Wednesday, 19 September 2007

ANGOLA: UM FUTURO BRILHANTE?*





I. Os Desafios da Manutenção da Paz e da Reconstrução Total

Após pelo menos quatro décadas de guerra, Angola parece, finalmente, estar a ensaiar os primeiros passos no sentido de uma paz duradoura. No entanto, o esforço de reconstrução que se impõe enfrenta, desde o início, condições particularmente desfavoráveis: o país emerge da guerra numa conjuntura internacional em que os seus principais parceiros comerciais estão a braços com outras prioridades. Os EUA, pós-Setembro 11, têm estado a reorientar os seus recursos políticos e financeiros para a “guerra ao terrorismo”, enquanto a UE tende a virar-se para si própria e a repensar os seus engajamentos externos, em face de um crescente apelo dos seus eleitorados para o redireccionamento de políticas e recursos financeiros estratégicos no sentido da solução prioritária de problemas sociais domésticos decorrentes, de acordo com alguns sectores, do ‘insuportável’ afluxo de imigrantes aos seus países.

(...)

II. A Cooperação e Integração Económica Regional

O fim da guerra fria, longe de constituir o “fim da história” proclamado por Fukuyama, abriu uma nova página na História, uma fase transicional no processo de mudança económica, cuja complexa evolução se tornou mais difícil de delinear depois do 11 de Setembro de 2001. Esse processo tem sido fundamentalmente caracterizado por tendências de longo prazo nas relações económicas internacionais que indicam a consolidação de um padrão de comércio e investimento de acordo com o qual os países industrializados mantêm primordialmente relações de troca entre si. Tais tendências verificam-se no quadro de um reordenamento económico marcado por um recrudescimento do regionalismo a nível global, com a América do Norte, uma União Europeia em expansão para o Leste, o Japão e a região do Pacífico constituindo os blocos centrais. O mundo encontra-se, assim, face a um processo de regionalização que cada vez mais exige uma rigorosa delimitação das margens do multilateralismo possível.

(...)

III. Para uma Análise Custo/Benefício da Integração Económica de Angola na SADC

Angola encontra-se confrontada com alguns desafios em termos de escolha das estratégias económicas e políticas mais adequadas para levar a bom termo o seu processo de pacificação e reconstrução. Ao país apresenta-se a oportunidade de re-equacionar os objectivos estratégicos do seu envolvimento na SADC por forma a aproveitar sinergias entre o seu ajustamento estrutural interno e o profundo processo de reestruturação económica em curso na região e pô-las ao serviço do seu esforço de reconstrução nacional. Assim, convir-lhe-á identificar os desafios a enfrentar e oportunidades a aproveitar do modelo de regionalismo aberto que caracteriza actualmente o projecto de integração da SADC, no qual coexistem espacialmente acordos preferênciais concorrenciais entre países membros e parceiros fora da zona, como por exemplo a FTA África do Sul-União Europeia, participar na concertação de estratégias negociais com outros agrupamentos regionais tais como a SACU e o COMESA e, não menos importante, influenciar a seu favor a partilha dos recursos financeiros e técnicos internacionais postos à disposição da SADC e que são cruciais para a sua reconstrução pós-conflito.

(...)

IV. Considerações Finais

Note-se que a teoria dos jogos, enquanto instrumento que permite analisar o comportamento de indivíduos, empresas ou governos em situações estratégicas, tem-se demonstrado útil como ‘guia de acção’ em alguns contextos de interacção competitiva tais como processos de integração económica regional. A experiência de vários agrupamentos regionais, em particular da UE, demonstra que a noção de “first-mover advantage”, derivada daquela teoria, apresenta particular relevância para a determinação dos países que no seio do grupo, à parte o seu intrínseco nível de desenvolvimento económico, têm maior probabilidade de impôr as regras do jogo e as suas estratégias dominantes aos restantes membros, sendo que tal vantagem diminui em proporção directa com o atraso com que os países individualmente considerados acedem aos instrumentos institucionais e executivos da organização.



(...) Ler artigo integral AQUI

*Artigo por mim publicado na Revista Politica Internacional - Lisboa, ultimo trimestre de 2002






I. Os Desafios da Manutenção da Paz e da Reconstrução Total

Após pelo menos quatro décadas de guerra, Angola parece, finalmente, estar a ensaiar os primeiros passos no sentido de uma paz duradoura. No entanto, o esforço de reconstrução que se impõe enfrenta, desde o início, condições particularmente desfavoráveis: o país emerge da guerra numa conjuntura internacional em que os seus principais parceiros comerciais estão a braços com outras prioridades. Os EUA, pós-Setembro 11, têm estado a reorientar os seus recursos políticos e financeiros para a “guerra ao terrorismo”, enquanto a UE tende a virar-se para si própria e a repensar os seus engajamentos externos, em face de um crescente apelo dos seus eleitorados para o redireccionamento de políticas e recursos financeiros estratégicos no sentido da solução prioritária de problemas sociais domésticos decorrentes, de acordo com alguns sectores, do ‘insuportável’ afluxo de imigrantes aos seus países.

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II. A Cooperação e Integração Económica Regional

O fim da guerra fria, longe de constituir o “fim da história” proclamado por Fukuyama, abriu uma nova página na História, uma fase transicional no processo de mudança económica, cuja complexa evolução se tornou mais difícil de delinear depois do 11 de Setembro de 2001. Esse processo tem sido fundamentalmente caracterizado por tendências de longo prazo nas relações económicas internacionais que indicam a consolidação de um padrão de comércio e investimento de acordo com o qual os países industrializados mantêm primordialmente relações de troca entre si. Tais tendências verificam-se no quadro de um reordenamento económico marcado por um recrudescimento do regionalismo a nível global, com a América do Norte, uma União Europeia em expansão para o Leste, o Japão e a região do Pacífico constituindo os blocos centrais. O mundo encontra-se, assim, face a um processo de regionalização que cada vez mais exige uma rigorosa delimitação das margens do multilateralismo possível.

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III. Para uma Análise Custo/Benefício da Integração Económica de Angola na SADC

Angola encontra-se confrontada com alguns desafios em termos de escolha das estratégias económicas e políticas mais adequadas para levar a bom termo o seu processo de pacificação e reconstrução. Ao país apresenta-se a oportunidade de re-equacionar os objectivos estratégicos do seu envolvimento na SADC por forma a aproveitar sinergias entre o seu ajustamento estrutural interno e o profundo processo de reestruturação económica em curso na região e pô-las ao serviço do seu esforço de reconstrução nacional. Assim, convir-lhe-á identificar os desafios a enfrentar e oportunidades a aproveitar do modelo de regionalismo aberto que caracteriza actualmente o projecto de integração da SADC, no qual coexistem espacialmente acordos preferênciais concorrenciais entre países membros e parceiros fora da zona, como por exemplo a FTA África do Sul-União Europeia, participar na concertação de estratégias negociais com outros agrupamentos regionais tais como a SACU e o COMESA e, não menos importante, influenciar a seu favor a partilha dos recursos financeiros e técnicos internacionais postos à disposição da SADC e que são cruciais para a sua reconstrução pós-conflito.

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IV. Considerações Finais

Note-se que a teoria dos jogos, enquanto instrumento que permite analisar o comportamento de indivíduos, empresas ou governos em situações estratégicas, tem-se demonstrado útil como ‘guia de acção’ em alguns contextos de interacção competitiva tais como processos de integração económica regional. A experiência de vários agrupamentos regionais, em particular da UE, demonstra que a noção de “first-mover advantage”, derivada daquela teoria, apresenta particular relevância para a determinação dos países que no seio do grupo, à parte o seu intrínseco nível de desenvolvimento económico, têm maior probabilidade de impôr as regras do jogo e as suas estratégias dominantes aos restantes membros, sendo que tal vantagem diminui em proporção directa com o atraso com que os países individualmente considerados acedem aos instrumentos institucionais e executivos da organização.



(...) Ler artigo integral AQUI

*Artigo por mim publicado na Revista Politica Internacional - Lisboa, ultimo trimestre de 2002


4 comments:

Diasporense said...

Grande artigo, em todos os sentidos. A precisar de divulgação mais alargada, se me permite a sugestão…

Koluki said...

Yup, sugestao permitida!
Mas de nada serve... por um lado porque isto e' "insignificante" em comparacao com as dezenas de poemarios, romances, novelas, contos, etc. que "fazem a intelectualidade angolana". Por outro lado porque os negocios da China feitos depois da publicacao deste artigo encarregaram-se de fazer os "significantes" da "nossa terra" acreditar que sim, tudo isto nao passou mesmo de uma insignificancia...
So, there you are.

Kaluanda said...

Mais uma vez obrigado por um dos textos mais brilhantes que já li e escrito por uma Angolana! Lembro-me também de o ter lido no SA em 2002.
Mas, se me permite a observação, não creio que os negócios da China o ultrapassaram, muito antes pelo contrário!
Senão vejamos a baixa qualidade das obras feitas sob o contrato chinês e as recentes informações de que o tal contrato afinal não foi assim tão bem negociado a nosso favor como inicialmente nos quiseram fazer crer. E afinal o que são 2 bi para a reconstrução total de um país como Angola?
Portanto, Sra. Professora, faça-nos a todos um favor – aceite a respeitosa vênia que merece por mais uma lúcida análise que se mantém actualíssima!

Respeitosamente,

Kaluanda

Koluki said...

Caro Kaluanda,

Por favor... ate' me deixa constrangida!
De qualquer modo, e modestia aparte, com o meu comentario anterior pretendia sobretudo dar vazas ao inevitavel sarcasmo a que certas figuras me obrigam.
Quanto ao que leu no SA, foi apenas uma versao sumarizada da parte que versa sobre a integracao regional.
Mas o seu comentario sugeriu-me a publicacao aqui de um outro artigo mais recente em que toco "ao de leve" no "futuro amarelo" e que talvez tambem ja' tenha lido no SA.
Nao posso, obviamente, deixar de aceitar e agradecer os seus amaveis cumprimentos.

Um forte abraco!