Saturday, 23 October 2010
Just Poetry xxix
I know you've been hurt by someone else
I can tell by the way you carry yourself
But if you let me here's what i'll do:
I'll take care of you
I've loved and loved the same as you
so you see i know what you've been through
and if you let me here's what i'll do
I'll take care of you
You won't ever have to worry
You won't ever have to cry
for i'll be there beside you
to dry your weaping eyes
So, darling tell me
that you'll be true
there's no doubt in my mind
know i won't do
and just as sure as one and one is two
I know i'll take care of you
I'll take care of you
Gil Scott-Heron
Friday, 7 November 2008
BREVES NOTAS SOBRE “O SIGNIFICADO RACIAL DA VITORIA DE OBAMA” (*)
1. Ja’ aqui referi algumas vezes a minha conviccao de que a raca e o(s) racismo(s) dela derivado(s) sao um “constructo ideologico datado no tempo historico” cujo principal objectivo e’ a construcao de hierarquias sociais. E’, portanto, com bastante interesse que venho observando a forma como a “raca” de Obama tem sido ‘construida’ e ‘desconstruida’ em diferentes contextos sociais durante a longa campanha para a Presidencia Americana que acaba de ter como desfecho a sua vitoria.Nao sendo sociologa ou antropologa – disciplinas que, em principio, mais se centram nesse tipo de analise –, as conclusoes que retiro das minhas observacoes baseam-se, por um lado, nas minhas proprias experiencias individuais e, por outro lado, nos instrumentos de analise historica que me permitem aferir que qualquer tentativa de extrapolacao de uma determinada realidade historico-social e economica para outra sera’, no minimo, um exercicio especulativo mal avisado, particularmente se desprovido de salvaguardas analiticas previas assentes numa solida base de evidencia empirica.
2. Tambem ja’ aqui mencionei a importancia de se ter em mente, quando se tenta “analisar” Obama e a sua vitoria do ponto de vista racial, a diferenca fundamental entre o constructo raca/racismo nos EUA e o mesmo constructo noutros contextos historicos, nomeadamente no ‘mundo lusofono’. Essa diferenca resume-se basicamente a dois factores principais:
i) Nos EUA ‘construiram-se’ de inicio essencialmente tres grupos racicos – o branco, o negro e o indio, ou amerindio – sendo que o ultimo, por ter sido quase completamente dizimado ou miscigenado, “passou tendencialmente a historia” como um grupo “indigena” (notem-se as semelhancas e dissemelhancas entre o apelativo “indigena” no contexto americano e no contexto colonial portugues, e.g. “O Estatuto Indigena” no quadro da politica assimilacionista em Angola; note-se tambem esta discussao da "questao indigena" nos EUA, que ja aqui havia anteriormente postado).
Ao longo da historia americana, verificaram-se varios graus e combinacoes de miscigenacao racial entre esses grupos, mas a ‘bitola de construcao social’ ao longo de linhas raciais foi estabelecida institucionalmente com base no principio do “one drop rule”, de acordo com o qual alguem que tivesse uma gota de sangue negro nao poderia ter qualquer outra classificacao socio-racial que nao a de “negro” (note-se tambem aqui que a designacao “mulato”, por ser derivada de “mula” no contexto escravocrata, assumiu historicamente uma conotacao altamente pejorativa nos EUA, ao contrario do que se passa no ‘mundo lusofono’ - veja-se o filme Sankofa, de Haile Gerima, para um notavel tratamento desta questao).
A designacao “negro”, por sua vez, sofreu varias alteracoes ao longo da historia americana, tendo-se mantido como a designacao de consenso para os “nao brancos” ou “indigenas” ate’ meados da decada de 60 do seculo passado, sendo substituida naquele consenso por “black” (muito por conta do mestico Malcolm X, como aqui 'poemiza' o mestico Gil Scott-Heron, e dos Black Panthers, que tinham uma lideranca predominantemente mestica, como a imagem de Angela Davis lembrara' a muita gente, e tambem dos negros Nina Simone e James Brown que a popularizaram com a cancao "Say It Loud: I'm Black and I'm Proud!") entre finais daquela decada e finais da de 80 e, finalmente, pela de “afro-americano” ate’ aos dias de hoje, embora estas duas ultimas continuem a coexistir em varios contextos e tambem se venha notando nos ultimos tempos a ‘ascensao’ de designacoes como brown e bi-racial por alguns mesticos (o termo coloured, ou of colour, embora tambem usado, nunca chegou a ser tao consensual nos EUA como na Africa do Sul). Nas adicoes de varias proveniencias ao melting pot Americano, outros grupos se foram juntando e inter-relacionando e igualmente se definindo de acordo com as suas origens (e.g. “afro-latino”, “latino-americano”, “hispano-americano”, etc.).
No entanto, sendo a America fundamentalmente a terra da “livre competicao economica” e da “igualdade de oportunidades” que consubstanciam o mitico “American Dream” e sao consagrados na Constituicao dos EUA sob o espirito de "We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal", este constructo ideologico-doutrinario cedo entrou em choque e em competicao com aquele outro constructo da formacao de hierarquias sociais com base exclusivamente na raca. E’ neste contexto que se situam as varias lutas, primeiro contra o esclavismo, depois contra o segregacionismo e mais tarde pelos direitos civico-politicos dos negros americanos, os quais sempre contaram com a adesao e o apoio, directa ou indirectamente, de segmentos, maiores ou menores, de outros grupos racicos, nomeadamente brancos, senao por razoes estritamente ideologico-doutrinarias, seguramente por razoes economicas, expressas de forma mais ou menos explicita em determinados momentos historicos, dos quais o papel economico da escravatura na genese, alinhamentos racicos e desfecho da Guerra Civil Americana e' o exemplo mais emblematico.
Assim, nao sera’ inteiramente por acaso que o actual estado da economia americana e da economia global, atribuido quase inteiramente a administracao Republicana dos ultimos 8 anos, contribuiu decisivamente para galvanizar a maioria do eleitorado americano a volta de um candidato Democrata que, por acaso, e’ negro, ou afro-americano, como se preferir, que soube apresentar as propostas mais crediveis para a resolucao da crise actual (passando pela adopcao dos passos necessarios ao termino da guerra no Iraque, contra a qual ele foi o unico candidato que se manifestou desde o inicio). Que essa vitoria se tenha tambem “construido” como uma “vitoria da raca sobre o genero” nao deixa de ser interessante, mas constitui questao para outra discussao.
ii) A historia da formacao de hierarquias sociais com base no constructo raca/racismo noutros contextos historicos, e particularmente no ‘mundo lusofono’, assume claramente contornos bastante distintos do caso americano. Em primeiro lugar e fundamentalmente, porque nao foi institucionalmente adoptado o “one drop rule” e a hierarquia social entre os “nao brancos” foi institucionalmente mais claramente definida, assumida e implementada pelo poder colonial ao longo dos varios graus de miscigenacao entre brancos e negros dando lugar a varios grupos: desde os “cafusos”, ou “pardos”, aos “mulatos” e aos “cabritos”. Ou seja, foi instituida, em vez do “one drop rule”, a regra do “divide and rule”.
Mas, talvez mais determinante do lugar social de cada um desses grupos, foi instituida uma maior rigidez estrutural em termos de mobilidade social e economica comparativamente aos EUA, a qual se tornou ainda mais dificil de transpor pelos grupos mais proximos do “estatuto de indigena” (ou seja, a maioria da populacao - e aqui estou a pensar particularmente no caso de Angola), por razoes de ordem historica, cultural, tribal e etno-linguistica dos paises em questao.
Isso num contexto em que, contrariamente ao constructo doutrinario-ideologico do “American Dream” em que, em principio, qualquer individuo, independentemente das suas origens, poderia assumir qualquer posicao social desde que seguisse as “regras do jogo” da politica do integracionismo, nas nossas sociedades o lugar social do individuo continuava a ser determinado por uma hierarquia baseada na “raca”, na “tribo” e na “etnia”, mesmo quando os individuos tivessem passado “todos os testes” da politica assimilacionista (ou, como soi dizer-se em certos tugurios lusosfericos, continuavam a ter que tirar os sapatos para poderem contar ate' 12 e a cair das copas das arvores mesmo depois de terem passado por universidades...).
E essa realidade ainda esta’ presente nos dias de hoje nas nossas sociedades, senao estritamente em termos politico-ideologicos e da simbologia do poder, certamente em termos socio-culturais e economicos (a nao confundir aqui o desiderato, ainda por satisfazer, de se criarem mecanismos efectivos de distribuicao dos rendimentos nacionais por todos os segmentos populacionais, com as fortunas, grandes ou pequenas, adquiridas em alguns casos ilicitamente, por alguns membros das elites ditas “predadoras” ou “endocoloniais” associadas ao poder do periodo post-independencias).
Mas, tal como nos EUA, e essa talvez seja a maior semelhanca entre os dois contextos, outros grupos coexistiram com os grupos raciais basicos da construcao social colonial, integrando-se socio-cuturalmente, contudo, segundo criterios igualmente hierarquicos, nos quais se situavam os chamados “brancos de segunda”, os “indianos” e, interessantemente, os “cabo-verdianos”, entre alguns outros.
3. Ora, das consideracoes anteriores segue-se que, como acima notei, sera’ sempre desavisado tentar-se transpor o “significado da vitoria de Obama” nos EUA, para outros contextos historico-sociais, e particularmente para o ‘mundo lusofono’, com base na sua “constituicao”, ou “construcao”, racial, pelas seguintes razoes fundamentais:
i) Em primeiro lugar, porque os mecanismos de ascencao politica e de obtencao do poder nos EUA sao drasticamente diferentes, em termos tanto constitucionais, como institucionais e ideologicos, dos que vigoram de forma geral nos nossos paises, e muito particularmente nos paises Africanos que adoptaram estrategias de inspiracao marxista durante a luta anti-colonial e no seu post-independencia;
ii) Em segundo lugar, porque a experiencia da America enquanto colonia foi relativamente curta e em moldes bastante diversos dos que marcaram a experiencia colonial Africana (o que a torna, por exemplo, mais similar a experiencia do Brasil do que a de outros espacos do ‘mundo lusofono’);
iii) Em terceiro lugar, porque ao longo dos seculos de debate, formulacao e reformulacao do “lugar social da raca” nos EUA, uma questao que ficou estabelecida com bastante clareza, e ela deriva grandemente dos principios da liberdade individual e dos direitos humanos que integram o “American Dream” (claro que assumido aqui como apenas isso mesmo – um sonho, um ideal – mas um sonho, um ideal que a historia dos EUA tem largamente vindicado, sendo a vitoria de Obama apenas o ultimo exemplo disso mesmo), e’ que se ha’ algo fundamentalmente errado com o “constructo raca/racismo” e’ que ele constitui a definicao de uma parte da raca humana por outra, nomeadamente a dos grupos dominados pelos grupos dominadores, particularmente na sequencia da gesta dos “descobrimentos” (note-se como esta questao de to be defined by others e’ abordada numa mensagem que John Lennon le numa discussao sobre o termo “nigger” cujo link coloquei nos comentarios a este post) .
E e’ fundamentalmente isso que, quanto a mim, torna as tentativas de definicao de Obama como “mulato” (note-se, mais uma vez, a carga pejorativa desta designacao nos EUA) e de reivindicacao da sua vitoria por determinados grupos raciais nos nossos paises, tao ofensivo quanto perturbador. Desde logo porque quando se tenta "dissecar" a sua composicao genetica como se de um especimen de laboratorio se tratasse, deve ter-se em conta que, tal como ele afirmou em varias ocasioes, mas mais enfaticamente no seu discurso sobre a raca nos EUA, "A America e' mais do que a soma das suas partes", qualquer ser humano e' tambem muito mais do que a mera soma das suas partes. Depois porque ele proprio, se alguma vez se definiu em termos racicos – e num contexto de anti-racismo e de defesa das liberdades fundamentais do individuo essa e’ a unica definicao que realmente conta e deve contar e ser respeitada – fe-lo como “negro”, ou como “afro-americano”, assumindo nessa definicao toda a complexidade do seu background familiar e individual, como filho de pai negro-africano e de mae branca (naturalmente de ascendencia europeia, como o sao todos os brancos a face da terra…), de nome arabe, criado no Hawai por avos brancos, estudado na Indonesia, mas… crescido e amadurecido, casado e socializado cultural, religiosa e politicamente no seio da comunidade negra americana.
Isto e’, ele define-se por relacao a sua propria experiencia politica e socio-cultural e nao necessariamente por oposicao a de outros (tambem como eu propria o fiz a minha maneira, muito contra a corrente diga-se, neste artigo...), mesmo porque, como ele proprio afirmou no contexto da maka sobre o Reverendo Wright (alguem que, note-se, tal como Colin Powell por exemplo, no ‘mundo lusofono’ seria classificado e socializado como “cabrito”, mas que nos EUA nao contempla classificar-se de outro modo senao como “negro”): “eu nao o posso renegar, tal como nao posso renegar a minha avo branca em quem, apesar de me ter criado, observei manifestacoes de preconceito racial em relacao ao negro”. Ora, essa definicao “por si proprio” e nao “por outros” ou “contra outros” foi essencialmente o que lhe permitiu ser apelativo a praticamente todos os grupos racicos nos EUA e um pouco por todo o mundo e e’ o que torna a sua vitoria tao bonita!
Porque quererao entao alguns, particularmente se em sociedades completamente distintas dos EUA, estragar essa beleza tentando aplicar-lhe criterios de definicao racica que lhe sao completamente estranhos e, pior ainda, tentar reivindicar a sua vitoria como uma bandeira exclusiva de um particular grupo racico, o dos auto-definidos “mulatos” no ‘mundo lusofono’, quando a propria designacao “mulato” constituiria para si uma ofensa, quanto mais nao seja porque a sua miscigenacao nao derivou do particular contexto historico em que essa designacao foi adoptada nos EUA, isto e’ a escravatura, o que alias lhe mereceu o relativo alheamento, quando nao aberta hostilidade, de alguns segmentos da comunidade afro-americana descendente de escravos, nao apenas mas sobretudo porque ele proprio e' descendente pelo lado materno de donos de escravos? Mas nao seria apenas a designacao “mulato” que tenho poucas duvidas ele regeitaria (quanto muito, aceitaria mais facilmente a designacao geralmente adoptada nos EUA para os mesticos: “mixed-race”), como tambem a de “branco” que alguns no 'mundo lusofono' tambem lhe pretendem “a viva forca” aplicar pelo facto de ter nascido de mae branca…
Ou seja, continua-se em alguns sectores do ‘mundo lusofono’ a pensar a “raca” ainda em termos hierarquicos (sendo bastante elucidativo disto o modo como alguns nesse mundo equacionam a questao em termos de "racismo de cima para baixo e de baixo para cima" - estando "em cima" o branco e "em baixo" o negro, com o mestico "no meio"...), de tal modo que, aparentemente para tais sectores, a forma como Obama se auto-identifica parece nao ter qualquer importancia, ou mesmo como se a forma como ele se posiciona ‘racicamente’ nao tivesse tido qualquer relevancia para a sua eleicao: sejamos claros, se ele se identificasse social e culturalmente como “mulato”, ou como “branco”, nao so’ seria ridicularizado, ostensiva ou dissimuladamente, pelos brancos americanos, como dificilmente teria obtido o voto maioritario do grupo “afro-americano”, o qual, como de resto se observou nas manifestacoes de voto nos estagios iniciais da campanha, inclui segmentos que teriam preferido votar noutro candidato, independentemente da sua raca ou genero e que, sendo embora minoritario, foi decisivo para a sua vitoria - particularmente nas primarias e sua consequente nomeacao como candidato pelo partido Democrata.
Grupo “afro-americano” esse onde, nunca e’ demais repeti-lo, se incluem todos os nao-brancos desde que tenham uma gota de sangue negro. E, se e’ certo que o "one drop rule" foi inicialmente uma criacao do grupo dominante branco nos EUA com motivacoes racistas, nao e’ menos certo que ele foi apropriado, internalizado e socializado historicamente pelos “afro-americanos” que – ao contrario, nunca e’ demais nota-lo, do que se passou e em grande medida ainda se passa nas ex-colonias portuguesas onde se instituiu uma diferenciacao racica hierarquizante de acordo com os varios tons de pele entre negros e brancos – partilharam ao longo de seculos em condicoes de igualdade tanto a discriminacao racial contra si (vide o caso da 'cabrita' Rosa Parks), como as oportunidades sociais, politicas e economicas que souberam conquistar para si (vide o caso da 'negra' Oprah Winfrey) como um unico grupo racico, pesem embora as clivagens e friccoes que tambem existem no seu seio, originadas, directa ou indirectamente, pelos diferentes tons de pele entre si (particularmente entre as mulheres, como quem tenha ouvido atentamente uma celebre conversa entre mulheres “negras” no filme Jungle Fever de Spike Lee tera’ notado; note-se tambem a este respeito a controversia gerada, especialmente no seio da comunidade afro-americana, quando a dada altura Tiger Woods decidiu regeitar a designacao “black” e se auto-definir como cablasian, ou seja uma mistura de caucasian, black e asian), mas, mais marcadamente, pelas diferencas culturais entre os que sao descendentes de escravos na America e os que para la’ emigraram ou foram estudar em decadas mais recentes provindos de Africa, entre os quais se inclui o pai de Obama (e, neste contexto, o casamento de Obama com Michelle pode ser visto tambem como uma ‘alianca’ entre esses dois grupos, a qual tera' tambem porventura contribuido para atrair os votos dos descendentes de escravos), sendo igualmente importante notar que o relativo esbatimento, quando nao completa obliteracao, das diferencas tribais e etnico-linguisticas no contexto americano tambem contribuiu de forma decisiva para essa relativa equidade de status social, politico e economico entre os nao-brancos de origem africana.
Mas talvez o elemento mais perturbador na forma como a vitoria de Obama tem sido entendida por alguns segmentos do ‘mundo lusofono’ (para alem da tendencia de se classificarem algumas das experiencias politicas, sociais e economicas post-coloniais e post-apartheid menos positivas como “racismo intra-racico” ou “endocolonialismo”, numa lamentavel tentativa de se “redimir” de algum modo o colonialismo e o apartheid e, em ultima analise, o proprio racismo que eles “construiram” – como se os 30 a 50 anos das independencias africanas, ou os menos de 20 anos desde o fim do apartheid, nao constituissem apenas um decimo ou menos da duracao do colonialismo e do apartheid no contexto da formacao e evolucao de novas sociedades, ou como se, por serem negros, uma vez no poder os negros nao pudessem ter problemas entre si e estivessem isentos de cometer erros, quer herdados ou induzidos por outros, quer de criacao propria – nao se contribuindo com tal postura de forma positiva e constructiva para a constituicao de aliancas e coligacoes sociais “apesar e para alem da raca” que possam efectivamente ultrapassar e prevenir tais experiencias menos positivas nas nossas sociedades, com vista a criacao de um futuro melhor que possa ser partilhado por todos), e’ a implicacao de que, ainda pensando em termos da “raca como constructo ideologico criador de hierarquias sociais”, de algum modo tratar-se Obama como “negro”, em vez de “mulato” ou “branco”, constitui uma ofensa, uma diminuicao, uma humilhacao, enfim, um “denegrimento” e, mais tristemente ainda, motivo de ressentimento para os que se consideram “nao negros”…
Bom, a designacao destas notas como “breves”, pelo que ja’ vai escrito, faz-me parar por aqui, sendo certo que muito mais ha’ ainda a dizer sobre a questao.
(*) Estas notas foram-me sugeridas, entre outras observacoes e leituras de reaccoes a vitoria de Obama, por esta serie e por este post no blog "Diario de Um Sociologo".
Post relacionado:
Ecos da Vitoria de Obama no SA
1. Ja’ aqui referi algumas vezes a minha conviccao de que a raca e o(s) racismo(s) dela derivado(s) sao um “constructo ideologico datado no tempo historico” cujo principal objectivo e’ a construcao de hierarquias sociais. E’, portanto, com bastante interesse que venho observando a forma como a “raca” de Obama tem sido ‘construida’ e ‘desconstruida’ em diferentes contextos sociais durante a longa campanha para a Presidencia Americana que acaba de ter como desfecho a sua vitoria.Nao sendo sociologa ou antropologa – disciplinas que, em principio, mais se centram nesse tipo de analise –, as conclusoes que retiro das minhas observacoes baseam-se, por um lado, nas minhas proprias experiencias individuais e, por outro lado, nos instrumentos de analise historica que me permitem aferir que qualquer tentativa de extrapolacao de uma determinada realidade historico-social e economica para outra sera’, no minimo, um exercicio especulativo mal avisado, particularmente se desprovido de salvaguardas analiticas previas assentes numa solida base de evidencia empirica.
2. Tambem ja’ aqui mencionei a importancia de se ter em mente, quando se tenta “analisar” Obama e a sua vitoria do ponto de vista racial, a diferenca fundamental entre o constructo raca/racismo nos EUA e o mesmo constructo noutros contextos historicos, nomeadamente no ‘mundo lusofono’. Essa diferenca resume-se basicamente a dois factores principais:
i) Nos EUA ‘construiram-se’ de inicio essencialmente tres grupos racicos – o branco, o negro e o indio, ou amerindio – sendo que o ultimo, por ter sido quase completamente dizimado ou miscigenado, “passou tendencialmente a historia” como um grupo “indigena” (notem-se as semelhancas e dissemelhancas entre o apelativo “indigena” no contexto americano e no contexto colonial portugues, e.g. “O Estatuto Indigena” no quadro da politica assimilacionista em Angola; note-se tambem esta discussao da "questao indigena" nos EUA, que ja aqui havia anteriormente postado).
Ao longo da historia americana, verificaram-se varios graus e combinacoes de miscigenacao racial entre esses grupos, mas a ‘bitola de construcao social’ ao longo de linhas raciais foi estabelecida institucionalmente com base no principio do “one drop rule”, de acordo com o qual alguem que tivesse uma gota de sangue negro nao poderia ter qualquer outra classificacao socio-racial que nao a de “negro” (note-se tambem aqui que a designacao “mulato”, por ser derivada de “mula” no contexto escravocrata, assumiu historicamente uma conotacao altamente pejorativa nos EUA, ao contrario do que se passa no ‘mundo lusofono’ - veja-se o filme Sankofa, de Haile Gerima, para um notavel tratamento desta questao).
A designacao “negro”, por sua vez, sofreu varias alteracoes ao longo da historia americana, tendo-se mantido como a designacao de consenso para os “nao brancos” ou “indigenas” ate’ meados da decada de 60 do seculo passado, sendo substituida naquele consenso por “black” (muito por conta do mestico Malcolm X, como aqui 'poemiza' o mestico Gil Scott-Heron, e dos Black Panthers, que tinham uma lideranca predominantemente mestica, como a imagem de Angela Davis lembrara' a muita gente, e tambem dos negros Nina Simone e James Brown que a popularizaram com a cancao "Say It Loud: I'm Black and I'm Proud!") entre finais daquela decada e finais da de 80 e, finalmente, pela de “afro-americano” ate’ aos dias de hoje, embora estas duas ultimas continuem a coexistir em varios contextos e tambem se venha notando nos ultimos tempos a ‘ascensao’ de designacoes como brown e bi-racial por alguns mesticos (o termo coloured, ou of colour, embora tambem usado, nunca chegou a ser tao consensual nos EUA como na Africa do Sul). Nas adicoes de varias proveniencias ao melting pot Americano, outros grupos se foram juntando e inter-relacionando e igualmente se definindo de acordo com as suas origens (e.g. “afro-latino”, “latino-americano”, “hispano-americano”, etc.).
No entanto, sendo a America fundamentalmente a terra da “livre competicao economica” e da “igualdade de oportunidades” que consubstanciam o mitico “American Dream” e sao consagrados na Constituicao dos EUA sob o espirito de "We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal", este constructo ideologico-doutrinario cedo entrou em choque e em competicao com aquele outro constructo da formacao de hierarquias sociais com base exclusivamente na raca. E’ neste contexto que se situam as varias lutas, primeiro contra o esclavismo, depois contra o segregacionismo e mais tarde pelos direitos civico-politicos dos negros americanos, os quais sempre contaram com a adesao e o apoio, directa ou indirectamente, de segmentos, maiores ou menores, de outros grupos racicos, nomeadamente brancos, senao por razoes estritamente ideologico-doutrinarias, seguramente por razoes economicas, expressas de forma mais ou menos explicita em determinados momentos historicos, dos quais o papel economico da escravatura na genese, alinhamentos racicos e desfecho da Guerra Civil Americana e' o exemplo mais emblematico.
Assim, nao sera’ inteiramente por acaso que o actual estado da economia americana e da economia global, atribuido quase inteiramente a administracao Republicana dos ultimos 8 anos, contribuiu decisivamente para galvanizar a maioria do eleitorado americano a volta de um candidato Democrata que, por acaso, e’ negro, ou afro-americano, como se preferir, que soube apresentar as propostas mais crediveis para a resolucao da crise actual (passando pela adopcao dos passos necessarios ao termino da guerra no Iraque, contra a qual ele foi o unico candidato que se manifestou desde o inicio). Que essa vitoria se tenha tambem “construido” como uma “vitoria da raca sobre o genero” nao deixa de ser interessante, mas constitui questao para outra discussao.
ii) A historia da formacao de hierarquias sociais com base no constructo raca/racismo noutros contextos historicos, e particularmente no ‘mundo lusofono’, assume claramente contornos bastante distintos do caso americano. Em primeiro lugar e fundamentalmente, porque nao foi institucionalmente adoptado o “one drop rule” e a hierarquia social entre os “nao brancos” foi institucionalmente mais claramente definida, assumida e implementada pelo poder colonial ao longo dos varios graus de miscigenacao entre brancos e negros dando lugar a varios grupos: desde os “cafusos”, ou “pardos”, aos “mulatos” e aos “cabritos”. Ou seja, foi instituida, em vez do “one drop rule”, a regra do “divide and rule”.
Mas, talvez mais determinante do lugar social de cada um desses grupos, foi instituida uma maior rigidez estrutural em termos de mobilidade social e economica comparativamente aos EUA, a qual se tornou ainda mais dificil de transpor pelos grupos mais proximos do “estatuto de indigena” (ou seja, a maioria da populacao - e aqui estou a pensar particularmente no caso de Angola), por razoes de ordem historica, cultural, tribal e etno-linguistica dos paises em questao.
Isso num contexto em que, contrariamente ao constructo doutrinario-ideologico do “American Dream” em que, em principio, qualquer individuo, independentemente das suas origens, poderia assumir qualquer posicao social desde que seguisse as “regras do jogo” da politica do integracionismo, nas nossas sociedades o lugar social do individuo continuava a ser determinado por uma hierarquia baseada na “raca”, na “tribo” e na “etnia”, mesmo quando os individuos tivessem passado “todos os testes” da politica assimilacionista (ou, como soi dizer-se em certos tugurios lusosfericos, continuavam a ter que tirar os sapatos para poderem contar ate' 12 e a cair das copas das arvores mesmo depois de terem passado por universidades...).
E essa realidade ainda esta’ presente nos dias de hoje nas nossas sociedades, senao estritamente em termos politico-ideologicos e da simbologia do poder, certamente em termos socio-culturais e economicos (a nao confundir aqui o desiderato, ainda por satisfazer, de se criarem mecanismos efectivos de distribuicao dos rendimentos nacionais por todos os segmentos populacionais, com as fortunas, grandes ou pequenas, adquiridas em alguns casos ilicitamente, por alguns membros das elites ditas “predadoras” ou “endocoloniais” associadas ao poder do periodo post-independencias).
Mas, tal como nos EUA, e essa talvez seja a maior semelhanca entre os dois contextos, outros grupos coexistiram com os grupos raciais basicos da construcao social colonial, integrando-se socio-cuturalmente, contudo, segundo criterios igualmente hierarquicos, nos quais se situavam os chamados “brancos de segunda”, os “indianos” e, interessantemente, os “cabo-verdianos”, entre alguns outros.
3. Ora, das consideracoes anteriores segue-se que, como acima notei, sera’ sempre desavisado tentar-se transpor o “significado da vitoria de Obama” nos EUA, para outros contextos historico-sociais, e particularmente para o ‘mundo lusofono’, com base na sua “constituicao”, ou “construcao”, racial, pelas seguintes razoes fundamentais:
i) Em primeiro lugar, porque os mecanismos de ascencao politica e de obtencao do poder nos EUA sao drasticamente diferentes, em termos tanto constitucionais, como institucionais e ideologicos, dos que vigoram de forma geral nos nossos paises, e muito particularmente nos paises Africanos que adoptaram estrategias de inspiracao marxista durante a luta anti-colonial e no seu post-independencia;
ii) Em segundo lugar, porque a experiencia da America enquanto colonia foi relativamente curta e em moldes bastante diversos dos que marcaram a experiencia colonial Africana (o que a torna, por exemplo, mais similar a experiencia do Brasil do que a de outros espacos do ‘mundo lusofono’);
iii) Em terceiro lugar, porque ao longo dos seculos de debate, formulacao e reformulacao do “lugar social da raca” nos EUA, uma questao que ficou estabelecida com bastante clareza, e ela deriva grandemente dos principios da liberdade individual e dos direitos humanos que integram o “American Dream” (claro que assumido aqui como apenas isso mesmo – um sonho, um ideal – mas um sonho, um ideal que a historia dos EUA tem largamente vindicado, sendo a vitoria de Obama apenas o ultimo exemplo disso mesmo), e’ que se ha’ algo fundamentalmente errado com o “constructo raca/racismo” e’ que ele constitui a definicao de uma parte da raca humana por outra, nomeadamente a dos grupos dominados pelos grupos dominadores, particularmente na sequencia da gesta dos “descobrimentos” (note-se como esta questao de to be defined by others e’ abordada numa mensagem que John Lennon le numa discussao sobre o termo “nigger” cujo link coloquei nos comentarios a este post) .
E e’ fundamentalmente isso que, quanto a mim, torna as tentativas de definicao de Obama como “mulato” (note-se, mais uma vez, a carga pejorativa desta designacao nos EUA) e de reivindicacao da sua vitoria por determinados grupos raciais nos nossos paises, tao ofensivo quanto perturbador. Desde logo porque quando se tenta "dissecar" a sua composicao genetica como se de um especimen de laboratorio se tratasse, deve ter-se em conta que, tal como ele afirmou em varias ocasioes, mas mais enfaticamente no seu discurso sobre a raca nos EUA, "A America e' mais do que a soma das suas partes", qualquer ser humano e' tambem muito mais do que a mera soma das suas partes. Depois porque ele proprio, se alguma vez se definiu em termos racicos – e num contexto de anti-racismo e de defesa das liberdades fundamentais do individuo essa e’ a unica definicao que realmente conta e deve contar e ser respeitada – fe-lo como “negro”, ou como “afro-americano”, assumindo nessa definicao toda a complexidade do seu background familiar e individual, como filho de pai negro-africano e de mae branca (naturalmente de ascendencia europeia, como o sao todos os brancos a face da terra…), de nome arabe, criado no Hawai por avos brancos, estudado na Indonesia, mas… crescido e amadurecido, casado e socializado cultural, religiosa e politicamente no seio da comunidade negra americana.
Isto e’, ele define-se por relacao a sua propria experiencia politica e socio-cultural e nao necessariamente por oposicao a de outros (tambem como eu propria o fiz a minha maneira, muito contra a corrente diga-se, neste artigo...), mesmo porque, como ele proprio afirmou no contexto da maka sobre o Reverendo Wright (alguem que, note-se, tal como Colin Powell por exemplo, no ‘mundo lusofono’ seria classificado e socializado como “cabrito”, mas que nos EUA nao contempla classificar-se de outro modo senao como “negro”): “eu nao o posso renegar, tal como nao posso renegar a minha avo branca em quem, apesar de me ter criado, observei manifestacoes de preconceito racial em relacao ao negro”. Ora, essa definicao “por si proprio” e nao “por outros” ou “contra outros” foi essencialmente o que lhe permitiu ser apelativo a praticamente todos os grupos racicos nos EUA e um pouco por todo o mundo e e’ o que torna a sua vitoria tao bonita!
Porque quererao entao alguns, particularmente se em sociedades completamente distintas dos EUA, estragar essa beleza tentando aplicar-lhe criterios de definicao racica que lhe sao completamente estranhos e, pior ainda, tentar reivindicar a sua vitoria como uma bandeira exclusiva de um particular grupo racico, o dos auto-definidos “mulatos” no ‘mundo lusofono’, quando a propria designacao “mulato” constituiria para si uma ofensa, quanto mais nao seja porque a sua miscigenacao nao derivou do particular contexto historico em que essa designacao foi adoptada nos EUA, isto e’ a escravatura, o que alias lhe mereceu o relativo alheamento, quando nao aberta hostilidade, de alguns segmentos da comunidade afro-americana descendente de escravos, nao apenas mas sobretudo porque ele proprio e' descendente pelo lado materno de donos de escravos? Mas nao seria apenas a designacao “mulato” que tenho poucas duvidas ele regeitaria (quanto muito, aceitaria mais facilmente a designacao geralmente adoptada nos EUA para os mesticos: “mixed-race”), como tambem a de “branco” que alguns no 'mundo lusofono' tambem lhe pretendem “a viva forca” aplicar pelo facto de ter nascido de mae branca…
Ou seja, continua-se em alguns sectores do ‘mundo lusofono’ a pensar a “raca” ainda em termos hierarquicos (sendo bastante elucidativo disto o modo como alguns nesse mundo equacionam a questao em termos de "racismo de cima para baixo e de baixo para cima" - estando "em cima" o branco e "em baixo" o negro, com o mestico "no meio"...), de tal modo que, aparentemente para tais sectores, a forma como Obama se auto-identifica parece nao ter qualquer importancia, ou mesmo como se a forma como ele se posiciona ‘racicamente’ nao tivesse tido qualquer relevancia para a sua eleicao: sejamos claros, se ele se identificasse social e culturalmente como “mulato”, ou como “branco”, nao so’ seria ridicularizado, ostensiva ou dissimuladamente, pelos brancos americanos, como dificilmente teria obtido o voto maioritario do grupo “afro-americano”, o qual, como de resto se observou nas manifestacoes de voto nos estagios iniciais da campanha, inclui segmentos que teriam preferido votar noutro candidato, independentemente da sua raca ou genero e que, sendo embora minoritario, foi decisivo para a sua vitoria - particularmente nas primarias e sua consequente nomeacao como candidato pelo partido Democrata.
Grupo “afro-americano” esse onde, nunca e’ demais repeti-lo, se incluem todos os nao-brancos desde que tenham uma gota de sangue negro. E, se e’ certo que o "one drop rule" foi inicialmente uma criacao do grupo dominante branco nos EUA com motivacoes racistas, nao e’ menos certo que ele foi apropriado, internalizado e socializado historicamente pelos “afro-americanos” que – ao contrario, nunca e’ demais nota-lo, do que se passou e em grande medida ainda se passa nas ex-colonias portuguesas onde se instituiu uma diferenciacao racica hierarquizante de acordo com os varios tons de pele entre negros e brancos – partilharam ao longo de seculos em condicoes de igualdade tanto a discriminacao racial contra si (vide o caso da 'cabrita' Rosa Parks), como as oportunidades sociais, politicas e economicas que souberam conquistar para si (vide o caso da 'negra' Oprah Winfrey) como um unico grupo racico, pesem embora as clivagens e friccoes que tambem existem no seu seio, originadas, directa ou indirectamente, pelos diferentes tons de pele entre si (particularmente entre as mulheres, como quem tenha ouvido atentamente uma celebre conversa entre mulheres “negras” no filme Jungle Fever de Spike Lee tera’ notado; note-se tambem a este respeito a controversia gerada, especialmente no seio da comunidade afro-americana, quando a dada altura Tiger Woods decidiu regeitar a designacao “black” e se auto-definir como cablasian, ou seja uma mistura de caucasian, black e asian), mas, mais marcadamente, pelas diferencas culturais entre os que sao descendentes de escravos na America e os que para la’ emigraram ou foram estudar em decadas mais recentes provindos de Africa, entre os quais se inclui o pai de Obama (e, neste contexto, o casamento de Obama com Michelle pode ser visto tambem como uma ‘alianca’ entre esses dois grupos, a qual tera' tambem porventura contribuido para atrair os votos dos descendentes de escravos), sendo igualmente importante notar que o relativo esbatimento, quando nao completa obliteracao, das diferencas tribais e etnico-linguisticas no contexto americano tambem contribuiu de forma decisiva para essa relativa equidade de status social, politico e economico entre os nao-brancos de origem africana.
Mas talvez o elemento mais perturbador na forma como a vitoria de Obama tem sido entendida por alguns segmentos do ‘mundo lusofono’ (para alem da tendencia de se classificarem algumas das experiencias politicas, sociais e economicas post-coloniais e post-apartheid menos positivas como “racismo intra-racico” ou “endocolonialismo”, numa lamentavel tentativa de se “redimir” de algum modo o colonialismo e o apartheid e, em ultima analise, o proprio racismo que eles “construiram” – como se os 30 a 50 anos das independencias africanas, ou os menos de 20 anos desde o fim do apartheid, nao constituissem apenas um decimo ou menos da duracao do colonialismo e do apartheid no contexto da formacao e evolucao de novas sociedades, ou como se, por serem negros, uma vez no poder os negros nao pudessem ter problemas entre si e estivessem isentos de cometer erros, quer herdados ou induzidos por outros, quer de criacao propria – nao se contribuindo com tal postura de forma positiva e constructiva para a constituicao de aliancas e coligacoes sociais “apesar e para alem da raca” que possam efectivamente ultrapassar e prevenir tais experiencias menos positivas nas nossas sociedades, com vista a criacao de um futuro melhor que possa ser partilhado por todos), e’ a implicacao de que, ainda pensando em termos da “raca como constructo ideologico criador de hierarquias sociais”, de algum modo tratar-se Obama como “negro”, em vez de “mulato” ou “branco”, constitui uma ofensa, uma diminuicao, uma humilhacao, enfim, um “denegrimento” e, mais tristemente ainda, motivo de ressentimento para os que se consideram “nao negros”…
Bom, a designacao destas notas como “breves”, pelo que ja’ vai escrito, faz-me parar por aqui, sendo certo que muito mais ha’ ainda a dizer sobre a questao.
(*) Estas notas foram-me sugeridas, entre outras observacoes e leituras de reaccoes a vitoria de Obama, por esta serie e por este post no blog "Diario de Um Sociologo".
Post relacionado:
Ecos da Vitoria de Obama no SA
Wednesday, 11 June 2008
JUST POETRY (II)
We deal in too many externals, brother
always afros, handshakes and dashikis
never can a man build a working structure for black capitalism
always does the man read Mao or Fanon
I think I know you would-be black revolutionaries too well
standing on a box on the corner, talking about blowing the white man away
that's not where it's at yet, brother
calling this man an Uncle Tom and telling this woman to get an afro
but you won't speak to her if she looks like hell, now will you brother
some of us been checking your act out kinda close
and by now its looking kinda shaky
the way you been rushin' people with your super black bag
jumping down on some black men with both feet cause they're after their BA
But you're never around when your BA is in danger...I mean your black ass
I think it was a little too easy for you to forget that you were a negro before Malcolm
You drove your white girl through the village every Friday night
while the grassroots stared in envy and drank wine, do you remember?
You need to get your memory banks organized brother.
Show that man you call an Uncle Tom just where he's wrong
Show that woman that you're a sincere black man
All we need to do is see you shut up and be black
Help that woman
Help that man
That's what brothers are for brother.
Thursday, 22 May 2008
WHAT’S THE WORD ON JOHANNESBURG (AGAIN)?*
For the last ten days the word has been violence spurred by xenophobia. Nothing can justify the levels it has reached, but it certainly begs explanation, understanding and rational, long-term, solutions. A common definition of ‘xenophobia’ will hold it as “a strong feeling of dislike or fear of people from other countries.” Is this really what explains the appalling scenes from Johannesburg’s shacklands being shown in the media all over the world? I do not believe that South Africans in general fundamentally ‘dislike’ people from other countries, but there is certainly some degree of ‘fear’ behind the shameful attacks against foreigners of the last few days. So, perhaps ‘xenophobia’ only explains part of the issue - more precisely, the part arising from fear. But fear of what exactly?
I think it is safe to posit that it might be fear of being engulfed, overtaken, swamped by massive inflows of economic migrants from all over the continent. Fear of losing out on a totally uncontrolled competition for access to all of their already meagre sources of survival: jobs (or just the increasingly fewer employment opportunities available), housing (or just the decreasing space for their own shacks or more solid and larger houses for their families), marketplace (or just their shrinking share of the local informal markets), food (just bound to become even more expensive and of limited availability as the current food crisis spreads around the globe), health (compounded by the AIDS pandemic in the region) and education (whatever little of it they may access in a financially restricted educational system).
In short, fear of losing out on an open competition for scarce resources and extremely limited opportunities. Hardly anything new elsewhere in the world or in South Africa itself. In effect, Black South Africans have seen the chances of improvement in their living standards undercut by labour competition from the region and the wider continent for more than a century, particularly in the backbone of the country’s economy: the mining industry.
A brief look at the economic history of the Johannesburg region (also known as the ‘Witwatersrand’, or simply the ‘Rand’) tells us that monopsonic control (i.e. control of the labour market by a single employer that sets all rules and wages) of recruiting for the mining industry was vital for the ‘Randlords’. The mining industry was faced with diminishing returns and rising costs of operation, which could not be passed on to the consumer due to the fixed price of gold. Therefore, it vitally depended on the institutionalisation of oscillant migrant labour: only an infinitely elastic supply of labour at rates lower than its marginal product could guarantee profitability.
Monopsonistic organisation of employers, especially in its ability to generate economies of scale by reducing the costs of recruiting, transportation and accommodation of migrants from outside South Africa, prevented competition for labour from pushing wages up. This required an immobilised, disorganised and dependent labour force, the maintenance of which was guaranteed by an array of segregationist policies restricting access of Africans to skilled jobs and their permanent urbanisation, thus hindering their ability to acquire and develop bargaining skills.
In 1893, the South African Chamber of Mines established a ‘Native Labour Department’ with the explicit objective of taking “active steps for the gradual reduction of native wages to a reasonable level.” This was followed, in 1896, by the creation of the ‘Rand Native Labour Association’ which, a year later, claimed to have promoted an increase in employment by over 500% above its level in 1890 “without any appreciable rise in wages.” By the end of the century, the organisation of recruiting had managed to increase the level of African employment by 600% at a wage rate below what it had been at the beginning of the mining industry.[1]
Yet, in spite of that achievement, competition for regional labour still prevailed in the industry and, in 1900, employers created the ‘Witwatersrand Native Labour Association’ (WNLA), which was the only body allowed to recruit in Mozambique, the main source of labour supply. The WNLA was to structurally define the regional labour market, for the rest of the last century to this day, as one of dependency for migrant workers and permanent low wages for Black South Africans – certainly lower than what they could have been if not for the institutionalised influxes of foreign migrant labour.
It is against this historical background that the growing tensions, conflicts and, ultimately, extreme violence of the last few days ought to be analysed. Of course, since the end of Apartheid, a mere 14 years ago, substantial changes have occurred in the nature of institutional relations within South Africa and between the countries in the region and in the structure of the regional labour market, translating into a relatively stronger bargaining power for the South African labour force. Along the last century, there was also a significant diversification of the South African economy away from the mining industry.
However, and in spite of the prevailing status of South Africa as the regional powerhouse, poverty and social exclusion levels in the country have not decreased sufficiently as to offset the potentially distortionary effects on the local economy of a permanent influx of economic migrants from all over the continent, as far afield as Nigeria and, for the best part of the last decade, particularly from Zimbabwe. Although official figures show only around 120,000 people applying for asylum in South Africa in the last decade, at least another million Africans - and some estimates say two million - have moved there (figures from 2005). And this time without any regulator, such as the WNLA, to somehow control it. To quote Mamphela Ramphele, Co- Chair of the Global Commission on International Migration, “South Africa is finding it difficult to absorb the flows of immigrants, which have increased faster than the South African economy. We are like a little Europe, without her resources.”
This is a reality that the South African government, the Southern African Development Community (SADC) and the African Union (AU) have to tackle with unwavering determination. In particular, SADC and the AU have, more than ever before, the duty, under their existing general legal and institutional frameworks and specific sectoral protocols, to regulate economic migration fluxes within the continent in such a way as to guarantee that both migrants and host country residents have their economic, social and human rights protected.
Moreover, all countries in the continent (and here I am particularly thinking about my own country of origin, Angola, which has also been attracting significant levels of migrants from all over the continent and the rest of the world since the end of the war) must understand the current events as a desperate cry from the poor and socially excluded for their governments to put their houses in order, i.e. to improve their economic and governance performances, and in particular their income redistribution policies and social support systems, in order to, if not totally stem, at least make the current levels and specific directions of intra-continental migration controllable overall. Only such an integrated approach to the problem can turn migration into a productive, culturally and humanly enriching experience to the benefit of the entire continent.
Finally, to all brothers and sisters, victims and perpetrators of the unspeakable acts of violence of the last few days in Johannesburg, I would like to dedicate this song, Chileshe, about which Bra Masekela said: "We first recorded this song in 1968 on the 'Promise of A Future' album. People from Jo’burg always thought of themselves as being much more advanced, civilised and hipper than anybody that did not grow up there, especially people from the outlying provinces like Northern Transvaal, Kwa-Zulu Natal, Mozambique, Zambia, Namibia, Lesotho, Botswana, Malawi, Swaziland. I was also thinking about how the whites used to ill-treat us and call us 'Kaffirs' and all kinds of dirty names. The song is a call to those who are denigrated and vilified by these attitudes to stand up proudly and not allow themselves to be called derogatory names like 'Mighirighamba', 'Makirimane', 'Makwankwies', 'Makhafula', etc. With the influx today of peoples from all over the African diaspora into South Africa, the level of xenophobia has risen to disgusting heights. Most paradoxically, the song is even more popular amongst black South Africans today and is deeply loved by the new immigrants which helped the 'Black To The Future' album to platinum heights."
*****
*The title refers to this poem by Gil Scott-Heron
[1] Figures from Wilson F., Labour in the South African Gold Mines 1911-1969, (Cambridge UP, 1972)
Other references: Katzenellenbogen S., South Africa and Southern Mozambique: Labour, Railways and Trade in the Making of a Relationship, (Manchester, Manchester UP, 1982); Milazi D., The Politics and Economics of Lbour Migration in Southern Africa (1984); Crush J., Jeeves A. & Yudelman D., South Africa’s Labor Empire – A History of Black Migrancy to the Gold Mines, (Oxford, Westview Press, 1991)
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Article also published at Africanpath
For the last ten days the word has been violence spurred by xenophobia. Nothing can justify the levels it has reached, but it certainly begs explanation, understanding and rational, long-term, solutions. A common definition of ‘xenophobia’ will hold it as “a strong feeling of dislike or fear of people from other countries.” Is this really what explains the appalling scenes from Johannesburg’s shacklands being shown in the media all over the world? I do not believe that South Africans in general fundamentally ‘dislike’ people from other countries, but there is certainly some degree of ‘fear’ behind the shameful attacks against foreigners of the last few days. So, perhaps ‘xenophobia’ only explains part of the issue - more precisely, the part arising from fear. But fear of what exactly?
I think it is safe to posit that it might be fear of being engulfed, overtaken, swamped by massive inflows of economic migrants from all over the continent. Fear of losing out on a totally uncontrolled competition for access to all of their already meagre sources of survival: jobs (or just the increasingly fewer employment opportunities available), housing (or just the decreasing space for their own shacks or more solid and larger houses for their families), marketplace (or just their shrinking share of the local informal markets), food (just bound to become even more expensive and of limited availability as the current food crisis spreads around the globe), health (compounded by the AIDS pandemic in the region) and education (whatever little of it they may access in a financially restricted educational system).
In short, fear of losing out on an open competition for scarce resources and extremely limited opportunities. Hardly anything new elsewhere in the world or in South Africa itself. In effect, Black South Africans have seen the chances of improvement in their living standards undercut by labour competition from the region and the wider continent for more than a century, particularly in the backbone of the country’s economy: the mining industry.
A brief look at the economic history of the Johannesburg region (also known as the ‘Witwatersrand’, or simply the ‘Rand’) tells us that monopsonic control (i.e. control of the labour market by a single employer that sets all rules and wages) of recruiting for the mining industry was vital for the ‘Randlords’. The mining industry was faced with diminishing returns and rising costs of operation, which could not be passed on to the consumer due to the fixed price of gold. Therefore, it vitally depended on the institutionalisation of oscillant migrant labour: only an infinitely elastic supply of labour at rates lower than its marginal product could guarantee profitability.
Monopsonistic organisation of employers, especially in its ability to generate economies of scale by reducing the costs of recruiting, transportation and accommodation of migrants from outside South Africa, prevented competition for labour from pushing wages up. This required an immobilised, disorganised and dependent labour force, the maintenance of which was guaranteed by an array of segregationist policies restricting access of Africans to skilled jobs and their permanent urbanisation, thus hindering their ability to acquire and develop bargaining skills.
In 1893, the South African Chamber of Mines established a ‘Native Labour Department’ with the explicit objective of taking “active steps for the gradual reduction of native wages to a reasonable level.” This was followed, in 1896, by the creation of the ‘Rand Native Labour Association’ which, a year later, claimed to have promoted an increase in employment by over 500% above its level in 1890 “without any appreciable rise in wages.” By the end of the century, the organisation of recruiting had managed to increase the level of African employment by 600% at a wage rate below what it had been at the beginning of the mining industry.[1]
Yet, in spite of that achievement, competition for regional labour still prevailed in the industry and, in 1900, employers created the ‘Witwatersrand Native Labour Association’ (WNLA), which was the only body allowed to recruit in Mozambique, the main source of labour supply. The WNLA was to structurally define the regional labour market, for the rest of the last century to this day, as one of dependency for migrant workers and permanent low wages for Black South Africans – certainly lower than what they could have been if not for the institutionalised influxes of foreign migrant labour.
It is against this historical background that the growing tensions, conflicts and, ultimately, extreme violence of the last few days ought to be analysed. Of course, since the end of Apartheid, a mere 14 years ago, substantial changes have occurred in the nature of institutional relations within South Africa and between the countries in the region and in the structure of the regional labour market, translating into a relatively stronger bargaining power for the South African labour force. Along the last century, there was also a significant diversification of the South African economy away from the mining industry.
However, and in spite of the prevailing status of South Africa as the regional powerhouse, poverty and social exclusion levels in the country have not decreased sufficiently as to offset the potentially distortionary effects on the local economy of a permanent influx of economic migrants from all over the continent, as far afield as Nigeria and, for the best part of the last decade, particularly from Zimbabwe. Although official figures show only around 120,000 people applying for asylum in South Africa in the last decade, at least another million Africans - and some estimates say two million - have moved there (figures from 2005). And this time without any regulator, such as the WNLA, to somehow control it. To quote Mamphela Ramphele, Co- Chair of the Global Commission on International Migration, “South Africa is finding it difficult to absorb the flows of immigrants, which have increased faster than the South African economy. We are like a little Europe, without her resources.”
This is a reality that the South African government, the Southern African Development Community (SADC) and the African Union (AU) have to tackle with unwavering determination. In particular, SADC and the AU have, more than ever before, the duty, under their existing general legal and institutional frameworks and specific sectoral protocols, to regulate economic migration fluxes within the continent in such a way as to guarantee that both migrants and host country residents have their economic, social and human rights protected.
Moreover, all countries in the continent (and here I am particularly thinking about my own country of origin, Angola, which has also been attracting significant levels of migrants from all over the continent and the rest of the world since the end of the war) must understand the current events as a desperate cry from the poor and socially excluded for their governments to put their houses in order, i.e. to improve their economic and governance performances, and in particular their income redistribution policies and social support systems, in order to, if not totally stem, at least make the current levels and specific directions of intra-continental migration controllable overall. Only such an integrated approach to the problem can turn migration into a productive, culturally and humanly enriching experience to the benefit of the entire continent.
Finally, to all brothers and sisters, victims and perpetrators of the unspeakable acts of violence of the last few days in Johannesburg, I would like to dedicate this song, Chileshe, about which Bra Masekela said: "We first recorded this song in 1968 on the 'Promise of A Future' album. People from Jo’burg always thought of themselves as being much more advanced, civilised and hipper than anybody that did not grow up there, especially people from the outlying provinces like Northern Transvaal, Kwa-Zulu Natal, Mozambique, Zambia, Namibia, Lesotho, Botswana, Malawi, Swaziland. I was also thinking about how the whites used to ill-treat us and call us 'Kaffirs' and all kinds of dirty names. The song is a call to those who are denigrated and vilified by these attitudes to stand up proudly and not allow themselves to be called derogatory names like 'Mighirighamba', 'Makirimane', 'Makwankwies', 'Makhafula', etc. With the influx today of peoples from all over the African diaspora into South Africa, the level of xenophobia has risen to disgusting heights. Most paradoxically, the song is even more popular amongst black South Africans today and is deeply loved by the new immigrants which helped the 'Black To The Future' album to platinum heights."
*****
*The title refers to this poem by Gil Scott-Heron
[1] Figures from Wilson F., Labour in the South African Gold Mines 1911-1969, (Cambridge UP, 1972)
Other references: Katzenellenbogen S., South Africa and Southern Mozambique: Labour, Railways and Trade in the Making of a Relationship, (Manchester, Manchester UP, 1982); Milazi D., The Politics and Economics of Lbour Migration in Southern Africa (1984); Crush J., Jeeves A. & Yudelman D., South Africa’s Labor Empire – A History of Black Migrancy to the Gold Mines, (Oxford, Westview Press, 1991)
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Monday, 3 March 2008
INTERROGATING THE BLOGOSPHERE (IV)
In my search for answers I found this article, which to me seems a good example of “as close as the (good) media can get to objectivity”, whatever that is…
No, not simply because they seem to be “sympathetic” to the “black cause”, whatever that is, if that’s what you’re thinking… But because they approach the subject from different perspectives, using various illustrative cases and, while highlighting the case of the humiliating video in question, also mention the case where white journalists were barred from a meeting between black journalists and Jacob Zuma, and all they have as “opinion”, placed against a brief, yet accurate, historical background, is gathered from relevant voices in the country on the issues at stake.
Now, I must say that my praise for this particular article is not completely unrelated to the fact that I couldn’t find a single word on the video story in my “much loved GVO”… Why was it? Where have all the bloggers always so keen on pointing the finger at, or forcefully acting upon, what they perceive, rightly or wrongly, as “black racism” been in the last few days? Or was it GVO that didn’t notice their presumable posts on the issue?
In my search for answers I found this article, which to me seems a good example of “as close as the (good) media can get to objectivity”, whatever that is…
No, not simply because they seem to be “sympathetic” to the “black cause”, whatever that is, if that’s what you’re thinking… But because they approach the subject from different perspectives, using various illustrative cases and, while highlighting the case of the humiliating video in question, also mention the case where white journalists were barred from a meeting between black journalists and Jacob Zuma, and all they have as “opinion”, placed against a brief, yet accurate, historical background, is gathered from relevant voices in the country on the issues at stake.
Now, I must say that my praise for this particular article is not completely unrelated to the fact that I couldn’t find a single word on the video story in my “much loved GVO”… Why was it? Where have all the bloggers always so keen on pointing the finger at, or forcefully acting upon, what they perceive, rightly or wrongly, as “black racism” been in the last few days? Or was it GVO that didn’t notice their presumable posts on the issue?
Saturday, 19 January 2008
GIL SCOTT HERON ON MARTIN LUTHER KING DAY
Dare to Think! Dare to Speak! Dare to Sing! Dare to Dream!
Enjoy the Day!
Dare to Think! Dare to Speak! Dare to Sing! Dare to Dream!
Enjoy the Day!


