Saturday, 19 July 2008

BE MY GUEST! (II - DENUDADO)

Quem venha acompanhado este blog com alguma regularidade sabera’ certamente que o meu segundo convidado desta serie dispensa apresentacoes. Trata-se de alguem que tem dado um contributo inestimavel a este blog praticamente desde o inicio e que, apesar de actualmente se encontrar de licenca sabatica como blogger, todos com quem se tem cruzado na blogosfera nao poderao jamais deixar de considerar como um dos melhores bloggers e amigos da lusosfera.
E’, portanto, para mim uma honra recebe-lo aqui como my guest, sem mais palavras desnecessarias:
Denudado!


ALENTEJANOS DE PELE ESCURA

Ribeira do Sado,
Ó Sado, Sadeta.
Meus olhos não viram
Tanta gente preta.

Quem quiser ver moças
Da cor do carvão
Vá dar um passeio
Até São Romão.


(do cancioneiro popular de Alcácer do Sal, Alentejo, sul de Portugal)

Ribeira do Sado é o nome de uma região que se estende ao longo do vale do Rio Sado, no sul de Portugal, a partir de Alcácer do Sal e para montante, não longe de Grândola, a Vila Morena. São Romão do Sado é uma das aldeias existentes na referida região.

Quem agora for passear pela Ribeira do Sado, já não verá gente verdadeiramente preta diante dos seus olhos, nem encontrará moças da cor do carvão propriamente dito na aldeia de São Romão. A mestiçagem já se consumou por completo. Mas são por demais evidentes os traços fisionómicos observáveis em muitos dos habitantes da região, assim como a cor mais escura da sua pele, que nos remetem imediatamente para a África a Sul do Sahara.

Nem sequer é preciso percorrer a Ribeira do Sado. Se nos limitarmos a dar uma ou duas voltas pelas ruas de Alcácer do Sal, por certo nos cruzaremos com uma ou mais pessoas que apresentam as características físicas referidas. São os chamados mulatos de Alcácer, por vezes designados também carapinhas do Sado.


O seu aspecto é semelhante ao de muitos cabo-verdeanos, mas eles não têm quaisquer laços com as ilhas crioulas. São filhos de portugueses, netos de portugueses, bisnetos de portugueses e assim sucessivamente, ao longo de muitas gerações. Quando falam, fazem-no com a característica pronúncia local. São alentejanos.

É frequente atribuir-se ao Marquês de Pombal a iniciativa de promover a fixação de populações negras no vale do Rio Sado. Mas não é verdade. Existem registos paroquiais e do Santo Ofício que referem a existência de uma elevada percentagem de negros e de mestiços em épocas muito anteriores a Pombal. Segundo tais registos, já no séc. XVI havia pessoas de cor negra vivendo nas terras de Alcácer.

O vale do Rio Sado, no troço indicado, é um vale alagadiço onde hoje se cultiva arroz. Até há menos de cem anos, havia muitos casos de paludismo nesse troço. A mortalidade causada pelas febres palustres fazia com que as pessoas evitassem fixar-se naquela região. No séc. XVI, muitos portugueses embarcavam nas naus, o que agravava ainda mais o défice demográfico existente. Terá sido esta a razão por que, naquela época, os proprietários das férteis terras banhadas pelo Sado terão resolvido povoá-las com negros, comprados nos mercados de escravos. Os mulatos do Sado dos nossos dias são, portanto, descendentes desses antigos escravos negros.


A comprovar a antiguidade do povoamento negro no vale do Sado está o facto de que os actuais mulatos não possuem quaisquer manifestações culturais próprias, de raiz africana ou outra. Com a passagem dos anos e dos séculos, os costumes, crenças e tradições dos antigos escravos negros dissolveram-se por completo na cultura local de raiz euro-mourisca. Tal não teria acontecido se o povoamento negro fosse relativamente recente. Também do ponto de vista cultural, portanto, os mulatos de Alcácer são alentejanos legítimos, tão legítimos como os seus conterrâneos de pele branca.

Há uma outra região em Portugal onde ocorreu uma fixação de populações negras em número significativo. É o vale do Rio Sorraia, onde fica a vila de Coruche, já em terras do Ribatejo. Tal como no vale do Rio Sado, também no vale do Rio Sorraia havia muito paludismo. As razões para se ter feito com negros o povoamento desta outra região terão sido, por isso, as mesmas. Mas, ao contrário do que acontece em Alcácer do Sal, dificilmente vislumbraremos traços africanos entre os actuais habitantes de Coruche. Os genes "negros" estão presentes em muitos coruchenses, mas não são facilmente observáveis à vista desarmada.

Tal como no vale do Rio Sado, também no vale do Rio Sorraia se cultiva muito arroz. Por isso, quando comermos arroz português, lembremo-nos de que aquele arroz que temos no nosso prato pode muito bem ter sido cultivado por honrados descendentes de escravos negros.

[Blog do Denudado: A Materia do Tempo]

Quem venha acompanhado este blog com alguma regularidade sabera’ certamente que o meu segundo convidado desta serie dispensa apresentacoes. Trata-se de alguem que tem dado um contributo inestimavel a este blog praticamente desde o inicio e que, apesar de actualmente se encontrar de licenca sabatica como blogger, todos com quem se tem cruzado na blogosfera nao poderao jamais deixar de considerar como um dos melhores bloggers e amigos da lusosfera.
E’, portanto, para mim uma honra recebe-lo aqui como my guest, sem mais palavras desnecessarias:
Denudado!


ALENTEJANOS DE PELE ESCURA

Ribeira do Sado,
Ó Sado, Sadeta.
Meus olhos não viram
Tanta gente preta.

Quem quiser ver moças
Da cor do carvão
Vá dar um passeio
Até São Romão.


(do cancioneiro popular de Alcácer do Sal, Alentejo, sul de Portugal)

Ribeira do Sado é o nome de uma região que se estende ao longo do vale do Rio Sado, no sul de Portugal, a partir de Alcácer do Sal e para montante, não longe de Grândola, a Vila Morena. São Romão do Sado é uma das aldeias existentes na referida região.

Quem agora for passear pela Ribeira do Sado, já não verá gente verdadeiramente preta diante dos seus olhos, nem encontrará moças da cor do carvão propriamente dito na aldeia de São Romão. A mestiçagem já se consumou por completo. Mas são por demais evidentes os traços fisionómicos observáveis em muitos dos habitantes da região, assim como a cor mais escura da sua pele, que nos remetem imediatamente para a África a Sul do Sahara.

Nem sequer é preciso percorrer a Ribeira do Sado. Se nos limitarmos a dar uma ou duas voltas pelas ruas de Alcácer do Sal, por certo nos cruzaremos com uma ou mais pessoas que apresentam as características físicas referidas. São os chamados mulatos de Alcácer, por vezes designados também carapinhas do Sado.


O seu aspecto é semelhante ao de muitos cabo-verdeanos, mas eles não têm quaisquer laços com as ilhas crioulas. São filhos de portugueses, netos de portugueses, bisnetos de portugueses e assim sucessivamente, ao longo de muitas gerações. Quando falam, fazem-no com a característica pronúncia local. São alentejanos.

É frequente atribuir-se ao Marquês de Pombal a iniciativa de promover a fixação de populações negras no vale do Rio Sado. Mas não é verdade. Existem registos paroquiais e do Santo Ofício que referem a existência de uma elevada percentagem de negros e de mestiços em épocas muito anteriores a Pombal. Segundo tais registos, já no séc. XVI havia pessoas de cor negra vivendo nas terras de Alcácer.

O vale do Rio Sado, no troço indicado, é um vale alagadiço onde hoje se cultiva arroz. Até há menos de cem anos, havia muitos casos de paludismo nesse troço. A mortalidade causada pelas febres palustres fazia com que as pessoas evitassem fixar-se naquela região. No séc. XVI, muitos portugueses embarcavam nas naus, o que agravava ainda mais o défice demográfico existente. Terá sido esta a razão por que, naquela época, os proprietários das férteis terras banhadas pelo Sado terão resolvido povoá-las com negros, comprados nos mercados de escravos. Os mulatos do Sado dos nossos dias são, portanto, descendentes desses antigos escravos negros.


A comprovar a antiguidade do povoamento negro no vale do Sado está o facto de que os actuais mulatos não possuem quaisquer manifestações culturais próprias, de raiz africana ou outra. Com a passagem dos anos e dos séculos, os costumes, crenças e tradições dos antigos escravos negros dissolveram-se por completo na cultura local de raiz euro-mourisca. Tal não teria acontecido se o povoamento negro fosse relativamente recente. Também do ponto de vista cultural, portanto, os mulatos de Alcácer são alentejanos legítimos, tão legítimos como os seus conterrâneos de pele branca.

Há uma outra região em Portugal onde ocorreu uma fixação de populações negras em número significativo. É o vale do Rio Sorraia, onde fica a vila de Coruche, já em terras do Ribatejo. Tal como no vale do Rio Sado, também no vale do Rio Sorraia havia muito paludismo. As razões para se ter feito com negros o povoamento desta outra região terão sido, por isso, as mesmas. Mas, ao contrário do que acontece em Alcácer do Sal, dificilmente vislumbraremos traços africanos entre os actuais habitantes de Coruche. Os genes "negros" estão presentes em muitos coruchenses, mas não são facilmente observáveis à vista desarmada.

Tal como no vale do Rio Sado, também no vale do Rio Sorraia se cultiva muito arroz. Por isso, quando comermos arroz português, lembremo-nos de que aquele arroz que temos no nosso prato pode muito bem ter sido cultivado por honrados descendentes de escravos negros.

[Blog do Denudado: A Materia do Tempo]

5 comments:

Denudado said...

Cara Koluki,

Foi com grande surpresa que recebi o seu convite para participar neste seu blog, pode crer. Mas seria uma desfeita da minha parte não aceitar o convite, pois a Koluki sempre me cumulou com as mais gentis e imerecidas palavras. Foi também uma honra participar, pois este seu blog é único e de uma qualidade inultrapassável.

Espero que o tema que tratei aqui seja do agrado geral, pois fala de um assunto que, tanto quanto sei, praticamente ainda não foi abordado na Internet, o que é no mínimo estranho.

Há muito sangue "negro" a correr nas veias de muitos portugueses, mais do que alguns talvez estejam dispostos a aceitar. Em rigor, nenhum português "branco", seja ele de Alcácer do Sal, do Porto ou de Pitões das Júnias, pode ter a certeza absoluta de que não tem antepassados negros ou judeus. Até o fado é de origem africana!

Aceite um abraço do

Denudado

umBhalane said...

"...my guest, sem mais palavras desnecessarias:
Denudado!"

Precisamente, e de acordo absoluto.

Quanto ao excelente artigo escolhido por Denudado, oportuno, interessante, "que estranha não ter visto, praticamente, abordado na Internet" serve para cultura geral e um certo despertar de consciências.

O saber esbate muitas coisas.

É bom!

De facto os Portugueses, na generalidade, não são mais do que mestiços com epiderme mais ou menos clara.

Cujos tons advêm da ascendência Africana, muito antes de Portugal sequer sonhar existir.

Os Portugueses têm cerca de/entre 5 a 6% de marcadores de ADN africano, mormente com origem nas actuais populações de África Centro Oeste (As populações estudadas por Hélder Spínola foram as da Guiné-Bissau, penso que por razões óbvias).

Dizia que, houve um pulo de migrações do Norte de África, há cerca de 4 a 5.000 anos para a Península Ibérica, devido à desertificação do SARA.

Curiosamente, é no Norte de Portugal que essa "marca" é mais acentuada.

Depois, e muito mais tarde, vieram os escravos trazidos pelos Portugueses, mas muito antes estiveram os Álmorávidas/Mouros, cerca de 700 anos, e com eles muitos Negros do seu vasto império, escravos/soldados, pois então.

E por aí fora...

Bom artigo.

Parabéns a ambos.

Koluki said...

Denudado: Suponho que para os leitores deste blog surpresa seria se nao o convidasse...
E creio que nao e' demais repeti-lo: a honra e' toda minha!
Como pode avaliar pelo comentario do amigo umBhalane, o tema e' de interesse geral e a forma como o aborda e ilustra torna-o certamente do agrado do leitor discernido, como sei que sao a maioria dos leitores deste blog, mesmo quando preferem nao comentar (ou seja, quase sempre ;-))
Mas acabo de me lembrar que uma vez falamos aqui vagamente sobre isso, creio que a proposito da ligacao da Whoopi Goldberg a Guine Bissau, quando eu sugeri que talvez ela e o Denudado fossem "primos", lembra-se?

umBhalane: Fico feliz por este artigo ter sido nao so' do seu agrado e interesse, mas tambem por ter gerado um dialogo e troca de informacao sobre um tema que e' certamente pouco conhecido do publico em geral (entre o qual me incluo), na internet e nao so'...

Obrigada a ambos!

Denudado said...

É verdade, Koluki, falámos sobre isso a propósito da actriz Whoopy Goldberg, que terá ascendência fula da Guiné-Bissau.

A descoberta feita por Hélder Spínola, sobre uma relação genética entre os portugueses do Norte e os galegos, por um lado, e as populações da Guiné-Bissau, por outro, e que foi aqui lembrada por umBhalane (muito obrigado, umBhalane, pelas suas simpáticas palavras), veio confirmar e explicar uma descoberta feita há já alguns anos por investigadores do Instituto de Patologia e Imunulogia Molecular da Universidade do Porto (IPATIMUP), segundo a qual não há só genes norte-africanos entre os portugueses do Sul, também há genes norte-africanos entre as populações do Norte de Portugal e da Galiza.

Os dados avançados pelos cientistas do IPATIMUP, e que Hélder Spínola veio complementar, são bastante curiosos. Os genes norte-africanos que existem no Sul de Portugal são predominantemente genes do cromossoma Y, que só se transmitem de homens para os seus filhos do sexo masculino. Em contrapartida, os genes norte-africanos que existem no Norte de Portugal e na Galiza são genes do ADN mitocondrial, que só se transmitem de mulheres para os seus filhos de ambos os sexos.

Os investigadores do IPATIMUP, em face da sua descoberta, puseram então a seguinte questão: os genes norte-africanos detectados no Sul de Portugal, sendo transmitidos segundo uma linhagem masculina, explicam-se facilmente; foram os cavaleiros mouros, que eram homens, que os trouxeram. Mas a linhagem feminina que predomina no Norte português e na Galiza deve-se a quê? Não aos mouros, com certeza, pois estes quase não devem ter trazido mulheres consigo. Além disso, a presença árabe na Galiza foi extremamente passageira e no Norte de Portugal só durou um pouco mais. Para esta questão não tinham os investigadores resposta.

A resposta, dada por Hélder Spínola, foi aqui lembrada por umBhalane: a desertificação do Sahara obrigou as populações que nele residiam a migrar. Uns migraram para norte e acabaram por se fixar no Noroeste da Península Ibérica; outros migraram para sul e fixaram-se, pelo menos, na Guiné-Bissau. Resultado: muitos portugueses do Norte e muitos galegos (que, embora sejam de nacionalidade espanhola, são cultural e geneticamente "portugueses") são primos dos guineenses. Eu talvez seja primo da Whoopy Goldberg, como a Koluki lembrou...

Koluki said...

Denudado, que posso eu mais acrescentar a nao ser que consigo so' se tem a aprender?
So' uma coisinha: quando voce e a sua prima Whoopy decidirem marcar o encontro de familia, nao se esquecam de me convidar para a festa, OK?

:-)