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Wednesday, 7 September 2011

Angola: When Increasing Wealth Doesn't 'Trickle Down' [Anotado]* [R]**



**[Postado inicialmente a 11/07/11]

Repostado a proposito desta materia, que me fez recuar no tempo e revisitar mentalmente alguns "outros" editoriais do "Nosso Pravda" - dos tempos da "ditadura do proletariado", "da justica popular revolucionaria", do "temos que partir os dentes 'a pequena burguesia!" e dos "suicidios de classe", por exemplo...

Pelo caminho, encontrei esta noticia, onde se da' conta de como um dos executores de Che Guevara obteve recentemente o direito legal a uma bilionaria recompensa por ter visto o seu pai suicidar-se a mando de Che, alegadamente "apenas por ser rico", ou seja, por lhe ter negado "o direito a ser rico"...

E, ja' agora, pelo caminho tambem passei por este lugar, onde se conta "uma outra historia" sobre a vida e morte de Che Guevara...

que me desculpen los companeros romanticos mas sensibiles...


Posts relacionados:

De Paulo Lara: Um Testemunho para a Historia

Terra Queimada

Que estara' pasando en el galinero?





Extracts from an article ("Mine, all mine") recently appeared in
The Economist



After three decades in power, José Eduardo dos Santos is presiding over a resource boom. But too few Angolans are seeing the benefits


[…]

Since ending a 27-year civil war in 2002, Angola has become one of sub-Saharan Africa’s richest countries. Angolan mines are the fifth-largest source of diamonds worldwide. Its oil wells already produce 1.9m barrels a day; on present trends, it could overtake Nigeria to become Africa’s largest producer. It has huge agricultural potential. Roads and railways that were destroyed during the fighting have been rebuilt. New schools and hospitals have sprung up.

But Angola is also one of the world’s most unequal countries. (Its Gini coefficient—a measure of income distribution in which zero indicates perfect equality—is 0.55). Most of the benefits of the resource boom have gone to a fairly small elite that lives in an African version of St Tropez, with ritzy beach clubs inside walled enclaves. A crop of skyscrapers encircles a harbour decorated with sleek motorboats and a Ferretti yacht costing $5.5m.

The musseques, as the self-built settlements of the poor are called in Angola, used to start right behind Luanda’s white sandy beaches. Now they have been pushed inland, away from the most desirable spots. Land seizures have become an explosive political issue, as the capital’s hinterland fills up with the displaced. These people are given tin sheets to build shanty towns—but no compensation. Only 9% of Luanda’s population of 5m has running water, a lower share than during the civil war. Across Angola, half the population of 18m has virtually no access to health care. The country has one of the world’s highest rates of infant mortality, and the only known cases of urban polio.

The government says all the right things about the need to improve public services. It promises “water for all” and pledges to build “one million houses” (dubbed by critics “one million dollar houses”, since most of those it does build are unaffordable to all but the rich).

The government’s budget is about $40 billion, bigger than that of some European countries. But aid agencies are still the best hope for ordinary Angolans. In Kilamba Kiaxi, a suburb of Luanda, 1m people got their first taste of running water last year when Unicef set up a few dozen taps. Local officials had told residents they lacked the funds to pump water along existing pipes. In one case Unicef paid a $200,000 fee to the state water company to turn on a tap.

[…]

Critics complain that the government, a prickly but proud bunch of mainly former guerrillas, pays vast sums for white elephants intended to make it look good. It spent more than $1 billion on four stadiums for the Africa Cup of Nations, a football tournament. It also built an imposing stock exchange, though there is no bourse.

[…]

[*] The logic behind the kleptocratic system is complex. Having won the long civil war, members of the ruling People’s Movement for the Liberation of Angola (MPLA) feel they deserve a share of the spoils. José Eduardo dos Santos, the president for the past 31 years, has seemed happy to oblige them to ensure their loyalty. His own family has stakes in several companies. Though publicly in favour of private enterprise and foreign competition, Mr dos Santos is a former Marxist, trained in the Soviet Union, and remains something of a protectionist. He appears to see the many barriers to trade thrown up by his rent-seeking minions as a means of preventing multinationals from taking over. He has a finely honed instinct for preserving his power and a relatively low appetite for outright brutality—Vladimir Putin rather than Joseph Stalin.

Already sub-Saharan Africa’s second-longest-serving leader, Mr dos Santos has changed the constitution so that he can stay in office until 2022 without having to face a direct election again. The changes eliminate elections for the presidency; instead, the leader of the largest group in parliament automatically gets the job. But power is still concentrated in the president’s office. It controls all budgets and appoints judges, prosecutors, generals, state governors and election commissioners.

An uprising is unlikely, since memories of the civil war that killed 1.5m people are still fresh. But parliamentary polls in 2012, though probably rigged, will see more competition than last time, when the MPLA won over 80% of the vote. The president is already campaigning, having made his first state-of-the-nation address last October. Barring a vast drop in the oil price, which would threaten the patronage system, he will almost certainly win. Change may have to await the emergence of a post-war generation of leaders, free of old fears and prepared to challenge the man they call o pai grande, the great father.


[Full article here]





[*] Essa logica torna-se mais complexa ainda quando o poder politico (que aqui se confunde com o estado, ou nao estivessemos em presenca de um "partido-estado" no poder...) se julga e se comporta como "proprietario", nao so' do pais e de todos os seus recursos e riquezas, como tambem de "todo o mundo" que nasceu, cresceu ou viveu sob 'a sua bandeira' (embora se permita votar ao abandono absoluto o 'pioneiro' que pela primeira vez icou tal bandeira!...) , e muito particularmente dos "estudantes bolseiros" que, implicita e explicitamente, assume que "jamais teriam uma formacao media ou superior" nao fossem as suas (famigeradas porque discricionarias, discriminatorias, mal geridas, desencaminhadas, desviadas e, por entre doses de manipulacao, humilhacao e chantagem politica e emocional q.b., em muitos casos, pouco mais do que, a varios titulos, destrutivas!) "bolsas de estudo"... enquanto "os que ficaram" tudo fazem para os estigmatizar e discriminar relativamente a auto-proclamada e novo-enriquecida "prata da casa"!...

Uma logica que, claramente, nao ve o estado (e o partido politico que o detem/sustenta) como "pessoa de bem" para todos e nao apenas para alguns - os "da sua familia, compadrio, confianca, amizade, militancia e/ou conveniencia" - certamente nao para aquela/es que tiveram a veleidade e o "atrevimento politico" de se expressarem e manifestarem a favor da paz "quando nao deviam"!

Assim, porque o poder politico (repitamo-lo: neste caso, o estado) nao e', nem pode ser, "pai grande" para "todo o mundo", os "minions patrioteiros" que "chupam" abundantemente da sua mesa, sacos azuis, envelopes castanhos, cabazes e pactos de regime passam a criar tambem os seus proprios "sub-sistemas de patronagem", tentando a todo o custo grangear "prestigio pessoal" perante a sociedade forjando "a golpes de (Aka)martelo" relacoes manipulativas de subserviencia e dependencia material, financeira e psicologica com os "filhos ilegitimos da patria", i.e. aqueles que o estado, por razoes politicas e afins, faz questao de marginalizar e penalizar (... chegando para tanto a negar-lhes passaportes nacionais, a cercear-lhes/ sabotar-lhes oportunidades academicas e profissionais por si duramente conquistadas, a arruinar-lhes a reputacao, destruir-lhes a personalidade, assassinar-lhes o caracter e a depriva-los dos seus bens e haveres, nomeadamente casas, e da sua mais elementar dignidade humana, transformando-os assim em autenticos mendigos indigentes, enquanto lhes atiram a cara, ainda que falsamente e mesmo que o contrario seja efectivamente o verdadeiro, que "debicaram no seu prato"!), fazendo-os depois "pagar ad-eternum com juros hiper-inflacionados em mercado aberto na praca publica a hipoteca da amizade e familia manipuladas pelo contexto"! Era desse processo que falava, ha' uns tempos, aqui...

Uma realidade, alias, que, curiosamente, foi tambem assinalada nesse tipo de processos de "construcao social" em Cuba, como aqui se pode constatar: "(...) Ferrer points out that this system was also designed to encourage the subservience, indebtedness and gratitude of former slaves to the rebel leaders. While it certainly had this effect, libertos also seized the revolutionary language of freedom, liberty, and justice to demand a more inclusive role in the anti-colonial struggle."

E tal logica torna-se ainda mais perversa e corrosiva (...criando assim as raizes e os tentaculos desse verdadeiro cancro que e' a corrupcao generalizada e institucionalizada - endemica, portanto...) quando e' interiorizada, operacionalizada, assumida e externalizada por segmentos da sociedade dos quais isso menos se esperaria, como jornalistas e afins, e ate' membros do clero num estado supostamente laico. Note-se, a este proposito, estas declaracoes do Conego Apolonio Graciano, em recente entrevista ao Semanario Angolense [edicao #424 de 09/07/11]:




«Já recebi sim. Mas, mostre-me alguém que nunca recebeu nada» [**]

SA - É verdade que o MPLA andou a distribuir milhões de dólares pelos bispos angolanos, sendo que alguns até têm exibido sinais de riqueza incomuns? O senhor já apanhou alguma coisa do regime?

CAG - Há muita mentira e calúnias contra os Bispos de Angola. Nunca imaginei que alguns angolanos seriam capazes de tamanha aberração caluniosa. Vê-se que o demónio está «nu» e feroz contra a Igreja Católica.

[...]

SA – Mas, já apanhou algo ou não?

CAG - O senhor jornalista pergunta-me se já apanhei alguma coisa do regime? Com a mesma naturalidade com que me pergunta também lhe respondo: Querendo ou não, todo o angolano, de uma forma directa ou indirecta, já beneficiou de alguma coisa dada pelo regime. Antes mesmo de ser padre, a minha formação secundária, alguns cursos profissionais, os passaportes que hoje exibo em toda parte do mundo como angolano, a viatura que me serve para atender diariamente aos meus fiéis, a casa onde os meus pais vivem e o mínimo que tenho para sobreviver e ter dignidade de homem e cidadão. Por quem havia de esperar para ter algo para sobreviver? Será que os deputados angolanos e os partidos políticos no país, nunca beneficiaram algo do regime? Passados 35 anos de independência por quem havíamos de esperar para ter dignidade de angolanos? Será que devíamos esperar pelo regresso do regime colonial ou de um outro partido? Quem está no poder, para além de exercer a sua vontade política, tem a obrigação de responder as necessidades, anseios e exigências do povo que o elege. Não é crime algum que um partido ofereça do que tem a quem achar conveniente. Conheço casos de pessoas particulares e até mesmo de jornalistas que receberam no passado e ainda recebem algo de partidos e não são nem comungam as ideias de tais partidos. Pergunto se é apenas crime quando se recebe algo do partido no poder e não quando se trata de um outro? Precisamos saber lidar com a vida política do país. A inveja, a intriga e o ódio não ajudam o desenvolvimento da pátria…

[SIC]


[**] Se me e' permitido, aqui esta' alguem que nunca "apanhou" e muito menos "recebeu" nada do regime... muito antes pelo contrario!





**[Postado inicialmente a 11/07/11]

Repostado a proposito
desta materia, que me fez recuar no tempo e revisitar mentalmente alguns "outros" editoriais do "Nosso Pravda" - dos tempos da "ditadura do proletariado", "da justica popular revolucionaria", do "temos que partir os dentes 'a pequena burguesia!" e dos "suicidios de classe", por exemplo...

Pelo caminho, encontrei esta noticia, onde se da' conta de como um dos executores de Che Guevara obteve recentemente o direito legal a uma bilionaria recompensa por ter visto o seu pai suicidar-se a mando de Che, alegadamente "apenas por ser rico", ou seja, por lhe ter negado "o direito a ser rico"...

E, ja' agora, pelo caminho tambem passei por este lugar, onde se conta "uma outra historia" sobre a vida e morte de Che Guevara...

que me desculpen los companeros romanticos mas sensibiles...


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De Paulo Lara: Um Testemunho para a Historia

Terra Queimada

Que estara' pasando en el galinero?





Extracts from an article ("Mine, all mine") recently appeared in
The Economist



After three decades in power, José Eduardo dos Santos is presiding over a resource boom. But too few Angolans are seeing the benefits


[…]

Since ending a 27-year civil war in 2002, Angola has become one of sub-Saharan Africa’s richest countries. Angolan mines are the fifth-largest source of diamonds worldwide. Its oil wells already produce 1.9m barrels a day; on present trends, it could overtake Nigeria to become Africa’s largest producer. It has huge agricultural potential. Roads and railways that were destroyed during the fighting have been rebuilt. New schools and hospitals have sprung up.

But Angola is also one of the world’s most unequal countries. (Its Gini coefficient—a measure of income distribution in which zero indicates perfect equality—is 0.55). Most of the benefits of the resource boom have gone to a fairly small elite that lives in an African version of St Tropez, with ritzy beach clubs inside walled enclaves. A crop of skyscrapers encircles a harbour decorated with sleek motorboats and a Ferretti yacht costing $5.5m.

The musseques, as the self-built settlements of the poor are called in Angola, used to start right behind Luanda’s white sandy beaches. Now they have been pushed inland, away from the most desirable spots. Land seizures have become an explosive political issue, as the capital’s hinterland fills up with the displaced. These people are given tin sheets to build shanty towns—but no compensation. Only 9% of Luanda’s population of 5m has running water, a lower share than during the civil war. Across Angola, half the population of 18m has virtually no access to health care. The country has one of the world’s highest rates of infant mortality, and the only known cases of urban polio.

The government says all the right things about the need to improve public services. It promises “water for all” and pledges to build “one million houses” (dubbed by critics “one million dollar houses”, since most of those it does build are unaffordable to all but the rich).

The government’s budget is about $40 billion, bigger than that of some European countries. But aid agencies are still the best hope for ordinary Angolans. In Kilamba Kiaxi, a suburb of Luanda, 1m people got their first taste of running water last year when Unicef set up a few dozen taps. Local officials had told residents they lacked the funds to pump water along existing pipes. In one case Unicef paid a $200,000 fee to the state water company to turn on a tap.

[…]

Critics complain that the government, a prickly but proud bunch of mainly former guerrillas, pays vast sums for white elephants intended to make it look good. It spent more than $1 billion on four stadiums for the Africa Cup of Nations, a football tournament. It also built an imposing stock exchange, though there is no bourse.

[…]

[*] The logic behind the kleptocratic system is complex. Having won the long civil war, members of the ruling People’s Movement for the Liberation of Angola (MPLA) feel they deserve a share of the spoils. José Eduardo dos Santos, the president for the past 31 years, has seemed happy to oblige them to ensure their loyalty. His own family has stakes in several companies. Though publicly in favour of private enterprise and foreign competition, Mr dos Santos is a former Marxist, trained in the Soviet Union, and remains something of a protectionist. He appears to see the many barriers to trade thrown up by his rent-seeking minions as a means of preventing multinationals from taking over. He has a finely honed instinct for preserving his power and a relatively low appetite for outright brutality—Vladimir Putin rather than Joseph Stalin.

Already sub-Saharan Africa’s second-longest-serving leader, Mr dos Santos has changed the constitution so that he can stay in office until 2022 without having to face a direct election again. The changes eliminate elections for the presidency; instead, the leader of the largest group in parliament automatically gets the job. But power is still concentrated in the president’s office. It controls all budgets and appoints judges, prosecutors, generals, state governors and election commissioners.

An uprising is unlikely, since memories of the civil war that killed 1.5m people are still fresh. But parliamentary polls in 2012, though probably rigged, will see more competition than last time, when the MPLA won over 80% of the vote. The president is already campaigning, having made his first state-of-the-nation address last October. Barring a vast drop in the oil price, which would threaten the patronage system, he will almost certainly win. Change may have to await the emergence of a post-war generation of leaders, free of old fears and prepared to challenge the man they call o pai grande, the great father.


[Full article here]





[*] Essa logica torna-se mais complexa ainda quando o poder politico (que aqui se confunde com o estado, ou nao estivessemos em presenca de um "partido-estado" no poder...) se julga e se comporta como "proprietario", nao so' do pais e de todos os seus recursos e riquezas, como tambem de "todo o mundo" que nasceu, cresceu ou viveu sob 'a sua bandeira' (embora se permita votar ao abandono absoluto o 'pioneiro' que pela primeira vez icou tal bandeira!...) , e muito particularmente dos "estudantes bolseiros" que, implicita e explicitamente, assume que "jamais teriam uma formacao media ou superior" nao fossem as suas (famigeradas porque discricionarias, discriminatorias, mal geridas, desencaminhadas, desviadas e, por entre doses de manipulacao, humilhacao e chantagem politica e emocional q.b., em muitos casos, pouco mais do que, a varios titulos, destrutivas!) "bolsas de estudo"... enquanto "os que ficaram" tudo fazem para os estigmatizar e discriminar relativamente a auto-proclamada e novo-enriquecida "prata da casa"!...

Uma logica que, claramente, nao ve o estado (e o partido politico que o detem/sustenta) como "pessoa de bem" para todos e nao apenas para alguns - os "da sua familia, compadrio, confianca, amizade, militancia e/ou conveniencia" - certamente nao para aquela/es que tiveram a veleidade e o "atrevimento politico" de se expressarem e manifestarem a favor da paz "quando nao deviam"!

Assim, porque o poder politico (repitamo-lo: neste caso, o estado) nao e', nem pode ser, "pai grande" para "todo o mundo", os "minions patrioteiros" que "chupam" abundantemente da sua mesa, sacos azuis, envelopes castanhos, cabazes e pactos de regime passam a criar tambem os seus proprios "sub-sistemas de patronagem", tentando a todo o custo grangear "prestigio pessoal" perante a sociedade forjando "a golpes de (Aka)martelo" relacoes manipulativas de subserviencia e dependencia material, financeira e psicologica com os "filhos ilegitimos da patria", i.e. aqueles que o estado, por razoes politicas e afins, faz questao de marginalizar e penalizar (... chegando para tanto a negar-lhes passaportes nacionais, a cercear-lhes/ sabotar-lhes oportunidades academicas e profissionais por si duramente conquistadas, a arruinar-lhes a reputacao, destruir-lhes a personalidade, assassinar-lhes o caracter e a depriva-los dos seus bens e haveres, nomeadamente casas, e da sua mais elementar dignidade humana, transformando-os assim em autenticos mendigos indigentes, enquanto lhes atiram a cara, ainda que falsamente e mesmo que o contrario seja efectivamente o verdadeiro, que "debicaram no seu prato"!), fazendo-os depois "pagar ad-eternum com juros hiper-inflacionados em mercado aberto na praca publica a hipoteca da amizade e familia manipuladas pelo contexto"! Era desse processo que falava, ha' uns tempos, aqui...

Uma realidade, alias, que, curiosamente, foi tambem assinalada nesse tipo de processos de "construcao social" em Cuba, como aqui se pode constatar: "(...) Ferrer points out that this system was also designed to encourage the subservience, indebtedness and gratitude of former slaves to the rebel leaders. While it certainly had this effect, libertos also seized the revolutionary language of freedom, liberty, and justice to demand a more inclusive role in the anti-colonial struggle."

E tal logica torna-se ainda mais perversa e corrosiva (...criando assim as raizes e os tentaculos desse verdadeiro cancro que e' a corrupcao generalizada e institucionalizada - endemica, portanto...) quando e' interiorizada, operacionalizada, assumida e externalizada por segmentos da sociedade dos quais isso menos se esperaria, como jornalistas e afins, e ate' membros do clero num estado supostamente laico. Note-se, a este proposito, estas declaracoes do Conego Apolonio Graciano, em recente entrevista ao Semanario Angolense [edicao #424 de 09/07/11]:




«Já recebi sim. Mas, mostre-me alguém que nunca recebeu nada» [**]

SA - É verdade que o MPLA andou a distribuir milhões de dólares pelos bispos angolanos, sendo que alguns até têm exibido sinais de riqueza incomuns? O senhor já apanhou alguma coisa do regime?

CAG - Há muita mentira e calúnias contra os Bispos de Angola. Nunca imaginei que alguns angolanos seriam capazes de tamanha aberração caluniosa. Vê-se que o demónio está «nu» e feroz contra a Igreja Católica.

[...]

SA – Mas, já apanhou algo ou não?

CAG - O senhor jornalista pergunta-me se já apanhei alguma coisa do regime? Com a mesma naturalidade com que me pergunta também lhe respondo: Querendo ou não, todo o angolano, de uma forma directa ou indirecta, já beneficiou de alguma coisa dada pelo regime. Antes mesmo de ser padre, a minha formação secundária, alguns cursos profissionais, os passaportes que hoje exibo em toda parte do mundo como angolano, a viatura que me serve para atender diariamente aos meus fiéis, a casa onde os meus pais vivem e o mínimo que tenho para sobreviver e ter dignidade de homem e cidadão. Por quem havia de esperar para ter algo para sobreviver? Será que os deputados angolanos e os partidos políticos no país, nunca beneficiaram algo do regime? Passados 35 anos de independência por quem havíamos de esperar para ter dignidade de angolanos? Será que devíamos esperar pelo regresso do regime colonial ou de um outro partido? Quem está no poder, para além de exercer a sua vontade política, tem a obrigação de responder as necessidades, anseios e exigências do povo que o elege. Não é crime algum que um partido ofereça do que tem a quem achar conveniente. Conheço casos de pessoas particulares e até mesmo de jornalistas que receberam no passado e ainda recebem algo de partidos e não são nem comungam as ideias de tais partidos. Pergunto se é apenas crime quando se recebe algo do partido no poder e não quando se trata de um outro? Precisamos saber lidar com a vida política do país. A inveja, a intriga e o ódio não ajudam o desenvolvimento da pátria…

[SIC]


[**] Se me e' permitido, aqui esta' alguem que nunca "apanhou" e muito menos "recebeu" nada do regime... muito antes pelo contrario!



Friday, 19 August 2011

Revisitando a SADC (Parte II)




[Yinka Shonibare - La Meduse]


[Continuacao daqui]


Mas, porque volto entao a este tema quando ele se tem demonstrado de tao dificil abordagem?

Fundamentalmente porque, apesar de formalmente afastada profissionalmente dessa area, continuo a sentir algo como um certo “sentido de dever” de sobre ela emitir a minha opiniao sempre que tal se me afigure relevante.

Nao me proponho, no entanto, debrucar-me sobre as questoes de fundo que a problematica do engajamento de Angola no comercio intra e inter-regional suscitam – tal requereria uma abordagem eminentemente tecnica que, manifestamente, nao cabe no espirito informal deste blog (por vezes permito-me quebrar esse espirito, como aqui, ou aqui, mas apenas quando se trate de artigos ja’ escritos num contexto academico e/ou profissional). Limitar-me-ei, portanto, a alinhavar aqui algumas notas que gostaria de sugerir para a reflexao de quem, porventura, possa nelas estar interessado:

Geografia e Historia

- ‘As afirmacoes do Prof. Mourao ocorre-me apenas reafirmar algo que ja’ aqui, entre outros lugares referi: a mais antiga Uniao Aduaneira (UA) do mundo, a SACU (Southern Africa Customs Union, integrada por Botswana, Lesotho, Namibia, South Africa, e Swazilandia), foi criada na Africa Austral, em 1910 - tendo, portanto, celebrado o seu primeiro centenario no ano passado. Avaliar, criticar e ate’ mesmo condenar (!) a sua estrutura, economia politica e modus operandi desde a sua criacao ate’ aos dias de hoje e’ um exercicio a que tambem ja’ me dediquei extensivamente em outras ocasioes e que aqui me escusarei de repetir.

O que aqui importara’, sobretudo, notar e’ que nao so’ a criacao de uma UA na Africa Austral e’ possivel e tem precedentes historicos originais (dos quais a regiao pode colher importantes licoes, tanto no sentido positivo como no negativo), como tambem a criacao de uma UA mais ampla no quadro do Protocolo de Comercio da SADC esta’ definida nesse mesmo Protocolo, no Tratado da organizacao, na sua Agenda Comum e, entre outros dos seus instrumentos de politica, no seu Plano Indicativo Estrategico Regional, nao como “um objectivo imediato”, mas como uma meta a atingir-se gradualmente no quadro de uma estrategia de integracao regional com base no principio da "geometria assimetrica" (cuja aplicacao pratica no ambito das metas de convergencia macroeconomica da regiao podera' ser encontrada aqui) que contempla os diferentes estagios de desenvolvimento dos paises membros.

Apenas acrescentaria algo que nao pode deixar de ser referido neste contexto e que tambem ja’ referi noutras ocasioes: o comercio internacional de Angola (‘a parte a exportacao de petroleo e diamantes) e’ dominado por tres paises: Portugal, Brasil e China. Nao pretendendo aqui acusar o Prof. Mourao de estar a “tentar puxar a brasa para a sua sardinha (Brasil)”, pergunto-me se sera’ “politica e diplomaticamente sensivel” (ainda que, porventura, “culturalmente defensavel” - embora este argumento cada vez mais se venha desvanescendo perante a contemporanea "invasao chinesa"...) pretender-se escamotear o facto de os fluxos comerciais de Angola estarem historica e estruturalmente “voltados de frente para o Atlantico” (e, mais recentemente, para a Asia) e “de costas” para o hinterland Africano – facto que, admitidamente, estara’ na base de uma certa relutancia (generalisada?) em relacao a ideia de um maior envolvimento do pais nos esforcos de intensificacao do comercio intra-regional?

E, nao sera’ esse, tambem, um problema historico e estrutural com que virtualmente todas as economias africanas estao confrontadas, em resultado da heranca de relacoes de dependencia criadas pela colonizacao e que a OUA/UA, atraves de varias iniciativas regionais e continentais (das quais se destaca mais recentemente a NEPAD - Nova Parceria para o Desenvolvimento de Africa) ao longo das decadas desde as independencias, cujo jubileu se celebrou no ano passado, tem tentado reverter a favor do desenvolvimento endogeno, sustentado e sustentavel do continente?

Comercio e Desenvolvimento

- Uma outra nota que se me afigura premente, apesar de aparentemente obvia, e’ que se vem notando alguma dificuldade por parte dos sectores de opiniao a que me referia na primeira parte deste artigo em conciliar o(s) conceito(s) de ‘comercio’ e ‘desenvolvimento’. Foi, alias, essa dificuldade que esteve na base da controversia que se instalou entre mim e um dos membros do painel de que fiz parte neste evento...

No entanto, o facto incontornavel e’ que o comercio (internacional) nao e’ a antitese do desenvolvimento (economico). O objectivo da SADC, tal como o de organizacoes internacionais como a Conferencia das Nacoes Unidas para o Comercio e o Desenvolvimento (CNUCED/ UNCTAD), e’ precisamente colocar o comercio como alavanca ao servico do desenvolvimento economico nacional, regional e internacional - ou seja, o objectivo e' promover o comercio para o desenvolvimento.

Como atingir-se tal objectivo e’ a grande questao com que essas organizacoes, em associacao com o mundo academico e profissional especializado, se veem debatendo na teoria e na pratica, pelo menos desde as teorias das vantagens absolutas e comparativas de Smith e Ricardo, respectivamente.

[Continua]




[Yinka Shonibare - La Meduse]


[Continuacao daqui]


Mas, porque volto entao a este tema quando ele se tem demonstrado de tao dificil abordagem?

Fundamentalmente porque, apesar de formalmente afastada profissionalmente dessa area, continuo a sentir algo como um certo “sentido de dever” de sobre ela emitir a minha opiniao sempre que tal se me afigure relevante.

Nao me proponho, no entanto, debrucar-me sobre as questoes de fundo que a problematica do engajamento de Angola no comercio intra e inter-regional suscitam – tal requereria uma abordagem eminentemente tecnica que, manifestamente, nao cabe no espirito informal deste blog (por vezes permito-me quebrar esse espirito, como aqui, ou aqui, mas apenas quando se trate de artigos ja’ escritos num contexto academico e/ou profissional). Limitar-me-ei, portanto, a alinhavar aqui algumas notas que gostaria de sugerir para a reflexao de quem, porventura, possa nelas estar interessado:

Geografia e Historia

- ‘As afirmacoes do Prof. Mourao ocorre-me apenas reafirmar algo que ja’ aqui, entre outros lugares referi: a mais antiga Uniao Aduaneira (UA) do mundo, a SACU (Southern Africa Customs Union, integrada por Botswana, Lesotho, Namibia, South Africa, e Swazilandia), foi criada na Africa Austral, em 1910 - tendo, portanto, celebrado o seu primeiro centenario no ano passado. Avaliar, criticar e ate’ mesmo condenar (!) a sua estrutura, economia politica e modus operandi desde a sua criacao ate’ aos dias de hoje e’ um exercicio a que tambem ja’ me dediquei extensivamente em outras ocasioes e que aqui me escusarei de repetir.

O que aqui importara’, sobretudo, notar e’ que nao so’ a criacao de uma UA na Africa Austral e’ possivel e tem precedentes historicos originais (dos quais a regiao pode colher importantes licoes, tanto no sentido positivo como no negativo), como tambem a criacao de uma UA mais ampla no quadro do Protocolo de Comercio da SADC esta’ definida nesse mesmo Protocolo, no Tratado da organizacao, na sua Agenda Comum e, entre outros dos seus instrumentos de politica, no seu Plano Indicativo Estrategico Regional, nao como “um objectivo imediato”, mas como uma meta a atingir-se gradualmente no quadro de uma estrategia de integracao regional com base no principio da "geometria assimetrica" (cuja aplicacao pratica no ambito das metas de convergencia macroeconomica da regiao podera' ser encontrada aqui) que contempla os diferentes estagios de desenvolvimento dos paises membros.

Apenas acrescentaria algo que nao pode deixar de ser referido neste contexto e que tambem ja’ referi noutras ocasioes: o comercio internacional de Angola (‘a parte a exportacao de petroleo e diamantes) e’ dominado por tres paises: Portugal, Brasil e China. Nao pretendendo aqui acusar o Prof. Mourao de estar a “tentar puxar a brasa para a sua sardinha (Brasil)”, pergunto-me se sera’ “politica e diplomaticamente sensivel” (ainda que, porventura, “culturalmente defensavel” - embora este argumento cada vez mais se venha desvanescendo perante a contemporanea "invasao chinesa"...) pretender-se escamotear o facto de os fluxos comerciais de Angola estarem historica e estruturalmente “voltados de frente para o Atlantico” (e, mais recentemente, para a Asia) e “de costas” para o hinterland Africano – facto que, admitidamente, estara’ na base de uma certa relutancia (generalisada?) em relacao a ideia de um maior envolvimento do pais nos esforcos de intensificacao do comercio intra-regional?

E, nao sera’ esse, tambem, um problema historico e estrutural com que virtualmente todas as economias africanas estao confrontadas, em resultado da heranca de relacoes de dependencia criadas pela colonizacao e que a OUA/UA, atraves de varias iniciativas regionais e continentais (das quais se destaca mais recentemente a NEPAD - Nova Parceria para o Desenvolvimento de Africa) ao longo das decadas desde as independencias, cujo jubileu se celebrou no ano passado, tem tentado reverter a favor do desenvolvimento endogeno, sustentado e sustentavel do continente?

Comercio e Desenvolvimento

- Uma outra nota que se me afigura premente, apesar de aparentemente obvia, e’ que se vem notando alguma dificuldade por parte dos sectores de opiniao a que me referia na primeira parte deste artigo em conciliar o(s) conceito(s) de ‘comercio’ e ‘desenvolvimento’. Foi, alias, essa dificuldade que esteve na base da controversia que se instalou entre mim e um dos membros do painel de que fiz parte neste evento...

No entanto, o facto incontornavel e’ que o comercio (internacional) nao e’ a antitese do desenvolvimento (economico). O objectivo da SADC, tal como o de organizacoes internacionais como a Conferencia das Nacoes Unidas para o Comercio e o Desenvolvimento (CNUCED/ UNCTAD), e’ precisamente colocar o comercio como alavanca ao servico do desenvolvimento economico nacional, regional e internacional - ou seja, o objectivo e' promover o comercio para o desenvolvimento.

Como atingir-se tal objectivo e’ a grande questao com que essas organizacoes, em associacao com o mundo academico e profissional especializado, se veem debatendo na teoria e na pratica, pelo menos desde as teorias das vantagens absolutas e comparativas de Smith e Ricardo, respectivamente.

[Continua]

Saturday, 22 January 2011

JUST POETRY (V) [R]* [Actualizado]



PARA ANGOLA, RAPIDAMENTE E EM FORÇA

Peço ao vento por graçola
notícias do meu país
e o vento diz: «Vai para Angola».
(É o que o vento me diz.)
«Tem juízo, vai para Angola,
isto aqui está por um triz.»

Vamos todos para Angola
desde o Malanje ao Namibe
aproveitar por esmola
o crescimento do PIB.

Vem tu também, anda, anda,
escolhe uma profissão:
agora os preto é quem manda,
os preto é nosso patrão.

Leva a família na frente,
mulher, filhos, pai e mãe,
e se ainda couber mais gente
traz outro amigo também.

Vamos todos sem demora,
uns à solta, outros à trela,
vamos invadir Angola
do Moxico até Benguela.

Vamos de avião, navio,
canoa, bote ou jangada,
isto aqui está por um fio,
vai ser uma debandada.

Vamos todos para Angola,
destino de emigração,
vamos todos para Angola,
atrás do Diogo Cão.


[Poema daqui /// Ecos do original aqui]



*[Postado inicialmente a 06/05/09 - "repostado" hoje devido aos ultimos comentarios a ele feitos]







Em referencia aos comentarios feitos a este post nos ultimos dias, permitam-me, como “ser humano genuino” – tal como o sao (ou foram) os retratados, brancos e negros, nesta materia –, alinhar aqui algumas breves notas para esta que me parece ser, manifestamente, uma discussao de, entre e sobre portugueses, “genuinos” ou nao.

Tres vectores fundamentais confluem de forma problematica e frequentemente conflituosa para esta questao: a Historia, a Cultura e a Economia:


1. Historia – Portugal colonizou partes do actual territorio de Angola durante cerca de 5 seculos. Foi uma colonizacao, como todas, nao pacificamente aceite pela esmagadora maioria dos seus subditos, mesmo quando todas as aparencias pudessem sugerir o contrario. Por isso houve guerras de resistencia ao longo dos seculos, por isso houve uma guerra anti-colonial durante mais de uma decada, por isso houve a independencia – todos, factos historicos incontestaveis e irreversiveis: nao ficcao cientifica.

Poderia o processo de “descolonizacao” ter sido menos traumatico para ambos os lados? Questao ainda nao resolvida e que, pelo menos nos termos em que o debate (nao) tem vindo a ser conduzido, parece jamais vir a se-lo, pelo que sobre ela limitar-me-ei a sugerir que “o que aconteceu, esta’ acontecido” e “o que nao tem remedio, remediado esta’”, ou ainda, "de nada serve chorar sobre o leite derramado"... sendo certo que, qualquer que seja a evolucao, ou resolucao, dessa questao, a chamada “recolonizacao” nao me parece ser a resposta mais adequada para ela, certamente nao nos termos em que tem vindo a ser advogada.


2. Cultura – Uma parte, diga-se que minoritaria, dos angolanos foi assimilada, voluntaria ou involuntariamente, a cultura e lingua portuguesas. Mas, precisamente por ser minoritaria, embora contemporaneamente “poderosa”, “elitizante” e “socio-economicamente dominante”, ela nao detem de facto os “fios condutores” da totalidade da vida cultural, social e humana do pais Angola. Ha’ outros “fios condutores” no tecido que (con)forma o pais real, enfim outras sensibilidades que, embora tentem (e, de algum modo, consigam em alguns casos) negociar entre si e acomodar-se umas as outras em nome do um “um so' povo, uma so' nacao”, continuam (e, diga-se, legitimamente) a ansiar pela sua “validacao”, ou, dito de outro modo, pela legitimacao das suas respectivas “identidades e etnicidades” proprias como parte de um todo diverso, mas que se pretende harmonioso, depois de uma guerra fratricida de cerca de tres decadas, que teve em grande medida na sua base tais anseios e reivindicacoes (veja-se, por exemplo, o caso das Lundas aqui e aqui, ou o de Cabinda, aqui). Trata-se de facto real, indesmentivel, incontornavel e insofismavel, nao de mito, nem de ficcao literaria!

E sobre isso, ha’ ja’ varios anos, em Portugal, lembro-me de ter escrito e publicado algo em que me detinha sobre a manifesta dificuldade que os portugueses em geral demonstram em compreender cabalmente essa realidade, possivelmente por Portugal ser um pais cerca de 14 vezes menor do que Angola em tamanho e nao se apresentar tao diverso etnica, linguistica e culturalmente como esta. E esse e’ tambem um facto, embora os portugueses na Europa, ou em qualquer outra parte do mundo, se comportem geralmente como extremamente ciosos da sua propria “identidade” ou, se se preferir, da sua “genuinidade”: abrem as suas proprias lojas, bares, cafes e restaurantes com produtos alimentares e musica exclusivamente portugueses e frequentados quase exclusivamente por portugueses, falam exclusivamente portugues entre si, estabelecem as suas proprias igrejas com servicos exclusivamente em portugues, promovem as suas proprias e exclusivas actividades comunitarias e sociais com base na sua cultura nacional, chegam a formar verdadeiros ghetos em algumas zonas das cidades, onde tudo o que se ve, cheira e ouve e' portugues... ou seja, nascem, crescem, vivem, socializam-se, reproduzem-se e morrem como qualquer outro “grupo etnico” nesses paises (algo que, embora de forma “conglomerada” com as comunidades ditas hispanicas ou latinas no Reino Unido, se deixa bem patente aqui ).

Porque entao, tanta dificuldade e resistencia em compreender-se e aceitar-se (como, de resto, resulta evidente quer dos ataques sistematicos de que tenho sido abertamente alvo neste blog - seja directamente aqui por "desconhecidos", seja indirectamente noutros blogs bem identificados na lusosfera -, quer das campanhas que, de forma mais ou menos velada e insidiosa me teem sido dirigidas a partir de Angola, sobretudo, mas nao apenas, atraves de uma “certa imprensa” controlada por grupos financeiros portugueses, ou seus associados...) que os angolanos, ou pelo menos (grandes!) segmentos deles, o facam, ou pretendam fazer, de forma civica e democratica no seu proprio pais?

E, nesse particular, parece-me que eu me encontro neste momento muito mais na posicao dos emigrantes portugueses de ontem e de hoje que se diz serem e terem sido vitimas do chauvinismo, escarnio e oprobrio dos seus compatriotas “que ficaram”, do que na dos ditos “angolanos genuinos” que se diz “entenderem ter recebido Angola como heranca dos seus ancestrais”...


3. Economia – Angola tem vindo, de ha’ uns anos a esta parte, a apresentar niveis “espectaculares” de crescimento economico – facto. Portugal encontra-se neste momento a apresentar niveis, igualmente “espectaculares”, de recessao economica – facto. Sera’ natural que um numero cada vez maior de portugueses busquem oportunidades economicas noutras paragens e, em especial, em Angola, sua antiga “joia da coroa” – facto. O que ja’ nao sera’ tao natural, nem tao factual assim, e’ que se tente transformar tudo isso num caso de “atraccao fatal” entre os dois paises... Desde logo porque nao ha’ nada nos principios fundamentais da economia, seja ela de mercado ou nao - e muito menos nos de uma economia globalizada e competitiva como a que “estamos com ela” quer queiramos e gostemos quer nao -, que o fundamente.

O facto e’ que, qualquer que seja o modelo economico adoptado, “crescimento do PIB” nao significa ipso facto “desenvolvimento economico” e a sistematica marginalizacao, quando nao total exclusao da maioria dos angolanos dos beneficios desse crescimento economico - e ate’ mesmo da sua participacao/contribuicao para ele, em particular por parte de alguns que, como eu, se viram forcados a permanecer no exterior por varias circunstancias adversas originadas no pais (... e provocadas por angolanos!...) e que sao ostensivamente hostilizados por alguns sectores proteccionistas de uma certa auto-designada “prata da casa”... -, devido a um inexistente ou deficiente investimento no stock de capital humano nacional e a sua absorcao e integracao sistematica num processo consistente de desenvolvimento economico-social e cultural endogeno, sustentado e sustentavel, apenas tende a elevar os “muros de resistencia” ao crescente numero de estrangeiros (portugueses ou nao) aportando presentemente as costas angolanas e, em muitos casos, sem qualquer controlo... e isso, no longo prazo, nao e’ bom para ninguem, “genuinos” ou nao – facto.

A realidade e’ que a actual politica de imigracao de Angola e’ explicita e ostensivamente enviezada contra os africanos que tentam entrar pelas suas fronteiras terrestres (como os cartoons, adaptados daqui, com que ilustro este texto o explicitam), nao contra os portugueses: estes, como todas as estatisticas o revelam, nao so’ teem ido para Angola e “em forca” nos ultimos anos sem grandes empecilhos, como e’ em Portugal que os angolanos endinheirados fazem o grosso dos seus gastos de consumo e investimentos publicos e privados.

[E abro aqui um parentesis para sugerir o seguinte: imagine-se que apenas uma infima fraccao dos verdadeiros "balurdios" de dinheiro publico usados pela Sonangol em investimentos em Portugal, fosse aplicada no financiamento de investimentos produtivos trabalho-intensivos que criassem emprego nas regioes fronteiricas, tanto em Angola, como nos paises vizinhos. Nao seriam tais investimentos muito mais recomendaveis, louvaveis e ate' rentaveis sob todos os pontos de vista - desde logo, porque teriam o condao de funcionar como um "travao" aos fluxos migratorios por razoes economicas nessas areas e contribuiriam para o tao propalado "desenvolvimento e independencia economica do continente", para alem de funcionarem como um mecanismo de poupanca dos recursos materiais e financeiros actualmente empregues no patrulhamento das fronteiras e controlo/contencao/repressao dos emigrantes africanos pretendendo entrar em Angola e, em ultima analise, contribuirem de forma substantiva, permanente e duravel para a prosperidade, paz e seguranca regional... - especialmente neste momento em que Angola assume, mais uma vez, a presidencia da SADC?!]

E na base de tudo isso esta’ uma ideia de “desenvolvimento” que tem no periodo colonial o seu “modelo”. Acontece que os niveis de “desenvolvimento” atingidos sob tal “modelo” tinham por base um regime politico-ideologico que nao me parece ser o mais adaptavel, certamente nao o mais adequado, quer 'a Angola, quer ao Portugal, quer ao Mundo de hoje. Modelo esse, alias, que foi de forma magistral e visionaria descrito e denunciado por Viriato da Cruz nos termos em que aqui parcialmente destaquei...

Todas essas questoes, abordei-as, de forma mais ‘academica’, recentemente aqui , e de forma mais ‘prosaica’, ha’ ja’ algum tempo, aqui - onde, note-se, dos posicionamentos de Pepetela, a par dos de outros membros da inteligentzia angolana, ou luso-angolana, que sobre essas questoes se teem pronunciado publicamente nos ultimos tempos, resulta evidente que a corrente onda dominante nao e’ adversa 'a ‘recolonizacao’ de Angola pelos portugueses, como, de resto aqui se pode constatar ad nauseum: bem pelo contrario!

E nao deixa de ser interessante notar a este proposito que essa mesma inteligentzia conta entre as suas fileiras com alguns dos que nao so' dizem ter participado na "luta contra o colonialismo" (e desse estatuto de "antigos combatentes" muita gala fazem e amplos beneficios vitalicios, pessoais e familiares, colhem...), como se destacaram entre os mais radicais no desmantelamento e "transformacao revolucionaria" do tal "patamar tecno-juridico-administrativo que Angola ja' teve", em nome da criacao, desenvolvimento e reproducao do dito "homem novo"... a comecar pelo sistema de ensino! ... E quem naquela altura se lhes opusesse, ainda que passivamente, era apelidado de "contra-revolucionario", "pequeno burgues", "lacaio do colonialismo", "agente do imperialismo", etc. etc. etc. ... Nao deixo, porem, de lhes gabar a "coerencia": foram tao radicais em relacao 'a "descolonizacao" como o sao agora em relacao 'a "recolonizacao" (enfim, em quaisquer circunstancias "iguais a si proprios"!) ... o que talvez nao seja de todo estranho ao facto de certas neofitas formacoes politicas ultra-minoritarias precisarem desesperadamente de alargar a sua base eleitoral de apoio...

E, aqui, convira' distinguir-se claramente "recolonizacao" sem qualquer qualificacao, planificacao ou priorizacao (o que, alias, o poema aqui em questao, revela: "escolhe uma profissao"...), de "cooperacao" (economica, tecnico-cientifica e profissional) - esta existe, e sempre existiu desde a independencia, com Portugal e com outros paises, e se os portugueses podem contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola com a "vantagem comparativa" da sua lingua e cultura devido a historia que liga os dois paises, pois eles sao e sempre foram bem vindos (idos) naquelas areas e sectores onde realmente tal "vantagem comparativa" possa ser transformada em "valor acrescentado" para ambas as partes. Mas que nao se perca de vista, por via da chamada "neofita ideologia dos (pretensos) afectos", que Portugal nao e' o unico pais que pode contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola.

Veja-se, a esse respeito, o caso de Mocambique que, desde a sua independencia, aderiu 'a Commonwealth, adoptou o Ingles praticamente como sua segunda lingua oficial e tem um leque bastante diversificado de parceiros de cooperacao economica internacional, sem que por isso tenha impedido Portugal, ou os portugueses, de la' viverem, regressarem, ou trabalharem...

Enfim, em geito de conclusao, parece-me ser avisado que tanto angolanos (“genuinos” ou nao), como portugueses (tambem “genuinos” ou nao), bem como todos os nacionais de outros paises, ajam neste momento historico particularmente critico da vida de Angola tao racionalmente quanto possivel face aos factos e realidades, nao aos mitos e ficcoes, em presenca.

Tudo o resto nao passara’ de um pernicioso e patetico “display de emoti(c)ons” com mais do que previsiveis consequencias nefastas para todas as partes – a Historia de Angola revela-o a saciedade!

Tenho dito.





P.S.: Acrescentaria apenas as seguintes notas a margem:

i. A proposito de "fechamentos sociais e economicos" ou, se se preferir, mecanismos de exclusao social, tradicionais em Angola, esta citacao de David Sogge: "Colonial and post-colonial elites showed no interest in creating an ‘open access order’ based on citizenship for all and competitive markets. A path was laid down around a weak but autocratic colonial state dependent on outside powers. Mediocre institutions and underskilled people were additional legacies. Angolan nationalist movements, their leaders imbued with norms of a ‘limited access order’, and habituated to the use of armed force, had no ready alternatives when they assumed power.";


ii. Em relacao a todas essas questoes, mas em particular a suposta "dificuldade de entendimento e aceitacao" por parte da generalidade dos portugueses da diversidade etnico-linguistica de Angola, seria recomendavel uma exploracao da area da Historia Moderna designada Subaltern Studies;


iii. Sobre os movimentos trans-fronteiricos entre Angola e o Congo (Zaire) em epocas mais recuadas, com a devida venia, esta detalhada descricao por Fernando Ribeiro:

Nos troços de fronteira entre Angola e o Zaire em que não houvesse obstáculos naturais, não existia qualquer vedação ou outra barreira que impedisse a comunicação entre ambos os lados. A fronteira estava apenas assinalada por marcos de pedra em forma de grossos obeliscos, com 2 metros de altura ou pouco mais, que mostravam o escudo da monarquia portuguesa, esculpido em baixo relevo, no lado virado para Angola, o da monarquia belga no lado virado para o Zaire e o ano de 1895 gravado por cima de cada um dos escudos. Os marcos fronteiriços estavam colocados a uma distância de cerca de 40 quilómetros uns dos outros, talvez, e estavam milimetricamente alinhados uns pelos outros, numa linha reta espantosamente rigorosa.

Como, nos troços onde não havia obstáculos naturais, a fronteira estava desimpedida, ela era atravessada por caminhos de pé posto, que todos os dias eram percorridos por pessoas que passavam "a salto" de Angola para o Zaire e vice-versa. O movimento de pessoas ao longo destes carreiros era bastante intenso. Angolanos (refugiados ou não) e zairenses circulavam de um lado para o outro ao longo do dia, em função, sobretudo, das feiras mensais e mercados rurais que de ambos os lados se iam realizando. Levavam os produtos das suas lavras (campos), a fim de os vender onde fossem mais caros, e traziam as mercadorias de que necessitavam, compradas onde elas fossem mais baratas. É evidente que os contrabandistas (havia bastantes) também faziam um uso intensivo destes caminhos transfronteiriços.

Assim que o sol nascia, nas zonas onde houvesse uma sanzala do lado de Angola que ficasse próxima da fronteira e estivesse dotada de uma escola, os caminhos referidos eram percorridos por crianças, vindas do Zaire para Angola, que vinham frequentar as aulas. Estas crianças percorriam a pé vários quilómetros a caminho da escola e eram as primeiras pessoas que atravessavam a fronteira logo pela manhãzinha.

Estas crianças eram filhas de angolanos refugiados no Zaire. Os seus encarregados de educação faziam questão em que elas frequentassem uma escola angolana, porque queriam que elas não se esquecessem das suas raízes, apesar de já terem nascido no exílio, se sentissem orgulhosas de Angola e soubessem falar, ler e escrever em português.



[aqui, onde, ja' agora, tambem se pode ver esta descricao de Kinshasa e ouvir um pouco da musica do magistral Franco]






PARA ANGOLA, RAPIDAMENTE E EM FORÇA

Peço ao vento por graçola
notícias do meu país
e o vento diz: «Vai para Angola».
(É o que o vento me diz.)
«Tem juízo, vai para Angola,
isto aqui está por um triz.»

Vamos todos para Angola
desde o Malanje ao Namibe
aproveitar por esmola
o crescimento do PIB.

Vem tu também, anda, anda,
escolhe uma profissão:
agora os preto é quem manda,
os preto é nosso patrão.

Leva a família na frente,
mulher, filhos, pai e mãe,
e se ainda couber mais gente
traz outro amigo também.

Vamos todos sem demora,
uns à solta, outros à trela,
vamos invadir Angola
do Moxico até Benguela.

Vamos de avião, navio,
canoa, bote ou jangada,
isto aqui está por um fio,
vai ser uma debandada.

Vamos todos para Angola,
destino de emigração,
vamos todos para Angola,
atrás do Diogo Cão.


[Poema daqui /// Ecos do original aqui]



*[Postado inicialmente a 06/05/09 - "repostado" hoje devido aos ultimos comentarios a ele feitos]







Em referencia aos comentarios feitos a este post nos ultimos dias, permitam-me, como “ser humano genuino” – tal como o sao (ou foram) os retratados, brancos e negros, nesta materia –, alinhar aqui algumas breves notas para esta que me parece ser, manifestamente, uma discussao de, entre e sobre portugueses, “genuinos” ou nao.

Tres vectores fundamentais confluem de forma problematica e frequentemente conflituosa para esta questao: a Historia, a Cultura e a Economia:


1. Historia – Portugal colonizou partes do actual territorio de Angola durante cerca de 5 seculos. Foi uma colonizacao, como todas, nao pacificamente aceite pela esmagadora maioria dos seus subditos, mesmo quando todas as aparencias pudessem sugerir o contrario. Por isso houve guerras de resistencia ao longo dos seculos, por isso houve uma guerra anti-colonial durante mais de uma decada, por isso houve a independencia – todos, factos historicos incontestaveis e irreversiveis: nao ficcao cientifica.

Poderia o processo de “descolonizacao” ter sido menos traumatico para ambos os lados? Questao ainda nao resolvida e que, pelo menos nos termos em que o debate (nao) tem vindo a ser conduzido, parece jamais vir a se-lo, pelo que sobre ela limitar-me-ei a sugerir que “o que aconteceu, esta’ acontecido” e “o que nao tem remedio, remediado esta’”, ou ainda, "de nada serve chorar sobre o leite derramado"... sendo certo que, qualquer que seja a evolucao, ou resolucao, dessa questao, a chamada “recolonizacao” nao me parece ser a resposta mais adequada para ela, certamente nao nos termos em que tem vindo a ser advogada.


2. Cultura – Uma parte, diga-se que minoritaria, dos angolanos foi assimilada, voluntaria ou involuntariamente, a cultura e lingua portuguesas. Mas, precisamente por ser minoritaria, embora contemporaneamente “poderosa”, “elitizante” e “socio-economicamente dominante”, ela nao detem de facto os “fios condutores” da totalidade da vida cultural, social e humana do pais Angola. Ha’ outros “fios condutores” no tecido que (con)forma o pais real, enfim outras sensibilidades que, embora tentem (e, de algum modo, consigam em alguns casos) negociar entre si e acomodar-se umas as outras em nome do um “um so' povo, uma so' nacao”, continuam (e, diga-se, legitimamente) a ansiar pela sua “validacao”, ou, dito de outro modo, pela legitimacao das suas respectivas “identidades e etnicidades” proprias como parte de um todo diverso, mas que se pretende harmonioso, depois de uma guerra fratricida de cerca de tres decadas, que teve em grande medida na sua base tais anseios e reivindicacoes (veja-se, por exemplo, o caso das Lundas aqui e aqui, ou o de Cabinda, aqui). Trata-se de facto real, indesmentivel, incontornavel e insofismavel, nao de mito, nem de ficcao literaria!

E sobre isso, ha’ ja’ varios anos, em Portugal, lembro-me de ter escrito e publicado algo em que me detinha sobre a manifesta dificuldade que os portugueses em geral demonstram em compreender cabalmente essa realidade, possivelmente por Portugal ser um pais cerca de 14 vezes menor do que Angola em tamanho e nao se apresentar tao diverso etnica, linguistica e culturalmente como esta. E esse e’ tambem um facto, embora os portugueses na Europa, ou em qualquer outra parte do mundo, se comportem geralmente como extremamente ciosos da sua propria “identidade” ou, se se preferir, da sua “genuinidade”: abrem as suas proprias lojas, bares, cafes e restaurantes com produtos alimentares e musica exclusivamente portugueses e frequentados quase exclusivamente por portugueses, falam exclusivamente portugues entre si, estabelecem as suas proprias igrejas com servicos exclusivamente em portugues, promovem as suas proprias e exclusivas actividades comunitarias e sociais com base na sua cultura nacional, chegam a formar verdadeiros ghetos em algumas zonas das cidades, onde tudo o que se ve, cheira e ouve e' portugues... ou seja, nascem, crescem, vivem, socializam-se, reproduzem-se e morrem como qualquer outro “grupo etnico” nesses paises (algo que, embora de forma “conglomerada” com as comunidades ditas hispanicas ou latinas no Reino Unido, se deixa bem patente aqui ).

Porque entao, tanta dificuldade e resistencia em compreender-se e aceitar-se (como, de resto, resulta evidente quer dos ataques sistematicos de que tenho sido abertamente alvo neste blog - seja directamente aqui por "desconhecidos", seja indirectamente noutros blogs bem identificados na lusosfera -, quer das campanhas que, de forma mais ou menos velada e insidiosa me teem sido dirigidas a partir de Angola, sobretudo, mas nao apenas, atraves de uma “certa imprensa” controlada por grupos financeiros portugueses, ou seus associados...) que os angolanos, ou pelo menos (grandes!) segmentos deles, o facam, ou pretendam fazer, de forma civica e democratica no seu proprio pais?

E, nesse particular, parece-me que eu me encontro neste momento muito mais na posicao dos emigrantes portugueses de ontem e de hoje que se diz serem e terem sido vitimas do chauvinismo, escarnio e oprobrio dos seus compatriotas “que ficaram”, do que na dos ditos “angolanos genuinos” que se diz “entenderem ter recebido Angola como heranca dos seus ancestrais”...


3. Economia – Angola tem vindo, de ha’ uns anos a esta parte, a apresentar niveis “espectaculares” de crescimento economico – facto. Portugal encontra-se neste momento a apresentar niveis, igualmente “espectaculares”, de recessao economica – facto. Sera’ natural que um numero cada vez maior de portugueses busquem oportunidades economicas noutras paragens e, em especial, em Angola, sua antiga “joia da coroa” – facto. O que ja’ nao sera’ tao natural, nem tao factual assim, e’ que se tente transformar tudo isso num caso de “atraccao fatal” entre os dois paises... Desde logo porque nao ha’ nada nos principios fundamentais da economia, seja ela de mercado ou nao - e muito menos nos de uma economia globalizada e competitiva como a que “estamos com ela” quer queiramos e gostemos quer nao -, que o fundamente.

O facto e’ que, qualquer que seja o modelo economico adoptado, “crescimento do PIB” nao significa ipso facto “desenvolvimento economico” e a sistematica marginalizacao, quando nao total exclusao da maioria dos angolanos dos beneficios desse crescimento economico - e ate’ mesmo da sua participacao/contribuicao para ele, em particular por parte de alguns que, como eu, se viram forcados a permanecer no exterior por varias circunstancias adversas originadas no pais (... e provocadas por angolanos!...) e que sao ostensivamente hostilizados por alguns sectores proteccionistas de uma certa auto-designada “prata da casa”... -, devido a um inexistente ou deficiente investimento no stock de capital humano nacional e a sua absorcao e integracao sistematica num processo consistente de desenvolvimento economico-social e cultural endogeno, sustentado e sustentavel, apenas tende a elevar os “muros de resistencia” ao crescente numero de estrangeiros (portugueses ou nao) aportando presentemente as costas angolanas e, em muitos casos, sem qualquer controlo... e isso, no longo prazo, nao e’ bom para ninguem, “genuinos” ou nao – facto.

A realidade e’ que a actual politica de imigracao de Angola e’ explicita e ostensivamente enviezada contra os africanos que tentam entrar pelas suas fronteiras terrestres (como os cartoons, adaptados daqui, com que ilustro este texto o explicitam), nao contra os portugueses: estes, como todas as estatisticas o revelam, nao so’ teem ido para Angola e “em forca” nos ultimos anos sem grandes empecilhos, como e’ em Portugal que os angolanos endinheirados fazem o grosso dos seus gastos de consumo e investimentos publicos e privados.

[E abro aqui um parentesis para sugerir o seguinte: imagine-se que apenas uma infima fraccao dos verdadeiros "balurdios" de dinheiro publico usados pela Sonangol em investimentos em Portugal, fosse aplicada no financiamento de investimentos produtivos trabalho-intensivos que criassem emprego nas regioes fronteiricas, tanto em Angola, como nos paises vizinhos. Nao seriam tais investimentos muito mais recomendaveis, louvaveis e ate' rentaveis sob todos os pontos de vista - desde logo, porque teriam o condao de funcionar como um "travao" aos fluxos migratorios por razoes economicas nessas areas e contribuiriam para o tao propalado "desenvolvimento e independencia economica do continente", para alem de funcionarem como um mecanismo de poupanca dos recursos materiais e financeiros actualmente empregues no patrulhamento das fronteiras e controlo/contencao/repressao dos emigrantes africanos pretendendo entrar em Angola e, em ultima analise, contribuirem de forma substantiva, permanente e duravel para a prosperidade, paz e seguranca regional... - especialmente neste momento em que Angola assume, mais uma vez, a presidencia da SADC?!]

E na base de tudo isso esta’ uma ideia de “desenvolvimento” que tem no periodo colonial o seu “modelo”. Acontece que os niveis de “desenvolvimento” atingidos sob tal “modelo” tinham por base um regime politico-ideologico que nao me parece ser o mais adaptavel, certamente nao o mais adequado, quer 'a Angola, quer ao Portugal, quer ao Mundo de hoje. Modelo esse, alias, que foi de forma magistral e visionaria descrito e denunciado por Viriato da Cruz nos termos em que aqui parcialmente destaquei...

Todas essas questoes, abordei-as, de forma mais ‘academica’, recentemente aqui , e de forma mais ‘prosaica’, ha’ ja’ algum tempo, aqui - onde, note-se, dos posicionamentos de Pepetela, a par dos de outros membros da inteligentzia angolana, ou luso-angolana, que sobre essas questoes se teem pronunciado publicamente nos ultimos tempos, resulta evidente que a corrente onda dominante nao e’ adversa 'a ‘recolonizacao’ de Angola pelos portugueses, como, de resto aqui se pode constatar ad nauseum: bem pelo contrario!

E nao deixa de ser interessante notar a este proposito que essa mesma inteligentzia conta entre as suas fileiras com alguns dos que nao so' dizem ter participado na "luta contra o colonialismo" (e desse estatuto de "antigos combatentes" muita gala fazem e amplos beneficios vitalicios, pessoais e familiares, colhem...), como se destacaram entre os mais radicais no desmantelamento e "transformacao revolucionaria" do tal "patamar tecno-juridico-administrativo que Angola ja' teve", em nome da criacao, desenvolvimento e reproducao do dito "homem novo"... a comecar pelo sistema de ensino! ... E quem naquela altura se lhes opusesse, ainda que passivamente, era apelidado de "contra-revolucionario", "pequeno burgues", "lacaio do colonialismo", "agente do imperialismo", etc. etc. etc. ... Nao deixo, porem, de lhes gabar a "coerencia": foram tao radicais em relacao 'a "descolonizacao" como o sao agora em relacao 'a "recolonizacao" (enfim, em quaisquer circunstancias "iguais a si proprios"!) ... o que talvez nao seja de todo estranho ao facto de certas neofitas formacoes politicas ultra-minoritarias precisarem desesperadamente de alargar a sua base eleitoral de apoio...

E, aqui, convira' distinguir-se claramente "recolonizacao" sem qualquer qualificacao, planificacao ou priorizacao (o que, alias, o poema aqui em questao, revela: "escolhe uma profissao"...), de "cooperacao" (economica, tecnico-cientifica e profissional) - esta existe, e sempre existiu desde a independencia, com Portugal e com outros paises, e se os portugueses podem contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola com a "vantagem comparativa" da sua lingua e cultura devido a historia que liga os dois paises, pois eles sao e sempre foram bem vindos (idos) naquelas areas e sectores onde realmente tal "vantagem comparativa" possa ser transformada em "valor acrescentado" para ambas as partes. Mas que nao se perca de vista, por via da chamada "neofita ideologia dos (pretensos) afectos", que Portugal nao e' o unico pais que pode contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola.

Veja-se, a esse respeito, o caso de Mocambique que, desde a sua independencia, aderiu 'a Commonwealth, adoptou o Ingles praticamente como sua segunda lingua oficial e tem um leque bastante diversificado de parceiros de cooperacao economica internacional, sem que por isso tenha impedido Portugal, ou os portugueses, de la' viverem, regressarem, ou trabalharem...

Enfim, em geito de conclusao, parece-me ser avisado que tanto angolanos (“genuinos” ou nao), como portugueses (tambem “genuinos” ou nao), bem como todos os nacionais de outros paises, ajam neste momento historico particularmente critico da vida de Angola tao racionalmente quanto possivel face aos factos e realidades, nao aos mitos e ficcoes, em presenca.

Tudo o resto nao passara’ de um pernicioso e patetico “display de emoti(c)ons” com mais do que previsiveis consequencias nefastas para todas as partes – a Historia de Angola revela-o a saciedade!

Tenho dito.





P.S.: Acrescentaria apenas as seguintes notas a margem:

i. A proposito de "fechamentos sociais e economicos" ou, se se preferir, mecanismos de exclusao social, tradicionais em Angola, esta citacao de David Sogge: "Colonial and post-colonial elites showed no interest in creating an ‘open access order’ based on citizenship for all and competitive markets. A path was laid down around a weak but autocratic colonial state dependent on outside powers. Mediocre institutions and underskilled people were additional legacies. Angolan nationalist movements, their leaders imbued with norms of a ‘limited access order’, and habituated to the use of armed force, had no ready alternatives when they assumed power.";


ii. Em relacao a todas essas questoes, mas em particular a suposta "dificuldade de entendimento e aceitacao" por parte da generalidade dos portugueses da diversidade etnico-linguistica de Angola, seria recomendavel uma exploracao da area da Historia Moderna designada Subaltern Studies;


iii. Sobre os movimentos trans-fronteiricos entre Angola e o Congo (Zaire) em epocas mais recuadas, com a devida venia, esta detalhada descricao por Fernando Ribeiro:

Nos troços de fronteira entre Angola e o Zaire em que não houvesse obstáculos naturais, não existia qualquer vedação ou outra barreira que impedisse a comunicação entre ambos os lados. A fronteira estava apenas assinalada por marcos de pedra em forma de grossos obeliscos, com 2 metros de altura ou pouco mais, que mostravam o escudo da monarquia portuguesa, esculpido em baixo relevo, no lado virado para Angola, o da monarquia belga no lado virado para o Zaire e o ano de 1895 gravado por cima de cada um dos escudos. Os marcos fronteiriços estavam colocados a uma distância de cerca de 40 quilómetros uns dos outros, talvez, e estavam milimetricamente alinhados uns pelos outros, numa linha reta espantosamente rigorosa.

Como, nos troços onde não havia obstáculos naturais, a fronteira estava desimpedida, ela era atravessada por caminhos de pé posto, que todos os dias eram percorridos por pessoas que passavam "a salto" de Angola para o Zaire e vice-versa. O movimento de pessoas ao longo destes carreiros era bastante intenso. Angolanos (refugiados ou não) e zairenses circulavam de um lado para o outro ao longo do dia, em função, sobretudo, das feiras mensais e mercados rurais que de ambos os lados se iam realizando. Levavam os produtos das suas lavras (campos), a fim de os vender onde fossem mais caros, e traziam as mercadorias de que necessitavam, compradas onde elas fossem mais baratas. É evidente que os contrabandistas (havia bastantes) também faziam um uso intensivo destes caminhos transfronteiriços.

Assim que o sol nascia, nas zonas onde houvesse uma sanzala do lado de Angola que ficasse próxima da fronteira e estivesse dotada de uma escola, os caminhos referidos eram percorridos por crianças, vindas do Zaire para Angola, que vinham frequentar as aulas. Estas crianças percorriam a pé vários quilómetros a caminho da escola e eram as primeiras pessoas que atravessavam a fronteira logo pela manhãzinha.

Estas crianças eram filhas de angolanos refugiados no Zaire. Os seus encarregados de educação faziam questão em que elas frequentassem uma escola angolana, porque queriam que elas não se esquecessem das suas raízes, apesar de já terem nascido no exílio, se sentissem orgulhosas de Angola e soubessem falar, ler e escrever em português.



[aqui, onde, ja' agora, tambem se pode ver esta descricao de Kinshasa e ouvir um pouco da musica do magistral Franco]




Thursday, 20 January 2011

A Tarefa de Substituir JES (I) [R]**





** [Postado inicialmente a 18/01/10; "repostado" a 28/08/10 e "re-repostado" hoje a proposito da materia a que podera' aceder clickando na imagem acima]


Por entre as euforias e desapontamentos do CAN, o ‘calcanhar de Aquiles’ de Cabinda, ou a tensao com os dois Congos, a (inevitavel, embora talvez insustentavel para alguns) tarefa nacional de substituir o Presidente Jose' Eduardo dos Santos parece estar na mente de muitos (senao todos) angolanos.

E nao e’ tarefa facil.

Desde logo porque o corrente embroglio politico-constitucional (aparentemente de sua inteira criacao) a torna mais complexa do que ja’ o seria por natureza. Mas, qualquer que seja o seu desfecho – aparentemente previsivel segundo as linhas da ja’ famigerada (consagrada?) 'proposta C' [*] – a tarefa apresenta-se incontornavel: JES nao pode, nem deve, perpectuar-se na Presidencia do pais Angola. Nao pode, simplesmente porque, tanto as leis da vida, quanto a ingente democratizacao da sociedade a todos os niveis, assim o exigem. Nao deve, claramente porque a preservacao do que havera’ de defensavel no seu longo mandato de tres decadas assim o reclama.

Tomemos, entao, “substituir JES” como uma tarefa a colocar na agenda nacional (tanto quanto possivel de consenso) para execucao num horizonte temporal curto, medio ou longo, mas previsivel e inevitavel. Tal agendamento passara’ necessariamente por pelo menos tres passos:

A. Uma tao rigorosa quanto possivel escrutinizacao do seu exercicio;
B. A consideracao das possiveis alternativas;
C. A avaliacao de tais alternativas contra o pano de fundo do pulsar politico, economico, social e cultural do pais real.

Porque, manifestamente, nao e’ tarefa facil, restringir-me-ei nesta abordagem inicial ao enunciado primeiro passo.

A. O Bom, o Mau e o Feio

Escrutinizar o mandato de JES, mesmo porque ele encompassa tres decadas marcadas por profundas mudancas no tecido socio-economico e politico do pais e no seu posicionamento estrategico internacional, nao pode ser, assim o exige um minimo de rigor analitico, um exercicio unidimensional.

Havera’, por conseguinte, que colocar na balanca os varios vectores da sua prestacao que, para facilidade de equacionamento e exposicao, sintetizaria nas populares (e reconheco que algo redutoras e caricaturizantes, sem contudo deixarem de ser uteis) categorias de “bom, mau e feio” (em Ingles, "the good, the bad and the ugly").

'O Bom'

Tenho para mim que, no balanco final, JES emergira’ na historia angolana do pos-independencia como um bom gestor de conflitos macro-sociais e, consequentemente, politicos.
Efectivamente, e apenas para mencionar o exemplo mais eloquoente, dificilmente se lhe retirara’ o merito de ter conseguido manter sob contencao e ate’ de o ter distendido quase ao ponto de esvaziamento, o barril de polvora socio-politico e racial herdado do 27 de Maio de 1977.
Igual merito lhe cabera’ na integracao politico-institucional e na acomodacao etnico-tribal do pos-guerra, bem como na gestao dos processos de pacificacao e de transicao democratica do pais.
Meritos, obviamente nao exclusivos nem totais (e alguns dos excluidos e rejeitados desses processos - certamente por nao terem qualquer vocacao para lamber botas de quem quer que seja... - aqui estao para o confirmar !), mas meritos de qualquer modo.

'O Mau'

Tendo sido, aparentemente, um bom gestor de conflitos ao nivel “macro”, JES tera’ sido, talvez em igual medida, um mau gestor de conflitos ao nivel “micro”. Nesta categoria inserem-se os conflitos de caracter particular e pessoal gerados pela sua gestao, como “chefe incontestavel”, de virtualmente todos os orgaos de decisao politico-institucional, do aparelho governativo e dos seus servidores e da regulacao do partido maioritario que dirige. E’ esta vertente do exercicio do seu poder que tende a atrair as cada vez mais insistentes e generalizadas acusacoes de “lambebotismo” e outros “ismos” menos abonatorios para a sua imagem. Mas, por entre tais acusacoes, talvez nao seja completamente despropositado colocar as seguintes questoes:

i) Seria de esperar outro comportamento numa sociedade ainda em transicao para uma democracia plena (tanto em termos representativos quanto participativos) e gerida durante quase todo o seu pos-independencia (antecedido, nunca sera’ demais lembra-lo, de um regime colonial-fascista de longa duracao) sob um sistema mono-partidario? E, nisso, por um partido unico gerido por um “centralismo democratico” que se consubstanciou num mecanismo de tomada de decisoes por um restrito “comite’ central” e um ainda mais restrito “bureau politico” sob o estrito comando do “chefe”, cabendo aos militantes intermedios e de base apenas a prerrogativa de votarem com a mao no ar (ou, mais recentemente, por “voto discreto”) nos seus espacados conclaves aos mais diversos niveis?

ii) Seria de esperar outro comportamento por entre um substracto ideologico balizado por “lideres imortais, intocaveis e incontestaveis”, nao apenas a nivel nacional, como a todos os outros niveis, sectores e instituicoes, incluindo o governo e os partidos politicos, passando pelos mundos empresarial, dos midia, das artes e das letras e pela propria academia?

iii) Seria de esperar outro comportamento no seio de uma cultura politica e de uma praxis social que ainda “nao se dao muito bem”, para dizer o minimo, com conceitos como "competicao honesta", “meritocracia” e “cultura do debate”?

Serao as possiveis respostas logicas a essas questoes ilibadoras da ma’ prestacao de JES nesse dominio? Nao necessariamente. Mas creio que poderao contribuir para uma melhor contextualizacao dessa mesma prestacao no espaco e tempo historico-politicos em que se desempenhou e para uma mais ampla, objectiva, realista e criteriosa avaliacao das alternativas possiveis.

'O Feio'

Nepotismo.
Enriquecimento ilicito.
Falta de transparencia governativa e de responsabilizacao e punicao dos (maus) gestores publicos.
Delapidacao praticamente generalizada do erario publico.
Hostilizacao, depauperamento, marginalizacao economica e exclusao social da maioria da populacao.

Assim se resumira’ essa vertente mais danosa do exercicio de JES, para a qual se poderao igualmente encontrar raizes culturais e sistemicas - mesmo que nao lhe possam ser inteira ou exclusivamente imputadas - mas que, inexoravelmente, tende a eclipsar completamente os seus lados mais defensaveis. E e’ essa vertente que exige que ele abandone o poder mais cedo do que tarde – iniciativas de ”tolerancia zero” [**], pecando por tardias para travar tal inevitabilidade, nao obstante.

=====

[*] Aparentemente, dois dias depois de isto escrito, o dito embroglio tera' sido assim resolvido.


[**] Dias depois, no seu acto de posse como Presidente da Terceira Republica resultante da "resolucao do embroglio constitucional", JES viria a 'acrescentar alguma carne ao esqueleto' da sua "tolerancia zero".




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"Esquerda Democratica"?


E Assim Comeca o Annus Angolensis

E Se Os Paises Africanos Fossem Os EUA?

A Tarefa de Substituir JES (II)








** [Postado inicialmente a 18/01/10; "repostado" a 28/08/10 e "re-repostado" hoje a proposito da materia a que podera' aceder clickando na imagem acima]


Por entre as euforias e desapontamentos do CAN, o ‘calcanhar de Aquiles’ de Cabinda, ou a tensao com os dois Congos, a (inevitavel, embora talvez insustentavel para alguns) tarefa nacional de substituir o Presidente Jose' Eduardo dos Santos parece estar na mente de muitos (senao todos) angolanos.

E nao e’ tarefa facil.

Desde logo porque o corrente embroglio politico-constitucional (aparentemente de sua inteira criacao) a torna mais complexa do que ja’ o seria por natureza. Mas, qualquer que seja o seu desfecho – aparentemente previsivel segundo as linhas da ja’ famigerada (consagrada?) 'proposta C' [*] – a tarefa apresenta-se incontornavel: JES nao pode, nem deve, perpectuar-se na Presidencia do pais Angola. Nao pode, simplesmente porque, tanto as leis da vida, quanto a ingente democratizacao da sociedade a todos os niveis, assim o exigem. Nao deve, claramente porque a preservacao do que havera’ de defensavel no seu longo mandato de tres decadas assim o reclama.

Tomemos, entao, “substituir JES” como uma tarefa a colocar na agenda nacional (tanto quanto possivel de consenso) para execucao num horizonte temporal curto, medio ou longo, mas previsivel e inevitavel. Tal agendamento passara’ necessariamente por pelo menos tres passos:

A. Uma tao rigorosa quanto possivel escrutinizacao do seu exercicio;
B. A consideracao das possiveis alternativas;
C. A avaliacao de tais alternativas contra o pano de fundo do pulsar politico, economico, social e cultural do pais real.

Porque, manifestamente, nao e’ tarefa facil, restringir-me-ei nesta abordagem inicial ao enunciado primeiro passo.

A. O Bom, o Mau e o Feio

Escrutinizar o mandato de JES, mesmo porque ele encompassa tres decadas marcadas por profundas mudancas no tecido socio-economico e politico do pais e no seu posicionamento estrategico internacional, nao pode ser, assim o exige um minimo de rigor analitico, um exercicio unidimensional.

Havera’, por conseguinte, que colocar na balanca os varios vectores da sua prestacao que, para facilidade de equacionamento e exposicao, sintetizaria nas populares (e reconheco que algo redutoras e caricaturizantes, sem contudo deixarem de ser uteis) categorias de “bom, mau e feio” (em Ingles, "the good, the bad and the ugly").

'O Bom'

Tenho para mim que, no balanco final, JES emergira’ na historia angolana do pos-independencia como um bom gestor de conflitos macro-sociais e, consequentemente, politicos.
Efectivamente, e apenas para mencionar o exemplo mais eloquoente, dificilmente se lhe retirara’ o merito de ter conseguido manter sob contencao e ate’ de o ter distendido quase ao ponto de esvaziamento, o barril de polvora socio-politico e racial herdado do 27 de Maio de 1977.
Igual merito lhe cabera’ na integracao politico-institucional e na acomodacao etnico-tribal do pos-guerra, bem como na gestao dos processos de pacificacao e de transicao democratica do pais.
Meritos, obviamente nao exclusivos nem totais (e alguns dos excluidos e rejeitados desses processos - certamente por nao terem qualquer vocacao para lamber botas de quem quer que seja... - aqui estao para o confirmar !), mas meritos de qualquer modo.

'O Mau'

Tendo sido, aparentemente, um bom gestor de conflitos ao nivel “macro”, JES tera’ sido, talvez em igual medida, um mau gestor de conflitos ao nivel “micro”. Nesta categoria inserem-se os conflitos de caracter particular e pessoal gerados pela sua gestao, como “chefe incontestavel”, de virtualmente todos os orgaos de decisao politico-institucional, do aparelho governativo e dos seus servidores e da regulacao do partido maioritario que dirige. E’ esta vertente do exercicio do seu poder que tende a atrair as cada vez mais insistentes e generalizadas acusacoes de “lambebotismo” e outros “ismos” menos abonatorios para a sua imagem. Mas, por entre tais acusacoes, talvez nao seja completamente despropositado colocar as seguintes questoes:

i) Seria de esperar outro comportamento numa sociedade ainda em transicao para uma democracia plena (tanto em termos representativos quanto participativos) e gerida durante quase todo o seu pos-independencia (antecedido, nunca sera’ demais lembra-lo, de um regime colonial-fascista de longa duracao) sob um sistema mono-partidario? E, nisso, por um partido unico gerido por um “centralismo democratico” que se consubstanciou num mecanismo de tomada de decisoes por um restrito “comite’ central” e um ainda mais restrito “bureau politico” sob o estrito comando do “chefe”, cabendo aos militantes intermedios e de base apenas a prerrogativa de votarem com a mao no ar (ou, mais recentemente, por “voto discreto”) nos seus espacados conclaves aos mais diversos niveis?

ii) Seria de esperar outro comportamento por entre um substracto ideologico balizado por “lideres imortais, intocaveis e incontestaveis”, nao apenas a nivel nacional, como a todos os outros niveis, sectores e instituicoes, incluindo o governo e os partidos politicos, passando pelos mundos empresarial, dos midia, das artes e das letras e pela propria academia?

iii) Seria de esperar outro comportamento no seio de uma cultura politica e de uma praxis social que ainda “nao se dao muito bem”, para dizer o minimo, com conceitos como "competicao honesta", “meritocracia” e “cultura do debate”?

Serao as possiveis respostas logicas a essas questoes ilibadoras da ma’ prestacao de JES nesse dominio? Nao necessariamente. Mas creio que poderao contribuir para uma melhor contextualizacao dessa mesma prestacao no espaco e tempo historico-politicos em que se desempenhou e para uma mais ampla, objectiva, realista e criteriosa avaliacao das alternativas possiveis.

'O Feio'

Nepotismo.
Enriquecimento ilicito.
Falta de transparencia governativa e de responsabilizacao e punicao dos (maus) gestores publicos.
Delapidacao praticamente generalizada do erario publico.
Hostilizacao, depauperamento, marginalizacao economica e exclusao social da maioria da populacao.

Assim se resumira’ essa vertente mais danosa do exercicio de JES, para a qual se poderao igualmente encontrar raizes culturais e sistemicas - mesmo que nao lhe possam ser inteira ou exclusivamente imputadas - mas que, inexoravelmente, tende a eclipsar completamente os seus lados mais defensaveis. E e’ essa vertente que exige que ele abandone o poder mais cedo do que tarde – iniciativas de ”tolerancia zero” [**], pecando por tardias para travar tal inevitabilidade, nao obstante.

=====

[*] Aparentemente, dois dias depois de isto escrito, o dito embroglio tera' sido assim resolvido.


[**] Dias depois, no seu acto de posse como Presidente da Terceira Republica resultante da "resolucao do embroglio constitucional", JES viria a 'acrescentar alguma carne ao esqueleto' da sua "tolerancia zero".




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A Tarefa de Substituir JES (II)




Friday, 16 July 2010

Balancing the World Cup 2010 (II): Guest Blog

As part of this mini-series on “balancing the World Cup 2010”, I am pleased to present the article below, by Gor - one of Myweku’s writers, as a guest post kindly contributed exclusively to this blog by Myweku’s editor Nii Thompson:


Just a Jamboree


Last year India shot a billion dollar rocket into space. Many were dismayed by the priorities of the Indian government. The billions spent on the space program could have been better spent on projects to ease poverty and other socio-economic problems on the sub-continent. This year, the irony of big budget event against a backdrop of urgent social discrepancies in Africa played out not once but twice.

Angola is only just emerging from the negative effects of a 3 decade civil war. 60% of her population lives on less than a dollar a day and she is in dire need of schools, electricity, sanitation, water and public health infrastructure. Despite these pressing socio-economic issues, the country forked out $1billion to host the 27th Africa cup of nations in January this year. Most of the money went towards building stadia and hotels.

In South Africa by the time the world cup kicked off, government and FIFA had spent an estimated $6 billion on ‘requirements’ to host the world’s biggest sporting event- $1 billion on new and upgrading old stadia, $8 million on public transport infrastructure, and $ 2billion on security, branding and marketing.

South Africa is classified by the UN as a middle income country; she has abundant supply of resources, a developed financial, communication, energy and transport infrastructure and a vibrant stock exchange market ranked among the world’s top 20. Nonetheless half of the 50 million South Africans live on less than $1.25 a day. She is globally ranked 129 out of 182 countries on the Human Poverty Index (HPI). South Africa also has one of the highest crime rates in the world earning Jo’burg the unenviable title of ‘murder capital of the world.

(…)

Psychologically, this year’s tournament may reverse stereotypes of the Dark Continent, and Africans get to brag that they delivered a world class event. Even so, this tournament has exposed Africa’s general inferiority complex; it is a colonial mentality to go to such great efforts to pull off a ‘party’ yet the same resources could have been deployed towards uplifting living standards of the average South African. Perhaps a Ghana win would have vindicated such wanton spending on a jamboree.


[Full article here]


Related post: O CAN da "nossa" Globalizacao...
As part of this mini-series on “balancing the World Cup 2010”, I am pleased to present the article below, by Gor - one of Myweku’s writers, as a guest post kindly contributed exclusively to this blog by Myweku’s editor Nii Thompson:


Just a Jamboree


Last year India shot a billion dollar rocket into space. Many were dismayed by the priorities of the Indian government. The billions spent on the space program could have been better spent on projects to ease poverty and other socio-economic problems on the sub-continent. This year, the irony of big budget event against a backdrop of urgent social discrepancies in Africa played out not once but twice.

Angola is only just emerging from the negative effects of a 3 decade civil war. 60% of her population lives on less than a dollar a day and she is in dire need of schools, electricity, sanitation, water and public health infrastructure. Despite these pressing socio-economic issues, the country forked out $1billion to host the 27th Africa cup of nations in January this year. Most of the money went towards building stadia and hotels.

In South Africa by the time the world cup kicked off, government and FIFA had spent an estimated $6 billion on ‘requirements’ to host the world’s biggest sporting event- $1 billion on new and upgrading old stadia, $8 million on public transport infrastructure, and $ 2billion on security, branding and marketing.

South Africa is classified by the UN as a middle income country; she has abundant supply of resources, a developed financial, communication, energy and transport infrastructure and a vibrant stock exchange market ranked among the world’s top 20. Nonetheless half of the 50 million South Africans live on less than $1.25 a day. She is globally ranked 129 out of 182 countries on the Human Poverty Index (HPI). South Africa also has one of the highest crime rates in the world earning Jo’burg the unenviable title of ‘murder capital of the world.

(…)

Psychologically, this year’s tournament may reverse stereotypes of the Dark Continent, and Africans get to brag that they delivered a world class event. Even so, this tournament has exposed Africa’s general inferiority complex; it is a colonial mentality to go to such great efforts to pull off a ‘party’ yet the same resources could have been deployed towards uplifting living standards of the average South African. Perhaps a Ghana win would have vindicated such wanton spending on a jamboree.


[Full article here]


Related post: O CAN da "nossa" Globalizacao...

Balancing the World Cup 2010 (I)

The extracts below are part of an article by Dr. Martyn Davies published as a guest post in the Financial Times' blog on the first day of the just ended Football World Cup in South Africa:


The World Cup is a chance to unite a divided country with big ambitions


The FIFA World Cup being held in South Africa that begins today evokes the international honeymoon that our country enjoyed after the first racially inclusive democratic elections that were held in April 1994.

Could we have leveraged the “honeymoon” better? Perhaps. Whilst South Africa has re-integrated into the global community of nations, it has not integrated domestically. Economic divisions between South Africans have never been starker. Our country grapples with providing opportunity for the majority of its citizens. The term developmental state - so often bandied about in government circles - has yet to become a reality providing for its needy and impatient citizens. But nevertheless, we are a leading emerging market economy.
(...)
Being the powerhouse economy of the region, we project ourselves as the springboard for investors into Africa. The World Cup is not only ours but the region’s. The Southern African Development Community - a grouping of 15 states - has a population of over 250 million people. We are bigger than Brazil, bigger than Indonesia. Some of our neighboring countries probably do not deserve the “FIFA dividend” but regardless, we feel we deserve greater global attention, and the World Cup, at least for a month, is giving it to us.
(...)
The only disappointment will be Nelson Mandela’s absence from the World Cup’s opening ceremony due a family bereavement. But at least the memory of Mandela’s leadership takes us back to a time when we believed in the rainbow nation before successive and divisive politicians destroyed that dream for us South Africans. South Africa will never realize its full potential on the global stage if it remains so internally divided. A plea from a patriotic South African to our politicians - please do not undermine the national and racial cohesion that is being brought about by the World Cup to South Africa. Rather, give us an inclusive vision for the country way beyond 2010. The FIFA World Cup has the potential to serve as the catalyst for the revival of our once hoped-for rainbow nation.


[Full article here]


Related post: Just a Jamboree
The extracts below are part of an article by Dr. Martyn Davies published as a guest post in the Financial Times' blog on the first day of the just ended Football World Cup in South Africa:


The World Cup is a chance to unite a divided country with big ambitions


The FIFA World Cup being held in South Africa that begins today evokes the international honeymoon that our country enjoyed after the first racially inclusive democratic elections that were held in April 1994.

Could we have leveraged the “honeymoon” better? Perhaps. Whilst South Africa has re-integrated into the global community of nations, it has not integrated domestically. Economic divisions between South Africans have never been starker. Our country grapples with providing opportunity for the majority of its citizens. The term developmental state - so often bandied about in government circles - has yet to become a reality providing for its needy and impatient citizens. But nevertheless, we are a leading emerging market economy.
(...)
Being the powerhouse economy of the region, we project ourselves as the springboard for investors into Africa. The World Cup is not only ours but the region’s. The Southern African Development Community - a grouping of 15 states - has a population of over 250 million people. We are bigger than Brazil, bigger than Indonesia. Some of our neighboring countries probably do not deserve the “FIFA dividend” but regardless, we feel we deserve greater global attention, and the World Cup, at least for a month, is giving it to us.
(...)
The only disappointment will be Nelson Mandela’s absence from the World Cup’s opening ceremony due a family bereavement. But at least the memory of Mandela’s leadership takes us back to a time when we believed in the rainbow nation before successive and divisive politicians destroyed that dream for us South Africans. South Africa will never realize its full potential on the global stage if it remains so internally divided. A plea from a patriotic South African to our politicians - please do not undermine the national and racial cohesion that is being brought about by the World Cup to South Africa. Rather, give us an inclusive vision for the country way beyond 2010. The FIFA World Cup has the potential to serve as the catalyst for the revival of our once hoped-for rainbow nation.


[Full article here]


Related post: Just a Jamboree

Thursday, 1 July 2010

On the 50th anniversary of Africa's 1st independent nation: Remembering Kwame Nkrumah [R]*

KWAME NKRUMAH (1909-1972)


Kwame Nkrumah, the leader of the Gold Coast's movement toward independence from Britain during the 1940s and '50s, headed the new nation of Ghana following its independence in 1957 until 1966, when he was overthrown by a coup.

Excerpt from "Commanding Heights" by Daniel Yergin and Joseph Stanislaw, 1998 ed., pp. 83-88. (Simon & Schuster, Inc., N.Y.)



-- In the period of [African colonial independence] the beacon country from Africa was Ghana, first to achieve independence in 1957. The new nation's most influential figure was its prime minister, later president, Kwame Nkrumah. When Nkrumah was born in 1910, Ghana was still the Gold Coast, a British colony known for its plantations and for being the world's largest producer of cocoa. Its frontiers were the result of bargains among the colonial powers - Britain, France, and Germany - that did not correspond to the historical boundaries of the kingdoms that preceded colonization, particularly the once-mighty Ashanti empire.

Nkrumah, who came from a modest, traditional family, received his early education at the hands of Catholic missionaries. He went on to train as a teacher and for a few years taught elementary school in towns along the coast. He was popular and charismatic, and earned a decent living. But exposure to politics and to a few influential figures sparked in him a greater interest - to go to America. He applied to universities in the United States, and with money raised from relatives, he set out on a steamer in 1935. He reached New York almost penniless, and took refuge with fellow West Africans in Harlem. He then presented himself at Lincoln University in Pennsylvania and enrolled; a small scholarship and a campus job helped him make ends meet.

In the United States, Nkrumah saw alternatives to the British tradition of government. He also became suffused with an acute consciousness of the politics of race relations. Unlike many new African leaders, who sought to emulate their European instructors, Nkrumah plunged into America's black communities. Founded before the Civil War, Lincoln University was America's oldest black college, and its special atmosphere inspired and comforted Nkrumah. In the summers, he worked at physically demanding jobs - in shipyards and construction at sea. He studied theology as well as philosophy; he frequented the black churches in New York and Philadelphia and was sometimes asked to preach. He also forged ties with black American intellectuals, for whom Africa was becoming, in this time of political change, an area of extreme interest. Moving to London after World War II, Nkrumah helped organize Pan-African congresses, linking the emergent educated groups of the African colonies with activists, writers, artists, and well-wishers from the industrial countries. It was a time of great intellectual ferment, excitement, and optimism. India's achievement of independence in 1947 stirred dreams of freedom for the other colonies. "If we get self-government," Nkrumah proclaimed, "we'll transform the Gold Coast into a paradise in 10 years."

READ MORE HERE


*[First posted 17/03/07]
KWAME NKRUMAH (1909-1972)


Kwame Nkrumah, the leader of the Gold Coast's movement toward independence from Britain during the 1940s and '50s, headed the new nation of Ghana following its independence in 1957 until 1966, when he was overthrown by a coup.

Excerpt from "Commanding Heights" by Daniel Yergin and Joseph Stanislaw, 1998 ed., pp. 83-88. (Simon & Schuster, Inc., N.Y.)



-- In the period of [African colonial independence] the beacon country from Africa was Ghana, first to achieve independence in 1957. The new nation's most influential figure was its prime minister, later president, Kwame Nkrumah. When Nkrumah was born in 1910, Ghana was still the Gold Coast, a British colony known for its plantations and for being the world's largest producer of cocoa. Its frontiers were the result of bargains among the colonial powers - Britain, France, and Germany - that did not correspond to the historical boundaries of the kingdoms that preceded colonization, particularly the once-mighty Ashanti empire.

Nkrumah, who came from a modest, traditional family, received his early education at the hands of Catholic missionaries. He went on to train as a teacher and for a few years taught elementary school in towns along the coast. He was popular and charismatic, and earned a decent living. But exposure to politics and to a few influential figures sparked in him a greater interest - to go to America. He applied to universities in the United States, and with money raised from relatives, he set out on a steamer in 1935. He reached New York almost penniless, and took refuge with fellow West Africans in Harlem. He then presented himself at Lincoln University in Pennsylvania and enrolled; a small scholarship and a campus job helped him make ends meet.

In the United States, Nkrumah saw alternatives to the British tradition of government. He also became suffused with an acute consciousness of the politics of race relations. Unlike many new African leaders, who sought to emulate their European instructors, Nkrumah plunged into America's black communities. Founded before the Civil War, Lincoln University was America's oldest black college, and its special atmosphere inspired and comforted Nkrumah. In the summers, he worked at physically demanding jobs - in shipyards and construction at sea. He studied theology as well as philosophy; he frequented the black churches in New York and Philadelphia and was sometimes asked to preach. He also forged ties with black American intellectuals, for whom Africa was becoming, in this time of political change, an area of extreme interest. Moving to London after World War II, Nkrumah helped organize Pan-African congresses, linking the emergent educated groups of the African colonies with activists, writers, artists, and well-wishers from the industrial countries. It was a time of great intellectual ferment, excitement, and optimism. India's achievement of independence in 1947 stirred dreams of freedom for the other colonies. "If we get self-government," Nkrumah proclaimed, "we'll transform the Gold Coast into a paradise in 10 years."

READ MORE HERE


*[First posted 17/03/07]

Tuesday, 4 May 2010

BONGA: Cancoes da Diaspora Angolana [R]*






{N.B.: ALL SONGS IN THIS POST CAN BE LISTENED TO ON THIS PAGE}


[Venda poro]

Pois aqui vos ofereco mais uma “power point presentation” (mas, sem as – brilhantes – fotografias, para me poupar de muitos trabalhos e outras tantas invejas doentias…):

Bonga: Ja’ foi chamado publicamente “o lixo de Angola” – por quem agora canta e, diga-se de passagem, muito bem, felizmente, “minha Angola minha terra… a guerra ficou pra tras… que haja gente pro tempo novo, cantar cancoes de paz” … sera’ que ha’ gente dessa, com a necessaria elevacao e grandeza, entre os que se continuam a arrogar o “direito” de acambarcarem a Angolanidade so’ para si?


[Makongo]


No entanto, ele continua a ser, tal como o foi em 72-74 e apesar de nunca ter vivido permanentemente em Angola depois da Dipanda, uma das vozes, senao a voz mais profunda da Angolanidade… a voz com que milhares, senao milhoes, de Angolanos de pleno direito, na diaspora e nao so’ (embora a sua musica so' ha' relativamente pouco tempo tenha sido "desembarrada" publicamente em Angola), se identificam, dentre as varias que se proclamam, mais frequentemente do que nao, sem qualquer propriedade, “vozes da Angolanidade”… Oucam-no, voces que estragaram a kubata ao ponto de nao dar pra morar e agora nao teem vergonha de se fazerem de “vitimas” (… de quem, senao de voces mesmos?!). Oucamo-lo:

[Falar de assim]


(***)


[Anos 60 … Joana Maluca, de todos, sempre ali oferecendo seus dementes servicos na esquina do ‘Majestic’ do B.O. … Yes, tinha as fruta de vontade, mas nao tinha liberdade! ... E o povo que fugiu…]

[Kamusekele]

[Anos 70… E veio a “liberdade”! Ja’ nao era “pio”, por isso "enquadrei-me" noutras "militancias", incluindo as cicatrizes nos pes, para o resto da vida, do “trabalho voluntario revolucionario” nos laranjais do Mazozo e nos canaviais do Bom Jesus… Enquanto as ballerinas prima donnas de hoje estavam na praia, ‘nos cavalos', ou na dolce vita do ballet classico europeu - sem duvida, "coisa muito popular e genuinamente angolana" (cokwe')! - … Pra hoje terem o descaramento, desplante, abuso e atrevimento de se armarem em "porta-vozes do povo" - como se o unico povo que "cheiram e ouvem" nao fossem os seus criados e criadas... como se tivessem coragem de por os pes no Roque, no Sambila, no Rocha Pinto ou no Panguila, mesmo se acompanhadas pelos seus guarda-costas do povo... como se andassem a pe' ou de kandongueiro pelas ruas onde fotografam o lixo de dentro dos seus carros de luxo com A/C... - que granda lata!!! Mas tu pio’: quem traiu os teus valores e principios... quem te fez estrondar com raiva de so’ querer bazar???!!!


[Recordando pio']

[… Sim pio’ (tu que ganhaste o "pio-pio" ali no Kinaxixi cantando como um passarinho e a quem os "poetas revolucionarios e lucidos da situacao" cortaram as asas e o pio e fizeram "inventar silencios" ao seu servico..), quem te incaldiu, ali pros lados da Xicala, ali por todos os lados?! Quem te esqueceu… nos ditos e feitos da tubia que agora “aprendemos” (…“refastelados no imoral ocidente”…) se chama, e condena como, “pedophilia”? ]

[Incaldido]

[E escapaste… do recrutamento pr’uma guerra de alguns (dela/es!) de que ela/es e seus filhos sempre estiveram "isentos" ou eram adornados com altas patentes desde o primeiro dia, para poderem ficar a "comandar" a partir dos gabinetes, a longa distancia, ou do ar, enquanto a tua unica serventia era para carne de canhao sem qualquer promocao... da desgraca total em beneficio de alguns (dela/es!)… pras pedreiras, pr’outras ngundas, pr’outras lutas, pr’outras sortes… pr’o que agora ela/es, do alto da sua “branquicite aguda” lavada com lixivia depois de pintada de negro para efeitos de "arte contemporanea", chamam “nosso refastelamento” em terras que, dizem, “apesar da intolerancia, preferimos a nossa terra natal”… que eles tornaram e continuam a querer so’ dela/es!]

[Escapada]

[Outros nao escaparam, desconseguiram de entrar no porao… viraram meninos de rua… enquanto “outras” punham, dispunham, dancavam e iam “estudar” pro “hediondo ocidente” e para a pretensamente "renegada terra do colono" (isto e', dos seus mais proximos familiares e amigos e de todos os seus ancestrais, incluindo suas avos "poetisas"...) com bolsas chorudas que ate’ lhes dava pra comprar casas e carros (enquanto tu, se tivesses sorte, ias pra Cuba ou pro leste europeu e, mesmo que por milagre fosses para Portugal, ‘bolsa’ so’ a vias de vez em quando por um canudo…). A pergunta repete-se: porque estas em debanda, fisica ou espiritual, como todo esse povo… por culpa dos kotas (e da/os “pios” e da/os “jotas” situacionistas de todos os regimes e sistemas, que entretanto viraram “kotas” igualmente sem juizo - particularmente no que toca a se armarem em intocaveis e se enfeitarem de louros e titulos imerecidos, arrogancias ignorantes, mesquinhez e tacanhice, mentalidades bofiento-stalinistas e verborreia patrioteira e pseudo-intelectual-revolucionaria, "esperando o que alcanca sem nada fazer e depois do falhanco pra tuga viver"... - e que pateticamente teem o descaramento de falar hoje em “seus valores traidos”... e' mesmo preciso ter muita lata!!!) que nao dao, nem nunca deram, nada?! … Longe do calor da banda, estou a vos entender kanucos… quem sabe faz a hora, nao espera acontecer!]


[Nucos da bwala]

[Sera’ que ela/es entendem alguma coisa disso?...]


[Kianje]

[Anos 80: ... enquanto nossos velhos sabios e mestres de nossas linguas nacionais choram da alegria passageira do pos “dipanda dela/es” e morrem cedo sozinhos, a/os mestres da "lingua do colono", com suas “familias e suas amizades” manobradas pelo contexto, nas suas corridas para o poder tornam-se directora/es do “instituto de linguas nacionais” sem delas perceberem nenhuma… E hoje continuam vivinhas da silva e a fazerem campanha, com as suas “outras amizades” d'aquem e d'alem mar, para a "recolonizacao do pais" e a “reinstituicao” do portugues como “nossa unica lingua nacional”, em detrimento das outras que, dizem ela/es, sao “dialectos regionais”… Mas... e portanto...donas unicas e absolutas da "dipanda"... e sempre… “mais angolanas do que a Angolanidade”!]

[Olhos molhados]

[Anos 90… E por la’ se ficaram, embora sempre com um pe' na sua Tugalia de origem ou nos seus "exilios dourados" nas "nossas" embaixadas no ocidente, pagas com o suor do povo… com suas bwe’ de kudia e kunhas so’ pra ela/es, a kanjonjar tudo e mais alguma coisa… ate’ a Angolanidade… ate’ agora!!! Ate' agora... querem kanjonjar ate' mesmo a blogosfera... imagine-se se conseguissem controlar a internet! So’ porque ficaram la’ a embebedar-se e a drogar-se ate’ a exaustao (ate’ a morte!) e a cometerem impunemente toda a sorte de crimes de todas as ordens e graus, sem nunca terem feito qualquer trabalho produtivo nas suas "vidas poeticas e artisticas", num pais em "reconstrucao", kambada de imbumbaveis irresponsaveis!!! Nos seus circulos restritos, viciados e viciosos… com as benesses de um poder que nos lhes pusemos nas maos, no pelvis e nos pes… e que eles jamais teriam em alguma outra parte do mundo! Certamente nao, se fossem africanas negras na Europa, em particular em Portugal, Espanha ou Franca, onde nunca passariam de "meras imigrantes de segunda ou terceira geracao", quanto mais permitirem-se a "coragem e atrevimento" de falarem 'oficialmente' e como suas "unicas e maximas autoridades" em nome do "patrimonio cultural" desses paises... por muitos cursos especializados que para o efeito tivessem feito nas melhores universidades do mundo!

Por isso ficaram la’… oportunistica e cobardemente salvaguardados sob as sombrinhas protectoras dos nossos ancestrais… enquanto nos temos que “nos dar” aqui das “intolerancias” dos paises que nos permitiram o que eles, com o seu descarado racismo e extremo exclusivismo social, sempre nos negaram e continuam a negar: o direito a viver, sobreviver, expressarmo-nos livremente (nao e' por acaso que este blog a/os incomoda e irrita tanto...) e ser gente com dignidade - nao "o lixo de Angola"... nao "petit riens" - E ISSO E' O QUE MAIS VOS DOI!!! - E acham que, depois de tudo isso, teem o direito de nos cobrar os “seus sacrificios”… pela patria !!! Ah... ah... ah!!! – A nos que lhes deixamos a terra para os seus sonhos sem limites (… ou seja, de companhia e responsabilidade limitadas)... para a sua apropriacao material e espiritual… para o seu vulturismo cultural sem pudor nem vergonha de qualquer especie, kassumbulando na berrida a mascara da Pwo e as suas mais do que invejadas e cobicadas escarificacoes (assim denegrindo-a e reduzindo-a - como se de apenas mais uma boneca de infancia retardada de menina mimada se tratasse - a mero objecto de fantochada pretensamente "cultural"), mais o kumao que o povo tem e proclamando-os sua "legitima propriedade"... Wa saluka!!!

[Kanjonja]

[Anos 00… E la’ continuam ela/es… sem qualquer sintonia com as malambas, sempre cheios de palpites nas conversas e vidas alheias e sermoes sem ponta por onde se lhes pegue... calando quando deviam falar e falando quando deviam calar... armada/os que tudo sabem e tudo “phodem”! Com samania de dizere esta’ mbora bwe’… Mas so’ na hora de se gabar que sao conselheiros do “Bairro Alto” e “premios nacionais de cultura”, com suas mestrias de visao nenhuma e visoes sem qualquer mestria... porque de resto so’ aparentam estar m’bora ngone vendo a coisa (o lixo dela/es!) piorare pro seu estatuto social e a vontade raivosa, pestilenta, ciumenta e invejosa, mal escondida por baixo de todas as mascaras nacionais possiveis e imaginarias, de travarem “nossa hora de subir”… com a situacao/lixo que ela/es memo criaram e que lhes permitiu “merecer” tais premios, mordomias, todas as manhas e tanta mania!!!
Samania… armada/os agora, oportunistas como sempre souberam ser, em “rebels without a cause”… porque se lhes acabou todo o sermao (?), porque nao ha' bem que sempre dure... ou apenas porque "esta' na moda", multiplica comentarios, preenche o vazio de vidas inteiras de ociosidade, venalidade, pedantismo, parasitismo e diletantismo, da' "celebrity status", ressuscita blogs depressivos e moribundos com musica funebre, enfim: e' facil, e' barato e da' milhoes! Se nao metessem tanta pena e asco, por tanta pobreza de espirito, ate’ davam vontade de rir!

Agora ate' viram ja' "martires da dipanda", so' falta reclamarem estatuto de "heroinas nacionais" ou de Madres Teresas de Calcuta'... quando sempre estiveram cumplicemente caladas nos momentos mais criticos da vida dos Angolanos de verdade... mesmo agora, quando em pleno trigesimo aniversario do 27 de Maio, conseguem ter despudor, desumanidade e insensibilidade suficientes para fazerem proclamacoes de "...nada de novo" (... houve naquele dia em Luanda pelo menos um acontecimento inedito: o lancamento do livro de um sobrevivente do 27...), complementadas por "auto-comentarios" provocatorios do mais abjecto, obsceno, ordinario, insultuoso, grosseiro e rasteiro que ha'! Quando o minimo de decencia que se esperaria de alguem que tenha tomado as doses certas de xa' de kaxinde e com apenas alguns rudimentos de educacao, cultura, valores e principios eticos e morais e sem "nada a dizer" sobre o assunto, seria o habitual silencio, quanto mais nao seja por respeito as vitimas e seus familiares de ambos os lados!...Quem nao vos conhece que vos compre!]

[Samania]

[… Quem desconsegue fazer blogs com forca e qualidade suficientes para se imporem na sanzala global nao entoa… deixa quem sabe cantar… boa keta nao destoa, nem precisa corromper… Nao vale a pena inventar, nem invejar, nem tentar (mal) imitar: aprende - uma vez que ate' aprendem rapidinho tudo quanto for preciso so' para poderem continuar com sucesso a perseguir a vossa vocacao de vampiras de todos os tempos e sem nenhuma vergonha - ou cala so’… reduza-se a sua insignificancia! Porque da janela do meu musseke sempre vos vi bwe’ contente na vossa kandonga de ‘premios de ocasiao’ e 'directorias' que deixaram que facilmente vos subissem a cabeca (... mas talvez isso seja apenas o sinal mais visivel de que algum navio, algures, se esta' a afundar... onde e' que eu ja' ouvi estorias de ratazanas?)! E, de resto, ja’ nao tinham dito que “de ti jamais falarei” e “ja’ visitei esse blog vezes suficientes”? Porque que continuam so’ a vir aqui espreitar de kaxexe, cobardemente, pra irem arranjar toda a hora makas de sanzala so’ a toa??? So' pra chamarem atencao e receberem massagens ao ego... E' mesmo falta desesperada de assunto e de imaginacao, ne'?! Mesmo depois de semanas inteiras de "time-off" nao vos ocorre nada mais "sensivel e criativo"?!...

Querem reacender a guerra? Teem que fazer juz ao vosso nome de familia ate' ao holocausto total?! 30 anos nao vos bastaram??!! Ainda nao destruiram o suficiente???!!! Continuem la’ com os vossos posts com “nada de novo”, recortados da imprensa portuguesa (... pra inda terem a distinta e cretina lata de falarem de quem "se actualiza sobre a realidade Angolana atraves dos midia"!), em vez de virem so’ aqui deitar mau olhado na belissima e humanissima "A Angola dos meus Sonhos", ou na ilustre e brilhante cronica do kamba do kamba Kinito! Querem kibeto ou que?! Pois vao ter… Quem tanto procura, acaba por achar! Deixem de se por em bicos de pes que isto aqui nao e’ salao de danca! Vao la’ continuar a carracar, a vulturar e a viborar onde vos deixam, que aqui nao ha’ pao pra malukas! Ja’ vos disse: a inveja mata! Pois vao morrer longe!!!]

[Ngui tename]

[ E agora?... Gente do musseke falemos de nos, entre nos… As coisas da nossa terra, quando bem contadas teem um outro sabor! Adeus, vou-me embora… Fiquem bem (voces que se armam em seus donos e “inventores”…) na NOSSA terra!]

[Turmas do bairro]




Tracks from "Angola 74 (Venda Poro; Makongo)", "Mulemba Xangola" (2000, Lusafrica) and "Kaxexe" (2003, Lusafrica).


*[First posted 17/06/07]





{N.B.: ALL SONGS IN THIS POST CAN BE LISTENED TO ON THIS PAGE}


[Venda poro]

Pois aqui vos ofereco mais uma “power point presentation” (mas, sem as – brilhantes – fotografias, para me poupar de muitos trabalhos e outras tantas invejas doentias…):

Bonga: Ja’ foi chamado publicamente “o lixo de Angola” – por quem agora canta e, diga-se de passagem, muito bem, felizmente, “minha Angola minha terra… a guerra ficou pra tras… que haja gente pro tempo novo, cantar cancoes de paz” … sera’ que ha’ gente dessa, com a necessaria elevacao e grandeza, entre os que se continuam a arrogar o “direito” de acambarcarem a Angolanidade so’ para si?


[Makongo]


No entanto, ele continua a ser, tal como o foi em 72-74 e apesar de nunca ter vivido permanentemente em Angola depois da Dipanda, uma das vozes, senao a voz mais profunda da Angolanidade… a voz com que milhares, senao milhoes, de Angolanos de pleno direito, na diaspora e nao so’ (embora a sua musica so' ha' relativamente pouco tempo tenha sido "desembarrada" publicamente em Angola), se identificam, dentre as varias que se proclamam, mais frequentemente do que nao, sem qualquer propriedade, “vozes da Angolanidade”… Oucam-no, voces que estragaram a kubata ao ponto de nao dar pra morar e agora nao teem vergonha de se fazerem de “vitimas” (… de quem, senao de voces mesmos?!). Oucamo-lo:

[Falar de assim]


(***)


[Anos 60 … Joana Maluca, de todos, sempre ali oferecendo seus dementes servicos na esquina do ‘Majestic’ do B.O. … Yes, tinha as fruta de vontade, mas nao tinha liberdade! ... E o povo que fugiu…]

[Kamusekele]

[Anos 70… E veio a “liberdade”! Ja’ nao era “pio”, por isso "enquadrei-me" noutras "militancias", incluindo as cicatrizes nos pes, para o resto da vida, do “trabalho voluntario revolucionario” nos laranjais do Mazozo e nos canaviais do Bom Jesus… Enquanto as ballerinas prima donnas de hoje estavam na praia, ‘nos cavalos', ou na dolce vita do ballet classico europeu - sem duvida, "coisa muito popular e genuinamente angolana" (cokwe')! - … Pra hoje terem o descaramento, desplante, abuso e atrevimento de se armarem em "porta-vozes do povo" - como se o unico povo que "cheiram e ouvem" nao fossem os seus criados e criadas... como se tivessem coragem de por os pes no Roque, no Sambila, no Rocha Pinto ou no Panguila, mesmo se acompanhadas pelos seus guarda-costas do povo... como se andassem a pe' ou de kandongueiro pelas ruas onde fotografam o lixo de dentro dos seus carros de luxo com A/C... - que granda lata!!! Mas tu pio’: quem traiu os teus valores e principios... quem te fez estrondar com raiva de so’ querer bazar???!!!


[Recordando pio']

[… Sim pio’ (tu que ganhaste o "pio-pio" ali no Kinaxixi cantando como um passarinho e a quem os "poetas revolucionarios e lucidos da situacao" cortaram as asas e o pio e fizeram "inventar silencios" ao seu servico..), quem te incaldiu, ali pros lados da Xicala, ali por todos os lados?! Quem te esqueceu… nos ditos e feitos da tubia que agora “aprendemos” (…“refastelados no imoral ocidente”…) se chama, e condena como, “pedophilia”? ]

[Incaldido]

[E escapaste… do recrutamento pr’uma guerra de alguns (dela/es!) de que ela/es e seus filhos sempre estiveram "isentos" ou eram adornados com altas patentes desde o primeiro dia, para poderem ficar a "comandar" a partir dos gabinetes, a longa distancia, ou do ar, enquanto a tua unica serventia era para carne de canhao sem qualquer promocao... da desgraca total em beneficio de alguns (dela/es!)… pras pedreiras, pr’outras ngundas, pr’outras lutas, pr’outras sortes… pr’o que agora ela/es, do alto da sua “branquicite aguda” lavada com lixivia depois de pintada de negro para efeitos de "arte contemporanea", chamam “nosso refastelamento” em terras que, dizem, “apesar da intolerancia, preferimos a nossa terra natal”… que eles tornaram e continuam a querer so’ dela/es!]

[Escapada]

[Outros nao escaparam, desconseguiram de entrar no porao… viraram meninos de rua… enquanto “outras” punham, dispunham, dancavam e iam “estudar” pro “hediondo ocidente” e para a pretensamente "renegada terra do colono" (isto e', dos seus mais proximos familiares e amigos e de todos os seus ancestrais, incluindo suas avos "poetisas"...) com bolsas chorudas que ate’ lhes dava pra comprar casas e carros (enquanto tu, se tivesses sorte, ias pra Cuba ou pro leste europeu e, mesmo que por milagre fosses para Portugal, ‘bolsa’ so’ a vias de vez em quando por um canudo…). A pergunta repete-se: porque estas em debanda, fisica ou espiritual, como todo esse povo… por culpa dos kotas (e da/os “pios” e da/os “jotas” situacionistas de todos os regimes e sistemas, que entretanto viraram “kotas” igualmente sem juizo - particularmente no que toca a se armarem em intocaveis e se enfeitarem de louros e titulos imerecidos, arrogancias ignorantes, mesquinhez e tacanhice, mentalidades bofiento-stalinistas e verborreia patrioteira e pseudo-intelectual-revolucionaria, "esperando o que alcanca sem nada fazer e depois do falhanco pra tuga viver"... - e que pateticamente teem o descaramento de falar hoje em “seus valores traidos”... e' mesmo preciso ter muita lata!!!) que nao dao, nem nunca deram, nada?! … Longe do calor da banda, estou a vos entender kanucos… quem sabe faz a hora, nao espera acontecer!]


[Nucos da bwala]

[Sera’ que ela/es entendem alguma coisa disso?...]


[Kianje]

[Anos 80: ... enquanto nossos velhos sabios e mestres de nossas linguas nacionais choram da alegria passageira do pos “dipanda dela/es” e morrem cedo sozinhos, a/os mestres da "lingua do colono", com suas “familias e suas amizades” manobradas pelo contexto, nas suas corridas para o poder tornam-se directora/es do “instituto de linguas nacionais” sem delas perceberem nenhuma… E hoje continuam vivinhas da silva e a fazerem campanha, com as suas “outras amizades” d'aquem e d'alem mar, para a "recolonizacao do pais" e a “reinstituicao” do portugues como “nossa unica lingua nacional”, em detrimento das outras que, dizem ela/es, sao “dialectos regionais”… Mas... e portanto...donas unicas e absolutas da "dipanda"... e sempre… “mais angolanas do que a Angolanidade”!]

[Olhos molhados]

[Anos 90… E por la’ se ficaram, embora sempre com um pe' na sua Tugalia de origem ou nos seus "exilios dourados" nas "nossas" embaixadas no ocidente, pagas com o suor do povo… com suas bwe’ de kudia e kunhas so’ pra ela/es, a kanjonjar tudo e mais alguma coisa… ate’ a Angolanidade… ate’ agora!!! Ate' agora... querem kanjonjar ate' mesmo a blogosfera... imagine-se se conseguissem controlar a internet! So’ porque ficaram la’ a embebedar-se e a drogar-se ate’ a exaustao (ate’ a morte!) e a cometerem impunemente toda a sorte de crimes de todas as ordens e graus, sem nunca terem feito qualquer trabalho produtivo nas suas "vidas poeticas e artisticas", num pais em "reconstrucao", kambada de imbumbaveis irresponsaveis!!! Nos seus circulos restritos, viciados e viciosos… com as benesses de um poder que nos lhes pusemos nas maos, no pelvis e nos pes… e que eles jamais teriam em alguma outra parte do mundo! Certamente nao, se fossem africanas negras na Europa, em particular em Portugal, Espanha ou Franca, onde nunca passariam de "meras imigrantes de segunda ou terceira geracao", quanto mais permitirem-se a "coragem e atrevimento" de falarem 'oficialmente' e como suas "unicas e maximas autoridades" em nome do "patrimonio cultural" desses paises... por muitos cursos especializados que para o efeito tivessem feito nas melhores universidades do mundo!

Por isso ficaram la’… oportunistica e cobardemente salvaguardados sob as sombrinhas protectoras dos nossos ancestrais… enquanto nos temos que “nos dar” aqui das “intolerancias” dos paises que nos permitiram o que eles, com o seu descarado racismo e extremo exclusivismo social, sempre nos negaram e continuam a negar: o direito a viver, sobreviver, expressarmo-nos livremente (nao e' por acaso que este blog a/os incomoda e irrita tanto...) e ser gente com dignidade - nao "o lixo de Angola"... nao "petit riens" - E ISSO E' O QUE MAIS VOS DOI!!! - E acham que, depois de tudo isso, teem o direito de nos cobrar os “seus sacrificios”… pela patria !!! Ah... ah... ah!!! – A nos que lhes deixamos a terra para os seus sonhos sem limites (… ou seja, de companhia e responsabilidade limitadas)... para a sua apropriacao material e espiritual… para o seu vulturismo cultural sem pudor nem vergonha de qualquer especie, kassumbulando na berrida a mascara da Pwo e as suas mais do que invejadas e cobicadas escarificacoes (assim denegrindo-a e reduzindo-a - como se de apenas mais uma boneca de infancia retardada de menina mimada se tratasse - a mero objecto de fantochada pretensamente "cultural"), mais o kumao que o povo tem e proclamando-os sua "legitima propriedade"... Wa saluka!!!

[Kanjonja]

[Anos 00… E la’ continuam ela/es… sem qualquer sintonia com as malambas, sempre cheios de palpites nas conversas e vidas alheias e sermoes sem ponta por onde se lhes pegue... calando quando deviam falar e falando quando deviam calar... armada/os que tudo sabem e tudo “phodem”! Com samania de dizere esta’ mbora bwe’… Mas so’ na hora de se gabar que sao conselheiros do “Bairro Alto” e “premios nacionais de cultura”, com suas mestrias de visao nenhuma e visoes sem qualquer mestria... porque de resto so’ aparentam estar m’bora ngone vendo a coisa (o lixo dela/es!) piorare pro seu estatuto social e a vontade raivosa, pestilenta, ciumenta e invejosa, mal escondida por baixo de todas as mascaras nacionais possiveis e imaginarias, de travarem “nossa hora de subir”… com a situacao/lixo que ela/es memo criaram e que lhes permitiu “merecer” tais premios, mordomias, todas as manhas e tanta mania!!!
Samania… armada/os agora, oportunistas como sempre souberam ser, em “rebels without a cause”… porque se lhes acabou todo o sermao (?), porque nao ha' bem que sempre dure... ou apenas porque "esta' na moda", multiplica comentarios, preenche o vazio de vidas inteiras de ociosidade, venalidade, pedantismo, parasitismo e diletantismo, da' "celebrity status", ressuscita blogs depressivos e moribundos com musica funebre, enfim: e' facil, e' barato e da' milhoes! Se nao metessem tanta pena e asco, por tanta pobreza de espirito, ate’ davam vontade de rir!

Agora ate' viram ja' "martires da dipanda", so' falta reclamarem estatuto de "heroinas nacionais" ou de Madres Teresas de Calcuta'... quando sempre estiveram cumplicemente caladas nos momentos mais criticos da vida dos Angolanos de verdade... mesmo agora, quando em pleno trigesimo aniversario do 27 de Maio, conseguem ter despudor, desumanidade e insensibilidade suficientes para fazerem proclamacoes de "...nada de novo" (... houve naquele dia em Luanda pelo menos um acontecimento inedito: o lancamento do livro de um sobrevivente do 27...), complementadas por "auto-comentarios" provocatorios do mais abjecto, obsceno, ordinario, insultuoso, grosseiro e rasteiro que ha'! Quando o minimo de decencia que se esperaria de alguem que tenha tomado as doses certas de xa' de kaxinde e com apenas alguns rudimentos de educacao, cultura, valores e principios eticos e morais e sem "nada a dizer" sobre o assunto, seria o habitual silencio, quanto mais nao seja por respeito as vitimas e seus familiares de ambos os lados!...Quem nao vos conhece que vos compre!]

[Samania]

[… Quem desconsegue fazer blogs com forca e qualidade suficientes para se imporem na sanzala global nao entoa… deixa quem sabe cantar… boa keta nao destoa, nem precisa corromper… Nao vale a pena inventar, nem invejar, nem tentar (mal) imitar: aprende - uma vez que ate' aprendem rapidinho tudo quanto for preciso so' para poderem continuar com sucesso a perseguir a vossa vocacao de vampiras de todos os tempos e sem nenhuma vergonha - ou cala so’… reduza-se a sua insignificancia! Porque da janela do meu musseke sempre vos vi bwe’ contente na vossa kandonga de ‘premios de ocasiao’ e 'directorias' que deixaram que facilmente vos subissem a cabeca (... mas talvez isso seja apenas o sinal mais visivel de que algum navio, algures, se esta' a afundar... onde e' que eu ja' ouvi estorias de ratazanas?)! E, de resto, ja’ nao tinham dito que “de ti jamais falarei” e “ja’ visitei esse blog vezes suficientes”? Porque que continuam so’ a vir aqui espreitar de kaxexe, cobardemente, pra irem arranjar toda a hora makas de sanzala so’ a toa??? So' pra chamarem atencao e receberem massagens ao ego... E' mesmo falta desesperada de assunto e de imaginacao, ne'?! Mesmo depois de semanas inteiras de "time-off" nao vos ocorre nada mais "sensivel e criativo"?!...

Querem reacender a guerra? Teem que fazer juz ao vosso nome de familia ate' ao holocausto total?! 30 anos nao vos bastaram??!! Ainda nao destruiram o suficiente???!!! Continuem la’ com os vossos posts com “nada de novo”, recortados da imprensa portuguesa (... pra inda terem a distinta e cretina lata de falarem de quem "se actualiza sobre a realidade Angolana atraves dos midia"!), em vez de virem so’ aqui deitar mau olhado na belissima e humanissima "A Angola dos meus Sonhos", ou na ilustre e brilhante cronica do kamba do kamba Kinito! Querem kibeto ou que?! Pois vao ter… Quem tanto procura, acaba por achar! Deixem de se por em bicos de pes que isto aqui nao e’ salao de danca! Vao la’ continuar a carracar, a vulturar e a viborar onde vos deixam, que aqui nao ha’ pao pra malukas! Ja’ vos disse: a inveja mata! Pois vao morrer longe!!!]

[Ngui tename]

[ E agora?... Gente do musseke falemos de nos, entre nos… As coisas da nossa terra, quando bem contadas teem um outro sabor! Adeus, vou-me embora… Fiquem bem (voces que se armam em seus donos e “inventores”…) na NOSSA terra!]

[Turmas do bairro]




Tracks from "Angola 74 (Venda Poro; Makongo)", "Mulemba Xangola" (2000, Lusafrica) and "Kaxexe" (2003, Lusafrica).


*[First posted 17/06/07]

Sunday, 7 February 2010

1960-2010: “The Year of Africa” 50 Years On (II)

"A RAZAO DA NOSSA LUTA" 50 ANOS DEPOIS...

Este historico texto (historico, tanto no sentido temporal – porque escrito em 1974; como no sentido reflexivo – na medida em que nos permite uma avaliacao, nao so’ dos seus fundamentos argumentativos a altura em que foi escrito, como da sua validade e relevancia actual) de M.M. de Brito Junior, serve-me de mote para o segundo take desta serie sobre a comemoracao dos 50 Anos do “Ano de Africa”.

Para tanto, dele extraio algumas passagens que me parecem ser merecedoras de uma viagem no tempo desde 1974 ate’ 2010, para servirem de base a algumas interrogacoes sobre a Angola “que estamos com ela” hoje, ou seja, a uma especie de “Estado da Nacao” cerca de 5 decadas desde o inicio da luta armada contra o colonialismo e mais de 3 decadas desde a independencia do pais:

A LUTA DOS COLONIZADORES E DOS COLONIZADOS

Existiram sempre duas posições definidas na vida politica de Angola. Uma, a dos colonizadores, constituída pelos Europeus e seus descendentes. Outra, a dos colonizados constituída pelos an-golanos, tradicionalmente considerados africanos, indígenas, nativos, assimilados.

- Sera’ esta formulacao ainda valida, num contexto em que, especialmente a luz das novas formulacoes ideologico-culturais de uma dita "nacao crioula", falar-se em “Africanos vs. Europeus e seus descendentes”, ou de “indigenas” e “nativos” pode ser considerado “crime de lesa patria”, incluindo por alguns “(ex?) anti-colonialistas”?

NÓS LUTAMOS CONTRA A OCUPAÇÃO

A verdadeira Historia de Angola narra os altos feitos dos angolanos na luta armada contra a ocupação portuguesa nos Dembos, no Congo, no Libolo, no Huambo, no Amboim, no Cuamato, na Lunda, enfim, em toda Angola. As chamadas «guerras de pacificação», durante as quais foram dizimados dezenas de (?) de milhares de angolanos, mostram bem que os indígenas angolanos, os colonizados, sempre lutaram de armas na mão contra o colonialismo, contra os colonizadores.

- Havera' hoje um consenso sobre o que/qual e' a "verdadeira Historia de Angola"?

- Como se contextualiza historica e politicamente essa luta, numa era em que a “recolonizacao” cada vez mais esta’ na ordem do dia?

NÓS LUTAMOS CONTRA O ANALFABETISMO

Noventa por cento do povo angolano (colonizado) é analfabeto. Sistematicamente fomos postos à margem no campo da instrução. Os governos colonizadores só construíram escolas onde hou-vesse europeus que ocupassem, pelo menos, 2/3 da sala. Mesmo existindo sanzalas com mais de 500 crianças indígenas em idade escolar o Estado não abria ai escolas. Estes só eram instruídos onde houvesse escolas das Missões. Os indígenas que podiam estudar nas escolas do Estado só eram aqueles cujos pais possuís-sem «atestado de assimilação» e bilhete de identidade.

- Como esta’ o acesso ao ensino para a maioria da populacao de hoje?

NÓS LUTAMOS CONTRA O CONTRATO

Uma das mais vergonhosas leis da opressão colonialista é o chamado «contrato indígena». Rusgados como animais, os indígenas eram mandados para as plantações (dos colonos), para as pescarias (dos colonos), para as salinas (dos colonos), para as minas ( dos imperialistas), onde sofriam todas as desumanidades do trabalho forçado.

- Ja’ nao ha’ sistema de contrato (pelo menos formalmente), mas nao haverao actualmente outras formas de trabalho igualmente desumanas no pais?

NÓS LUTAMOS CONTRA A HUMILHAÇÃO

Se hoje o indígena é capaz de levantar a cabeça é porque muita luta travámos contra a humilhação. Os colonizadores tratavam- nos como cães, humilharam-nos de todas as maneiras e feitios. Mesmo esbofeteados tínhamos que mostra um sorriso, porque se não apanhávamos mais. Um gesto de revolta contra um atitude injusta era motivo para severos castigos corporais, culpados de insubordinação e falta de respeito. Conhecemos um velho (Apolinário) que foi deportado três vezes, por períodos superiores a 3 anos, só porque respondia ás agressões e insultos dos colonizadores. Estes não admitiam que um indígena lhes tocasse na cara, mesmo em resposta a um agressão. Cão, moleque, miúdo, rapaz, chico macaco, sempre nos chamaram, com o intuito de nos humilhar. (…) Hoje levantamos as cabeças, bem alto, olhamos para a frente, para o futuro, já não baixamos os olhos para o chão quando falamos com um colonizador. Foi uma luta ingente e vencemos.

- Continuamos ainda de “cabecas levantadas”? Confesso que ha’ individuos hoje em Angola que so’ me merecem mesmo que lhes chame "caes, moleques, miudos e rapazes (quando nao sub-rapazes ou rapazitos)" – mas apenas e tao so’ porque, justamente, nao so’ vivem de lamber as botas aos seus novos “capatazes”, como entendem que eu e “todo o mundo” tambem o deve fazer, sob pena de, "sabendo sempre o que nos espera", bem entendido, sermos por eles linchados e literalmente pulverizados (armados que estao agora da "titularidade" de alguns dos principais orgaos formais do dito "quarto poder"...), mesmo e sobretudo quando reagindo a insultos gratuitos, ofensas e agressoes morais e materiais gravissimas, incluindo ameacas de morte (!), que nos sao infligidos, a nos e aos nossos ancestrais e descendentes, por alegadas “insubordinacao e falta de respeito”, hoje mais frequentemente designadas de “atrevimento (de pobres e insignificantes criaturas)”!

NÓS LUTAMOS CONTRA A DISCRIMINAÇÃO

Em Angola existe discriminação racial, embora não oficial. No campo salarial um indígena ganhava, geralmente, um terço do que ganhava um colonizador. Isto em todas as actividades do sector privado. Quando reclamássemos ouvíamos do patrão: «queres ganhar como um branco?». Podíamos saber mais da profissão do que um colonizador mas este era sempre o chefe, o encarregado. (…) Hoje fazemos greves e exigimos salários iguais. Continuaremos a luta.


- “Hoje fazemos greves e exigimos salários iguais”? Ou, ja' agora, "patrocinios" iguais?

- “Continuamos a luta?” Ou, antes, somos acusados por alguns dos “nossos irmaos” gratuita, infundada, insultuosa, irresponsavel e criminosamente, de a nossa dolorosa luta por uma formacao academica e tecnico-profissional reconhecida em qualquer parte do mundo nao ter produzido mais do que “falsos diplomas”, “mestrados em imitacao”, “infiltracoes em reunioes de peritos”, etc., etc., etc.???


Enquanto que, em se tratando de um Europeu ou seu/sua descendente pertencente precisamente aquele grupo de ex-colonizadores que enriqueceram exclusivamente a custa da "arvore das patacas" de Angola e que por isso conseguiu abrir todas as portas do mundo empresarial (especialmente o bancario) e/ou academico, passa a ser considerado/a, por exemplo, especialista em "macroeconomia a prova de balas" (sem que quem o afirma/escreve, por evidentemente nao fazer a minima ideia do que fala, sequer se aperceba da contradicao em termos que isso significa... em particular quando nao se tem qualquer track record de alguma pratica profissional em gestao macroeconomica!), ainda que, e ate' por "defeito de formacao" como publicamente assumido/as "neoclassico/as ou neoliberais", nao possam reclamar qualquer especialismo nessa area, por muito que o tenham noutras areas da economia, nomeadamente a econometria e, possivelmente, a microeconomia...

NÓS LUTAMOS CONTRA A USURPAÇÃO

Os colonizadores usurparam as nossas terras, as nossas riquezas, as nossas lavras, as nossas irmãs e nós sobrevivemos. Os mulatos resultantes da usurpação das nossas irmãs lutaram connosco contra os colonizadores. A reforma agrária contra os latifúndios e monopólios brevemente será levado a cabo por uma Angola Soberana. Lutámos contra todo este sistema de usurpação, durante séculos.

- Sera’ mesmo? “Todos os mulatos” (ou, ja’ agora, “todos os negros”) lutaram contra os colonizadores (ou tera’ sido, mais politicamente-correcto falando, contra o colonialismo?)?

- Nao estarao algumas dessas “irmas usurpadas” por alguns deles sendo “vendidas” ao desbarato por alguns dos “seus irmaos” a alguns dos seus “idolatrados patroes ex-colonizadores” leviana, difamatoria e ultrajantemente como "baratas" e "insuportaveis damas de sapato vermelho”?

- Nao estao agora os “novos engenheiros constitucionalistas da Angola Soberana” defendendo e proclamando que “os unicos donos originarios da nossa terra sao os Khoisan”?

- Nao andam por ai muitos “ex-colonizadores” se dizendo a boca cheia “mais Angolanos que a Angolanidade”?


NÓS LUTAMOS CONTRA A ALIENAÇÃO CULTURAL

Foi uma luta titânica Impingiram-nos os heróis, os reis, as tradições, os nomes, a geografia, a historia dos colonizadores. Falar em língua indígena era indigno para um «assimilado». Os nossos heróis eram selvagens, inimigos de Angola. Os colonizadores não queriam os nossos nomes nos registos e eram motivo de achincalhamento. Mas nós lutámos contra todo este sistema de alienação. Basta ver que conseguimos ainda falar e escrever em línguas indígenas, falar Ngola Kiluanje, Jinga, Ndunduma e outros heróis da luta contra a ocupação colonial. Comemos funje sem vergonha e sem medo de não nos darem o bilhete de identidade. Ainda usamos panos à moda indígena. No interior do nosso país ainda sobrevive a cultura tradicional indígena.

- O que se passa agora com a polemica a volta da estatua da Rainha Nzinga Mbandi vs. a da Maria da Fonte no Kinaxixe?

- Que tratamento se reserva a alguns de nos que, tendo sido vitimas do sistema assimilacionista, contra ele nos rebelamos e tentamos, ainda que um tanto “tardiamente” aprender ou aperfeicoar o nosso conhecimento das linguas dos nossos ancestrais (os quais, alias, tambem ja' passaram a "pertencer de pleno direito" a algun(ma)s ex-colonizadores Europeus e seus descendentes!) e adoptar os seus nomes? A resposta e’: mais frequentemente do que nao, acusam-nos perversamente de “complexos de colonizado”! Ao passo que se se tratar de um Europeu ou seu/sua descendente - em particular se exerce(u) historicamente um papel activo como agente de implementacao daquela mesma politica cultural assimilacionista - passa, mesmo sem o ser, a categoria de “antropologo/a” ou “investigador/a cientifico/a” e, por acumulo de funcoes, "premio nacional de cultura", "coreografa-em-chefe", "mae da danca contemporaneoa em Africa", etc, etc, etc!...

- “Comemos 'todos' funje sem vergonha e sem medo de nao nos darem o bilhete de identidade”? Quando eu tenho sido fustigada sem fim por mencionar, inclusive em artigos academicos, algumas das “minhas funjadas” em Angola? E, de resto, como aparentemente a Africa “sempre importou tudo, incluindo todos os ingredientes da sua culinaria tradicional” e’ melhor mesmo comecarmos a comer funje clandestinamente, porque senao nao nos dao o novo BI (sem racas - o qual, alias, nao tarda muito passara' a ser apenas B porque entretanto a palavra Identidade passou a ser uma 'blasfemia'...) sob a acusacao de sermos "estrangeiros importados" e "nao merecermos ser angolanos"!...

- “Lutamos contra todo este sistema de alienacao”?
Quando hoje isso e’ taxado por certos “clarividentes novo-jornaleiros a quem o quarto p(h)oder subiu a cabeca” de “monstro racial e tara tribal”? Quando hoje “temos que nos deixar dos semba, kizomba e kuduro, pois so’ assim progrediremos”? A este proposito, devo dizer que, nao sendo aderente incondicional ou acritica dos novos estilos musicais angolanos, como o kuduro, mesmo porque ainda nao os conheco suficientemente (e, ja' agora, tambem nunca ainda os dancei), entendo e valorizo a forma como alguns dos novos artistas de que aos poucos vou tomando conhecimento, os teem usado como musica de intervencao, protesto e afirmacao cultural nacional.

NÓS LUTAMOS PARA CONSTRUIR ANGOLA

Para a construção do que Angola é hoje os indígenas deram muito do seu suor e muitos a pró-pria vida. Nós construímos as estradas (no tempo em que éramos rusgados e obrigados a levar as nossas próprias enxadas e a nossa comida ficando verbas do Estado nos bolsos dos chefes de posto colonizadores). Nós construímos os prédios, com salários de miséria. Nós fizemos as grandes plantações de café, palmar e sisal, que enriqueceram os colonizadores, sob desumanidades sem fim. Nós cultivamos o algodão coercivamente para enriquecer as grandes companhias, abandonando as nossas culturas e passamos fome. Nós trabalhamos nas minas, para enriquecer os imperialistas, sofrendo desumanidades e descriminações sem fim. Nós cuidamos dos «meninos», filhos dos colonizadores, acompanhamo-los à escola, enquanto nós éramos mantidos na ignorância. Para construir Angola muito sofremos, muitos morremos. Lutá-mos contra tudo: sevicias, fome, discriminações, doenças, etc.,

- Sera’ que “todos” ainda hoje nos reconhecem esses meritos e nos concedem esses creditos?

EM SUMA

Os partidecos que surgiram depois do 25 de Abril dizem representar a maioria silenciosa, aque-les que não lutaram, aqueles que construíram Angola. Já verificamos que a maioria da população angolana é indígena e esta nunca esteve silenciosa. Manifestou-se sempre contra todas formas de opressão colonial. Esta maioria oprimida lutou de armas na mão contra os colonizadores; intermitentemente, é certo, mas lutou. O remate dessa luta intermitente culminou nos 14 anos de luta contínua dos nossos Movimento de Libertação, Movimentos estes saídos desta Angolana. Esta maioria construiu Angola chicoteada nas costas nuas, passando fome, seviciada, para tornar ricos os colonizadores, que por sinal pontificam naqueles partidecos. (…) Para eles Angola não é uma colónia, é sim um «El Dourado», à «árvore das patacas». Mas agora acabou ou vai acabar brevemente.


- Havera' alguma semelhanca/diferenca entre os partidecos de 1974 e "os de hoje"?

- “«El Dourado», a «arvore das patacas». Mas agora acabou ou vai acabar brevemente.”?

Quao brevemente?


"A RAZAO DA NOSSA LUTA" 50 ANOS DEPOIS...

Este historico texto (historico, tanto no sentido temporal – porque escrito em 1974; como no sentido reflexivo – na medida em que nos permite uma avaliacao, nao so’ dos seus fundamentos argumentativos a altura em que foi escrito, como da sua validade e relevancia actual) de M.M. de Brito Junior, serve-me de mote para o segundo take desta serie sobre a comemoracao dos 50 Anos do “Ano de Africa”.

Para tanto, dele extraio algumas passagens que me parecem ser merecedoras de uma viagem no tempo desde 1974 ate’ 2010, para servirem de base a algumas interrogacoes sobre a Angola “que estamos com ela” hoje, ou seja, a uma especie de “Estado da Nacao” cerca de 5 decadas desde o inicio da luta armada contra o colonialismo e mais de 3 decadas desde a independencia do pais:

A LUTA DOS COLONIZADORES E DOS COLONIZADOS

Existiram sempre duas posições definidas na vida politica de Angola. Uma, a dos colonizadores, constituída pelos Europeus e seus descendentes. Outra, a dos colonizados constituída pelos an-golanos, tradicionalmente considerados africanos, indígenas, nativos, assimilados.

- Sera’ esta formulacao ainda valida, num contexto em que, especialmente a luz das novas formulacoes ideologico-culturais de uma dita "nacao crioula", falar-se em “Africanos vs. Europeus e seus descendentes”, ou de “indigenas” e “nativos” pode ser considerado “crime de lesa patria”, incluindo por alguns “(ex?) anti-colonialistas”?

NÓS LUTAMOS CONTRA A OCUPAÇÃO

A verdadeira Historia de Angola narra os altos feitos dos angolanos na luta armada contra a ocupação portuguesa nos Dembos, no Congo, no Libolo, no Huambo, no Amboim, no Cuamato, na Lunda, enfim, em toda Angola. As chamadas «guerras de pacificação», durante as quais foram dizimados dezenas de (?) de milhares de angolanos, mostram bem que os indígenas angolanos, os colonizados, sempre lutaram de armas na mão contra o colonialismo, contra os colonizadores.

- Havera' hoje um consenso sobre o que/qual e' a "verdadeira Historia de Angola"?

- Como se contextualiza historica e politicamente essa luta, numa era em que a “recolonizacao” cada vez mais esta’ na ordem do dia?

NÓS LUTAMOS CONTRA O ANALFABETISMO

Noventa por cento do povo angolano (colonizado) é analfabeto. Sistematicamente fomos postos à margem no campo da instrução. Os governos colonizadores só construíram escolas onde hou-vesse europeus que ocupassem, pelo menos, 2/3 da sala. Mesmo existindo sanzalas com mais de 500 crianças indígenas em idade escolar o Estado não abria ai escolas. Estes só eram instruídos onde houvesse escolas das Missões. Os indígenas que podiam estudar nas escolas do Estado só eram aqueles cujos pais possuís-sem «atestado de assimilação» e bilhete de identidade.

- Como esta’ o acesso ao ensino para a maioria da populacao de hoje?

NÓS LUTAMOS CONTRA O CONTRATO

Uma das mais vergonhosas leis da opressão colonialista é o chamado «contrato indígena». Rusgados como animais, os indígenas eram mandados para as plantações (dos colonos), para as pescarias (dos colonos), para as salinas (dos colonos), para as minas ( dos imperialistas), onde sofriam todas as desumanidades do trabalho forçado.

- Ja’ nao ha’ sistema de contrato (pelo menos formalmente), mas nao haverao actualmente outras formas de trabalho igualmente desumanas no pais?

NÓS LUTAMOS CONTRA A HUMILHAÇÃO

Se hoje o indígena é capaz de levantar a cabeça é porque muita luta travámos contra a humilhação. Os colonizadores tratavam- nos como cães, humilharam-nos de todas as maneiras e feitios. Mesmo esbofeteados tínhamos que mostra um sorriso, porque se não apanhávamos mais. Um gesto de revolta contra um atitude injusta era motivo para severos castigos corporais, culpados de insubordinação e falta de respeito. Conhecemos um velho (Apolinário) que foi deportado três vezes, por períodos superiores a 3 anos, só porque respondia ás agressões e insultos dos colonizadores. Estes não admitiam que um indígena lhes tocasse na cara, mesmo em resposta a um agressão. Cão, moleque, miúdo, rapaz, chico macaco, sempre nos chamaram, com o intuito de nos humilhar. (…) Hoje levantamos as cabeças, bem alto, olhamos para a frente, para o futuro, já não baixamos os olhos para o chão quando falamos com um colonizador. Foi uma luta ingente e vencemos.

- Continuamos ainda de “cabecas levantadas”? Confesso que ha’ individuos hoje em Angola que so’ me merecem mesmo que lhes chame "caes, moleques, miudos e rapazes (quando nao sub-rapazes ou rapazitos)" – mas apenas e tao so’ porque, justamente, nao so’ vivem de lamber as botas aos seus novos “capatazes”, como entendem que eu e “todo o mundo” tambem o deve fazer, sob pena de, "sabendo sempre o que nos espera", bem entendido, sermos por eles linchados e literalmente pulverizados (armados que estao agora da "titularidade" de alguns dos principais orgaos formais do dito "quarto poder"...), mesmo e sobretudo quando reagindo a insultos gratuitos, ofensas e agressoes morais e materiais gravissimas, incluindo ameacas de morte (!), que nos sao infligidos, a nos e aos nossos ancestrais e descendentes, por alegadas “insubordinacao e falta de respeito”, hoje mais frequentemente designadas de “atrevimento (de pobres e insignificantes criaturas)”!

NÓS LUTAMOS CONTRA A DISCRIMINAÇÃO

Em Angola existe discriminação racial, embora não oficial. No campo salarial um indígena ganhava, geralmente, um terço do que ganhava um colonizador. Isto em todas as actividades do sector privado. Quando reclamássemos ouvíamos do patrão: «queres ganhar como um branco?». Podíamos saber mais da profissão do que um colonizador mas este era sempre o chefe, o encarregado. (…) Hoje fazemos greves e exigimos salários iguais. Continuaremos a luta.


- “Hoje fazemos greves e exigimos salários iguais”? Ou, ja' agora, "patrocinios" iguais?

- “Continuamos a luta?” Ou, antes, somos acusados por alguns dos “nossos irmaos” gratuita, infundada, insultuosa, irresponsavel e criminosamente, de a nossa dolorosa luta por uma formacao academica e tecnico-profissional reconhecida em qualquer parte do mundo nao ter produzido mais do que “falsos diplomas”, “mestrados em imitacao”, “infiltracoes em reunioes de peritos”, etc., etc., etc.???


Enquanto que, em se tratando de um Europeu ou seu/sua descendente pertencente precisamente aquele grupo de ex-colonizadores que enriqueceram exclusivamente a custa da "arvore das patacas" de Angola e que por isso conseguiu abrir todas as portas do mundo empresarial (especialmente o bancario) e/ou academico, passa a ser considerado/a, por exemplo, especialista em "macroeconomia a prova de balas" (sem que quem o afirma/escreve, por evidentemente nao fazer a minima ideia do que fala, sequer se aperceba da contradicao em termos que isso significa... em particular quando nao se tem qualquer track record de alguma pratica profissional em gestao macroeconomica!), ainda que, e ate' por "defeito de formacao" como publicamente assumido/as "neoclassico/as ou neoliberais", nao possam reclamar qualquer especialismo nessa area, por muito que o tenham noutras areas da economia, nomeadamente a econometria e, possivelmente, a microeconomia...

NÓS LUTAMOS CONTRA A USURPAÇÃO

Os colonizadores usurparam as nossas terras, as nossas riquezas, as nossas lavras, as nossas irmãs e nós sobrevivemos. Os mulatos resultantes da usurpação das nossas irmãs lutaram connosco contra os colonizadores. A reforma agrária contra os latifúndios e monopólios brevemente será levado a cabo por uma Angola Soberana. Lutámos contra todo este sistema de usurpação, durante séculos.

- Sera’ mesmo? “Todos os mulatos” (ou, ja’ agora, “todos os negros”) lutaram contra os colonizadores (ou tera’ sido, mais politicamente-correcto falando, contra o colonialismo?)?

- Nao estarao algumas dessas “irmas usurpadas” por alguns deles sendo “vendidas” ao desbarato por alguns dos “seus irmaos” a alguns dos seus “idolatrados patroes ex-colonizadores” leviana, difamatoria e ultrajantemente como "baratas" e "insuportaveis damas de sapato vermelho”?

- Nao estao agora os “novos engenheiros constitucionalistas da Angola Soberana” defendendo e proclamando que “os unicos donos originarios da nossa terra sao os Khoisan”?

- Nao andam por ai muitos “ex-colonizadores” se dizendo a boca cheia “mais Angolanos que a Angolanidade”?


NÓS LUTAMOS CONTRA A ALIENAÇÃO CULTURAL

Foi uma luta titânica Impingiram-nos os heróis, os reis, as tradições, os nomes, a geografia, a historia dos colonizadores. Falar em língua indígena era indigno para um «assimilado». Os nossos heróis eram selvagens, inimigos de Angola. Os colonizadores não queriam os nossos nomes nos registos e eram motivo de achincalhamento. Mas nós lutámos contra todo este sistema de alienação. Basta ver que conseguimos ainda falar e escrever em línguas indígenas, falar Ngola Kiluanje, Jinga, Ndunduma e outros heróis da luta contra a ocupação colonial. Comemos funje sem vergonha e sem medo de não nos darem o bilhete de identidade. Ainda usamos panos à moda indígena. No interior do nosso país ainda sobrevive a cultura tradicional indígena.

- O que se passa agora com a polemica a volta da estatua da Rainha Nzinga Mbandi vs. a da Maria da Fonte no Kinaxixe?

- Que tratamento se reserva a alguns de nos que, tendo sido vitimas do sistema assimilacionista, contra ele nos rebelamos e tentamos, ainda que um tanto “tardiamente” aprender ou aperfeicoar o nosso conhecimento das linguas dos nossos ancestrais (os quais, alias, tambem ja' passaram a "pertencer de pleno direito" a algun(ma)s ex-colonizadores Europeus e seus descendentes!) e adoptar os seus nomes? A resposta e’: mais frequentemente do que nao, acusam-nos perversamente de “complexos de colonizado”! Ao passo que se se tratar de um Europeu ou seu/sua descendente - em particular se exerce(u) historicamente um papel activo como agente de implementacao daquela mesma politica cultural assimilacionista - passa, mesmo sem o ser, a categoria de “antropologo/a” ou “investigador/a cientifico/a” e, por acumulo de funcoes, "premio nacional de cultura", "coreografa-em-chefe", "mae da danca contemporaneoa em Africa", etc, etc, etc!...

- “Comemos 'todos' funje sem vergonha e sem medo de nao nos darem o bilhete de identidade”? Quando eu tenho sido fustigada sem fim por mencionar, inclusive em artigos academicos, algumas das “minhas funjadas” em Angola? E, de resto, como aparentemente a Africa “sempre importou tudo, incluindo todos os ingredientes da sua culinaria tradicional” e’ melhor mesmo comecarmos a comer funje clandestinamente, porque senao nao nos dao o novo BI (sem racas - o qual, alias, nao tarda muito passara' a ser apenas B porque entretanto a palavra Identidade passou a ser uma 'blasfemia'...) sob a acusacao de sermos "estrangeiros importados" e "nao merecermos ser angolanos"!...

- “Lutamos contra todo este sistema de alienacao”?
Quando hoje isso e’ taxado por certos “clarividentes novo-jornaleiros a quem o quarto p(h)oder subiu a cabeca” de “monstro racial e tara tribal”? Quando hoje “temos que nos deixar dos semba, kizomba e kuduro, pois so’ assim progrediremos”? A este proposito, devo dizer que, nao sendo aderente incondicional ou acritica dos novos estilos musicais angolanos, como o kuduro, mesmo porque ainda nao os conheco suficientemente (e, ja' agora, tambem nunca ainda os dancei), entendo e valorizo a forma como alguns dos novos artistas de que aos poucos vou tomando conhecimento, os teem usado como musica de intervencao, protesto e afirmacao cultural nacional.

NÓS LUTAMOS PARA CONSTRUIR ANGOLA

Para a construção do que Angola é hoje os indígenas deram muito do seu suor e muitos a pró-pria vida. Nós construímos as estradas (no tempo em que éramos rusgados e obrigados a levar as nossas próprias enxadas e a nossa comida ficando verbas do Estado nos bolsos dos chefes de posto colonizadores). Nós construímos os prédios, com salários de miséria. Nós fizemos as grandes plantações de café, palmar e sisal, que enriqueceram os colonizadores, sob desumanidades sem fim. Nós cultivamos o algodão coercivamente para enriquecer as grandes companhias, abandonando as nossas culturas e passamos fome. Nós trabalhamos nas minas, para enriquecer os imperialistas, sofrendo desumanidades e descriminações sem fim. Nós cuidamos dos «meninos», filhos dos colonizadores, acompanhamo-los à escola, enquanto nós éramos mantidos na ignorância. Para construir Angola muito sofremos, muitos morremos. Lutá-mos contra tudo: sevicias, fome, discriminações, doenças, etc.,

- Sera’ que “todos” ainda hoje nos reconhecem esses meritos e nos concedem esses creditos?

EM SUMA

Os partidecos que surgiram depois do 25 de Abril dizem representar a maioria silenciosa, aque-les que não lutaram, aqueles que construíram Angola. Já verificamos que a maioria da população angolana é indígena e esta nunca esteve silenciosa. Manifestou-se sempre contra todas formas de opressão colonial. Esta maioria oprimida lutou de armas na mão contra os colonizadores; intermitentemente, é certo, mas lutou. O remate dessa luta intermitente culminou nos 14 anos de luta contínua dos nossos Movimento de Libertação, Movimentos estes saídos desta Angolana. Esta maioria construiu Angola chicoteada nas costas nuas, passando fome, seviciada, para tornar ricos os colonizadores, que por sinal pontificam naqueles partidecos. (…) Para eles Angola não é uma colónia, é sim um «El Dourado», à «árvore das patacas». Mas agora acabou ou vai acabar brevemente.


- Havera' alguma semelhanca/diferenca entre os partidecos de 1974 e "os de hoje"?

- “«El Dourado», a «arvore das patacas». Mas agora acabou ou vai acabar brevemente.”?

Quao brevemente?