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Thursday, 8 March 2012

ON INTERNATIONAL WOMEN'S DAY [*]



Poesia no Dia Internacional da Mulher



PRESENÇA AFRICANA (Alda Lara)
&
MEU AMOR DA RUA ONZE (Aires de Almeida Santos)

(Leia Aqui)



RESPECT (Aretha Franklin)


*[Postado inicialmente a 08/03/07]

Friday, 2 March 2012

NO "DIA DA MULHER ANGOLANA"... [R]*




Pela estrada desce a noite...
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvilias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.

Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...

Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo Mãe-Negra!

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta, bem calada.

É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada

Alda Lara


( ... Ha' quem continue a "saber tudo" e quem continue a "nao saber nada"... a questao e': "quem e' quem e quem sabe o que sobre o que"...)


Ngongo ya Biluka (Lourdes Van Dunem)


(NB: a cancao da saudosa Lourdes Van Dunem que eu queria realmente colocar aqui era o Monami. Mas, como nao a tenho, podera' ouvi-la no Kurikutela)


(Foto daqui)




*[Postado inicialmente a 02/03/2007]

Post Relacionado:

Ainda Sobre o Dia da Mulher Angolana




Pela estrada desce a noite...
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvilias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.

Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...

Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo Mãe-Negra!

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta, bem calada.

É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada

Alda Lara


( ... Ha' quem continue a "saber tudo" e quem continue a "nao saber nada"... a questao e': "quem e' quem e quem sabe o que sobre o que"...)


Ngongo ya Biluka (Lourdes Van Dunem)


(NB: a cancao da saudosa Lourdes Van Dunem que eu queria realmente colocar aqui era o Monami. Mas, como nao a tenho, podera' ouvi-la no Kurikutela)


(Foto daqui)




*[Postado inicialmente a 02/03/2007]

Post Relacionado:

Ainda Sobre o Dia da Mulher Angolana

Tuesday, 8 November 2011

Etu Mudietu...



Julgo que a ultima vez que estive com Luandino Vieira tera' sido durante umas longinquas ferias minhas em Luanda a que aqui me referia.
Depois disso, enquanto estive em Portugal, apenas a ocasional correspondencia, directa ou por terceiros e, desde que ‘me mudei’ para a Inglaterra, apenas a distancia e o silencio (excepto pela dedicatoria deste livro, que tambem me chegou as maos por terceiros).

Agora, ha’ umas semanas, o amigo Zetho Goncalves teve a amabilidade de me enviar, por email, o rio sem margem com o qual acabou por me (re)abrir o livro dos rios do Luandino Vieira, que (me) levou a dele receber por snailmail uma prenda antecipada de Natal: o conjunto dos livros ate’ agora publicados pela sua nova ‘micro-editora’
“Nos Somos”.

Tenho assim a oportunidade (rara) de poder ler nos proximos tempos, para alem do excelente livro do Zetho, do qual faco uma breve apresentacao abaixo, os seguintes titulos recentes de autores angolanos:

MOMENTOS (1958-2011)
Arnaldo Santos

POESIA (1961-1976)
António Jacinto

NÃO SAIAS SEM MIM À RUA ESTA MANHÃ
José Luís Mendonça

AFRICALEMA
José Luís Mendonça

MARCAS DA GUERRA PERCEPÇÃO ÍNTIMA & OUTROS FONEMAS DOUTRINÁRIOS
J.A.S. Lopito Feijóo K.




Retribuir em poema a poesia que subjaz à literatura angolana da tradição oral já recolhida e trasladada para a língua portuguesa – alguma, pouquíssima dela, aqui convocada e exposta -, é a razão primacial e o fim a que se propõe e destina este
Rio sem Margem.
(da Nota do Autor)


A ÁGUA

[Tradição oral Umbundu, Angola]

Não se deixa amarrar
com um cordel,
nem se deixa apertar
com um cinto

- a água.

Dorme caminhando,
e mesmo parada, ela anda

- a água.


O SONHO

[Tradição oral Kwanyana, Angola]

Parece verdadeiro,
o sonho que sonhaste.

Branco e luzidio
como um chifre de boi

- o sonho que sonhaste.


MOTIVOS DE CONVERSA

[Tradição oral Kikongo, Angola]

O veado
sem pele
e sem cornos

- quem o viu,
que ninguém se cala
com ele?

- Quando chove,
rebentam os troncos,
cresce o capim.

No pássaro
de cabeça decepada,
mil pombas se alimentam.

O veado
sem pele
e sem cornos

- quem o viu,
que ninguém se cala
com ele?


“Em todas as formas escritas da poesia”, escreve Octavio Paz em A outra voz, “o signo gráfico está sempre em função do oral.” Ora, sendo este um livro de poemas e não um tratado académico – que utiliza na sua fractura o alfabeto latino e se destina primeiramente a um público de língua portuguesa -, entendeu-se ser mais correcto grafar como se grafou o vocábulo “Tchokwé’”, e não “Cokwé”, posto ninguém ler os vocábulos “Cutato”, “Cabinda” ou “coqueiro”, por exemplo, como “Tchutato”, “Tchabinda” ou “tchóqueiro”, respectivamente.
(da Nota Final - este extracto e' particularmente relevante para as discussoes travadas aqui e aqui ha' ja' uns anitos...)



Julgo que a ultima vez que estive com Luandino Vieira tera' sido durante umas longinquas ferias minhas em Luanda a que
aqui me referia.
Depois disso, enquanto estive em Portugal, apenas a ocasional correspondencia, directa ou por terceiros e, desde que ‘me mudei’ para a Inglaterra, apenas a distancia e o silencio (excepto pela dedicatoria deste livro, que tambem me chegou as maos por terceiros).

Agora, ha’ umas semanas, o amigo Zetho Goncalves teve a amabilidade de me enviar, por email, o rio sem margem com o qual acabou por me (re)abrir o livro dos rios do Luandino Vieira, que (me) levou a dele receber por snailmail uma prenda antecipada de Natal: o conjunto dos livros ate’ agora publicados pela sua nova ‘micro-editora’
“Nos Somos”.

Tenho assim a oportunidade (rara) de poder ler nos proximos tempos, para alem do excelente livro do Zetho, do qual faco uma breve apresentacao abaixo, os seguintes titulos recentes de autores angolanos:

MOMENTOS (1958-2011)
Arnaldo Santos

POESIA (1961-1976)
António Jacinto

NÃO SAIAS SEM MIM À RUA ESTA MANHÃ
José Luís Mendonça

AFRICALEMA
José Luís Mendonça

MARCAS DA GUERRA PERCEPÇÃO ÍNTIMA & OUTROS FONEMAS DOUTRINÁRIOS
J.A.S. Lopito Feijóo K.




Retribuir em poema a poesia que subjaz à literatura angolana da tradição oral já recolhida e trasladada para a língua portuguesa – alguma, pouquíssima dela, aqui convocada e exposta -, é a razão primacial e o fim a que se propõe e destina este
Rio sem Margem.
(da Nota do Autor)


A ÁGUA

[Tradição oral Umbundu, Angola]

Não se deixa amarrar
com um cordel,
nem se deixa apertar
com um cinto

- a água.

Dorme caminhando,
e mesmo parada, ela anda

- a água.


O SONHO

[Tradição oral Kwanyana, Angola]

Parece verdadeiro,
o sonho que sonhaste.

Branco e luzidio
como um chifre de boi

- o sonho que sonhaste.


MOTIVOS DE CONVERSA

[Tradição oral Kikongo, Angola]

O veado
sem pele
e sem cornos

- quem o viu,
que ninguém se cala
com ele?

- Quando chove,
rebentam os troncos,
cresce o capim.

No pássaro
de cabeça decepada,
mil pombas se alimentam.

O veado
sem pele
e sem cornos

- quem o viu,
que ninguém se cala
com ele?


“Em todas as formas escritas da poesia”, escreve Octavio Paz em A outra voz, “o signo gráfico está sempre em função do oral.” Ora, sendo este um livro de poemas e não um tratado académico – que utiliza na sua fractura o alfabeto latino e se destina primeiramente a um público de língua portuguesa -, entendeu-se ser mais correcto grafar como se grafou o vocábulo “Tchokwé’”, e não “Cokwé”, posto ninguém ler os vocábulos “Cutato”, “Cabinda” ou “coqueiro”, por exemplo, como “Tchutato”, “Tchabinda” ou “tchóqueiro”, respectivamente.
(da Nota Final - este extracto e' particularmente relevante para as discussoes travadas aqui e aqui ha' ja' uns anitos...)

Sunday, 23 October 2011

Sabia Que?...



Esta avis rara, de nome Fregata Magnificens ou Man O’War, e'
nacional de Angola?...




... E se, nesse 'nosso pais tao lindo, tao lindo, inspirando emocoes', as cores da bandeira nacional tivessem sido nela inspiradas? ... Isto e', excepto no que o seu outro nome, "Man O'War", possa inspirar, ou sugerir, algo como "Homens em Guerra"!... Mesmo porque o seu peito sugere a cor e inspira a forma de um magnificente coracao/muxima...




Esta avis rara, de nome Fregata Magnificens ou Man O’War, e'
nacional de Angola?...




... E se, nesse 'nosso pais tao lindo, tao lindo, inspirando emocoes', as cores da bandeira nacional tivessem sido nela inspiradas? ... Isto e', excepto no que o seu outro nome, "Man O'War", possa inspirar, ou sugerir, algo como "Homens em Guerra"!... Mesmo porque o seu peito sugere a cor e inspira a forma de um magnificente coracao/muxima...


Saturday, 9 April 2011

A Proposito dos "Monologos da Vagina" (*)



... Ou...

Quando o Sexo (ou a falta dele) Comanda a Vida!




[Ana Paula Tavares, in "Ritos de Passagem" - Poema transcrito daqui]


N.B.: A maka e' quando "todos os rapazes" (e tambem algumas "raparigas"), especialmente quando julgam ja' ter passado "com sucesso" os "ritos de passagem" para "homens" e/ou "jornalistas", comecam a acreditar que "p(h)odem desaguar" em "todas as aboboras" (ou "meloes"?) seja como for, nem que seja atraves da violacao sexual, real ou simbolica! E, pior do que isso, quando o desconseguem por qualquer razao, "viram bicho" e vao queixar-se a casa das suas "mamas da OMA", que depois aparecem com eles em mesas redondas e nas paginas dos seus pasquins a "ralhar" com as suas vitimas, a insulta-las, a difama-las, a calunia-las e a injuria-las, e depois viram surdo(a)s-mudo(a)s e comecam a atacar as portadoras de tais "aboboras" (ou "meloes") com pornografia e outros "amores" como a calunia e difamacao, assassinio de caracter e ate' ameacas de morte, por entre o seu linchamento publico, em nome dos "valores e principios" (quais, de quem e para quem?) e em seguida fazem-nas desaparecer da vista juntamente com as suas obras e ideais, das quais se apropriam e passam a assinar como suas!... A velha estoria do "quem desdenha quer comprar"!...





Nao pretendendo entrar aqui em outro tipo de consideracoes (como estas, ou estas, ou ainda estas), parece-me ser relativamente consensual e pacifico que o lancamento simultaneo, em 1985, pela Uniao dos Escritores Angolanos (UEA), dos livros Ritos de Passagem de Ana Paula Tavares e Sabores, Odores & Sonho da humilde autora destas linhas, marcou tambem o lancamento de, na altura, novas linguagens na abordagem das questoes da feminilidade e da sexualidade da Mulher por autoras Angolanas (e, perante algumas outras versoes da historia, nunca sera' demais notar que nao nos conheciamos pessoalmente, nem 'as nossas respectivas poesias - certamente eu nao conhecia a da Paula Tavares - antes da publicacao desses livros). E isso, pelo menos "oficial ou oficiosamente" tera' sido reconhecido, mas... nos bastidores (como, alias, o surgimento deste blog acabou por trazer a tona), as coisas nunca foram assim tao consensuais nem pacificas!

De facto, se Ana Paula Tavares tera' sido "acusada de ter falta de homem, ressabiada, pornógrafa", etc., como ela propria aqui revelou, no meu caso, os ecos mais marcantes que me chegaram de Luanda pouco depois do lancamento do meu livro (eu na altura ja' me encontrava a estudar em Portugal - e a esse proposito, lembro-me de durante umas ferias minhas em Luanda naquele periodo ter dito a Luandino Vieira que estava arrependida de ter publicado o meu livro, ao que ele me respondeu, com um ar grave de mais-velho, pouco caracteristico dele nas nossas conversas: "nunca se arrependa de nada do que faca em literatura"!) e continuam ate' hoje a ressoar aos meus ouvidos foram: que um grupo de homens, entre escritores e outros "intelectuais", se andavam a vangloriar de "se terem masturbado ao le-lo" e, enquanto isso, um grupo de mulheres, supostamente tambem "intelectuais", tinha encenado uma peca de teatro cujo tema eram uns "sabores, odores e sonhos" que tinham a ver exclusivamente com "receitas de culinaria" e assuntos de "cama e mesa"!... E nao, elas nao tinham exactamente em mente a exortacao de Natalia Correia: "oh sub-alimentados do sonho, a poesia e' para se comer"!


[imagem daqui]

E, depois disso, que ninguem sequer me pergunte, quantas vezes e por quem, ao longo dos anos e ate' muito recentemente, fui chamada, aberta ou veladamente, de nada mais nada menos do que "prostituta", "promiscua", ou "poluta", por nenhuma outra razao do que a publicacao desse livro (... e talvez tambem - pasme-se, ria-se ou chore-se - apenas devido aos meus labios: ouvi uma vez de uma dessas 'cavalheiras', naquele jeito so' delas de atirarem insultos a cara como se estivessem a falar de outra pessoa, que eu tinha "labios de puta"!!!... - e "com a agravante" de nunca ter sido "casada de papel passado e alianca no dedo" e ser "mae solteira"!...

Tudo isso acrescido por ressaibos, raivas, invejas, ciumes, despeitos e odios descontrolados por supostamente eu "ter ido para a cama com todos os escritores que tinham poder de decisao na UEA", alegadamente "unica razao pela qual o meu livro tinha sido publicado em vez de outros" e eu ter sido "promovida" a membro da UEA "e nao outros"!... Embora o unico escritor com quem a visada dormira/vivera nao tivesse qualquer ligacao aos circulos da UEA e quando soube da publicacao do livro 4/5 anos depois de separados, tenha sido, apenas por despeito, o que mais fez para tentar sabotar a sua possivel futura carreira literaria, enquanto tudo fazia para "promover" precisamente os que hoje se dizem "preteridos a seu favor"...

E isso para nao mencionar que, aparentemente, para "todo o mundo" eu nao passava de uma "catorzinha", "miuda", ou "rapariga", que "nao tinha nascido mulher, nem me tinha ainda feito mulher" (viz. De Beauvoir, ou "A Senhora Professora"...), ou "a insustentavel diferenca de idades", supostamente "ao contrario delas proprias", que eram "mais velhas" e aparentemente por isso "preteridas em meu beneficio" pelos homens mais proximos da sua faixa etaria... E isto para falar apenas "na generalidade", porque na "especialidade", ha', por exemplo, o caso proeminente de uma certa "alta representante da negritude branca pos-colonial" que alega ter tido "uma relacao afectiva" com um certo politico, intelectual e critico literario de nomeada, ja' falecido, que nao me perdoa o facto de a dada altura ter visto o "objecto dos seus afectos" virar as suas "atencoes e intencoes afectivas" para "todo o mundo", ou seja... para mim!...

Embora, que se saiba, nao tenham apresentado a UEA, na altura ou em qualquer outra ocasiao, qualquer proposta de publicacao das suas "mui maturas, vetustas, academicas e intelectuais obras"! Mas nao e' curioso que elas continuem a pensar o mesmo e a agir em conformidade ainda hoje quando eu ja' tenho 50 anos de idade? E quando lhes deixei o ultimo quarto de seculo (!), com o meu silencio, o campo completamente livre e aberto para afirmarem, demonstrarem e consolidarem toda a sua "imensa mais-velhice"! ... E quando contaram sempre com o(s) apoio(s) de todos os p(h)oderes?!... E isto para falar apenas nas "velhotas", "velhacas" e "bruacas", porque agora tenho tambem que aturar as "novatas", "neofitas" e "sanguitas" que comecaram (finalmente!) a tentar "sair da casca" e entendem que para se afirmarem como "mulheres" dignas desse nome teem que passar pelo 'rito de passagem' de "medir forcas" comigo!... Porque... "eu tambem sou poeta (poetisa?) e se publicaste 25 poemas eu publico 25+1, tambem sou jornalista, tambem sou economista, tambem escrevo ingles, tambem sou intelectual, cientista e academica, tambem sou adviser/consultora, tambem sou bonita e tambem viajo em primeira classe" e "nao podem ser sempre os mesmos a beneficiar", "e tambem quero ter os teus amigos (mas so' os brancos e mulatos!...)", caso contrario... "convem sabermos sempre o que nos espera"! Ou, recorrendo, mais uma vez, a letra de uma das cancoes do Afroman: "todos querem aparecer, todos querem dar show!; mesmo que nao es, todos dizem: eu tambem sou!"

Mas desde ja' vos aviso a todas:
NAO ESTOU DISPONIVEL!

Portanto, se alguem quiser perceber mais claramente as razoes mais profundas (...como se elas nao fossem suficientemente auto-evidentes!...) do ultraje e repugnancia que manifesto perante a pornografia em geral e, em particular, a certas "interpretacoes", "apropriacoes", "vulturacoes" e outros "usos e abusos" dos meus poemas com que continuo a ser atormentada psicologicamente ate' hoje, 25 anos depois da sua publicacao (... por isso "fui arranjar esta maka" e fiz as afirmacoes que fiz aqui a proposito do "sucesso da Chimamanda"!...), por entre orgias como esta e kampanhas como esta e a falta de conhecimento/entendimento de, e sensibilidade para, questoes como as abordadas aqui, aqui e aqui , entre outros posts e comentarios neste blog (como aqui ), queira por favor tomar boa nota desses factos...





(*) Chegam-me noticias de que a peca "The Vagina Monologues" encontra-se neste momento a ser "angolanizada" e em vias de subir aos palcos luandenses... Gostava de la' estar so' para ver as reaccoes, mas, como e' bom de ver e a menos que as mentalidades locais tenham mudado significativamente desde os anos 80 - do que nao tenho qualquer evidencia, a nao ser para pior e... pior ainda! - o melhor teatro faz-se, e as reaccoes mais "genuinas" a ele expressam-se, sempre nos bastidores...
GOOD LUCK GIRLS!




ADENDA


"THEY ARE SO INCOMPETENT THAT EVERY TIME THEY FEEL THE HEAT BECAUSE WOMEN ARE CHALLENGING THEM THEY HAVE TO CHECK THEIR GENITALIA IF ONLY TO REASSURE THEMSELVES… I AM NOT INTERESTED IN THAT PART OF THE ANATOMY, THE ISSUES I AM DEALING WITH REQUIRE THE UTILISATION OF WHAT IS ABOVE THE NECK." - Wangari Maathai




Aos Homens da Noite


Queria dizer-vos
do melhor retrato que colhi
do vosso mais querido fantasma

Mas
eis que o escárnio irrompe
de dentro das vossas braguilhas
descaradas

Vale-me a sensatez da música
dizendo em ritmo de semba
da mulata côr muamba
e lábios pitanga

e solta-se a minha gargalhada
na noite.


[A.S. in S.O.S. - poema transcrito daqui]


[Jornalismo de Tesao]


Algumas sugestoes para uns possiveis (…e recomendaveis…)
“Monologos do Penis”:


- O ‘minion’ sexagenario que, de tao complexado pelo seu "tamanhinho", achava que tinha perdido a sua mulher para outro(s) home(ns)m apenas por aquele(s) “o ter(em) grande”… e por isso sentia tanta necessidade de se "elevar" a antigo combatente do quartier latin, ja' que os seus permanentes suspensorios nunca o conseguiram elevar a lugar algum...

- O 'tio-padrinho do coitado' que, apesar de o ter "velho e sobre-usado",
uma vez quiz abusar da confianca e inocencia de uma 'miuda' que o via como a um pai e tentou forcar-se sobre ela, tendo-o esta rejeitado pronta e decididamente naquele momento, "pondo-o no seu devido lugar", sendo que por isso ele nunca viria a aceitar de bom grado o posterior relacionamento da 'miuda' com o seu sobrinho, de quem ela viria a ter um filho...

- O ‘coitado’ que o tinha tao "diminuto" que a unica forma que encontrara para provar ‘a sociedade (e em particular aos seus “amigos do copo”) a sua "masculinidade" foi fazer-se rodear permanentemente de mulheres e fazer filhos aqui e ali ‘a saciedade sem qualquer sentido de responsabilidade…

- O ‘svengali’ que, apesar de o ter “bem abonado”, achava que tinha perdido a sua ‘gazela’ de volta para o seu ‘coitado’ por este “o ter maior que o dele”…

- O ‘escriba’ que o tinha “tao ilusionista” que a unica forma que encontrou para preencher “o vazio” deixado na sua ‘musa intermitente’ foi dedicar-lhe um livro de poemas 'a sua revelia…

- O ‘outro escriba’ que apesar de casado “com mais de uma mulher”, tinha-o "tao insatisfeito" que escrevia cartas a uma ‘miuda’, que por acaso havia sido uma das melhores amigas da “sua casada”, descrevendo-lhe as partes do seu corpo que mais o excitavam e que lhe apetecia “comer pela primeira vez” (…nunca o conseguiria, no entanto…), como se este fosse uma peca de carne exposta num qualquer talho do seu bairro…

- O ‘diplomata’ que tinha “tantos problemas” com o seu e vivia tao obcecado com a ideia de 'sexo' que ao ver a sua ‘paixao’ (...ou pelo menos uma delas...) escapar-se-lhe para um 'homem humilde' e mais jovem que manifestamente nao tinha tais problemas nem obcessoes, tratou de difama-la e desfeitea-la perante “todo o mundo”…

- O 'outro diplomata' e 'poeta' que tinha fama de "garanhao" e que tentou forcar a entrada no quarto de hotel de uma 'miuda' durante uma conferencia na "sua ilha", tendo a 'miuda' posto toda a sua forca contra dele e conseguido fechar-lhe a porta na cara... Para Sempre!

- O 'radialista' que se deixou envolver e incentivou uma "relacao afectiva estritamente profissional" com uma ouvinte-participante do seu programa e que, enquanto "se recusava" a conhece-la pessoalmente, lhe fazia telefonemas noturnos (..."pelo postigo"...) a dizer-lhe obscenidades e a masturbar-se, ao que ela imediatamente lhe desligava o telefone na cara... o que, interestingly enough, me faz lembrar um certo 'oficial de kampanha'...

- O 'estagiario' que ao sentir-se “diminuido e atacado” na sua masculinidade por uma mulher mais educada, mais qualificada, mais experiente e melhor remunerada do que ele, entendeu que a melhor forma de a “diminuir” tambem e "coloca-la ao seu nivel" era fazer-lhe um ataque pornografico no local de trabalho…

- O ‘oficial de kampanha’ que, em nome de um qualquer “amor ficticio, fantasioso, fantasista, fantasmagorico e falacioso” e da sua manifesta necessidade de demonstrar a sua masculinidade atraves da procriacao descontrolada, enquanto se travestia (masturbava?) em multiplas "inteligentes todas-poderosas identidades femininas" tentando "engrossar" a sua "cortina de fumo", entendeu transformar o (um dos?... “cada caso e’ um caso”, ou "cada paixao e' uma paixao" como tambem dizia o ‘outro escriba’…) objecto(s) dos seus “desejos insatisfeitos” (sobretudo sociais e academico-profissionais) em “homem em corpo de mulher” ou “mulher em corpo de homem”… porque, afinale, a "unica forma" de placar a ascensao (ou "pretensao/presuncao" como lhe chamava o 'minion'?) academico-profissional de uma mulher, especialmente quando se pretende "competir" na sua area de especialidade mesmo sem qualificacoes para tal, e' "objectifica-la sexualmente" e/ou "enche-la de filhos", real ou virtualmente, mesmo quando se e' casado com (muitos!) filhos e ela ja' tenha idade para ser avo!...

-Os ‘kabungados’, 'kafajestes', 'kanalhas', 'kamundongos', 'kissondes', 'kamafeus', 'kifumbis', 'karrapatos', 'kachorros', 'kaxikos', 'mabekos', 'makakos', 'meketrefes', 'malaikos', 'parasitas', 'tarados', ‘execraveis putos pes-descalcos’, 'atrasados mentais', ‘pachecos’, 'pompilhos' e outros ‘rapazes’ (ou 'boys'), que, com razao ou sem ela, se sentiam tao “castrados” pelo poder de estado e pelo seu "pai grande" (ou pelos seus patroes?!... ou pelos seus "ex-novos colonos"?!... ou pelas suas "mulheres"?!... ou pelas suas "mabundas"?!... ou pelas suas "baronas"?!... ou pelas suas "latonas"?!... ou pelas suas "loirinhas"?!... ou pelas suas "belles de jour"?!... ou pelas suas "professoras"?!... ou pelas suas "maes"?!...) - enquanto 'chupavam' abundantemente da sua mesa, sacos azuis, envelopes castanhos, cabazes e pactos de regime -, que a unica forma de tentarem recuperar e demonstrar a sua “imensa masculinidade” e prencherem os seus "super-deficitarios e hiper-inflacionados egos" era usarem totalitaria, criminosa e impunemente o seu ‘quarto p(h)oder’ (... qual bando ou matilha de ton-tons makutes feios, porcos e maus, selvagens sem lei, rei nem roque e muito menos escrupulos ou caracter, trapaceiros e arruaceiros, mercadores e sacristas, bufos, social e comunicacionalmente incompetentes, verbal e sexualmente incontinentes, debochados, embriagados, drogados e irresponsaveis, complexados e cobardemente escondidos por detras das suas cortinas de fumo e de ferro...) sobre uma mulher que sentiam "fazer-lhes sombra" profissionalmente, na qual projectavam as suas frustracoes, insatisfacoes, inadequacoes, incompetencias e insegurancas e sobre a qual fantasiavam que os havia “coisificado”, apesar de nem sequer a conhecerem pessoalmente de parte alguma, enquanto colocavam pelo meio, "para lhe fazer ciumes" (wankers and silly boys indeed!), entre outras "bonitonas" bem acomodadas nas poltronas do p(h)oder, "impolutas", "academicas" e "intelectuais a prova de bala, espinafre e kizaka", uma certa ninfa, ninfomaniaca, lesbica, pornografa, sado-masoquista, racista supremacista branca de extrema direita, vulta, psicopata e assassina blonde bombshell barbie doll e bailarina classica metida a genuina katchokwe'-cum-Jessica Rabbit (silly girl indeed!) …

[... e repare-se que nao mencionei 'racas', nem falei em 'melaninas'...]






“We have to respect every woman, even a woman who is one day old. Why? Because some day she will grow up to be somebody’s mother.”
Stokely Carmichael (aka Kwame Toure), cited by Miriam Makeba (aka Mama Afrika)

"(...) Age was respected among his people, but achievement was revered. As the elders said, if a child washed his hands he could eat with kings. Okonkwo had clearly washed his hands and so he ate with kings and elders."
Biyi Bandele [in Introduction to Chinua Achebe's Things Fall Apart - Penguim, 2001 edition]

N.B.: Chinua Achebe started writing Things Fall Apart, his magnum opus published three years later, in 1958, which has earned him the title of 'The Grandfather of African Literature', at the age of 25.


"We cannot trample upon the humanity of others without devaluing our own. The Igbo, always practical, put it concretely in their proverb Onye ji onye n'ani ji onwe ya: "He who will hold another down in the mud must stay in the mud to keep him down."
[Chinua Achebe]

Ou, alternativamente, em Portugues: Yanick Ngombo, a.k.a. Afroman, membro da etnia Bakongo (tal como os Igbo, igualmente com um sentido bastante pratico das coisas mundanas, para que lhes sobre tempo suficiente para as coisas do espirito, como a metafisica ou a filosofia), diz numa das suas cancoes algo como isto: "... e' como o porco que arrasta o javali para uma luta na lama: os dois vao se sujar, mas o porco gosta porque assim ganha fama!



... Ou...

Quando o Sexo (ou a falta dele) Comanda a Vida!



[Ana Paula Tavares, in "Ritos de Passagem" - Poema transcrito daqui]


N.B.: A maka e' quando "todos os rapazes" (e tambem algumas "raparigas"), especialmente quando julgam ja' ter passado "com sucesso" os "ritos de passagem" para "homens" e/ou "jornalistas", comecam a acreditar que "p(h)odem desaguar" em "todas as aboboras" (ou "meloes"?) seja como for, nem que seja atraves da violacao sexual, real ou simbolica! E, pior do que isso, quando o desconseguem por qualquer razao, "viram bicho" e vao queixar-se a casa das suas "mamas da OMA", que depois aparecem com eles em mesas redondas e nas paginas dos seus pasquins a "ralhar" com as suas vitimas, a insulta-las, a difama-las, a calunia-las e a injuria-las, e depois viram surdo(a)s-mudo(a)s e comecam a atacar as portadoras de tais "aboboras" (ou "meloes") com pornografia e outros "amores" como a calunia e difamacao, assassinio de caracter e ate' ameacas de morte, por entre o seu linchamento publico, em nome dos "valores e principios" (quais, de quem e para quem?) e em seguida fazem-nas desaparecer da vista juntamente com as suas obras e ideais, das quais se apropriam e passam a assinar como suas!... A velha estoria do "quem desdenha quer comprar"!...





Nao pretendendo entrar aqui em outro tipo de consideracoes (como estas, ou estas, ou ainda estas), parece-me ser relativamente consensual e pacifico que o lancamento simultaneo, em 1985, pela Uniao dos Escritores Angolanos (UEA), dos livros Ritos de Passagem de Ana Paula Tavares e Sabores, Odores & Sonho da humilde autora destas linhas, marcou tambem o lancamento de, na altura, novas linguagens na abordagem das questoes da feminilidade e da sexualidade da Mulher por autoras Angolanas (e, perante algumas outras versoes da historia, nunca sera' demais notar que nao nos conheciamos pessoalmente, nem 'as nossas respectivas poesias - certamente eu nao conhecia a da Paula Tavares - antes da publicacao desses livros). E isso, pelo menos "oficial ou oficiosamente" tera' sido reconhecido, mas... nos bastidores (como, alias, o surgimento deste blog acabou por trazer a tona), as coisas nunca foram assim tao consensuais nem pacificas!

De facto, se Ana Paula Tavares tera' sido "acusada de ter falta de homem, ressabiada, pornógrafa", etc., como ela propria aqui revelou, no meu caso, os ecos mais marcantes que me chegaram de Luanda pouco depois do lancamento do meu livro (eu na altura ja' me encontrava a estudar em Portugal - e a esse proposito, lembro-me de durante umas ferias minhas em Luanda naquele periodo ter dito a Luandino Vieira que estava arrependida de ter publicado o meu livro, ao que ele me respondeu, com um ar grave de mais-velho, pouco caracteristico dele nas nossas conversas: "nunca se arrependa de nada do que faca em literatura"!) e continuam ate' hoje a ressoar aos meus ouvidos foram: que um grupo de homens, entre escritores e outros "intelectuais", se andavam a vangloriar de "se terem masturbado ao le-lo" e, enquanto isso, um grupo de mulheres, supostamente tambem "intelectuais", tinha encenado uma peca de teatro cujo tema eram uns "sabores, odores e sonhos" que tinham a ver exclusivamente com "receitas de culinaria" e assuntos de "cama e mesa"!... E nao, elas nao tinham exactamente em mente a exortacao de Natalia Correia: "oh sub-alimentados do sonho, a poesia e' para se comer"!


[imagem daqui]

E, depois disso, que ninguem sequer me pergunte, quantas vezes e por quem, ao longo dos anos e ate' muito recentemente, fui chamada, aberta ou veladamente, de nada mais nada menos do que "prostituta", "promiscua", ou "poluta", por nenhuma outra razao do que a publicacao desse livro (... e talvez tambem - pasme-se, ria-se ou chore-se - apenas devido aos meus labios: ouvi uma vez de uma dessas 'cavalheiras', naquele jeito so' delas de atirarem insultos a cara como se estivessem a falar de outra pessoa, que eu tinha "labios de puta"!!!... - e "com a agravante" de nunca ter sido "casada de papel passado e alianca no dedo" e ser "mae solteira"!...

Tudo isso acrescido por ressaibos, raivas, invejas, ciumes, despeitos e odios descontrolados por supostamente eu "ter ido para a cama com todos os escritores que tinham poder de decisao na UEA", alegadamente "unica razao pela qual o meu livro tinha sido publicado em vez de outros" e eu ter sido "promovida" a membro da UEA "e nao outros"!... Embora o unico escritor com quem a visada dormira/vivera nao tivesse qualquer ligacao aos circulos da UEA e quando soube da publicacao do livro 4/5 anos depois de separados, tenha sido, apenas por despeito, o que mais fez para tentar sabotar a sua possivel futura carreira literaria, enquanto tudo fazia para "promover" precisamente os que hoje se dizem "preteridos a seu favor"...

E isso para nao mencionar que, aparentemente, para "todo o mundo" eu nao passava de uma "catorzinha", "miuda", ou "rapariga", que "nao tinha nascido mulher, nem me tinha ainda feito mulher" (viz. De Beauvoir, ou "A Senhora Professora"...), ou "a insustentavel diferenca de idades", supostamente "ao contrario delas proprias", que eram "mais velhas" e aparentemente por isso "preteridas em meu beneficio" pelos homens mais proximos da sua faixa etaria... E isto para falar apenas "na generalidade", porque na "especialidade", ha', por exemplo, o caso proeminente de uma certa "alta representante da negritude branca pos-colonial" que alega ter tido "uma relacao afectiva" com um certo politico, intelectual e critico literario de nomeada, ja' falecido, que nao me perdoa o facto de a dada altura ter visto o "objecto dos seus afectos" virar as suas "atencoes e intencoes afectivas" para "todo o mundo", ou seja... para mim!...

Embora, que se saiba, nao tenham apresentado a UEA, na altura ou em qualquer outra ocasiao, qualquer proposta de publicacao das suas "mui maturas, vetustas, academicas e intelectuais obras"! Mas nao e' curioso que elas continuem a pensar o mesmo e a agir em conformidade ainda hoje quando eu ja' tenho 50 anos de idade? E quando lhes deixei o ultimo quarto de seculo (!), com o meu silencio, o campo completamente livre e aberto para afirmarem, demonstrarem e consolidarem toda a sua "imensa mais-velhice"! ... E quando contaram sempre com o(s) apoio(s) de todos os p(h)oderes?!... E isto para falar apenas nas "velhotas", "velhacas" e "bruacas", porque agora tenho tambem que aturar as "novatas", "neofitas" e "sanguitas" que comecaram (finalmente!) a tentar "sair da casca" e entendem que para se afirmarem como "mulheres" dignas desse nome teem que passar pelo 'rito de passagem' de "medir forcas" comigo!... Porque... "eu tambem sou poeta (poetisa?) e se publicaste 25 poemas eu publico 25+1, tambem sou jornalista, tambem sou economista, tambem escrevo ingles, tambem sou intelectual, cientista e academica, tambem sou adviser/consultora, tambem sou bonita e tambem viajo em primeira classe" e "nao podem ser sempre os mesmos a beneficiar", "e tambem quero ter os teus amigos (mas so' os brancos e mulatos!...)", caso contrario... "convem sabermos sempre o que nos espera"! Ou, recorrendo, mais uma vez, a letra de uma das cancoes do Afroman: "todos querem aparecer, todos querem dar show!; mesmo que nao es, todos dizem: eu tambem sou!"

Mas desde ja' vos aviso a todas:
NAO ESTOU DISPONIVEL!

Portanto, se alguem quiser perceber mais claramente as razoes mais profundas (...como se elas nao fossem suficientemente auto-evidentes!...) do ultraje e repugnancia que manifesto perante a pornografia em geral e, em particular, a certas "interpretacoes", "apropriacoes", "vulturacoes" e outros "usos e abusos" dos meus poemas com que continuo a ser atormentada psicologicamente ate' hoje, 25 anos depois da sua publicacao (... por isso "fui arranjar esta maka" e fiz as afirmacoes que fiz aqui a proposito do "sucesso da Chimamanda"!...), por entre orgias como esta e kampanhas como esta e a falta de conhecimento/entendimento de, e sensibilidade para, questoes como as abordadas aqui, aqui e aqui , entre outros posts e comentarios neste blog (como aqui ), queira por favor tomar boa nota desses factos...





(*) Chegam-me noticias de que a peca "The Vagina Monologues" encontra-se neste momento a ser "angolanizada" e em vias de subir aos palcos luandenses... Gostava de la' estar so' para ver as reaccoes, mas, como e' bom de ver e a menos que as mentalidades locais tenham mudado significativamente desde os anos 80 - do que nao tenho qualquer evidencia, a nao ser para pior e... pior ainda! - o melhor teatro faz-se, e as reaccoes mais "genuinas" a ele expressam-se, sempre nos bastidores...
GOOD LUCK GIRLS!




ADENDA


"THEY ARE SO INCOMPETENT THAT EVERY TIME THEY FEEL THE HEAT BECAUSE WOMEN ARE CHALLENGING THEM THEY HAVE TO CHECK THEIR GENITALIA IF ONLY TO REASSURE THEMSELVES… I AM NOT INTERESTED IN THAT PART OF THE ANATOMY, THE ISSUES I AM DEALING WITH REQUIRE THE UTILISATION OF WHAT IS ABOVE THE NECK." - Wangari Maathai




Aos Homens da Noite


Queria dizer-vos
do melhor retrato que colhi
do vosso mais querido fantasma

Mas
eis que o escárnio irrompe
de dentro das vossas braguilhas
descaradas

Vale-me a sensatez da música
dizendo em ritmo de semba
da mulata côr muamba
e lábios pitanga

e solta-se a minha gargalhada
na noite.


[A.S. in S.O.S. - poema transcrito daqui]


[Jornalismo de Tesao]


Algumas sugestoes para uns possiveis (…e recomendaveis…)
“Monologos do Penis”:


- O ‘minion’ sexagenario que, de tao complexado pelo seu "tamanhinho", achava que tinha perdido a sua mulher para outro(s) home(ns)m apenas por aquele(s) “o ter(em) grande”… e por isso sentia tanta necessidade de se "elevar" a antigo combatente do quartier latin, ja' que os seus permanentes suspensorios nunca o conseguiram elevar a lugar algum...

- O 'tio-padrinho do coitado' que, apesar de o ter "velho e sobre-usado",
uma vez quiz abusar da confianca e inocencia de uma 'miuda' que o via como a um pai e tentou forcar-se sobre ela, tendo-o esta rejeitado pronta e decididamente naquele momento, "pondo-o no seu devido lugar", sendo que por isso ele nunca viria a aceitar de bom grado o posterior relacionamento da 'miuda' com o seu sobrinho, de quem ela viria a ter um filho...

- O ‘coitado’ que o tinha tao "diminuto" que a unica forma que encontrara para provar ‘a sociedade (e em particular aos seus “amigos do copo”) a sua "masculinidade" foi fazer-se rodear permanentemente de mulheres e fazer filhos aqui e ali ‘a saciedade sem qualquer sentido de responsabilidade…

- O ‘svengali’ que, apesar de o ter “bem abonado”, achava que tinha perdido a sua ‘gazela’ de volta para o seu ‘coitado’ por este “o ter maior que o dele”…

- O ‘escriba’ que o tinha “tao ilusionista” que a unica forma que encontrou para preencher “o vazio” deixado na sua ‘musa intermitente’ foi dedicar-lhe um livro de poemas 'a sua revelia…

- O ‘outro escriba’ que apesar de casado “com mais de uma mulher”, tinha-o "tao insatisfeito" que escrevia cartas a uma ‘miuda’, que por acaso havia sido uma das melhores amigas da “sua casada”, descrevendo-lhe as partes do seu corpo que mais o excitavam e que lhe apetecia “comer pela primeira vez” (…nunca o conseguiria, no entanto…), como se este fosse uma peca de carne exposta num qualquer talho do seu bairro…

- O ‘diplomata’ que tinha “tantos problemas” com o seu e vivia tao obcecado com a ideia de 'sexo' que ao ver a sua ‘paixao’ (...ou pelo menos uma delas...) escapar-se-lhe para um 'homem humilde' e mais jovem que manifestamente nao tinha tais problemas nem obcessoes, tratou de difama-la e desfeitea-la perante “todo o mundo”…

- O 'outro diplomata' e 'poeta' que tinha fama de "garanhao" e que tentou forcar a entrada no quarto de hotel de uma 'miuda' durante uma conferencia na "sua ilha", tendo a 'miuda' posto toda a sua forca contra dele e conseguido fechar-lhe a porta na cara... Para Sempre!

- O 'radialista' que se deixou envolver e incentivou uma "relacao afectiva estritamente profissional" com uma ouvinte-participante do seu programa e que, enquanto "se recusava" a conhece-la pessoalmente, lhe fazia telefonemas noturnos (..."pelo postigo"...) a dizer-lhe obscenidades e a masturbar-se, ao que ela imediatamente lhe desligava o telefone na cara... o que, interestingly enough, me faz lembrar um certo 'oficial de kampanha'...

- O 'estagiario' que ao sentir-se “diminuido e atacado” na sua masculinidade por uma mulher mais educada, mais qualificada, mais experiente e melhor remunerada do que ele, entendeu que a melhor forma de a “diminuir” tambem e "coloca-la ao seu nivel" era fazer-lhe um ataque pornografico no local de trabalho…

- O ‘oficial de kampanha’ que, em nome de um qualquer “amor ficticio, fantasioso, fantasista, fantasmagorico e falacioso” e da sua manifesta necessidade de demonstrar a sua masculinidade atraves da procriacao descontrolada, enquanto se travestia (masturbava?) em multiplas "inteligentes todas-poderosas identidades femininas" tentando "engrossar" a sua "cortina de fumo", entendeu transformar o (um dos?... “cada caso e’ um caso”, ou "cada paixao e' uma paixao" como tambem dizia o ‘outro escriba’…) objecto(s) dos seus “desejos insatisfeitos” (sobretudo sociais e academico-profissionais) em “homem em corpo de mulher” ou “mulher em corpo de homem”… porque, afinale, a "unica forma" de placar a ascensao (ou "pretensao/presuncao" como lhe chamava o 'minion'?) academico-profissional de uma mulher, especialmente quando se pretende "competir" na sua area de especialidade mesmo sem qualificacoes para tal, e' "objectifica-la sexualmente" e/ou "enche-la de filhos", real ou virtualmente, mesmo quando se e' casado com (muitos!) filhos e ela ja' tenha idade para ser avo!...

-Os ‘kabungados’, 'kafajestes', 'kanalhas', 'kamundongos', 'kissondes', 'kamafeus', 'kifumbis', 'karrapatos', 'kachorros', 'kaxikos', 'mabekos', 'makakos', 'meketrefes', 'malaikos', 'parasitas', 'tarados', ‘execraveis putos pes-descalcos’, 'atrasados mentais', ‘pachecos’, 'pompilhos' e outros ‘rapazes’ (ou 'boys'), que, com razao ou sem ela, se sentiam tao “castrados” pelo poder de estado e pelo seu "pai grande" (ou pelos seus patroes?!... ou pelos seus "ex-novos colonos"?!... ou pelas suas "mulheres"?!... ou pelas suas "mabundas"?!... ou pelas suas "baronas"?!... ou pelas suas "latonas"?!... ou pelas suas "loirinhas"?!... ou pelas suas "belles de jour"?!... ou pelas suas "professoras"?!... ou pelas suas "maes"?!...) - enquanto 'chupavam' abundantemente da sua mesa, sacos azuis, envelopes castanhos, cabazes e pactos de regime -, que a unica forma de tentarem recuperar e demonstrar a sua “imensa masculinidade” e prencherem os seus "super-deficitarios e hiper-inflacionados egos" era usarem totalitaria, criminosa e impunemente o seu ‘quarto p(h)oder’ (... qual bando ou matilha de ton-tons makutes feios, porcos e maus, selvagens sem lei, rei nem roque e muito menos escrupulos ou caracter, trapaceiros e arruaceiros, mercadores e sacristas, bufos, social e comunicacionalmente incompetentes, verbal e sexualmente incontinentes, debochados, embriagados, drogados e irresponsaveis, complexados e cobardemente escondidos por detras das suas cortinas de fumo e de ferro...) sobre uma mulher que sentiam "fazer-lhes sombra" profissionalmente, na qual projectavam as suas frustracoes, insatisfacoes, inadequacoes, incompetencias e insegurancas e sobre a qual fantasiavam que os havia “coisificado”, apesar de nem sequer a conhecerem pessoalmente de parte alguma, enquanto colocavam pelo meio, "para lhe fazer ciumes" (wankers and silly boys indeed!), entre outras "bonitonas" bem acomodadas nas poltronas do p(h)oder, "impolutas", "academicas" e "intelectuais a prova de bala, espinafre e kizaka", uma certa ninfa, ninfomaniaca, lesbica, pornografa, sado-masoquista, racista supremacista branca de extrema direita, vulta, psicopata e assassina blonde bombshell barbie doll e bailarina classica metida a genuina katchokwe'-cum-Jessica Rabbit (silly girl indeed!) …

[... e repare-se que nao mencionei 'racas', nem falei em 'melaninas'...]






“We have to respect every woman, even a woman who is one day old. Why? Because some day she will grow up to be somebody’s mother.”
Stokely Carmichael (aka Kwame Toure), cited by Miriam Makeba (aka Mama Afrika)

"(...) Age was respected among his people, but achievement was revered. As the elders said, if a child washed his hands he could eat with kings. Okonkwo had clearly washed his hands and so he ate with kings and elders."
Biyi Bandele [in Introduction to Chinua Achebe's Things Fall Apart - Penguim, 2001 edition]

N.B.: Chinua Achebe started writing Things Fall Apart, his magnum opus published three years later, in 1958, which has earned him the title of 'The Grandfather of African Literature', at the age of 25.


"We cannot trample upon the humanity of others without devaluing our own. The Igbo, always practical, put it concretely in their proverb Onye ji onye n'ani ji onwe ya: "He who will hold another down in the mud must stay in the mud to keep him down."
[Chinua Achebe]

Ou, alternativamente, em Portugues: Yanick Ngombo, a.k.a. Afroman, membro da etnia Bakongo (tal como os Igbo, igualmente com um sentido bastante pratico das coisas mundanas, para que lhes sobre tempo suficiente para as coisas do espirito, como a metafisica ou a filosofia), diz numa das suas cancoes algo como isto: "... e' como o porco que arrasta o javali para uma luta na lama: os dois vao se sujar, mas o porco gosta porque assim ganha fama!

Monday, 21 March 2011

Just Poetry (xxxviii)














SIMPLES

Sim
Negra sou
Limpa
Não como teu sabão
Pele afora
Sujando
Alma branca
Clara
Como minha visão

Sim
Africana sou
Sólida
Não como tua superfluidade
História adentro
Deslustrando
Longa idade
Eterna
Como minha humanidade

Sim
Angolana sou
Tranquila
Não como tua jactância
Terra afora
Obstando
Perene instância
Óbvia
Como minha substância

Sim
Mulher sou
Simples
Não como teu estupor
Olho adentro
Denegrindo
Alvo esplendor
Áureo
Como minha flor

© K.










{No Dia Mundial da Poesia, 2011}














SIMPLES

Sim
Negra sou
Limpa
Não como teu sabão
Pele afora
Sujando
Alma branca
Clara
Como minha visão

Sim
Africana sou
Sólida
Não como tua superfluidade
História adentro
Deslustrando
Longa idade
Eterna
Como minha humanidade

Sim
Angolana sou
Tranquila
Não como tua jactância
Terra afora
Obstando
Perene instância
Óbvia
Como minha substância

Sim
Mulher sou
Simples
Não como teu estupor
Olho adentro
Denegrindo
Alvo esplendor
Áureo
Como minha flor

© K.










{No Dia Mundial da Poesia, 2011}

No Dia Mundial da Poesia: Sabia que?...



Fernando Pessoa...

... foi Contabilista?



«É a imprescindível função de ajudante de guarda-livros que, surpreendentemente, lhe confere o potencial de escritor moderno, dividido entre o espectáculo dos sonhos que a sua própria alma lhe oferece como um “teatro íntimo” e aquele outro espectáculo, todo exterior, que lhe é dado pelo “colorido variadíssimo de Lisboa…»
“A contabilidade traz o poeta à realidade e não permite que fique numa dimensão apenas transcendental que de exacerbada prática pode conduzir à alienação e loucura; por outro lado a poesia leva o guarda-livros/contabilista a outra dimensão, não normativa, sem códigos ou coimas, espiritual e livre!“

{extracto daqui}



[Mais detalhes aqui]


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Revisitando Questoes de Genero

Bocas Intelectualoides

A Irresponsabilidade do Vazio




Fernando Pessoa...

... foi Contabilista?



«É a imprescindível função de ajudante de guarda-livros que, surpreendentemente, lhe confere o potencial de escritor moderno, dividido entre o espectáculo dos sonhos que a sua própria alma lhe oferece como um “teatro íntimo” e aquele outro espectáculo, todo exterior, que lhe é dado pelo “colorido variadíssimo de Lisboa…»
“A contabilidade traz o poeta à realidade e não permite que fique numa dimensão apenas transcendental que de exacerbada prática pode conduzir à alienação e loucura; por outro lado a poesia leva o guarda-livros/contabilista a outra dimensão, não normativa, sem códigos ou coimas, espiritual e livre!“

{extracto daqui}



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Friday, 4 March 2011

CARNAVAL [R]



Despir o nú
e agasalhar o mal vestido,
como quem quer a coisa
e nunca se espanta,
senão à despedida.




Resta um canto suave
e um prazer imedido
na exorcisão das teias
do armário

qualquer ovo que se machuca
entre os dedos
e se espalha lentamente
pelo corpo, auspiciosamente,
entre a calma do ócio
e o desprezo da revolta,
um sorriso e
talvez um aperto de mãos.
De costas. Para dar mais prazer.




E um vento que sopra
rasteiro, sibilino
uma tempestade
que nunca desabará
e o choque. Carnaval.


[A.S. in S.O.S.]




[Postado inicialmente a 19/02/07]



Despir o nú
e agasalhar o mal vestido,
como quem quer a coisa
e nunca se espanta,
senão à despedida.




Resta um canto suave
e um prazer imedido
na exorcisão das teias
do armário

qualquer ovo que se machuca
entre os dedos
e se espalha lentamente
pelo corpo, auspiciosamente,
entre a calma do ócio
e o desprezo da revolta,
um sorriso e
talvez um aperto de mãos.
De costas. Para dar mais prazer.




E um vento que sopra
rasteiro, sibilino
uma tempestade
que nunca desabará
e o choque. Carnaval.


[A.S. in S.O.S.]




[Postado inicialmente a 19/02/07]

Saturday, 22 January 2011

JUST POETRY (V) [R]* [Actualizado]



PARA ANGOLA, RAPIDAMENTE E EM FORÇA

Peço ao vento por graçola
notícias do meu país
e o vento diz: «Vai para Angola».
(É o que o vento me diz.)
«Tem juízo, vai para Angola,
isto aqui está por um triz.»

Vamos todos para Angola
desde o Malanje ao Namibe
aproveitar por esmola
o crescimento do PIB.

Vem tu também, anda, anda,
escolhe uma profissão:
agora os preto é quem manda,
os preto é nosso patrão.

Leva a família na frente,
mulher, filhos, pai e mãe,
e se ainda couber mais gente
traz outro amigo também.

Vamos todos sem demora,
uns à solta, outros à trela,
vamos invadir Angola
do Moxico até Benguela.

Vamos de avião, navio,
canoa, bote ou jangada,
isto aqui está por um fio,
vai ser uma debandada.

Vamos todos para Angola,
destino de emigração,
vamos todos para Angola,
atrás do Diogo Cão.


[Poema daqui /// Ecos do original aqui]



*[Postado inicialmente a 06/05/09 - "repostado" hoje devido aos ultimos comentarios a ele feitos]







Em referencia aos comentarios feitos a este post nos ultimos dias, permitam-me, como “ser humano genuino” – tal como o sao (ou foram) os retratados, brancos e negros, nesta materia –, alinhar aqui algumas breves notas para esta que me parece ser, manifestamente, uma discussao de, entre e sobre portugueses, “genuinos” ou nao.

Tres vectores fundamentais confluem de forma problematica e frequentemente conflituosa para esta questao: a Historia, a Cultura e a Economia:


1. Historia – Portugal colonizou partes do actual territorio de Angola durante cerca de 5 seculos. Foi uma colonizacao, como todas, nao pacificamente aceite pela esmagadora maioria dos seus subditos, mesmo quando todas as aparencias pudessem sugerir o contrario. Por isso houve guerras de resistencia ao longo dos seculos, por isso houve uma guerra anti-colonial durante mais de uma decada, por isso houve a independencia – todos, factos historicos incontestaveis e irreversiveis: nao ficcao cientifica.

Poderia o processo de “descolonizacao” ter sido menos traumatico para ambos os lados? Questao ainda nao resolvida e que, pelo menos nos termos em que o debate (nao) tem vindo a ser conduzido, parece jamais vir a se-lo, pelo que sobre ela limitar-me-ei a sugerir que “o que aconteceu, esta’ acontecido” e “o que nao tem remedio, remediado esta’”, ou ainda, "de nada serve chorar sobre o leite derramado"... sendo certo que, qualquer que seja a evolucao, ou resolucao, dessa questao, a chamada “recolonizacao” nao me parece ser a resposta mais adequada para ela, certamente nao nos termos em que tem vindo a ser advogada.


2. Cultura – Uma parte, diga-se que minoritaria, dos angolanos foi assimilada, voluntaria ou involuntariamente, a cultura e lingua portuguesas. Mas, precisamente por ser minoritaria, embora contemporaneamente “poderosa”, “elitizante” e “socio-economicamente dominante”, ela nao detem de facto os “fios condutores” da totalidade da vida cultural, social e humana do pais Angola. Ha’ outros “fios condutores” no tecido que (con)forma o pais real, enfim outras sensibilidades que, embora tentem (e, de algum modo, consigam em alguns casos) negociar entre si e acomodar-se umas as outras em nome do um “um so' povo, uma so' nacao”, continuam (e, diga-se, legitimamente) a ansiar pela sua “validacao”, ou, dito de outro modo, pela legitimacao das suas respectivas “identidades e etnicidades” proprias como parte de um todo diverso, mas que se pretende harmonioso, depois de uma guerra fratricida de cerca de tres decadas, que teve em grande medida na sua base tais anseios e reivindicacoes (veja-se, por exemplo, o caso das Lundas aqui e aqui, ou o de Cabinda, aqui). Trata-se de facto real, indesmentivel, incontornavel e insofismavel, nao de mito, nem de ficcao literaria!

E sobre isso, ha’ ja’ varios anos, em Portugal, lembro-me de ter escrito e publicado algo em que me detinha sobre a manifesta dificuldade que os portugueses em geral demonstram em compreender cabalmente essa realidade, possivelmente por Portugal ser um pais cerca de 14 vezes menor do que Angola em tamanho e nao se apresentar tao diverso etnica, linguistica e culturalmente como esta. E esse e’ tambem um facto, embora os portugueses na Europa, ou em qualquer outra parte do mundo, se comportem geralmente como extremamente ciosos da sua propria “identidade” ou, se se preferir, da sua “genuinidade”: abrem as suas proprias lojas, bares, cafes e restaurantes com produtos alimentares e musica exclusivamente portugueses e frequentados quase exclusivamente por portugueses, falam exclusivamente portugues entre si, estabelecem as suas proprias igrejas com servicos exclusivamente em portugues, promovem as suas proprias e exclusivas actividades comunitarias e sociais com base na sua cultura nacional, chegam a formar verdadeiros ghetos em algumas zonas das cidades, onde tudo o que se ve, cheira e ouve e' portugues... ou seja, nascem, crescem, vivem, socializam-se, reproduzem-se e morrem como qualquer outro “grupo etnico” nesses paises (algo que, embora de forma “conglomerada” com as comunidades ditas hispanicas ou latinas no Reino Unido, se deixa bem patente aqui ).

Porque entao, tanta dificuldade e resistencia em compreender-se e aceitar-se (como, de resto, resulta evidente quer dos ataques sistematicos de que tenho sido abertamente alvo neste blog - seja directamente aqui por "desconhecidos", seja indirectamente noutros blogs bem identificados na lusosfera -, quer das campanhas que, de forma mais ou menos velada e insidiosa me teem sido dirigidas a partir de Angola, sobretudo, mas nao apenas, atraves de uma “certa imprensa” controlada por grupos financeiros portugueses, ou seus associados...) que os angolanos, ou pelo menos (grandes!) segmentos deles, o facam, ou pretendam fazer, de forma civica e democratica no seu proprio pais?

E, nesse particular, parece-me que eu me encontro neste momento muito mais na posicao dos emigrantes portugueses de ontem e de hoje que se diz serem e terem sido vitimas do chauvinismo, escarnio e oprobrio dos seus compatriotas “que ficaram”, do que na dos ditos “angolanos genuinos” que se diz “entenderem ter recebido Angola como heranca dos seus ancestrais”...


3. Economia – Angola tem vindo, de ha’ uns anos a esta parte, a apresentar niveis “espectaculares” de crescimento economico – facto. Portugal encontra-se neste momento a apresentar niveis, igualmente “espectaculares”, de recessao economica – facto. Sera’ natural que um numero cada vez maior de portugueses busquem oportunidades economicas noutras paragens e, em especial, em Angola, sua antiga “joia da coroa” – facto. O que ja’ nao sera’ tao natural, nem tao factual assim, e’ que se tente transformar tudo isso num caso de “atraccao fatal” entre os dois paises... Desde logo porque nao ha’ nada nos principios fundamentais da economia, seja ela de mercado ou nao - e muito menos nos de uma economia globalizada e competitiva como a que “estamos com ela” quer queiramos e gostemos quer nao -, que o fundamente.

O facto e’ que, qualquer que seja o modelo economico adoptado, “crescimento do PIB” nao significa ipso facto “desenvolvimento economico” e a sistematica marginalizacao, quando nao total exclusao da maioria dos angolanos dos beneficios desse crescimento economico - e ate’ mesmo da sua participacao/contribuicao para ele, em particular por parte de alguns que, como eu, se viram forcados a permanecer no exterior por varias circunstancias adversas originadas no pais (... e provocadas por angolanos!...) e que sao ostensivamente hostilizados por alguns sectores proteccionistas de uma certa auto-designada “prata da casa”... -, devido a um inexistente ou deficiente investimento no stock de capital humano nacional e a sua absorcao e integracao sistematica num processo consistente de desenvolvimento economico-social e cultural endogeno, sustentado e sustentavel, apenas tende a elevar os “muros de resistencia” ao crescente numero de estrangeiros (portugueses ou nao) aportando presentemente as costas angolanas e, em muitos casos, sem qualquer controlo... e isso, no longo prazo, nao e’ bom para ninguem, “genuinos” ou nao – facto.

A realidade e’ que a actual politica de imigracao de Angola e’ explicita e ostensivamente enviezada contra os africanos que tentam entrar pelas suas fronteiras terrestres (como os cartoons, adaptados daqui, com que ilustro este texto o explicitam), nao contra os portugueses: estes, como todas as estatisticas o revelam, nao so’ teem ido para Angola e “em forca” nos ultimos anos sem grandes empecilhos, como e’ em Portugal que os angolanos endinheirados fazem o grosso dos seus gastos de consumo e investimentos publicos e privados.

[E abro aqui um parentesis para sugerir o seguinte: imagine-se que apenas uma infima fraccao dos verdadeiros "balurdios" de dinheiro publico usados pela Sonangol em investimentos em Portugal, fosse aplicada no financiamento de investimentos produtivos trabalho-intensivos que criassem emprego nas regioes fronteiricas, tanto em Angola, como nos paises vizinhos. Nao seriam tais investimentos muito mais recomendaveis, louvaveis e ate' rentaveis sob todos os pontos de vista - desde logo, porque teriam o condao de funcionar como um "travao" aos fluxos migratorios por razoes economicas nessas areas e contribuiriam para o tao propalado "desenvolvimento e independencia economica do continente", para alem de funcionarem como um mecanismo de poupanca dos recursos materiais e financeiros actualmente empregues no patrulhamento das fronteiras e controlo/contencao/repressao dos emigrantes africanos pretendendo entrar em Angola e, em ultima analise, contribuirem de forma substantiva, permanente e duravel para a prosperidade, paz e seguranca regional... - especialmente neste momento em que Angola assume, mais uma vez, a presidencia da SADC?!]

E na base de tudo isso esta’ uma ideia de “desenvolvimento” que tem no periodo colonial o seu “modelo”. Acontece que os niveis de “desenvolvimento” atingidos sob tal “modelo” tinham por base um regime politico-ideologico que nao me parece ser o mais adaptavel, certamente nao o mais adequado, quer 'a Angola, quer ao Portugal, quer ao Mundo de hoje. Modelo esse, alias, que foi de forma magistral e visionaria descrito e denunciado por Viriato da Cruz nos termos em que aqui parcialmente destaquei...

Todas essas questoes, abordei-as, de forma mais ‘academica’, recentemente aqui , e de forma mais ‘prosaica’, ha’ ja’ algum tempo, aqui - onde, note-se, dos posicionamentos de Pepetela, a par dos de outros membros da inteligentzia angolana, ou luso-angolana, que sobre essas questoes se teem pronunciado publicamente nos ultimos tempos, resulta evidente que a corrente onda dominante nao e’ adversa 'a ‘recolonizacao’ de Angola pelos portugueses, como, de resto aqui se pode constatar ad nauseum: bem pelo contrario!

E nao deixa de ser interessante notar a este proposito que essa mesma inteligentzia conta entre as suas fileiras com alguns dos que nao so' dizem ter participado na "luta contra o colonialismo" (e desse estatuto de "antigos combatentes" muita gala fazem e amplos beneficios vitalicios, pessoais e familiares, colhem...), como se destacaram entre os mais radicais no desmantelamento e "transformacao revolucionaria" do tal "patamar tecno-juridico-administrativo que Angola ja' teve", em nome da criacao, desenvolvimento e reproducao do dito "homem novo"... a comecar pelo sistema de ensino! ... E quem naquela altura se lhes opusesse, ainda que passivamente, era apelidado de "contra-revolucionario", "pequeno burgues", "lacaio do colonialismo", "agente do imperialismo", etc. etc. etc. ... Nao deixo, porem, de lhes gabar a "coerencia": foram tao radicais em relacao 'a "descolonizacao" como o sao agora em relacao 'a "recolonizacao" (enfim, em quaisquer circunstancias "iguais a si proprios"!) ... o que talvez nao seja de todo estranho ao facto de certas neofitas formacoes politicas ultra-minoritarias precisarem desesperadamente de alargar a sua base eleitoral de apoio...

E, aqui, convira' distinguir-se claramente "recolonizacao" sem qualquer qualificacao, planificacao ou priorizacao (o que, alias, o poema aqui em questao, revela: "escolhe uma profissao"...), de "cooperacao" (economica, tecnico-cientifica e profissional) - esta existe, e sempre existiu desde a independencia, com Portugal e com outros paises, e se os portugueses podem contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola com a "vantagem comparativa" da sua lingua e cultura devido a historia que liga os dois paises, pois eles sao e sempre foram bem vindos (idos) naquelas areas e sectores onde realmente tal "vantagem comparativa" possa ser transformada em "valor acrescentado" para ambas as partes. Mas que nao se perca de vista, por via da chamada "neofita ideologia dos (pretensos) afectos", que Portugal nao e' o unico pais que pode contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola.

Veja-se, a esse respeito, o caso de Mocambique que, desde a sua independencia, aderiu 'a Commonwealth, adoptou o Ingles praticamente como sua segunda lingua oficial e tem um leque bastante diversificado de parceiros de cooperacao economica internacional, sem que por isso tenha impedido Portugal, ou os portugueses, de la' viverem, regressarem, ou trabalharem...

Enfim, em geito de conclusao, parece-me ser avisado que tanto angolanos (“genuinos” ou nao), como portugueses (tambem “genuinos” ou nao), bem como todos os nacionais de outros paises, ajam neste momento historico particularmente critico da vida de Angola tao racionalmente quanto possivel face aos factos e realidades, nao aos mitos e ficcoes, em presenca.

Tudo o resto nao passara’ de um pernicioso e patetico “display de emoti(c)ons” com mais do que previsiveis consequencias nefastas para todas as partes – a Historia de Angola revela-o a saciedade!

Tenho dito.





P.S.: Acrescentaria apenas as seguintes notas a margem:

i. A proposito de "fechamentos sociais e economicos" ou, se se preferir, mecanismos de exclusao social, tradicionais em Angola, esta citacao de David Sogge: "Colonial and post-colonial elites showed no interest in creating an ‘open access order’ based on citizenship for all and competitive markets. A path was laid down around a weak but autocratic colonial state dependent on outside powers. Mediocre institutions and underskilled people were additional legacies. Angolan nationalist movements, their leaders imbued with norms of a ‘limited access order’, and habituated to the use of armed force, had no ready alternatives when they assumed power.";


ii. Em relacao a todas essas questoes, mas em particular a suposta "dificuldade de entendimento e aceitacao" por parte da generalidade dos portugueses da diversidade etnico-linguistica de Angola, seria recomendavel uma exploracao da area da Historia Moderna designada Subaltern Studies;


iii. Sobre os movimentos trans-fronteiricos entre Angola e o Congo (Zaire) em epocas mais recuadas, com a devida venia, esta detalhada descricao por Fernando Ribeiro:

Nos troços de fronteira entre Angola e o Zaire em que não houvesse obstáculos naturais, não existia qualquer vedação ou outra barreira que impedisse a comunicação entre ambos os lados. A fronteira estava apenas assinalada por marcos de pedra em forma de grossos obeliscos, com 2 metros de altura ou pouco mais, que mostravam o escudo da monarquia portuguesa, esculpido em baixo relevo, no lado virado para Angola, o da monarquia belga no lado virado para o Zaire e o ano de 1895 gravado por cima de cada um dos escudos. Os marcos fronteiriços estavam colocados a uma distância de cerca de 40 quilómetros uns dos outros, talvez, e estavam milimetricamente alinhados uns pelos outros, numa linha reta espantosamente rigorosa.

Como, nos troços onde não havia obstáculos naturais, a fronteira estava desimpedida, ela era atravessada por caminhos de pé posto, que todos os dias eram percorridos por pessoas que passavam "a salto" de Angola para o Zaire e vice-versa. O movimento de pessoas ao longo destes carreiros era bastante intenso. Angolanos (refugiados ou não) e zairenses circulavam de um lado para o outro ao longo do dia, em função, sobretudo, das feiras mensais e mercados rurais que de ambos os lados se iam realizando. Levavam os produtos das suas lavras (campos), a fim de os vender onde fossem mais caros, e traziam as mercadorias de que necessitavam, compradas onde elas fossem mais baratas. É evidente que os contrabandistas (havia bastantes) também faziam um uso intensivo destes caminhos transfronteiriços.

Assim que o sol nascia, nas zonas onde houvesse uma sanzala do lado de Angola que ficasse próxima da fronteira e estivesse dotada de uma escola, os caminhos referidos eram percorridos por crianças, vindas do Zaire para Angola, que vinham frequentar as aulas. Estas crianças percorriam a pé vários quilómetros a caminho da escola e eram as primeiras pessoas que atravessavam a fronteira logo pela manhãzinha.

Estas crianças eram filhas de angolanos refugiados no Zaire. Os seus encarregados de educação faziam questão em que elas frequentassem uma escola angolana, porque queriam que elas não se esquecessem das suas raízes, apesar de já terem nascido no exílio, se sentissem orgulhosas de Angola e soubessem falar, ler e escrever em português.



[aqui, onde, ja' agora, tambem se pode ver esta descricao de Kinshasa e ouvir um pouco da musica do magistral Franco]






PARA ANGOLA, RAPIDAMENTE E EM FORÇA

Peço ao vento por graçola
notícias do meu país
e o vento diz: «Vai para Angola».
(É o que o vento me diz.)
«Tem juízo, vai para Angola,
isto aqui está por um triz.»

Vamos todos para Angola
desde o Malanje ao Namibe
aproveitar por esmola
o crescimento do PIB.

Vem tu também, anda, anda,
escolhe uma profissão:
agora os preto é quem manda,
os preto é nosso patrão.

Leva a família na frente,
mulher, filhos, pai e mãe,
e se ainda couber mais gente
traz outro amigo também.

Vamos todos sem demora,
uns à solta, outros à trela,
vamos invadir Angola
do Moxico até Benguela.

Vamos de avião, navio,
canoa, bote ou jangada,
isto aqui está por um fio,
vai ser uma debandada.

Vamos todos para Angola,
destino de emigração,
vamos todos para Angola,
atrás do Diogo Cão.


[Poema daqui /// Ecos do original aqui]



*[Postado inicialmente a 06/05/09 - "repostado" hoje devido aos ultimos comentarios a ele feitos]







Em referencia aos comentarios feitos a este post nos ultimos dias, permitam-me, como “ser humano genuino” – tal como o sao (ou foram) os retratados, brancos e negros, nesta materia –, alinhar aqui algumas breves notas para esta que me parece ser, manifestamente, uma discussao de, entre e sobre portugueses, “genuinos” ou nao.

Tres vectores fundamentais confluem de forma problematica e frequentemente conflituosa para esta questao: a Historia, a Cultura e a Economia:


1. Historia – Portugal colonizou partes do actual territorio de Angola durante cerca de 5 seculos. Foi uma colonizacao, como todas, nao pacificamente aceite pela esmagadora maioria dos seus subditos, mesmo quando todas as aparencias pudessem sugerir o contrario. Por isso houve guerras de resistencia ao longo dos seculos, por isso houve uma guerra anti-colonial durante mais de uma decada, por isso houve a independencia – todos, factos historicos incontestaveis e irreversiveis: nao ficcao cientifica.

Poderia o processo de “descolonizacao” ter sido menos traumatico para ambos os lados? Questao ainda nao resolvida e que, pelo menos nos termos em que o debate (nao) tem vindo a ser conduzido, parece jamais vir a se-lo, pelo que sobre ela limitar-me-ei a sugerir que “o que aconteceu, esta’ acontecido” e “o que nao tem remedio, remediado esta’”, ou ainda, "de nada serve chorar sobre o leite derramado"... sendo certo que, qualquer que seja a evolucao, ou resolucao, dessa questao, a chamada “recolonizacao” nao me parece ser a resposta mais adequada para ela, certamente nao nos termos em que tem vindo a ser advogada.


2. Cultura – Uma parte, diga-se que minoritaria, dos angolanos foi assimilada, voluntaria ou involuntariamente, a cultura e lingua portuguesas. Mas, precisamente por ser minoritaria, embora contemporaneamente “poderosa”, “elitizante” e “socio-economicamente dominante”, ela nao detem de facto os “fios condutores” da totalidade da vida cultural, social e humana do pais Angola. Ha’ outros “fios condutores” no tecido que (con)forma o pais real, enfim outras sensibilidades que, embora tentem (e, de algum modo, consigam em alguns casos) negociar entre si e acomodar-se umas as outras em nome do um “um so' povo, uma so' nacao”, continuam (e, diga-se, legitimamente) a ansiar pela sua “validacao”, ou, dito de outro modo, pela legitimacao das suas respectivas “identidades e etnicidades” proprias como parte de um todo diverso, mas que se pretende harmonioso, depois de uma guerra fratricida de cerca de tres decadas, que teve em grande medida na sua base tais anseios e reivindicacoes (veja-se, por exemplo, o caso das Lundas aqui e aqui, ou o de Cabinda, aqui). Trata-se de facto real, indesmentivel, incontornavel e insofismavel, nao de mito, nem de ficcao literaria!

E sobre isso, ha’ ja’ varios anos, em Portugal, lembro-me de ter escrito e publicado algo em que me detinha sobre a manifesta dificuldade que os portugueses em geral demonstram em compreender cabalmente essa realidade, possivelmente por Portugal ser um pais cerca de 14 vezes menor do que Angola em tamanho e nao se apresentar tao diverso etnica, linguistica e culturalmente como esta. E esse e’ tambem um facto, embora os portugueses na Europa, ou em qualquer outra parte do mundo, se comportem geralmente como extremamente ciosos da sua propria “identidade” ou, se se preferir, da sua “genuinidade”: abrem as suas proprias lojas, bares, cafes e restaurantes com produtos alimentares e musica exclusivamente portugueses e frequentados quase exclusivamente por portugueses, falam exclusivamente portugues entre si, estabelecem as suas proprias igrejas com servicos exclusivamente em portugues, promovem as suas proprias e exclusivas actividades comunitarias e sociais com base na sua cultura nacional, chegam a formar verdadeiros ghetos em algumas zonas das cidades, onde tudo o que se ve, cheira e ouve e' portugues... ou seja, nascem, crescem, vivem, socializam-se, reproduzem-se e morrem como qualquer outro “grupo etnico” nesses paises (algo que, embora de forma “conglomerada” com as comunidades ditas hispanicas ou latinas no Reino Unido, se deixa bem patente aqui ).

Porque entao, tanta dificuldade e resistencia em compreender-se e aceitar-se (como, de resto, resulta evidente quer dos ataques sistematicos de que tenho sido abertamente alvo neste blog - seja directamente aqui por "desconhecidos", seja indirectamente noutros blogs bem identificados na lusosfera -, quer das campanhas que, de forma mais ou menos velada e insidiosa me teem sido dirigidas a partir de Angola, sobretudo, mas nao apenas, atraves de uma “certa imprensa” controlada por grupos financeiros portugueses, ou seus associados...) que os angolanos, ou pelo menos (grandes!) segmentos deles, o facam, ou pretendam fazer, de forma civica e democratica no seu proprio pais?

E, nesse particular, parece-me que eu me encontro neste momento muito mais na posicao dos emigrantes portugueses de ontem e de hoje que se diz serem e terem sido vitimas do chauvinismo, escarnio e oprobrio dos seus compatriotas “que ficaram”, do que na dos ditos “angolanos genuinos” que se diz “entenderem ter recebido Angola como heranca dos seus ancestrais”...


3. Economia – Angola tem vindo, de ha’ uns anos a esta parte, a apresentar niveis “espectaculares” de crescimento economico – facto. Portugal encontra-se neste momento a apresentar niveis, igualmente “espectaculares”, de recessao economica – facto. Sera’ natural que um numero cada vez maior de portugueses busquem oportunidades economicas noutras paragens e, em especial, em Angola, sua antiga “joia da coroa” – facto. O que ja’ nao sera’ tao natural, nem tao factual assim, e’ que se tente transformar tudo isso num caso de “atraccao fatal” entre os dois paises... Desde logo porque nao ha’ nada nos principios fundamentais da economia, seja ela de mercado ou nao - e muito menos nos de uma economia globalizada e competitiva como a que “estamos com ela” quer queiramos e gostemos quer nao -, que o fundamente.

O facto e’ que, qualquer que seja o modelo economico adoptado, “crescimento do PIB” nao significa ipso facto “desenvolvimento economico” e a sistematica marginalizacao, quando nao total exclusao da maioria dos angolanos dos beneficios desse crescimento economico - e ate’ mesmo da sua participacao/contribuicao para ele, em particular por parte de alguns que, como eu, se viram forcados a permanecer no exterior por varias circunstancias adversas originadas no pais (... e provocadas por angolanos!...) e que sao ostensivamente hostilizados por alguns sectores proteccionistas de uma certa auto-designada “prata da casa”... -, devido a um inexistente ou deficiente investimento no stock de capital humano nacional e a sua absorcao e integracao sistematica num processo consistente de desenvolvimento economico-social e cultural endogeno, sustentado e sustentavel, apenas tende a elevar os “muros de resistencia” ao crescente numero de estrangeiros (portugueses ou nao) aportando presentemente as costas angolanas e, em muitos casos, sem qualquer controlo... e isso, no longo prazo, nao e’ bom para ninguem, “genuinos” ou nao – facto.

A realidade e’ que a actual politica de imigracao de Angola e’ explicita e ostensivamente enviezada contra os africanos que tentam entrar pelas suas fronteiras terrestres (como os cartoons, adaptados daqui, com que ilustro este texto o explicitam), nao contra os portugueses: estes, como todas as estatisticas o revelam, nao so’ teem ido para Angola e “em forca” nos ultimos anos sem grandes empecilhos, como e’ em Portugal que os angolanos endinheirados fazem o grosso dos seus gastos de consumo e investimentos publicos e privados.

[E abro aqui um parentesis para sugerir o seguinte: imagine-se que apenas uma infima fraccao dos verdadeiros "balurdios" de dinheiro publico usados pela Sonangol em investimentos em Portugal, fosse aplicada no financiamento de investimentos produtivos trabalho-intensivos que criassem emprego nas regioes fronteiricas, tanto em Angola, como nos paises vizinhos. Nao seriam tais investimentos muito mais recomendaveis, louvaveis e ate' rentaveis sob todos os pontos de vista - desde logo, porque teriam o condao de funcionar como um "travao" aos fluxos migratorios por razoes economicas nessas areas e contribuiriam para o tao propalado "desenvolvimento e independencia economica do continente", para alem de funcionarem como um mecanismo de poupanca dos recursos materiais e financeiros actualmente empregues no patrulhamento das fronteiras e controlo/contencao/repressao dos emigrantes africanos pretendendo entrar em Angola e, em ultima analise, contribuirem de forma substantiva, permanente e duravel para a prosperidade, paz e seguranca regional... - especialmente neste momento em que Angola assume, mais uma vez, a presidencia da SADC?!]

E na base de tudo isso esta’ uma ideia de “desenvolvimento” que tem no periodo colonial o seu “modelo”. Acontece que os niveis de “desenvolvimento” atingidos sob tal “modelo” tinham por base um regime politico-ideologico que nao me parece ser o mais adaptavel, certamente nao o mais adequado, quer 'a Angola, quer ao Portugal, quer ao Mundo de hoje. Modelo esse, alias, que foi de forma magistral e visionaria descrito e denunciado por Viriato da Cruz nos termos em que aqui parcialmente destaquei...

Todas essas questoes, abordei-as, de forma mais ‘academica’, recentemente aqui , e de forma mais ‘prosaica’, ha’ ja’ algum tempo, aqui - onde, note-se, dos posicionamentos de Pepetela, a par dos de outros membros da inteligentzia angolana, ou luso-angolana, que sobre essas questoes se teem pronunciado publicamente nos ultimos tempos, resulta evidente que a corrente onda dominante nao e’ adversa 'a ‘recolonizacao’ de Angola pelos portugueses, como, de resto aqui se pode constatar ad nauseum: bem pelo contrario!

E nao deixa de ser interessante notar a este proposito que essa mesma inteligentzia conta entre as suas fileiras com alguns dos que nao so' dizem ter participado na "luta contra o colonialismo" (e desse estatuto de "antigos combatentes" muita gala fazem e amplos beneficios vitalicios, pessoais e familiares, colhem...), como se destacaram entre os mais radicais no desmantelamento e "transformacao revolucionaria" do tal "patamar tecno-juridico-administrativo que Angola ja' teve", em nome da criacao, desenvolvimento e reproducao do dito "homem novo"... a comecar pelo sistema de ensino! ... E quem naquela altura se lhes opusesse, ainda que passivamente, era apelidado de "contra-revolucionario", "pequeno burgues", "lacaio do colonialismo", "agente do imperialismo", etc. etc. etc. ... Nao deixo, porem, de lhes gabar a "coerencia": foram tao radicais em relacao 'a "descolonizacao" como o sao agora em relacao 'a "recolonizacao" (enfim, em quaisquer circunstancias "iguais a si proprios"!) ... o que talvez nao seja de todo estranho ao facto de certas neofitas formacoes politicas ultra-minoritarias precisarem desesperadamente de alargar a sua base eleitoral de apoio...

E, aqui, convira' distinguir-se claramente "recolonizacao" sem qualquer qualificacao, planificacao ou priorizacao (o que, alias, o poema aqui em questao, revela: "escolhe uma profissao"...), de "cooperacao" (economica, tecnico-cientifica e profissional) - esta existe, e sempre existiu desde a independencia, com Portugal e com outros paises, e se os portugueses podem contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola com a "vantagem comparativa" da sua lingua e cultura devido a historia que liga os dois paises, pois eles sao e sempre foram bem vindos (idos) naquelas areas e sectores onde realmente tal "vantagem comparativa" possa ser transformada em "valor acrescentado" para ambas as partes. Mas que nao se perca de vista, por via da chamada "neofita ideologia dos (pretensos) afectos", que Portugal nao e' o unico pais que pode contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola.

Veja-se, a esse respeito, o caso de Mocambique que, desde a sua independencia, aderiu 'a Commonwealth, adoptou o Ingles praticamente como sua segunda lingua oficial e tem um leque bastante diversificado de parceiros de cooperacao economica internacional, sem que por isso tenha impedido Portugal, ou os portugueses, de la' viverem, regressarem, ou trabalharem...

Enfim, em geito de conclusao, parece-me ser avisado que tanto angolanos (“genuinos” ou nao), como portugueses (tambem “genuinos” ou nao), bem como todos os nacionais de outros paises, ajam neste momento historico particularmente critico da vida de Angola tao racionalmente quanto possivel face aos factos e realidades, nao aos mitos e ficcoes, em presenca.

Tudo o resto nao passara’ de um pernicioso e patetico “display de emoti(c)ons” com mais do que previsiveis consequencias nefastas para todas as partes – a Historia de Angola revela-o a saciedade!

Tenho dito.





P.S.: Acrescentaria apenas as seguintes notas a margem:

i. A proposito de "fechamentos sociais e economicos" ou, se se preferir, mecanismos de exclusao social, tradicionais em Angola, esta citacao de David Sogge: "Colonial and post-colonial elites showed no interest in creating an ‘open access order’ based on citizenship for all and competitive markets. A path was laid down around a weak but autocratic colonial state dependent on outside powers. Mediocre institutions and underskilled people were additional legacies. Angolan nationalist movements, their leaders imbued with norms of a ‘limited access order’, and habituated to the use of armed force, had no ready alternatives when they assumed power.";


ii. Em relacao a todas essas questoes, mas em particular a suposta "dificuldade de entendimento e aceitacao" por parte da generalidade dos portugueses da diversidade etnico-linguistica de Angola, seria recomendavel uma exploracao da area da Historia Moderna designada Subaltern Studies;


iii. Sobre os movimentos trans-fronteiricos entre Angola e o Congo (Zaire) em epocas mais recuadas, com a devida venia, esta detalhada descricao por Fernando Ribeiro:

Nos troços de fronteira entre Angola e o Zaire em que não houvesse obstáculos naturais, não existia qualquer vedação ou outra barreira que impedisse a comunicação entre ambos os lados. A fronteira estava apenas assinalada por marcos de pedra em forma de grossos obeliscos, com 2 metros de altura ou pouco mais, que mostravam o escudo da monarquia portuguesa, esculpido em baixo relevo, no lado virado para Angola, o da monarquia belga no lado virado para o Zaire e o ano de 1895 gravado por cima de cada um dos escudos. Os marcos fronteiriços estavam colocados a uma distância de cerca de 40 quilómetros uns dos outros, talvez, e estavam milimetricamente alinhados uns pelos outros, numa linha reta espantosamente rigorosa.

Como, nos troços onde não havia obstáculos naturais, a fronteira estava desimpedida, ela era atravessada por caminhos de pé posto, que todos os dias eram percorridos por pessoas que passavam "a salto" de Angola para o Zaire e vice-versa. O movimento de pessoas ao longo destes carreiros era bastante intenso. Angolanos (refugiados ou não) e zairenses circulavam de um lado para o outro ao longo do dia, em função, sobretudo, das feiras mensais e mercados rurais que de ambos os lados se iam realizando. Levavam os produtos das suas lavras (campos), a fim de os vender onde fossem mais caros, e traziam as mercadorias de que necessitavam, compradas onde elas fossem mais baratas. É evidente que os contrabandistas (havia bastantes) também faziam um uso intensivo destes caminhos transfronteiriços.

Assim que o sol nascia, nas zonas onde houvesse uma sanzala do lado de Angola que ficasse próxima da fronteira e estivesse dotada de uma escola, os caminhos referidos eram percorridos por crianças, vindas do Zaire para Angola, que vinham frequentar as aulas. Estas crianças percorriam a pé vários quilómetros a caminho da escola e eram as primeiras pessoas que atravessavam a fronteira logo pela manhãzinha.

Estas crianças eram filhas de angolanos refugiados no Zaire. Os seus encarregados de educação faziam questão em que elas frequentassem uma escola angolana, porque queriam que elas não se esquecessem das suas raízes, apesar de já terem nascido no exílio, se sentissem orgulhosas de Angola e soubessem falar, ler e escrever em português.



[aqui, onde, ja' agora, tambem se pode ver esta descricao de Kinshasa e ouvir um pouco da musica do magistral Franco]




Wednesday, 22 December 2010

Uma prenda de Natal com o selo da Amizade, Fraternidade e Solidariedade


Este selo foi-me dedicado aqui ha' tempos pelo amigo Navegador Solidario.

Ofereco-o hoje a minha amiga e irma Veronica Benesi.

Encontre a razao - principal, porque ha' outras, como a sua estimada e prestigiosa participacao neste blog o demonstra 'a saciedade... - aqui e aqui .

Este selo foi-me dedicado aqui ha' tempos pelo amigo Navegador Solidario.

Ofereco-o hoje a minha amiga e irma Veronica Benesi.

Encontre a razao - principal, porque ha' outras, como a sua estimada e prestigiosa participacao neste blog o demonstra 'a saciedade... - aqui e aqui .

Wednesday, 8 December 2010

... E por falar em Poetas Angolanas...



O Amor Tem Asas de Ouro «Antologia da Poesia Feminina Angolana»

Gioveth & Seomara Santos Filomena

Assumimos que a colectânea «O Amor Tem Asas de Ouro», é um projecto parcial e divulga o lado mais lírico das mulheres angolanas poetas, para que o leitor sinta essa peculiaridade de vozes com alguma felicidade e deleite.

[Clique na imagem para aceder a Antologia]



Nota: Sendo embora questionavel o facto de a uma colectanea de Poesia Feminina Angolana se ter dado o titulo de um poema de uma escritora portuguesa, aparentemente sem qualquer ligacao conhecida com Angola, Natalia Correia, nao deixa de ser notavel o facto de que essa mesma escritora tenha sido uma das que mais se destacou na "subversao feminista" de conceitos como "patria" (que rebaptizou "matria") e "poetisa" (que preteria em favor de "poeta"). Foram tambem dela estas palavras: «Oh sub-alimentados do sonho, a poesia é para se comer!»


[Post relacionado: "Como Veias Finas na Terra"]




O Amor Tem Asas de Ouro «Antologia da Poesia Feminina Angolana»

Gioveth & Seomara Santos Filomena

Assumimos que a colectânea «O Amor Tem Asas de Ouro», é um projecto parcial e divulga o lado mais lírico das mulheres angolanas poetas, para que o leitor sinta essa peculiaridade de vozes com alguma felicidade e deleite.

[Clique na imagem para aceder a Antologia]



Nota: Sendo embora questionavel o facto de a uma colectanea de Poesia Feminina Angolana se ter dado o titulo de um poema de uma escritora portuguesa, aparentemente sem qualquer ligacao conhecida com Angola, Natalia Correia, nao deixa de ser notavel o facto de que essa mesma escritora tenha sido uma das que mais se destacou na "subversao feminista" de conceitos como "patria" (que rebaptizou "matria") e "poetisa" (que preteria em favor de "poeta"). Foram tambem dela estas palavras: «Oh sub-alimentados do sonho, a poesia é para se comer!»


[Post relacionado: "Como Veias Finas na Terra"]


Friday, 17 September 2010

No 'Dia do Heroi Nacional'


A Renúncia Impossível









Negação


Não creio em mim
Não existo
Não quero eu não quero ser

Quero destruir-me
- Atirar-me de pontes elevadas
e deixar-me despedaçar
sobre as pedras duras das calçadas

Pulverizar o meu ser
desaparecer
não deixar sequer traço de passagem
pelo mundo.

Quero matar-me
e deixar que o não-eu
se aposse de mim.

Mais do que um simples suicídio
quero que esta minha morte
Seja uma verdadeira novidade histórica
um desaparecimento total
até mesmo nos cérebros
daqueles que me odeiam
até mesmo no tempo
e se processe a História
e o mundo continue
como se eu nunca tivesse existido
como se nenhuma obra tivesse produzido
como se nada tivesse influenciado na vida
como se em vez de valor negativo
eu fosse Zero.

Quero ascender, subir
elevar-me até atingir o Zero
e desaparecer.
Deixai-me desaparecer!

Mas antes vou gritar
com toda a força dos meus pulmões
para que o mundo oiça:

- Fui eu quem renunciou à Vida!
Podeis continuar a ocupar o meu lugar
vós os que mo roubastes

Aí tendes o mundo todo para vós
para mim nada quero
nem riqueza nem pobreza
nem alegria nem tristeza
nem vida nem morte
nada.

Não sou. Não existo. Nunca fui.
Renuncio-me
Atingi o Zero

E agora,
Vivei, cantai, chorai
casai-vos, matai-vos, embriagai-vos
dai sêmolas aos pobres.
Nada me pode interessar
que eu não sou
Atingi o Zero!

Não contem comigo
para vos servir às refeições
nem para cavar os diamantes
que vossas mulheres irão ostentar em salões
nem para cuidar das vossas plantações
de café e algodão
não contem com operários
para amamentar os vossos filhos sifilíticos
não contem com operários
de segunda categoria
para fazer o trabalho de que vos orgulhais
nem com soldados inconscientes
para gritar com o estômago vazio
vivas ao nosso trabalho de civilização
nem com lacaios
para vos tirarem os sapatos
de madrugada
quando regressardes de orgias nocturnas
nem com pretos medrosos
para vos oferecer vacas
e vender molho a tostão
nem com corpos de mulheres
para vos alimentar de prazeres
nos ócios da vossa abundância imoral.

Não contem comigo
Renuncio-me.
Eu atingi o Zero
Não existo. Nunca existi.
Não quero vida nem morte
Nada!
Podeis agora queimar
os letreiros medrosos
que às portas dos bars, hotéis e recintos públicos
gritam o vosso egoísmo
nas frases: “SÓ PARA BRANCOS” ou “ONLY TO COLOURED MEN”
Negros aqui. Brancos acolá.








Podeis acabar
com os miseráveis bairros de negros
que vos atrapalham a vaidade
Vivei satisfeitos sem “colour lines”
sem terdes que dizer aos fregueses negros
que os hotéis estão abarrotados
que não há mais mesas nos restaurantes.
Banhai-vos descansados
nas vossas praias e piscinas
que nunca houve negros no mundo
que sujassem as águas
ou os vossos nojentos preconceitos
com a sua escura presença.

Podeis transformar em toureiros
ou em magarefes
os membros da Ku-klux-klan
para que matem a sua fome sanguinária
nas feridas dos touros que descem à arena.
Não há negros para linchar!

Porque hesitais agora!
Ao menos tendes oportunidade
para proclamardes democracias
com sinceridade

Podeis inventar uma nova História.
Inclusivamente podeis atribuir-vos a criação do mundo.
Tudo foi feito por vós
Ah!
que satisfação eu sinto
por ver-vos alegres no vosso orgulho
e loucos na vossa mania de superioridade.

Nunca houve negros!
A África foi construída só por vós
A América foi colonizada só por vós
A Europa não conhece civilizações africanas
Nunca um negro beijou uma branca
nem um negro foi linchado
nunca mataram pretos a golpes de cavalomarinho
para lhes possuírem as mulheres
nunca extorquiram propriedades a pretos
não tendes, nunca tivestes filhos com sangue negro
ó racistas de desbragada lubricidade
Fartai-vos agora dentro da moral.

Que satisfação eu sinto
por não terdes que falsear os padrões morais
para salvaguardar
o prestigio, a superioridade e o estômago
dos vossos filhos.

Ah!
O meu suicídio é uma novidade histórica
é um sádico prazer
de ver-vos bem instalados no vosso mundo
sem necessidade de jogos falsos.

Eu elevado até o Zero
eu transformado no Nada-historico
Eu no inicio dos Tempos
eu-Nada a confundir-me com vós-Tudo
sou o verdadeiro Cristo da Humanidade!

Não há nas ruas de Luanda
Negros descalços e sujos
a pôr nódoas nas vossas falsidades de colonização
em Lourenço Marques
em Nova York, em Leopoldville
em Cape-Town
gritam pelas ruas
a foguetear alegria nos ares:
-Não há negros nas ruas!
Nunca houve.
Não há negros preguiçosos
a deixar os campos por cultivar
e renitentes à escravização
já não há negros para roubar.
Toda a riqueza representa agora o suor do rosto
e o suor do rosto é a poesia da vida.







Não existe música negra
Nunca houve batuques nas florestas do Congo
Quem falou em spirituals?

Vá de encher os salões
de Debussy Strauss Korsakoff.
Já não há selvagens na terra.
Viva a civilização dos homens superiores
sem manchas negróides
a perturbar-lhe a estética!

Nunca houve descobrimentos
a África foi criada com o mundo.

O que é a colonização?
O que são massacres de negros?
O que são os esbulhos de propriedade?
Coisas que ninguém conhece.

A história está errada
Nunca houve escravatura
nunca houve domínio de minorias
orgulhosas da sua força

Acabai com as cruzadas religiosas
A fé está espalhada por todo mundo
sobre a terra só há cristãos
vós sois todos cristãos.

Não há infiéis por converter
Escusai de imaginar mais infidelidades religiosas
para justificar
Repugnantes actos de barbarismo.

Não necessitais enviar mais missionários
a África
nem aos bairros de negros
Nunca houve feitiços
nem concepções religiosas diferentes
nunca houve religiosos a auxiliar a ocupação militar.

Acabai tudo, tudo
e vós sois todos irmãos.
Podeis continuar com os vossos sistemas
socialistas ou capitalista
que isso não me interessa.
Explorai o proletariado
ou dai-lhe de comer
isso é convosco.

Continuai com os vossos sistemas políticos
ditaduras democracias.
Matai-vos uns aos outros
lutai pela glória
lutai pelo poder
criai minorias fortes
que protejam os seus comp…
apadrinhai os afilhados dos vossos amigos
criai mais castas
aburguesai as ideias
e tudo sem a complicação
de verdes intrusos
imiscuir-se na vossa querida
e defendida civilização
dos homens privilegiados.







Homens irmãos
dai-vos as mãos
gritai a vossa alegria de serdes sós
SÓS!
únicos habitantes da Terra.

Eu atingi o Zero!

Isto simplifica extraordinariamente
a vossa ética.
Ao menos não percais agora
a ocasião de serdes honestos.
Se houver terramotos
Calamidades, cheias ou epidemias
ou terras a defender da invasão das águas
ou motores parados nas lamas de selvas africanas
raios partam!
já não tereis de chamar-me
para acudir ás vossas desgraças
para reparar os vossos desastres
ou para carregar com a culpa das vossas incúrias.
Ide para o diabo!

Eu não existo
Palavra de honra que nunca existi.
Atingi o Zero
o Nada.
Abençoada a Hora
do meu super-suicidio
para vós
homens que construís sistemas morais
para enquadrar imoralidades
O sol brilha só para vós
a lua reflecte luz só para vós
nunca houve esclavagistas
nem massacres
Nem ocupações da África.
Como até a história
se transforma num Tratado Moral
sem necessidade de arranjos apressados!

Não existem os pretos dos cais e do caminho de
ferro.
Nos locais de trabalho nunca se ouviram cantos
dolentes
só há chiadeira dos guindastes.
Nunca pisaram os caminhos do mato
carregados com quilos às costas
são os motores que se queimam sob as cargas
Ó pretos submissos humildes ou tímidos
Sem lugar nas cidades
ou nos escaninhos da honestidade
ou nos recantos da força
com a alma poisada no sinal menos,
polígamos declarados
dançarinos de batuques sensuais
sabei que subistes todos de valor
Atingistes o Zero
sois Nada
e salvastes o Homem.







Acabou-se o ódio de raças
e o trabalho de civilização
e a náusea de ver meninos negros
sentados na escola
ao lado dos meninos de olhos azuis
e as extorsões e compulsões
e as palmatoadas e torturas
para obrigar inocentes a confessar crimes
e os medos de revolta
e as complicadas demarches politicas
para iludir as almas simples.

Acabaram-se as complicações sociais!
Atingi o zero
Cheguei à hora do inicio do mundo
E resolvi não existir.

Cheguei ao Zero-Espaço
ao nada-tempo
ao Eu coincidente com vós-Tudo.

E o que é mais importante
Salvei o mundo.












Afirmação


Ah!

Faça-se luz no meu espírito
LUZ!

Calem–se as frases loucas
Desta renúncia impossível.


Eu–todos nunca me enganei
nunca coincidirei com o nada
não me deitarei nunca debaixo dos comboios


Não fui eu quem falou
da salvação do mundo
à custa da minha existência
da transformação do valor negativo em Zero
por meio do castigo ao inocente
em super – suicídio novidade histórica


Quem falou não fui eu
foi a minha loucura.


O meu lugar está marcado
no campo da luta
para conquista da vida perdida


Eu sou. Existo
As minhas mãos colocaram pedras
nos alicerces do mundo
Tenho direito ao meu pedaço de pão


Sou um valor positivo
da humanidade
e não abdico,
nunca abdicarei!


Seguirei com os homens livres
O meu caminho
para a liberdade e para a Vida.
Perdoem–me os cinco minutos de loucura
que vivi.





A Renúncia Impossível









Negação


Não creio em mim
Não existo
Não quero eu não quero ser

Quero destruir-me
- Atirar-me de pontes elevadas
e deixar-me despedaçar
sobre as pedras duras das calçadas

Pulverizar o meu ser
desaparecer
não deixar sequer traço de passagem
pelo mundo.

Quero matar-me
e deixar que o não-eu
se aposse de mim.

Mais do que um simples suicídio
quero que esta minha morte
Seja uma verdadeira novidade histórica
um desaparecimento total
até mesmo nos cérebros
daqueles que me odeiam
até mesmo no tempo
e se processe a História
e o mundo continue
como se eu nunca tivesse existido
como se nenhuma obra tivesse produzido
como se nada tivesse influenciado na vida
como se em vez de valor negativo
eu fosse Zero.

Quero ascender, subir
elevar-me até atingir o Zero
e desaparecer.
Deixai-me desaparecer!

Mas antes vou gritar
com toda a força dos meus pulmões
para que o mundo oiça:

- Fui eu quem renunciou à Vida!
Podeis continuar a ocupar o meu lugar
vós os que mo roubastes

Aí tendes o mundo todo para vós
para mim nada quero
nem riqueza nem pobreza
nem alegria nem tristeza
nem vida nem morte
nada.

Não sou. Não existo. Nunca fui.
Renuncio-me
Atingi o Zero

E agora,
Vivei, cantai, chorai
casai-vos, matai-vos, embriagai-vos
dai sêmolas aos pobres.
Nada me pode interessar
que eu não sou
Atingi o Zero!

Não contem comigo
para vos servir às refeições
nem para cavar os diamantes
que vossas mulheres irão ostentar em salões
nem para cuidar das vossas plantações
de café e algodão
não contem com operários
para amamentar os vossos filhos sifilíticos
não contem com operários
de segunda categoria
para fazer o trabalho de que vos orgulhais
nem com soldados inconscientes
para gritar com o estômago vazio
vivas ao nosso trabalho de civilização
nem com lacaios
para vos tirarem os sapatos
de madrugada
quando regressardes de orgias nocturnas
nem com pretos medrosos
para vos oferecer vacas
e vender molho a tostão
nem com corpos de mulheres
para vos alimentar de prazeres
nos ócios da vossa abundância imoral.

Não contem comigo
Renuncio-me.
Eu atingi o Zero
Não existo. Nunca existi.
Não quero vida nem morte
Nada!
Podeis agora queimar
os letreiros medrosos
que às portas dos bars, hotéis e recintos públicos
gritam o vosso egoísmo
nas frases: “SÓ PARA BRANCOS” ou “ONLY TO COLOURED MEN”
Negros aqui. Brancos acolá.








Podeis acabar
com os miseráveis bairros de negros
que vos atrapalham a vaidade
Vivei satisfeitos sem “colour lines”
sem terdes que dizer aos fregueses negros
que os hotéis estão abarrotados
que não há mais mesas nos restaurantes.
Banhai-vos descansados
nas vossas praias e piscinas
que nunca houve negros no mundo
que sujassem as águas
ou os vossos nojentos preconceitos
com a sua escura presença.

Podeis transformar em toureiros
ou em magarefes
os membros da Ku-klux-klan
para que matem a sua fome sanguinária
nas feridas dos touros que descem à arena.
Não há negros para linchar!

Porque hesitais agora!
Ao menos tendes oportunidade
para proclamardes democracias
com sinceridade

Podeis inventar uma nova História.
Inclusivamente podeis atribuir-vos a criação do mundo.
Tudo foi feito por vós
Ah!
que satisfação eu sinto
por ver-vos alegres no vosso orgulho
e loucos na vossa mania de superioridade.

Nunca houve negros!
A África foi construída só por vós
A América foi colonizada só por vós
A Europa não conhece civilizações africanas
Nunca um negro beijou uma branca
nem um negro foi linchado
nunca mataram pretos a golpes de cavalomarinho
para lhes possuírem as mulheres
nunca extorquiram propriedades a pretos
não tendes, nunca tivestes filhos com sangue negro
ó racistas de desbragada lubricidade
Fartai-vos agora dentro da moral.

Que satisfação eu sinto
por não terdes que falsear os padrões morais
para salvaguardar
o prestigio, a superioridade e o estômago
dos vossos filhos.

Ah!
O meu suicídio é uma novidade histórica
é um sádico prazer
de ver-vos bem instalados no vosso mundo
sem necessidade de jogos falsos.

Eu elevado até o Zero
eu transformado no Nada-historico
Eu no inicio dos Tempos
eu-Nada a confundir-me com vós-Tudo
sou o verdadeiro Cristo da Humanidade!

Não há nas ruas de Luanda
Negros descalços e sujos
a pôr nódoas nas vossas falsidades de colonização
em Lourenço Marques
em Nova York, em Leopoldville
em Cape-Town
gritam pelas ruas
a foguetear alegria nos ares:
-Não há negros nas ruas!
Nunca houve.
Não há negros preguiçosos
a deixar os campos por cultivar
e renitentes à escravização
já não há negros para roubar.
Toda a riqueza representa agora o suor do rosto
e o suor do rosto é a poesia da vida.







Não existe música negra
Nunca houve batuques nas florestas do Congo
Quem falou em spirituals?

Vá de encher os salões
de Debussy Strauss Korsakoff.
Já não há selvagens na terra.
Viva a civilização dos homens superiores
sem manchas negróides
a perturbar-lhe a estética!

Nunca houve descobrimentos
a África foi criada com o mundo.

O que é a colonização?
O que são massacres de negros?
O que são os esbulhos de propriedade?
Coisas que ninguém conhece.

A história está errada
Nunca houve escravatura
nunca houve domínio de minorias
orgulhosas da sua força

Acabai com as cruzadas religiosas
A fé está espalhada por todo mundo
sobre a terra só há cristãos
vós sois todos cristãos.

Não há infiéis por converter
Escusai de imaginar mais infidelidades religiosas
para justificar
Repugnantes actos de barbarismo.

Não necessitais enviar mais missionários
a África
nem aos bairros de negros
Nunca houve feitiços
nem concepções religiosas diferentes
nunca houve religiosos a auxiliar a ocupação militar.

Acabai tudo, tudo
e vós sois todos irmãos.
Podeis continuar com os vossos sistemas
socialistas ou capitalista
que isso não me interessa.
Explorai o proletariado
ou dai-lhe de comer
isso é convosco.

Continuai com os vossos sistemas políticos
ditaduras democracias.
Matai-vos uns aos outros
lutai pela glória
lutai pelo poder
criai minorias fortes
que protejam os seus comp…
apadrinhai os afilhados dos vossos amigos
criai mais castas
aburguesai as ideias
e tudo sem a complicação
de verdes intrusos
imiscuir-se na vossa querida
e defendida civilização
dos homens privilegiados.







Homens irmãos
dai-vos as mãos
gritai a vossa alegria de serdes sós
SÓS!
únicos habitantes da Terra.

Eu atingi o Zero!

Isto simplifica extraordinariamente
a vossa ética.
Ao menos não percais agora
a ocasião de serdes honestos.
Se houver terramotos
Calamidades, cheias ou epidemias
ou terras a defender da invasão das águas
ou motores parados nas lamas de selvas africanas
raios partam!
já não tereis de chamar-me
para acudir ás vossas desgraças
para reparar os vossos desastres
ou para carregar com a culpa das vossas incúrias.
Ide para o diabo!

Eu não existo
Palavra de honra que nunca existi.
Atingi o Zero
o Nada.
Abençoada a Hora
do meu super-suicidio
para vós
homens que construís sistemas morais
para enquadrar imoralidades
O sol brilha só para vós
a lua reflecte luz só para vós
nunca houve esclavagistas
nem massacres
Nem ocupações da África.
Como até a história
se transforma num Tratado Moral
sem necessidade de arranjos apressados!

Não existem os pretos dos cais e do caminho de
ferro.
Nos locais de trabalho nunca se ouviram cantos
dolentes
só há chiadeira dos guindastes.
Nunca pisaram os caminhos do mato
carregados com quilos às costas
são os motores que se queimam sob as cargas
Ó pretos submissos humildes ou tímidos
Sem lugar nas cidades
ou nos escaninhos da honestidade
ou nos recantos da força
com a alma poisada no sinal menos,
polígamos declarados
dançarinos de batuques sensuais
sabei que subistes todos de valor
Atingistes o Zero
sois Nada
e salvastes o Homem.







Acabou-se o ódio de raças
e o trabalho de civilização
e a náusea de ver meninos negros
sentados na escola
ao lado dos meninos de olhos azuis
e as extorsões e compulsões
e as palmatoadas e torturas
para obrigar inocentes a confessar crimes
e os medos de revolta
e as complicadas demarches politicas
para iludir as almas simples.

Acabaram-se as complicações sociais!
Atingi o zero
Cheguei à hora do inicio do mundo
E resolvi não existir.

Cheguei ao Zero-Espaço
ao nada-tempo
ao Eu coincidente com vós-Tudo.

E o que é mais importante
Salvei o mundo.












Afirmação


Ah!

Faça-se luz no meu espírito
LUZ!

Calem–se as frases loucas
Desta renúncia impossível.


Eu–todos nunca me enganei
nunca coincidirei com o nada
não me deitarei nunca debaixo dos comboios


Não fui eu quem falou
da salvação do mundo
à custa da minha existência
da transformação do valor negativo em Zero
por meio do castigo ao inocente
em super – suicídio novidade histórica


Quem falou não fui eu
foi a minha loucura.


O meu lugar está marcado
no campo da luta
para conquista da vida perdida


Eu sou. Existo
As minhas mãos colocaram pedras
nos alicerces do mundo
Tenho direito ao meu pedaço de pão


Sou um valor positivo
da humanidade
e não abdico,
nunca abdicarei!


Seguirei com os homens livres
O meu caminho
para a liberdade e para a Vida.
Perdoem–me os cinco minutos de loucura
que vivi.




Tuesday, 10 August 2010

Just Poetry (xxiv) [R]*


A IMPLOSÃO DA MENTIRA OU O EPISÓDIO DO RIOCENTRO
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

(…)

E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
-diária/mente.

(…)

Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.

(…)

Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

(…)

Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.

Extractos de um poema apresentado
por Affonso Romano de Sant'anna (Brasil)
durante um Congresso Internacional de Lusitanistas
[versao integral aqui]


*[First posted 27/05/07]
 

A IMPLOSÃO DA MENTIRA OU O EPISÓDIO DO RIOCENTRO
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

(…)

E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
-diária/mente.

(…)

Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.

(…)

Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

(…)

Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.

Extractos de um poema apresentado
por Affonso Romano de Sant'anna (Brasil)
durante um Congresso Internacional de Lusitanistas
[versao integral aqui]


*[First posted 27/05/07]
 

Thursday, 11 March 2010

Alda Espirito Santo (R.I.P.)


No mesmo lado da canoa

As palavras do nosso dia
são palavras simples
claras como a água do regato,
jorrando das encostas ferruginosas
na manhã clara do dia-a-dia.

É assim que eu te falo,
meu irmão contratado numa roça de café
meu irmão que deixas teu sangue numa ponte
ou navegas no mar, num pedaço de ti mesmo em luta
[com o gandu

Minha irmã, lavando, lavando
p'lo pão dos seus filhos,
minha irmã vendendo caroço
na loja mais próxima
p'lo luto dos seus mortos,
minha irmã conformada
vendendo-se por uma vida mais serena,
aumentando afinal as suas penas...
É para vós, irmãos, companheiros da estrada
o meu grito de esperança
convosco eu me sinto dançando
nas noites de tuna
em qualquer fundão, onde a gente se junta,
convosco, irmãos, na safra do cacau,
convosco ainda na feira,
onde o izaquente e a galinha vão render dinheiro.
Convosco, impelindo a canoa p'la praia
juntando-me convosco
em redor do voador panhá
juntando-me na gamela
vadô tlebessá
a dez tostões.

[Poema integral aqui]

No mesmo lado da canoa

As palavras do nosso dia
são palavras simples
claras como a água do regato,
jorrando das encostas ferruginosas
na manhã clara do dia-a-dia.

É assim que eu te falo,
meu irmão contratado numa roça de café
meu irmão que deixas teu sangue numa ponte
ou navegas no mar, num pedaço de ti mesmo em luta
[com o gandu

Minha irmã, lavando, lavando
p'lo pão dos seus filhos,
minha irmã vendendo caroço
na loja mais próxima
p'lo luto dos seus mortos,
minha irmã conformada
vendendo-se por uma vida mais serena,
aumentando afinal as suas penas...
É para vós, irmãos, companheiros da estrada
o meu grito de esperança
convosco eu me sinto dançando
nas noites de tuna
em qualquer fundão, onde a gente se junta,
convosco, irmãos, na safra do cacau,
convosco ainda na feira,
onde o izaquente e a galinha vão render dinheiro.
Convosco, impelindo a canoa p'la praia
juntando-me convosco
em redor do voador panhá
juntando-me na gamela
vadô tlebessá
a dez tostões.

[Poema integral aqui]

Monday, 16 November 2009

JUST POETRY (VIII)

EM BUSCA DE CERTEZA

Do chão ruge um leão
que
após comer uma estrela
encontra a lua
e
nela se estatela
em fugaz mansidão

aí desprende-se da tela
a onça chorona
que
num salto pleno de destreza
tudo transporta com leveza
para a parangona.

Invocados os espíritos
à sala
volta a razão
e
a tragédia se instala
conduzindo a angústia
pelo labirinto
em plena comunhão

dá-se então à música um reforço
e a ela se volta
presa ao chão
a multidão
que
não conseguindo matar a cobra
vive com ela ao pescoço
e diz que tá tudo bem.

Resulta que os sonhos
andam em parafuso
para uso desuso e abuso
novela na barriga
chupa (a)o pé
dos coitados

mas a música já
nos desce mais às mãos
nada há que nos falte
tudo vem a nós
o reino e a vontade
se não houver desfalque

e
sobretudo
se não duvidarmos
das nossas mãos
e
soubermos buscar a certeza
na ponta da estrela.

(A.S., in 'Poemario Proscrito' - catalogado algures sob "geracao das incertezas")


[Ilustracao: Tomckokôkô (1999) - JOEL NAMBOZOUINA, Republica Centro-Africana]
EM BUSCA DE CERTEZA

Do chão ruge um leão
que
após comer uma estrela
encontra a lua
e
nela se estatela
em fugaz mansidão

aí desprende-se da tela
a onça chorona
que
num salto pleno de destreza
tudo transporta com leveza
para a parangona.

Invocados os espíritos
à sala
volta a razão
e
a tragédia se instala
conduzindo a angústia
pelo labirinto
em plena comunhão

dá-se então à música um reforço
e a ela se volta
presa ao chão
a multidão
que
não conseguindo matar a cobra
vive com ela ao pescoço
e diz que tá tudo bem.

Resulta que os sonhos
andam em parafuso
para uso desuso e abuso
novela na barriga
chupa (a)o pé
dos coitados

mas a música já
nos desce mais às mãos
nada há que nos falte
tudo vem a nós
o reino e a vontade
se não houver desfalque

e
sobretudo
se não duvidarmos
das nossas mãos
e
soubermos buscar a certeza
na ponta da estrela.

(A.S., in 'Poemario Proscrito' - catalogado algures sob "geracao das incertezas")


[Ilustracao: Tomckokôkô (1999) - JOEL NAMBOZOUINA, Republica Centro-Africana]

Monday, 9 November 2009

VIRIATO DA CRUZ




AQUELE POR QUEM (INICIALMENTE) SE ESPERAVA...




«As leis do condicionamento industrial e as pautas aduaneiras dos industriais de Portugal, freando a actividade dos industriais de Angola. Existe um controlo absoluto em toda a industria e todo o comércio de Angola, visando, fundamentalmente, manter Angola em situação de perpétua dependência económica em relação a Portugal e as potências imperialistas.
O colonialismo inoculou, pois, em todo o organismo de Angola, o micróbio da ruína, do ódio, do atraso, da miséria, do obscurantismo, da reacção. O caminho em que nos vêm obrigando a seguir é, portanto, absolutamente contrário aos supremos interesses do povo angolano: aos da nossa sobrevivência, da nossa liberdade, do rápido e livre progresso económico, da nossa felicidade, de pão, terra, paz e cultura para todos.»

Viriato da Cruz, Dezembro de 1956


Serão de Menino

Na noite morna, escura de breu,
enquanto na vasta sanzala do céu,
de volta de estrelas, quais fogaréus,
os anjos escutam parábolas de santos...

na noite de breu
ao quente da voz
de suas avós,
meninos se encantam
de contos bantos...

"Era uma vez uma corça
dona de cabra sem macho...
.........................................
... Matreiro, o cágado lento
tuc... tuc... foi entrando
para o conselho animal...
("- Tão tarde que ele chegou!")
Abriu a boca e falou -
deu a sentença final:
"- Não tenham medo da força!
Se o leão o alheio retém
- luta ao Mal! Vitória ao Bem!
tire-se ao leão, dê-se à corça."

Mas quando lá fora
o vento irado nas fresta chora
e ramos xuaxalha de altas mulembas
e portas bambas batem em massembas
os meninos se apertam de olhos abertos:

- Eué
- É casumbi...

E a gente grande -
bem perto dali
feijão descascando para o quitande-
a gente grande com gosto ri...

Com gosto ri, porque ela diz
que o casumbi males só faz
a quem não tem amor, aos mais
seres buscam, em negra noite,
essa outra voz de casumbi
essa outra voz - Felicidade...
[Felicidade]

Mamã Negra

(canto da esperança)

(À memória do poeta haitiano Jacques Roumain)

Tua presença, minha Mãe - drama vivo duma Raça,
Drama de carne e sangue
Que a Vida escreveu com a pena dos séculos!

Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais
[dos seringais dos algodoais!...
Vozes das plantações de Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
Cuba
Brasil...
Vozes dos engenhos dos bangüês das tongas dos eitos
[das pampas das minas!
Vozes de Harlem Hill District South
vozes das sanzalas!
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando
[dos vagões!
Vozes chorando na voz de Corrothers:
Lord God, what will have we done
- Vozes de toda América! Vozes de toda África!
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
Na bela voz de Guillén...

Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aso sóis mais fortes do mundo!
Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor
[amaciando as mais ricas terras do mundo!
Rebrilhantes dorsos (ai, a cor desses dorsos...)
Rebrilhantes dorsos torcidos no "tronco", pendentes da
[forca, caídos por Lynch!
Rebrilhantes dorsos (Ah, como brilham esses dorsos!)
ressuscitados em Zumbi, em Toussaint alevantados!
Rebrilhantes dorsos...
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música!
...do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo...

Pelo teu regaço, minha Mãe,
Outras gentes embaladas
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça...
santos poetas e sábios...

Outras gentes... não teus filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias,
mais são filhos da desgraça:
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo - folguedo...

Pelos teus olhos, minha Mãe
Vejo oceanos de dor
Claridades de sol-posto, paisagens
Roxas paisagens
Dramas de Cam e Jafé...
Mas vejo (Oh! se vejo!...)
mas vejo também que a luz roubada aos teus
[olhos, ora esplende
demoniacamente tentadora - como a Certeza...
cintilantemente firme - como a Esperança...
em nós outros, teus filhos,
gerando, formando, anunciando -

o dia da humanidade

O DIA DA HUMANIDADE!...


[Biography]

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«As leis do condicionamento industrial e as pautas aduaneiras dos industriais de Portugal, freando a actividade dos industriais de Angola. Existe um controlo absoluto em toda a industria e todo o comércio de Angola, visando, fundamentalmente, manter Angola em situação de perpétua dependência económica em relação a Portugal e as potências imperialistas.
O colonialismo inoculou, pois, em todo o organismo de Angola, o micróbio da ruína, do ódio, do atraso, da miséria, do obscurantismo, da reacção. O caminho em que nos vêm obrigando a seguir é, portanto, absolutamente contrário aos supremos interesses do povo angolano: aos da nossa sobrevivência, da nossa liberdade, do rápido e livre progresso económico, da nossa felicidade, de pão, terra, paz e cultura para todos.»

Viriato da Cruz, Dezembro de 1956


Serão de Menino

Na noite morna, escura de breu,
enquanto na vasta sanzala do céu,
de volta de estrelas, quais fogaréus,
os anjos escutam parábolas de santos...

na noite de breu
ao quente da voz
de suas avós,
meninos se encantam
de contos bantos...

"Era uma vez uma corça
dona de cabra sem macho...
.........................................
... Matreiro, o cágado lento
tuc... tuc... foi entrando
para o conselho animal...
("- Tão tarde que ele chegou!")
Abriu a boca e falou -
deu a sentença final:
"- Não tenham medo da força!
Se o leão o alheio retém
- luta ao Mal! Vitória ao Bem!
tire-se ao leão, dê-se à corça."

Mas quando lá fora
o vento irado nas fresta chora
e ramos xuaxalha de altas mulembas
e portas bambas batem em massembas
os meninos se apertam de olhos abertos:

- Eué
- É casumbi...

E a gente grande -
bem perto dali
feijão descascando para o quitande-
a gente grande com gosto ri...

Com gosto ri, porque ela diz
que o casumbi males só faz
a quem não tem amor, aos mais
seres buscam, em negra noite,
essa outra voz de casumbi
essa outra voz - Felicidade...
[Felicidade]

Mamã Negra

(canto da esperança)

(À memória do poeta haitiano Jacques Roumain)

Tua presença, minha Mãe - drama vivo duma Raça,
Drama de carne e sangue
Que a Vida escreveu com a pena dos séculos!

Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais
[dos seringais dos algodoais!...
Vozes das plantações de Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
Cuba
Brasil...
Vozes dos engenhos dos bangüês das tongas dos eitos
[das pampas das minas!
Vozes de Harlem Hill District South
vozes das sanzalas!
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando
[dos vagões!
Vozes chorando na voz de Corrothers:
Lord God, what will have we done
- Vozes de toda América! Vozes de toda África!
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
Na bela voz de Guillén...

Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aso sóis mais fortes do mundo!
Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor
[amaciando as mais ricas terras do mundo!
Rebrilhantes dorsos (ai, a cor desses dorsos...)
Rebrilhantes dorsos torcidos no "tronco", pendentes da
[forca, caídos por Lynch!
Rebrilhantes dorsos (Ah, como brilham esses dorsos!)
ressuscitados em Zumbi, em Toussaint alevantados!
Rebrilhantes dorsos...
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música!
...do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo...

Pelo teu regaço, minha Mãe,
Outras gentes embaladas
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça...
santos poetas e sábios...

Outras gentes... não teus filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias,
mais são filhos da desgraça:
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo - folguedo...

Pelos teus olhos, minha Mãe
Vejo oceanos de dor
Claridades de sol-posto, paisagens
Roxas paisagens
Dramas de Cam e Jafé...
Mas vejo (Oh! se vejo!...)
mas vejo também que a luz roubada aos teus
[olhos, ora esplende
demoniacamente tentadora - como a Certeza...
cintilantemente firme - como a Esperança...
em nós outros, teus filhos,
gerando, formando, anunciando -

o dia da humanidade

O DIA DA HUMANIDADE!...


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