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Tuesday, 26 February 2008

MULHERES… DE DOMINGO (Recidivus)*





"Como Entender As Mulheres" (Primeiro Volume...)


Domingo e’, a todos os titulos, um dia especial. Tentar justificar essa evidencia e’ praticamente um “no brainer”, ou seja, e’ como tentar-se justificar porque que a chuva molha. Mas, digamos que e’ especial porque nao se trabalha, a excepcao daquelas ocupacoes – formais, como policia e bombeiros, ou informais, como ‘blogging’ – que a isso nos obrigam, ou naquelas sociedades, culturas e religioes que respeitam o “Sabath” literalmente ao Sabado. E’ tambem o dia em que, seja para uma ida a missa, ao mercado, a baixa da cidade, ao centro comercial, ou a uma visita a casa de familiares ou amigos, tentamos sempre apresentar-nos no nosso melhor – em termos de indumentaria ou comportamento. E nao ha’ ninguem melhor do que as mulheres para evidenciarem essa realidade domingueira.

Transportando essa evidencia para a vida mais quotidiana, encontro que… e’ muito dificil entender as mulheres (… nao estou sozinha nisto, sei-o bem: praticamente todos os homens, secundando Freud, disseram-no e continuam a dize-lo…). E isto muito simplesmente porque, pelo menos na vida social, elas tendem maioritariamente a comportar-se como e a vestir-se com as suas poses e vestimentas “domingueiras” que, a uma observacao mais proxima e/ou cuidada, nos revelam que nao passam disso mesmo: comportamento e vestes domingueiras… nada mais quotidiano, nada mais substantivo, nada mais profundo. Falar (de) assim, quando eu sou mulher e nunca me conheci outro genero ou inclinacao sexual, “soa mal” e e’ “politicamente incorrecto” – eu sei. Mas tambem sei que dificilmente havera’ inimigo pior de uma mulher do que outra mulher… dificilmente havera’, pelo menos em certas profissoes e niveis hierarquicos, pior colega de trabalho de uma mulher do que outra mulher. Sei tambem que nao estou sozinha nisto: ouvi-o de outras mulheres, desde ministras a empregadas domesticas, passando por escritoras, escriturarias e profissionais universitarias.

E sei-o, tambem, por experiencia propria: nao ha’ muito tempo, vi-me forcada a abandonar intempestivamente a que talvez tenha sido a melhor posicao profissional da minha vida por uma questao de principio: nao consegui encontrar espaco, ou instrumento, no meu vasto “arsenal” de defesas contra o sexismo e a discriminacao, para tolerar um ataque pornografico, completamente nao provocado (se e’ que e’ possivel “provocar-se” tal coisa…) e “out of the blue”, por parte de um colega de trabalho (por sinal, angolano)… e enquanto o perpetrador encontrava apoio entre os poderosos chefoes masculinos, eu vi-me completamente “desertada” por todas as colegas femininas, incluindo as igualmente poderosas, bem falantes, articuladas, feministas e activistas “burocratas do genero”… E estas nao eram daquelas “de trazer por casa” nao: eram precisamente das que andam pelas reunioes de alto nivel em plataformas internacionais a falar em nome das mulheres Africanas! (But then, again, in their “more African than thou” postures, I’m not African anyway and, presumably, I should have felt exhilarated, honoured and over the moon for having attracted that sort of unwanted attention… ‘cause, presumably, I should be “liberated enough” to accept pornography as a “pleasurable and normal thing”, even in the workplace, when it causes me nothing but disgust and distress…).

Anyway, antes que isto me leve ‘a tese que sempre quis escrever sobre “mulheres…”, mas que sei que nunca escreverei, porque e’ um assunto demasiado pesado para o meu arcaboico, deixem-me encurtar caminho: ja’ sabia bastante sobre a “verdadeira realidade” da “condicao feminina”, por a ter experimentado, vivido e escrito sobre (o artigo em anexo, escrito e publicado no Semanario Angolense ha’ cinco anos atras, e’ apenas disso uma amostra), mas nenhuma das minhas experiencias anteriores me tinha dito tanto sobre essa realidade como esta experiencia de ‘blogging’ nos ultimos meses… Talvez porque, sobretudo sob o anonimato ou mascaras e bandeiras de qualquer especie ou cor, e’ mais facil revelarem-se verdadeiras indumentarias, comportamentos e… identidades. Assim, este blog trouxe-me, ate’ agora, pelo menos duas experiencias ineditas: ver-me confrontada com, atacada, insultada, embaracada e coisificada publicamente por “mulheres” capazes de desferirem ataques pornograficos e violacoes, senao fisicas (e talvez apenas porque disso nao teem possibilidade…), certamente psicologicas e morais, contra outras mulheres, ‘apenas porque lhes da’ na real gana’, e “conhecer” mulheres com inexcediveis e vertiginosos niveis de arrogancia ignorante, racismo, xenofobia, elitismo, soberba e um misto de complexos de superioridade e de inferioridade, que nao sabia antes sequer possivel existirem! Certamente, tambem pude verificar, ate’ agora, excepcoes ‘a regra: pelo menos duas mulheres, so’ para mencionar as ‘bloggers’ que consistentemente se teem manifestado acima de comportamentos mesquinhos, invejas e ciumeiras irracionais, o teem demonstrado atraves das suas diversas participacoes neste blog. Mas receio bem que sejam pouco mais do que as excepcoes que confirmam a regra…

Essas experiencias ineditas, quanto mais nao seja, teem-me deixado a perguntar-me: onde e’ que andavam certas mulheres, em finais da decada de 70, principios da de 80, quando, em Luanda, tanto quanto eu tinha que marcar lugar na bicha para a carne, marcava lugar na bicha da livraria ‘Mensagem’, para poder comprar um exemplar da revista portuguesa “Mulheres” – onde tive os primeiros serios contactos com as lutas das “tres Marias”, o conceito de “Matria” da Natalia Correia (de quem, mais tarde, tive o prazer de ouvir cantar o “Summertime”, que aqui podemos ouvir tao eloquentemente na “voz” de Charlie Parker, numa casa de fados de Lisboa), ou as poesias de Sophia de Mello Breyner ou Florbela Espanca - essa geracao de Mulheres que rejeitavam liminarmente, entre outros "diminutivos", designacoes como "poetisa"? Ou quando, mesmo depois de ter conseguido assegurar uma subscricao que me poupava da bicha mensal (pelo menos teoricamente, porque meses havia em que chegava la’ e mesmo para os subscritores a revista estava “esgotada”…), me lancei, por minha conta e risco, em busca do entendimento possivel das almas de Sylvia Plath, Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar, Elsa Triolet ou Simone de Beauvoir… Ou ainda, quando, depois de todos os desencantos, descobri Noemia de Sousa, Maya Angelou, Julianne Malveaux, Alice Walker, Toni Morrison, Bessie Head ou Wangari Mathaai?

Onde andavam essas mulheres que nunca apreenderam o sentido de oprobio imbuido na pratica de se “fazerem ‘a vida” atraves de “lutas de galinheiro”, sem qualquer racionalidade a nao ser demonstrarem a sua “superioridade” em disputas pelo que supoeem ser e pretendem fazer passar por “ideias e conceitos”, mas que na verdade nao passam de “preconceitos reorganizados” para lhes servirem como armas de arremesso em competicoes imbecis e irracionais, em espacos virtuais, pela atencao de homens, por nenhuma outra razao objectiva senao obterem notoriedade e tentarem impor-se como “unicos seres pensantes” (normalmente por nenhuma "obvia razao" senao a cor da sua pele, embora tambem haja excepcoes a essa "regra"...) nos circulos em que se movimentam? Onde?! Em que mundo vivem essas mulheres completamente incapazes de se emanciparem dos mais retrogrados e ignorantes preconceitos e praticas que, com as suas vestes e comportamentos domingueiros, impingem, frequentemente atraves de alguns homens suficientemente “desprevenidos” para tal, sobre outras mulheres – via de regra, as mais desprotegidas economica, social e politicamente – fazendo retroceder a luta das mulheres pela igualdade de generos pelo menos um seculo? Onde?!

Nao sei, nem me interessa particularmente saber. Quanto mais nao seja porque todas essas interrogacoes tambem me deixam a perguntar-me: porque que eu nao torno a minha vida "mais facil" comportando-me da mesma maneira? Ja’ ouvi de pelo menos dois amigos meus, sem qualquer relacao entre si, esta afirmacao: “tu pensas muito…”! Nao me lembro de lhes ter dado qualquer resposta porque tal afirmacao apenas me remete a pensar mais ainda: sera’ que a minha “inocencia” em tecnicas e tacticas “tipicamente femininas” se deve ao facto de ter passado tantos anos (...num mundo em que, curiosamente, a maioria das mulheres, e em particular as que se demonstram mais afoitas e talentosas em desferirem ataques cobardes e inescrupulosos contra mulheres como eu, nao se atrevem a entrar...) a resolver complicadas equacoes econometricas, a tentar encontrar “Nash equilibria” para os mais diversos ‘conumdrums’ da historia, da cultura, da sociedade, do desenvolvimento economico ou da politica internacional, a aprimorar o meu jogo de xadrez, ou a cultivar e a desenvolver a capacidade de pensamento estrategico sobre os mais diversos desafios da condicao humana e da vida quotidiana num mundo, mais frequentemente do que nao, hostil? Nao sei. Fico-me com o Bob Marley: “What you gotta… that I don’t know! I’m trying to wonder, wonder… wonder why… wonder, wonder why you act so”!

Mulheres…

PS: No artigo em anexo, faco mencao particular 'as maes solteiras e nisso remeto-me, e aos leitores, ao que tem estado a ocupar o tempo de milhoes de leitores da J.K. Rowling, essa “fab (former) single mom”, autora de “Harry Potter”, neste domingo: o ultimo volume da serie, espectacularmente lancado aqui em Londres ha’ dois dias. Sinto-me proxima do mundo (antigo) dela por razoes muito particulares: somos contemporaneas da “cruzada do Blair contra as maes solteiras”; ela, enquanto mae solteira a viver de “benefits” quando tal “cruzada” se comecou a manifestar, comecou a escrever a serie num café na area onde eu vivo e onde me sentei pela primeira vez num café de Londres… apenas a imensa fortuna que ela acumulou na ultima decada (e a cor da pele?) nos separa.



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*(First published 22/07/07)




"Como Entender As Mulheres" (Primeiro Volume...)


Domingo e’, a todos os titulos, um dia especial. Tentar justificar essa evidencia e’ praticamente um “no brainer”, ou seja, e’ como tentar-se justificar porque que a chuva molha. Mas, digamos que e’ especial porque nao se trabalha, a excepcao daquelas ocupacoes – formais, como policia e bombeiros, ou informais, como ‘blogging’ – que a isso nos obrigam, ou naquelas sociedades, culturas e religioes que respeitam o “Sabath” literalmente ao Sabado. E’ tambem o dia em que, seja para uma ida a missa, ao mercado, a baixa da cidade, ao centro comercial, ou a uma visita a casa de familiares ou amigos, tentamos sempre apresentar-nos no nosso melhor – em termos de indumentaria ou comportamento. E nao ha’ ninguem melhor do que as mulheres para evidenciarem essa realidade domingueira.

Transportando essa evidencia para a vida mais quotidiana, encontro que… e’ muito dificil entender as mulheres (… nao estou sozinha nisto, sei-o bem: praticamente todos os homens, secundando Freud, disseram-no e continuam a dize-lo…). E isto muito simplesmente porque, pelo menos na vida social, elas tendem maioritariamente a comportar-se como e a vestir-se com as suas poses e vestimentas “domingueiras” que, a uma observacao mais proxima e/ou cuidada, nos revelam que nao passam disso mesmo: comportamento e vestes domingueiras… nada mais quotidiano, nada mais substantivo, nada mais profundo. Falar (de) assim, quando eu sou mulher e nunca me conheci outro genero ou inclinacao sexual, “soa mal” e e’ “politicamente incorrecto” – eu sei. Mas tambem sei que dificilmente havera’ inimigo pior de uma mulher do que outra mulher… dificilmente havera’, pelo menos em certas profissoes e niveis hierarquicos, pior colega de trabalho de uma mulher do que outra mulher. Sei tambem que nao estou sozinha nisto: ouvi-o de outras mulheres, desde ministras a empregadas domesticas, passando por escritoras, escriturarias e profissionais universitarias.

E sei-o, tambem, por experiencia propria: nao ha’ muito tempo, vi-me forcada a abandonar intempestivamente a que talvez tenha sido a melhor posicao profissional da minha vida por uma questao de principio: nao consegui encontrar espaco, ou instrumento, no meu vasto “arsenal” de defesas contra o sexismo e a discriminacao, para tolerar um ataque pornografico, completamente nao provocado (se e’ que e’ possivel “provocar-se” tal coisa…) e “out of the blue”, por parte de um colega de trabalho (por sinal, angolano)… e enquanto o perpetrador encontrava apoio entre os poderosos chefoes masculinos, eu vi-me completamente “desertada” por todas as colegas femininas, incluindo as igualmente poderosas, bem falantes, articuladas, feministas e activistas “burocratas do genero”… E estas nao eram daquelas “de trazer por casa” nao: eram precisamente das que andam pelas reunioes de alto nivel em plataformas internacionais a falar em nome das mulheres Africanas! (But then, again, in their “more African than thou” postures, I’m not African anyway and, presumably, I should have felt exhilarated, honoured and over the moon for having attracted that sort of unwanted attention… ‘cause, presumably, I should be “liberated enough” to accept pornography as a “pleasurable and normal thing”, even in the workplace, when it causes me nothing but disgust and distress…).

Anyway, antes que isto me leve ‘a tese que sempre quis escrever sobre “mulheres…”, mas que sei que nunca escreverei, porque e’ um assunto demasiado pesado para o meu arcaboico, deixem-me encurtar caminho: ja’ sabia bastante sobre a “verdadeira realidade” da “condicao feminina”, por a ter experimentado, vivido e escrito sobre (o artigo em anexo, escrito e publicado no Semanario Angolense ha’ cinco anos atras, e’ apenas disso uma amostra), mas nenhuma das minhas experiencias anteriores me tinha dito tanto sobre essa realidade como esta experiencia de ‘blogging’ nos ultimos meses… Talvez porque, sobretudo sob o anonimato ou mascaras e bandeiras de qualquer especie ou cor, e’ mais facil revelarem-se verdadeiras indumentarias, comportamentos e… identidades. Assim, este blog trouxe-me, ate’ agora, pelo menos duas experiencias ineditas: ver-me confrontada com, atacada, insultada, embaracada e coisificada publicamente por “mulheres” capazes de desferirem ataques pornograficos e violacoes, senao fisicas (e talvez apenas porque disso nao teem possibilidade…), certamente psicologicas e morais, contra outras mulheres, ‘apenas porque lhes da’ na real gana’, e “conhecer” mulheres com inexcediveis e vertiginosos niveis de arrogancia ignorante, racismo, xenofobia, elitismo, soberba e um misto de complexos de superioridade e de inferioridade, que nao sabia antes sequer possivel existirem! Certamente, tambem pude verificar, ate’ agora, excepcoes ‘a regra: pelo menos duas mulheres, so’ para mencionar as ‘bloggers’ que consistentemente se teem manifestado acima de comportamentos mesquinhos, invejas e ciumeiras irracionais, o teem demonstrado atraves das suas diversas participacoes neste blog. Mas receio bem que sejam pouco mais do que as excepcoes que confirmam a regra…

Essas experiencias ineditas, quanto mais nao seja, teem-me deixado a perguntar-me: onde e’ que andavam certas mulheres, em finais da decada de 70, principios da de 80, quando, em Luanda, tanto quanto eu tinha que marcar lugar na bicha para a carne, marcava lugar na bicha da livraria ‘Mensagem’, para poder comprar um exemplar da revista portuguesa “Mulheres” – onde tive os primeiros serios contactos com as lutas das “tres Marias”, o conceito de “Matria” da Natalia Correia (de quem, mais tarde, tive o prazer de ouvir cantar o “Summertime”, que aqui podemos ouvir tao eloquentemente na “voz” de Charlie Parker, numa casa de fados de Lisboa), ou as poesias de Sophia de Mello Breyner ou Florbela Espanca - essa geracao de Mulheres que rejeitavam liminarmente, entre outros "diminutivos", designacoes como "poetisa"? Ou quando, mesmo depois de ter conseguido assegurar uma subscricao que me poupava da bicha mensal (pelo menos teoricamente, porque meses havia em que chegava la’ e mesmo para os subscritores a revista estava “esgotada”…), me lancei, por minha conta e risco, em busca do entendimento possivel das almas de Sylvia Plath, Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar, Elsa Triolet ou Simone de Beauvoir… Ou ainda, quando, depois de todos os desencantos, descobri Noemia de Sousa, Maya Angelou, Julianne Malveaux, Alice Walker, Toni Morrison, Bessie Head ou Wangari Mathaai?

Onde andavam essas mulheres que nunca apreenderam o sentido de oprobio imbuido na pratica de se “fazerem ‘a vida” atraves de “lutas de galinheiro”, sem qualquer racionalidade a nao ser demonstrarem a sua “superioridade” em disputas pelo que supoeem ser e pretendem fazer passar por “ideias e conceitos”, mas que na verdade nao passam de “preconceitos reorganizados” para lhes servirem como armas de arremesso em competicoes imbecis e irracionais, em espacos virtuais, pela atencao de homens, por nenhuma outra razao objectiva senao obterem notoriedade e tentarem impor-se como “unicos seres pensantes” (normalmente por nenhuma "obvia razao" senao a cor da sua pele, embora tambem haja excepcoes a essa "regra"...) nos circulos em que se movimentam? Onde?! Em que mundo vivem essas mulheres completamente incapazes de se emanciparem dos mais retrogrados e ignorantes preconceitos e praticas que, com as suas vestes e comportamentos domingueiros, impingem, frequentemente atraves de alguns homens suficientemente “desprevenidos” para tal, sobre outras mulheres – via de regra, as mais desprotegidas economica, social e politicamente – fazendo retroceder a luta das mulheres pela igualdade de generos pelo menos um seculo? Onde?!

Nao sei, nem me interessa particularmente saber. Quanto mais nao seja porque todas essas interrogacoes tambem me deixam a perguntar-me: porque que eu nao torno a minha vida "mais facil" comportando-me da mesma maneira? Ja’ ouvi de pelo menos dois amigos meus, sem qualquer relacao entre si, esta afirmacao: “tu pensas muito…”! Nao me lembro de lhes ter dado qualquer resposta porque tal afirmacao apenas me remete a pensar mais ainda: sera’ que a minha “inocencia” em tecnicas e tacticas “tipicamente femininas” se deve ao facto de ter passado tantos anos (...num mundo em que, curiosamente, a maioria das mulheres, e em particular as que se demonstram mais afoitas e talentosas em desferirem ataques cobardes e inescrupulosos contra mulheres como eu, nao se atrevem a entrar...) a resolver complicadas equacoes econometricas, a tentar encontrar “Nash equilibria” para os mais diversos ‘conumdrums’ da historia, da cultura, da sociedade, do desenvolvimento economico ou da politica internacional, a aprimorar o meu jogo de xadrez, ou a cultivar e a desenvolver a capacidade de pensamento estrategico sobre os mais diversos desafios da condicao humana e da vida quotidiana num mundo, mais frequentemente do que nao, hostil? Nao sei. Fico-me com o Bob Marley: “What you gotta… that I don’t know! I’m trying to wonder, wonder… wonder why… wonder, wonder why you act so”!

Mulheres…

PS: No artigo em anexo, faco mencao particular 'as maes solteiras e nisso remeto-me, e aos leitores, ao que tem estado a ocupar o tempo de milhoes de leitores da J.K. Rowling, essa “fab (former) single mom”, autora de “Harry Potter”, neste domingo: o ultimo volume da serie, espectacularmente lancado aqui em Londres ha’ dois dias. Sinto-me proxima do mundo (antigo) dela por razoes muito particulares: somos contemporaneas da “cruzada do Blair contra as maes solteiras”; ela, enquanto mae solteira a viver de “benefits” quando tal “cruzada” se comecou a manifestar, comecou a escrever a serie num café na area onde eu vivo e onde me sentei pela primeira vez num café de Londres… apenas a imensa fortuna que ela acumulou na ultima decada (e a cor da pele?) nos separa.



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Woman To Woman


*(First published 22/07/07)

Saturday, 22 September 2007

POLITICA, FUTEBOL E...






... ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A ACTUAL CONJUNTURA ECONÓMICA ANGOLANA*

A par da política e do futebol, a economia apresenta-se sempre como uma das áreas da vida social que mais se prestam a debates apaixonados, particularmente em períodos de grandes expectativas e de críticas decisões. Neste momento, o debate, ou melhor, as atenções da opinião pública, sobre a economia do país parecem centrar-se em três vectores fundamentais:

1. A solidez, ou falta dela, da corrente “estabilização macroeconómica”;
2. O “delírio criativo” que parece assolar o sector bancário nacional;
3. As opções estratégicas de desenvolvimento do país que, idealmente, deveriam ancorar-se no anunciado “plano de desenvolvimento para os próximos 25 anos” mas que, por esse estar ainda a ser alinhavado e dada a premência das questões a ele subjacentes, fazendo juz à afirmação de Keynes segundo a qual “no longo prazo estaremos todos mortos”, emergem um pouco de todas e quaisquer discussões sobre a vida diária do cidadão comum – e estas, mesmo que originadas no foro da economia, acabam por incluir a política e o futebol.

As considerações que se seguem, no entanto, pretendem ser estritamente económicas e versarão um pouco sobre cada um dos três vectores acima enunciados.
(...)

I. INFLAÇÃO E NÍVEL DE VIDA, OU O VELHO “FETICHISMO DA MOEDA”

Seria necessária alguma dose de má fe para se não reconhecer e creditar devidamente os méritos do governo na obtenção do que se convencionou chamar “estabilização macroecónomica”. No entanto, seria igualmente mal avisado tomar-se essa estabilização como um dado adquirido, total e irreversível. Quanto mais não seja porque ela parece resumir-se a pouco mais do que um melhor desempenho monetário e uma impressiva contenção da inflacão, ambos ancorados na chamada “política do Kwanza forte” (com o devido respeito, protestos da “equipa económica” não obstante…), obtida através de medidas que, sendo técnicamente sustentadas, não deixam, contudo, de ser conjunturais, tais como a injecção massiva de dólares no mercado e a manipulação “laboratorial” da taxa de câmbio (política que, paradoxalmente, não difere muito em termos substantivos da dos longos anos de câmbio fixo em que tivémos “por artes mágicas” USD1=KZ30).
(...)

II. DESEMPREGO, EXPECTATIVAS E O “FUTURO AMARELO”

Embora, em resultado da valorização do Kwanza, em condições normais se pudesse vaticinar um potencial aumento da propensão marginal a poupar, induzido por uma maior confiança dos agentes económicos (indiciada, aliás, pelo recentemente publicitado aumento dos depósitos em moeda nacional), as baixas taxas de juro que se esperam obter com a baixa inflação não irão incentivar a poupança líquida – certamente não no curto a médio prazo – o que é agravado por essa potencial tendência não ser acompanhada por uma diminuição da propensão marginal ao consumo, quer devido a algumas das nossas características culturais, quer porque esta é sempre tanto maior quanto menor fôr o rendimento disponível dos cidadãos – 98% dos quais vive com menos de 2 dólares por dia, o que, mesmo que por absurdo quisessem endividar-se para investir, não lhes chega para suportar as taxas de juro comerciais, mesmo que mais baixas e acessíveis sem compadrios.
(...)

III. ESTIMULAR E DIVERSIFICAR A ECONOMIA REAL, OU A CRIAÇÃO DE UM CICLO VIRTUOSO DE RIQUEZA

Quando tudo isso estiver a ser obtido, aí sim, quer a política, quer o futebol, passarão a fazer o mais pleno sentido para o cidadão (em particular a cidadã) comum e o governo (qualquer governo) terá licença de todos nós para soprar os seus trombones tão alto quanto quizer: porque em casa onde há pão, ninguém ralha e todos ganham votos, marcam golos e têm razão!

(Ler artigo integral AQUI)

*Artigo por mim publicado no SA em Janeiro de 2006







... ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A ACTUAL CONJUNTURA ECONÓMICA ANGOLANA*

A par da política e do futebol, a economia apresenta-se sempre como uma das áreas da vida social que mais se prestam a debates apaixonados, particularmente em períodos de grandes expectativas e de críticas decisões. Neste momento, o debate, ou melhor, as atenções da opinião pública, sobre a economia do país parecem centrar-se em três vectores fundamentais:

1. A solidez, ou falta dela, da corrente “estabilização macroeconómica”;
2. O “delírio criativo” que parece assolar o sector bancário nacional;
3. As opções estratégicas de desenvolvimento do país que, idealmente, deveriam ancorar-se no anunciado “plano de desenvolvimento para os próximos 25 anos” mas que, por esse estar ainda a ser alinhavado e dada a premência das questões a ele subjacentes, fazendo juz à afirmação de Keynes segundo a qual “no longo prazo estaremos todos mortos”, emergem um pouco de todas e quaisquer discussões sobre a vida diária do cidadão comum – e estas, mesmo que originadas no foro da economia, acabam por incluir a política e o futebol.

As considerações que se seguem, no entanto, pretendem ser estritamente económicas e versarão um pouco sobre cada um dos três vectores acima enunciados.
(...)

I. INFLAÇÃO E NÍVEL DE VIDA, OU O VELHO “FETICHISMO DA MOEDA”

Seria necessária alguma dose de má fe para se não reconhecer e creditar devidamente os méritos do governo na obtenção do que se convencionou chamar “estabilização macroecónomica”. No entanto, seria igualmente mal avisado tomar-se essa estabilização como um dado adquirido, total e irreversível. Quanto mais não seja porque ela parece resumir-se a pouco mais do que um melhor desempenho monetário e uma impressiva contenção da inflacão, ambos ancorados na chamada “política do Kwanza forte” (com o devido respeito, protestos da “equipa económica” não obstante…), obtida através de medidas que, sendo técnicamente sustentadas, não deixam, contudo, de ser conjunturais, tais como a injecção massiva de dólares no mercado e a manipulação “laboratorial” da taxa de câmbio (política que, paradoxalmente, não difere muito em termos substantivos da dos longos anos de câmbio fixo em que tivémos “por artes mágicas” USD1=KZ30).
(...)

II. DESEMPREGO, EXPECTATIVAS E O “FUTURO AMARELO”

Embora, em resultado da valorização do Kwanza, em condições normais se pudesse vaticinar um potencial aumento da propensão marginal a poupar, induzido por uma maior confiança dos agentes económicos (indiciada, aliás, pelo recentemente publicitado aumento dos depósitos em moeda nacional), as baixas taxas de juro que se esperam obter com a baixa inflação não irão incentivar a poupança líquida – certamente não no curto a médio prazo – o que é agravado por essa potencial tendência não ser acompanhada por uma diminuição da propensão marginal ao consumo, quer devido a algumas das nossas características culturais, quer porque esta é sempre tanto maior quanto menor fôr o rendimento disponível dos cidadãos – 98% dos quais vive com menos de 2 dólares por dia, o que, mesmo que por absurdo quisessem endividar-se para investir, não lhes chega para suportar as taxas de juro comerciais, mesmo que mais baixas e acessíveis sem compadrios.
(...)

III. ESTIMULAR E DIVERSIFICAR A ECONOMIA REAL, OU A CRIAÇÃO DE UM CICLO VIRTUOSO DE RIQUEZA

Quando tudo isso estiver a ser obtido, aí sim, quer a política, quer o futebol, passarão a fazer o mais pleno sentido para o cidadão (em particular a cidadã) comum e o governo (qualquer governo) terá licença de todos nós para soprar os seus trombones tão alto quanto quizer: porque em casa onde há pão, ninguém ralha e todos ganham votos, marcam golos e têm razão!

(Ler artigo integral AQUI)

*Artigo por mim publicado no SA em Janeiro de 2006


Wednesday, 19 September 2007

ANGOLA: UM FUTURO BRILHANTE?*





I. Os Desafios da Manutenção da Paz e da Reconstrução Total

Após pelo menos quatro décadas de guerra, Angola parece, finalmente, estar a ensaiar os primeiros passos no sentido de uma paz duradoura. No entanto, o esforço de reconstrução que se impõe enfrenta, desde o início, condições particularmente desfavoráveis: o país emerge da guerra numa conjuntura internacional em que os seus principais parceiros comerciais estão a braços com outras prioridades. Os EUA, pós-Setembro 11, têm estado a reorientar os seus recursos políticos e financeiros para a “guerra ao terrorismo”, enquanto a UE tende a virar-se para si própria e a repensar os seus engajamentos externos, em face de um crescente apelo dos seus eleitorados para o redireccionamento de políticas e recursos financeiros estratégicos no sentido da solução prioritária de problemas sociais domésticos decorrentes, de acordo com alguns sectores, do ‘insuportável’ afluxo de imigrantes aos seus países.

(...)

II. A Cooperação e Integração Económica Regional

O fim da guerra fria, longe de constituir o “fim da história” proclamado por Fukuyama, abriu uma nova página na História, uma fase transicional no processo de mudança económica, cuja complexa evolução se tornou mais difícil de delinear depois do 11 de Setembro de 2001. Esse processo tem sido fundamentalmente caracterizado por tendências de longo prazo nas relações económicas internacionais que indicam a consolidação de um padrão de comércio e investimento de acordo com o qual os países industrializados mantêm primordialmente relações de troca entre si. Tais tendências verificam-se no quadro de um reordenamento económico marcado por um recrudescimento do regionalismo a nível global, com a América do Norte, uma União Europeia em expansão para o Leste, o Japão e a região do Pacífico constituindo os blocos centrais. O mundo encontra-se, assim, face a um processo de regionalização que cada vez mais exige uma rigorosa delimitação das margens do multilateralismo possível.

(...)

III. Para uma Análise Custo/Benefício da Integração Económica de Angola na SADC

Angola encontra-se confrontada com alguns desafios em termos de escolha das estratégias económicas e políticas mais adequadas para levar a bom termo o seu processo de pacificação e reconstrução. Ao país apresenta-se a oportunidade de re-equacionar os objectivos estratégicos do seu envolvimento na SADC por forma a aproveitar sinergias entre o seu ajustamento estrutural interno e o profundo processo de reestruturação económica em curso na região e pô-las ao serviço do seu esforço de reconstrução nacional. Assim, convir-lhe-á identificar os desafios a enfrentar e oportunidades a aproveitar do modelo de regionalismo aberto que caracteriza actualmente o projecto de integração da SADC, no qual coexistem espacialmente acordos preferênciais concorrenciais entre países membros e parceiros fora da zona, como por exemplo a FTA África do Sul-União Europeia, participar na concertação de estratégias negociais com outros agrupamentos regionais tais como a SACU e o COMESA e, não menos importante, influenciar a seu favor a partilha dos recursos financeiros e técnicos internacionais postos à disposição da SADC e que são cruciais para a sua reconstrução pós-conflito.

(...)

IV. Considerações Finais

Note-se que a teoria dos jogos, enquanto instrumento que permite analisar o comportamento de indivíduos, empresas ou governos em situações estratégicas, tem-se demonstrado útil como ‘guia de acção’ em alguns contextos de interacção competitiva tais como processos de integração económica regional. A experiência de vários agrupamentos regionais, em particular da UE, demonstra que a noção de “first-mover advantage”, derivada daquela teoria, apresenta particular relevância para a determinação dos países que no seio do grupo, à parte o seu intrínseco nível de desenvolvimento económico, têm maior probabilidade de impôr as regras do jogo e as suas estratégias dominantes aos restantes membros, sendo que tal vantagem diminui em proporção directa com o atraso com que os países individualmente considerados acedem aos instrumentos institucionais e executivos da organização.



(...) Ler artigo integral AQUI

*Artigo por mim publicado na Revista Politica Internacional - Lisboa, ultimo trimestre de 2002






I. Os Desafios da Manutenção da Paz e da Reconstrução Total

Após pelo menos quatro décadas de guerra, Angola parece, finalmente, estar a ensaiar os primeiros passos no sentido de uma paz duradoura. No entanto, o esforço de reconstrução que se impõe enfrenta, desde o início, condições particularmente desfavoráveis: o país emerge da guerra numa conjuntura internacional em que os seus principais parceiros comerciais estão a braços com outras prioridades. Os EUA, pós-Setembro 11, têm estado a reorientar os seus recursos políticos e financeiros para a “guerra ao terrorismo”, enquanto a UE tende a virar-se para si própria e a repensar os seus engajamentos externos, em face de um crescente apelo dos seus eleitorados para o redireccionamento de políticas e recursos financeiros estratégicos no sentido da solução prioritária de problemas sociais domésticos decorrentes, de acordo com alguns sectores, do ‘insuportável’ afluxo de imigrantes aos seus países.

(...)

II. A Cooperação e Integração Económica Regional

O fim da guerra fria, longe de constituir o “fim da história” proclamado por Fukuyama, abriu uma nova página na História, uma fase transicional no processo de mudança económica, cuja complexa evolução se tornou mais difícil de delinear depois do 11 de Setembro de 2001. Esse processo tem sido fundamentalmente caracterizado por tendências de longo prazo nas relações económicas internacionais que indicam a consolidação de um padrão de comércio e investimento de acordo com o qual os países industrializados mantêm primordialmente relações de troca entre si. Tais tendências verificam-se no quadro de um reordenamento económico marcado por um recrudescimento do regionalismo a nível global, com a América do Norte, uma União Europeia em expansão para o Leste, o Japão e a região do Pacífico constituindo os blocos centrais. O mundo encontra-se, assim, face a um processo de regionalização que cada vez mais exige uma rigorosa delimitação das margens do multilateralismo possível.

(...)

III. Para uma Análise Custo/Benefício da Integração Económica de Angola na SADC

Angola encontra-se confrontada com alguns desafios em termos de escolha das estratégias económicas e políticas mais adequadas para levar a bom termo o seu processo de pacificação e reconstrução. Ao país apresenta-se a oportunidade de re-equacionar os objectivos estratégicos do seu envolvimento na SADC por forma a aproveitar sinergias entre o seu ajustamento estrutural interno e o profundo processo de reestruturação económica em curso na região e pô-las ao serviço do seu esforço de reconstrução nacional. Assim, convir-lhe-á identificar os desafios a enfrentar e oportunidades a aproveitar do modelo de regionalismo aberto que caracteriza actualmente o projecto de integração da SADC, no qual coexistem espacialmente acordos preferênciais concorrenciais entre países membros e parceiros fora da zona, como por exemplo a FTA África do Sul-União Europeia, participar na concertação de estratégias negociais com outros agrupamentos regionais tais como a SACU e o COMESA e, não menos importante, influenciar a seu favor a partilha dos recursos financeiros e técnicos internacionais postos à disposição da SADC e que são cruciais para a sua reconstrução pós-conflito.

(...)

IV. Considerações Finais

Note-se que a teoria dos jogos, enquanto instrumento que permite analisar o comportamento de indivíduos, empresas ou governos em situações estratégicas, tem-se demonstrado útil como ‘guia de acção’ em alguns contextos de interacção competitiva tais como processos de integração económica regional. A experiência de vários agrupamentos regionais, em particular da UE, demonstra que a noção de “first-mover advantage”, derivada daquela teoria, apresenta particular relevância para a determinação dos países que no seio do grupo, à parte o seu intrínseco nível de desenvolvimento económico, têm maior probabilidade de impôr as regras do jogo e as suas estratégias dominantes aos restantes membros, sendo que tal vantagem diminui em proporção directa com o atraso com que os países individualmente considerados acedem aos instrumentos institucionais e executivos da organização.



(...) Ler artigo integral AQUI

*Artigo por mim publicado na Revista Politica Internacional - Lisboa, ultimo trimestre de 2002


Saturday, 8 September 2007

SALA SENTLÊ! - UM TRIBUTO AO BOTSWANA*

É verdade amigos, tenho que me despedir. Escrevo-vos de Gaborone, onde as tarefas que me esperam nos próximos tempos não me permitem continuar estas conversas quinzenais. Não posso deixar de agradecer ao Graça Campos por me ter convidado a participar e ao colectivo do Semanário Angolense por me ter deixado partilhar um pouco desta excitante empresa de construção de um espaço alternativo, forte e independente na imprensa nacional. Tenho também que agradecer profundamente a todos os amigos (conhecidos e desconhecidos) que me enviaram mensagens de felicitações e encorajamento. Estou certa de que este valioso espaço no SA será bem aproveitado e continuará a dar oportunidade a outros para expressarem as suas idéias sobre o que vai pela terra e pelo mundo.




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Mama Boregwe - Skizo (Afroblue/Native Tongues)

Deixei Londres, há cerca de três semanas, entregue à sua onda de greves e ao seu Tony Blair a tentar emular o machismo da Lady Thatcher e, ao mesmo tempo, articular uma boa razão para dispender na projectada guerra ao Iraque os fundos necessários à melhoria dos seus serviços públicos; aos seus muitos, quase diários, “celebrity and royal scandals”; à sua chuva miudinha e tempo cinzento e àquela sensação de estarmos parados no espaço, escrutinando o mundo a girar à nossa volta e o tempo a fugir de nós a toda a hora.


Neste meu regresso a Gabs, alguns meses depois de cá ter estado a trabalhar durante pouco mais de um ano, noto que ela continua a impressionar quem chega pela sua limpeza, cosmopolitismo e espírito empreendedor. Perdi a explosão púrpura dos jacarandás (diz-nos Alice Walker que Deus fica muito irritado – pior, fica “pissed off” – se a humanidade não repara na cor púrpura) que todos os Setembros prenuncia o início da época das chuvas, mas o vermelho das acácias e a profusão de cores das buganvílias continuam o seu perene, despudorado, romance com o dourado do sol. O imenso calor tende a fazer recolher os habitantes a espaços interiores durante a maior parte do tempo, deixando o exterior entregue quase exclusivamente a uma imensa variedade de répteis e insectos (que não perdem uma oportunidade para nos entrar pela casa adentro) e ao som do silêncio ou dos pássaros.




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Sombele - Skizo (Afroblue/Native Tongues)

Os Batswana continuam demasiado ocupados a dar à Àfrica algumas das suas poucas razões de orgulho para se permitirem desenvolver quaisquer complexos (muito menos o de “colonizado”, o que quer que seja que isso signifique). Embora esteja convencida de que ao Motswana médio escapará a relevância, ou mesmo o significado, que este tipo de questões assume em Angola, acredito que qualquer deles subscreverá a idéia de que muito mal está um país quando a mera sugestão da importância de uma clara definição de uma identidade cultural nacional, não necessáriamente tributária da situação política colonial, atrai sobre quem se atreva a fazê-lo a rasteira acusação de ser “complexado(a)”.

Aliás, suspeito que se Freud estivesse vivo, dedicaria o resto da sua vida à reinvenção total da Psicanálise, por forma a nela acomodar a vacuidade que a palavra “complexos” (sem qualquer indicação de em relação a quê, ou sobre se de inferioridade, de superioridade, de Édipo, ou de Electra…) parece ter assumido no léxico de alguns sectores da nossa sociedade.

Numa conjuntura histórica em que práticamente todos os sectores acadêmicos, técnicos e intelectuais internacionais começam a dar cada vez mais peso a factores culturais endógenos como variáveis explicativas de experiências de desenvolvimento sustentado em todo o mundo, o Botswana emerge como um “caso especial”: estamos perante um povo que construiu a sua cidade capital práticamente a partir do zero (Gaborone, que significa “nossa casa”, só começou a ser construída um ano antes da independência, obtida em 1966, quando o país já se encontrava sob um regime de auto-determinação); um povo que, a par do Inglês e de outras línguas locais, fala e escreve o seu principal idioma nacional, Setswana, em todas as instâncias da sua vida privada, social e profissional - desde os aviões da companhia aérea nacional, aos aeroportos, aos sinais de trânsito, aos painéis de publicidade, aos meios de comunicação social, às escolas e faculdades, ao parlamento, aos tribunais, às empresas, ou aos bancos.




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Fire - Wizards of the Desert (Khoisan Aristocracy)

Estamos perante um país cujo modo de governo é baseado no tradicional sistema de “Kgotla”, em que a autoridade suprema é investida numa legislatura que, compreendendo a Assembléia Nacional e o Presidente, age em mandatória consultação com a “Câmara dos Chefes Tradicionais”, a qual supervisiona e decide sobre todos os aspectos da acção governativa que afectem os valores, costumes e tradições nacionais. O próprio conceito de desenvolvimento inclusivo e harmonia social, “Kagisano”, que norteia a sua estratégia económica é derivado da cultura nacional - dele emanam os princípios de democracia, auto-suficiência e unidade que servem de contexto geral para a definição dos objectivos da nação.


Estamos perante um país que pôs no centro do seu programa de diversificação económica e desenvolvimento industrial o “empowerment” dos seus cidadãos, através de programas concretos, fundos específicos e mecanismos institucionais que promovem a sua efectiva implementação e o desenvolvimento de uma classe empresarial nacional em todos os sectores da economia, tendo-se o governo compromotido a estender as suas preferências a consultores nacionais e a comprar acções em empresas de proprietários locais que estejam a enfrentar dificuldades financeiras; um país cujo código de investimento estrangeiro estipula, por exemplo, que as empresas estrangeiras que envolvam accionistas locais podem beneficiar de uma diminuição do mínimo investimento que lhes é exigido para metade, ou um terço, dependendo do sector em que queiram investir, sendo que em alguns sectores as empresas estrangeiras são obrigadas a sub-contratar empresas locais, enquanto o governo se dispõe a reembolsar 50% dos custos de formação dos empregados locais e a pagar um montante entre 40 e 85%, dependendo da localização da empresa numa área urbana ou rural, dos custos de cada posto de trabalho criado na indústria manufactureira.




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Mama - Wizards of the Desert (Khoisan Aristocracy)


Perante tudo isso, não será certamente de espantar, especialmente aos olhos dos países ocidentais, que basearam as suas estratégias de crescimento económico nos direitos dos seus cidadãos e nas suas culturas e valores tradicionais (e que talvez partilhem com certos segmentos das elites urbanas angolanas um perfeito entendimento da importância fulcral da língua e da cultura como instrumentos de poder e dominação, bem como um indisfarçável nervosismo à simples menção do conceito de “identidade africana”), que o Botswana seja: o país com as taxas de crescimento mais impressivas e consistentes em África (cerca de 9% p.a. ao longo das últimas três décadas) e comparáveis às de “tigres asiáticos” como a Tailândia e a Coreia do Sul; o país com uma das políticas de combate ao SIDA mais coerentes e agressivas na região (a taxa de incidência sobre o seu comparativamente diminuto agregado populacional tem afectado negativamente o seu índice de desenvolvimento humano e constitui a maior ameaça ao futuro do país); o segundo país mais competitivo da SADC, depois das Maurícias; o país com as taxas de corrupção mais baixas em África e com uma melhor reputação nessa área do que países como França, Itália, Grécia ou Portugal; o país com taxas de juro reais comparáveis às dos principais mercados mundiais de capitais e até superiores, durante vários períodos, às do UK, EUA e África do Sul; ou o país com as melhores posições em África em termos de robustez económica e solvabilidade, acima da África do Sul ou de países como a Coreia do Sul e a Malásia.




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Ba Ntatola Ke Tshela - Franco (Ba Ntatola)

Complexo de colonizado? Definitivamente, esse é um conceito que não existe em nenhuma das línguas nacionais deste povo, mestre da estética da alma: pacato e de uma tocante cortezia e humildade, mas confiante, orgulhoso, soberano e internacionalmente respeitado. Despeço-me em Setswana: Sala Sentlê! (Fiquem Bem, na língua de Camões; Stay Well, na língua de Shakespeare).

P.S.: E que viva para sempre a memória da rainha NZinga – um dos expoentes maiores da nacionalidade Angolana!




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Issa - Franco (Ba Ntatola)


{*Cronica por mim publicada no SA ha' 5 anos (a ultima da serie “Factos e Ficcoes"). Foi parcialmente em resposta a um outro colunista do mesmo semanario que, embora nao citando o meu nome, mas de forma suficientemente directa e inequivoca, me acusava de ter "complexos de colonizado", ao mesmo tempo que invectivava contra a estatua da Rainha Nzinga…}




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Ma Africa - Franco (Ba Ntatola)



***
About the songs: these are some of the songs on Botswana airwaves’ top-10 in the last few years, with Franco invariably at number 1, lately closely followed by the Wizards. Except for ‘Mama Boregwe’, which conveys the sounds and voices of the Kalahari, with these choices I wanted to highlight a very interesting phenomenon in the country’s music trends, which can also be observed in almost all Sub-Saharan African countries these days: the adoption of Congolese sounds (soukous, rumba and that wild mix generally known as kwassa-kwassa), be it through remixes/covers – as in ‘Sombele’ or ‘Mama’ (remember Congolese Franco’s ‘Mario’?) or ‘legitimate appropriation’ – as in almost all Motswana Franco’s (Frank Lesokwane) music and his adopted name. The contagion is of such order that when I left the country about 2 years ago there was a public discussion going on whether the genre should be adopted as Botswana’s “national music”.


É verdade amigos, tenho que me despedir. Escrevo-vos de Gaborone, onde as tarefas que me esperam nos próximos tempos não me permitem continuar estas conversas quinzenais. Não posso deixar de agradecer ao Graça Campos por me ter convidado a participar e ao colectivo do Semanário Angolense por me ter deixado partilhar um pouco desta excitante empresa de construção de um espaço alternativo, forte e independente na imprensa nacional. Tenho também que agradecer profundamente a todos os amigos (conhecidos e desconhecidos) que me enviaram mensagens de felicitações e encorajamento. Estou certa de que este valioso espaço no SA será bem aproveitado e continuará a dar oportunidade a outros para expressarem as suas idéias sobre o que vai pela terra e pelo mundo.




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Deixei Londres, há cerca de três semanas, entregue à sua onda de greves e ao seu Tony Blair a tentar emular o machismo da Lady Thatcher e, ao mesmo tempo, articular uma boa razão para dispender na projectada guerra ao Iraque os fundos necessários à melhoria dos seus serviços públicos; aos seus muitos, quase diários, “celebrity and royal scandals”; à sua chuva miudinha e tempo cinzento e àquela sensação de estarmos parados no espaço, escrutinando o mundo a girar à nossa volta e o tempo a fugir de nós a toda a hora.


Neste meu regresso a Gabs, alguns meses depois de cá ter estado a trabalhar durante pouco mais de um ano, noto que ela continua a impressionar quem chega pela sua limpeza, cosmopolitismo e espírito empreendedor. Perdi a explosão púrpura dos jacarandás (diz-nos Alice Walker que Deus fica muito irritado – pior, fica “pissed off” – se a humanidade não repara na cor púrpura) que todos os Setembros prenuncia o início da época das chuvas, mas o vermelho das acácias e a profusão de cores das buganvílias continuam o seu perene, despudorado, romance com o dourado do sol. O imenso calor tende a fazer recolher os habitantes a espaços interiores durante a maior parte do tempo, deixando o exterior entregue quase exclusivamente a uma imensa variedade de répteis e insectos (que não perdem uma oportunidade para nos entrar pela casa adentro) e ao som do silêncio ou dos pássaros.




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Os Batswana continuam demasiado ocupados a dar à Àfrica algumas das suas poucas razões de orgulho para se permitirem desenvolver quaisquer complexos (muito menos o de “colonizado”, o que quer que seja que isso signifique). Embora esteja convencida de que ao Motswana médio escapará a relevância, ou mesmo o significado, que este tipo de questões assume em Angola, acredito que qualquer deles subscreverá a idéia de que muito mal está um país quando a mera sugestão da importância de uma clara definição de uma identidade cultural nacional, não necessáriamente tributária da situação política colonial, atrai sobre quem se atreva a fazê-lo a rasteira acusação de ser “complexado(a)”.

Aliás, suspeito que se Freud estivesse vivo, dedicaria o resto da sua vida à reinvenção total da Psicanálise, por forma a nela acomodar a vacuidade que a palavra “complexos” (sem qualquer indicação de em relação a quê, ou sobre se de inferioridade, de superioridade, de Édipo, ou de Electra…) parece ter assumido no léxico de alguns sectores da nossa sociedade.

Numa conjuntura histórica em que práticamente todos os sectores acadêmicos, técnicos e intelectuais internacionais começam a dar cada vez mais peso a factores culturais endógenos como variáveis explicativas de experiências de desenvolvimento sustentado em todo o mundo, o Botswana emerge como um “caso especial”: estamos perante um povo que construiu a sua cidade capital práticamente a partir do zero (Gaborone, que significa “nossa casa”, só começou a ser construída um ano antes da independência, obtida em 1966, quando o país já se encontrava sob um regime de auto-determinação); um povo que, a par do Inglês e de outras línguas locais, fala e escreve o seu principal idioma nacional, Setswana, em todas as instâncias da sua vida privada, social e profissional - desde os aviões da companhia aérea nacional, aos aeroportos, aos sinais de trânsito, aos painéis de publicidade, aos meios de comunicação social, às escolas e faculdades, ao parlamento, aos tribunais, às empresas, ou aos bancos.




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Estamos perante um país que pôs no centro do seu programa de diversificação económica e desenvolvimento industrial o “empowerment” dos seus cidadãos, através de programas concretos, fundos específicos e mecanismos institucionais que promovem a sua efectiva implementação e o desenvolvimento de uma classe empresarial nacional em todos os sectores da economia, tendo-se o governo compromotido a estender as suas preferências a consultores nacionais e a comprar acções em empresas de proprietários locais que estejam a enfrentar dificuldades financeiras; um país cujo código de investimento estrangeiro estipula, por exemplo, que as empresas estrangeiras que envolvam accionistas locais podem beneficiar de uma diminuição do mínimo investimento que lhes é exigido para metade, ou um terço, dependendo do sector em que queiram investir, sendo que em alguns sectores as empresas estrangeiras são obrigadas a sub-contratar empresas locais, enquanto o governo se dispõe a reembolsar 50% dos custos de formação dos empregados locais e a pagar um montante entre 40 e 85%, dependendo da localização da empresa numa área urbana ou rural, dos custos de cada posto de trabalho criado na indústria manufactureira.




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Perante tudo isso, não será certamente de espantar, especialmente aos olhos dos países ocidentais, que basearam as suas estratégias de crescimento económico nos direitos dos seus cidadãos e nas suas culturas e valores tradicionais (e que talvez partilhem com certos segmentos das elites urbanas angolanas um perfeito entendimento da importância fulcral da língua e da cultura como instrumentos de poder e dominação, bem como um indisfarçável nervosismo à simples menção do conceito de “identidade africana”), que o Botswana seja: o país com as taxas de crescimento mais impressivas e consistentes em África (cerca de 9% p.a. ao longo das últimas três décadas) e comparáveis às de “tigres asiáticos” como a Tailândia e a Coreia do Sul; o país com uma das políticas de combate ao SIDA mais coerentes e agressivas na região (a taxa de incidência sobre o seu comparativamente diminuto agregado populacional tem afectado negativamente o seu índice de desenvolvimento humano e constitui a maior ameaça ao futuro do país); o segundo país mais competitivo da SADC, depois das Maurícias; o país com as taxas de corrupção mais baixas em África e com uma melhor reputação nessa área do que países como França, Itália, Grécia ou Portugal; o país com taxas de juro reais comparáveis às dos principais mercados mundiais de capitais e até superiores, durante vários períodos, às do UK, EUA e África do Sul; ou o país com as melhores posições em África em termos de robustez económica e solvabilidade, acima da África do Sul ou de países como a Coreia do Sul e a Malásia.




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Complexo de colonizado? Definitivamente, esse é um conceito que não existe em nenhuma das línguas nacionais deste povo, mestre da estética da alma: pacato e de uma tocante cortezia e humildade, mas confiante, orgulhoso, soberano e internacionalmente respeitado. Despeço-me em Setswana: Sala Sentlê! (Fiquem Bem, na língua de Camões; Stay Well, na língua de Shakespeare).

P.S.: E que viva para sempre a memória da rainha NZinga – um dos expoentes maiores da nacionalidade Angolana!




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{*Cronica por mim publicada no SA ha' 5 anos (a ultima da serie “Factos e Ficcoes"). Foi parcialmente em resposta a um outro colunista do mesmo semanario que, embora nao citando o meu nome, mas de forma suficientemente directa e inequivoca, me acusava de ter "complexos de colonizado", ao mesmo tempo que invectivava contra a estatua da Rainha Nzinga…}




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Ma Africa - Franco (Ba Ntatola)



***
About the songs: these are some of the songs on Botswana airwaves’ top-10 in the last few years, with Franco invariably at number 1, lately closely followed by the Wizards. Except for ‘Mama Boregwe’, which conveys the sounds and voices of the Kalahari, with these choices I wanted to highlight a very interesting phenomenon in the country’s music trends, which can also be observed in almost all Sub-Saharan African countries these days: the adoption of Congolese sounds (soukous, rumba and that wild mix generally known as kwassa-kwassa), be it through remixes/covers – as in ‘Sombele’ or ‘Mama’ (remember Congolese Franco’s ‘Mario’?) or ‘legitimate appropriation’ – as in almost all Motswana Franco’s (Frank Lesokwane) music and his adopted name. The contagion is of such order that when I left the country about 2 years ago there was a public discussion going on whether the genre should be adopted as Botswana’s “national music”.


Wednesday, 25 July 2007

A “FUGA”, OU O INSONDAVEL MISTERIO DA NACIONALIDADE SURRIPIADA…(Parte 1)




« (...) Os países comunistas excomungavam a emigração, considerada a mais odiosa traição. Todos os que permanecessem no exterior eram condenados in absencia no seu país de origem e os seus compatriotas não se atreviam a ter qualquer contacto com eles. (…) Se um país não é independente e nem sequer o quer ser, quererá alguém ainda morrer por ele? « (Extractos de «Ignorancia», por Milan Kundera)

Uma vez que estou em mare’ de peneirar as “riquissimas experiencias” que venho colhendo com este blog, impoe-se que fale de mais uma. Concretamente, dessa inusitada (embora nao inedita, porque desde que retomei um contacto mais directo e frequente com Angola nos ultimos anos ela vem-se repetindo com igual frequencia) vaga de ataques a minha nacionalidade. Confesso que e’ uma dessas coisas que se me afigura tao absurda que, apesar da frequencia com que se manifesta, das mais diversas origens e direccoes, nao consigo racionalizar.

Fala-se, no ambito da psicanalise, de “inveja do penis” ou de “inveja dos seios” por parte de quem nao tem uma coisa ou outra. A primeira condicao talvez explique alguns dos comportamentos que referi no meu post sobre “mulheres…” (este). Quanto a segunda, nao sei, dentre os meus mais abnegados detractores, quem a tera’, mas sei certamente que eu nao a tenho em relacao a ninguem… E parece-me tambem que qualquer desses tipos de inveja se assemelha muito ao que me parece ser “inveja da nacionalidade”.

E isto porque dificilmente se encontrara’ neste momento nacionalidade mais cobicada em Africa, ou em varias outras partes do mundo, do que a Angolana. Por todas, mais do que sabidas, razoes atinentes a extensao territorial, as riquezas naturais, as aparentemente vertiginosas taxas de crescimento economico, ao bom clima e belezas paisagisticas, a dita baixa densidade populacional, as fragilidades e carencias (materiais, sociais, espirituais e psicologicas) de uma sociedade ainda confusamente a procura de si propria e de um “futuro brilhante” num pais que se tenta reinventar, depois do mais estrondoso falhanco de uma tentativa mal-parida de invencao… enfim, por todas as conhecidas razoes. Acontece, porem, que nem toda a gente que a cobica, merecida ou imerecidamente, a tem, mesmo que possa ostentar um qualquer forjado, ou comprado, B.I.. Dai a inveja de quem, obviamente, inquestionavelmente e sem qualquer necessidade de comprovativos, em forma de documentos, bandeiras, ou mascaras, a tem… dai a necessidade compulsiva por parte de muitos de, nao so’ a tentarem obter “by all means necessary”, mas tambem de negarem, invalidarem, enfim, roubarem a nacionalidade Angolana de quem legitimamente a possui…

Dai os ataques cegos, as falas de “fuga” do pais, curiosamente por parte de criaturas que fugiram de Angola antes ou por altura da independencia e que nunca mais la’ voltaram, ou que, tendo-se la’ mantido, viveram la’ sempre em ilhas insuladas de todos os ventos e tempestades que durante os ultimos 32 anos afectaram a esmagadora maioria dos Angolanos… Disso ja’ falei extensamente no meu post sobre a musica do Bonga (entretanto editado, apenas por razoes que teem a ver com o meu caracter…), mas como, desde entao, tais ataques voltaram e continuam a verificar-se diariamente, como que brotando de uma fonte absurdamente inesgotavel de obtusidade, vejo-me forcada a voltar disso falar. Nao porque me sinta sob qualquer obrigacao de “prestar contas” a quem quer que seja sobre o meu “paradeiro”, ou sobre os ques, porques e aondes da minha residencia, nao que tenha que pedir desculpas a ninguem por ser IRREMEDIAVELMENTE ANGOLANA… Apenas, e tao so, porque gostaria, muito honesta e sinceramente, que certas pessoas ganhassem um pouco (uma vez que o “full monty” em tais casos se demonstra manifestamente impossivel) de nocao de ridiculo e vergonha na cara.

De resto, bem feitas as contas, na verdade nunca estive “fora” de Angola: se as minhas idas ao pais, anuais durante a primeira decada de residencia fora, menos frequentes, mas realizadas, durante a segunda decada e as sucessivas visitas que fiz, a intervalos de meses, nos ultimos cinco anos nao sao suficientes para o demonstrar, a minha participacao em diversas actividades e frequentes publicacoes sobre questoes Angolanas em varios “media outlets”, nacionais e internacionais, durante esse periodo de “ausencia”, para ja’ nao falar do permanente contacto com familiares e amigos na terra, atestam-no de forma inequivoca. Se, de todo esse tempo, algum periodo pode ser tido como de “ausencia total”, ele nao tera’ sido certamente maior do que o de qualquer das fulanas e sicranos que por ai andam a despejar bilis sobre a minha suposta “fuga” neste e noutros blogs… Direi apenas que e’, no minimo, aviltante, pretender-se ignorar, no meio de todos esses maus figados, que Angola nao foi um pais normal nos ultimos 30 anos… que, ‘a semelhanca de praticamente todos os paises Africanos, Angola tem contribuido com milhares, senao milhoes, dos seus nacionais para as vagas de emigracao para os paises vizinhos, a Europa, os EUA e um pouco para todo o mundo. Que tais ataques partam, via de regra, de nacionais, ou seus descendentes, de um pais, Portugal, conhecido historicamente como “pais de emigrantes” e que nunca teve uma guerra como a que Angola acaba de viver nas ultimas tres decadas, torna-o ainda mais aviltante e diz tudo sobre o (ou a falta de) caracter dos seus perpetradores e das suas verdadeiras motivacoes. E nao deixa de ser particularmente interessante que sejam os mesmos que recorrem bastamente ao “Angola da’ para todos” para justificarem os seus gritos de “todos para Angola e em forca”… Obviamente “todos” menos Angolanos como eu, que o unico crime que cometem e’ exporem objectivamente factos, historicos ou correntes, que essas criaturas nem sequer se atrevem a discutir ou contradizer, preferindo, muito vil e cobardemente, atacar a pessoa e as suas circunstancias, por manifestamente nao conseguirem “derrotar” as suas ideias! Mas… palavras para que, se o odio e a inveja, principalmente se acirrados pela cobica, sao cegos, como ja’ dizia S. Tomas de Aquino!

E, para finalizar, direi tambem isto: em termos legais, pelo menos ate’ 2012, vao ter que me “aturar” a falar e a comportar-me como ANGOLANA! Aqui e noutros espacos, reais ou virtuais – o que, na verdade, mais tem contribuido ultimamente para o acirrar de tais ataques: se outras provas nao bastassem, as doentias e vergonhosas reaccoes a minha recente entrevista ao blog Szavanna e, mais recentemente, ao meu post no GVO sobre o blog Serra da Chela, sao, quanto a isso, suficientemente elucidativas… Noutros termos, fiquem sabendo que a minha nacionalidade nao me foi “concedida” por nenhum Estado ou ser vivente: foi-o pelos meus ancestrais – todos enterrados em Angola! E, ja’ agora, mais direi: toda esta nefasta experiencia (com toda a sorte de sabotagens e hostilidades abertas ou veladas) apenas me tem demonstrado onde e’ que eu “NAO estaria” e o que “NAO teria sido” de mim, como mulher, como profissional e como ser humano, se nao tivesse encontrado a tempo este “safe heaven de Sua Magestade Britanica” – onde, que fique aqui registado, prefiro permanecer ate’ ao fim dos meus dias, do que regressar a uma Angola recolonizada ou neocolonizada!



[P.S.: Para complementar (encerrar?) esta conversa, deixo aqui em anexo mais uma cronica por mim publicada no SA ha’ 5 anos]




« (...) Os países comunistas excomungavam a emigração, considerada a mais odiosa traição. Todos os que permanecessem no exterior eram condenados in absencia no seu país de origem e os seus compatriotas não se atreviam a ter qualquer contacto com eles. (…) Se um país não é independente e nem sequer o quer ser, quererá alguém ainda morrer por ele? « (Extractos de «Ignorancia», por Milan Kundera)

Uma vez que estou em mare’ de peneirar as “riquissimas experiencias” que venho colhendo com este blog, impoe-se que fale de mais uma. Concretamente, dessa inusitada (embora nao inedita, porque desde que retomei um contacto mais directo e frequente com Angola nos ultimos anos ela vem-se repetindo com igual frequencia) vaga de ataques a minha nacionalidade. Confesso que e’ uma dessas coisas que se me afigura tao absurda que, apesar da frequencia com que se manifesta, das mais diversas origens e direccoes, nao consigo racionalizar.

Fala-se, no ambito da psicanalise, de “inveja do penis” ou de “inveja dos seios” por parte de quem nao tem uma coisa ou outra. A primeira condicao talvez explique alguns dos comportamentos que referi no meu post sobre “mulheres…” (este). Quanto a segunda, nao sei, dentre os meus mais abnegados detractores, quem a tera’, mas sei certamente que eu nao a tenho em relacao a ninguem… E parece-me tambem que qualquer desses tipos de inveja se assemelha muito ao que me parece ser “inveja da nacionalidade”.

E isto porque dificilmente se encontrara’ neste momento nacionalidade mais cobicada em Africa, ou em varias outras partes do mundo, do que a Angolana. Por todas, mais do que sabidas, razoes atinentes a extensao territorial, as riquezas naturais, as aparentemente vertiginosas taxas de crescimento economico, ao bom clima e belezas paisagisticas, a dita baixa densidade populacional, as fragilidades e carencias (materiais, sociais, espirituais e psicologicas) de uma sociedade ainda confusamente a procura de si propria e de um “futuro brilhante” num pais que se tenta reinventar, depois do mais estrondoso falhanco de uma tentativa mal-parida de invencao… enfim, por todas as conhecidas razoes. Acontece, porem, que nem toda a gente que a cobica, merecida ou imerecidamente, a tem, mesmo que possa ostentar um qualquer forjado, ou comprado, B.I.. Dai a inveja de quem, obviamente, inquestionavelmente e sem qualquer necessidade de comprovativos, em forma de documentos, bandeiras, ou mascaras, a tem… dai a necessidade compulsiva por parte de muitos de, nao so’ a tentarem obter “by all means necessary”, mas tambem de negarem, invalidarem, enfim, roubarem a nacionalidade Angolana de quem legitimamente a possui…

Dai os ataques cegos, as falas de “fuga” do pais, curiosamente por parte de criaturas que fugiram de Angola antes ou por altura da independencia e que nunca mais la’ voltaram, ou que, tendo-se la’ mantido, viveram la’ sempre em ilhas insuladas de todos os ventos e tempestades que durante os ultimos 32 anos afectaram a esmagadora maioria dos Angolanos… Disso ja’ falei extensamente no meu post sobre a musica do Bonga (entretanto editado, apenas por razoes que teem a ver com o meu caracter…), mas como, desde entao, tais ataques voltaram e continuam a verificar-se diariamente, como que brotando de uma fonte absurdamente inesgotavel de obtusidade, vejo-me forcada a voltar disso falar. Nao porque me sinta sob qualquer obrigacao de “prestar contas” a quem quer que seja sobre o meu “paradeiro”, ou sobre os ques, porques e aondes da minha residencia, nao que tenha que pedir desculpas a ninguem por ser IRREMEDIAVELMENTE ANGOLANA… Apenas, e tao so, porque gostaria, muito honesta e sinceramente, que certas pessoas ganhassem um pouco (uma vez que o “full monty” em tais casos se demonstra manifestamente impossivel) de nocao de ridiculo e vergonha na cara.

De resto, bem feitas as contas, na verdade nunca estive “fora” de Angola: se as minhas idas ao pais, anuais durante a primeira decada de residencia fora, menos frequentes, mas realizadas, durante a segunda decada e as sucessivas visitas que fiz, a intervalos de meses, nos ultimos cinco anos nao sao suficientes para o demonstrar, a minha participacao em diversas actividades e frequentes publicacoes sobre questoes Angolanas em varios “media outlets”, nacionais e internacionais, durante esse periodo de “ausencia”, para ja’ nao falar do permanente contacto com familiares e amigos na terra, atestam-no de forma inequivoca. Se, de todo esse tempo, algum periodo pode ser tido como de “ausencia total”, ele nao tera’ sido certamente maior do que o de qualquer das fulanas e sicranos que por ai andam a despejar bilis sobre a minha suposta “fuga” neste e noutros blogs… Direi apenas que e’, no minimo, aviltante, pretender-se ignorar, no meio de todos esses maus figados, que Angola nao foi um pais normal nos ultimos 30 anos… que, ‘a semelhanca de praticamente todos os paises Africanos, Angola tem contribuido com milhares, senao milhoes, dos seus nacionais para as vagas de emigracao para os paises vizinhos, a Europa, os EUA e um pouco para todo o mundo. Que tais ataques partam, via de regra, de nacionais, ou seus descendentes, de um pais, Portugal, conhecido historicamente como “pais de emigrantes” e que nunca teve uma guerra como a que Angola acaba de viver nas ultimas tres decadas, torna-o ainda mais aviltante e diz tudo sobre o (ou a falta de) caracter dos seus perpetradores e das suas verdadeiras motivacoes. E nao deixa de ser particularmente interessante que sejam os mesmos que recorrem bastamente ao “Angola da’ para todos” para justificarem os seus gritos de “todos para Angola e em forca”… Obviamente “todos” menos Angolanos como eu, que o unico crime que cometem e’ exporem objectivamente factos, historicos ou correntes, que essas criaturas nem sequer se atrevem a discutir ou contradizer, preferindo, muito vil e cobardemente, atacar a pessoa e as suas circunstancias, por manifestamente nao conseguirem “derrotar” as suas ideias! Mas… palavras para que, se o odio e a inveja, principalmente se acirrados pela cobica, sao cegos, como ja’ dizia S. Tomas de Aquino!

E, para finalizar, direi tambem isto: em termos legais, pelo menos ate’ 2012, vao ter que me “aturar” a falar e a comportar-me como ANGOLANA! Aqui e noutros espacos, reais ou virtuais – o que, na verdade, mais tem contribuido ultimamente para o acirrar de tais ataques: se outras provas nao bastassem, as doentias e vergonhosas reaccoes a minha recente entrevista ao blog Szavanna e, mais recentemente, ao meu post no GVO sobre o blog Serra da Chela, sao, quanto a isso, suficientemente elucidativas… Noutros termos, fiquem sabendo que a minha nacionalidade nao me foi “concedida” por nenhum Estado ou ser vivente: foi-o pelos meus ancestrais – todos enterrados em Angola! E, ja’ agora, mais direi: toda esta nefasta experiencia (com toda a sorte de sabotagens e hostilidades abertas ou veladas) apenas me tem demonstrado onde e’ que eu “NAO estaria” e o que “NAO teria sido” de mim, como mulher, como profissional e como ser humano, se nao tivesse encontrado a tempo este “safe heaven de Sua Magestade Britanica” – onde, que fique aqui registado, prefiro permanecer ate’ ao fim dos meus dias, do que regressar a uma Angola recolonizada ou neocolonizada!



[P.S.: Para complementar (encerrar?) esta conversa, deixo aqui em anexo mais uma cronica por mim publicada no SA ha’ 5 anos]

Tuesday, 17 April 2007

MAGAÍÇA... OU "QUANTO CUSTA UMA NOIVA?"




Foto: 'O sol nascendo a Oriente' by Ana Santana

MAGAÍÇA

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios
Tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.

E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse, voltou.
e com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado
embrulhado em ridículo.

Ás costas - ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?
trazes as malas cheias do falso brilho
do resto da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
á cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone...

A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer City.

(Noemia de Sousa)


A publicacao deste poema, que aqui fiz ha alguns dias, e agora tambem publicado no blog “A Materia do Tempo”, sugeriu-me uma das formas em que a blogosfera pode ser resgatada de uma certa tendencia de se a transformar em lugar de rivalidades, conflitos e “apartheids”.

O facto de o Denudado ter apresentado um breve glossario dos termos usados por Noemia de Sousa neste poema e o ter ilustrado com uma fotografia de “mamparras/magaicas” nas minas da Africa do Sul, sugeriu-me que talvez fosse oportuno ir desengavetar o texto em anexo (aqui), constituido por breves extractos de uma serie, que publiquei no Semanario Angolense (Luanda) em 2002, sobre a Historia Economica da Africa Austral. Nele faco uma breve analise historico-economica dos fluxos de trabalho migrante oscilatorio nas minas da Africa do Sul, de que o “mamparra/magaica” foi e, em grande medida, continua a ser, a figura central.

Com este post pretendo, portanto, contribuir para essa funcao de complementaridade, interaccao e partilha em que a blogosfera pode ser, positiva e produtivamente, usada e, tambem, salientar a funcao de analise e mensagem social que a poesia, quando escrita por poetas atenta(o)s e lucida(o)s, pode ter para o registo, ainda que apenas parcial, pontual e pictorico, da realidade social, economica, cultural e historica em qualquer pais ou regiao do mundo.



Stimela (Hugh Masekela)


“A análise económica, ou mesmo social, do trabalho migrante falhará em revelar o quadro completo dos seus custos em termos de miséria humana. Para apreender essa realidade, temos que ouvir a esposa solitária, a criança insegura... É ao nível familiar que o maior sofrimento é sentido e não nos podemos esquecer que a herança cultural Africana engloba um conceito de família mais abrangente e nobre do que a do Ocidente. A família alargada demonstrou-se uma excelente fonte de segurança para aqueles que, de outro modo, não teriam segurança alguma. O trabalho migrante destrói [esse tecido humano e social], ao retirar por longos períodos, o pai, o irmão, o marido e o amigo... e que ninguém tenha a ilusão de que esses homens podem viver vidas decentes num vacuum sexual.” (Barker: 1970)

“Há muito poucas dúvidas de que se grandes números de mineiros migrantes não especializados e com baixos salários não tivessem sido recrutados em todo o sub-continente, jamais teria havido uma indústria de extracção do ouro na África do Sul. Se depósitos similares aos da África do Sul tivessem sido encontrados na Austrália, no Canada, ou nos EUA, eles teriam certamente ficado por explorar devido à impossibilidade de mobilização da força de trabalho adequada. Ainda hoje, depois dos grandes avanços tecnológicos e da dramática mudança da estrutura de custos da indústria mineira, isso continua a ser verdade.” (Crush et al: 1991)

“De certo modo é até humilhante observar os mineiros a trabalhar... Levanta-se em nós uma momentânea dúvida sobre o nosso próprio status como ‘intelectuais’, ou pessoas superiores em geral. Faz-nos lembrar, pelo menos enquanto olhamos, que é apenas porque esses mineiros transpiram as suas entranhas até à exaustão que as pessoas superiores podem permanecer superiores. Você e eu, o editor do Times Literary Supplement e os poetas, o Arcebispo de Canterbury e o Camarada X, autor de ‘Marxismo para Infantes’ – todos nós devemos realmente a decência comparativa das nossas vidas aos pobres condenados nos subterrâneos... com as suas gargantas cheias de... poeira, erguendo e baixando as suas pás com braços e músculos de ferro” (George Orwell, Down the Mine, 1937)







Foto: 'O sol nascendo a Oriente' by Ana Santana

MAGAÍÇA

A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios
Tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.

E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse, voltou.
e com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado
embrulhado em ridículo.

Ás costas - ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?
trazes as malas cheias do falso brilho
do resto da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
á cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone...

A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualquer City.

(Noemia de Sousa)


A publicacao deste poema, que aqui fiz ha alguns dias, e agora tambem publicado no blog “A Materia do Tempo”, sugeriu-me uma das formas em que a blogosfera pode ser resgatada de uma certa tendencia de se a transformar em lugar de rivalidades, conflitos e “apartheids”.

O facto de o Denudado ter apresentado um breve glossario dos termos usados por Noemia de Sousa neste poema e o ter ilustrado com uma fotografia de “mamparras/magaicas” nas minas da Africa do Sul, sugeriu-me que talvez fosse oportuno ir desengavetar o texto em anexo (aqui), constituido por breves extractos de uma serie, que publiquei no Semanario Angolense (Luanda) em 2002, sobre a Historia Economica da Africa Austral. Nele faco uma breve analise historico-economica dos fluxos de trabalho migrante oscilatorio nas minas da Africa do Sul, de que o “mamparra/magaica” foi e, em grande medida, continua a ser, a figura central.

Com este post pretendo, portanto, contribuir para essa funcao de complementaridade, interaccao e partilha em que a blogosfera pode ser, positiva e produtivamente, usada e, tambem, salientar a funcao de analise e mensagem social que a poesia, quando escrita por poetas atenta(o)s e lucida(o)s, pode ter para o registo, ainda que apenas parcial, pontual e pictorico, da realidade social, economica, cultural e historica em qualquer pais ou regiao do mundo.



Stimela (Hugh Masekela)


“A análise económica, ou mesmo social, do trabalho migrante falhará em revelar o quadro completo dos seus custos em termos de miséria humana. Para apreender essa realidade, temos que ouvir a esposa solitária, a criança insegura... É ao nível familiar que o maior sofrimento é sentido e não nos podemos esquecer que a herança cultural Africana engloba um conceito de família mais abrangente e nobre do que a do Ocidente. A família alargada demonstrou-se uma excelente fonte de segurança para aqueles que, de outro modo, não teriam segurança alguma. O trabalho migrante destrói [esse tecido humano e social], ao retirar por longos períodos, o pai, o irmão, o marido e o amigo... e que ninguém tenha a ilusão de que esses homens podem viver vidas decentes num vacuum sexual.” (Barker: 1970)

“Há muito poucas dúvidas de que se grandes números de mineiros migrantes não especializados e com baixos salários não tivessem sido recrutados em todo o sub-continente, jamais teria havido uma indústria de extracção do ouro na África do Sul. Se depósitos similares aos da África do Sul tivessem sido encontrados na Austrália, no Canada, ou nos EUA, eles teriam certamente ficado por explorar devido à impossibilidade de mobilização da força de trabalho adequada. Ainda hoje, depois dos grandes avanços tecnológicos e da dramática mudança da estrutura de custos da indústria mineira, isso continua a ser verdade.” (Crush et al: 1991)

“De certo modo é até humilhante observar os mineiros a trabalhar... Levanta-se em nós uma momentânea dúvida sobre o nosso próprio status como ‘intelectuais’, ou pessoas superiores em geral. Faz-nos lembrar, pelo menos enquanto olhamos, que é apenas porque esses mineiros transpiram as suas entranhas até à exaustão que as pessoas superiores podem permanecer superiores. Você e eu, o editor do Times Literary Supplement e os poetas, o Arcebispo de Canterbury e o Camarada X, autor de ‘Marxismo para Infantes’ – todos nós devemos realmente a decência comparativa das nossas vidas aos pobres condenados nos subterrâneos... com as suas gargantas cheias de... poeira, erguendo e baixando as suas pás com braços e músculos de ferro” (George Orwell, Down the Mine, 1937)