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Tuesday, 4 October 2011

Yinka Shonibare's 'Odile and Odette'



The film, with choreography by Kim Brandstrup features two ballerinas, one black one white, who explore the Swan Lake roles of Odile and Odette through a baroque mirror emphasizing the interplay between reality and reflection, conscious and unconscious. With the dancers wearing classical tutus made of African textiles Shonibare's film challenges assumptions about representation by playfully blurring the boundaries between stereotypically Western ideas about 'high' art and traditional categorisations of 'African art.'
[here]

We see each dancer emulating the other’s movements and expressions, although the emphasis here is on the African dancer who is enacting a careful and studied imitation of the highly valued, and European-produced, ballet art form.
[here]

Shonibare's interpretation extends the theme of blackness and whiteness in his juxtaposition of the two dancers and calls into question the Western binary opposition in which negative or "dark" forces are polarized against positive, "light" ones.
Odile and Odette, Shonibare's second film work to date, was commissioned by London's Royal Opera and Ballet. The artist has noted, with some irony, that his film features one ballerina drawn from the Royal Ballet (the white dancer) and an independent dancer sourced by the company because it did not have a black ballerina in its corps.

[here]



[Full lenght film: 14 minutes, 28 seconds]


Speaking of the work at a recent lecture at Goldsmiths College Shonibare explained the ballerina represents “the epitome of ‘civilized sensibilities’.” Accompanying the film was a sculpture of a ballerina of ambivalent race perched atop a black cloud: “a ballerina balanced on a black mushroom cloud of war and destruction.” Irony, again, is writ large. Civilization creates beautiful things, beautiful art in particular, but at what cost?
[here]




Gostaria de dedicar, com amizade, este post ‘a Marinela.
A Marinela foi minha colega no Liceu e era (ainda e’?) a unica bailarina classica negra Angolana que conheco. Foi ela que, na primeira metade da decada de 90, em Lisboa, me levou 'a companhia de danca que aqui mencionava, onde pratiquei o que entao se chamava “danca jazz” (ainda se chama?). As aulas que frequentei eram para amadores, mas o “warm-up”, baseado em exercicios 'tailor-made' para bailarinos classicos, era feito em conjunto com os profissionais da companhia, entre os quais a Marinela se incluia. Eramos entao, eu e ela, as unicas negras no grupo.

A companhia era dirigida por uma coreografa Franco-Argelina coadjuvada por um ex-bailarino classico Russo, que tinha tido o desaire de ter fracturado um joelho e assim ficado incapacitado de dancar profissionalmente. Ela tinha sempre um ar muito frio e distante e a unica vez que se dirigiu a mim foi para dizer, como se estivesse a dirigir-se a outra pessoa: "vejo ai muita emocao e sensualidade, mas muito pouca tecnica!" ...como se eu nao fosse, assumidamente, apenas uma amadora... Ja' ele, muito mais relaxado e divertido, estava sempre muito atento a minha “postura” (nao apenas fisica) nas aulas e explicava porque ao resto do grupo: “ela ri-se de si propria em frente ao espelho, mostrando-se consciente das suas falhas, mas depois de se rir fica muito seria e corrige a sua postura e os seus passos”…

Mas, era da Marinela que me apetecia falar… que e’ feito de ti Marinela?


[Post (nao) relacionado: Sobras]


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[
here]

We see each dancer emulating the other’s movements and expressions, although the emphasis here is on the African dancer who is enacting a careful and studied imitation of the highly valued, and European-produced, ballet art form.
[here]

Shonibare's interpretation extends the theme of blackness and whiteness in his juxtaposition of the two dancers and calls into question the Western binary opposition in which negative or "dark" forces are polarized against positive, "light" ones.
Odile and Odette, Shonibare's second film work to date, was commissioned by London's Royal Opera and Ballet. The artist has noted, with some irony, that his film features one ballerina drawn from the Royal Ballet (the white dancer) and an independent dancer sourced by the company because it did not have a black ballerina in its corps.

[here]



[Full lenght film: 14 minutes, 28 seconds]


Speaking of the work at a recent lecture at Goldsmiths College Shonibare explained the ballerina represents “the epitome of ‘civilized sensibilities’.” Accompanying the film was a sculpture of a ballerina of ambivalent race perched atop a black cloud: “a ballerina balanced on a black mushroom cloud of war and destruction.” Irony, again, is writ large. Civilization creates beautiful things, beautiful art in particular, but at what cost?
[here]




Gostaria de dedicar, com amizade, este post ‘a Marinela.
A Marinela foi minha colega no Liceu e era (ainda e’?) a unica bailarina classica negra Angolana que conheco. Foi ela que, na primeira metade da decada de 90, em Lisboa, me levou 'a companhia de danca que aqui mencionava, onde pratiquei o que entao se chamava “danca jazz” (ainda se chama?). As aulas que frequentei eram para amadores, mas o “warm-up”, baseado em exercicios 'tailor-made' para bailarinos classicos, era feito em conjunto com os profissionais da companhia, entre os quais a Marinela se incluia. Eramos entao, eu e ela, as unicas negras no grupo.

A companhia era dirigida por uma coreografa Franco-Argelina coadjuvada por um ex-bailarino classico Russo, que tinha tido o desaire de ter fracturado um joelho e assim ficado incapacitado de dancar profissionalmente. Ela tinha sempre um ar muito frio e distante e a unica vez que se dirigiu a mim foi para dizer, como se estivesse a dirigir-se a outra pessoa: "vejo ai muita emocao e sensualidade, mas muito pouca tecnica!" ...como se eu nao fosse, assumidamente, apenas uma amadora... Ja' ele, muito mais relaxado e divertido, estava sempre muito atento a minha “postura” (nao apenas fisica) nas aulas e explicava porque ao resto do grupo: “ela ri-se de si propria em frente ao espelho, mostrando-se consciente das suas falhas, mas depois de se rir fica muito seria e corrige a sua postura e os seus passos”…

Mas, era da Marinela que me apetecia falar… que e’ feito de ti Marinela?


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Thursday, 22 September 2011

Revisitando a SADC (Conclusao)





[Continuacao daqui]

Detenhamos-nos um pouco sobre a CNUCED. Esta organizacao, mais do que a OMC, ao contrario do que parece ser o entendimento de muitos, tem sido a maior promotora de iniciativas de desenvolvimento economico atraves do comercio regional e internacional, por intermedio do apoio tecnico e institucional que concede aos governos e organizacoes inter-governamentais que, como a SADC, perseguem esse objectivo. “Mais do que a OMC”, disse justamente: porque, tal como o FMI e o Banco Mundial o sao da economia monetaria e financeira internacional, a OMC e’ uma organizacao reguladora do comercio internacional, o que nao e’ estritamente a vocacao da CNUCED.

Detenhamo-nos tambem um pouco sobre a OMC. Esta organizacao, se entregue aos seus own devices pode, efectivamente, em certas circunstancias e contextos bem determinados e, especialmente naqueles em que os Paises Menos Desenvolvidos (PMD) se demonstram mais vulneraveis, agir como um “bicho papao”... e e’ precisamente por isso que varios projectos de apoio tecnico e de criacao e desenvolvimento de capacidade (capacity building) institucional, organizativa e de negociacao, em alguns dos quais estive envolvida, como aqui referi, se teem criado e se venhem tentando implementar na Africa Austral e noutras regioes do continente Africano e do chamado Global South (formerly better known as “Terceiro Mundo”).

Servem tais projectos, entre outros objectivos, justamente para fazerem os estudos de viabilidade tecnica, em particular das infrastructuras [*] existentes, ou a (re)construir e desenvolver, a par dos estudos de identificacao das vantagens absolutas e comparativas reais e potenciais, que sirvam de suporte a adopcao de politicas comerciais e industriais por parte dos paises abrangidos, que sejam adequadas nao apenas aos objectivos de desenvolvimento regional, mas tambem aos objectivos politico-economicos nacionais - como aqui o ilustro.

Mais servem esses projectos (... ou pelo menos aqueles em que estive envolvida...) para empreenderem o estudo dos quadros e instrumentos institucionais, legais, normativos e reguladores no dominio do comercio e da industria dos paises alvo e advogarem as necessarias medidas para o seu fortalecimento e adequacao as regulacoes da OMC la' onde elas sejam incontornaveis e ate' desejaveis para todos (caso dos standards sanitarios e fitosanitarios e de higiene alimentar, por exemplo, incidindo sobre os produtos de origem agricola, piscicola e pecuaria que constituem o grosso da producao e do comercio dos paises Africanos) e, tanto quanto possivel, submetendo-as aos seus proprios interesses nacionais, nos casos em que tais regulacoes se demonstrem apenas do interesse dos paises mais desenvolvidos - como aqui o ilustro.

E tais projectos destinam-se precisamente a criar um ambiente de proteccao desses paises e das suas politicas comerciais, industriais e economicas em geral das estrategias dos “bichos papoes” que dominam a OMC e que, tanto a nivel regional, como continental e internacional, tendem a constrangi-los e a submete-los aos seus ditames!

Seus ditames? Sim! Eles ditam, dominam e manipulam as "regras do jogo" do comercio internacional – nao e’ segredo nenhum para ninguem, dir-se-ha’ porventura... Mas, o que recolho das 'atoardas' com que nao raro me vejo bombardeada, e’ o que parece ser ainda desconhecido de muitos: nomeadamente, que todos os membros da ONU sao, ou podem ser, membros da OMC, tal como o sao, ou podem ser, do BM e do FMI e que o seu bargaining power nessas instituicoes, e na OMC mais do que nas outras, depende crucialmente das aliancas e coligacoes que entre si sejam capazes de forjar.

E essas aliancas, que se teem que fundar institucionalmente, em primeiro lugar, nas organizacoes regionais como a SADC, passam pela criacao de pelo menos tres pre-requisitos fundamentais: 1. vontade e determinacao politica; 2. capacidade tecnica; 3. capacidade negocial. E, sendo certo que a existencia de tais organizacoes e de instrumentos de politica como o Protocolo de Comercio da SADC de per se parecem indiciar a existencia do primeiro pre-requisito, ja’ os outros dois sao virtualmente inexistentes.




Por essa razao, varios grupos e sub-grupos de paises se teem organizado no seio da OMC e venhem forjando aliancas politico-reivindicativas cujo maior achievement ate’ ao momento foi a inclusao na agenda de Doha do objectivo “capacity building” para a obtencao do apoio por parte da propria OMC ao preenchimento dos pre-requisitos 2. e 3., sem o que o chamado Global South se reserva o direito de oferecer resistencia 'a implementacao das suas politicas e regulamentos, particularmente no sector dos servicos.

E apenas para ilustrar a importancia vital, premencia e urgencia do objectivo capacity building, referirei apenas este facto: na regiao da Africa Austral, no periodo, nao assim tao recuado, em que estive envolvida nesse tipo de projectos no terreno, contavam-se apenas, se tanto, cerca de meia duzia de profissionais nacionais dos paises membros da SADC [**] com alguma familiaridade quer com a teoria e a pratica da Economia e Comercio Internacional e da Integracao Economica Regional, quer com o funcionamento e estrategias negociais no quadro da OMC, sendo eu dentre eles - ... e, malgre' todas as maliciosas “reticencias” a minha nacionalidade com que la’ me vi confrontada por parte de alguns “representantes” do “meu pais” (como AQUI se pode constatar...), e nisso o meu amigo Angelo Mondlane , entao Chefe Economista da SADC e pessoa que muito estimo, que uma vez me disse "tu es a pessoa melhor qualificada que nos temos aqui", nao me deixara' mentir!... - [***] a unica com formacao academica especifica nessas areas, acrescida de especializacao na Historia Economica da regiao, obtida neste Departamento da LSE , no qual fui apenas a terceira Africana a ser admitida desde a sua fundacao! Os outros dois eram Eritreus. E fi-lo suportando os seus altos custos financeiros inteiramente por minha conta propria!...

Todos os outros eram nacionais de paises ocidentais, ou seja, dos tais "bichos papoes" da OMC! (... era um pouco sobre essa realidade que aqui trocava algumas ideias com alguns Africanos que "sabem do que falam") ... E por isso, em pelo menos duas ocasioes memoraveis me encontrei em rota de colisao e mesmo de ruptura com alguns deles directamente e, indirectamente, com as suas respectivas agencias de desenvolvimento - era dessas, entre outras situacoes, que se referia aqui alguem quando dizia "(...) She is also someone who stands firm in her beliefs and will speak her mind without fear" ... e era tambem disso que eu falava aqui, quando dizia que "e… por isso tenho pago (muito!) alto o preco!"...

E se essa e' a realidade na Africa Austral que, realisticamente falando, pode ser considerada "a mais desenvolvida" em termos de diversificacao economica e de fluxos/influxos comerciais e de recursos humanos e financeiros na Africa Sub-Sahariana, o que dizer das outras sub-regioes do continente?! ... E, a este respeito, nao sera' de todo inoportuno relembrar, nao sem uma certa amarga ironia, como, ainda muito recentemente, aqui se dizia que "... podemos importar, com facilidade, o “know-how” de África que nos falta"!...

Terminaria, portanto, com este 'statement' sobre o qual cada vez tenho menos duvidas: so' me parecem haver duas alternativas 'a OMC:

i) a sua extincao e o regresso ao 'unilateralismo' no comercio internacional, como aqui propunha o candidato (derrotado) a Presidencia dos EUA, Dennis Kucinich. Esta nao me parece, no entanto, ser uma opcao viavel, credivel nem recomendavel, por varias razoes, dentre as quais destacaria o inevitavel regresso ao 'mercantilismo puro e duro' ou, no limite, simplesmente a 'autarcia', pelo menos em alguns casos, sendo certo que estes se verificariam maioritariamente no Global South;

ii) um maior engajamento e compromisso dos paises do Global South nos processos de integracao economica regional, no fomento do comercio intra e inter-regional e na criacao e desenvolvimento das suas capacidades tecnicas e negociais a todos os niveis, por forma a servir-se efectivamente o objectivo ultimo de colocar o comercio internacional ao servico do desenvolvimento economico, social e humano, tanto em Africa como no resto do Global South e do mundo em geral.




[*] Sendo que as infrastruturas em questao no dominio do comercio internacional nao sao apenas as fisicas (estradas, pontes, linhas ferreas, portos, redes de telecomunicacoes, etc.), mas tambem, e sobretudo, as tecnicas. Isto porque e' consensual que as barreiras mais detrimentais a entrada nos mercados internacionais para os PMD sao as chamadas barreiras nao quantitativas, ou barreiras tecnicas ao comercio, que os paises mais fortes na OMC teem sido capazes de adoptar e implementar em seu favor atraves de instrumentos como as regras de origem, cumulacao, valor acrescentado e clausulas de salvaguarda, ou da estruturacao das pautas aduaneiras, apenas para citar as mais comuns.

Portanto, nao pretendendo de modo nenhum subestimar a importancia crucial das infrastruturas fisicas, o facto e' que por melhores que estas sejam, nao ha' comercio internacional que resista a tais barreiras tecnicas.

E e' este o principio fundamental que rege a criacao das Areas de Comercio Livre (FTAs), como propugna o Protocolo de Comercio da SADC, com vista a facilitacao do comercio e a livre circulacao de pessoas e bens entre paises, pois elas permitem a eliminacao de grande parte, senao de todas, essas barreiras tecnicas.


[**] Colocando-se aqui a Africa do Sul numa league of her own com o seu Trade Law Centre for Southern Africa (tralac), sediado em Stellenbosch e dirigido pela minha amiga Trudi Hartzenberg, que se tem vindo a afirmar nos ultimos anos como um importante viveiro de quadros regionais nessa area, sendo no entanto ainda bastante circunscrito 'as politicas comerciais da Africa do Sul e, por extensao, da SACU.


[***] Lembro-me, a este proposito, do sentimento, diria que de "humilhacao", com que vi, num dos workshops dos Customs Advisory Working Groups (CAWGs) a que aqui me refiro, ha' 10 anos, em Johannesburg, o "meu pais" representado por um cidadao Britanico, que assim se apresentou ao grupo: "I'm (so and so) and you can address any questions about Angola to me"...

Mas, a "representar" Angola estava tambem um cidadao Angolano, antigo funcionario das alfandegas - que certamente sabia muito mais sobre o funcionamento destas no pais e sobre Angola em geral do que o Britanico, mas... nao sabia Ingles! Nem o Britanico sabia Portugues! Nao vi qualquer interaccao ou dialogo entre eles durante ou depois das sessoes de trabalho. De facto, como varias vezes o tive que fazer em situacoes identicas, por moto proprio e "solidariedade nacional" (e pessoas como, por exemplo, o economista Alves da Rocha - que tive o prazer de conhecer em Johannesburg num workshop regional para a consolidacao e primeira apresentacao oficial do corrente Plano Indicativo Estrategico Regional da SADC e a quem daqui envio um cordial abraco -, sao disso testemunhas), fui eu que acabei por servir de tradutora/interprete para o Angolano... o "eterno" (inultrapassavel?) problema da lingua, pois sim. Mas o facto e' que os organizadores do workshop poderiam ter providenciado servicos de traducao/interpretacao ao(s) representante(s) de Angola se tal lhes tivesse sido solicitado com a devida antecedencia. So' que... quem 'mandava' (ainda 'manda'?) nas alfandegas de Angola era uma firma Britanica!...
E, entretanto, todos os outros paises da regiao estavam devidamente representados exclusivamente por cidadaos nacionais seus...

Mas nao se tratou ali apenas de uma questao 'emotiva' de "orgulho nacional ferido"; tratou-se, sobretudo, de uma questao com profundas e perversas implicacoes estruturais: aquela era uma plataforma para a obtencao de informacao e conhecimentos tecnicos e de interaccao entre os profissionais da regiao para a adopcao e implementacao de instrumentos comuns com vista a facilitacao do comercio entre os seus paises. Mas quem obteve e "acumulou" tal experiencia no caso de Angola?
O cidadao Britanico, a sua firma e o seu pais - ou seja, um dos "bichos papoes" da OMC?!


[images by Yinka Shonibare: 'HMS Victory in a bottle' and two versions of 'The Wonderer']





ADENDA


Apenas algumas linhas adicionais para "transportar" para o contexto regional (Rest of SADC vs. South Africa) as consideracoes feitas acima em relacao ao contexto global (SADC vs. Rest of the World):

Tal como a OMC, se entregue aos seus own devices, se pode comportar como um "bicho papao" em relacao aos PMD, no contexto regional esse "bicho papao" pode bem ser a Africa do Sul (AS) em relacao aos outros paises membros da SADC... se entregue aos seus own devices!

Vejamos: a AS e', indubitavelmente, o gigante continental (veja-se, por exemplo a sua posicao no Global Competitiveness Index aqui discutido em relacao aos outros paises da regiao e do continente - apenas seguida de perto pelas Mauricias; veja-se tambem a forma como cada vez mais a nivel global se vai aproximando do grupo dos BRIC - Brasil, Russia, India e China) e domina o comercio regional na Africa Austral.

Em resultado disso, como o demonstra amplamente a experiencia centenaria da SACU, a AS pode agir na regiao como a OMC age no mundo... but, again, apenas se entregue aos seus own devices!

A implicacao desse facto e' que ele torna o Protocolo de Comercio da SADC num instrumento crucial para a "subordinacao" das politicas comerciais e industriais tendencialmente hegemonicas da SA as disposicoes desse protocolo, que contempla o principio da geometria assimetrica no estabelecimento de uma FTA e, mais tarde de uma UA na regiao, e atraves do qual os outros paises membros da SADC podem exercer de forma concertada as accoes necessarias a salvaguarda dos seus interesses economicos nacionais, tal como o Global South o vem, slowly but surely, fazendo na OMC.





[Continuacao daqui]

Detenhamos-nos um pouco sobre a CNUCED. Esta organizacao, mais do que a OMC, ao contrario do que parece ser o entendimento de muitos, tem sido a maior promotora de iniciativas de desenvolvimento economico atraves do comercio regional e internacional, por intermedio do apoio tecnico e institucional que concede aos governos e organizacoes inter-governamentais que, como a SADC, perseguem esse objectivo. “Mais do que a OMC”, disse justamente: porque, tal como o FMI e o Banco Mundial o sao da economia monetaria e financeira internacional, a OMC e’ uma organizacao reguladora do comercio internacional, o que nao e’ estritamente a vocacao da CNUCED.

Detenhamo-nos tambem um pouco sobre a OMC. Esta organizacao, se entregue aos seus own devices pode, efectivamente, em certas circunstancias e contextos bem determinados e, especialmente naqueles em que os Paises Menos Desenvolvidos (PMD) se demonstram mais vulneraveis, agir como um “bicho papao”... e e’ precisamente por isso que varios projectos de apoio tecnico e de criacao e desenvolvimento de capacidade (capacity building) institucional, organizativa e de negociacao, em alguns dos quais estive envolvida, como aqui referi, se teem criado e se venhem tentando implementar na Africa Austral e noutras regioes do continente Africano e do chamado Global South (formerly better known as “Terceiro Mundo”).

Servem tais projectos, entre outros objectivos, justamente para fazerem os estudos de viabilidade tecnica, em particular das infrastructuras [*] existentes, ou a (re)construir e desenvolver, a par dos estudos de identificacao das vantagens absolutas e comparativas reais e potenciais, que sirvam de suporte a adopcao de politicas comerciais e industriais por parte dos paises abrangidos, que sejam adequadas nao apenas aos objectivos de desenvolvimento regional, mas tambem aos objectivos politico-economicos nacionais - como aqui o ilustro.

Mais servem esses projectos (... ou pelo menos aqueles em que estive envolvida...) para empreenderem o estudo dos quadros e instrumentos institucionais, legais, normativos e reguladores no dominio do comercio e da industria dos paises alvo e advogarem as necessarias medidas para o seu fortalecimento e adequacao as regulacoes da OMC la' onde elas sejam incontornaveis e ate' desejaveis para todos (caso dos standards sanitarios e fitosanitarios e de higiene alimentar, por exemplo, incidindo sobre os produtos de origem agricola, piscicola e pecuaria que constituem o grosso da producao e do comercio dos paises Africanos) e, tanto quanto possivel, submetendo-as aos seus proprios interesses nacionais, nos casos em que tais regulacoes se demonstrem apenas do interesse dos paises mais desenvolvidos - como aqui o ilustro.

E tais projectos destinam-se precisamente a criar um ambiente de proteccao desses paises e das suas politicas comerciais, industriais e economicas em geral das estrategias dos “bichos papoes” que dominam a OMC e que, tanto a nivel regional, como continental e internacional, tendem a constrangi-los e a submete-los aos seus ditames!

Seus ditames? Sim! Eles ditam, dominam e manipulam as "regras do jogo" do comercio internacional – nao e’ segredo nenhum para ninguem, dir-se-ha’ porventura... Mas, o que recolho das 'atoardas' com que nao raro me vejo bombardeada, e’ o que parece ser ainda desconhecido de muitos: nomeadamente, que todos os membros da ONU sao, ou podem ser, membros da OMC, tal como o sao, ou podem ser, do BM e do FMI e que o seu bargaining power nessas instituicoes, e na OMC mais do que nas outras, depende crucialmente das aliancas e coligacoes que entre si sejam capazes de forjar.

E essas aliancas, que se teem que fundar institucionalmente, em primeiro lugar, nas organizacoes regionais como a SADC, passam pela criacao de pelo menos tres pre-requisitos fundamentais: 1. vontade e determinacao politica; 2. capacidade tecnica; 3. capacidade negocial. E, sendo certo que a existencia de tais organizacoes e de instrumentos de politica como o Protocolo de Comercio da SADC de per se parecem indiciar a existencia do primeiro pre-requisito, ja’ os outros dois sao virtualmente inexistentes.




Por essa razao, varios grupos e sub-grupos de paises se teem organizado no seio da OMC e venhem forjando aliancas politico-reivindicativas cujo maior achievement ate’ ao momento foi a inclusao na agenda de Doha do objectivo “capacity building” para a obtencao do apoio por parte da propria OMC ao preenchimento dos pre-requisitos 2. e 3., sem o que o chamado Global South se reserva o direito de oferecer resistencia 'a implementacao das suas politicas e regulamentos, particularmente no sector dos servicos.

E apenas para ilustrar a importancia vital, premencia e urgencia do objectivo capacity building, referirei apenas este facto: na regiao da Africa Austral, no periodo, nao assim tao recuado, em que estive envolvida nesse tipo de projectos no terreno, contavam-se apenas, se tanto, cerca de meia duzia de profissionais nacionais dos paises membros da SADC [**] com alguma familiaridade quer com a teoria e a pratica da Economia e Comercio Internacional e da Integracao Economica Regional, quer com o funcionamento e estrategias negociais no quadro da OMC, sendo eu dentre eles - ... e, malgre' todas as maliciosas “reticencias” a minha nacionalidade com que la’ me vi confrontada por parte de alguns “representantes” do “meu pais” (como AQUI se pode constatar...), e nisso o meu amigo Angelo Mondlane , entao Chefe Economista da SADC e pessoa que muito estimo, que uma vez me disse "tu es a pessoa melhor qualificada que nos temos aqui", nao me deixara' mentir!... - [***] a unica com formacao academica especifica nessas areas, acrescida de especializacao na Historia Economica da regiao, obtida neste Departamento da LSE , no qual fui apenas a terceira Africana a ser admitida desde a sua fundacao! Os outros dois eram Eritreus. E fi-lo suportando os seus altos custos financeiros inteiramente por minha conta propria!...

Todos os outros eram nacionais de paises ocidentais, ou seja, dos tais "bichos papoes" da OMC! (... era um pouco sobre essa realidade que aqui trocava algumas ideias com alguns Africanos que "sabem do que falam") ... E por isso, em pelo menos duas ocasioes memoraveis me encontrei em rota de colisao e mesmo de ruptura com alguns deles directamente e, indirectamente, com as suas respectivas agencias de desenvolvimento - era dessas, entre outras situacoes, que se referia aqui alguem quando dizia "(...) She is also someone who stands firm in her beliefs and will speak her mind without fear" ... e era tambem disso que eu falava aqui, quando dizia que "e… por isso tenho pago (muito!) alto o preco!"...

E se essa e' a realidade na Africa Austral que, realisticamente falando, pode ser considerada "a mais desenvolvida" em termos de diversificacao economica e de fluxos/influxos comerciais e de recursos humanos e financeiros na Africa Sub-Sahariana, o que dizer das outras sub-regioes do continente?! ... E, a este respeito, nao sera' de todo inoportuno relembrar, nao sem uma certa amarga ironia, como, ainda muito recentemente, aqui se dizia que "... podemos importar, com facilidade, o “know-how” de África que nos falta"!...

Terminaria, portanto, com este 'statement' sobre o qual cada vez tenho menos duvidas: so' me parecem haver duas alternativas 'a OMC:

i) a sua extincao e o regresso ao 'unilateralismo' no comercio internacional, como aqui propunha o candidato (derrotado) a Presidencia dos EUA, Dennis Kucinich. Esta nao me parece, no entanto, ser uma opcao viavel, credivel nem recomendavel, por varias razoes, dentre as quais destacaria o inevitavel regresso ao 'mercantilismo puro e duro' ou, no limite, simplesmente a 'autarcia', pelo menos em alguns casos, sendo certo que estes se verificariam maioritariamente no Global South;

ii) um maior engajamento e compromisso dos paises do Global South nos processos de integracao economica regional, no fomento do comercio intra e inter-regional e na criacao e desenvolvimento das suas capacidades tecnicas e negociais a todos os niveis, por forma a servir-se efectivamente o objectivo ultimo de colocar o comercio internacional ao servico do desenvolvimento economico, social e humano, tanto em Africa como no resto do Global South e do mundo em geral.




[*] Sendo que as infrastruturas em questao no dominio do comercio internacional nao sao apenas as fisicas (estradas, pontes, linhas ferreas, portos, redes de telecomunicacoes, etc.), mas tambem, e sobretudo, as tecnicas. Isto porque e' consensual que as barreiras mais detrimentais a entrada nos mercados internacionais para os PMD sao as chamadas barreiras nao quantitativas, ou barreiras tecnicas ao comercio, que os paises mais fortes na OMC teem sido capazes de adoptar e implementar em seu favor atraves de instrumentos como as regras de origem, cumulacao, valor acrescentado e clausulas de salvaguarda, ou da estruturacao das pautas aduaneiras, apenas para citar as mais comuns.

Portanto, nao pretendendo de modo nenhum subestimar a importancia crucial das infrastruturas fisicas, o facto e' que por melhores que estas sejam, nao ha' comercio internacional que resista a tais barreiras tecnicas.

E e' este o principio fundamental que rege a criacao das Areas de Comercio Livre (FTAs), como propugna o Protocolo de Comercio da SADC, com vista a facilitacao do comercio e a livre circulacao de pessoas e bens entre paises, pois elas permitem a eliminacao de grande parte, senao de todas, essas barreiras tecnicas.


[**] Colocando-se aqui a Africa do Sul numa league of her own com o seu Trade Law Centre for Southern Africa (tralac), sediado em Stellenbosch e dirigido pela minha amiga Trudi Hartzenberg, que se tem vindo a afirmar nos ultimos anos como um importante viveiro de quadros regionais nessa area, sendo no entanto ainda bastante circunscrito 'as politicas comerciais da Africa do Sul e, por extensao, da SACU.


[***] Lembro-me, a este proposito, do sentimento, diria que de "humilhacao", com que vi, num dos workshops dos Customs Advisory Working Groups (CAWGs) a que aqui me refiro, ha' 10 anos, em Johannesburg, o "meu pais" representado por um cidadao Britanico, que assim se apresentou ao grupo: "I'm (so and so) and you can address any questions about Angola to me"...

Mas, a "representar" Angola estava tambem um cidadao Angolano, antigo funcionario das alfandegas - que certamente sabia muito mais sobre o funcionamento destas no pais e sobre Angola em geral do que o Britanico, mas... nao sabia Ingles! Nem o Britanico sabia Portugues! Nao vi qualquer interaccao ou dialogo entre eles durante ou depois das sessoes de trabalho. De facto, como varias vezes o tive que fazer em situacoes identicas, por moto proprio e "solidariedade nacional" (e pessoas como, por exemplo, o economista Alves da Rocha - que tive o prazer de conhecer em Johannesburg num workshop regional para a consolidacao e primeira apresentacao oficial do corrente Plano Indicativo Estrategico Regional da SADC e a quem daqui envio um cordial abraco -, sao disso testemunhas), fui eu que acabei por servir de tradutora/interprete para o Angolano... o "eterno" (inultrapassavel?) problema da lingua, pois sim. Mas o facto e' que os organizadores do workshop poderiam ter providenciado servicos de traducao/interpretacao ao(s) representante(s) de Angola se tal lhes tivesse sido solicitado com a devida antecedencia. So' que... quem 'mandava' (ainda 'manda'?) nas alfandegas de Angola era uma firma Britanica!...
E, entretanto, todos os outros paises da regiao estavam devidamente representados exclusivamente por cidadaos nacionais seus...

Mas nao se tratou ali apenas de uma questao 'emotiva' de "orgulho nacional ferido"; tratou-se, sobretudo, de uma questao com profundas e perversas implicacoes estruturais: aquela era uma plataforma para a obtencao de informacao e conhecimentos tecnicos e de interaccao entre os profissionais da regiao para a adopcao e implementacao de instrumentos comuns com vista a facilitacao do comercio entre os seus paises. Mas quem obteve e "acumulou" tal experiencia no caso de Angola?
O cidadao Britanico, a sua firma e o seu pais - ou seja, um dos "bichos papoes" da OMC?!


[images by Yinka Shonibare: 'HMS Victory in a bottle' and two versions of 'The Wonderer']





ADENDA


Apenas algumas linhas adicionais para "transportar" para o contexto regional (Rest of SADC vs. South Africa) as consideracoes feitas acima em relacao ao contexto global (SADC vs. Rest of the World):

Tal como a OMC, se entregue aos seus own devices, se pode comportar como um "bicho papao" em relacao aos PMD, no contexto regional esse "bicho papao" pode bem ser a Africa do Sul (AS) em relacao aos outros paises membros da SADC... se entregue aos seus own devices!

Vejamos: a AS e', indubitavelmente, o gigante continental (veja-se, por exemplo a sua posicao no Global Competitiveness Index aqui discutido em relacao aos outros paises da regiao e do continente - apenas seguida de perto pelas Mauricias; veja-se tambem a forma como cada vez mais a nivel global se vai aproximando do grupo dos BRIC - Brasil, Russia, India e China) e domina o comercio regional na Africa Austral.

Em resultado disso, como o demonstra amplamente a experiencia centenaria da SACU, a AS pode agir na regiao como a OMC age no mundo... but, again, apenas se entregue aos seus own devices!

A implicacao desse facto e' que ele torna o Protocolo de Comercio da SADC num instrumento crucial para a "subordinacao" das politicas comerciais e industriais tendencialmente hegemonicas da SA as disposicoes desse protocolo, que contempla o principio da geometria assimetrica no estabelecimento de uma FTA e, mais tarde de uma UA na regiao, e atraves do qual os outros paises membros da SADC podem exercer de forma concertada as accoes necessarias a salvaguarda dos seus interesses economicos nacionais, tal como o Global South o vem, slowly but surely, fazendo na OMC.

Monday, 5 September 2011

Just Poetry xlv



Sobras






















Sabes?

Daquela lágrima
que secámos
com a areia do deserto
e daquela ferida
que sarámos
com xá de kaxinde
já só sobra o sangue

daquela gargalhada
em que explodímos
no Pão de Açucar
já só sobra o esgar

daquele carnaval
que brincámos
no barracão da Vila Isabel
já só sobra o escárnio

daquela praia
em que mergulhámos
e daquele banho
em que nos abraçámos
já só sobra o vazio

daquele céu
em que nos passeámos
e daquele sol
em que nos aquecémos
já só sobra o ocaso

daquele chão
que pisámos
e daquela areia
em que rebolámos
já só sobra o vácuo

daquele pássaro
em que nos inspirámos
e daquele vento
em que voámos
já só sobra o temporal

daquela pele de pêssego
que acariciámos
e daquele mel
em que nos deliciámos
já só sobra o fel

daquele linho branco
em que nos imaculámos
e daquela festa
que nos dêmos
já só sobra a lama

daquele aquário
em que nadámos
e daquela chuva
que bebêmos
já só sobra a tempestade

daquele coro
que cantámos
e daquele you're the first
the last my everything

que nos dedicámos
já só sobra o eco

daquele piano
que teclámos
e daquela guitarra
que tocámos
já só sobra uma corda

daquela dança
em que vibrámos
e daquela música
em que nos perdémos
já só sobra o silêncio

daquele perfume
em que nos incensámos
e daquela rosa
em que nos cheirámos
já só sobra o espinho

daquele espelho
em que nos escrevémos
daquele vidro
em que nos desenhámos
e daquela colagem
em que nos replicámos
já só sobra o corte

daquela mansão
em que brilhámos
daquele salão
em que brindámos
e daquele quintal
em que lutámos
já só sobra a cela

daquela cama
que trocámos
e daquela mesa
que partilhámos
já só sobra o salalé

daquele castelo
de amizade
que construímos
já só sobram os escombros

daquela varanda
em que me cortavas o cabelo
e me fazias kafuné
já só sobra a grade

daquela boleia
que apanhámos para
os Trapalhões
para irmos comer
funge com todos
já só sobra o adeus

daquele feijão
de óleo de palma
que raspámos
no fundo
daquela panela de barro
já só sobra o queimado

daqueles pratos sofisticados
que me cozinhavas
e me servias
com muito gusto e requinte
já só sobra a falta de apetite

daquela saciedade
que conseguímos
naquele tempo de escassez
já só sobra a náusea

daquela planta
que disputámos
daquele poema
que fecundámos
e daquela vida
que fizémos
já só sobra o sopro

daquela esteira
que tecémos calmamente
ao luar
e daquela nossa fala mansa
ao acordar
já só sobra o grito

daquelas estrelas que espreitámos
pelo telhado de zinco
já só sobra o escuro

daquele cheiro a terra molhada
com que nos inebriámos
sob o imbondeiro
já só sobra o nada

daquele sono
sossegado
em que dormíamos
agarrados um ao outro
já só sobra o sobressalto

daquele sonho
de caminho do mato
e banho de rio
ao acordar na Chibia
já só sobra o pesadelo

daquela nossa infinita
cortesia e generosidade
para com todo o mundo
já só sobra o ciúme
a raiva a inveja e o ódio

daquela joie de vivre
com que excomungávamos maldições
expulsávamos maus espíritos
e vencíamos depressões
já só sobram assombrações

daquele livrinho
que te dediquei
em troca dos poemas
do teu amigo da outra
banda do Mussulo
e que orgulhosamente mantinhas
em permanente exibição
na montra da Humbihumbi
já só sobra o vil opróbrio.


(a nossa terra está queimada, sabes?)


















E sabes?

De ti já só sobra
a campa violada
a ossada espezinhada
o espírito profanado
a alma perdida
a obra desfeita

de mim já só sobra
a cicatriz reaberta
a memória conspurcada
o corpo desalmado
o cérebro kamartelado
a mente exaurida

do nosso afecto
que nunca foi pretenso
e do nosso gosto
que nunca foi afectado
já só sobram o neófito desafecto
e o amargo desgosto.







(sempre fomos perseguidos como animais
e ensombrados por pássaros enfeitiçados
de todas as latitudes, sabes?
a ti comeram-te a carne
e a mim roubaram-me a alma, sabes?
tu estás entregue á bicharada
e eu ao inferno na terra, sabes?
nós nunca soubémos muito bem
o que sempre nos esperava, sabes?)








É que

como sabes

os esbirros da Nação Krioula
os patrulheiros do Império do Mal
os trungungueiros do Reino da Mentira
e os vultos predadores
dos círculos restritos
kintais exclusivos
e mesas redondas e bikudas
da demente e decadente
enfeudada e alienada
decrépita e rekolonizada
korrupta e korruptora
racista e hipócrita
violenta e autofágica
pseudo-burguesa e neo-colonial fascista
sociedade a que nunca pertencémos
munidos dos p(h)oderes
que sempre desprezámos
em nome da ideologia deturpada
que sempre resistímos
e dos valores e princípios
invertidos, pervertidos
e subvertidos
comem tudo
e em seus lúgubres orgasmos
e sinistras invectivas
de ódio neo-nazi
de monstros raciais
e taras tribais
já nem sobras deixam
nem nada


(rapazes incontinentes e raparigas descontentes,
novatas atrevidas e bruacas desconsoladas,
miúdos imberbes e graúdos retardados,
putos execráveis e sexagenários detestáveis
tentam a golpes de (Aka)martelo
tornar-me seu objecto sexual
e chamam-me "pobre e insignificante criatura
rejeitada por ti
e por isso verde e doente,
vômito, barata, parasita,
karrapata, chileshe,
poluta, promíscua, prostituta,
e insuportável dama do sapato vermelho"
- tu que tanto lutaste
pública e privadamente
por mim! - apenas por nunca
termos sido casados de papel passado
e aliança no dedo e por eu ter rejeitado
e denunciado os seus sórdidos
ataques pornográficos
por email e por blog
e por nunca ter p(h)odido,
ou sequer falado, com eles
e muito menos participado
das suas orgias e bacanais
quando tu me chamavas
"a mulher mais púdica
que alguma vez conheceste", sabes?
e, feios, porcos e maus,
feitos ton-tons makutes
sem lei, nem rei, nem roque
e muito menos escrúpulos
mal educados e pior formados
andam todos de arrogâncias ignorantes
egos super-deficitários
soberbas hiper-inflacionadas
e panças a rebentar pelas costuras
a agredir-me de todas as formas
e meios possíveis e imaginários
tentando destruir a minha reputação
pessoal, social, acadêmica
e profissional, sabes?
e os medíocres frustrados e falhados
espirrando boçalismo pelas ventas
baptizados atrasados mentais
por suas desbragadas madrinhas
e se auto-proclamando "orgulhosamente nós"
a dizer que tenho diplomas falsos
mestrados em imitação
e me infiltro em reuniões de peritos
e até conseguiram tirar-me do mais importante
emprego que tive até agora
e pelo qual lutei por tantos anos, sabes?
e tudo porque os depravados porcos nojentos acham que eu
"não tinha nada que me armar em virgem estuprada
que foi violada e ficou grávida", sabes?!)










(they are pure evil, you know?)


E sabes que mais?

Apesar das nossas diferenças
reais ou imaginárias
e das repetidas ameaças de morte
e linchamento público
a que me submetem
os ditos intelectuais de esquerda
semióticos oculados incapazes de enxergar
para além da côr da pele, da etnia
e do nome de família

(e alguns dizem-se teus amigos, sabes?
eles nunca conheceram o ser humano que existia em ti,
para além dos copos, das comezainas, das farras,
das drogas e das mulheres,
com que, de resto, sempre fizeram tudo
para nos separar, sabes?)


ainda não cometi
o suicídio em grande estilo
instigado pelos ogros surdos-mudos
doutorados eskizofrénikos da kultura akulturada
e os misóginos tarados kabungados
predadores dos paskins de opinião
e jornalismo de tesão
mais seus pervertidos minions de okasião
ordinárias negras bezugas de dekoração
vulgares brancas katchokwés de imitação
psikólogas de confusão
e wazanukas de bajulação
cheios de komplexos de (re)kolonização
em arrogantes e ignorantes
imbecis e irracionais
sórdidas e criminosas
kampanhas de kalúnia e difamação

(cobardemente escondidos
por detrás das suas cortinas
de fumo e de ferro
os psikopatas cães tinhosos
dizem que te coisifikei
e que te assassinei a sangue frio
e que de ti receberam em testamento
a secreta missão de te vingarem, sabes?
é que, como sabes, os salafrários nunca tiveram
noção do ridículo, sabes?
e bem sei que mal, se é que alguma vez,
os conheceste, e eu muito menos,
mas então não é que agora os vermes
até já se permitem "criticar" o facto
de eu ter levado o nosso filho
a estudar em Portugal
e mais se arrogam o "direito" de perguntar
"que educação 'andamos' a dar
aos 'nossos' filhos",
apenas porque o 'teu' Reboredo,
a quem os porcos até já se "dignaram"
chamar "coiso de filho bastardo",
tal como tu, gosta de futebol, sabes?
e os pulhas até omitiram o nome dele
quando tu te foste embora
apesar de ele ter sido o teu único filho
a ir-te acompanhar
à tua última morada, sabes?
e jogaram-me a mim e a ele
na sarjeta da indigência
dos escravos sem alforria, sabes?
é que os sacanas nunca suspeitariam
que tu sempre me 'delegaste'
a responsabilidade pela educação
do teu "único filho de homem"
como orgulhosamente dizias
- sabes que ele se formou
em Politics and International Relations,
e está a fazer o Masters e a trabalhar
no maior banco do UK? -
porque achavas que era melhor que assim fosse
porque dizias que eu era
muito mais forte e responsável do que tu
perante as adversidades
que tínhamos que enfrentar, sabes?
mas para os tarados, todo o sofrimento
por que passei, todas as penas que penei
todas as privações discriminações
e humilhações que tive que enfrentar
todos os desafios que tive que vencer
sob o estigma de mãe solteira
nao passam de "estórias da carochinha"
e fonte de inspiração para
os seus patológicos sadomasoquismos, sabes?)


em nome de suas ditas
diferenças fenotípicas
da eterna questão da melanina
e do hediondo
adiantamento da raça
da supérflua feminilidade
da forjada masculinidade
da pérfida bestialidade
da sórdida promiscuidade
da pornográfica imoralidade
da violentada sexualidade
da bestificada personalidade
da espezinhada dignidade
e da brutalizada humanidade
urdidas brandidas
esgrimidas e perpetuadas
pelas sobras do colono









(eles nunca souberam
o significado de Amor
e menos ainda o de Poesia, sabes?
querem fazer-me 'vítima' dos seus "amores e afectos"
proclamando "rei morto, rei posto"
quando nunca seriam capazes da sensibilidade
com que me olhavas, tocavas e resguardavas, sabes?
quando nunca poderiam, ou saberiam, escrever como tu
"só sei que já não sei viver sem ti,
só sei que te amo muito, a mil"...
por entre beijos mil, sabes?
a vida deles é comandada
pelo sexo, pelo poder e pelo dinheiro
quando a nossa o era
pelo amor, pela arte e pela amizade, sabes?
resulta que os nossos sonhos andam em parafuso
para uso, desuso e abuso de todo o mundo, sabes?)






(e têm todos por isso
sido promovidos, homenageados
agraciados, professorados
premiados, doutorados
deputados, comendados
patenteados, encomiados
medalhados e engalanados, sabes?
e estão todos muito ricos
graças a Deus
de ouros negros e diamantes de sangue
Porsches e Lamborghinis
Yates e Aviões
contas na Suiça e Cayman
casas de praia e de campo
e muito viajados a Américas e Chinas
e muito proprietários em Áfricas do Suis e Europas
e muito folgados de vidas em Portugais e Suécias
e muio espraiados de retiros em Brasis e Namibias
e muito lidos de Playboy e Wall Street Journal
e muito eruditos de Jazz Festivals e Opera Houses
e muito griffados de Cardins e Vuittons
e muito bem aviados de Champagne e Caviar
e muito paskineiros de Angolenses e Novos Jornais
e muito possidentes de grandes cargos e empregos
e muito diplomatas de representações e embaixadas
e muito patrões de motoristas, empregados e kaxikas
e muito empertigados de kostas largas e seguranças privados
e muito abarrotados de sacos azuis e envelopes castanhos
e muito arrivistas, exibicionistas e mediáticos
da rádio tv disko facebook e da cassette pirata
e dizem que debiquei nos pratos deles
á conta do Diabo, sabes?
e publicam muitos livros
e dizem-se campeões
da paz da liberdade da democracia
e dos direitos humanos
e que tudo o que sei
aprendi com eles, sabes?
e dizem-se todos muito amigos e primos uns dos outros
e andam todos em matilhas ladrantes se auto-proclamando
"nós os que ficámos" e os únicos
com "Angola no coração", sabes?
e andam todos muito patrioteiros revanchistas
chauvinistas e xenófobos
e até já dizem
que nem Angolana sou, sabes?
e que nunca fui jornalista,
nem poeta, nem economista,
nem sequer mulher
e menos ainda pessoa, sabes?
e que o que quer que seja que sou
devo-o a eles, sabes?
e que até o meu livrinho
que tu me viste escrever ao longo de anos
e que te dediquei com a urgência
de te querer resgatar das suas garras
foi da autoria deles em meio ano, sabes?)


Kanalhas!
ainda estou para lhes partir a kara
com lágrimas nos olhos
quando sei
que já lhes terias partido os kornos
com espuma na boca!

e os inegáveis patifes todos em bando se masturbando
ao lado de suas fêmeas despeitadas e enraivecidas
entre receitas de culinária se orgasmando
e invocando Jesus Maria e José
até usam e abusam do fantasma do incrível Svengali
para nos ensombrarem para todo o sempre,
enquanto dizem que também fui eu que o matei, sabes?

e andam todos muito casados com várias mulheres
e outros tantos homens de aliança no dedo e papel passado
e bwé de amantes, catorzinhas e pachecos de lado
a falar em resgate dos valores morais, sabes?

(e vê-me lá tu só bem as ameaças que me mandam as lésbicas bissexuais supremacistas brancas neo-nazis receptadoras do "mais alto galardão do estado angolano", feitas monstros pós-coloniais, mães do vulturismo kultural e da etnologia de kurral em África e divas da pornografia nacional no paroxismo delirante das suas macabras paixões demoníacas não discutíveis com a total cumplicidade dos seus mui machões negros autóctones autênticos e genuínos:











"...e que a raiva do meu corpo, te deite brutalmente sobre a areia de uma praia qualquer, onde te arrancarei a roupa e os complexos, onde te amputarei o génio e a identidade, onde te extirparei a serenidade e o sorriso, para te possuir, selvagem, extinguindo-me na vontade de te engolir para sempre.
Na intensidade de um orgasmo lúgubre, conseguirei então o que desejo, afinal, e que há de mais belo em ti:
a tua alma pura e frágil!.."...











e até me mandaram feitiço pelo correio, sabes?
e até me colocaram sob escuta e vigia, sabes?
e querem injectar-me as mesmas drogas com que te mataram, sabes?

... e a justiça continua a desexistir, sabes?),



Mas sabes?

da integridade
que me apedrejavam
no escuro da madrugada
das raízes
que me eskwartejavam
á katanada
no cacimbo da alvorada
da genuinidade
que me negavam
à luz do dia
da identidade
que me roubavam
à sombra do crepúsculo
da krioulidade
que me impingiam
à calada da noite

da dedicação
que me desdenhavam
a cada segundo
dos valores e princípios
que me tentavam inverter
a cada minuto
da ética e deontologia
que me tentavam subverter
a cada hora
da moral e religião
que me tentavam perverter
a cada dia
da sensibilidade
que me tentavam anestesiar
a cada momento
da personalidade
que me tentavam coarctar
a cada tempo

da precaridade do amor
e da perpetuidade do mal

sobra-me ainda
a sobrevida
a que sucumbiste.


(why did you have to die on me?!)










Beijos Mil.



© P. (2011)

[Middle images by Yinka Shonibare; second by Picasso]



For many are the pleasant forms which exist in
          numerous sins,
     and incontinencies,
     and disgraceful passions
     and fleeting pleasures,

          which (men) embrace until they become
          sober
          and go up to their resting place

And they will find me there,
     and they will live
     and they will not die again.
 [Toni Morrison, introduction to Paradise]







[Je Crois Entendre Encore
from Bizet's The Pearlfishers]













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Sobras





















Sabes?

Daquela lágrima
que secámos
com a areia do deserto
e daquela ferida
que sarámos
com xá de kaxinde
já só sobra o sangue

daquela gargalhada
em que explodímos
no Pão de Açucar
já só sobra o esgar

daquele carnaval
que brincámos
no barracão da Vila Isabel
já só sobra o escárnio

daquela praia
em que mergulhámos
e daquele banho
em que nos abraçámos
já só sobra o vazio

daquele céu
em que nos passeámos
e daquele sol
em que nos aquecémos
já só sobra o ocaso

daquele chão
que pisámos
e daquela areia
em que rebolámos
já só sobra o vácuo

daquele pássaro
em que nos inspirámos
e daquele vento
em que voámos
já só sobra o temporal

daquela pele de pêssego
que acariciámos
e daquele mel
em que nos deliciámos
já só sobra o fel

daquele linho branco
em que nos imaculámos
e daquela festa
que nos dêmos
já só sobra a lama

daquele aquário
em que nadámos
e daquela chuva
que bebêmos
já só sobra a tempestade

daquele coro
que cantámos
e daquele you're the first
the last my everything

que nos dedicámos
já só sobra o eco

daquele piano
que teclámos
e daquela guitarra
que tocámos
já só sobra uma corda

daquela dança
em que vibrámos
e daquela música
em que nos perdémos
já só sobra o silêncio

daquele perfume
em que nos incensámos
e daquela rosa
em que nos cheirámos
já só sobra o espinho

daquele espelho
em que nos escrevémos
daquele vidro
em que nos desenhámos
e daquela colagem
em que nos replicámos
já só sobra o corte

daquela mansão
em que brilhámos
daquele salão
em que brindámos
e daquele quintal
em que lutámos
já só sobra a cela

daquela cama
que trocámos
e daquela mesa
que partilhámos
já só sobra o salalé

daquele castelo
de amizade
que construímos
já só sobram os escombros

daquela varanda
em que me cortavas o cabelo
e me fazias kafuné
já só sobra a grade

daquela boleia
que apanhámos para
os Trapalhões
para irmos comer
funge com todos
já só sobra o adeus

daquele feijão
de óleo de palma
que raspámos
no fundo
daquela panela de barro
já só sobra o queimado

daqueles pratos sofisticados
que me cozinhavas
e me servias
com muito gusto e requinte
já só sobra a falta de apetite

daquela saciedade
que conseguímos
naquele tempo de escassez
já só sobra a náusea

daquela planta
que disputámos
daquele poema
que fecundámos
e daquela vida
que fizémos
já só sobra o sopro

daquela esteira
que tecémos calmamente
ao luar
e daquela nossa fala mansa
ao acordar
já só sobra o grito

daquelas estrelas que espreitámos
pelo telhado de zinco
já só sobra o escuro

daquele cheiro a terra molhada
com que nos inebriámos
sob o imbondeiro
já só sobra o nada

daquele sono
sossegado
em que dormíamos
agarrados um ao outro
já só sobra o sobressalto

daquele sonho
de caminho do mato
e banho de rio
ao acordar na Chibia
já só sobra o pesadelo

daquela nossa infinita
cortesia e generosidade
para com todo o mundo
já só sobra o ciúme
a raiva a inveja e o ódio

daquela joie de vivre
com que excomungávamos maldições
expulsávamos maus espíritos
e vencíamos depressões
já só sobram assombrações

daquele livrinho
que te dediquei
em troca dos poemas
do teu amigo da outra
banda do Mussulo
e que orgulhosamente mantinhas
em permanente exibição
na montra da Humbihumbi
já só sobra o vil opróbrio.


(a nossa terra está queimada, sabes?)


















E sabes?

De ti já só sobra
a campa violada
a ossada espezinhada
o espírito profanado
a alma perdida
a obra desfeita

de mim já só sobra
a cicatriz reaberta
a memória conspurcada
o corpo desalmado
o cérebro kamartelado
a mente exaurida

do nosso afecto
que nunca foi pretenso
e do nosso gosto
que nunca foi afectado
já só sobram o neófito desafecto
e o amargo desgosto.







(sempre fomos perseguidos como animais
e ensombrados por pássaros enfeitiçados
de todas as latitudes, sabes?
a ti comeram-te a carne
e a mim roubaram-me a alma, sabes?
tu estás entregue á bicharada
e eu ao inferno na terra, sabes?
nós nunca soubémos muito bem
o que sempre nos esperava, sabes?)








É que

como sabes

os esbirros da Nação Krioula
os patrulheiros do Império do Mal
os trungungueiros do Reino da Mentira
e os vultos predadores
dos círculos restritos
kintais exclusivos
e mesas redondas e bikudas
da demente e decadente
enfeudada e alienada
decrépita e rekolonizada
korrupta e korruptora
racista e hipócrita
violenta e autofágica
pseudo-burguesa e neo-colonial fascista
sociedade a que nunca pertencémos
munidos dos p(h)oderes
que sempre desprezámos
em nome da ideologia deturpada
que sempre resistímos
e dos valores e princípios
invertidos, pervertidos
e subvertidos
comem tudo
e em seus lúgubres orgasmos
e sinistras invectivas
de ódio neo-nazi
de monstros raciais
e taras tribais
já nem sobras deixam
nem nada


(rapazes incontinentes e raparigas descontentes,
novatas atrevidas e bruacas desconsoladas,
miúdos imberbes e graúdos retardados,
putos execráveis e sexagenários detestáveis
tentam a golpes de (Aka)martelo
tornar-me seu objecto sexual
e chamam-me "pobre e insignificante criatura
rejeitada por ti
e por isso verde e doente,
vômito, barata, parasita,
karrapata, chileshe,
poluta, promíscua, prostituta,
e insuportável dama do sapato vermelho"
- tu que tanto lutaste
pública e privadamente
por mim! - apenas por nunca
termos sido casados de papel passado
e aliança no dedo e por eu ter rejeitado
e denunciado os seus sórdidos
ataques pornográficos
por email e por blog
e por nunca ter p(h)odido,
ou sequer falado, com eles
e muito menos participado
das suas orgias e bacanais
quando tu me chamavas
"a mulher mais púdica
que alguma vez conheceste", sabes?
e, feios, porcos e maus,
feitos ton-tons makutes
sem lei, nem rei, nem roque
e muito menos escrúpulos
mal educados e pior formados
andam todos de arrogâncias ignorantes
egos super-deficitários
soberbas hiper-inflacionadas
e panças a rebentar pelas costuras
a agredir-me de todas as formas
e meios possíveis e imaginários
tentando destruir a minha reputação
pessoal, social, acadêmica
e profissional, sabes?
e os medíocres frustrados e falhados
espirrando boçalismo pelas ventas
baptizados atrasados mentais
por suas desbragadas madrinhas
e se auto-proclamando "orgulhosamente nós"
a dizer que tenho diplomas falsos
mestrados em imitação
e me infiltro em reuniões de peritos
e até conseguiram tirar-me do mais importante
emprego que tive até agora
e pelo qual lutei por tantos anos, sabes?
e tudo porque os depravados porcos nojentos acham que eu
"não tinha nada que me armar em virgem estuprada
que foi violada e ficou grávida", sabes?!)










(they are pure evil, you know?)


E sabes que mais?

Apesar das nossas diferenças
reais ou imaginárias
e das repetidas ameaças de morte
e linchamento público
a que me submetem
os ditos intelectuais de esquerda
semióticos oculados incapazes de enxergar
para além da côr da pele, da etnia
e do nome de família

(e alguns dizem-se teus amigos, sabes?
eles nunca conheceram o ser humano que existia em ti,
para além dos copos, das comezainas, das farras,
das drogas e das mulheres,
com que, de resto, sempre fizeram tudo
para nos separar, sabes?)


ainda não cometi
o suicídio em grande estilo
instigado pelos ogros surdos-mudos
doutorados eskizofrénikos da kultura akulturada
e os misóginos tarados kabungados
predadores dos paskins de opinião
e jornalismo de tesão
mais seus pervertidos minions de okasião
ordinárias negras bezugas de dekoração
vulgares brancas katchokwés de imitação
psikólogas de confusão
e wazanukas de bajulação
cheios de komplexos de (re)kolonização
em arrogantes e ignorantes
imbecis e irracionais
sórdidas e criminosas
kampanhas de kalúnia e difamação

(cobardemente escondidos
por detrás das suas cortinas
de fumo e de ferro
os psikopatas cães tinhosos
dizem que te coisifikei
e que te assassinei a sangue frio
e que de ti receberam em testamento
a secreta missão de te vingarem, sabes?
é que, como sabes, os salafrários nunca tiveram
noção do ridículo, sabes?
e bem sei que mal, se é que alguma vez,
os conheceste, e eu muito menos,
mas então não é que agora os vermes
até já se permitem "criticar" o facto
de eu ter levado o nosso filho
a estudar em Portugal
e mais se arrogam o "direito" de perguntar
"que educação 'andamos' a dar
aos 'nossos' filhos",
apenas porque o 'teu' Reboredo,
a quem os porcos até já se "dignaram"
chamar "coiso de filho bastardo",
tal como tu, gosta de futebol, sabes?
e os pulhas até omitiram o nome dele
quando tu te foste embora
apesar de ele ter sido o teu único filho
a ir-te acompanhar
à tua última morada, sabes?
e jogaram-me a mim e a ele
na sarjeta da indigência
dos escravos sem alforria, sabes?
é que os sacanas nunca suspeitariam
que tu sempre me 'delegaste'
a responsabilidade pela educação
do teu "único filho de homem"
como orgulhosamente dizias
- sabes que ele se formou
em Politics and International Relations,
e está a fazer o Masters e a trabalhar
no maior banco do UK? -
porque achavas que era melhor que assim fosse
porque dizias que eu era
muito mais forte e responsável do que tu
perante as adversidades
que tínhamos que enfrentar, sabes?
mas para os tarados, todo o sofrimento
por que passei, todas as penas que penei
todas as privações discriminações
e humilhações que tive que enfrentar
todos os desafios que tive que vencer
sob o estigma de mãe solteira
nao passam de "estórias da carochinha"
e fonte de inspiração para
os seus patológicos sadomasoquismos, sabes?)


em nome de suas ditas
diferenças fenotípicas
da eterna questão da melanina
e do hediondo
adiantamento da raça
da supérflua feminilidade
da forjada masculinidade
da pérfida bestialidade
da sórdida promiscuidade
da pornográfica imoralidade
da violentada sexualidade
da bestificada personalidade
da espezinhada dignidade
e da brutalizada humanidade
urdidas brandidas
esgrimidas e perpetuadas
pelas sobras do colono









(eles nunca souberam
o significado de Amor
e menos ainda o de Poesia, sabes?
querem fazer-me 'vítima' dos seus "amores e afectos"
proclamando "rei morto, rei posto"
quando nunca seriam capazes da sensibilidade
com que me olhavas, tocavas e resguardavas, sabes?
quando nunca poderiam, ou saberiam, escrever como tu
"só sei que já não sei viver sem ti,
só sei que te amo muito, a mil"...
por entre beijos mil, sabes?
a vida deles é comandada
pelo sexo, pelo poder e pelo dinheiro
quando a nossa o era
pelo amor, pela arte e pela amizade, sabes?
resulta que os nossos sonhos andam em parafuso
para uso, desuso e abuso de todo o mundo, sabes?)






(e têm todos por isso
sido promovidos, homenageados
agraciados, professorados
premiados, doutorados
deputados, comendados
patenteados, encomiados
medalhados e engalanados, sabes?
e estão todos muito ricos
graças a Deus
de ouros negros e diamantes de sangue
Porsches e Lamborghinis
Yates e Aviões
contas na Suiça e Cayman
casas de praia e de campo
e muito viajados a Américas e Chinas
e muito proprietários em Áfricas do Suis e Europas
e muito folgados de vidas em Portugais e Suécias
e muio espraiados de retiros em Brasis e Namibias
e muito lidos de Playboy e Wall Street Journal
e muito eruditos de Jazz Festivals e Opera Houses
e muito griffados de Cardins e Vuittons
e muito bem aviados de Champagne e Caviar
e muito paskineiros de Angolenses e Novos Jornais
e muito possidentes de grandes cargos e empregos
e muito diplomatas de representações e embaixadas
e muito patrões de motoristas, empregados e kaxikas
e muito empertigados de kostas largas e seguranças privados
e muito abarrotados de sacos azuis e envelopes castanhos
e muito arrivistas, exibicionistas e mediáticos
da rádio tv disko facebook e da cassette pirata
e dizem que debiquei nos pratos deles
á conta do Diabo, sabes?
e publicam muitos livros
e dizem-se campeões
da paz da liberdade da democracia
e dos direitos humanos
e que tudo o que sei
aprendi com eles, sabes?
e dizem-se todos muito amigos e primos uns dos outros
e andam todos em matilhas ladrantes se auto-proclamando
"nós os que ficámos" e os únicos
com "Angola no coração", sabes?
e andam todos muito patrioteiros revanchistas
chauvinistas e xenófobos
e até já dizem
que nem Angolana sou, sabes?
e que nunca fui jornalista,
nem poeta, nem economista,
nem sequer mulher
e menos ainda pessoa, sabes?
e que o que quer que seja que sou
devo-o a eles, sabes?
e que até o meu livrinho
que tu me viste escrever ao longo de anos
e que te dediquei com a urgência
de te querer resgatar das suas garras
foi da autoria deles em meio ano, sabes?)


Kanalhas!
ainda estou para lhes partir a kara
com lágrimas nos olhos
quando sei
que já lhes terias partido os kornos
com espuma na boca!

e os inegáveis patifes todos em bando se masturbando
ao lado de suas fêmeas despeitadas e enraivecidas
entre receitas de culinária se orgasmando
e invocando Jesus Maria e José
até usam e abusam do fantasma do incrível Svengali
para nos ensombrarem para todo o sempre,
enquanto dizem que também fui eu que o matei, sabes?

e andam todos muito casados com várias mulheres
e outros tantos homens de aliança no dedo e papel passado
e bwé de amantes, catorzinhas e pachecos de lado
a falar em resgate dos valores morais, sabes?

(e vê-me lá tu só bem as ameaças que me mandam as lésbicas bissexuais supremacistas brancas neo-nazis receptadoras do "mais alto galardão do estado angolano", feitas monstros pós-coloniais, mães do vulturismo kultural e da etnologia de kurral em África e divas da pornografia nacional no paroxismo delirante das suas macabras paixões demoníacas não discutíveis com a total cumplicidade dos seus mui machões negros autóctones autênticos e genuínos:











"...e que a raiva do meu corpo, te deite brutalmente sobre a areia de uma praia qualquer, onde te arrancarei a roupa e os complexos, onde te amputarei o génio e a identidade, onde te extirparei a serenidade e o sorriso, para te possuir, selvagem, extinguindo-me na vontade de te engolir para sempre.
Na intensidade de um orgasmo lúgubre, conseguirei então o que desejo, afinal, e que há de mais belo em ti:
a tua alma pura e frágil!.."...











e até me mandaram feitiço pelo correio, sabes?
e até me colocaram sob escuta e vigia, sabes?
e querem injectar-me as mesmas drogas com que te mataram, sabes?

... e a justiça continua a desexistir, sabes?),



Mas sabes?

da integridade
que me apedrejavam
no escuro da madrugada
das raízes
que me eskwartejavam
á katanada
no cacimbo da alvorada
da genuinidade
que me negavam
à luz do dia
da identidade
que me roubavam
à sombra do crepúsculo
da krioulidade
que me impingiam
à calada da noite

da dedicação
que me desdenhavam
a cada segundo
dos valores e princípios
que me tentavam inverter
a cada minuto
da ética e deontologia
que me tentavam subverter
a cada hora
da moral e religião
que me tentavam perverter
a cada dia
da sensibilidade
que me tentavam anestesiar
a cada momento
da personalidade
que me tentavam coarctar
a cada tempo

da precaridade do amor
e da perpetuidade do mal

sobra-me ainda
a sobrevida
a que sucumbiste.


(why did you have to die on me?!)










Beijos Mil.



© P. (2011)

[Middle images by Yinka Shonibare; second by Picasso]



For many are the pleasant forms which exist in
          numerous sins,
     and incontinencies,
     and disgraceful passions
     and fleeting pleasures,

          which (men) embrace until they become
          sober
          and go up to their resting place

And they will find me there,
     and they will live
     and they will not die again.
 [Toni Morrison, introduction to Paradise]







[Je Crois Entendre Encore
from Bizet's The Pearlfishers]













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Friday, 19 August 2011

Revisitando a SADC (Parte II)




[Yinka Shonibare - La Meduse]


[Continuacao daqui]


Mas, porque volto entao a este tema quando ele se tem demonstrado de tao dificil abordagem?

Fundamentalmente porque, apesar de formalmente afastada profissionalmente dessa area, continuo a sentir algo como um certo “sentido de dever” de sobre ela emitir a minha opiniao sempre que tal se me afigure relevante.

Nao me proponho, no entanto, debrucar-me sobre as questoes de fundo que a problematica do engajamento de Angola no comercio intra e inter-regional suscitam – tal requereria uma abordagem eminentemente tecnica que, manifestamente, nao cabe no espirito informal deste blog (por vezes permito-me quebrar esse espirito, como aqui, ou aqui, mas apenas quando se trate de artigos ja’ escritos num contexto academico e/ou profissional). Limitar-me-ei, portanto, a alinhavar aqui algumas notas que gostaria de sugerir para a reflexao de quem, porventura, possa nelas estar interessado:

Geografia e Historia

- ‘As afirmacoes do Prof. Mourao ocorre-me apenas reafirmar algo que ja’ aqui, entre outros lugares referi: a mais antiga Uniao Aduaneira (UA) do mundo, a SACU (Southern Africa Customs Union, integrada por Botswana, Lesotho, Namibia, South Africa, e Swazilandia), foi criada na Africa Austral, em 1910 - tendo, portanto, celebrado o seu primeiro centenario no ano passado. Avaliar, criticar e ate’ mesmo condenar (!) a sua estrutura, economia politica e modus operandi desde a sua criacao ate’ aos dias de hoje e’ um exercicio a que tambem ja’ me dediquei extensivamente em outras ocasioes e que aqui me escusarei de repetir.

O que aqui importara’, sobretudo, notar e’ que nao so’ a criacao de uma UA na Africa Austral e’ possivel e tem precedentes historicos originais (dos quais a regiao pode colher importantes licoes, tanto no sentido positivo como no negativo), como tambem a criacao de uma UA mais ampla no quadro do Protocolo de Comercio da SADC esta’ definida nesse mesmo Protocolo, no Tratado da organizacao, na sua Agenda Comum e, entre outros dos seus instrumentos de politica, no seu Plano Indicativo Estrategico Regional, nao como “um objectivo imediato”, mas como uma meta a atingir-se gradualmente no quadro de uma estrategia de integracao regional com base no principio da "geometria assimetrica" (cuja aplicacao pratica no ambito das metas de convergencia macroeconomica da regiao podera' ser encontrada aqui) que contempla os diferentes estagios de desenvolvimento dos paises membros.

Apenas acrescentaria algo que nao pode deixar de ser referido neste contexto e que tambem ja’ referi noutras ocasioes: o comercio internacional de Angola (‘a parte a exportacao de petroleo e diamantes) e’ dominado por tres paises: Portugal, Brasil e China. Nao pretendendo aqui acusar o Prof. Mourao de estar a “tentar puxar a brasa para a sua sardinha (Brasil)”, pergunto-me se sera’ “politica e diplomaticamente sensivel” (ainda que, porventura, “culturalmente defensavel” - embora este argumento cada vez mais se venha desvanescendo perante a contemporanea "invasao chinesa"...) pretender-se escamotear o facto de os fluxos comerciais de Angola estarem historica e estruturalmente “voltados de frente para o Atlantico” (e, mais recentemente, para a Asia) e “de costas” para o hinterland Africano – facto que, admitidamente, estara’ na base de uma certa relutancia (generalisada?) em relacao a ideia de um maior envolvimento do pais nos esforcos de intensificacao do comercio intra-regional?

E, nao sera’ esse, tambem, um problema historico e estrutural com que virtualmente todas as economias africanas estao confrontadas, em resultado da heranca de relacoes de dependencia criadas pela colonizacao e que a OUA/UA, atraves de varias iniciativas regionais e continentais (das quais se destaca mais recentemente a NEPAD - Nova Parceria para o Desenvolvimento de Africa) ao longo das decadas desde as independencias, cujo jubileu se celebrou no ano passado, tem tentado reverter a favor do desenvolvimento endogeno, sustentado e sustentavel do continente?

Comercio e Desenvolvimento

- Uma outra nota que se me afigura premente, apesar de aparentemente obvia, e’ que se vem notando alguma dificuldade por parte dos sectores de opiniao a que me referia na primeira parte deste artigo em conciliar o(s) conceito(s) de ‘comercio’ e ‘desenvolvimento’. Foi, alias, essa dificuldade que esteve na base da controversia que se instalou entre mim e um dos membros do painel de que fiz parte neste evento...

No entanto, o facto incontornavel e’ que o comercio (internacional) nao e’ a antitese do desenvolvimento (economico). O objectivo da SADC, tal como o de organizacoes internacionais como a Conferencia das Nacoes Unidas para o Comercio e o Desenvolvimento (CNUCED/ UNCTAD), e’ precisamente colocar o comercio como alavanca ao servico do desenvolvimento economico nacional, regional e internacional - ou seja, o objectivo e' promover o comercio para o desenvolvimento.

Como atingir-se tal objectivo e’ a grande questao com que essas organizacoes, em associacao com o mundo academico e profissional especializado, se veem debatendo na teoria e na pratica, pelo menos desde as teorias das vantagens absolutas e comparativas de Smith e Ricardo, respectivamente.

[Continua]




[Yinka Shonibare - La Meduse]


[Continuacao daqui]


Mas, porque volto entao a este tema quando ele se tem demonstrado de tao dificil abordagem?

Fundamentalmente porque, apesar de formalmente afastada profissionalmente dessa area, continuo a sentir algo como um certo “sentido de dever” de sobre ela emitir a minha opiniao sempre que tal se me afigure relevante.

Nao me proponho, no entanto, debrucar-me sobre as questoes de fundo que a problematica do engajamento de Angola no comercio intra e inter-regional suscitam – tal requereria uma abordagem eminentemente tecnica que, manifestamente, nao cabe no espirito informal deste blog (por vezes permito-me quebrar esse espirito, como aqui, ou aqui, mas apenas quando se trate de artigos ja’ escritos num contexto academico e/ou profissional). Limitar-me-ei, portanto, a alinhavar aqui algumas notas que gostaria de sugerir para a reflexao de quem, porventura, possa nelas estar interessado:

Geografia e Historia

- ‘As afirmacoes do Prof. Mourao ocorre-me apenas reafirmar algo que ja’ aqui, entre outros lugares referi: a mais antiga Uniao Aduaneira (UA) do mundo, a SACU (Southern Africa Customs Union, integrada por Botswana, Lesotho, Namibia, South Africa, e Swazilandia), foi criada na Africa Austral, em 1910 - tendo, portanto, celebrado o seu primeiro centenario no ano passado. Avaliar, criticar e ate’ mesmo condenar (!) a sua estrutura, economia politica e modus operandi desde a sua criacao ate’ aos dias de hoje e’ um exercicio a que tambem ja’ me dediquei extensivamente em outras ocasioes e que aqui me escusarei de repetir.

O que aqui importara’, sobretudo, notar e’ que nao so’ a criacao de uma UA na Africa Austral e’ possivel e tem precedentes historicos originais (dos quais a regiao pode colher importantes licoes, tanto no sentido positivo como no negativo), como tambem a criacao de uma UA mais ampla no quadro do Protocolo de Comercio da SADC esta’ definida nesse mesmo Protocolo, no Tratado da organizacao, na sua Agenda Comum e, entre outros dos seus instrumentos de politica, no seu Plano Indicativo Estrategico Regional, nao como “um objectivo imediato”, mas como uma meta a atingir-se gradualmente no quadro de uma estrategia de integracao regional com base no principio da "geometria assimetrica" (cuja aplicacao pratica no ambito das metas de convergencia macroeconomica da regiao podera' ser encontrada aqui) que contempla os diferentes estagios de desenvolvimento dos paises membros.

Apenas acrescentaria algo que nao pode deixar de ser referido neste contexto e que tambem ja’ referi noutras ocasioes: o comercio internacional de Angola (‘a parte a exportacao de petroleo e diamantes) e’ dominado por tres paises: Portugal, Brasil e China. Nao pretendendo aqui acusar o Prof. Mourao de estar a “tentar puxar a brasa para a sua sardinha (Brasil)”, pergunto-me se sera’ “politica e diplomaticamente sensivel” (ainda que, porventura, “culturalmente defensavel” - embora este argumento cada vez mais se venha desvanescendo perante a contemporanea "invasao chinesa"...) pretender-se escamotear o facto de os fluxos comerciais de Angola estarem historica e estruturalmente “voltados de frente para o Atlantico” (e, mais recentemente, para a Asia) e “de costas” para o hinterland Africano – facto que, admitidamente, estara’ na base de uma certa relutancia (generalisada?) em relacao a ideia de um maior envolvimento do pais nos esforcos de intensificacao do comercio intra-regional?

E, nao sera’ esse, tambem, um problema historico e estrutural com que virtualmente todas as economias africanas estao confrontadas, em resultado da heranca de relacoes de dependencia criadas pela colonizacao e que a OUA/UA, atraves de varias iniciativas regionais e continentais (das quais se destaca mais recentemente a NEPAD - Nova Parceria para o Desenvolvimento de Africa) ao longo das decadas desde as independencias, cujo jubileu se celebrou no ano passado, tem tentado reverter a favor do desenvolvimento endogeno, sustentado e sustentavel do continente?

Comercio e Desenvolvimento

- Uma outra nota que se me afigura premente, apesar de aparentemente obvia, e’ que se vem notando alguma dificuldade por parte dos sectores de opiniao a que me referia na primeira parte deste artigo em conciliar o(s) conceito(s) de ‘comercio’ e ‘desenvolvimento’. Foi, alias, essa dificuldade que esteve na base da controversia que se instalou entre mim e um dos membros do painel de que fiz parte neste evento...

No entanto, o facto incontornavel e’ que o comercio (internacional) nao e’ a antitese do desenvolvimento (economico). O objectivo da SADC, tal como o de organizacoes internacionais como a Conferencia das Nacoes Unidas para o Comercio e o Desenvolvimento (CNUCED/ UNCTAD), e’ precisamente colocar o comercio como alavanca ao servico do desenvolvimento economico nacional, regional e internacional - ou seja, o objectivo e' promover o comercio para o desenvolvimento.

Como atingir-se tal objectivo e’ a grande questao com que essas organizacoes, em associacao com o mundo academico e profissional especializado, se veem debatendo na teoria e na pratica, pelo menos desde as teorias das vantagens absolutas e comparativas de Smith e Ricardo, respectivamente.

[Continua]

Sunday, 20 February 2011

A Irresponsabilidade do Vazio* [Revisto e Actualizado]




"(...) Age was respected among his people, but achievement was revered. As the elders said, if a child washed his hands he could eat with kings. Okonkwo had clearly washed his hands and so he ate with kings and elders."
Biyi Bandele [in Introduction to Chinua Achebe's Things Fall Apart - Penguim, 2001 edition]

N.B.: Chinua Achebe started writing Things Fall Apart, his magnum opus published three years later, in 1958, which has earned him the title of 'The Grandfather of African Literature', at the age of 25.




Olhamos para os cantos
Buscando um espaço
Anunciado tempo de sonho
Em espiral
No percurso das veias
Já corroídas pelo vazio, raiz da loucura
Se não preenchido a tempo.

[Extracto de Canto dos Olhos – A.S. in S.O.S.]




Juro por Deus [e desde ja’ Lhe peco perdao por invocar assim o Seu nome em vao – e’ que, cada vez mais, vou dando por mim regressando ‘a minha fe’ em Deus (ou, mais precisamente, em Jesus, meu xara’), dos meus tempos de infancia e adolescencia: quanto menos vou acreditando nos homens (e mulheres) deste mundo, mais necessidade vou sentindo de ter Alguem em quem acreditar!... Embora continue a detestar homilias!...] que tinha decidido ha’ ja’ bastante tempo nao voltar a deixar-me arrastar em discussoes inocuas com “surdos-mudos”, especialmente os do tipo arrogante ignorante e/ou intelectualmente desonesto. De facto, comecei a implementar essa decisao de forma efectiva no inicio deste ano com este "Thought for the Year" e, em seguida, ao longo das ultimas semanas, com a retirada progressiva de todos os posts real ou potencialmente polemicos que neste blog publiquei, em particular os relacionados com uma certa tristemente celebre campanha

Neles se incluiam os que escrevi, ainda nos primordios deste blog, sob o titulo generico “Makas na Sanzala”, sobre algumas das “homilias” de Mia Couto (MC). Nao e’, portanto, sem alguma relutancia que me sinto compelida a voltar a escrever a proposito de mais uma delas – o que, muito a contragosto, me levou a ter que ‘repostar’ alguns dos posts relacionados que ja’ havia retirado. Ja’ ha’ muito nao recebia, por email, tais “homilias” – mais precisamente desde a que ficou mais conhecida pelo “sejamos claros” –, pelo que me desgostou sobremaneira voltar agora a receber mais uma dessas missivas em forma de “arma de arremesso” (transcrita no final deste texto)…

E’ entitulada “O Peso do Vazio” (o que me recorda uma outra, de Pepetela, entitulada “O Horror do Vazio” – e’, o vazio parece estar na moda!… Ja' agora, um outro 'tipo de vazio', o do bolso, pode ser encontrado aqui) e, de tao aparentemente aimless, soou-me, recorrendo ao rico vocabulario do seu mui distinto e consagrado autor, oca, bacoca, vazia e… irresponsavel!


[Kant - by Yinka Shonibare]


[Continua aqui]


Posts relacionados:

Vultures

Falando do Homem Novo

Falando de Intelectualismo(s)

African Intellectuals in the Belly of the Beast



*Aparentemente, esta foi a "resposta" de Mia Couto a este post: "Os Falsaportes" - o qual, por sua vez, podera' ser lido em referencia a este.








"(...) Age was respected among his people, but achievement was revered. As the elders said, if a child washed his hands he could eat with kings. Okonkwo had clearly washed his hands and so he ate with kings and elders."
Biyi Bandele [in Introduction to Chinua Achebe's Things Fall Apart - Penguim, 2001 edition]

N.B.: Chinua Achebe started writing Things Fall Apart, his magnum opus published three years later, in 1958, which has earned him the title of 'The Grandfather of African Literature', at the age of 25.




Olhamos para os cantos
Buscando um espaço
Anunciado tempo de sonho
Em espiral
No percurso das veias
Já corroídas pelo vazio, raiz da loucura
Se não preenchido a tempo.

[Extracto de Canto dos Olhos – A.S. in S.O.S.]




Juro por Deus [e desde ja’ Lhe peco perdao por invocar assim o Seu nome em vao – e’ que, cada vez mais, vou dando por mim regressando ‘a minha fe’ em Deus (ou, mais precisamente, em Jesus, meu xara’), dos meus tempos de infancia e adolescencia: quanto menos vou acreditando nos homens (e mulheres) deste mundo, mais necessidade vou sentindo de ter Alguem em quem acreditar!... Embora continue a detestar homilias!...] que tinha decidido ha’ ja’ bastante tempo nao voltar a deixar-me arrastar em discussoes inocuas com “surdos-mudos”, especialmente os do tipo arrogante ignorante e/ou intelectualmente desonesto. De facto, comecei a implementar essa decisao de forma efectiva no inicio deste ano com este "Thought for the Year" e, em seguida, ao longo das ultimas semanas, com a retirada progressiva de todos os posts real ou potencialmente polemicos que neste blog publiquei, em particular os relacionados com uma certa tristemente celebre campanha

Neles se incluiam os que escrevi, ainda nos primordios deste blog, sob o titulo generico “Makas na Sanzala”, sobre algumas das “homilias” de Mia Couto (MC). Nao e’, portanto, sem alguma relutancia que me sinto compelida a voltar a escrever a proposito de mais uma delas – o que, muito a contragosto, me levou a ter que ‘repostar’ alguns dos posts relacionados que ja’ havia retirado. Ja’ ha’ muito nao recebia, por email, tais “homilias” – mais precisamente desde a que ficou mais conhecida pelo “sejamos claros” –, pelo que me desgostou sobremaneira voltar agora a receber mais uma dessas missivas em forma de “arma de arremesso” (transcrita no final deste texto)…

E’ entitulada “O Peso do Vazio” (o que me recorda uma outra, de Pepetela, entitulada “O Horror do Vazio” – e’, o vazio parece estar na moda!… Ja' agora, um outro 'tipo de vazio', o do bolso, pode ser encontrado aqui) e, de tao aparentemente aimless, soou-me, recorrendo ao rico vocabulario do seu mui distinto e consagrado autor, oca, bacoca, vazia e… irresponsavel!


[Kant - by Yinka Shonibare]


[Continua aqui]


Posts relacionados:

Vultures

Falando do Homem Novo

Falando de Intelectualismo(s)

African Intellectuals in the Belly of the Beast



*Aparentemente, esta foi a "resposta" de Mia Couto a este post: "Os Falsaportes" - o qual, por sua vez, podera' ser lido em referencia a este.





Saturday, 19 February 2011

Just Poetry (xxxvii)







Vultures

In the greyness
and drizzle of one despondent
dawn unstirred by harbingers
of sunbreak a vulture
perching high on broken
bones of a dead tree
nestled close to his
mate his smooth
bashed-in head, a pebble
on a stem rooted in
a dump of gross
feathers, inclined affectionately
to hers. Yesterday they picked
the eyes of a swollen
corpse in a water-logged
trench and ate the
things in its bowel. Full
gorged they chose their roost
keeping the hollowed remnant
in easy range of cold
telescopic eyes...

Strange
indeed how love in other
ways so particular
will pick a corner
in that charnel-house
tidy it and coil up there, perhaps
even fall asleep - her face
turned to the wall!

...Thus the Commandant at Belsen
Camp going home for
the day with fumes of
human roast clinging
rebelliously to his hairy
nostrils will stop
at the wayside sweet-shop
and pick up a chocolate
for his tender offspring
waiting at home for Daddy's
return...

Praise bounteous
providence if you will
that grants even an ogre
a tiny glow-worm
tenderness encapsulated
in icy caverns of a cruel
heart or else despair
for in the very germ
of that kindred love is
lodged the perpetuity
of evil.

[Chinua Achebe]


Agostinho Neto

Agostinho, were you no more
Than the middle one favored by fortune
In children's riddle; Kwame
Striding ahead to accost
Demons; behind you a laggard third
As yet unnamed, of twisted fingers?

No! Your secure strides
Were hard earned. Your feet
Learned their fierce balance
In violent slopes of humiliation;
Your delicate hands, patiently
Groomed for finest incisions,
Were commandeered brusquely to kill,
Your gentle voice to battle-cry.

Perhaps your family and friends
Knew a merry flash cracking the gloom
We see in pictures but I prefer
And will keep that sorrowful legend.
For I have seen how
Half a millennium of alien rape
And murder can stamp a smile
On the vacant face of the fool,
The sinister grin of Africa's idiot-kings
Who oversee in obscene palaces of gold
The butchery of their own people.

Neto, I sing your passing, I,
Timid requisitioner of your vast
Armory's most congenial supply.
What shall I sing? A dirge answering
The gloom? No, I will sing tearful songs
Of joy; I will celebrate
The man who rode a trinity
Of awesome fates to the cause
Of our trampled race!
Thou Healer, Soldier and Poet!

[Chinua Achebe]




Images: 'The Sleep of Reason Produces Monsters' by Yinka Shonibare








Vultures

In the greyness
and drizzle of one despondent
dawn unstirred by harbingers
of sunbreak a vulture
perching high on broken
bones of a dead tree
nestled close to his
mate his smooth
bashed-in head, a pebble
on a stem rooted in
a dump of gross
feathers, inclined affectionately
to hers. Yesterday they picked
the eyes of a swollen
corpse in a water-logged
trench and ate the
things in its bowel. Full
gorged they chose their roost
keeping the hollowed remnant
in easy range of cold
telescopic eyes...

Strange
indeed how love in other
ways so particular
will pick a corner
in that charnel-house
tidy it and coil up there, perhaps
even fall asleep - her face
turned to the wall!

...Thus the Commandant at Belsen
Camp going home for
the day with fumes of
human roast clinging
rebelliously to his hairy
nostrils will stop
at the wayside sweet-shop
and pick up a chocolate
for his tender offspring
waiting at home for Daddy's
return...

Praise bounteous
providence if you will
that grants even an ogre
a tiny glow-worm
tenderness encapsulated
in icy caverns of a cruel
heart or else despair
for in the very germ
of that kindred love is
lodged the perpetuity
of evil.

[Chinua Achebe]


Agostinho Neto

Agostinho, were you no more
Than the middle one favored by fortune
In children's riddle; Kwame
Striding ahead to accost
Demons; behind you a laggard third
As yet unnamed, of twisted fingers?

No! Your secure strides
Were hard earned. Your feet
Learned their fierce balance
In violent slopes of humiliation;
Your delicate hands, patiently
Groomed for finest incisions,
Were commandeered brusquely to kill,
Your gentle voice to battle-cry.

Perhaps your family and friends
Knew a merry flash cracking the gloom
We see in pictures but I prefer
And will keep that sorrowful legend.
For I have seen how
Half a millennium of alien rape
And murder can stamp a smile
On the vacant face of the fool,
The sinister grin of Africa's idiot-kings
Who oversee in obscene palaces of gold
The butchery of their own people.

Neto, I sing your passing, I,
Timid requisitioner of your vast
Armory's most congenial supply.
What shall I sing? A dirge answering
The gloom? No, I will sing tearful songs
Of joy; I will celebrate
The man who rode a trinity
Of awesome fates to the cause
Of our trampled race!
Thou Healer, Soldier and Poet!

[Chinua Achebe]




Images: 'The Sleep of Reason Produces Monsters' by Yinka Shonibare


Friday, 26 November 2010

Reflectindo...



[Scramble for Afrika, by Yinka Shonibare]

Never act as clever as you are!
Don't be brilliant!
(...if you do nobody will like you...)
Always blend in!


Estas palavras, proferidas denunciatoriamente por uma das intervenientes (e nao, ela nao se parece nada com uma "intelectual" - quanto mais nao seja porque nao usa oculos, nao tem cabelos grizalhos, nem anda no ballet classico desde os oito anos de idade... - e muito menos se auto-entitula como tal: de facto, assemelha-se bastante a qualquer uma das nossas damas do kuduro que aki tentei de algum modo "defender"...) no documentario aqui apresentado, o qual apenas descobri na vespera de aqui o ter postado, conteem a chave de muito do que se tem passado com e neste blog... Veja-se, mais uma vez (... porque nunca sera' demais e porque espero que pelo menos algumas jovens negras angolanas - como as que me transmitiram o calor humano de que aqui falo e aquelas a quem aqui me dirijo - aprendam alguma coisa com isto...) esta campanha, que se sumariza nesta orgia e neste bacanal...

Efectivamente, por outras, mas equivalentes palavras, eu li exactamente o mesmo, mas apologeticamente, no NJ (e.g., entre varias outras, em particular por um certo minion , quaisquer coisas relacionadas com "esquecer a cultura dos ancestrais" - i.e. nao se prestar a ser uma "mulher submissa e subserviente" - e, em resultado disso, "ninguem na sociedade gostar", por entre "falas em ingles cursivo", "levar tanto tempo para fazer um curso", "ter conhecimentos mal adquiridos/digeridos que quando ganham alguma seguranca"... "e' chato para o Popper", para ja' nao mencionar o (in)famoso e sempre (in)conveniente, particularmente quando usado perversamente neste tipo de contexto, "so' sei que nada sei" de Socrates (... mais uma "boca", como dizia Herberto Helder, tirada de passagem a cultura para com seu uso desencadear a explosao mitica...), como se alguem acreditasse que, tendo dito isso, no que apenas expressava o conceito filosofico de "duvida metodica", Socrates de facto "nao sabia", ou acreditava "nao saber nada"!... etc.,etc.,etc...) [*], no "O Pais" (..."no stars please!"...), no SA (... neste nao vale a pena sequer falar mais... ou talvez valha a pena repescar apenas as tristemente celebres "bocas intelectualoides" e uns certos "tem a mania do sabetudismo!" - este da autoria de um "miudo" nao-economista que, curiosamente, fez seguir essa 'boca' de uma "lecturacao" sobre "desenvolvimento economico"! - e "coloque-se no seu devido lugar!"...) e por ai afora (e.g., "achas mesmo que vales assim tanto? Olha as nossas colegas mulheres aqui, sem tantas qualificacoes nem remuneracoes, como estao muito bem e muito felizes"...; "tem a mania de se achar mais do que os outros"...)!

... Para que estudar tanto? (num habia nexexidade!)... E ainda por cima coisas que "qualquer mulher angolana sabe sem precisar de tirar cursos superiores"?... E ainda por cima tao longe e 'a revelia da "sacrossanta patria/familia lusofona"?... E ainda por cima para obter apenas "falsos diplomas" seguidos de "infiltracoes em reunioes de peritos"?!... Porque nao simplesmente estender a mao, manter-se "jovem", "elegante", "bem-cheirosa" e "disponivel para o sexo" (aparentemente seja la' com quem for, mesmo sendo certo que se esta' sujeita a logo em seguida ser-se insidiosa e difamatoriamente apelidada de "promiscua", "prostituta", "poluta" e "sem valores nem principios"...)?! [**] ...E mais ainda (veja-se, a este proposito, o que diz o academico Indiano entrevistado no documentario): porque nao colocar uma peruca ou tissagem loura como a Beyonce' e ser apenas "Tosca, mas nao a de Puccini" e conformar-se (invejar!) e submeter-se pura e simplesmente ao 'modelo de beleza' euro-caucasiano (vejam-se tambem as declaracoes do jornalista branco Irlandes (... supostamente uma 'figura' triste/patética a merecer histericos 'lols' a fartazana - e' so' fartar vilanagem!!!) sobre a Beyonce' no mesmo post sobre "shadeism"...) que "comeca na Venus de Milo e acaba na irresistivel Jessica Rabbit"?! [***]
Ou, melhor ainda do que tudo isso, porque nao "cometer um suicidio em grande estilo, antes que se seja esquartejada a catanada"?!

Enfim... para que OUSAR SER?!

... Por essas e por outras, ao longo da minha vida, sempre me vi forcada, tanto fisica, mental, psicologica e espiritualmente (... e o unico periodo em que fui capaz, porque esta sociedade mo tornou possivel, de nao o fazer foram os anos em que vivi em Londres sem qualquer contacto com o "mundo lusofono" - periodo em que, by the way, consegui praticamente deixar de fumar -, mas... de ha' uns anos a esta parte "deu-me" para retomar esse contacto e... os resultados estao a vista!...), a me auto-anular, auto-suprimir, auto-sabotar, auto-censurar, (e quando nao o faco, outros imediatamente se encarregam de obrigar-me a faze-lo, ou fazem-no "por mim"...), para nao parecer, e muito menos ser, "mais do que o(a)s outro(a)s" (o que quer que seja que isso signifique...) e, assim, acabar NAO SENDO NADA!

E porque esse processo (a que os Ingleses muito apta e concisamente apelidam de dumbing down) opera tanto nos fenomenos de racismo, como nos de sexismo e machismo (...ja' para nao falar nos ditos de "crispacao geracional", ou nos de suposta "solidariedade e coesao comunitaria", "politico-ideologica" e "patriotica", ou algo assim parecido...), nao so' e' frequente nele se formarem aliancas, por um lado, entre mulheres nao negras com homens negros e, por outro lado, entre homens negros com homens brancos, contra mulheres negras, como tambem sobre ele escreveram, a seu tempo e a seu modo, tanto Agostinho Neto, como Bessie Head, entre varios outros...


[Dysfunctional Family ,by Yinka Shonibare]


Mas, como tambem se diz logo no inicio do documentario, "tudo comeca na familia"... De facto, nunca me esqueco desta frase (ordem?) que me foi dirigida por alguem da minha familia mais proxima: "tens que deixar os outros existir!" (... nao que eu alguma vez tivesse tido a intencao, a pretensao ou, menos ainda, a capacidade de impedir "os outros de existir"... so, what that means in practice is: "tens que deixar de existir para que eu e a(o)s outra(o)s possamos existir!"...). E eu cresci a ouvir no seio da minha familia tanto strong statements sobre "direitos adquiridos" (e, ja' agora e a titulo de curiosidade, a ser cognominada por um amigo da familia - por sinal um arquitecto portugues de quem incluo um postal aqui e que, by the way, foi quem me ofereceu o meu primeiro disco dos Pink Floyd - desde os meus 15/16 anos como "a intelectual da familia", cognome tambem usado frequentemente pela minha mae... - o que, amarga ironia, se viria a revelar uma afiada espada de dois gumes ao longo da minha vida!...) este dito, aparentemente baseado num proverbio baKongo: "a orelha nunca pode crescer mais do que a cabeca"!

Trouble is... talvez 'a excepcao destes, toda(o)s nascemos com a (e pensamos pela) nossa propria cabeca!

[Em suma: alguem ja' tentou reflectir um pouco mais profundamente sobre de onde veem os famosos e famigerados "complexos de inferioridade" (tambem designados por outros de "complexos de colonizado") dos negros e, muito particularmente, das negras?... Ou das causas estruturais do aparentemente "cronico subdesenvolvimento" de Africa?!... I wonder...]





[*] E, ja' agora, alguem reparou como os ataques do minion no NJ (e.g. "quem disse que eu me estava a referir a ti", "como e' que vieste parar ao meu computador", "olha que eu ja' tenho 60 anos e sou antigo combatente"... para alem dos ja' acima referidos) comecaram (ou pelo menos deles pela primeira vez me apercebi) quando eu me referi a ele no contexto deste kibeto (num comentario ate' digamos que, para usar a palavra da moda, "afectuoso", mas entretanto retirado quando me vi confrontada com tais ataques - eu que nao tenho tido nenhum contacto com ele, nem via computador, e.g. email, nem por nenhuma outra via, desde a ultima vez que o vi em Lisboa ja' la' vao uns bons mais de 20 anos!... - e, ja' agora tambem, repararam como simultaneamente ele se atirou ao alvo do kibeto com "todas as armas disponiveis", por entre estorias de animais no "quintal do seu palacio"? ), tendo antes feito um comentario a este post, em que me referia a um "amigo-como irmao (por sinal branco) que estava connosco a quem pedi que me levasse imediatamente para casa"?

Pois o que eu nao disse na altura [porque continuei, pelo menos ate' agora - e, na verdade, ainda continuo - a resistir deixar-me afundar completamente na enxurrada de lama e pedras que a chusma liderada (telecomandada!) por ele (apenas porque para la' regressou depois de longos anos com 'ares afectados' de Paris...) - tal como ele e outros o foram e, por incrivel que pareca, continuam a ser (!) por um certo Incrivel Svengali (... e ainda se arrogam proclamar que "pensam pela sua propria cabeca"!...) - me tem atirado...) foi que ele acompanhou-me ate' a porta do meu predio onde assim que la' chegamos me comecei a despedir dele, mas ele com um ar muito estranho (por falta de melhor qualificacao) comecou a dizer-me "sinto-me bastante lisonjeado por me teres escolhido para te trazer para casa" e comecou a "avancar para mim"... Ao que eu apenas lhe lancei um ultimo olhar, disse-lhe muito obrigada, despedi-me mais uma vez, virei-lhe as costas, entrei no predio, fechei a porta e deixei-o ali com o seu "ar muito estranho"! Ora, fiquei agora a saber, passados mais de 20 anos, atraves dessas "bocas no NJ" que o individuo afinal nunca se conformou por eu o ter sempre tratado apenas como "amigo-como irmao", porque sempre quis ser "muito mais do que isso"!...

E mais acrescento que apenas o tratava como tal devido ao meu relacionamento com a familia, incluindo a mae, dele e ao conteudo de alguns dos seus postais aqui incluidos!
Mas... o que o poder da imprensa e' capaz de fazer quando sobe 'a cabeca de um minion frustrado e complexado metido a "antigo combatente de ocasiao"! ... Sera' que ele esteve, ou teria alguma motivacao ou razao para estar nesta manifestacao, ou nesta, por exemplo?!




[**] E porque tambem nunca sera' demais (re)lembrar como "tudo isso" comecou, proponho uma reflexao sobre estas minhas afirmacoes, feitas aqui:


(...) E, já agora, “não gravaste nem filmaste porque não querias profanar aquele momento de intimidade tão único”…mas não te coibiste de o reproduzir aqui em detalhe, num espaço aberto ao mundo… será que as “mamãs” que tanta questão faziam que os homens “não vissem” não se importarão agora que qualquer homem no mundo as possa ver através dos teus olhos e comentar sobre o que viu?! Mas tu não tens culpa, és apenas o produto de um sistema político de apropriação cultural, também conhecido como “vulturismo cultural”, muito mal gerido ao longo destes 30 anos do pós-independência por elementos de um grupo social muito bem definido em Angola… e esse fenómeno há muito vem sendo estudado e debatido com muita seriedade, sobretudo fora do mundo lusófono. Mas, cedo ou tarde, esses debates e suas consequências chegarão a Angola…

... E estas, reproduzidas tambem no post em referencia sobre "shadeism":


There is a long history of sexualizing the black body with disastrous consequences - from lynchings in the South to the 'high-tech' lynchings of recent past. Collins looks at the ways African-American women's bodies have always been on display, from Josephine Baker to Destiny's Child, and the contradictory images of black masculinity from Michael Jackson to Michael Jordan.
(...)
In Black Sexual Politics, one of America's most influential writers on race and gender explores how images of Black sexuality have been used to maintain the color line and how they threaten to spread a new brand of racism around the world today. The ideal of pure white womanhood, Collins argues, required the invention of hot-blooded Latinas, exotic Suzy Wongs, and wanton jezebels...
(...)
In a book of sophisticated critical theory that could be used as a tool for antiracist political action, Collins (Charles Phelps Taft Professor of Sociology, Univ. of Cincinnati; Black Feminist Thought) asserts that "racism and sexism are deeply intertwined, and racism can never be solved without seeing and challenging sexism."




E para um pouco mais de leitura/analise comparativa, vejam-se os meus argumentos sobre o "debate dos feminismos" aqui, a luz deste artigo, tambem incluido no post sobre "shadeism"...





[***] E para completar o quadro, veja-se isto, por referencia ao que aqui afirmei (v. "How is it decided that this criticism of the publication for the first time in the Portuguese market of a magazine directed at African women is “more interesting” than, say, the criticisms arising from this, or this?") e a forma como essa questao (representacao de modelos de beleza feminina nos media - veja-se, em particular, a reaccao da Angolana Muginga a capa de uma das revistas consideradas) e' abordada no documentario que tem servido de base a esta refexao - documentario que nao so' ilustra perfeitamente o meu "dialogo com uma sista" com que o 'entrelacei', como tambem confirma o que aqui dizia sobre essas questoes:

(...) Grupo “afro-americano” esse onde, nunca e’ demais repeti-lo, se incluem todos os nao-brancos desde que tenham uma gota de sangue negro. E, se e’ certo que o "one drop rule" foi inicialmente uma criacao do grupo dominante branco nos EUA com motivacoes racistas, nao e’ menos certo que ele foi apropriado, internalizado e socializado historicamente pelos “afro-americanos” que – ao contrario, nunca e’ demais nota-lo, do que se passou e em grande medida ainda se passa nas ex-colonias portuguesas onde se instituiu uma diferenciacao racica hierarquizante de acordo com os varios tons de pele entre negros e brancos – partilharam ao longo de seculos em condicoes de igualdade tanto a discriminacao racial contra si (vide o caso da 'cabrita' Rosa Parks), como as oportunidades sociais, politicas e economicas que souberam conquistar para si (vide o caso da 'negra' Oprah Winfrey) como um unico grupo racico, pesem embora as clivagens e friccoes que tambem existem no seu seio, originadas, directa ou indirectamente, pelos diferentes tons de pele entre si (particularmente entre as mulheres, como quem tenha ouvido atentamente uma celebre conversa entre mulheres “negras” no filme Jungle Fever de Spike Lee tera’ notado."



[Scramble for Afrika, by Yinka Shonibare]

Never act as clever as you are!
Don't be brilliant!
(...if you do nobody will like you...)
Always blend in!


Estas palavras, proferidas denunciatoriamente por uma das intervenientes (e nao, ela nao se parece nada com uma "intelectual" - quanto mais nao seja porque nao usa oculos, nao tem cabelos grizalhos, nem anda no ballet classico desde os oito anos de idade... - e muito menos se auto-entitula como tal: de facto, assemelha-se bastante a qualquer uma das nossas damas do kuduro que aki tentei de algum modo "defender"...) no documentario aqui apresentado, o qual apenas descobri na vespera de aqui o ter postado, conteem a chave de muito do que se tem passado com e neste blog... Veja-se, mais uma vez (... porque nunca sera' demais e porque espero que pelo menos algumas jovens negras angolanas - como as que me transmitiram o calor humano de que aqui falo e aquelas a quem aqui me dirijo - aprendam alguma coisa com isto...) esta campanha, que se sumariza nesta orgia e neste bacanal...

Efectivamente, por outras, mas equivalentes palavras, eu li exactamente o mesmo, mas apologeticamente, no NJ (e.g., entre varias outras, em particular por um certo minion , quaisquer coisas relacionadas com "esquecer a cultura dos ancestrais" - i.e. nao se prestar a ser uma "mulher submissa e subserviente" - e, em resultado disso, "ninguem na sociedade gostar", por entre "falas em ingles cursivo", "levar tanto tempo para fazer um curso", "ter conhecimentos mal adquiridos/digeridos que quando ganham alguma seguranca"... "e' chato para o Popper", para ja' nao mencionar o (in)famoso e sempre (in)conveniente, particularmente quando usado perversamente neste tipo de contexto, "so' sei que nada sei" de Socrates (... mais uma "boca", como dizia Herberto Helder, tirada de passagem a cultura para com seu uso desencadear a explosao mitica...), como se alguem acreditasse que, tendo dito isso, no que apenas expressava o conceito filosofico de "duvida metodica", Socrates de facto "nao sabia", ou acreditava "nao saber nada"!... etc.,etc.,etc...) [*], no "O Pais" (..."no stars please!"...), no SA (... neste nao vale a pena sequer falar mais... ou talvez valha a pena repescar apenas as tristemente celebres "bocas intelectualoides" e uns certos "tem a mania do sabetudismo!" - este da autoria de um "miudo" nao-economista que, curiosamente, fez seguir essa 'boca' de uma "lecturacao" sobre "desenvolvimento economico"! - e "coloque-se no seu devido lugar!"...) e por ai afora (e.g., "achas mesmo que vales assim tanto? Olha as nossas colegas mulheres aqui, sem tantas qualificacoes nem remuneracoes, como estao muito bem e muito felizes"...; "tem a mania de se achar mais do que os outros"...)!

... Para que estudar tanto? (num habia nexexidade!)... E ainda por cima coisas que "qualquer mulher angolana sabe sem precisar de tirar cursos superiores"?... E ainda por cima tao longe e 'a revelia da "sacrossanta patria/familia lusofona"?... E ainda por cima para obter apenas "falsos diplomas" seguidos de "infiltracoes em reunioes de peritos"?!... Porque nao simplesmente estender a mao, manter-se "jovem", "elegante", "bem-cheirosa" e "disponivel para o sexo" (aparentemente seja la' com quem for, mesmo sendo certo que se esta' sujeita a logo em seguida ser-se insidiosa e difamatoriamente apelidada de "promiscua", "prostituta", "poluta" e "sem valores nem principios"...)?! [**] ...E mais ainda (veja-se, a este proposito, o que diz o academico Indiano entrevistado no documentario): porque nao colocar uma peruca ou tissagem loura como a Beyonce' e ser apenas "Tosca, mas nao a de Puccini" e conformar-se (invejar!) e submeter-se pura e simplesmente ao 'modelo de beleza' euro-caucasiano (vejam-se tambem as declaracoes do jornalista branco Irlandes (... supostamente uma 'figura' triste/patética a merecer histericos 'lols' a fartazana - e' so' fartar vilanagem!!!) sobre a Beyonce' no mesmo post sobre "shadeism"...) que "comeca na Venus de Milo e acaba na irresistivel Jessica Rabbit"?! [***]
Ou, melhor ainda do que tudo isso, porque nao "cometer um suicidio em grande estilo, antes que se seja esquartejada a catanada"?!

Enfim... para que OUSAR SER?!

... Por essas e por outras, ao longo da minha vida, sempre me vi forcada, tanto fisica, mental, psicologica e espiritualmente (... e o unico periodo em que fui capaz, porque esta sociedade mo tornou possivel, de nao o fazer foram os anos em que vivi em Londres sem qualquer contacto com o "mundo lusofono" - periodo em que, by the way, consegui praticamente deixar de fumar -, mas... de ha' uns anos a esta parte "deu-me" para retomar esse contacto e... os resultados estao a vista!...), a me auto-anular, auto-suprimir, auto-sabotar, auto-censurar, (e quando nao o faco, outros imediatamente se encarregam de obrigar-me a faze-lo, ou fazem-no "por mim"...), para nao parecer, e muito menos ser, "mais do que o(a)s outro(a)s" (o que quer que seja que isso signifique...) e, assim, acabar NAO SENDO NADA!

E porque esse processo (a que os Ingleses muito apta e concisamente apelidam de dumbing down) opera tanto nos fenomenos de racismo, como nos de sexismo e machismo (...ja' para nao falar nos ditos de "crispacao geracional", ou nos de suposta "solidariedade e coesao comunitaria", "politico-ideologica" e "patriotica", ou algo assim parecido...), nao so' e' frequente nele se formarem aliancas, por um lado, entre mulheres nao negras com homens negros e, por outro lado, entre homens negros com homens brancos, contra mulheres negras, como tambem sobre ele escreveram, a seu tempo e a seu modo, tanto Agostinho Neto, como Bessie Head, entre varios outros...


[Dysfunctional Family ,by Yinka Shonibare]


Mas, como tambem se diz logo no inicio do documentario, "tudo comeca na familia"... De facto, nunca me esqueco desta frase (ordem?) que me foi dirigida por alguem da minha familia mais proxima: "tens que deixar os outros existir!" (... nao que eu alguma vez tivesse tido a intencao, a pretensao ou, menos ainda, a capacidade de impedir "os outros de existir"... so, what that means in practice is: "tens que deixar de existir para que eu e a(o)s outra(o)s possamos existir!"...). E eu cresci a ouvir no seio da minha familia tanto strong statements sobre "direitos adquiridos" (e, ja' agora e a titulo de curiosidade, a ser cognominada por um amigo da familia - por sinal um arquitecto portugues de quem incluo um postal aqui e que, by the way, foi quem me ofereceu o meu primeiro disco dos Pink Floyd - desde os meus 15/16 anos como "a intelectual da familia", cognome tambem usado frequentemente pela minha mae... - o que, amarga ironia, se viria a revelar uma afiada espada de dois gumes ao longo da minha vida!...) este dito, aparentemente baseado num proverbio baKongo: "a orelha nunca pode crescer mais do que a cabeca"!

Trouble is... talvez 'a excepcao destes, toda(o)s nascemos com a (e pensamos pela) nossa propria cabeca!

[Em suma: alguem ja' tentou reflectir um pouco mais profundamente sobre de onde veem os famosos e famigerados "complexos de inferioridade" (tambem designados por outros de "complexos de colonizado") dos negros e, muito particularmente, das negras?... Ou das causas estruturais do aparentemente "cronico subdesenvolvimento" de Africa?!... I wonder...]





[*] E, ja' agora, alguem reparou como os ataques do minion no NJ (e.g. "quem disse que eu me estava a referir a ti", "como e' que vieste parar ao meu computador", "olha que eu ja' tenho 60 anos e sou antigo combatente"... para alem dos ja' acima referidos) comecaram (ou pelo menos deles pela primeira vez me apercebi) quando eu me referi a ele no contexto deste kibeto (num comentario ate' digamos que, para usar a palavra da moda, "afectuoso", mas entretanto retirado quando me vi confrontada com tais ataques - eu que nao tenho tido nenhum contacto com ele, nem via computador, e.g. email, nem por nenhuma outra via, desde a ultima vez que o vi em Lisboa ja' la' vao uns bons mais de 20 anos!... - e, ja' agora tambem, repararam como simultaneamente ele se atirou ao alvo do kibeto com "todas as armas disponiveis", por entre estorias de animais no "quintal do seu palacio"? ), tendo antes feito um comentario a este post, em que me referia a um "amigo-como irmao (por sinal branco) que estava connosco a quem pedi que me levasse imediatamente para casa"?

Pois o que eu nao disse na altura [porque continuei, pelo menos ate' agora - e, na verdade, ainda continuo - a resistir deixar-me afundar completamente na enxurrada de lama e pedras que a chusma liderada (telecomandada!) por ele (apenas porque para la' regressou depois de longos anos com 'ares afectados' de Paris...) - tal como ele e outros o foram e, por incrivel que pareca, continuam a ser (!) por um certo Incrivel Svengali (... e ainda se arrogam proclamar que "pensam pela sua propria cabeca"!...) - me tem atirado...) foi que ele acompanhou-me ate' a porta do meu predio onde assim que la' chegamos me comecei a despedir dele, mas ele com um ar muito estranho (por falta de melhor qualificacao) comecou a dizer-me "sinto-me bastante lisonjeado por me teres escolhido para te trazer para casa" e comecou a "avancar para mim"... Ao que eu apenas lhe lancei um ultimo olhar, disse-lhe muito obrigada, despedi-me mais uma vez, virei-lhe as costas, entrei no predio, fechei a porta e deixei-o ali com o seu "ar muito estranho"! Ora, fiquei agora a saber, passados mais de 20 anos, atraves dessas "bocas no NJ" que o individuo afinal nunca se conformou por eu o ter sempre tratado apenas como "amigo-como irmao", porque sempre quis ser "muito mais do que isso"!...

E mais acrescento que apenas o tratava como tal devido ao meu relacionamento com a familia, incluindo a mae, dele e ao conteudo de alguns dos seus postais aqui incluidos!
Mas... o que o poder da imprensa e' capaz de fazer quando sobe 'a cabeca de um minion frustrado e complexado metido a "antigo combatente de ocasiao"! ... Sera' que ele esteve, ou teria alguma motivacao ou razao para estar nesta manifestacao, ou nesta, por exemplo?!




[**] E porque tambem nunca sera' demais (re)lembrar como "tudo isso" comecou, proponho uma reflexao sobre estas minhas afirmacoes, feitas aqui:


(...) E, já agora, “não gravaste nem filmaste porque não querias profanar aquele momento de intimidade tão único”…mas não te coibiste de o reproduzir aqui em detalhe, num espaço aberto ao mundo… será que as “mamãs” que tanta questão faziam que os homens “não vissem” não se importarão agora que qualquer homem no mundo as possa ver através dos teus olhos e comentar sobre o que viu?! Mas tu não tens culpa, és apenas o produto de um sistema político de apropriação cultural, também conhecido como “vulturismo cultural”, muito mal gerido ao longo destes 30 anos do pós-independência por elementos de um grupo social muito bem definido em Angola… e esse fenómeno há muito vem sendo estudado e debatido com muita seriedade, sobretudo fora do mundo lusófono. Mas, cedo ou tarde, esses debates e suas consequências chegarão a Angola…

... E estas, reproduzidas tambem no post em referencia sobre "shadeism":


There is a long history of sexualizing the black body with disastrous consequences - from lynchings in the South to the 'high-tech' lynchings of recent past. Collins looks at the ways African-American women's bodies have always been on display, from Josephine Baker to Destiny's Child, and the contradictory images of black masculinity from Michael Jackson to Michael Jordan.
(...)
In Black Sexual Politics, one of America's most influential writers on race and gender explores how images of Black sexuality have been used to maintain the color line and how they threaten to spread a new brand of racism around the world today. The ideal of pure white womanhood, Collins argues, required the invention of hot-blooded Latinas, exotic Suzy Wongs, and wanton jezebels...
(...)
In a book of sophisticated critical theory that could be used as a tool for antiracist political action, Collins (Charles Phelps Taft Professor of Sociology, Univ. of Cincinnati; Black Feminist Thought) asserts that "racism and sexism are deeply intertwined, and racism can never be solved without seeing and challenging sexism."




E para um pouco mais de leitura/analise comparativa, vejam-se os meus argumentos sobre o "debate dos feminismos" aqui, a luz deste artigo, tambem incluido no post sobre "shadeism"...





[***] E para completar o quadro, veja-se isto, por referencia ao que aqui afirmei (v. "How is it decided that this criticism of the publication for the first time in the Portuguese market of a magazine directed at African women is “more interesting” than, say, the criticisms arising from this, or this?") e a forma como essa questao (representacao de modelos de beleza feminina nos media - veja-se, em particular, a reaccao da Angolana Muginga a capa de uma das revistas consideradas) e' abordada no documentario que tem servido de base a esta refexao - documentario que nao so' ilustra perfeitamente o meu "dialogo com uma sista" com que o 'entrelacei', como tambem confirma o que aqui dizia sobre essas questoes:

(...) Grupo “afro-americano” esse onde, nunca e’ demais repeti-lo, se incluem todos os nao-brancos desde que tenham uma gota de sangue negro. E, se e’ certo que o "one drop rule" foi inicialmente uma criacao do grupo dominante branco nos EUA com motivacoes racistas, nao e’ menos certo que ele foi apropriado, internalizado e socializado historicamente pelos “afro-americanos” que – ao contrario, nunca e’ demais nota-lo, do que se passou e em grande medida ainda se passa nas ex-colonias portuguesas onde se instituiu uma diferenciacao racica hierarquizante de acordo com os varios tons de pele entre negros e brancos – partilharam ao longo de seculos em condicoes de igualdade tanto a discriminacao racial contra si (vide o caso da 'cabrita' Rosa Parks), como as oportunidades sociais, politicas e economicas que souberam conquistar para si (vide o caso da 'negra' Oprah Winfrey) como um unico grupo racico, pesem embora as clivagens e friccoes que tambem existem no seu seio, originadas, directa ou indirectamente, pelos diferentes tons de pele entre si (particularmente entre as mulheres, como quem tenha ouvido atentamente uma celebre conversa entre mulheres “negras” no filme Jungle Fever de Spike Lee tera’ notado."

Friday, 25 June 2010

Afrika: Who Knows Tomorrow?

Scramble for Africa - Yinka Shonibare
{Outro titulo possivel: Negritude branca pos-colonial decapitada pelo Banco Mundial
'a mesa da Conferencia de Berlin}


Just got this news via My Weku:


Who Knows Tomorrow - this piece of worldly wisdom, heard everyday over large parts of Africa, provides the title for a remarkable project held by the National Gallery (Berlin, Fri 4 June - Sun 26 September 2010), for which it has invited five internationally acclaimed artists, whose work is primarily shaped by their African origins, to join together in creating a major exhibition in Berlin.

Their works, completed and installed, for the most part, in prominent positions outside four of the National Gallery's separate venues (Old National Gallery: El Anatsui, New National Gallery: Pascale Marthine Tayou, Friedrichswerder Church: Yinka Shonibare MBE, Hamburger Bahnhof: Zarina Bhimji,
António Ole), will together serve to spark a dialogue over questions that are now more topical than ever before, thanks to the radical upheavals currently sweeping political, social and economic systems that had, until now, been considered unshakeable. These questions include: is uncertainty over the future now the greatest certainty we have today? Whose history needs to be told and faced up to now? What is art's contribution to helping overcome (art) historical constructs, clichés and stereotypes?


[More details here and here]
Scramble for Africa - Yinka Shonibare
{Outro titulo possivel: Negritude branca pos-colonial decapitada pelo Banco Mundial
'a mesa da Conferencia de Berlin}


Just got this news via My Weku:


Who Knows Tomorrow - this piece of worldly wisdom, heard everyday over large parts of Africa, provides the title for a remarkable project held by the National Gallery (Berlin, Fri 4 June - Sun 26 September 2010), for which it has invited five internationally acclaimed artists, whose work is primarily shaped by their African origins, to join together in creating a major exhibition in Berlin.

Their works, completed and installed, for the most part, in prominent positions outside four of the National Gallery's separate venues (Old National Gallery: El Anatsui, New National Gallery: Pascale Marthine Tayou, Friedrichswerder Church: Yinka Shonibare MBE, Hamburger Bahnhof: Zarina Bhimji,
António Ole), will together serve to spark a dialogue over questions that are now more topical than ever before, thanks to the radical upheavals currently sweeping political, social and economic systems that had, until now, been considered unshakeable. These questions include: is uncertainty over the future now the greatest certainty we have today? Whose history needs to be told and faced up to now? What is art's contribution to helping overcome (art) historical constructs, clichés and stereotypes?


[More details here and here]