Friday, 29 May 2009

AINDA SOBRE AS "7 MARAVILHAS PORTUGUESAS NO MUNDO"

Ainda sobre esta questao, um grupo de historiadores, incluindo alguns angolanos, acaba de emitir uma peticao dirigida ao Governo Portugues, suportada por esta carta aberta:


O concurso As 7 maravilhas portuguesas no mundo ignora a história da escravidão e do tráfico atlântico

Há mais ou menos vinte anos, vários países europeus, americanos e africanos vêm afirmando a memória dolorosa do comércio de africanos escravizados e valorizando o patrimônio que lhe é associado. Essa valorização se traduziu não somente na publicação de um grande número de obras historiográficas, mas também se expressou na realização de projetos como A Rota do Escravo iniciado pela UNESCO em 1994.

Apesar das dificuldades e das lutas políticas que envolveram a emergência da memória do passado escravista das nações europeias, americanas e africanas, de dez anos para cá a memória e a história do comércio atlântico passaram a fazer parte da memória pública de muitos países nos três continentes circundando o Atlântico. Em 2001, através da Lei Taubira, a França foi o primeiro país a reconhecer a escravidão e o tráfico atlântico como crimes contra a humanidade. Também na França, o 10 de Maio é doravante "dia nacional de comemoração das memórias do tráfico negreiro, da escravatura e das suas abolições". Em 2001, em Durban na África do Sul, a Terceira Conferência da ONU contra o racismo inscreveu em suas declarações finais a escravidão como "crime contra a humanidade". Em 1992, na Casa dos Escravos na Ilha de Gorée no Senegal, o Papa João Paulo II expressou suas desculpas pelo papel desempenhado pela Igreja Católica durante o tráfico atlântico. Bill Clinton, George W. Bush, e o próprio Presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, condenaram publicamente a participação passada de seus países no comércio atlântico de africanos escravizados. Em 2006, Michaelle Jean, governadora geral do Canadá, escolheu o Castelo de Elmina em Gana para denunciar passado escravista. Em 2007, durante as comemorações do aniversário de duzentos anos da abolição do tráfico de escravos pela Inglaterra, foi a vez do ministro Tony Blair expressar publicamente seu profundo pesar pelo papel da Grã-Bretanha no comércio de africanos escravizados.

Em pleno ano de 2009, o governo de Portugal e instituições portuguesas como a Universidade de Coimbra, escolheram um caminho oposto ao descrito acima. No primeiro semestre desse ano essas instituições apoiaram a realização de um concurso para escolher as Sete Maravilhas Portuguesas no Mundo. Na lista das Sete Maravilhas a serem votadas pelo público na internet (http://www.7maravilhas.sapo.pt), constam não somente o Castelo São Jorge da Mina (Elmina), entreposto comercial fundado pelos portugueses em 1482, mas também a Cidade Velha (Ribeira Grande) na Ilha de Santiago em Cabo Verde, além de Luanda e da Ilha de Moçambique. Ao descrever esses sítios, a organização do concurso optou por omitir o uso desses lugares para o comércio de escravos. No texto descrevendo o Castelo São Jorge da Mina ou Elmina chegou-se ao cúmulo de afirmar que aquele local foi entreposto de escravos somente a partir da ocupação holandesa em 1637.

Para ser fiel à história e moralmente responsável, consideramos que a inclusão desses "monumentos" no dito concurso deveria ser acompanhada de informações completas sobre o papel deles no tráfico atlântico, assim como sobre seu uso atual. O Castelo de São Jorge da Mina ou Elmina, por exemplo, é hoje um museu que tenta retratar a história do tráfico. Trata-se de um lugar visitado por milhares de turistas de todo o mundo, entre os quais muitos representantes da diáspora africana que buscam ali prestar homenagem a seus ancestrais. O governo português, as instituições que apóiam o concurso e sua organização ignoraram a dor daqueles que tiveram seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos. Seria possível desvincular a arquitetura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm no presente enquanto lugares de memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colônias européias ? Segundo as estimativas mais recentes (www.slavevoyages.org), Portugal e posteriormente sua ex-colônia, o Brasil, foram juntos responsáveis por quase a metade dos 12 milhões de cativos transportados através do Atlântico.

Em respeito à história e à memória dos milhões de vítimas do tráfico atlântico de escravos, viemos através desta carta aberta repudiar a omissão do papel que tiveram esses lugares no comércio atlântico de africanos escravizados. Convidamos todos aqueles que têm um compromisso com a pesquisa do tráfico atlântico de escravos e da escravidão a repudiar que essa história seja banalizada e apagada em prol da exaltação de um passado português glorioso expresso na suposta "beleza" arquitetural de tais sítios de morte e tragédia.

[Podera' consultar a lista de subscritores e assinar a peticao aqui]
Ainda sobre esta questao, um grupo de historiadores, incluindo alguns angolanos, acaba de emitir uma peticao dirigida ao Governo Portugues, suportada por esta carta aberta:


O concurso As 7 maravilhas portuguesas no mundo ignora a história da escravidão e do tráfico atlântico

Há mais ou menos vinte anos, vários países europeus, americanos e africanos vêm afirmando a memória dolorosa do comércio de africanos escravizados e valorizando o patrimônio que lhe é associado. Essa valorização se traduziu não somente na publicação de um grande número de obras historiográficas, mas também se expressou na realização de projetos como A Rota do Escravo iniciado pela UNESCO em 1994.

Apesar das dificuldades e das lutas políticas que envolveram a emergência da memória do passado escravista das nações europeias, americanas e africanas, de dez anos para cá a memória e a história do comércio atlântico passaram a fazer parte da memória pública de muitos países nos três continentes circundando o Atlântico. Em 2001, através da Lei Taubira, a França foi o primeiro país a reconhecer a escravidão e o tráfico atlântico como crimes contra a humanidade. Também na França, o 10 de Maio é doravante "dia nacional de comemoração das memórias do tráfico negreiro, da escravatura e das suas abolições". Em 2001, em Durban na África do Sul, a Terceira Conferência da ONU contra o racismo inscreveu em suas declarações finais a escravidão como "crime contra a humanidade". Em 1992, na Casa dos Escravos na Ilha de Gorée no Senegal, o Papa João Paulo II expressou suas desculpas pelo papel desempenhado pela Igreja Católica durante o tráfico atlântico. Bill Clinton, George W. Bush, e o próprio Presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, condenaram publicamente a participação passada de seus países no comércio atlântico de africanos escravizados. Em 2006, Michaelle Jean, governadora geral do Canadá, escolheu o Castelo de Elmina em Gana para denunciar passado escravista. Em 2007, durante as comemorações do aniversário de duzentos anos da abolição do tráfico de escravos pela Inglaterra, foi a vez do ministro Tony Blair expressar publicamente seu profundo pesar pelo papel da Grã-Bretanha no comércio de africanos escravizados.

Em pleno ano de 2009, o governo de Portugal e instituições portuguesas como a Universidade de Coimbra, escolheram um caminho oposto ao descrito acima. No primeiro semestre desse ano essas instituições apoiaram a realização de um concurso para escolher as Sete Maravilhas Portuguesas no Mundo. Na lista das Sete Maravilhas a serem votadas pelo público na internet (http://www.7maravilhas.sapo.pt), constam não somente o Castelo São Jorge da Mina (Elmina), entreposto comercial fundado pelos portugueses em 1482, mas também a Cidade Velha (Ribeira Grande) na Ilha de Santiago em Cabo Verde, além de Luanda e da Ilha de Moçambique. Ao descrever esses sítios, a organização do concurso optou por omitir o uso desses lugares para o comércio de escravos. No texto descrevendo o Castelo São Jorge da Mina ou Elmina chegou-se ao cúmulo de afirmar que aquele local foi entreposto de escravos somente a partir da ocupação holandesa em 1637.

Para ser fiel à história e moralmente responsável, consideramos que a inclusão desses "monumentos" no dito concurso deveria ser acompanhada de informações completas sobre o papel deles no tráfico atlântico, assim como sobre seu uso atual. O Castelo de São Jorge da Mina ou Elmina, por exemplo, é hoje um museu que tenta retratar a história do tráfico. Trata-se de um lugar visitado por milhares de turistas de todo o mundo, entre os quais muitos representantes da diáspora africana que buscam ali prestar homenagem a seus ancestrais. O governo português, as instituições que apóiam o concurso e sua organização ignoraram a dor daqueles que tiveram seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos. Seria possível desvincular a arquitetura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm no presente enquanto lugares de memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colônias européias ? Segundo as estimativas mais recentes (www.slavevoyages.org), Portugal e posteriormente sua ex-colônia, o Brasil, foram juntos responsáveis por quase a metade dos 12 milhões de cativos transportados através do Atlântico.

Em respeito à história e à memória dos milhões de vítimas do tráfico atlântico de escravos, viemos através desta carta aberta repudiar a omissão do papel que tiveram esses lugares no comércio atlântico de africanos escravizados. Convidamos todos aqueles que têm um compromisso com a pesquisa do tráfico atlântico de escravos e da escravidão a repudiar que essa história seja banalizada e apagada em prol da exaltação de um passado português glorioso expresso na suposta "beleza" arquitetural de tais sítios de morte e tragédia.

[Podera' consultar a lista de subscritores e assinar a peticao aqui]

Wednesday, 27 May 2009

NOVO LIVRO SOBRE O 27 DE MAIO

"O MEU TESTEMUNHO- a purga do 27 de Maio de 1977 e
as suas consequências trágicas" de JOSÉ ADÃO FRAGOSO

AINDA SOBRE O NOSSO CHURRASCO...

Perhaps the people in Luanda considered Nando's SA Grilled Chicken to be a cheap imposter of the famed Angolan original 'O Nosso Churrasco' and that's why the restaurant didn't stand a chance. I'd love to try it out myself, in person, in Angola or South Africa.

Here's an idea:

The Angolan Foreign Minister, Assunção Afonso dos Anjos, was in Washington D.C. this week meeting with key members of the Obama administration to discuss among other things bilateral trade and development. On the 16th anniversary of US-Angolan bilateral relations, US Trade Representative Ambassador Ron Kirk signed the US-Angolan Trade and Investment Framework Agreement (TIFA) with the Angolan Foreign Minister. The agreement seeks to help Angola diversify its trade with the United States away from Angola's over-dependence upon petroleum exports (presently about $4 billion/year to the US). Did you know that Angola, Nigeria, and Algeria supply more than 90% of the liquified natural gas consumed on the US East Coast? Yikes, that's dangerous! This of course is why I am visiting you today my dear, to pass along that bit of news in case you somehow missed it.

So what some smart and eager young entrepreneurs in Luanda need to do is figure out how to sell Angola's famous grilled chicken 'O Nosso Churassco' in the United States under the new trade agreement. Who knows, they may become very successful and put Kentucky Fried Chicken out of business or at least cut deeply into their market share. We LOVE chicken in the U.S.A.

You can read more about it over at the America.gov website (click on the Africa subheading) and read the article 'High-Level Engagement with Africa has Started' May 22, 2009. Also have a look at Ambassador Ron Kirk's profile over at the United States Trade Representative website. Ron Kirk is the former Mayor of Dallas, Texas and (oh my gosh), yep, he's black like you and me.


{Comment by BRE here}
Perhaps the people in Luanda considered Nando's SA Grilled Chicken to be a cheap imposter of the famed Angolan original 'O Nosso Churrasco' and that's why the restaurant didn't stand a chance. I'd love to try it out myself, in person, in Angola or South Africa.

Here's an idea:

The Angolan Foreign Minister, Assunção Afonso dos Anjos, was in Washington D.C. this week meeting with key members of the Obama administration to discuss among other things bilateral trade and development. On the 16th anniversary of US-Angolan bilateral relations, US Trade Representative Ambassador Ron Kirk signed the US-Angolan Trade and Investment Framework Agreement (TIFA) with the Angolan Foreign Minister. The agreement seeks to help Angola diversify its trade with the United States away from Angola's over-dependence upon petroleum exports (presently about $4 billion/year to the US). Did you know that Angola, Nigeria, and Algeria supply more than 90% of the liquified natural gas consumed on the US East Coast? Yikes, that's dangerous! This of course is why I am visiting you today my dear, to pass along that bit of news in case you somehow missed it.

So what some smart and eager young entrepreneurs in Luanda need to do is figure out how to sell Angola's famous grilled chicken 'O Nosso Churassco' in the United States under the new trade agreement. Who knows, they may become very successful and put Kentucky Fried Chicken out of business or at least cut deeply into their market share. We LOVE chicken in the U.S.A.

You can read more about it over at the America.gov website (click on the Africa subheading) and read the article 'High-Level Engagement with Africa has Started' May 22, 2009. Also have a look at Ambassador Ron Kirk's profile over at the United States Trade Representative website. Ron Kirk is the former Mayor of Dallas, Texas and (oh my gosh), yep, he's black like you and me.


{Comment by BRE
here}

Monday, 25 May 2009

AFRIKA DAY



***

O meu colega Taju

http://www.africafiles.org/article.asp?ID=20889

Soube hj de manhã.
Uma gd perda...aprendi imenso com ele nestes dois últimos anos em que nos fomos encontrando.
Não sei se chegaste alguma vez a ler o que ele escrevia.

Ainda na semana passada lhe enviei um mail a brincar com ele porque tinha visto o nome dele na lista de agradecimentos
do livro do Richard Dowden (Africa: Altered States, Ordinary Miracles)....

Enfim....um triste acontecimento no dia da África...

Espero que estejas ainda Leoa and kicking assholes hard.

bjs,

L

{Message from Luis}


***

O meu colega Taju

http://www.africafiles.org/article.asp?ID=20889

Soube hj de manhã.
Uma gd perda...aprendi imenso com ele nestes dois últimos anos em que nos fomos encontrando.
Não sei se chegaste alguma vez a ler o que ele escrevia.

Ainda na semana passada lhe enviei um mail a brincar com ele porque tinha visto o nome dele na lista de agradecimentos
do livro do Richard Dowden (Africa: Altered States, Ordinary Miracles)....

Enfim....um triste acontecimento no dia da África...

Espero que estejas ainda Leoa and kicking assholes hard.

bjs,

L

{Message from Luis}

Thursday, 21 May 2009

LUANDANDO (IX)

NANDO'S: A (UN)SUCCESSFUL BRAND IN ANGOLA

I grew up thinking that our Angolan flame-grilled chiken or, more precisely, o nosso churrasco, was something ‘very ours’ – we had invented it, no one else in the world had ever even thought about it!


Well, that was until I found Nando’s for the first time in Botswana, some years ago... then in South Africa... then in London. Then I started hearing about the brand’s success wherever it opened and particularly in African countries. So, I started wondering - especially looking at the majority of Nando's clientele either in Africa or Europe - whether this thing with our churrasco was that ‘very ours’ after all, coz it looked more like a ‘very black ting’ all over the world!


And even though, to my taste, Nando’s flavours all considered didn’t beat our very own Angolan churrasco, I was still convinced that, given a chance, it could be a big hit in Angola – after all the brand is all built around Portuguese mystique, themes and flavours.
But... surprise, surprise... it opened in the heart of Luanda and closed down soon afterwards! And with it went its South African sister brand Steers. Lack of interest from the locals, I was told. More than that: an affront to our very own churrasco! And so, it closed down.


The only other place where I know Nando’s didn’t stand a chance is the most European of South African towns: Stellenbosch. Equally for lack of interest from the locals, albeit for different reasons: apparently it was ‘too black a thing’ to exist in Stellenbosch. And so, it didn’t even ever open there!

But what you really might like to know about Nando’s today is this:

After the ANC Youth League threatened "militant action" against the chicken outlet for making the youth leader appear mathematically challenged, guess who the government hired to feed the masses at President Jacob Zuma's inauguration?

About 32 000 portions of idla nathi -- a Nando's quarter chicken, chips, roll and a cooldrink -- were distributed to amazed citizens who had assembled at the foot of Union Buildings to cheer the new prez on his big day.

NANDO'S: A (UN)SUCCESSFUL BRAND IN ANGOLA

I grew up thinking that our Angolan flame-grilled chiken or, more precisely, o nosso churrasco, was something ‘very ours’ – we had invented it, no one else in the world had ever even thought about it!


Well, that was until I found Nando’s for the first time in Botswana, some years ago... then in South Africa... then in London. Then I started hearing about the brand’s success wherever it opened and particularly in African countries. So, I started wondering - especially looking at the majority of Nando's clientele either in Africa or Europe - whether this thing with our churrasco was that ‘very ours’ after all, coz it looked more like a ‘very black ting’ all over the world!


And even though, to my taste, Nando’s flavours all considered didn’t beat our very own Angolan churrasco, I was still convinced that, given a chance, it could be a big hit in Angola – after all the brand is all built around Portuguese mystique, themes and flavours.
But... surprise, surprise... it opened in the heart of Luanda and closed down soon afterwards! And with it went its South African sister brand Steers. Lack of interest from the locals, I was told. More than that: an affront to our very own churrasco! And so, it closed down.


The only other place where I know Nando’s didn’t stand a chance is the most European of South African towns: Stellenbosch. Equally for lack of interest from the locals, albeit for different reasons: apparently it was ‘too black a thing’ to exist in Stellenbosch. And so, it didn’t even ever open there!

But what you really might like to know about Nando’s today is this:

After the ANC Youth League threatened "militant action" against the chicken outlet for making the youth leader appear mathematically challenged, guess who the government hired to feed the masses at President Jacob Zuma's inauguration?

About 32 000 portions of idla nathi -- a Nando's quarter chicken, chips, roll and a cooldrink -- were distributed to amazed citizens who had assembled at the foot of Union Buildings to cheer the new prez on his big day.

Tuesday, 19 May 2009

BRASIL E ANGOLA UNIDOS PELA ARTE

Reduzir o Oceano Atlântico, que separa o Brasil de Angola, a um pequeno riacho e atravessá-lo de jangada.
Esse é o objetivo de um grupo de estudantes da sétima série da Escola Estadual Carlos Alberto Galhiego, em Campinas, interior de São Paulo, no Brasil. Eles terão como jangada a Internet e como ferramentas a criatividade e a Arte.
Tudo começou quando a professora Adriana Maria Paiola da Silva, que leciona Arte nesta Escola, conheceu e se identificou com os objetivos e a forma de atuação do Movimento Lev´Arte Angola.
“A humanização através da Arte traz grandes benefícios para os jovens e adolescentes, que descobrem um mundo novo, ampliam seus horizontes e melhoram a autoestima. É exatamente o que precisamos em nossa escola”, declara a professora.
Os contatos foram feitos com o coordenador do Lev´Arte Angola, Kardo Bestilo e a ótima receptividade foi essencial para a criação do Lev´Arte Brasil.
“Fomos muito bem recebidos e aceitos, o que deixou todos os alunos com grande motivação e expectativas. Agora vamos fazer acontecer no Brasil”, comemora Adriana Silva.
As atividades começarão oficialmente no dia 25 de maio, em homenagem ao Dia da África, quando serão lidos a mensagem de boas-vindas do Lev´Arte Angola, os poemas dos alunos, apresentação de dança entre outros eventos.
Mesmo marcado para o dia 25 de maio, as atividades do Lev´Arte Brasil começaram no dia 15, com a visita dos alunos a exposição Verso e Reverso, do artista plástico Julio Villani. Para muitos alunos esta visita foi a primeira vez que entrarão em uma galeria de arte.
“O início no Dia da África é muito significativo para todos nós. O Brasil possui muitas semelhanças com o povo africano. E também será nossa forma de homenagear o povo de Angola e de todo o continente africano”, explica a professora.
Depois da abertura oficial, o Lev´Arte Brasil pretende criar eventos semelhantes ao do parceiro em Angola, como A tarde da Poesia e ainda, participar ativamente do blogue Fazemos Acontecer com noticias atualizadas do Brasil e executar projetos em conjunto, como lançamento de livro, transmissão em tempo real do eventos e tudo o mais que for possível.
“A Arte é a grande unificadora desta iniciativa, que pretendemos que seja duradoura e traga bons frutos para os jovens de Campinas e Luanda”, finaliza Adriana Maria Paiola da Silva.

José Carlos da Silva
Campinas - Brasil

Informações adicionais
A Escola Estadual Carlos Alberto Galhiego, de Campinas, está situada no bairro Campo Grande, região Oeste e distante cerca de 20 quilometros do centro da cidade.
Parte dos bairros da Região Oeste, principalmente os localizados na região do Campo Grande e do Itajaí, são conhecidos pela grande autonomia, uma vez que se situam afastados do centro. Nessa região existem famílias de renda média e baixa. Os bairros da Zona Oeste não possuem Centros Culturais, Teatros, Galerias ou Casa de Espetáculos.
Reduzir o Oceano Atlântico, que separa o Brasil de Angola, a um pequeno riacho e atravessá-lo de jangada.
Esse é o objetivo de um grupo de estudantes da sétima série da Escola Estadual Carlos Alberto Galhiego, em Campinas, interior de São Paulo, no Brasil. Eles terão como jangada a Internet e como ferramentas a criatividade e a Arte.
Tudo começou quando a professora Adriana Maria Paiola da Silva, que leciona Arte nesta Escola, conheceu e se identificou com os objetivos e a forma de atuação do Movimento Lev´Arte Angola.
“A humanização através da Arte traz grandes benefícios para os jovens e adolescentes, que descobrem um mundo novo, ampliam seus horizontes e melhoram a autoestima. É exatamente o que precisamos em nossa escola”, declara a professora.
Os contatos foram feitos com o coordenador do Lev´Arte Angola, Kardo Bestilo e a ótima receptividade foi essencial para a criação do Lev´Arte Brasil.
“Fomos muito bem recebidos e aceitos, o que deixou todos os alunos com grande motivação e expectativas. Agora vamos fazer acontecer no Brasil”, comemora Adriana Silva.
As atividades começarão oficialmente no dia 25 de maio, em homenagem ao Dia da África, quando serão lidos a mensagem de boas-vindas do Lev´Arte Angola, os poemas dos alunos, apresentação de dança entre outros eventos.
Mesmo marcado para o dia 25 de maio, as atividades do Lev´Arte Brasil começaram no dia 15, com a visita dos alunos a exposição Verso e Reverso, do artista plástico Julio Villani. Para muitos alunos esta visita foi a primeira vez que entrarão em uma galeria de arte.
“O início no Dia da África é muito significativo para todos nós. O Brasil possui muitas semelhanças com o povo africano. E também será nossa forma de homenagear o povo de Angola e de todo o continente africano”, explica a professora.
Depois da abertura oficial, o Lev´Arte Brasil pretende criar eventos semelhantes ao do parceiro em Angola, como A tarde da Poesia e ainda, participar ativamente do blogue Fazemos Acontecer com noticias atualizadas do Brasil e executar projetos em conjunto, como lançamento de livro, transmissão em tempo real do eventos e tudo o mais que for possível.
“A Arte é a grande unificadora desta iniciativa, que pretendemos que seja duradoura e traga bons frutos para os jovens de Campinas e Luanda”, finaliza Adriana Maria Paiola da Silva.

José Carlos da Silva
Campinas - Brasil

Informações adicionais
A Escola Estadual Carlos Alberto Galhiego, de Campinas, está situada no bairro Campo Grande, região Oeste e distante cerca de 20 quilometros do centro da cidade.
Parte dos bairros da Região Oeste, principalmente os localizados na região do Campo Grande e do Itajaí, são conhecidos pela grande autonomia, uma vez que se situam afastados do centro. Nessa região existem famílias de renda média e baixa. Os bairros da Zona Oeste não possuem Centros Culturais, Teatros, Galerias ou Casa de Espetáculos.

Friday, 15 May 2009

OLHARES DIVERSOS (III)

«Temos Doutores Com Teses Cabuladas»

O académico Paulo de Carvalho, com uma frontalidade no mínimo espartana, disse o que nunca se ouviu sobre o ensino superior em Angola.

Afinal, a que ritmo anda o país nestes tempos de profunda e intensa febre de doutorismos, quando a Universidade, aparentemente, deixou de ser o patamar último do percurso das elites do saber? Temos um ensino superior que nos encha de orgulho? Para o Professor Doutor Paulo de Carvalho, a resposta é directa: “não temos ensino superior digno desse nome”.

O sociólogo critica, com dureza, a incompetência que campeia pelos corredores das universidades, de professores e estudantes; diz que de cada cem novos licenciados, em média apenas dez têm qualidade aceitável; e mostra-se indignado com as performances de decanos, chefes de departamentos e regentes de cursos que no ano de 2006, num congresso internacional sobre ciências sociais em Luanda, foram incapazes de apresentar uma comunicação que fosse. “Alguns foram até lá passear a sua banga, outros foram fazer relações públicas”.


(...)


Para ser reitor, vice-reitor ou decano não bastará ter um doutoramento, até porque se sabe que existem doutoramentos cujas teses nunca foram depositadas na biblioteca da universidade, como manda a regra académica.

Porquê? Porque foram teses cabuladas ou foram teses escritas por outras pessoas que não os autores cujos nomes aparecem na capa. Para que alguém chegue a decano, vice-reitor ou reitor tem de ter mais que um doutoramento – tem de ter trabalhos de investigação e tem de apresentar conferências e comunicações de qualidade em congressos e outros fóruns académicos, em Angola e no estrangeiro. Temos casos de pessoas que não têm nada disso e nem sequer têm perfil académico, mas que já dirigiram faculdades, devido exactamente ao processo de suposta eleição que havia por cá.


O resultado disso foi o combate à competência, o combate à seriedade, o combate ao rigor académico, a aversão à investigação científica por todo o país, bem como a promoção da mediocridade, da incompetência, da corrupção e da maledicência. É preciso acautelar isso nas novas instituições logo à partida, se quisermos que elas cumpram realmente a sua missão. E é preciso deixar de querer fazer política em universidades – a política faz-se em partidos políticos e não nas universidades.


(...)

Há algumas faculdades estatais visadas, mas ultimamente ouve-se realmente falar também de algumas universidades privadas, onde praticamente toda a gente aprova e onde a maioria dos docentes tem somente licenciatura e não são acompanhados por graduados, como a lei determina.

(...)

Para ter uma ideia do que se passa, digo-lhe apenas que sei de docentes que se ajoelham diante de estudantes, pedindo-lhes para não denunciarem a sua incompetência… Há-os, sim. E olhe que, hoje, alguns desses docentes sem o mínimo de competência dirigem departamentos e alguns outros já dirigiram até faculdades…

(...)

Sempre defendi a ideia segundo a qual temos de formar pessoas ao nível do mestrado e do doutoramento. Mesmo antes de ter o doutoramento defendia essa ideia, da mesma forma como defendo a ideia segundo a qual existem funções para as quais se tem necessariamente de exigir o doutoramento. É isso que acontece pelo mundo e não podemos continuar a achar-nos excepção, porque são as excepções que promovem a baixa qualidade do ensino superior. Sobre haver doutoramentos, vou citar um caso que me foi relatado por um colega (o Dr. Víctor Kajibanga) e que está até escrito numa revista de sociologia. Quando surgiu a ideia de criação do primeiro curso de Sociologia em Angola, quem se opôs foram (ao contrário do que se possa imaginar) sociólogos. Porquê? Por temerem concorrência.

Só os incompetentes receiam que os seus estudantes os possam superar. Da mesma forma, quem rejeita a ideia de dever haver hoje doutoramentos em Angola são pessoas que receiam ser ultrapassadas pelos novos doutorados.


[Aqui]

«Temos Doutores Com Teses Cabuladas»

O académico Paulo de Carvalho, com uma frontalidade no mínimo espartana, disse o que nunca se ouviu sobre o ensino superior em Angola.

Afinal, a que ritmo anda o país nestes tempos de profunda e intensa febre de doutorismos, quando a Universidade, aparentemente, deixou de ser o patamar último do percurso das elites do saber? Temos um ensino superior que nos encha de orgulho? Para o Professor Doutor Paulo de Carvalho, a resposta é directa: “não temos ensino superior digno desse nome”.

O sociólogo critica, com dureza, a incompetência que campeia pelos corredores das universidades, de professores e estudantes; diz que de cada cem novos licenciados, em média apenas dez têm qualidade aceitável; e mostra-se indignado com as performances de decanos, chefes de departamentos e regentes de cursos que no ano de 2006, num congresso internacional sobre ciências sociais em Luanda, foram incapazes de apresentar uma comunicação que fosse. “Alguns foram até lá passear a sua banga, outros foram fazer relações públicas”.


(...)


Para ser reitor, vice-reitor ou decano não bastará ter um doutoramento, até porque se sabe que existem doutoramentos cujas teses nunca foram depositadas na biblioteca da universidade, como manda a regra académica.

Porquê? Porque foram teses cabuladas ou foram teses escritas por outras pessoas que não os autores cujos nomes aparecem na capa. Para que alguém chegue a decano, vice-reitor ou reitor tem de ter mais que um doutoramento – tem de ter trabalhos de investigação e tem de apresentar conferências e comunicações de qualidade em congressos e outros fóruns académicos, em Angola e no estrangeiro. Temos casos de pessoas que não têm nada disso e nem sequer têm perfil académico, mas que já dirigiram faculdades, devido exactamente ao processo de suposta eleição que havia por cá.


O resultado disso foi o combate à competência, o combate à seriedade, o combate ao rigor académico, a aversão à investigação científica por todo o país, bem como a promoção da mediocridade, da incompetência, da corrupção e da maledicência. É preciso acautelar isso nas novas instituições logo à partida, se quisermos que elas cumpram realmente a sua missão. E é preciso deixar de querer fazer política em universidades – a política faz-se em partidos políticos e não nas universidades.


(...)

Há algumas faculdades estatais visadas, mas ultimamente ouve-se realmente falar também de algumas universidades privadas, onde praticamente toda a gente aprova e onde a maioria dos docentes tem somente licenciatura e não são acompanhados por graduados, como a lei determina.

(...)

Para ter uma ideia do que se passa, digo-lhe apenas que sei de docentes que se ajoelham diante de estudantes, pedindo-lhes para não denunciarem a sua incompetência… Há-os, sim. E olhe que, hoje, alguns desses docentes sem o mínimo de competência dirigem departamentos e alguns outros já dirigiram até faculdades…

(...)

Sempre defendi a ideia segundo a qual temos de formar pessoas ao nível do mestrado e do doutoramento. Mesmo antes de ter o doutoramento defendia essa ideia, da mesma forma como defendo a ideia segundo a qual existem funções para as quais se tem necessariamente de exigir o doutoramento. É isso que acontece pelo mundo e não podemos continuar a achar-nos excepção, porque são as excepções que promovem a baixa qualidade do ensino superior. Sobre haver doutoramentos, vou citar um caso que me foi relatado por um colega (o Dr. Víctor Kajibanga) e que está até escrito numa revista de sociologia. Quando surgiu a ideia de criação do primeiro curso de Sociologia em Angola, quem se opôs foram (ao contrário do que se possa imaginar) sociólogos. Porquê? Por temerem concorrência.

Só os incompetentes receiam que os seus estudantes os possam superar. Da mesma forma, quem rejeita a ideia de dever haver hoje doutoramentos em Angola são pessoas que receiam ser ultrapassadas pelos novos doutorados.


[Aqui]

Tuesday, 12 May 2009

AFROMAN!

«Não sou racista, sou realista»


Yannick Ngombo, o Afroman, é o «rapper» do momento em Angola. Ele foi o músico que mais gente conseguiu levar ao estádio dos Coqueiros, naquele que seria o seu primeiro grande espectáculo ao vivo, a 23 de Janeiro último. Mais de 22 mil pessoas (cerca de 30 mil segundo um repórter do Jornal de Angola) se fizeram presentes, numa noite inesquecível, para a apresentação do seu álbum de estreia, o «Mentalidade».


[Mentalidade]

Antes, foi o «culpado» do encerramento da «portaria» do cine Atlântico, à Vila Alice, devido aos tumultos que se registaram na primeira sessão de venda pública do seu disco, quando os apreciadores da sua música não olharam a meios para terem a obra nas mãos. A polícia teve de intervir e as autoridades, sob pressão dos donos das lojas situadas no cine, decidiram-se pelo encerramento dessa kitanda dos músicos, transferindo-a para o Parque da Independência, umas centenas de metros mais adiante.


[Possas]

A popularidade da sua música reside no facto de espelhar nelas as vivências que a maior parte de nós tem no dia-a-dia. Em suma, fala dos problemas do povo e o povo, em face disso, se revê nas suas canções. Yannick Ngombo é, seguramente, o último grande fenómeno de massas.


[Controla-se]

Ele é p’ra aqui chamado hoje devido a uma canção que está a «bater» pelo país, por se debruçar sobre uma questão que temos digerido mal, mas que, embora muitos queiram fingir, existe a olhos nus, com consequências negativas para a sociedade. Estamos a falar da discriminação racial, em especial aquela que se abate sobre a maioria do povo: os negros.




[Pra Que]

Com o título de «Realista», a música retrata diversas situações em que esta prática é patente, apelando para que se ponha fim a ela, sob pena de se hipotecar o futuro dos nossos filhos e netos, como quem diz, do próprio país. Curiosamente, ela não faz parte do «Mentalidade», embora já estivesse pronta na altura em que este álbum foi produzido.


[Pelo Menos Bom Dia - feat. Matias Damasio]

Porque razão é que tal aconteceu, foi o que o Semanário Angolense pretendeu, entre outras coisas, saber de Yannick Ngombo, o Afroman, a quem alguns sectores já estão a rotular de «racista». Ele diz que «racista» não é, mas simplesmente «realista».


[Vai e Vem]

Numa entrevista que concedeu ao Semanário Angolense, da qual, no entanto, nos vamos apenas ater aos envolvimentos da canção em apreço num primeiro momento, Yannick Ngombo explica as razões da não inclusão no «Mentalidade» e do seu surgimento no mercado paralelo, ou seja, nos candongueiros e noutras «discotecas-auto» ou ainda em festas ou reuniões de amigos e compadres, onde acaba por assumir um carácter com um quê de «revolucionário», devido à controversa temática nela contida.


[A Luta]

«A música foi feita em função da experiência que tive no exterior. Não há pior coisa do que ser discriminado racialmente. E isto aconteceu comigo. Quando voltei para o país, encontrei a mesma coisa: é o negro a discriminar o próprio negro e o branco a fazer a mesma coisa ou pior. Possas que horror!», justifica o autor do «1-2-3».




[1-2-3]

Yannick Ngombo diz que a música se refere a muitas «cenas de discriminação que têm acontecido cá entre nós, principalmente em relação à cor de cada um».
Segundo o homem de Maquela do Zombo, foi «a força da traição e da pirataria» que colocou a canção no ar, uma vez que estava a projectar inseri-la no seu segundo álbum. «E porque não no Mentalidade, se já estava pronta?», arriscou o jornalista, ao que Yannick Ngombo disse ter sentido necessidade de fazer uma espécie de auto-censura à canção, antes de se decidir em torná-la pública.


[Traz Azar]

«A música faz menção a cenas de discriminação. Você tem vivido esta realidade?», insistiu o jornalista. «Mano, eu não canto à toa. Tudo que canto são situações vividas e todas reais. Fui muitas vezes humilhado em discotecas, em agências bancárias, e em muitos outros sítios públicos», responde.


[Quem Fez a Mulher]

Acrescentando: «Por exemplo, uma vez, quando estive em Benguela e na Huíla, fui travado na porta de uma discoteca por ser negro. Segundo eles (os porteiros), negro em péssimas condições ou calçado de sapatilhas, não podia ter acesso. Mas, os dois brancos que vinham depois de mim, trajados quase com a mesma roupa, tiveram acesso. Isto é coisa de admirar, porque todos nós somos um só povo. Nós não devemos ter preconceito, porque se a cena continuar assim, o que poderá surgir é mais uma guerra».

[Texto do Semanario Angolense, 09/05/09 - onde podera' tambem encontrar a letra de "Realista"]


[Coisa Minima]

N.B.: Nao e' por nada, mas exemplos praticos de "Coisa Minima" podem ser encontrados aqui.

«Não sou racista, sou realista»


Yannick Ngombo, o Afroman, é o «rapper» do momento em Angola. Ele foi o músico que mais gente conseguiu levar ao estádio dos Coqueiros, naquele que seria o seu primeiro grande espectáculo ao vivo, a 23 de Janeiro último. Mais de 22 mil pessoas (cerca de 30 mil segundo um repórter do Jornal de Angola) se fizeram presentes, numa noite inesquecível, para a apresentação do seu álbum de estreia, o «Mentalidade».


[Mentalidade]

Antes, foi o «culpado» do encerramento da «portaria» do cine Atlântico, à Vila Alice, devido aos tumultos que se registaram na primeira sessão de venda pública do seu disco, quando os apreciadores da sua música não olharam a meios para terem a obra nas mãos. A polícia teve de intervir e as autoridades, sob pressão dos donos das lojas situadas no cine, decidiram-se pelo encerramento dessa kitanda dos músicos, transferindo-a para o Parque da Independência, umas centenas de metros mais adiante.


[Possas]

A popularidade da sua música reside no facto de espelhar nelas as vivências que a maior parte de nós tem no dia-a-dia. Em suma, fala dos problemas do povo e o povo, em face disso, se revê nas suas canções. Yannick Ngombo é, seguramente, o último grande fenómeno de massas.


[Controla-se]

Ele é p’ra aqui chamado hoje devido a uma canção que está a «bater» pelo país, por se debruçar sobre uma questão que temos digerido mal, mas que, embora muitos queiram fingir, existe a olhos nus, com consequências negativas para a sociedade. Estamos a falar da discriminação racial, em especial aquela que se abate sobre a maioria do povo: os negros.




[Pra Que]

Com o título de «Realista», a música retrata diversas situações em que esta prática é patente, apelando para que se ponha fim a ela, sob pena de se hipotecar o futuro dos nossos filhos e netos, como quem diz, do próprio país. Curiosamente, ela não faz parte do «Mentalidade», embora já estivesse pronta na altura em que este álbum foi produzido.


[Pelo Menos Bom Dia - feat. Matias Damasio]

Porque razão é que tal aconteceu, foi o que o Semanário Angolense pretendeu, entre outras coisas, saber de Yannick Ngombo, o Afroman, a quem alguns sectores já estão a rotular de «racista». Ele diz que «racista» não é, mas simplesmente «realista».


[Vai e Vem]

Numa entrevista que concedeu ao Semanário Angolense, da qual, no entanto, nos vamos apenas ater aos envolvimentos da canção em apreço num primeiro momento, Yannick Ngombo explica as razões da não inclusão no «Mentalidade» e do seu surgimento no mercado paralelo, ou seja, nos candongueiros e noutras «discotecas-auto» ou ainda em festas ou reuniões de amigos e compadres, onde acaba por assumir um carácter com um quê de «revolucionário», devido à controversa temática nela contida.


[A Luta]

«A música foi feita em função da experiência que tive no exterior. Não há pior coisa do que ser discriminado racialmente. E isto aconteceu comigo. Quando voltei para o país, encontrei a mesma coisa: é o negro a discriminar o próprio negro e o branco a fazer a mesma coisa ou pior. Possas que horror!», justifica o autor do «1-2-3».




[1-2-3]

Yannick Ngombo diz que a música se refere a muitas «cenas de discriminação que têm acontecido cá entre nós, principalmente em relação à cor de cada um».
Segundo o homem de Maquela do Zombo, foi «a força da traição e da pirataria» que colocou a canção no ar, uma vez que estava a projectar inseri-la no seu segundo álbum. «E porque não no Mentalidade, se já estava pronta?», arriscou o jornalista, ao que Yannick Ngombo disse ter sentido necessidade de fazer uma espécie de auto-censura à canção, antes de se decidir em torná-la pública.


[Traz Azar]

«A música faz menção a cenas de discriminação. Você tem vivido esta realidade?», insistiu o jornalista. «Mano, eu não canto à toa. Tudo que canto são situações vividas e todas reais. Fui muitas vezes humilhado em discotecas, em agências bancárias, e em muitos outros sítios públicos», responde.


[Quem Fez a Mulher]

Acrescentando: «Por exemplo, uma vez, quando estive em Benguela e na Huíla, fui travado na porta de uma discoteca por ser negro. Segundo eles (os porteiros), negro em péssimas condições ou calçado de sapatilhas, não podia ter acesso. Mas, os dois brancos que vinham depois de mim, trajados quase com a mesma roupa, tiveram acesso. Isto é coisa de admirar, porque todos nós somos um só povo. Nós não devemos ter preconceito, porque se a cena continuar assim, o que poderá surgir é mais uma guerra».

[Texto do Semanario Angolense, 09/05/09 - onde podera' tambem encontrar a letra de "Realista"]


[Coisa Minima]

N.B.: Nao e' por nada, mas exemplos praticos de "Coisa Minima" podem ser encontrados aqui.

Monday, 11 May 2009

DE GRIPES E PATRIOTISMOS

A gripe suína e os tugas

Por Joao Melo

4 de Maio de 2009. Este dia ficará gravado para todo o sempre, de forma absolutamente indelével, na gloriosa história dos tugas: foi confirmado o primeiro caso de gripe suína (ou melhor, ex-suína, agora é gripe A) em Portugal. A honra lusitana está salva. Os espanhóis – que já têm cerca de duas dezenas de casos - não vão continuar a estigá-los.
Este facto extraordinário conseguiu ofuscar a canonização de D. Nuno Álvares Pereira, o herói de Aljubarrota, que vários séculos depois salvou da cegueira uma pobre mulher de uma buala portuguesa qualquer que, desajeitadamente, deixou o óleo da frigideira saltar-lhe para as vistas, como diriam os mangolês. Bastou à matrona lusitana invocar o nome do herói, que logo a sua visão melhorou. Ter-se-á transformado numa Super Mulher e passado a ver através das paredes e outras superfícies opacas? Eis um mistério que a malta (e bota malta nisso!) do Eixo do Mal poderá descobrir.
Quis o acaso que eu, uma simples e pobre criatura angolana, sem profissão reconhecida, testemunhasse, estando de passage rápida pelo novo Ultramar, por questões familiares, todos esses factos verdadeiramente inauditos. Vou registá-lo, pois, no meu CV. Se amanhã alguém criar o Prémio da Testemunha Sortuda do Século, talvez me calhe alguma coisa, que eu estou a precisar de arredondar o salário. Digo mesmo: foi pura sorte.
Quando eu cheguei, os jornalistas portugueses estavam à beira de um ataque de nervos. Como era possível ainda não se ter registado nenhum caso da nova gripe no indefectível jardim à beira mar plantado? Eu assistia à televisão e via me acometido de uma profunda compaixão por esses briosos e patrióticos profissionais.
As autoridades sanitárias do país tentavam explicar, serena e cientificamente, que os casos suspeitos de terem sido contaminados pela gripe A não foram comprovados, isto é, os suspeitos não eram culpados. Mas, como, os suspeitos não são culpados? Então, não ensina o jornalismo português (e outros… e outros…) que os suspeitos são sempre culpados?
E aquele doente de Coimbra? E aquela velhinha que, de repente, começou a espirrar e a falar espanhol?
Assisti também, ao vivo e a cores, à cobertura televisiva da chegada do primeiro avião tuga proveniente da Cidade do México depois do surgimento da nova doença. Estavam lá todos os canais, claro. Apesar de tudo, não notei quaisquer diferenças entre eles: todos os corajosos e temerarious repórteres enviados ao aeroporto da Portela para registar aquele momento ímpar e único me pareciam igualmente desesperados. Apenas estranhei não vê-los de máscara tapando a boca, mas, enfim, deve ser da crise.
Não larguei a tela doentia um minuto sequer. Comecei a imaginar os passageiros tugas resgatados do inferno mexicano saindo do avião em braços, espirrando e tossindo desvairadamente, proferindo discursos em línguas arcaicas, talvez alguns deles já num adiantado processo de transformação em autênticos ngulos. Não ia perder esse espectáculo.
Infelizmente, para saber o que de facto se passou, terão de ler os jornais e ver as televisões portuguesas, que são especializados em relatar não aquilo que vêem, mas aquilo que querem ver. Pela minha parte, lembro-me da célebre frase de uma personagem das aventuras de Astérix: - “Esses gauleses são malucos!”.
Eu não tenho dúvidas de que esses tugas são depressivos. Vou masé mimbora prá banda.

[In Novo Jornal, 08/05/09]

A gripe suína e os tugas

Por Joao Melo

4 de Maio de 2009. Este dia ficará gravado para todo o sempre, de forma absolutamente indelével, na gloriosa história dos tugas: foi confirmado o primeiro caso de gripe suína (ou melhor, ex-suína, agora é gripe A) em Portugal. A honra lusitana está salva. Os espanhóis – que já têm cerca de duas dezenas de casos - não vão continuar a estigá-los.
Este facto extraordinário conseguiu ofuscar a canonização de D. Nuno Álvares Pereira, o herói de Aljubarrota, que vários séculos depois salvou da cegueira uma pobre mulher de uma buala portuguesa qualquer que, desajeitadamente, deixou o óleo da frigideira saltar-lhe para as vistas, como diriam os mangolês. Bastou à matrona lusitana invocar o nome do herói, que logo a sua visão melhorou. Ter-se-á transformado numa Super Mulher e passado a ver através das paredes e outras superfícies opacas? Eis um mistério que a malta (e bota malta nisso!) do Eixo do Mal poderá descobrir.
Quis o acaso que eu, uma simples e pobre criatura angolana, sem profissão reconhecida, testemunhasse, estando de passage rápida pelo novo Ultramar, por questões familiares, todos esses factos verdadeiramente inauditos. Vou registá-lo, pois, no meu CV. Se amanhã alguém criar o Prémio da Testemunha Sortuda do Século, talvez me calhe alguma coisa, que eu estou a precisar de arredondar o salário. Digo mesmo: foi pura sorte.
Quando eu cheguei, os jornalistas portugueses estavam à beira de um ataque de nervos. Como era possível ainda não se ter registado nenhum caso da nova gripe no indefectível jardim à beira mar plantado? Eu assistia à televisão e via me acometido de uma profunda compaixão por esses briosos e patrióticos profissionais.
As autoridades sanitárias do país tentavam explicar, serena e cientificamente, que os casos suspeitos de terem sido contaminados pela gripe A não foram comprovados, isto é, os suspeitos não eram culpados. Mas, como, os suspeitos não são culpados? Então, não ensina o jornalismo português (e outros… e outros…) que os suspeitos são sempre culpados?
E aquele doente de Coimbra? E aquela velhinha que, de repente, começou a espirrar e a falar espanhol?
Assisti também, ao vivo e a cores, à cobertura televisiva da chegada do primeiro avião tuga proveniente da Cidade do México depois do surgimento da nova doença. Estavam lá todos os canais, claro. Apesar de tudo, não notei quaisquer diferenças entre eles: todos os corajosos e temerarious repórteres enviados ao aeroporto da Portela para registar aquele momento ímpar e único me pareciam igualmente desesperados. Apenas estranhei não vê-los de máscara tapando a boca, mas, enfim, deve ser da crise.
Não larguei a tela doentia um minuto sequer. Comecei a imaginar os passageiros tugas resgatados do inferno mexicano saindo do avião em braços, espirrando e tossindo desvairadamente, proferindo discursos em línguas arcaicas, talvez alguns deles já num adiantado processo de transformação em autênticos ngulos. Não ia perder esse espectáculo.
Infelizmente, para saber o que de facto se passou, terão de ler os jornais e ver as televisões portuguesas, que são especializados em relatar não aquilo que vêem, mas aquilo que querem ver. Pela minha parte, lembro-me da célebre frase de uma personagem das aventuras de Astérix: - “Esses gauleses são malucos!”.
Eu não tenho dúvidas de que esses tugas são depressivos. Vou masé mimbora prá banda.

[In Novo Jornal, 08/05/09]

Saturday, 9 May 2009

OLHARES DIVERSOS (II)


O texto que planeara postar neste segundo “Olhares Diversos”, encontrei-o ha’ dias, por mero acaso, num forum cujo link segui a partir da lista de “referrers” de um dos contadores deste blog – trabalho a que apenas me dou quando tais referencias indiciam uma qualquer ligacao a posts meus. Ao chegar ao tal forum, assolou-me imediatamente uma sensacao de mal-estar pelas mencoes no seu cabecalho ao “white pride world wide”...

Continuei, no entanto, a descer pela pagina abaixo a procura do que por la’ poderia haver relacionado com o meu blog. E, a medida que o fazia, pelos titulos, as imagens e, sobretudo, a referencia permanente a Declaracao da ONU sobre os Direitos dos Povos Indigenas, foi-se-me instalando a duvida sobre se realmente aquele se trataria de um forum da “extrema-direita racista”... ate’ que encontrei o que o ligava ao meu blog: este texto do meu amigo Denudado aqui publicado na serie “Be My Guest!”.

Mas, chamou-me particularmente a atencao o post imediatamente anterior, sob o titulo "Brancos, Pretos e Mulatos", que assim comecava: “Uma boa parte dos mulatos, nos tempos coloniais, não saberia quem era o pai. Os brancos entravam no caniço e tinham a negra que quisessem. A bem ou a mal. A seguir desapareciam, e como poderia alguém saber de onde eram, como se chamavam? Se os mulatos eram renegados pelos pais, não aconteceria por serem mulatos, mas por serem filhos nascidos fora do casamento. Os brancos mantinham a mulher branca algures no centro da cidade, ou na Metrópole. E para lá seguiam. As "traquinices" sexuais dos brancos com negras não assombravam o seu futuro, porque uma negra não tinha poder para reclamar qualquer paternidade. Ninguém lhe daria crédito.”

Enquanto o lia, a partir de um determinado momento comecei a ficar com a sensacao de que conhecia aquele tipo de estoria e a forma como era escrita de um blog que 'espreitei' durante algum tempo (ainda muito proximo de quando me lancei na blogosfera, qual “pata brava em mar alto”...). Cheguei mesmo a inclui-lo nos links do meu blog, mas pouco tempo depois conclui que, por “mais que perfeito” que fosse, aquele, definitivamente, nao era o meu mundo. “Deslinkei-o” entao e aos poucos fui deixando de o visitar.

Ja’ la’ nao ia ha’ um bom par de anos (e’... ja’ por aqui ando ha’ uns tempos...), ate’ hoje, quando me preparava para postar aqui o texto em questao e fui a procura do sitio onde ele tinha sido originalmente publicado, porque faco sempre questao de indicar a origem do que aqui publico e que nao e' de minha autoria, e... sim, era do “Mundo Perfeito” (MP). E se isso nao constituiu espanto para mim, espantou-me deveras acabar por descobrir que a sua autora decidiu encerra-lo em protesto pela (re)postagem de textos seus em espacos com os quais nao se identifica ideologicamente e, transcrevo, “Por outro lado, sinto que o que fui escrevendo sobre as minhas memórias coloniais, as quais considero historica e politicamente relevantes, foi sendo erradamente interpretado. Afinal, talvez não seja possível escrever sobre colonialismo três décadas após o seu término, a não ser como se espera vê-lo escrito. Talvez o colonialismo não tenha terminado ainda. Talvez seja confuso isto de uma mulher não conservadora, um pouco anarca, independente de esquerda ser simultaneamente filha de uma pesada herança colonial que não nega.”

Tendo eu tido, nestas minhas lides na blogosfera e, muito especialmente, na lusosfera, as minhas mais do que suficientes doses de abusos de toda a ordem por parte de terceiros (incluindo gente nos antipodas das minhas conviccoes ideologicas e/ou inclinacao sexual), nao posso deixar de manifestar a minha solidariedade para com a lesada. No entanto, como ficou registado pelas minhas reaccoes a tais abusos, nao sei se, no seu lugar, eu teria tomado a mesma decisao, mas... longe de mim a leviandade de pretender questiona-la e muito menos as suas razoes. E, perante tal decisao e suas razoes, mesmo nao me tendo sentido movida por quaisquer intentos eticamente reprovaveis quando pensei em postar o seu texto aqui, coibi-me imediatamente de o fazer. Contudo, nao foi fundamentalmente isso que me levou a tracar estas linhas – mesmo porque acabei por ficar tambem a saber que ela ja’ decidiu criar um outro blog. No que lhe desejo melhor sorte.

O que me trouxe a estas linhas, porem, foi o reviver da sensacao de desconforto que sentira ao ler algumas das suas “cronicas coloniais” quando inicialmente descobri o MP. Fui para elas atraida nao apenas pelo tema, obviamente, mas tambem pela forma, nua e crua (quase que diria mordaz e impiedosa), como as escrevia. Mas esse polo de atraccao acabou por ser rapidamente anulado por um outro, senao de rejeicao, pelo menos de indiferenca: porque cedo fiquei convencida de que se tratava de alguem a tentar resolver intimamente a sua relacao com os seus pais, em particular com o seu pai, usando apenas como “pano de fundo” o mundo “dos (seus) pretos” e, como pretexto, o lugar do seu pai nesse mundo (um lugar com doses nauseantes de paternalismo para com os "seus pretos"...) e, mais particularmente, o seu lugar (dela, da sua mae e do seu pai) no mundo (e, mais nua e cruamente, no lugar mais intimo) “das pretas” (n.b.: a cronica que se tornou mais popular na serie entitulava-se, e perdoem-me os leitores mais susceptiveis, "a cona das pretas"...). Nao chegou a repugnar-me, muito menos a revoltar-me, porque... simples e sinceramente nunca a cheguei a perceber (particularmente se lida simultaneamente com outras posturas por si manifestadas sobre assuntos mais correntes da Africa post-colonial), mesmo porque nao me lembro de na altura ter conseguido ler alguma daquelas cronicas ate’ ao fim. Tomei-o apenas como algo pessoal da autora que, nao sendo de modo nenhum irrelevante, tinha um impacto limitado sobre o mundo que pretendia retratar. Por isso, tambem, achei a cronica que aqui pretendi postar adequada ao espaco de “olhares diversos” – como apenas isso, um olhar diverso sobre uma realidade que todos conhecemos de modos diversos.

E, tal como tive dificuldade em percebe-la, nao percebo a que proposito o texto do Denudado publicado aqui no meu blog constitui materia de interesse e "suporte de causa" para um forum de grupos racistas de extrema-direita. Nao sei sequer se foi esse o mesmo forum que provocou o encerramento do MP. Sei apenas que esta’ longe de mim a ideia de encerrar o meu blog por causa deles, porque... pura e simplesmente nao os percebo. Nem me interessa.

O que me interessa, todavia, em toda esta estoria, e’ a ideia de olhares diversos – neste caso, respectivamente de “extrema direita” e de “extrema(?) esquerda” (ja’ se escreveu bastante sobre a “atraccao entre os opostos” e sobre como, mais frequentemente do que nao, os extremos se tocam...) – mas convergentes, sobre um mesmo mundo, sobre os mesmos “objectos”: “os pretos” e, muito especialmente, “as pretas” e a sua intimidade. Porque, em ambos os casos, mesmo se com motivacoes diferentes, “os pretos”, e especialmente “as pretas”, a quem se inventaram mulatos, parecem nao passar disso mesmo: objectos para os quais se olha a distancia mas que se evita a todo o custo ver, sobre os quais se fala mas com quem nao se comunica e muito menos interage para la’ da superficie (para la’ da pele e da sua cor... para la’ do sexo!), as quais se usa para psicanalisar as relacoes entre eles - eles “sujeitos”, eles “outros” -, perante elas ou a sua revelia, mas nao a sua relacao com elas. E’ tudo quanto julgo perceber em ambos os casos. Ah... isso, mais o que me parece infinitamente ridiculo nas disputas sobre se “os brancos em Africa eram mais ou menos racistas que os brancos da Metropole”...

Mas tudo isto me leva a um outro questionamento: o deste olhar aqui apresentado sobre o que o meu antigo (e controverso) professor de Historia de Africa no Lubango, Arlindo Barbeitos, uma das pessoas que tive a oportunidade de reencontrar durante a minha recente estada em Luanda, classifica como “identidades coloniais equivocadas” (obviamente, nao tendo ainda lido o livro, reservo melhor opiniao para quando o puder fazer): “(...) no final, essas relacoes assemelham-se a um sistema de vasos comunicantes onde, neste caso preciso, dominadores e dominados se influenciam reciprocamente e em todos os dominios desde o seu primeiro contacto registado no seculo XVI. 'A relacao com o outro e’ inscrita virtualmente na relacao consigo mesmo', escreveu o sociologo Edgar Morin.”

Sera’ mesmo? Bom, admitamos que sim, que “a relacao com o outro e’ inscrita virtualmente na relacao consigo mesmo”. Mas sera’ que isso conduz necessariamente a um “equivoco de identidades”? Sera’ que os “vasos” a que se alude sao efectivamente “comunicantes”? Sera’ que, de facto, “dominadores e dominados se influenciam reciprocamente”? Nao contera’ a condicao de “dominador” (seja homem ou mulher, pai ou mae, preto, branco ou mulato), isso mesmo na sua essencia: dominar, influenciar unilateralmente? Nao serao os olhares trocados entre dominados e dominadores numa relacao de poder (como a que e', sempre, a relacao colonial!) forcosamente (forcadamente) diversos? Nao sera’ o olhar do “eu” sobre o “outro” um veiculo de estabelecimento da identidade propria e de diferenciacao do “eu” em relacao a identidade do “outro”? Nao sera’ esse, precisamente, o processo de formacao e afirmacao de identidades distintas, sem (nao diria “quaisquer”, mas...) muitas margens para equivocos? O que e', afinal, isso que dizemos prezar e a que chamamos "diversidade"?

Ou, colocado de outro modo, teremos agora que passar de uma discussao sobre o “white pow(d)er” para uma discussao sobre “white washing” (... da historia colonial, quero dizer, nao "da pele dos pretos ou do sexo das pretas"...)?!

O texto que planeara postar neste segundo “Olhares Diversos”, encontrei-o ha’ dias, por mero acaso, num forum cujo link segui a partir da lista de “referrers” de um dos contadores deste blog – trabalho a que apenas me dou quando tais referencias indiciam uma qualquer ligacao a posts meus. Ao chegar ao tal forum, assolou-me imediatamente uma sensacao de mal-estar pelas mencoes no seu cabecalho ao “white pride world wide”...

Continuei, no entanto, a descer pela pagina abaixo a procura do que por la’ poderia haver relacionado com o meu blog. E, a medida que o fazia, pelos titulos, as imagens e, sobretudo, a referencia permanente a Declaracao da ONU sobre os Direitos dos Povos Indigenas, foi-se-me instalando a duvida sobre se realmente aquele se trataria de um forum da “extrema-direita racista”... ate’ que encontrei o que o ligava ao meu blog: este texto do meu amigo Denudado aqui publicado na serie “Be My Guest!”.

Mas, chamou-me particularmente a atencao o post imediatamente anterior, sob o titulo "Brancos, Pretos e Mulatos", que assim comecava: “Uma boa parte dos mulatos, nos tempos coloniais, não saberia quem era o pai. Os brancos entravam no caniço e tinham a negra que quisessem. A bem ou a mal. A seguir desapareciam, e como poderia alguém saber de onde eram, como se chamavam? Se os mulatos eram renegados pelos pais, não aconteceria por serem mulatos, mas por serem filhos nascidos fora do casamento. Os brancos mantinham a mulher branca algures no centro da cidade, ou na Metrópole. E para lá seguiam. As "traquinices" sexuais dos brancos com negras não assombravam o seu futuro, porque uma negra não tinha poder para reclamar qualquer paternidade. Ninguém lhe daria crédito.”

Enquanto o lia, a partir de um determinado momento comecei a ficar com a sensacao de que conhecia aquele tipo de estoria e a forma como era escrita de um blog que 'espreitei' durante algum tempo (ainda muito proximo de quando me lancei na blogosfera, qual “pata brava em mar alto”...). Cheguei mesmo a inclui-lo nos links do meu blog, mas pouco tempo depois conclui que, por “mais que perfeito” que fosse, aquele, definitivamente, nao era o meu mundo. “Deslinkei-o” entao e aos poucos fui deixando de o visitar.

Ja’ la’ nao ia ha’ um bom par de anos (e’... ja’ por aqui ando ha’ uns tempos...), ate’ hoje, quando me preparava para postar aqui o texto em questao e fui a procura do sitio onde ele tinha sido originalmente publicado, porque faco sempre questao de indicar a origem do que aqui publico e que nao e' de minha autoria, e... sim, era do “Mundo Perfeito” (MP). E se isso nao constituiu espanto para mim, espantou-me deveras acabar por descobrir que a sua autora decidiu encerra-lo em protesto pela (re)postagem de textos seus em espacos com os quais nao se identifica ideologicamente e, transcrevo, “Por outro lado, sinto que o que fui escrevendo sobre as minhas memórias coloniais, as quais considero historica e politicamente relevantes, foi sendo erradamente interpretado. Afinal, talvez não seja possível escrever sobre colonialismo três décadas após o seu término, a não ser como se espera vê-lo escrito. Talvez o colonialismo não tenha terminado ainda. Talvez seja confuso isto de uma mulher não conservadora, um pouco anarca, independente de esquerda ser simultaneamente filha de uma pesada herança colonial que não nega.”

Tendo eu tido, nestas minhas lides na blogosfera e, muito especialmente, na lusosfera, as minhas mais do que suficientes doses de abusos de toda a ordem por parte de terceiros (incluindo gente nos antipodas das minhas conviccoes ideologicas e/ou inclinacao sexual), nao posso deixar de manifestar a minha solidariedade para com a lesada. No entanto, como ficou registado pelas minhas reaccoes a tais abusos, nao sei se, no seu lugar, eu teria tomado a mesma decisao, mas... longe de mim a leviandade de pretender questiona-la e muito menos as suas razoes. E, perante tal decisao e suas razoes, mesmo nao me tendo sentido movida por quaisquer intentos eticamente reprovaveis quando pensei em postar o seu texto aqui, coibi-me imediatamente de o fazer. Contudo, nao foi fundamentalmente isso que me levou a tracar estas linhas – mesmo porque acabei por ficar tambem a saber que ela ja’ decidiu criar um outro blog. No que lhe desejo melhor sorte.

O que me trouxe a estas linhas, porem, foi o reviver da sensacao de desconforto que sentira ao ler algumas das suas “cronicas coloniais” quando inicialmente descobri o MP. Fui para elas atraida nao apenas pelo tema, obviamente, mas tambem pela forma, nua e crua (quase que diria mordaz e impiedosa), como as escrevia. Mas esse polo de atraccao acabou por ser rapidamente anulado por um outro, senao de rejeicao, pelo menos de indiferenca: porque cedo fiquei convencida de que se tratava de alguem a tentar resolver intimamente a sua relacao com os seus pais, em particular com o seu pai, usando apenas como “pano de fundo” o mundo “dos (seus) pretos” e, como pretexto, o lugar do seu pai nesse mundo (um lugar com doses nauseantes de paternalismo para com os "seus pretos"...) e, mais particularmente, o seu lugar (dela, da sua mae e do seu pai) no mundo (e, mais nua e cruamente, no lugar mais intimo) “das pretas” (n.b.: a cronica que se tornou mais popular na serie entitulava-se, e perdoem-me os leitores mais susceptiveis, "a cona das pretas"...). Nao chegou a repugnar-me, muito menos a revoltar-me, porque... simples e sinceramente nunca a cheguei a perceber (particularmente se lida simultaneamente com outras posturas por si manifestadas sobre assuntos mais correntes da Africa post-colonial), mesmo porque nao me lembro de na altura ter conseguido ler alguma daquelas cronicas ate’ ao fim. Tomei-o apenas como algo pessoal da autora que, nao sendo de modo nenhum irrelevante, tinha um impacto limitado sobre o mundo que pretendia retratar. Por isso, tambem, achei a cronica que aqui pretendi postar adequada ao espaco de “olhares diversos” – como apenas isso, um olhar diverso sobre uma realidade que todos conhecemos de modos diversos.

E, tal como tive dificuldade em percebe-la, nao percebo a que proposito o texto do Denudado publicado aqui no meu blog constitui materia de interesse e "suporte de causa" para um forum de grupos racistas de extrema-direita. Nao sei sequer se foi esse o mesmo forum que provocou o encerramento do MP. Sei apenas que esta’ longe de mim a ideia de encerrar o meu blog por causa deles, porque... pura e simplesmente nao os percebo. Nem me interessa.

O que me interessa, todavia, em toda esta estoria, e’ a ideia de olhares diversos – neste caso, respectivamente de “extrema direita” e de “extrema(?) esquerda” (ja’ se escreveu bastante sobre a “atraccao entre os opostos” e sobre como, mais frequentemente do que nao, os extremos se tocam...) – mas convergentes, sobre um mesmo mundo, sobre os mesmos “objectos”: “os pretos” e, muito especialmente, “as pretas” e a sua intimidade. Porque, em ambos os casos, mesmo se com motivacoes diferentes, “os pretos”, e especialmente “as pretas”, a quem se inventaram mulatos, parecem nao passar disso mesmo: objectos para os quais se olha a distancia mas que se evita a todo o custo ver, sobre os quais se fala mas com quem nao se comunica e muito menos interage para la’ da superficie (para la’ da pele e da sua cor... para la’ do sexo!), as quais se usa para psicanalisar as relacoes entre eles - eles “sujeitos”, eles “outros” -, perante elas ou a sua revelia, mas nao a sua relacao com elas. E’ tudo quanto julgo perceber em ambos os casos. Ah... isso, mais o que me parece infinitamente ridiculo nas disputas sobre se “os brancos em Africa eram mais ou menos racistas que os brancos da Metropole”...

Mas tudo isto me leva a um outro questionamento: o deste olhar aqui apresentado sobre o que o meu antigo (e controverso) professor de Historia de Africa no Lubango, Arlindo Barbeitos, uma das pessoas que tive a oportunidade de reencontrar durante a minha recente estada em Luanda, classifica como “identidades coloniais equivocadas” (obviamente, nao tendo ainda lido o livro, reservo melhor opiniao para quando o puder fazer): “(...) no final, essas relacoes assemelham-se a um sistema de vasos comunicantes onde, neste caso preciso, dominadores e dominados se influenciam reciprocamente e em todos os dominios desde o seu primeiro contacto registado no seculo XVI. 'A relacao com o outro e’ inscrita virtualmente na relacao consigo mesmo', escreveu o sociologo Edgar Morin.”

Sera’ mesmo? Bom, admitamos que sim, que “a relacao com o outro e’ inscrita virtualmente na relacao consigo mesmo”. Mas sera’ que isso conduz necessariamente a um “equivoco de identidades”? Sera’ que os “vasos” a que se alude sao efectivamente “comunicantes”? Sera’ que, de facto, “dominadores e dominados se influenciam reciprocamente”? Nao contera’ a condicao de “dominador” (seja homem ou mulher, pai ou mae, preto, branco ou mulato), isso mesmo na sua essencia: dominar, influenciar unilateralmente? Nao serao os olhares trocados entre dominados e dominadores numa relacao de poder (como a que e', sempre, a relacao colonial!) forcosamente (forcadamente) diversos? Nao sera’ o olhar do “eu” sobre o “outro” um veiculo de estabelecimento da identidade propria e de diferenciacao do “eu” em relacao a identidade do “outro”? Nao sera’ esse, precisamente, o processo de formacao e afirmacao de identidades distintas, sem (nao diria “quaisquer”, mas...) muitas margens para equivocos? O que e', afinal, isso que dizemos prezar e a que chamamos "diversidade"?

Ou, colocado de outro modo, teremos agora que passar de uma discussao sobre o “white pow(d)er” para uma discussao sobre “white washing” (... da historia colonial, quero dizer, nao "da pele dos pretos ou do sexo das pretas"...)?!

Friday, 8 May 2009

LUANDANDO (VIII)

VIAS DE EXTINCAO


OU

VIAS EXTINTAS

Luanda, Marco, 2009

Thursday, 7 May 2009

ANGOLA/PORTUGAL: IDENTIDADES COLONIAIS EQUIVOCADAS

Assim se entitula o ultimo livro do escritor angolano Arlindo Barbeitos, recentemente editado em Paris pela L'Harmattan e sub-entitulado Historicidade das representacoes do eu e do outro.

Na sua contracapa pode ler-se
(minha traducao livre):

As relacoes entre os dois povos sao forjadas pela Escravatura, a Colonizacao e a guerra de Independencia, mas tambem pela Guerra civil angolana que se lhe seguiu, assim como pelas ideologias a elas subjacentes. Apesar das assimetrias caracteristicas deste processo multi-secular, no final, essas relacoes assemelham-se a um sistema de vasos comunicantes onde, neste caso preciso, dominadores e dominados se influenciam reciprocamente e em todos os dominios desde o seu primeiro contacto registado no seculo XVI. “A relacao com o outro e’ inscrita virtualmente na relacao consigo mesmo”, escreveu o sociologo Edgar Morin.

Mais detalhes aqui.
Assim se entitula o ultimo livro do escritor angolano Arlindo Barbeitos, recentemente editado em Paris pela L'Harmattan e sub-entitulado Historicidade das representacoes do eu e do outro.

Na sua contracapa pode ler-se
(minha traducao livre):

As relacoes entre os dois povos sao forjadas pela Escravatura, a Colonizacao e a guerra de Independencia, mas tambem pela Guerra civil angolana que se lhe seguiu, assim como pelas ideologias a elas subjacentes. Apesar das assimetrias caracteristicas deste processo multi-secular, no final, essas relacoes assemelham-se a um sistema de vasos comunicantes onde, neste caso preciso, dominadores e dominados se influenciam reciprocamente e em todos os dominios desde o seu primeiro contacto registado no seculo XVI. “A relacao com o outro e’ inscrita virtualmente na relacao consigo mesmo”, escreveu o sociologo Edgar Morin.

Mais detalhes aqui.

Wednesday, 6 May 2009

OLHARES DIVERSOS (I)



ISMAEL MATEUS AO PAIS

(...)

O problema da liberdade de expressão não se liga apenas à liberdade do jornalista inventar títulos e fazer o que lhe apetecer. Tem a ver com a diversidade de títulos e de órgãos, é fundamental, porque leva a que os cidadãos tenham diversidade de escolha. Tem a ver também com a responsabilidade do jornalista, mas, sobretudo, tem a ver com o exercício do contraditório. E esse parece-nos ser o principal problema de que os órgãos enfermam. Os órgãos não têm o hábito do contraditório. Alguém se lembra de pôr um título desses que falamos há bocado, mas a pessoa que é lesada, que é atacada, não tem o direito de, naquele mesmo espaço, dizer o que pensa. O que chega ao leitor, ouvinte ou telespectador, não é uma visão de todas as partes. Isso é um problema, uma irresponsabilidade que ataca valores importantes. Este é um problema dos profissionais …
(...)
O jornalista, mesmo que indirectamente, está condicionado. Eu procuro dizer tudo o que penso, mas também tenho a clara sensação que se eu não tiver esse cuidado na abordagem de certas matérias, se disser tudo o que realmente penso em relação a alguns assuntos, no dia seguinte não sou convidado para coisa alguma. O problema é que na nossa sociedade se impôs uma mentalidade do jornalismo dócil, ou seja, a ideia que os políticos têm (os políticos neste momento é que têm os jornais, é que têm a liderança política) é a de que um bom jornalista é o que aplaude. Ou seja, ainda não se chegou ao estágio, na nossa sociedade, em que se pensa que a crítica construtiva, a crítica responsável, contribui muito para o crescimento da própria sociedade. Ainda não chegamos a essa fase e, portanto, a crítica, seja ela boa ou má, construtiva ou não, é vista como uma coisa a não incluir. Isso acabou por afectar o nível e a qualidade dos nossos órgãos. As nomeações, as indicações para os lugares principais, tudo isso seguiu essa lógica, quanto mais simpático o jornalista for com o regime, mais possibilidades tem de chegar ao topo. E nem sempre essas pessoas eram necessariamente qualificadas para tais tarefas …
(...)
E os títulos publicados em Luanda têm a lógica, uns do passado e outros, os novos títulos, penso que trazem outro tipo de problemas. Trazem problemas, por exemplo, ligados a uma proximidade política com o regime, e isso cria alguma dificuldade.
(...)
Por outro lado, há no nosso jornalismo ainda a “lógica do meu quintal”. – Olha, eu tenho o meu quintal – mesmo que as pessoas amanhã sejam proprietárias de nada. Mas ele quer dizer: “Eu aqui sou o dono do jornal, portanto não faço ligações com ninguém”. O quadro actual deveria levar à aglutinação de uma vez. Fazer redacções fortes, direcções fortes, mas isso não acontece, é como os partidos políticos. Eu aqui tenho um partido que só tem duas pessoas, mas eu sou o presidente. A lógica dos nossos jornais é essa também, com todo o respeito pelos meus colegas. Portanto os jornais vão morrendo, ou cada um tem de ir buscar outras alternativas. (...) Todo esse sistema vai levar a que os jornais existentes até agora tenham menos possibilidades de vida, é uma questão a prazo, pode ser daqui a cinco anos, três, mas vai acontecer se não houver uma atitude mais séria e mais organizada.
(...)
A nossa sociedade não tem debate, não tem troca de opiniões, troca de argumentos. É o tal problema da crítica. Como o debate implica crítica, implica diversidade, não se vê em lado algum. Logo, há órgãos que apercebendo-se disso aumentaram a sua carga de opinião. E são consumidos. Porque deixam a vertente noticiarista mas trazem a resposta, em que várias pessoas opinam sobre um tema e a nossa sociedade não o tem em mais lado nenhum.
(...)
Eu não sinto, no conjunto das opiniões que saem nos novos jornais, o substrato nacional. Sinto que há pessoas já muito conhecedoras da realidade de Luanda, mas sinto que está muito presa a um pequeno grupo de pessoas que conhecem a realidade de Luanda de um determinado modo. Eu gostava de ver mais, sobretudo no Jornal de Angola. Aliando estes três grandes, os novos jornais e o Jornal de Angola, gostava de ver mais gente das províncias, gente muito rica, do ponto de vista do conhecimento, a escrever. Infelizmente não temos isso. Uma pessoa que vive a realidade de Cabinda, por exemplo, escreve, necessariamente, com os exemplos dessa realidade, um indivíduo que seja kuanhama transmite, necessariamente, nos seus textos, essa realidade. Esse substrato nacional é que não sinto nas opiniões que são veiculadas, incluindo a minha, ficamos muito num circuito luandense.
(...)
As pessoas chegam a jornalistas apenas pelos seus olhos. Não há carteira profissional, não há nada como um estatuto do jornalista, não há regulamento da Lei de Imprensa, não há nada que obrigue uma pessoa a dar provas de que é jornalista. As pessoas chegam a jornalistas porque se autodenominam jornalistas. Chamam uma pessoa e diz na televisão “olha, eu sou jornalista” e a partir desse momento é jornalista. Esse é um problema sério da nossa vida. Não começa nos estrangeiros, começa nos angolanos. Essa desregra leva a que quem chega aqui, não tem de provar se realmente trabalhou, se é jornalista, não tem de provar se é competente e entra no mercado. O sindicato chama a atenção, muito claramente, sobre os jornalistas que estão que estão no desemprego, porque há jornalistas que estão no desemprego. E, como é possível que estejam a ser feitas contratações no estrangeiro sem que antes se dessem oportunidades aos angolanos de irem lá fazer provas se são capazes ou não.
(...)
Tem de haver regras para contratar estrangeiros, a menos que alguém me diga que os angolanos não são, todos, competentes. Quem é que disse que algumas dessas pessoas são mais competentes que angolanos? Mostrem o portfólio dessas pessoas, onde é que eles escreveram, mostrem até, sobretudo portugueses e brasileiros, se estão reconhecidos nas suas próprias associações de jornalistas. Eu conheço dois casos que não está, lá, reconhecidos como jornalistas, não são, nunca foram jornalistas em Portugal e vêm aqui e são recebidos como jornalistas. Ou seja, essa coisa de andarem a dizer que os angolanos não prestam, que não têm boa qualidade, para já é uma brincadeira porque quando foi preciso ir buscar quem dirige os órgãos foram buscar quadros angolanos, que são conhecedores da realidade. Por outro lado, quem quer fazer um investimento, de facto, tem de investir na formação, se os angolanos não têm qualidade não é trazendo estrangeiros que agora vão passar a ter. É formando os angolanos para que isso tenha para que os projectos tenham qualidade e continuidade. Isso é uma pescadinha de rabo na boca, às vezes as pessoas resolvem culpar os angolanos de não terem qualidade, mas na realidade não há melhor conhecedor da realidade angolana que os jornalistas angolanos. Aliás, quando nós olhamos para o O PAÍS, quando olhamos para o Novo Jornal, o Expansão, quem escreve as grandes matérias não são os estrangeiros, são os angolanos. Não me venham dizer que não têm qualidade porque isso é brincadeira.
(...)
Nós estamos muito influenciados por uma cultura lusoangolana, começamos a receber mais facilmente os problemas do PSD e do PS, em Portugal, que as eleições do Zuma aqui perto e que tem uma grande influência na nossa vida. Porque os grandes grupos económicos que estão a comprar os jornais são de feição luso-angolana, mas sobretudo porque as preocupações de quem escreve para estes jornais é luso-angolana. Temos muito pouco retorno da realidade aqui e deveríamos incentivar isso.
(...)
É isso mesmo, diversidade “rácica”, o país não pode ser só gente de uma cor ou de outra, é o problema dos modelos. Quando temos uma pessoa na televisão estamos a passar modelos, é uma preocupação que temos de ter. Ter de ter mesmo, não há dúvidas. Sinto que às vezes, no nosso país, nós temos de pedir licença para ser negro, “deixem-me ser negro durante quinze minutos”. Não pode haver esse problema …
(...)
Ser negro é a cor da pele, são os hábitos. Por isso mesmo a questão dos modelos de sociedade que lançamos não pode ser a Brigitte Bardot ou outros modelos, tem de haver uma ligação. Não vejo porque se tem de discutir isso. Não vejo que haja preocupação em Portugal que é uma sociedade declaradamente branca, nos noticiários, não vejo ninguém a discutir se deve ser um branco ou um negro, e não vejo nenhum problema nisso. Agora quando chega aqui, que temos de ser maioritariamente negro, nem digo exclusivamente negro, porque esses são os nossos modelos de referência cai o Carmo e a Trindade, qual é o problema?
(...)
Nós não estamos habituados ao debate, andamos com rótulos. Quando as pessoas lerem esse bocado do Ismael Mateus no dia seguinte já sou racista e xenófobo. Tem de haver tranquilidade nestas questões. Nós somos um país de maioria negra, não podemos andar a pedir licença para sermos um país de maioria negra. Os modelos de referência que passamos ao nosso país têm de ser de maioria negra. As nossas crianças têm de conviver com a sua cor, com o seu modo de estar, tranquilamente. Vejamos o sucesso da boneca Analtina, porquê? Porque os modelos de referência das nossas meninas deixaram de ser as loiras e passou a ser a Analtina boneca, as miúdas reconhecem-se, identificam- se com a boneca e dizem “Eu também sou bonita”. É isso que temos de discutir e deixar de pensar que podemos passar, tranquilamente, modelos de referência que não atendam a essa diversidade. O que eu digo é maioria, porque também não sou apologista de radicalismos. Somos uma diversidade e é preciso entender essa diversidade. Mas por favor, sendo uma clara maioria negra, não nos levem a pedir favor para podermos ser negros, isso não. Já reparou que nos serviços bem pagos , há discotecas onde, para um negro entrar, tem de pedir por favor?. Os serviços mais bem pagos a gente chega lá olha para aquilo, vê uma negra como se, ser negro, fosse sinal de incompetência.
(...)
A discussão não é se uma modelo ou miss deveria ser negra ou não negra, isso é estúpido, o país é diverso e é normal que tenhamos modelos e misses de todas as cores, não há angolanos de primeira e de segunda. O problema é, se na hora de mostrar modelos, venham só loiras. Imaginemos uma branca, loira, mas com modelos sociais e culturais angolanos, há?. É o problema, os modelos de referência. Há muitos angolanos não negros, ninguém põe isso em causa, para muitos seria até insultuoso. A questão que coloco é que tanto a publicidade como os meios de comunicação dirigem-se às maiorias, então temos de atender às necessidades e às expectativas das maiorias, é tão simples quanto isso, é um problema numérico, de maiorias e também de diversidade porque não nos podemos fixar só nas maiorias. Não me digam que as minorias é que representam as maiorias, isso não aceito. Acabou a guerra, agora temos de acabar com os complexos, há países que estabeleceram quotas . As mulheres conseguiram. Porque não discutimos essas coisas? Acho que o podemos fazer de forma serena, tranquila.
(...)
Nós temos a nossa forma de falar, existem expressões angolanas, tudo isso está a ser sacrificado por meia dúzia de pessoas, ou porque não dão importância ou porque viveram fora. Acham que fala português quem fala como em Coimbra. No outro dia soube que determinada rádio tinha feito uma opção por determinado tipo de locutores ou por determinado tipo de pessoas porque os angolanos não sabem falar português. Imagina um angolano que faz gala do seu modo de falar e do seu modo de estar na vida ouvir uma coisa dessas. São coisas que me parecem insultuosas que não estão a ser devidamente acauteladas e que vão dar problemas, porque a permissividade que temos em algumas áreas como a lei da nacionalidade que permite que cidadãos que,há alguns anos atrás até se ecusavam a ser angolanos e agora chegam aqui, tiram o bilhete e no dia seguinte são angolanos, mas depois o modo de estar é português, o timbre da voz é português e estão em igualdade de circunstâncias com os angolanos que ficaram cá. Tudo isso vai criar um sentimento que se não for acautelado poderá ter maus resultados. Porque não me parece justo que as pessoas tenham andado aqui no batente e agora chega um indivíduo que nunca quis saber disso e diga “Olha, eu nasci no Kuangar” e tira o bilhete …
(...)
Claro, o problema não é só com os brancos, embora com esses se note mais. Mas se for ao Kuango verá os problemas que temos com os estrangeiros negros, é igual, o problema é a facilidade com que as pessoas chegam e se tornam angolanas e em condições vantajosas disputam os lugares com os angolanos. Alguns deles vêm como cooperantes e depois exibem o bilhete angolano e dizem que são tão angolanos como você e ainda disputam consigo o crédito no nosso banco quando ele já tem lá as suas condições. No caso dos negros é o problema das fronteiras e a facilidade com que se integram, é difícil separar um kuanhama do outro lado da fronteira. O problema é o angolano de ocasião, por mero interesse de mercado, um indivíduo que chega cá em condições vantajosas, disputa oportunidades e depois, ao sair já vai como português ou espanhol. O que há a fazer já não é rever é, pelo menos parar com isso.

{Leia mais aqui}

http://www.angonoticias.com/Artigos/item/22132 {Para olhares relacionados, ver aqui , aqui , aqui e aqui}


ISMAEL MATEUS AO PAIS

(...)

O problema da liberdade de expressão não se liga apenas à liberdade do jornalista inventar títulos e fazer o que lhe apetecer. Tem a ver com a diversidade de títulos e de órgãos, é fundamental, porque leva a que os cidadãos tenham diversidade de escolha. Tem a ver também com a responsabilidade do jornalista, mas, sobretudo, tem a ver com o exercício do contraditório. E esse parece-nos ser o principal problema de que os órgãos enfermam. Os órgãos não têm o hábito do contraditório. Alguém se lembra de pôr um título desses que falamos há bocado, mas a pessoa que é lesada, que é atacada, não tem o direito de, naquele mesmo espaço, dizer o que pensa. O que chega ao leitor, ouvinte ou telespectador, não é uma visão de todas as partes. Isso é um problema, uma irresponsabilidade que ataca valores importantes. Este é um problema dos profissionais …
(...)
O jornalista, mesmo que indirectamente, está condicionado. Eu procuro dizer tudo o que penso, mas também tenho a clara sensação que se eu não tiver esse cuidado na abordagem de certas matérias, se disser tudo o que realmente penso em relação a alguns assuntos, no dia seguinte não sou convidado para coisa alguma. O problema é que na nossa sociedade se impôs uma mentalidade do jornalismo dócil, ou seja, a ideia que os políticos têm (os políticos neste momento é que têm os jornais, é que têm a liderança política) é a de que um bom jornalista é o que aplaude. Ou seja, ainda não se chegou ao estágio, na nossa sociedade, em que se pensa que a crítica construtiva, a crítica responsável, contribui muito para o crescimento da própria sociedade. Ainda não chegamos a essa fase e, portanto, a crítica, seja ela boa ou má, construtiva ou não, é vista como uma coisa a não incluir. Isso acabou por afectar o nível e a qualidade dos nossos órgãos. As nomeações, as indicações para os lugares principais, tudo isso seguiu essa lógica, quanto mais simpático o jornalista for com o regime, mais possibilidades tem de chegar ao topo. E nem sempre essas pessoas eram necessariamente qualificadas para tais tarefas …
(...)
E os títulos publicados em Luanda têm a lógica, uns do passado e outros, os novos títulos, penso que trazem outro tipo de problemas. Trazem problemas, por exemplo, ligados a uma proximidade política com o regime, e isso cria alguma dificuldade.
(...)
Por outro lado, há no nosso jornalismo ainda a “lógica do meu quintal”. – Olha, eu tenho o meu quintal – mesmo que as pessoas amanhã sejam proprietárias de nada. Mas ele quer dizer: “Eu aqui sou o dono do jornal, portanto não faço ligações com ninguém”. O quadro actual deveria levar à aglutinação de uma vez. Fazer redacções fortes, direcções fortes, mas isso não acontece, é como os partidos políticos. Eu aqui tenho um partido que só tem duas pessoas, mas eu sou o presidente. A lógica dos nossos jornais é essa também, com todo o respeito pelos meus colegas. Portanto os jornais vão morrendo, ou cada um tem de ir buscar outras alternativas. (...) Todo esse sistema vai levar a que os jornais existentes até agora tenham menos possibilidades de vida, é uma questão a prazo, pode ser daqui a cinco anos, três, mas vai acontecer se não houver uma atitude mais séria e mais organizada.
(...)
A nossa sociedade não tem debate, não tem troca de opiniões, troca de argumentos. É o tal problema da crítica. Como o debate implica crítica, implica diversidade, não se vê em lado algum. Logo, há órgãos que apercebendo-se disso aumentaram a sua carga de opinião. E são consumidos. Porque deixam a vertente noticiarista mas trazem a resposta, em que várias pessoas opinam sobre um tema e a nossa sociedade não o tem em mais lado nenhum.
(...)
Eu não sinto, no conjunto das opiniões que saem nos novos jornais, o substrato nacional. Sinto que há pessoas já muito conhecedoras da realidade de Luanda, mas sinto que está muito presa a um pequeno grupo de pessoas que conhecem a realidade de Luanda de um determinado modo. Eu gostava de ver mais, sobretudo no Jornal de Angola. Aliando estes três grandes, os novos jornais e o Jornal de Angola, gostava de ver mais gente das províncias, gente muito rica, do ponto de vista do conhecimento, a escrever. Infelizmente não temos isso. Uma pessoa que vive a realidade de Cabinda, por exemplo, escreve, necessariamente, com os exemplos dessa realidade, um indivíduo que seja kuanhama transmite, necessariamente, nos seus textos, essa realidade. Esse substrato nacional é que não sinto nas opiniões que são veiculadas, incluindo a minha, ficamos muito num circuito luandense.
(...)
As pessoas chegam a jornalistas apenas pelos seus olhos. Não há carteira profissional, não há nada como um estatuto do jornalista, não há regulamento da Lei de Imprensa, não há nada que obrigue uma pessoa a dar provas de que é jornalista. As pessoas chegam a jornalistas porque se autodenominam jornalistas. Chamam uma pessoa e diz na televisão “olha, eu sou jornalista” e a partir desse momento é jornalista. Esse é um problema sério da nossa vida. Não começa nos estrangeiros, começa nos angolanos. Essa desregra leva a que quem chega aqui, não tem de provar se realmente trabalhou, se é jornalista, não tem de provar se é competente e entra no mercado. O sindicato chama a atenção, muito claramente, sobre os jornalistas que estão que estão no desemprego, porque há jornalistas que estão no desemprego. E, como é possível que estejam a ser feitas contratações no estrangeiro sem que antes se dessem oportunidades aos angolanos de irem lá fazer provas se são capazes ou não.
(...)
Tem de haver regras para contratar estrangeiros, a menos que alguém me diga que os angolanos não são, todos, competentes. Quem é que disse que algumas dessas pessoas são mais competentes que angolanos? Mostrem o portfólio dessas pessoas, onde é que eles escreveram, mostrem até, sobretudo portugueses e brasileiros, se estão reconhecidos nas suas próprias associações de jornalistas. Eu conheço dois casos que não está, lá, reconhecidos como jornalistas, não são, nunca foram jornalistas em Portugal e vêm aqui e são recebidos como jornalistas. Ou seja, essa coisa de andarem a dizer que os angolanos não prestam, que não têm boa qualidade, para já é uma brincadeira porque quando foi preciso ir buscar quem dirige os órgãos foram buscar quadros angolanos, que são conhecedores da realidade. Por outro lado, quem quer fazer um investimento, de facto, tem de investir na formação, se os angolanos não têm qualidade não é trazendo estrangeiros que agora vão passar a ter. É formando os angolanos para que isso tenha para que os projectos tenham qualidade e continuidade. Isso é uma pescadinha de rabo na boca, às vezes as pessoas resolvem culpar os angolanos de não terem qualidade, mas na realidade não há melhor conhecedor da realidade angolana que os jornalistas angolanos. Aliás, quando nós olhamos para o O PAÍS, quando olhamos para o Novo Jornal, o Expansão, quem escreve as grandes matérias não são os estrangeiros, são os angolanos. Não me venham dizer que não têm qualidade porque isso é brincadeira.
(...)
Nós estamos muito influenciados por uma cultura lusoangolana, começamos a receber mais facilmente os problemas do PSD e do PS, em Portugal, que as eleições do Zuma aqui perto e que tem uma grande influência na nossa vida. Porque os grandes grupos económicos que estão a comprar os jornais são de feição luso-angolana, mas sobretudo porque as preocupações de quem escreve para estes jornais é luso-angolana. Temos muito pouco retorno da realidade aqui e deveríamos incentivar isso.
(...)
É isso mesmo, diversidade “rácica”, o país não pode ser só gente de uma cor ou de outra, é o problema dos modelos. Quando temos uma pessoa na televisão estamos a passar modelos, é uma preocupação que temos de ter. Ter de ter mesmo, não há dúvidas. Sinto que às vezes, no nosso país, nós temos de pedir licença para ser negro, “deixem-me ser negro durante quinze minutos”. Não pode haver esse problema …
(...)
Ser negro é a cor da pele, são os hábitos. Por isso mesmo a questão dos modelos de sociedade que lançamos não pode ser a Brigitte Bardot ou outros modelos, tem de haver uma ligação. Não vejo porque se tem de discutir isso. Não vejo que haja preocupação em Portugal que é uma sociedade declaradamente branca, nos noticiários, não vejo ninguém a discutir se deve ser um branco ou um negro, e não vejo nenhum problema nisso. Agora quando chega aqui, que temos de ser maioritariamente negro, nem digo exclusivamente negro, porque esses são os nossos modelos de referência cai o Carmo e a Trindade, qual é o problema?
(...)
Nós não estamos habituados ao debate, andamos com rótulos. Quando as pessoas lerem esse bocado do Ismael Mateus no dia seguinte já sou racista e xenófobo. Tem de haver tranquilidade nestas questões. Nós somos um país de maioria negra, não podemos andar a pedir licença para sermos um país de maioria negra. Os modelos de referência que passamos ao nosso país têm de ser de maioria negra. As nossas crianças têm de conviver com a sua cor, com o seu modo de estar, tranquilamente. Vejamos o sucesso da boneca Analtina, porquê? Porque os modelos de referência das nossas meninas deixaram de ser as loiras e passou a ser a Analtina boneca, as miúdas reconhecem-se, identificam- se com a boneca e dizem “Eu também sou bonita”. É isso que temos de discutir e deixar de pensar que podemos passar, tranquilamente, modelos de referência que não atendam a essa diversidade. O que eu digo é maioria, porque também não sou apologista de radicalismos. Somos uma diversidade e é preciso entender essa diversidade. Mas por favor, sendo uma clara maioria negra, não nos levem a pedir favor para podermos ser negros, isso não. Já reparou que nos serviços bem pagos , há discotecas onde, para um negro entrar, tem de pedir por favor?. Os serviços mais bem pagos a gente chega lá olha para aquilo, vê uma negra como se, ser negro, fosse sinal de incompetência.
(...)
A discussão não é se uma modelo ou miss deveria ser negra ou não negra, isso é estúpido, o país é diverso e é normal que tenhamos modelos e misses de todas as cores, não há angolanos de primeira e de segunda. O problema é, se na hora de mostrar modelos, venham só loiras. Imaginemos uma branca, loira, mas com modelos sociais e culturais angolanos, há?. É o problema, os modelos de referência. Há muitos angolanos não negros, ninguém põe isso em causa, para muitos seria até insultuoso. A questão que coloco é que tanto a publicidade como os meios de comunicação dirigem-se às maiorias, então temos de atender às necessidades e às expectativas das maiorias, é tão simples quanto isso, é um problema numérico, de maiorias e também de diversidade porque não nos podemos fixar só nas maiorias. Não me digam que as minorias é que representam as maiorias, isso não aceito. Acabou a guerra, agora temos de acabar com os complexos, há países que estabeleceram quotas . As mulheres conseguiram. Porque não discutimos essas coisas? Acho que o podemos fazer de forma serena, tranquila.
(...)
Nós temos a nossa forma de falar, existem expressões angolanas, tudo isso está a ser sacrificado por meia dúzia de pessoas, ou porque não dão importância ou porque viveram fora. Acham que fala português quem fala como em Coimbra. No outro dia soube que determinada rádio tinha feito uma opção por determinado tipo de locutores ou por determinado tipo de pessoas porque os angolanos não sabem falar português. Imagina um angolano que faz gala do seu modo de falar e do seu modo de estar na vida ouvir uma coisa dessas. São coisas que me parecem insultuosas que não estão a ser devidamente acauteladas e que vão dar problemas, porque a permissividade que temos em algumas áreas como a lei da nacionalidade que permite que cidadãos que,há alguns anos atrás até se ecusavam a ser angolanos e agora chegam aqui, tiram o bilhete e no dia seguinte são angolanos, mas depois o modo de estar é português, o timbre da voz é português e estão em igualdade de circunstâncias com os angolanos que ficaram cá. Tudo isso vai criar um sentimento que se não for acautelado poderá ter maus resultados. Porque não me parece justo que as pessoas tenham andado aqui no batente e agora chega um indivíduo que nunca quis saber disso e diga “Olha, eu nasci no Kuangar” e tira o bilhete …
(...)
Claro, o problema não é só com os brancos, embora com esses se note mais. Mas se for ao Kuango verá os problemas que temos com os estrangeiros negros, é igual, o problema é a facilidade com que as pessoas chegam e se tornam angolanas e em condições vantajosas disputam os lugares com os angolanos. Alguns deles vêm como cooperantes e depois exibem o bilhete angolano e dizem que são tão angolanos como você e ainda disputam consigo o crédito no nosso banco quando ele já tem lá as suas condições. No caso dos negros é o problema das fronteiras e a facilidade com que se integram, é difícil separar um kuanhama do outro lado da fronteira. O problema é o angolano de ocasião, por mero interesse de mercado, um indivíduo que chega cá em condições vantajosas, disputa oportunidades e depois, ao sair já vai como português ou espanhol. O que há a fazer já não é rever é, pelo menos parar com isso.

{Leia mais aqui}

http://www.angonoticias.com/Artigos/item/22132 {Para olhares relacionados, ver aqui , aqui , aqui e aqui}

Monday, 4 May 2009

LUANDANDO (VII)

MUTAMBA









Marco, 2009
MUTAMBA









Marco, 2009

Sunday, 3 May 2009

REVISITANDO TARRAFAL DE SANTIAGO

PRIMEIRA ENTREVISTA DE LUANDINO VIEIRA SOBRE O TARRAFAL

(Ao jornal portugues "Publico")


“Os anos de cadeia foram muito bons para mim”


No Tarrafal, Luandino Vieira escreveu sobre o que tinha vivido antes. Agora vai escrever sobre o que aprendeu no Tarrafal. Será “uma história de Angola”.

Trinta e cinco anos depois de fechar como campo de presos políticos — a 1 de Maio de 1974 —, o Tarrafal ainda pode ser uma terra arável na cabeça dos homens que lá não perderam a vida. Portugal foi isto, fez isto, há sobreviventes e muito está por contar. Luandino não costuma fazê-lo.

Aceitou esta entrevista — feita segunda-feira, ao longo de uma manhã, no Grémio Literário, em Lisboa — antes de ir apanhar o avião para Cabo Verde, onde hoje está, com antigos camaradas de presídio, no simpósio sobre o Tarrafal que decorreu desde terça. Já de Cabo Verde, disse que terá ainda coisas a acrescentar sobre o Tarrafal, em sequência a esta entrevista.

Nascido português em Lagoa de Furadouro, Ourém, a 4 de Maio de 1935, José Vieira Mateus da Graça fez-se angolano “pela sua participação no movimento de libertação nacional” de Angola, diz sempre a badana dos seus livros. Foi preso antes da guerra colonial, em 1959. Voltou a ser preso, e condenado a 14 anos de prisão, por “actividades subversivas contra a segurança externa do Estado”, em 1961. Com dois camaradas poetas, António Jacinto e António Cardoso, andou de cadeia em cadeia, em Angola. Em 1964 foram transferidos para o Tarrafal, de onde Luandino saiu em liberdade condicional em 1972.

[Continue lendo aqui]

***

Leia tambem aqui, declaracoes do Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, durante o encerramento do Simposio Internacional Sobre o Campo de Concentracao do Tarrafal.
PRIMEIRA ENTREVISTA DE LUANDINO VIEIRA SOBRE O TARRAFAL

(Ao jornal portugues "Publico")


“Os anos de cadeia foram muito bons para mim”


No Tarrafal, Luandino Vieira escreveu sobre o que tinha vivido antes. Agora vai escrever sobre o que aprendeu no Tarrafal. Será “uma história de Angola”.

Trinta e cinco anos depois de fechar como campo de presos políticos — a 1 de Maio de 1974 —, o Tarrafal ainda pode ser uma terra arável na cabeça dos homens que lá não perderam a vida. Portugal foi isto, fez isto, há sobreviventes e muito está por contar. Luandino não costuma fazê-lo.

Aceitou esta entrevista — feita segunda-feira, ao longo de uma manhã, no Grémio Literário, em Lisboa — antes de ir apanhar o avião para Cabo Verde, onde hoje está, com antigos camaradas de presídio, no simpósio sobre o Tarrafal que decorreu desde terça. Já de Cabo Verde, disse que terá ainda coisas a acrescentar sobre o Tarrafal, em sequência a esta entrevista.

Nascido português em Lagoa de Furadouro, Ourém, a 4 de Maio de 1935, José Vieira Mateus da Graça fez-se angolano “pela sua participação no movimento de libertação nacional” de Angola, diz sempre a badana dos seus livros. Foi preso antes da guerra colonial, em 1959. Voltou a ser preso, e condenado a 14 anos de prisão, por “actividades subversivas contra a segurança externa do Estado”, em 1961. Com dois camaradas poetas, António Jacinto e António Cardoso, andou de cadeia em cadeia, em Angola. Em 1964 foram transferidos para o Tarrafal, de onde Luandino saiu em liberdade condicional em 1972.

[Continue lendo aqui]

***

Leia tambem aqui, declaracoes do Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, durante o encerramento do Simposio Internacional Sobre o Campo de Concentracao do Tarrafal.

Saturday, 2 May 2009

IT'S 'CAPE AFRICA' TIME


The Cape Town second biennale exhibition of contemporary African Culture started today and will run until the 21st June. I was in Long Street this afternoon but, unfortunately, couldn’t wait for the “Walk Into The Night”, one of the events scheduled for the opening:

“Borrowing its title from the acclaimed novel by Capetonian author Alex La Guma, A Walk Into the Night is an innovative project inspired by the history of the Cape Town Carnival. It is centered around a one hour-long procession with new work by visual artist Marlon Griffith, music composed by Garth Erasmus and curated by Claire Tancons. Inspired by the traditions of the Cape Town and Trinidad carnivals and West African shadow puppets it was conceived by Marlon Griffith as an "invisible masquerade". A Walk Into the Night is a processional shadow play, with various elements worn or carried by a multitude of a hundred participants, casting shadows onto horizontal and vertical planes along the itinerary of the procession, from hand-held white screens, to buildings, the sidewalk and the ground, participants and audience members.”


But one of these days I must make my way to Khayelitsha's Lookout Hill to see the work of my compatriot Antonio Ana, “Etona”, scheduled to feature in the Umahluko segment:


"Umahluko is a Nguni word, loosely translated as "difference". It is through the body, understandings of the self and its relation to time and space, that we can closely interrogate and celebrate that which is different.
The notion of identity remains a pivotal and prevailing theme in both social politics and contemporary art practice, as people express their concerns about who they are, who they have been, and who they are becoming in our society. Identity is however, never a unified or singular concept, it is rather a complex, fragmentary experience constantly in the process of being destructed and reconstructed, defined and redefined, while locating ourselves in a particular time and space.
As it has many implications, ‘Umahluko’ in terms of this exhibition, implies that which is not self and not like self in many respects but not limited to cultural, socio-economic, socio-political, gender, sexuality and personal experiences, on both individual and collective planes.
The binary opposites of "self/other", "‘black/white", "male/female", "urban/rural", "local/global" and "inside/outside", amongst others, are fundamental differences that constantly locate and dislocate us on various levels of social strata. It is this (dis)location that is inescapable, and more often than not, it becomes an imperative governing production processes for many artists.
In the same breath, this (dis)location provides a positive breakthrough. It becomes an assessment allowing for the appreciation of difference."







The Cape Town second biennale exhibition of contemporary African Culture started today and will run until the 21st June. I was in Long Street this afternoon but, unfortunately, couldn’t wait for the “Walk Into The Night”, one of the events scheduled for the opening:

“Borrowing its title from the acclaimed novel by Capetonian author Alex La Guma, A Walk Into the Night is an innovative project inspired by the history of the Cape Town Carnival. It is centered around a one hour-long procession with new work by visual artist Marlon Griffith, music composed by Garth Erasmus and curated by Claire Tancons. Inspired by the traditions of the Cape Town and Trinidad carnivals and West African shadow puppets it was conceived by Marlon Griffith as an "invisible masquerade". A Walk Into the Night is a processional shadow play, with various elements worn or carried by a multitude of a hundred participants, casting shadows onto horizontal and vertical planes along the itinerary of the procession, from hand-held white screens, to buildings, the sidewalk and the ground, participants and audience members.”


But one of these days I must make my way to Khayelitsha's Lookout Hill to see the work of my compatriot Antonio Ana, “Etona”, scheduled to feature in the Umahluko segment:


"Umahluko is a Nguni word, loosely translated as "difference". It is through the body, understandings of the self and its relation to time and space, that we can closely interrogate and celebrate that which is different.
The notion of identity remains a pivotal and prevailing theme in both social politics and contemporary art practice, as people express their concerns about who they are, who they have been, and who they are becoming in our society. Identity is however, never a unified or singular concept, it is rather a complex, fragmentary experience constantly in the process of being destructed and reconstructed, defined and redefined, while locating ourselves in a particular time and space.
As it has many implications, ‘Umahluko’ in terms of this exhibition, implies that which is not self and not like self in many respects but not limited to cultural, socio-economic, socio-political, gender, sexuality and personal experiences, on both individual and collective planes.
The binary opposites of "self/other", "‘black/white", "male/female", "urban/rural", "local/global" and "inside/outside", amongst others, are fundamental differences that constantly locate and dislocate us on various levels of social strata. It is this (dis)location that is inescapable, and more often than not, it becomes an imperative governing production processes for many artists.
In the same breath, this (dis)location provides a positive breakthrough. It becomes an assessment allowing for the appreciation of difference."






Friday, 1 May 2009

PODER NO FEMININO (APARENTEMENTE)...

Clique na imagem para a ampliar

Esta e’ uma daquelas estorias que nao sei se e' de rir ou de chorar...
Se de rir pelo (aparentemente) absurdamente ridiculo da senhora que manda evacuar os moradores do quarteirao, a ser demolido, onde se situa a sua propria moradia...
Se de chorar pelo que (aparentemente) ilustra sobre as minhas reservas quanto ao chamado “poder no feminino”...

De qualquer modo, sao preocupantes as noticias dos ultimos dias na imprensa luandense (ver, por exemplo, aqui – onde tambem se pode ler uma interessante materia sobre as alegadas origens da violencia domestica – e aqui), dando conta de despejos e demolicoes em condicoes absolutamente aviltantes para as suas vitimas, que tiveram no bairro do Zango as suas manifestacoes mais dramaticas e para cuja responsabilidade todos os dedos parecem apontar para duas mulheres: a governadora de Luanda e a senhora aqui retratada.


{E, ja' agora, um pouco para restabelecer o "equilibrio entre os generos", esta estoria, "(Kenyan) Men Should Zip Up and Grow Up", que ilustra, noutras latitudes, um lado (aparentemente) positivo do poder no feminino...}
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Esta e’ uma daquelas estorias que nao sei se e' de rir ou de chorar...
Se de rir pelo (aparentemente) absurdamente ridiculo da senhora que manda evacuar os moradores do quarteirao, a ser demolido, onde se situa a sua propria moradia...
Se de chorar pelo que (aparentemente) ilustra sobre as minhas reservas quanto ao chamado “poder no feminino”...

De qualquer modo, sao preocupantes as noticias dos ultimos dias na imprensa luandense (ver, por exemplo, aqui – onde tambem se pode ler uma interessante materia sobre as alegadas origens da violencia domestica – e aqui), dando conta de despejos e demolicoes em condicoes absolutamente aviltantes para as suas vitimas, que tiveram no bairro do Zango as suas manifestacoes mais dramaticas e para cuja responsabilidade todos os dedos parecem apontar para duas mulheres: a governadora de Luanda e a senhora aqui retratada.


{E, ja' agora, um pouco para restabelecer o "equilibrio entre os generos", esta estoria, "(Kenyan) Men Should Zip Up and Grow Up", que ilustra, noutras latitudes, um lado (aparentemente) positivo do poder no feminino...}