Tuesday, 29 September 2009

OLHARES DIVERSOS (XII)


Por ocasião da passagem do dia do Herói Nacional, assistimos à profusão de noticiário evocativo da figura de António de Agostinho Neto, ex-presidente de Angola, o primeiro da era pós-independência. Não fosse a memória reservada e certa de que heróis temos desde a chegada de Diogo Cão ao reino do Congo e estaríamos a induzir defeituosamente as gerações presentes e as vindouras na ideia vil, torpe e falsa de que antes de Neto eram ‹‹tudo maricas››, num deserto de actos de bravura e de heroísmo pelos ideais da resistência.

O que me inquieta afinal? Que os partidários de Agostinho Neto e os membros da sua família lhe promovam até à exaustão os feitos passados, ora com excessiva e divina lucidez ora com descomedida mas genuína intolerância. Que as sobreviventes ‹‹elites›› políticas, partidos incluídos, se remetam ao calar consentido que os torna cúmplices de narrativas que resultam em adulteração da história. Não pode ser por essas omissões que devemos assistir ao instalar da falta de clareza e a instalar-se com a cumplicidade leviana do perdão e da fraude em nome da mediocridade.

Há muito, e não apenas por razões de afecto, acompanho a vida e obra de Agostinho Neto. No seu colo andaria no tempo em que nascia, bem perto da casa que compartilhou com meu pai, seu amigo e companheiro, na velha e famosa 15 de Agosto da distante Malange dos anos quarenta e sete. Ele, então amanuense dos Serviços de Saúde, e meu pai enfermeiro, ambos destacados para servir naquela região. Lá está a lápide evocativa, no conjunto das vivendas coloniais, propriedade dos herdeiros do velho Clara.

Mas nada pode justificar que Neto seja erigido a mito. Neto tem obra e tem feitos suficientes para ser evocado e as circunstâncias da história fizeram dele um figura célebre, fosse quando fundou o seu MIA, fosse quando foi chamado a assumir a presidência do partido que ajudaria a erguer, fosse ainda quando se impôs como primeiro Presidente da nascente Nação Angolana. Coisa diferente é pois que assistamos, impávidos, ao contar da história com omissão dos demais dos seus protagonistas, e já não só hierarquizando-os como ainda lhes desqualificando as intervenções: como se fossem todos imberbes, todos abúlicos seguidores do iluminado que só tinha discípulos e que, por isso, lhes ditava as profecias. Não é admissível a ninguém com um mínimo de lucidez ignorar que a grandeza do partido que Agostinho Neto ajudaria a erguer, não a fundar, só o é na medida em que tenha sido feito e servido por homens e mulheres portadores de um manancial de competências fora do comum, a que não se pode deixar de juntar uma abnegação heróica em nome de causas superiores, que tão bem se propuseram e souberam servir até ao fim dos seus dias. É exactamente esse manancial de competências que terá dado lugar a lutas internas, dissensões e fracções, baseadas em ocorrências reais graves, a última das quais os viria a dividir para desgraça nossa, irremediavelmente. Não é como a kota Maria Eugénia diz, serem todos desonestos, protegendo o seu Camarada Presidente, que nunca quis afastar ninguém, assacando aos outros o ónus de um pretenso distanciamento voluntário, quando o processo começou a enfrentar maiores adversidades. Não é bom ouvir de uma militante abnegada e respeitável, a quem todos tanto devemos, o uso dos adjectivos desqualificativos com que mimoseia os companheiros do seu camarada Presidente Neto, no limite tendo-os como oportunistas, que mais não almejavam que abocanhar o pedaço do Leão (e quem era o leão Kota Maria Eugénia?). Os intelectuais, os políticos e os intervenientes da vida cívica têm de estar sempre à altura e ao serviço das circunstâncias, das urgências e das necessidades. O desejo de conservar o domínio da liderança fez Agostinho Neto negar aos demais a oportunidade da discussão interna dos problemas de que o movimento gravemente padecia, assim confirmando o autoritarismo de que era acusado, sempre frio, inclemente e rude nos propósitos e com total indiferença pelos outros.

Era mesmo esse leão (a expressão é sua, pois Gentil Viana preferiu cognominá-lo Taurus) agora já inebriado pelo poder que optaria por não mudar o rumo, porque não disposto a partilha-lo. E se a história é uma comparação permanente de factos, Neto viria a sofrer-lhes os efeitos num novo levantamento de militantes outra vez descontentes, no qual seria, por uns dado como vítima e por outros por carrasco, no tristemente célebre 27 de Maio de 1977. A sua história continua por contar.

Não se desvalorizam as convicções de Neto face às dos demais dos seus camaradas, mas não se pode, em perfeito juízo, ter por quimeras os factos que estão na origem do aparecimento da Revolta Activa e da Revolta do Leste. É excessivo, inadmissível e inqualificável tomá-los por oportunistas e criminosos como fez a Kota Maria Eugénia, na sua última e desastrada intervenção pública. Não pode e não deve vexar sem a menor dose de afecto os homens e as mulheres, personalidades empenhadas que mais não pretenderam que, por direito e em igualdade de circunstâncias, gritar pela res-ponsabilidade e pela cidadania e dessa forma bolear as arestas dos ódios que ciclicamente renasciam no seio do movimento. Sob pena de se prestar a, cada vez que lhe derem voz, apresentar a história como um conto de fadas e o seu Camarada Presidente como uma personalidade fictícia. Um reflexo povoado dos seus desejos. O seu véu de Maya!

Chipenda um servidor da PIDE? A FNLA um movimento de bárbaros que matava bailundos?! Ó Kota Maria Eugénia como é então você?!...


[Continue lendo Aqui]


[DECLARACOES DE EUGENIA NETO AQUI]

Por ocasião da passagem do dia do Herói Nacional, assistimos à profusão de noticiário evocativo da figura de António de Agostinho Neto, ex-presidente de Angola, o primeiro da era pós-independência. Não fosse a memória reservada e certa de que heróis temos desde a chegada de Diogo Cão ao reino do Congo e estaríamos a induzir defeituosamente as gerações presentes e as vindouras na ideia vil, torpe e falsa de que antes de Neto eram ‹‹tudo maricas››, num deserto de actos de bravura e de heroísmo pelos ideais da resistência.

O que me inquieta afinal? Que os partidários de Agostinho Neto e os membros da sua família lhe promovam até à exaustão os feitos passados, ora com excessiva e divina lucidez ora com descomedida mas genuína intolerância. Que as sobreviventes ‹‹elites›› políticas, partidos incluídos, se remetam ao calar consentido que os torna cúmplices de narrativas que resultam em adulteração da história. Não pode ser por essas omissões que devemos assistir ao instalar da falta de clareza e a instalar-se com a cumplicidade leviana do perdão e da fraude em nome da mediocridade.

Há muito, e não apenas por razões de afecto, acompanho a vida e obra de Agostinho Neto. No seu colo andaria no tempo em que nascia, bem perto da casa que compartilhou com meu pai, seu amigo e companheiro, na velha e famosa 15 de Agosto da distante Malange dos anos quarenta e sete. Ele, então amanuense dos Serviços de Saúde, e meu pai enfermeiro, ambos destacados para servir naquela região. Lá está a lápide evocativa, no conjunto das vivendas coloniais, propriedade dos herdeiros do velho Clara.

Mas nada pode justificar que Neto seja erigido a mito. Neto tem obra e tem feitos suficientes para ser evocado e as circunstâncias da história fizeram dele um figura célebre, fosse quando fundou o seu MIA, fosse quando foi chamado a assumir a presidência do partido que ajudaria a erguer, fosse ainda quando se impôs como primeiro Presidente da nascente Nação Angolana. Coisa diferente é pois que assistamos, impávidos, ao contar da história com omissão dos demais dos seus protagonistas, e já não só hierarquizando-os como ainda lhes desqualificando as intervenções: como se fossem todos imberbes, todos abúlicos seguidores do iluminado que só tinha discípulos e que, por isso, lhes ditava as profecias. Não é admissível a ninguém com um mínimo de lucidez ignorar que a grandeza do partido que Agostinho Neto ajudaria a erguer, não a fundar, só o é na medida em que tenha sido feito e servido por homens e mulheres portadores de um manancial de competências fora do comum, a que não se pode deixar de juntar uma abnegação heróica em nome de causas superiores, que tão bem se propuseram e souberam servir até ao fim dos seus dias. É exactamente esse manancial de competências que terá dado lugar a lutas internas, dissensões e fracções, baseadas em ocorrências reais graves, a última das quais os viria a dividir para desgraça nossa, irremediavelmente. Não é como a kota Maria Eugénia diz, serem todos desonestos, protegendo o seu Camarada Presidente, que nunca quis afastar ninguém, assacando aos outros o ónus de um pretenso distanciamento voluntário, quando o processo começou a enfrentar maiores adversidades. Não é bom ouvir de uma militante abnegada e respeitável, a quem todos tanto devemos, o uso dos adjectivos desqualificativos com que mimoseia os companheiros do seu camarada Presidente Neto, no limite tendo-os como oportunistas, que mais não almejavam que abocanhar o pedaço do Leão (e quem era o leão Kota Maria Eugénia?). Os intelectuais, os políticos e os intervenientes da vida cívica têm de estar sempre à altura e ao serviço das circunstâncias, das urgências e das necessidades. O desejo de conservar o domínio da liderança fez Agostinho Neto negar aos demais a oportunidade da discussão interna dos problemas de que o movimento gravemente padecia, assim confirmando o autoritarismo de que era acusado, sempre frio, inclemente e rude nos propósitos e com total indiferença pelos outros.

Era mesmo esse leão (a expressão é sua, pois Gentil Viana preferiu cognominá-lo Taurus) agora já inebriado pelo poder que optaria por não mudar o rumo, porque não disposto a partilha-lo. E se a história é uma comparação permanente de factos, Neto viria a sofrer-lhes os efeitos num novo levantamento de militantes outra vez descontentes, no qual seria, por uns dado como vítima e por outros por carrasco, no tristemente célebre 27 de Maio de 1977. A sua história continua por contar.

Não se desvalorizam as convicções de Neto face às dos demais dos seus camaradas, mas não se pode, em perfeito juízo, ter por quimeras os factos que estão na origem do aparecimento da Revolta Activa e da Revolta do Leste. É excessivo, inadmissível e inqualificável tomá-los por oportunistas e criminosos como fez a Kota Maria Eugénia, na sua última e desastrada intervenção pública. Não pode e não deve vexar sem a menor dose de afecto os homens e as mulheres, personalidades empenhadas que mais não pretenderam que, por direito e em igualdade de circunstâncias, gritar pela res-ponsabilidade e pela cidadania e dessa forma bolear as arestas dos ódios que ciclicamente renasciam no seio do movimento. Sob pena de se prestar a, cada vez que lhe derem voz, apresentar a história como um conto de fadas e o seu Camarada Presidente como uma personalidade fictícia. Um reflexo povoado dos seus desejos. O seu véu de Maya!

Chipenda um servidor da PIDE? A FNLA um movimento de bárbaros que matava bailundos?! Ó Kota Maria Eugénia como é então você?!...


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[DECLARACOES DE EUGENIA NETO AQUI]

Sunday, 27 September 2009

Saturday, 26 September 2009

DANÇANDO

'dança muhimba'


'dança mumuíla'


'dança muhimba'


'dança mumuíla'


Thursday, 24 September 2009

OLHARES DIVERSOS (XI)



Pela sua peculiaridade transcrevo* aqui este pequeno extracto de uma entrevista de Carlos Moore, de quem ja' aqui havia publicado outras interessantes declaracoes:

(...) Cuba não percebeu as complexidades, nem de Angola, nem do continente africano. Vieram com o complexo de Tarzan e encontraram uma resistência difícil e dura. Determinante foi também a obstrução dos chineses e a desintegração do seu aliado soviético.
Por outro lado, em Angola, dentro do MPLA, começou a haver receio desse controlo excessivo. Porque os cubanos não vieram aqui só para combater. Eles levaram para Cuba todos os recursos que puderam. Quando regressei a Havana (fui autorizado a voltar em 1997) oficiais militares relataram-me, a chorar, a pilhagem geral e as maldades que tinham cometido aqui
.
Por exemplo?
O uso de napalm [em] aldeias inteiras. Milhares de cubanos enlouqueceram nessa guerra. Ninguém fala nisto.

(Carlos Moore, académico e dissidente cubano ao NJ)


*Com a devida venia ao Morro da Maianga.




Pela sua peculiaridade transcrevo* aqui este pequeno extracto de uma entrevista de Carlos Moore, de quem ja' aqui havia publicado outras interessantes declaracoes:

(...) Cuba não percebeu as complexidades, nem de Angola, nem do continente africano. Vieram com o complexo de Tarzan e encontraram uma resistência difícil e dura. Determinante foi também a obstrução dos chineses e a desintegração do seu aliado soviético.
Por outro lado, em Angola, dentro do MPLA, começou a haver receio desse controlo excessivo. Porque os cubanos não vieram aqui só para combater. Eles levaram para Cuba todos os recursos que puderam. Quando regressei a Havana (fui autorizado a voltar em 1997) oficiais militares relataram-me, a chorar, a pilhagem geral e as maldades que tinham cometido aqui
.
Por exemplo?
O uso de napalm [em] aldeias inteiras. Milhares de cubanos enlouqueceram nessa guerra. Ninguém fala nisto.

(Carlos Moore, académico e dissidente cubano ao NJ)


*Com a devida venia ao Morro da Maianga.


Wednesday, 23 September 2009

MAQOMA WITH BEAUTIFUL ME IN LUANDA (Recidivus)*




Beautiful Me is Maqoma’s ongoing investigation of HIS OWN IDENTITY in relationship to history, humanity and nature (see some of his work here). He begins with movement, text and music contributed by three master choreographers who have had a great influence on him – Akram Khan’s contemporary Kathak, Faustin Linyekula’s visual dance- theatre and Vincent Mantsoe’s Afro- fusion.

[More details here and here]


[Posts relacionados AQUI]


*First posted on 31/08/09





Beautiful Me is Maqoma’s ongoing investigation of HIS OWN IDENTITY in relationship to history, humanity and nature (see some of his work here). He begins with movement, text and music contributed by three master choreographers who have had a great influence on him – Akram Khan’s contemporary Kathak, Faustin Linyekula’s visual dance- theatre and Vincent Mantsoe’s Afro- fusion.

[More details here and here]


[Posts relacionados AQUI]


*First posted on 31/08/09


Tuesday, 15 September 2009

HALF THE SKY: EMPOWERING WOMEN

The New York Times Magazine has dedicated a special issue (Aug. 23, 2009) to women’s issues and gender equality.

Featured on the cover of the magazine (print edition) is a photo of a woman from Burundi, a woman who could not read or write, who was able to get away from literal enslavement in her hut, escaping the grinding poverty of life in her village, with the help of a US $2 dollar micro-loan.

Now she is the main breadwinner for her family and a shining example for her whole community.

She is living proof of what women can achieve with even the smallest amount of help from people who care.


[Keep reading @ Jewels in The Jungle]
The New York Times Magazine has dedicated a special issue (Aug. 23, 2009) to women’s issues and gender equality.

Featured on the cover of the magazine (print edition) is a photo of a woman from Burundi, a woman who could not read or write, who was able to get away from literal enslavement in her hut, escaping the grinding poverty of life in her village, with the help of a US $2 dollar micro-loan.

Now she is the main breadwinner for her family and a shining example for her whole community.

She is living proof of what women can achieve with even the smallest amount of help from people who care.


[Keep reading @ Jewels in The Jungle]

UM LEWIS HAMILTON ANGOLANO?

Luis Sa Silva, angolano de 19 anos, é líder do Campeonato Asiático de Fórmula Renault 2000, com 4 vitórias e duas poles.


[Informacao daqui]
Luis Sa Silva, angolano de 19 anos, é líder do Campeonato Asiático de Fórmula Renault 2000, com 4 vitórias e duas poles.


[Informacao daqui]

Friday, 11 September 2009

THE WALL

Remember this?
Well, after a three-year long valiant battle to hang on there
it finally gave way to something else…

video

Yeap, the ‘feisty lady’ has finally retired…
And this is what you can now see in that wall.


video

How long for?
I’ll keep watching.


Another Brick in the Wall [Pink Floyd]
Remember this?
Well, after a three-year long valiant battle to hang on there
it finally gave way to something else…

video

Yeap, the ‘feisty lady’ has finally retired…
And this is what you can now see in that wall.


video

How long for?
I’ll keep watching.


Another Brick in the Wall [Pink Floyd]

Thursday, 10 September 2009

CULTURA EM MOVIMENTO

Tratando do legado cultural e da tradição de resistência dos descendentes de africanos no Brasil, este volume reúne ensaios e depoimentos sobre várias dimensões e aspectos. Nei Lopes e Beatriz Nascimento trazem uma perspectiva sobre o legado dos ancestrais bantos e malês; Elisa Larkin Nascimento, Joel Rufino e Abdias Nascimento, assinando pelo Conselho Deliberativo do Memorial Zumbi, esboçam uma pequena história das lutas afro-brasileiras do século XX. A questão da educação no Brasil como tema fundamental da vida e da luta dos afro-descendentes é tema de relatórios de fóruns de educadores que a abordam no seu aspecto teórico e prático. Três educadoras – Vera Regina Triumpho, Silvany Euclêncio e Piedade Marques – trazem depoimentos ricos sobre a sua experiência com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, modificada pela Lei nº 10.639 de 2003.


[Mais detalhes aqui]
Tratando do legado cultural e da tradição de resistência dos descendentes de africanos no Brasil, este volume reúne ensaios e depoimentos sobre várias dimensões e aspectos. Nei Lopes e Beatriz Nascimento trazem uma perspectiva sobre o legado dos ancestrais bantos e malês; Elisa Larkin Nascimento, Joel Rufino e Abdias Nascimento, assinando pelo Conselho Deliberativo do Memorial Zumbi, esboçam uma pequena história das lutas afro-brasileiras do século XX. A questão da educação no Brasil como tema fundamental da vida e da luta dos afro-descendentes é tema de relatórios de fóruns de educadores que a abordam no seu aspecto teórico e prático. Três educadoras – Vera Regina Triumpho, Silvany Euclêncio e Piedade Marques – trazem depoimentos ricos sobre a sua experiência com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, modificada pela Lei nº 10.639 de 2003.


[Mais detalhes aqui]

Sunday, 6 September 2009

JUST POETRY (VII)

MUAMBA

A minha lira mulata
tem acordes tão amantes
que eu julgo serem de prata
as suas cordas vibrantes.

porque fiz d’ela mulher
tem lábios cor de “pitanga”,
da “pitanga” de comer,
com adornos de missanga.

E os seus braços tão nervosos
são dois ramos de palmeira,
que me abraçam, duvidosos,
e me prendem de maneira,

que eu não sei qual é melhor,
se os seus beijos de “muamba”,
se o “jindungo” deste amor…
- amor mulato… pitanga!


Tomaz Vieira da Cruz


Mafumeira

(nao 'Mulemba', ou 'Mulembeira'...)

(...'santas ignorancias'!...)

OLHARES DIVERSOS (X)



O EQUIVOCO MATA PORQUE AS INOCÊNCIAS CONTINUAM

Por Eugénio Monteiro Ferreira
04/02/2009

Tentando mostrar porventura que os exercícios intelectuais não são para todos, isto é , tentando demonstrar que não podem ter a opinião livre dos habituais situacionistas que, consoante os tempos vão mudando, eles e elas mudam logo de ideias em nome do actualismo, nomeadamente quando passam a ter alguma visibilidade, Inocência Mata lembrou-se de retirar da "gaveta" do seu pensamento o mais "puro" e felizmente curto, discurso estruturalmente racista. Que, como é bom desde logo ver, tem o seu caminho bloqueado pela história, devido ao simples facto de, após a análise científica se impôr, certamente que todo o situacionista, dependendo logicamente da perspectiva dominante do lugar geográfico que pretende sobrevalorizar, admitirá que o facciosismo é, por vezes bem menos temerário, bem mais performativo na sua ideologia, e bem menos idealista quanto ao processo histórico concreto. Diz a Catedrática num texto sobre a eleição de Barak Obama que "a realidade concreta, histórica, é que as pessoas são discriminadas pelas suas diferenças fenotípicas". Começa mal o texto e começa mal o seu mal-estar por causa disso mesmo porventura, pois não se sente bem certamente quem pretende, ainda hoje, encobrir uma ideologia que defende o anti-racismo teórico. Senão vejamos.

1º A professora doutora sabe que não pode afirmar "realidade concreta, histórica", porque está a confundir o dia de hoje com o dia de ontem e os dias dos séculos anteriores. Se tal é propositado ou não só a sua própria prática o poderá demonstrar. E está a confundir os dias porque sabe muito bem que nem a realidade moçambicana é igual à realidade angolana, nem tão pouco a realidade estadunidense é equivalente à realidade japonesa, a um plano; tão pouco a história do apartheid pode ser idêntica à história das relações entre africanos e europeus de origem em São Tomé, por um lado, no Princípe, por outro, a outro plano. É certamente motivo de mal-estar falar em "realidade africana" e logo confundir Angola e Moçambique, colocando à moda do nacionalismo do MPLA e da Frelimo, ambos os países no "mesmo saco". Mesmo na literatura, tivesse estudado a realidade de ambos os espaços sociais em profundidade, e tinha chegado á conclusão, simples, de que não eram só os vários componentes de naturalidade angolana e moçambicana que eram diferentes entre si, eram os próprios colonos e era a própria minoria branca que era completamente diferente no seu modo de ser e lidar com a "questão rácica". Não o admitir, é sintomático de quem é pelo menos ignorante do processo histórico de ambos os países.

2º Barak Hussein Obama é mulato, palavra "feia" na origem mas nem por isso historicamente verdadeira. E porquê? Porque é filho de um homem negro e de uma mulher branca. Como muito bem é sabido a relação entre os iniciais elementos do comércio longínquo - que se transformou em comércio escravista históriamente - levou a que o nacionalismo "rácico" e de cor da pele se andasse a defender pelo mundo em nome da "Mãe África". Essa foi a justificação emepelista para em vez de lutar contra o colonialismo em 1975 tivesse incentivado a luta contra os Colonizadores em Angola, contra aqueles, milhares, que "fabricaram mulatos" e nem sequer os perfilharam, etc. Ou seja, mesmo não se aceitando, compreende- se o juizo de valor contra o Pai "Europeu". Ora , como muito bem se sabe, não é bem a mesma coisa ser colonialista e ser colono, filho de colono ou até ...descendente de filho de colono. Nem academica, nem socialmente. Se se insiste em que Barak Obama é negro e não mulato, é porque não se entende de todo que, no caso concreto, é a "Mãe América" (ou Mãe Europa?) que deve ser sobrevalorizada e não o Pai "Africano". Ou então há manipulação de dados. Num rasgo individualista, no entanto com a pretensão legítima de conhecer a realidade objectiva gostaria de compreender qual a razão pela qual o meu filho é conhecido nas ruas periféricas da casa familiar em Luanda como Pula ou como Branco e Barak Obama é Negro? Será por causa daquela impossibilidade da ciência em "atingir" o facto de as "pessoas" e as "coisas" serem aquilo que os outros pensam ou entendem que elas são? Ou será que nos dias que correm os Catedráticos se andam a guiar cientificamente por critérios desses ou por categorias dessas ?

3º Certamente porque haverá muitas formas de pensar e muitas formas de julgar, a ciência, a prática científica, não deve ir atrás de noções sistematicamente situacionistas, do género ser "fascista" no tempo do fascismo, ser democrata no tempo dos democratas, ser racista no tempo do racismo, nem tão pouco ir atrás de hábitos regionalizados neste mundo que é só um. Por isso, do sopé da minha não academicidade, venho implorar a quem de direito... ou de mérito, que me dê umas explicações, pagas é claro pois certamente por divida histórica o merecerá, sobre a questão "racial" dado haver quem, no seu afâ de defender até aos limites os "seus", ao mesmo tempo que os "outros" ainda não sairam de uma fase de atacar os "seus" deles, confunde no pequeno texto, simultaneamente política, discriminação social, e história.

Finalmente, porque acredito que "o grande perigo de uma ideia repetida até à exaustão é ela começar a acreditar-se verdadeira" há que defintivamente não pretender igualdade naquilo que só a partir de agora, historicamente, vai ser possível: o paralelismo entre África e Europa. E porquê? Porque as "memórias de tempos de discriminação biológica, interdição cultural e proscrição política" são mesmo apagáveis. Sejam eles de longo termo ou de pequeno e médio termo. Por exemplo, em Angola, um dirigente do MPLA, dizia há tempos atrás que os angolanos tinham feito mais em 4 anos do que os portugueses (ou os colonos ?) durante o colonialismo. Será que não conta a afectação de recursos respectivos para se comparar o trabalho dos "colonos" , dos "naturais da terra" , dos "angolenses" e dos " indigenas" se comparados com o parasitismo da classe dominante actual ... de mãos dadas com o estrangeiro eficaz (quando havia uma administração competentissima de gente da terra antes da independência) , e em cadeia, de todo o tipo de produção sequente por parte dos trabalhadores actuais? O racismo estrutural de quem considera Barak Obama como negro é da parte de quem, catedrático inclusivé, não consegue ultrapassar a diferença artificial entre "brancos" e "não brancos", construida pelos apartheids deste mundo, utilizando a nacionalidade portuguesa e porventura tendo ajudado, historicamente, a que, ao nível dos poderes de decisão política directa, um país multirracial como Angola se transformasse num pais de negros com muitos brancos lá dentro; e Portugal se transforme, a custo, num país multirracial ... À revelia, inclusivé da história catedrática, pois, felizmente, foi a competência e o mérito que acabaram sempre, até hoje, por vir ao de cima na aventura que é a história da Humanidade.

(Sobre Obama, a «questão racial» e o esplendor do equívoco, Inocência Mata,
Angolense 24 a 31 de Janeiro, 2009)

***

Post (longo) relacionado:

Breves Notas Sobre "O Significado Racial da Vitoria de Obama"

Post (curto) relacionado:

E se os Paises Africanos fossem os EUA?

*****

Series (de 'direito' e de 'merito') relacionadas:

"OBAMA"
"OBAMA vs CLINTON"



O EQUIVOCO MATA PORQUE AS INOCÊNCIAS CONTINUAM

Por Eugénio Monteiro Ferreira
04/02/2009

Tentando mostrar porventura que os exercícios intelectuais não são para todos, isto é , tentando demonstrar que não podem ter a opinião livre dos habituais situacionistas que, consoante os tempos vão mudando, eles e elas mudam logo de ideias em nome do actualismo, nomeadamente quando passam a ter alguma visibilidade, Inocência Mata lembrou-se de retirar da "gaveta" do seu pensamento o mais "puro" e felizmente curto, discurso estruturalmente racista. Que, como é bom desde logo ver, tem o seu caminho bloqueado pela história, devido ao simples facto de, após a análise científica se impôr, certamente que todo o situacionista, dependendo logicamente da perspectiva dominante do lugar geográfico que pretende sobrevalorizar, admitirá que o facciosismo é, por vezes bem menos temerário, bem mais performativo na sua ideologia, e bem menos idealista quanto ao processo histórico concreto. Diz a Catedrática num texto sobre a eleição de Barak Obama que "a realidade concreta, histórica, é que as pessoas são discriminadas pelas suas diferenças fenotípicas". Começa mal o texto e começa mal o seu mal-estar por causa disso mesmo porventura, pois não se sente bem certamente quem pretende, ainda hoje, encobrir uma ideologia que defende o anti-racismo teórico. Senão vejamos.

1º A professora doutora sabe que não pode afirmar "realidade concreta, histórica", porque está a confundir o dia de hoje com o dia de ontem e os dias dos séculos anteriores. Se tal é propositado ou não só a sua própria prática o poderá demonstrar. E está a confundir os dias porque sabe muito bem que nem a realidade moçambicana é igual à realidade angolana, nem tão pouco a realidade estadunidense é equivalente à realidade japonesa, a um plano; tão pouco a história do apartheid pode ser idêntica à história das relações entre africanos e europeus de origem em São Tomé, por um lado, no Princípe, por outro, a outro plano. É certamente motivo de mal-estar falar em "realidade africana" e logo confundir Angola e Moçambique, colocando à moda do nacionalismo do MPLA e da Frelimo, ambos os países no "mesmo saco". Mesmo na literatura, tivesse estudado a realidade de ambos os espaços sociais em profundidade, e tinha chegado á conclusão, simples, de que não eram só os vários componentes de naturalidade angolana e moçambicana que eram diferentes entre si, eram os próprios colonos e era a própria minoria branca que era completamente diferente no seu modo de ser e lidar com a "questão rácica". Não o admitir, é sintomático de quem é pelo menos ignorante do processo histórico de ambos os países.

2º Barak Hussein Obama é mulato, palavra "feia" na origem mas nem por isso historicamente verdadeira. E porquê? Porque é filho de um homem negro e de uma mulher branca. Como muito bem é sabido a relação entre os iniciais elementos do comércio longínquo - que se transformou em comércio escravista históriamente - levou a que o nacionalismo "rácico" e de cor da pele se andasse a defender pelo mundo em nome da "Mãe África". Essa foi a justificação emepelista para em vez de lutar contra o colonialismo em 1975 tivesse incentivado a luta contra os Colonizadores em Angola, contra aqueles, milhares, que "fabricaram mulatos" e nem sequer os perfilharam, etc. Ou seja, mesmo não se aceitando, compreende- se o juizo de valor contra o Pai "Europeu". Ora , como muito bem se sabe, não é bem a mesma coisa ser colonialista e ser colono, filho de colono ou até ...descendente de filho de colono. Nem academica, nem socialmente. Se se insiste em que Barak Obama é negro e não mulato, é porque não se entende de todo que, no caso concreto, é a "Mãe América" (ou Mãe Europa?) que deve ser sobrevalorizada e não o Pai "Africano". Ou então há manipulação de dados. Num rasgo individualista, no entanto com a pretensão legítima de conhecer a realidade objectiva gostaria de compreender qual a razão pela qual o meu filho é conhecido nas ruas periféricas da casa familiar em Luanda como Pula ou como Branco e Barak Obama é Negro? Será por causa daquela impossibilidade da ciência em "atingir" o facto de as "pessoas" e as "coisas" serem aquilo que os outros pensam ou entendem que elas são? Ou será que nos dias que correm os Catedráticos se andam a guiar cientificamente por critérios desses ou por categorias dessas ?

3º Certamente porque haverá muitas formas de pensar e muitas formas de julgar, a ciência, a prática científica, não deve ir atrás de noções sistematicamente situacionistas, do género ser "fascista" no tempo do fascismo, ser democrata no tempo dos democratas, ser racista no tempo do racismo, nem tão pouco ir atrás de hábitos regionalizados neste mundo que é só um. Por isso, do sopé da minha não academicidade, venho implorar a quem de direito... ou de mérito, que me dê umas explicações, pagas é claro pois certamente por divida histórica o merecerá, sobre a questão "racial" dado haver quem, no seu afâ de defender até aos limites os "seus", ao mesmo tempo que os "outros" ainda não sairam de uma fase de atacar os "seus" deles, confunde no pequeno texto, simultaneamente política, discriminação social, e história.

Finalmente, porque acredito que "o grande perigo de uma ideia repetida até à exaustão é ela começar a acreditar-se verdadeira" há que defintivamente não pretender igualdade naquilo que só a partir de agora, historicamente, vai ser possível: o paralelismo entre África e Europa. E porquê? Porque as "memórias de tempos de discriminação biológica, interdição cultural e proscrição política" são mesmo apagáveis. Sejam eles de longo termo ou de pequeno e médio termo. Por exemplo, em Angola, um dirigente do MPLA, dizia há tempos atrás que os angolanos tinham feito mais em 4 anos do que os portugueses (ou os colonos ?) durante o colonialismo. Será que não conta a afectação de recursos respectivos para se comparar o trabalho dos "colonos" , dos "naturais da terra" , dos "angolenses" e dos " indigenas" se comparados com o parasitismo da classe dominante actual ... de mãos dadas com o estrangeiro eficaz (quando havia uma administração competentissima de gente da terra antes da independência) , e em cadeia, de todo o tipo de produção sequente por parte dos trabalhadores actuais? O racismo estrutural de quem considera Barak Obama como negro é da parte de quem, catedrático inclusivé, não consegue ultrapassar a diferença artificial entre "brancos" e "não brancos", construida pelos apartheids deste mundo, utilizando a nacionalidade portuguesa e porventura tendo ajudado, historicamente, a que, ao nível dos poderes de decisão política directa, um país multirracial como Angola se transformasse num pais de negros com muitos brancos lá dentro; e Portugal se transforme, a custo, num país multirracial ... À revelia, inclusivé da história catedrática, pois, felizmente, foi a competência e o mérito que acabaram sempre, até hoje, por vir ao de cima na aventura que é a história da Humanidade.

(Sobre Obama, a «questão racial» e o esplendor do equívoco, Inocência Mata,
Angolense 24 a 31 de Janeiro, 2009)

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