
Desde a minha ultima morada em Luanda, no Largo do Kinaxixi, tenho vivido, entre outros lugares, naquela que pode, seguramente, ser considerada a cidade mais conservadora do mundo: Londres. Uma das manifestacoes desse conservadorismo e’ a forma como o planeamento, a edificacao, a arquitectura e o ambiente construido (
'the built environment’ e’ uma disciplina que aqui tem uma faculdade inteira de pelo menos uma universidade a ela dedicada) sao levados muito a serio. Esta e’ uma cidade tradicionalmente construida extensiva e horizontalmente (por oposicao a intensiva e verticalmente) e onde as normas de construcao, manutencao e reconstrucao dos edificios sao para ser respeitadas a risca, desde os materiais usados (por norma o tijolo de tons entre o ocre, o castanho e o vermelho), a altura (basicamente, pode dizer-se que qualquer proposta de construcao de um edificio mais alto que o
Big Ben e’ severamente escrutinizada e muitissimo raramente aprovada), sob pena de os edificios infractores poderem vir a ser demolidos, por mais dispendiosos, vistosos ou funcionais que se apresentem e por mais famosos e conceituados que sejam os arquitectos ou engenheiros neles envolvidos. As excepcoes mais notorias a essas regras sao as torres de habitacao social construidas nas decadas de 60 e 70 do seculo XX, em varias areas da cidade, para suprir as necessidades habitacionais criadas pelo crescimento populacional provocado pelo
baby boom do post-Segunda Guerra Mundial, muitas das quais, entretanto, ja’ foram demolidas ou estao em vias disso.
No entanto, e precisamente por ser levada tao a serio, a implementacao das politicas de manutencao da arquitectura tradicional da cidade nao e’ deixada simplesmente ao sabor dos ventos, mares e calemas, ou aos caprichos, interesses, fantasias e preconceitos politico-ideologicos dos que podem gritar mais alto. Pelo contrario, existem organismos centrais e locais especificamente encarregues de velar pelo respeito dessas politicas, as quais sao definidas por leis e regulamentos, entre os quais se destaca um
sistema de listagem e graduacao de acordo com estritos criterios de localizacao, significacao historica e valencia cultural, que impede que determinados edificios sejam construidos em determinados locais ou que outros possam ser estruturalmente alterados ou demolidos. Mas, em ultima instancia, o sucesso da implementacao dessas politicas depende, como em qualquer outro caso, da presenca, ou ausencia, de determinados factores, quer de ordem endogena (e.g. a nao degradacao dos edificios para la’ de qualquer possibilidade de reabilitacao), quer de ordem exogena (e.g. a ausencia de catastrofes, sejam elas naturais, ou provocadas, como guerras).
A existencia e a defesa de tais politicas de conservacao nao impede, todavia, que a arquitectura da cidade se adapte a novas necessidades economicas, tendencias arquitectonicas e/ou realidades socio-culturais, pelo que projectos ineditos e inovadores sao ocasionalmente aprovados. Assim, embora dificilmente se venha a ver algo tao dramatico como a piramide de vidro adjacente ao
Louvre, em Paris, ser construido nas imediacoes, digamos, do
Buckingham Palace, ha’ alguns edificios, embora se possam contar praticamente pelos dedos de uma mao, que ao longo das ultimas decadas teem conseguido, com sucesso, quebrar os moldes do
landscape londrino e impor-se como
landmarks na
skyline da cidade, e.g. o
Centre Point (este embora, nos ultimos tempos, marcado para demolicao por ter deixado de se coadunar com os principios e valencias socio-culturais que inicialmente garantiram a sua edificacao), o
Gherkhin, a
BT Tower, ou o conjunto do
Canary Wharf.
Mas, voltando ao
Kinaxixe (refiro-me aqui ao edificio demolido nos ultimos dias e nao ao espaco geografico do Kinaxixi que historica e culturalmente lhe antecede), em texto que escrevi por altura do anuncio, ha’ cerca de quatro anos, dos planos da sua transformacao (texto esse de que ainda ando a procura e que o facto de ate’ agora nao o ter encontrado me sugere que talvez o tenha publicado como comentario num sitio como o Angonoticias, ou numa das
networks ou
foruns de discussao em que na altura ocasionalmente participava), manifestei duas preocupacoes fundamentais: uma com o futuro da/os vendedora/es que nele ganhavam a sua vida e outra com o destino que se lhe pretendia dar, ou seja, a sua transformacao num
shopping centre. Em relacao a primeira, sugeria que, caso a/os vendedora/es tivessem mesmo que ser evacuados do mercado, que os compensassem devidamente, quer com locais alternativos para a continuacao dos seus negocios, quer financeiramente, para que pudessem, caso assim o decidissem, recorrer a outras formas de ganhar a sua vida. Em relacao a segunda, sugeria que o Kinaxixe fosse transformado num mercado como o
Covent Garden de Londres.
O Covent Garden e’ um mercado tradicional londrino que, durante grande parte da sua historia de pelo menos 3 seculos, era exclusivamente um mercado de flores, frutas e vegetais mas, com a crescente tercializacao da economia, a transformacao do local em que se encontra numa zona menos residencial e mais de servicos e de lazer e a gradual satisfacao das necessidades alimentares dos residentes locais por super-mercados, restaurantes e lojas de conveniencia (onde,
by the way, o bife de atum e’ consideravelmente mais caro e melhor apreciado do que o R