Bom, o primeiro post substantivo foi sobre uma viagem a Tunisia ao som do Dizzie Gillespie e ao sabor de the’ a la menthe. Pelo meio, dois posts 'avulsos', um deles sobre a experiencia politica da Africa do Sul, que continuo a achar merecer alguma reflexao em Angola. Seguiu-se a primeira “Maka na Sanzala” deste blog, com uma serie sobre uma das “homilias” do Mia Couto. Tinha na altura pensado em “recozinhar” uma a uma as “receitas” nela contidas, mas acabei por ficar-me apenas por algumas questoes a volta dos generos musicais rap e hipop. Creio, todavia, ter tocado um pouco nas outras ao longo da existencia do blog. Ha’, porem, uma coisa que talvez nao tenha ficado suficientemente clara na altura: a minha “embirracao” nao e’ exactamente com o Mia Couto ou com os seus escritos, embora nao negue que detesto “homilias”, particularmente se fora da igreja e, pior ainda, se sao pushed down my throat...
Na verdade, talvez nao lhes tivesse dado tanta importancia se nao me tivesse apercebido a partir de determinada altura da forma como elas estavam a ser usadas por certas pessoas como “armas de arremesso” a nivel pessoal. Em particular, a que me marcou especialmente e me motivou a comecar a prestar-lhes mais atencao, foi uma entitulada “os sete sapatos sujos”… Conto brevemente: ela foi-me enviada pela primeira vez por um ‘miudo’ angolano que tinha entrado, sem ter passado por nenhum concurso ou por qualquer outro processo selectivo competitivo, como estagiario (embora reclamasse o titulo de, e se comportasse como, ‘funcionario efectivo’…) para uma organizacao em que eu me encontrava a trabalhar depois de ter passado por um concurso internacional… Ora, a forma como o fez, deixou-me sem qualquer duvida de que o fazia com intencoes abertamente agressivas contra mim. Porque? Inicialmente nao percebi muito bem (ainda estava numa altura da minha vida e da minha relacao com angolanos em que facilmente passava por cima de muita coisa que julgava sem quaisquer consequencias, ate’ que fui levada a perceber inequivocamente e de uma vez por todas que assim nao o era exactamente… e’ que, so’ muito recentemente me dei conta de que a inveja e o odio existem mesmo e os portadores de tais maleitas quando nao matam, mordem!), ate’ porque nao conhecia o tal 'miudo' de nenhum outro lado e tao pouco ele me conhecia a mim…Mas o que fiquei a saber, sem muita margem para duvidas, a partir daquele episodio, foi que a(s) nossa(s) sociedade(s) parece(m) ter deixado de ter capacidade de introspeccao, auto-critica e auto-avaliacao (elas que tanto se prezavam dos seus metodos dialecticos de critica e auto-critica marxista…), ao ponto de ter produzido, sobretudo nas ultimas decadas, a todos os niveis, muito pessoal que, pura e simplesmente, nao se enxerga… e.g., naquela mesma organizacao, tomei contacto pela primeira vez com pessoas que achavam ser desprestigiante alguem ter que se candidatar formalmente a um emprego e ter que ser submetida a entrevistas e testes para tal, gabando-se pelo meio de como tinham obtido todos os empregos que tiveram na vida exclusivamente atraves das suas bem posicionadas amizades… ou com alegados PhDs, supostamente feitos em universidades cujos nomes se escusavam sempre a revelar, que para tal organizacao tambem entraram atraves de cunhas sem que ninguem alguma vez se tivesse preocupado em verificar os respectivos certificados academicos ou relevantes referencias profissionais, o que nao os coibia, no entanto, ou talvez por isso mesmo, de constantemente tentarem atacar as credenciais academicas e profissionais de quem efectivamente as possuia e que as evidenciava atraves do seu trabalho, o qual tentavam sabotar das formas mais soezes… passando por outros que, depois de algumas semanas de la’ estarem, diziam que pela primeira vez se tinham 'sentido gente' por terem acabado de mandar vir do Dubai um BMW em terceira ou quarta mao e, talvez com base nesse recem-adquirido 'estatuto de gente', passadas outras poucas semanas, se sentiam 'homens o suficiente' para se lancarem ao mais despudorado assedio moral e sexual e a dirigirem ataques pornograficos a quem lhes parecia "demasiado impoluta, academica e profissional" para o que estavam habituados e, talvez tambem, "demasiado acima deles", pelo que se sentiam compelidos a agir como quem pergunta "quem e' que ela pensa que e'?!!!"... Sendo que o facto de eu ter a minha consciencia tranquila, reputacao limpa e cabeca levantada perante qualquer tipo de calunia e difamacao, apenas contribuia para lhes aumentar a raiva!
Em suma, a(s) nossa(s) sociedade(s) parece(m) ter produzido uma inversao de valores tal (se e' que ainda se pode falar na existencia de valores de qualquer especie naquelas sociedades...), que a total falta de padroes etico-morais, o sistema da cunha para a obtencao de empregos e ascensao profissional, o trafico de influencias generalizado e a falta generalizada de mecanismos de avaliacao, supervisao e punicao de certos comportamentos no local de trabalho, em suma, a total cultura da irresponsabilidade, da imoralidade e da impunidade, por entre um clima generalizado de intriga, calunia e difamacao, levou aquele 'miudo' a pensar que eu e’ que tinha "os sapatos sujos" e nao ele… De todo o modo, o que tambem acabou por ficar claro, atraves de outras associacoes e evidencias, foi que aquela “arremessada”, usando a “homilia” do Mia Couto como arma, nao tinha exactamente a ver comigo, como pessoa ou como profissional mas, entre outras coisas, com alguns dos meus escritos, nomeadamente algumas das minhas cronicas no SA, que tudo indica me criaram a fama em certos circulos de ter complexos de colonizada e de culpar o colono por tudo e mais alguma coisa… e tambem com a circulacao que na altura la' fiz de artigos como este de David Sogge, que quanto a mim retrata perfeitamente aquela organizacao...Mas, nem a realizacao desse facto me teria provocado grande mossa se ao menos eu tivesse vislumbrado, quer naquele miudo, quer noutras pessoas que das mais diversas formas e atraves dos mais diversos meios teem manifestado o mesmo tipo de reaccao agressiva a alguns dos meus escritos, algum interesse, disponibilidade, ou mesmo capacidade (desculpem-me a aparente presuncao, mas e' mesmo isso...), para discutir as ideias que tanta mossa lhes parecem ter causado. Pelo menos eu tento discutir de forma logica e directa as ideias ou questoes com as quais nao concordo, mesmo que tal discussao venha a demonstrar que eu estava completamente equivocada. Foi isso que me propus fazer aqui, naquele ja’ longinquo mes de Dezembro, com a ultima das “homilias” do Mia Couto com que tinha na altura sido recentemente brindada…
E sobre ela tenho apenas a acrescentar que nao tenho nada contra a musica classica – na verdade, tive ao longo da minha vida, e continuo a ter, uma significativa exposicao a ela, quer em termos de audicao, quer de treino formal, mas sobre isso talvez fale noutra altura –, o que tenho, isso sim, e’ um grande desconforto perante discursos que evidenciam uma certa ideia redutora de cultura, tornando os seus autores completamente incapazes de sequer ouvir, e muito menos avaliar, outras formas de expressao musical, ou cultural de forma geral. E tal desconforto pode transformar-se em ira quando tais discursos sao usados aleatoria, gratuita e agressivamente como armas de arremesso por gente que, por sinal, ate’ pouco ou nada sabe sobre musica classica, quando nao a detesta pura e simplesmente, ou que, tal como nos casos que acima descrevi, evidencia no seu quotidiano exactamente o tipo de comportamentos que as tais “homilias” aparentemente visam denunciar! Preferiria continuar a nao ter que menciona-los publicamente, ainda que apenas da forma muito breve e parcial com que aqui o fiz, nao tivessem outros casos similares, particularmente nas ultimas semanas, me sugerido que o meu silencio sobre eles parece estar a ser interpretado por alguns, entre outras coisas, no minimo, como “quem cala consente!”…
Moving on, ficaram registados naquele mes ainda alguns outros temas para reflexao, e.g. Mahmood Mamdani sobre o estado da educacao superior em Africa e David Sogge sobre “as miragens da ajuda internacional” e alguns eventos do mes, como o falecimento de James Brown, o documentario “Oxala’ Crescam Pitangas”, a atribuicao do Grande Premio de Escultura Ensarte ao artista Mayembe, a execucao de Saddam Hussein e, a finalizar, a reabertura do Museu do Zaire.
Highlights: os dois primeiros (timidos…) posts deste blog e os dois dedicados a Tunisia (A Night in Tunisia e Tunisia Blues), mais o, que acabou por lhes ficar associado, sobre o livro Pieds Blancs de Houda Rouane. 
P.S.: E ja' agora, para que nao fique como o "odd one out", mencao especialissima ao verdadeiro primeiro post deste blog, no ultimo dia de Novembro daquele ano, aqui.

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