ele consagrada com humildade, perseverança inabalável e muita coragem ao longo de mais de cinquenta anos de luta deste idealista, que, mais do que uma arma, transportou nos braços uma verdadeira cruz.

***

IV. Depoimento de Carlinhos Zassala
«Para O Presidente A Política Não Era Um Emprego, Mas Uma Missão»
Membro da direcção da Fnla, o psicólogo Carlinhos Zassala conheceu Holden Roberto no seu tempo de juventude, quando estudava na República Democrática do CongoO presidente Holden Roberto foi uma grande figura, um combatente da liberdade e um grande nacionalista angolano. Comecei por conhecer os seus pais e tios, já em 1956, quando em companhia do meu pai fui estudar para o Matadi, dois anos depois da fundação da União dos Povos do Norte de Angola (Upna).
(…)
Foi uma figura de dimensão nacional e internacional muito influenciada por nacionalistas africanos como Nkwame Nkruma, Julius Nyerere, Leopold Senghor, entre outras figuras. É a pessoa que em 1958, na conferência de Accra, e nas Nações Unidas, levantou a voz para falar da independência de Angola.
(…)
É uma pessoa que admiro bastante, porque dizia que «a política não era um emprego, mas sim uma missão». Mais do que isso, muitas vezes ele dizia que nós devemos cumprir com a missão que nos é dada sem nos preocuparmos com os bens materiais. Hoje em dia é raríssimo encontrar um político que tenha morrido nas condições em que morreu o presidente Holden: sem riquezas nenhumas, apenas uma casa no bairro Azul. É uma pessoa que, na minha opinião, a juventude angolana deveria conhecer, principalmente porque em 1985 desmobilizou o seu exército, por não querer entrar na guerra civil.
(…)
Acompanhei o enterro do presidente em Mbanza Congo e fiquei muito emocionado, porque durante a noite toda não paravam de chegar carros, vindos de diversas partes, das províncias vizinhas, mesmo da Rdc, Baixo Zaire, enfim. Holden Roberto sempre defendeu a liberdade e a terra. Ele dizia muitas vezes que conseguimos a liberdade em 1975 e que «não era possível liberdade sem terra, nem terra sem liberdade». Razão pela qual defendeu sempre que a via para pacificação do país devia ser a do diálogo. Tanto é que esteve por trás de várias negociações que aconteceram entre o Governo e a Unita e que culminariam nos acordos de Bicesse.

QUEM VOS DIZ ISTO É ALGUÉM QUE JÁ PASSOU A BARREIRA DOS OITENTA. NÃO SÃO AMBIÇÕES POLÍTICAS QUE ME ANIMAM E ME OBRIGAM A FAZER MAIS ESTA EXORTAÇÃO. DIZ-SE QUE O DIABO NÃO SABE MAIS DO QUE OS OUTROS POR SER DIABO, MAS PORQUE É MUITO VELHO. NÓS EM ÁFRICA E MUITO ESPECIALMENTE AQUI EM ANGOLA RESPEITAMOS PROFUNDAMENTE OS NOSSOS MAIS-VELHOS, PORQUE ELES SÃO PESSOAS DE MUITA EXPERIÊNCIA.
Holden Roberto

***
V. Apontamentos Sobre Um Monumento Chamado Holden Roberto
(Por Sousa Jamba)
É natural que, depois da morte de uma personalidade pública, as pessoas estejam altamente curiosas sobre a vida do finado. Queremos sempre uma narrativa concisa e clara, que pode encapsular a vida do defunto. Depois de ter ouvido que Holden Roberto faleceu, como várias pessoas, corri logo à Internet para procurar dados sobre a sua vida. Infelizmente, não havia muita coisa.
(…)
Outros jornalistas tentaram propagar a alegação de que Holden Roberto foi agente da Cia. Porém, um olhar atento aos factos revela que a alegada ligação entre a Cia e a Fnla, nos anos 60, foi altamente exagerada. E isto é um facto suportado por académicos que não nutriam simpatia nenhuma por Holden Roberto ou mesmo pela Fnla, como o escritor norte-americano Jerry Bender.
(…)
Mas porque é que Holden Roberto não contestava vigorosamente as tantas inverdades sobre a sua pessoa e o movimento que liderava? Suponho que uma das razões foi a perícia em relações públicas daquele ovimbundu que foi secretário dos Negócios Estrangeiros da União dos Povos de Angola (Upa), Jonas Malheiro Savimbi. Por quase trinta anos, o drama de Angola, passou a ser altamente bipolarizado – de um lado havia os comunistas do Mpla e do outro a Unita, que era pró-ocidental. Jonas Savimbi conseguiu, também, em muitos circuitos africanos, caracterizar o conflito em Angola como sendo, em parte, uma luta entre a identidade africana e várias forças que visavam a sua diluição.

OS ANOS PASSARAM MAS O NOSSO COMBATE CONTINUA O MESMO QUE NASCEU SOB O LEMA DE LIBERDADE E TERRA QUE MARCOU O NOSSO GRITO DE REVOLTA E QUE HOJE EU QUERIA QUE FOSSE UM GRITO DE ALERTA E DE VIGILÂNCIA, MAS QUE TAMBÉM SE CONVERTA NUM GRITO DE ESPERANÇA, PORQUE ANGOLA PODE SER MELHOR DO QUE ESTÁ PARA O POVO ANGOLANO.
Holden Roberto

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