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Wednesday, 11 April 2012

Gostei de Ler [6]*




O filósofo Friedrich Hegel diz que ‘a Justiça não é um dom gratuito da Natureza Humana, ela precisa ser conquistada sempre porque é uma eterna procura’. Concorda com este pensamento? Qual é para si a evolução mais importante para que se atinjam patamares, cada vez mais, elevados de Justiça nos diferentes domínios da sociedade?

A justiça é de facto uma eterna procura. A busca da perfeição, do equilíbrio, a demanda da felicidade. O reconhecimento da dignidade da pessoa humana, independentemente da sua condição, de sexo, de origem social, racial, económica ou outra, constituiu o mais importante marco histórico e é ainda a pedra de toque entre as sociedades justas e injustas.

À soberania do Homem sobre si mesmo chama-se liberdade. Ela é o cume e a igualdade é a base. Em que alicerces devem assentar as noções do novo ‘contrato social’ moderno face à relação entre a Sociedade e o Estado de Direito?

O contrato social moderno parte ainda necessariamente do pressuposto da liberdade e implica o reconhecimento da igualdade de todos perante o Estado e os seus sistemas de proteção (nos quais se integra o sistema de justiça) e no acesso a condições de vida dignas e de progresso social.

Afirmou a seguinte frase: ‘Cumpra-se, a vitória é certa!’ O que simboliza esta expressão e que sentimentos lhe desperta? Fazendo uma espécie de viagem ao passado recente, como analisa a evolução do país, sobretudo na última década pós Acordo de Paz?

A frase não é minha. É de um instrutor militar que tive, em 1975, quando a guerra às portas de Luanda nos mobilizou a todos para defender a cidade. Correspondia a uma lógica de obediência cega, obediência castrense, que é explicável num contexto militar e que obviamente rejeitava.
Entretanto, o país cresceu muito e cresce todos os dias. Sentem-se obviamente muitas diferenças, mas será preciso atualmente um olhar sobre o vetor desenvolvimento, já que os dois conceitos (crescimento e desenvolvimento) não são sinónimos.
Justifica-se um esforço no sentido da recuperação dos indicadores de 1974 em domínios como o saneamento básico, a educação ou a saúde.

Em 2007, é nomeada Procuradora-Geral Distrital de Lisboa. Considera esta ascensão professional natural ou resultado de muito esforço e trabalho? Desde então como tem evoluído o seu trabalho?

Penso que a minha nomeação para o cargo de Procuradora-Geral Distrital de Lisboa correspondeu ao reconhecimento de um trabalho coerente e consistente que vinha desenvolvendo como magistrada. Sem falsa modéstia, penso que continuo, na Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa, a fazer umtrabalho de grande diferenciação, com resultados visíveis. Mas é preciso trabalhar, trabalhar sempre. Com disciplina, com constância, com rigor.

Há, cada vez mais, um domínio das mulheres na Justiça. Acredita que este fenómeno tem influência a nível sociológico e no desenvolvimento das decisões judiciárias, ou seja, uma justiça no feminino é diferente?

O facto de haver cada vez mais mulheres no mundo judiciário, mais mulheres na justiça, permite, pelo menos, incorporar melhor a visão de mais de metade da humanidade. Afinal, as mulheres são a metade do céu!

Descrevem-na como uma mulher resiliente e reservada, que participou na luta pela independência do seu país, mas que nunca se exalta e é contra a exposição. É dessa forma que se vê?

Não. Não é assim que me vejo. Considero- me uma pessoa bem-educada, formada com elevados padrões éticos e de exigência pessoal - e a aparência de reserva tem apenas a ver com isso – que, por essa razão, convive mal com a sobre-exposição instrumental da promoção pessoal. Julgo ter uma relação equilibrada com os media.


Qual é a influência que esta memória coletiva e pessoal teve no seu percurso e como a mudou enquanto mulher e profissional?

Dizer que participei na luta pela independência seria uma injúria a quantos nela efetivamente participaram, sacrificando projetos pessoais e, em muitos casos, dando a sua vida pelo ideal de restauração da dignidade da Nação Angolana. Tenho um enorme respeito por essas pessoas. Ainda hoje olho com estupefação para muitas outras que no período colonial assumiram a comodidade de uma vida sem sobressaltos ou até mesmo de compromisso expresso com o poder colonial e que, após a independência, ou no período que imediatamente a precedeu, apareceram como arautos da liberdade. É preciso sermos rigorosos. Não podemos ceder à tentação de reescrever a história.

2012 é um ano complicado para a Europa, mas muito importante para Angola. Quais são os seus votos pessoais no que concerne às eleições que vão decorrer no país? Em que ponto este ato vai ser determinante para uma projeção internacional mais forte e de que forma influencia uma atividade tão importante como a Justiça?

Relativamente às eleições previstas para 2012, espero que decorram pacificamente – que não se gerem fatores de retrocesso no processo de paz - e que haja condições para o pleno exercício dos direitos políticos consagrados na Constituição: eleger e ser eleito, com tudo o que isso pressupõe em matéria de garantias do processo eleitoral. O modo como as eleições decorrerem será mais um teste à consolidação dos valores e das instituições democráticas em Angola e seguramente influenciará a imagem do país no contexto internacional. A justiça eleitoral é um segmento crítico, muito posto à prova nestes contextos e pode constituir o ponto nevrálgico das democracias em contextos de mudança.

Tenciona um dia regressar definitivamente à sua terra natal? Que mensagem gostaria de deixar aos seus compatriotas?

Todos os filhos tencionam regressar à imagem de amor das mães. A principal riqueza dos países é humana. São as suas mulheres e os seus homens. Os países podem ter toda a riqueza do mundo. Se não tiverem homens e mulheres à altura de a administrar com justiça e equidade ficarão diminuídos para sempre. Angola é um grande país.
Precisamos todos de estar à altura do país que somos. Do legado dos nossos antepassados. A capacitação técnica é indispensável, assim como é indispensável a participação cívica. É preciso educar para a cidadania, educar para a paz, educar para a justiça. A educação é, para mim, a chave de tudo. Ela gerará a competência, a autosuficiência e a harmonia.

Qual é para si o principal papel a desempenhar pelo cidadão comum na edificação da Nova Angola e quais os domínios mais importantes para que esse plano de desenvolvimento tenha sucesso?

Infelizmente, parece estar a gerar-se em alguns setores da sociedade angolana uma espécie de novo riquismo ostensivo e disparatado que exacerba tensões e engendra mau estar. Em muitos casos é fruto de níveis educacionais e culturais muito baixos e de referências modelares associadas ao individualismo, à ganância e à indiferença social. É preciso fazer atenção a este fenómeno pelo que ele tem de potencial desestruturação da coesão social e de fomentador da divisão e do ódio. Se a isto for associada a dificuldade de resolução de problemas sociais, pode estar a criar-se aqui uma mistura explosiva. Precisamos de dar mais de nós próprios. Do que somos e não do que temos. O ter pode ser episódico. Só o ser perdura. Não adianta termos muito e não termos condições para realizar a felicidade no nosso lugar.
Termos de morar fora, de buscar a saúde fora, de ter os filhos a estudar fora, de ter a família dividida, de nos refugiarmos do olhar cobiçoso dos que não entendem porquê que a fortuna lhes não chegou... E precisamos de dar mais atenção ao lado. Ao vizinho. Ao que não é amigo, mas existe. Como eu, como ser portador de tanta esperança e de tanto desejo de felicidade como eu. Os grandes países fazem-se de gente generosa. Gente capaz de dádiva e ávida de realização de promessas. E a nossa promessa coletiva é tornarmonos um grande país. Um grande país para todos. Não foi esse o grande projeto da independência?


(Extractos de uma entrevista de Francisca Van Dunem 'a Revista Angola'In - Marco 2012)


Post Relacionado:

Jurista Angolana Eleita Procuradora Distrital de Lisboa


*[Nao me passaram despercebidos alguns aparentes double entendres, mas... recorrendo a giria popular, "o que nao me atinge passa por baixo"... gostei de ler quand meme.]




O filósofo Friedrich Hegel diz que ‘a Justiça não é um dom gratuito da Natureza Humana, ela precisa ser conquistada sempre porque é uma eterna procura’. Concorda com este pensamento? Qual é para si a evolução mais importante para que se atinjam patamares, cada vez mais, elevados de Justiça nos diferentes domínios da sociedade?

A justiça é de facto uma eterna procura. A busca da perfeição, do equilíbrio, a demanda da felicidade. O reconhecimento da dignidade da pessoa humana, independentemente da sua condição, de sexo, de origem social, racial, económica ou outra, constituiu o mais importante marco histórico e é ainda a pedra de toque entre as sociedades justas e injustas.

À soberania do Homem sobre si mesmo chama-se liberdade. Ela é o cume e a igualdade é a base. Em que alicerces devem assentar as noções do novo ‘contrato social’ moderno face à relação entre a Sociedade e o Estado de Direito?

O contrato social moderno parte ainda necessariamente do pressuposto da liberdade e implica o reconhecimento da igualdade de todos perante o Estado e os seus sistemas de proteção (nos quais se integra o sistema de justiça) e no acesso a condições de vida dignas e de progresso social.

Afirmou a seguinte frase: ‘Cumpra-se, a vitória é certa!’ O que simboliza esta expressão e que sentimentos lhe desperta? Fazendo uma espécie de viagem ao passado recente, como analisa a evolução do país, sobretudo na última década pós Acordo de Paz?

A frase não é minha. É de um instrutor militar que tive, em 1975, quando a guerra às portas de Luanda nos mobilizou a todos para defender a cidade. Correspondia a uma lógica de obediência cega, obediência castrense, que é explicável num contexto militar e que obviamente rejeitava.
Entretanto, o país cresceu muito e cresce todos os dias. Sentem-se obviamente muitas diferenças, mas será preciso atualmente um olhar sobre o vetor desenvolvimento, já que os dois conceitos (crescimento e desenvolvimento) não são sinónimos.
Justifica-se um esforço no sentido da recuperação dos indicadores de 1974 em domínios como o saneamento básico, a educação ou a saúde.

Em 2007, é nomeada Procuradora-Geral Distrital de Lisboa. Considera esta ascensão professional natural ou resultado de muito esforço e trabalho? Desde então como tem evoluído o seu trabalho?

Penso que a minha nomeação para o cargo de Procuradora-Geral Distrital de Lisboa correspondeu ao reconhecimento de um trabalho coerente e consistente que vinha desenvolvendo como magistrada. Sem falsa modéstia, penso que continuo, na Procuradoria-Geral Distrital de Lisboa, a fazer umtrabalho de grande diferenciação, com resultados visíveis. Mas é preciso trabalhar, trabalhar sempre. Com disciplina, com constância, com rigor.

Há, cada vez mais, um domínio das mulheres na Justiça. Acredita que este fenómeno tem influência a nível sociológico e no desenvolvimento das decisões judiciárias, ou seja, uma justiça no feminino é diferente?

O facto de haver cada vez mais mulheres no mundo judiciário, mais mulheres na justiça, permite, pelo menos, incorporar melhor a visão de mais de metade da humanidade. Afinal, as mulheres são a metade do céu!

Descrevem-na como uma mulher resiliente e reservada, que participou na luta pela independência do seu país, mas que nunca se exalta e é contra a exposição. É dessa forma que se vê?

Não. Não é assim que me vejo. Considero- me uma pessoa bem-educada, formada com elevados padrões éticos e de exigência pessoal - e a aparência de reserva tem apenas a ver com isso – que, por essa razão, convive mal com a sobre-exposição instrumental da promoção pessoal. Julgo ter uma relação equilibrada com os media.


Qual é a influência que esta memória coletiva e pessoal teve no seu percurso e como a mudou enquanto mulher e profissional?

Dizer que participei na luta pela independência seria uma injúria a quantos nela efetivamente participaram, sacrificando projetos pessoais e, em muitos casos, dando a sua vida pelo ideal de restauração da dignidade da Nação Angolana. Tenho um enorme respeito por essas pessoas. Ainda hoje olho com estupefação para muitas outras que no período colonial assumiram a comodidade de uma vida sem sobressaltos ou até mesmo de compromisso expresso com o poder colonial e que, após a independência, ou no período que imediatamente a precedeu, apareceram como arautos da liberdade. É preciso sermos rigorosos. Não podemos ceder à tentação de reescrever a história.

2012 é um ano complicado para a Europa, mas muito importante para Angola. Quais são os seus votos pessoais no que concerne às eleições que vão decorrer no país? Em que ponto este ato vai ser determinante para uma projeção internacional mais forte e de que forma influencia uma atividade tão importante como a Justiça?

Relativamente às eleições previstas para 2012, espero que decorram pacificamente – que não se gerem fatores de retrocesso no processo de paz - e que haja condições para o pleno exercício dos direitos políticos consagrados na Constituição: eleger e ser eleito, com tudo o que isso pressupõe em matéria de garantias do processo eleitoral. O modo como as eleições decorrerem será mais um teste à consolidação dos valores e das instituições democráticas em Angola e seguramente influenciará a imagem do país no contexto internacional. A justiça eleitoral é um segmento crítico, muito posto à prova nestes contextos e pode constituir o ponto nevrálgico das democracias em contextos de mudança.

Tenciona um dia regressar definitivamente à sua terra natal? Que mensagem gostaria de deixar aos seus compatriotas?

Todos os filhos tencionam regressar à imagem de amor das mães. A principal riqueza dos países é humana. São as suas mulheres e os seus homens. Os países podem ter toda a riqueza do mundo. Se não tiverem homens e mulheres à altura de a administrar com justiça e equidade ficarão diminuídos para sempre. Angola é um grande país.
Precisamos todos de estar à altura do país que somos. Do legado dos nossos antepassados. A capacitação técnica é indispensável, assim como é indispensável a participação cívica. É preciso educar para a cidadania, educar para a paz, educar para a justiça. A educação é, para mim, a chave de tudo. Ela gerará a competência, a autosuficiência e a harmonia.

Qual é para si o principal papel a desempenhar pelo cidadão comum na edificação da Nova Angola e quais os domínios mais importantes para que esse plano de desenvolvimento tenha sucesso?

Infelizmente, parece estar a gerar-se em alguns setores da sociedade angolana uma espécie de novo riquismo ostensivo e disparatado que exacerba tensões e engendra mau estar. Em muitos casos é fruto de níveis educacionais e culturais muito baixos e de referências modelares associadas ao individualismo, à ganância e à indiferença social. É preciso fazer atenção a este fenómeno pelo que ele tem de potencial desestruturação da coesão social e de fomentador da divisão e do ódio. Se a isto for associada a dificuldade de resolução de problemas sociais, pode estar a criar-se aqui uma mistura explosiva. Precisamos de dar mais de nós próprios. Do que somos e não do que temos. O ter pode ser episódico. Só o ser perdura. Não adianta termos muito e não termos condições para realizar a felicidade no nosso lugar.
Termos de morar fora, de buscar a saúde fora, de ter os filhos a estudar fora, de ter a família dividida, de nos refugiarmos do olhar cobiçoso dos que não entendem porquê que a fortuna lhes não chegou... E precisamos de dar mais atenção ao lado. Ao vizinho. Ao que não é amigo, mas existe. Como eu, como ser portador de tanta esperança e de tanto desejo de felicidade como eu. Os grandes países fazem-se de gente generosa. Gente capaz de dádiva e ávida de realização de promessas. E a nossa promessa coletiva é tornarmonos um grande país. Um grande país para todos. Não foi esse o grande projeto da independência?


(Extractos de uma entrevista de Francisca Van Dunem 'a Revista Angola'In - Marco 2012)


Post Relacionado:

Jurista Angolana Eleita Procuradora Distrital de Lisboa


*[Nao me passaram despercebidos alguns aparentes double entendres, mas... recorrendo a giria popular, "o que nao me atinge passa por baixo"... gostei de ler quand meme.]

Sunday, 3 July 2011

Vania Gala "Chegando 'a Terra"






"Coming Ashore"

Sonia Boyce
Dance of Belém, 2011 Instalação video
Credits:
Dancer - Vania Gala
Soundtrack - DJ Johnny
Camera - Ines Amado; Sandro Resende; Zze (surname?)
Producers - Paul Goodwin; Bruno Malveira
Director - Sonia Boyce
Special thanks to: Ines Amado; Paul Goodwin; P28
Dance of Belem - a Sonia Boyce project (2011)

Inês Amado
Facing the Other -- There and Now, 2011 Instalação video e som

Curadoria de Paul Goodwin




O projecto CONTENTORES, criado pela P28, apresenta Coming Ashore (Chegando a Terra), um projecto composto por duas instalações de Inês Amado e de Sonia Boyce.

Com curadoria de Paul Goodwin (TATE Britain), esta exposição centra-se na poética do espaço relacionada com a herança histórica de Belém, enquanto ponto de partida para as viagens, trocas comerciais e conquistas imperiais do tempo dos Descobrimentos. Inês Amado, artista e investigadora, interessa-se sobretudo pelos processos de diálogo que existem nos trabalhos colaborativos. Sonia Boyce, artista que integra a colecção da TATE, por ter alcançado proeminência como pintora nos anos de 1980, tem vindo a mostrar uma preocupação com a inclusão social e as diferenças culturais.

Será realizado ainda um debate presidido pelo curador Paul Goodwin, no dia 7 de Agosto, às 18h30, na Sala de Leitura do Centro Cultural de Belém.

Detalhes/Debate

Postcolonial Melancholia and the Poetics of Space

July 7 2011 CCB, Lisbon

18.30 - 21.00

Speakers: Paul Goodwin (Curator of Coming Ashore; chair), Ines Amado, Sonia Boyce (artists in Coming Ashore),Vania Gala, Monica de Miranda (invited artists) Jose Fernandes Dias (curator, Director of Africa.cont) Lucia Marques (Curator and President of Xerem Cultural Association)

Horários
Abertura ao público:
Todos os dias 10:00 -- 19:00

O projecto CONTENTORES, desenvolvido pela P28 e apoiado pela Liscont, é apresentado, na sua segunda edição, em parceria com o Museu Colecção Berardo, o Centro Cultural de Belém e a Câmara Municipal de Lisboa, entre os meses de Abril e Outubro de 2011.


[Mais detalhes aqui e aqui]






"Coming Ashore"

Sonia Boyce
Dance of Belém, 2011 Instalação video
Credits:
Dancer - Vania Gala
Soundtrack - DJ Johnny
Camera - Ines Amado; Sandro Resende; Zze (surname?)
Producers - Paul Goodwin; Bruno Malveira
Director - Sonia Boyce
Special thanks to: Ines Amado; Paul Goodwin; P28
Dance of Belem - a Sonia Boyce project (2011)

Inês Amado
Facing the Other -- There and Now, 2011 Instalação video e som

Curadoria de Paul Goodwin




O projecto CONTENTORES, criado pela P28, apresenta Coming Ashore (Chegando a Terra), um projecto composto por duas instalações de Inês Amado e de Sonia Boyce.

Com curadoria de Paul Goodwin (TATE Britain), esta exposição centra-se na poética do espaço relacionada com a herança histórica de Belém, enquanto ponto de partida para as viagens, trocas comerciais e conquistas imperiais do tempo dos Descobrimentos. Inês Amado, artista e investigadora, interessa-se sobretudo pelos processos de diálogo que existem nos trabalhos colaborativos. Sonia Boyce, artista que integra a colecção da TATE, por ter alcançado proeminência como pintora nos anos de 1980, tem vindo a mostrar uma preocupação com a inclusão social e as diferenças culturais.

Será realizado ainda um debate presidido pelo curador Paul Goodwin, no dia 7 de Agosto, às 18h30, na Sala de Leitura do Centro Cultural de Belém.

Detalhes/Debate

Postcolonial Melancholia and the Poetics of Space

July 7 2011 CCB, Lisbon

18.30 - 21.00

Speakers: Paul Goodwin (Curator of Coming Ashore; chair), Ines Amado, Sonia Boyce (artists in Coming Ashore),Vania Gala, Monica de Miranda (invited artists) Jose Fernandes Dias (curator, Director of Africa.cont) Lucia Marques (Curator and President of Xerem Cultural Association)

Horários
Abertura ao público:
Todos os dias 10:00 -- 19:00

O projecto CONTENTORES, desenvolvido pela P28 e apoiado pela Liscont, é apresentado, na sua segunda edição, em parceria com o Museu Colecção Berardo, o Centro Cultural de Belém e a Câmara Municipal de Lisboa, entre os meses de Abril e Outubro de 2011.


[Mais detalhes aqui e aqui]

Friday, 28 January 2011

Portugal’s Colonial Complex ...

... From Colonial Lusotropicalism to Postcolonial Lusophony


[Miguel Vale de Almeida]


Lusotropicalism was the invention of a Brazilian author, Gilberto Freyre. Although he is widely known as the author of Casa Grande e Senzala (The Masters and the Slaves, in the English translation), he did not explicitly use the concept in that major work of his, written in the 1930s. The underlying notions – that the Portuguese, due to historical and cultural reasons had an inclination towards adaptation and miscegenation – were there, but the term was not branded until the 1950s in books that he wrote on the aftermath of his journeys throughout the Portuguese colonial empire.

It is therefore significant to note that we are dealing with a theory that has a complex colonial and postcolonial history: a Brazilian author, involved in the intellectual struggles about the representations of the national identity of his country (independent since the 19th century) proposes an historical interpretation of Brazil’s formation in which the Portuguese play a major role; he is then invited to visit the Portuguese colonies in Africa and India and, by means of comparison and analogy between Brazil and Africa, he develops the notion of Lusotropicalism as a special kind of inclination or capacity for miscegenation that the Portuguese were supposed to have; this interpretation is then used by the Portuguese colonial regime to legitimize its claims in Africa against growing anticolonial pressure as of the late 1950s and until the demise of the colonial and dictatorial regime in the early 1970s.

[...]

Portugal had no economic, military or demographic power – after the demise of the first and second empires, respectively in India and the East in the 16th and 17th centuries, and in Brazil in the 17th and 18th centuries – to effectively occupy its historical territories in Africa. It was not until Salazar’s regime that an actual colonial enterprise in Africa was set up (that is, a colonial regime, with proper institutions and knowledge systems). Portugal lived under a dictatorship from 1926 to 1974 and throughout this period the African colonies were to occupy a major and central role not only in the economy but also in the official representations of national identity. How was this done?

[...]

That is probably why the effective occupation of the African colonies, which took place as of the 1940s and 1950s was done on the basis of different “Constitutions” – i.e., sets of rules for politically administering the populations, based on specific representations of difference and sameness. One the one hand, some territories were classified as not quite colonies. Cape Verde and India were seen as products of an on-going miscegenation, for different reasons. Cape Verde was the outcome of a mix between Portuguese colonials and slaves from the African mainland imported to a deserted archipelago. And India was seen as a civilization in its own right, a civilization that had met another, that of European Christianity.

Cape Verdean culture was classified as regional, not as colonial, and its population – its elites – had special rights, one of which was their recruitment as colonial middlemen in the African mainland. Other colonies, like Angola and Mozambique, were clearly seen as African and there a different “constitution” was established. With an economy based on forced labor, people were divided into three legal categories: citizens, i.e. the Portuguese; indigenous or native; and “assimilated”. The assimilated were indigenous people who had to undergo a probation period and exams in order to prove that they were Christian, that they dressed in European fashion, that they were monogamous, and that they spoke Portuguese (bear this in mind). They never amounted to more than 1% of the colonial population.

[...]

It was at that juncture that, in the 1950s, Freyre was invited by the Minister of the Overseas to visit and write on the colonies. His ideas were already being received and discussed in the stifling intellectual circles of Lisbon. They fitted nicely with the vague humanistic perspectives of the traditional Left, but they fit even more nicely with the regime’s growing strategy toward presenting the Portuguese empire as a multiracial and multi-continental nation.

[...]

Both the Portuguese state and the population had their representations challenged by the flux of migrants that started in the late 1980s and is still going on. These were initially (and still are) from ex-colonies in Africa and then from Brazil and Eastern European countries. The immigration of Africans faced the Portuguese with their own representations of colonial miscegenation, tolerance and exceptionalism.

This resulted in a cognitive tension that social scientists have identified in studies on blatant and covert racism: statements on the non-racist character of Portuguese society are hegemonic and are usually justified with the example of Portuguese expansion and colonialism as exceptionally tolerant, in what could be labeled as a form of popular lusotropicalism (and an evidence of how hegemonic that discourse became); but they are confronted with the social exclusion of immigrants, their geographical ascription to the worse neighborhoods, the exploitation of their labor and the difficulties they face when applying for citizenship or to access rights of all sorts.

[...]

This I call postlusotropicalism, playing with the similarity with the notion of post
colonialism, as the study of colonial continuations in the present. That is also why one cannot just denounce the colonial in the postcolonial. One should also acknowledge that, for better or worse, the colonial experience did create a common world of reference for many people. What we should do is work on this basic statement and set out to identify the intricate relations between power and emancipation, violence and pleasure in which such a forced commonality became a lived commonality.

It is as if we were all still caught in Freyre’s erotically charged vignette (because terrifying and pleasurable) describing sexual relations between a Portuguese male slave owner and his female black slave in 16th century Northeastern Brazil. This image still haunts us today, with its contradictions of power and intimacy, connecting the ambiguities of Lusotropicalism with those of Lusophony. That is why I have used the expression “Complex” in the title: both in the sense of “intricate” or “complicated”, and in the psychoanalytical sense.


[Extracts from here]


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... From Colonial Lusotropicalism to Postcolonial Lusophony


[
Miguel Vale de Almeida]


Lusotropicalism was the invention of a Brazilian author, Gilberto Freyre. Although he is widely known as the author of Casa Grande e Senzala (The Masters and the Slaves, in the English translation), he did not explicitly use the concept in that major work of his, written in the 1930s. The underlying notions – that the Portuguese, due to historical and cultural reasons had an inclination towards adaptation and miscegenation – were there, but the term was not branded until the 1950s in books that he wrote on the aftermath of his journeys throughout the Portuguese colonial empire.

It is therefore significant to note that we are dealing with a theory that has a complex colonial and postcolonial history: a Brazilian author, involved in the intellectual struggles about the representations of the national identity of his country (independent since the 19th century) proposes an historical interpretation of Brazil’s formation in which the Portuguese play a major role; he is then invited to visit the Portuguese colonies in Africa and India and, by means of comparison and analogy between Brazil and Africa, he develops the notion of Lusotropicalism as a special kind of inclination or capacity for miscegenation that the Portuguese were supposed to have; this interpretation is then used by the Portuguese colonial regime to legitimize its claims in Africa against growing anticolonial pressure as of the late 1950s and until the demise of the colonial and dictatorial regime in the early 1970s.

[...]

Portugal had no economic, military or demographic power – after the demise of the first and second empires, respectively in India and the East in the 16th and 17th centuries, and in Brazil in the 17th and 18th centuries – to effectively occupy its historical territories in Africa. It was not until Salazar’s regime that an actual colonial enterprise in Africa was set up (that is, a colonial regime, with proper institutions and knowledge systems). Portugal lived under a dictatorship from 1926 to 1974 and throughout this period the African colonies were to occupy a major and central role not only in the economy but also in the official representations of national identity. How was this done?

[...]

That is probably why the effective occupation of the African colonies, which took place as of the 1940s and 1950s was done on the basis of different “Constitutions” – i.e., sets of rules for politically administering the populations, based on specific representations of difference and sameness. One the one hand, some territories were classified as not quite colonies. Cape Verde and India were seen as products of an on-going miscegenation, for different reasons. Cape Verde was the outcome of a mix between Portuguese colonials and slaves from the African mainland imported to a deserted archipelago. And India was seen as a civilization in its own right, a civilization that had met another, that of European Christianity.

Cape Verdean culture was classified as regional, not as colonial, and its population – its elites – had special rights, one of which was their recruitment as colonial middlemen in the African mainland. Other colonies, like Angola and Mozambique, were clearly seen as African and there a different “constitution” was established. With an economy based on forced labor, people were divided into three legal categories: citizens, i.e. the Portuguese; indigenous or native; and “assimilated”. The assimilated were indigenous people who had to undergo a probation period and exams in order to prove that they were Christian, that they dressed in European fashion, that they were monogamous, and that they spoke Portuguese (bear this in mind). They never amounted to more than 1% of the colonial population.

[...]

It was at that juncture that, in the 1950s, Freyre was invited by the Minister of the Overseas to visit and write on the colonies. His ideas were already being received and discussed in the stifling intellectual circles of Lisbon. They fitted nicely with the vague humanistic perspectives of the traditional Left, but they fit even more nicely with the regime’s growing strategy toward presenting the Portuguese empire as a multiracial and multi-continental nation.

[...]

Both the Portuguese state and the population had their representations challenged by the flux of migrants that started in the late 1980s and is still going on. These were initially (and still are) from ex-colonies in Africa and then from Brazil and Eastern European countries. The immigration of Africans faced the Portuguese with their own representations of colonial miscegenation, tolerance and exceptionalism.

This resulted in a cognitive tension that social scientists have identified in studies on blatant and covert racism: statements on the non-racist character of Portuguese society are hegemonic and are usually justified with the example of Portuguese expansion and colonialism as exceptionally tolerant, in what could be labeled as a form of popular lusotropicalism (and an evidence of how hegemonic that discourse became); but they are confronted with the social exclusion of immigrants, their geographical ascription to the worse neighborhoods, the exploitation of their labor and the difficulties they face when applying for citizenship or to access rights of all sorts.

[...]

This I call postlusotropicalism, playing with the similarity with the notion of post
colonialism, as the study of colonial continuations in the present. That is also why one cannot just denounce the colonial in the postcolonial. One should also acknowledge that, for better or worse, the colonial experience did create a common world of reference for many people. What we should do is work on this basic statement and set out to identify the intricate relations between power and emancipation, violence and pleasure in which such a forced commonality became a lived commonality.

It is as if we were all still caught in Freyre’s erotically charged vignette (because terrifying and pleasurable) describing sexual relations between a Portuguese male slave owner and his female black slave in 16th century Northeastern Brazil. This image still haunts us today, with its contradictions of power and intimacy, connecting the ambiguities of Lusotropicalism with those of Lusophony. That is why I have used the expression “Complex” in the title: both in the sense of “intricate” or “complicated”, and in the psychoanalytical sense.


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Saturday, 22 January 2011

JUST POETRY (V) [R]* [Actualizado]



PARA ANGOLA, RAPIDAMENTE E EM FORÇA

Peço ao vento por graçola
notícias do meu país
e o vento diz: «Vai para Angola».
(É o que o vento me diz.)
«Tem juízo, vai para Angola,
isto aqui está por um triz.»

Vamos todos para Angola
desde o Malanje ao Namibe
aproveitar por esmola
o crescimento do PIB.

Vem tu também, anda, anda,
escolhe uma profissão:
agora os preto é quem manda,
os preto é nosso patrão.

Leva a família na frente,
mulher, filhos, pai e mãe,
e se ainda couber mais gente
traz outro amigo também.

Vamos todos sem demora,
uns à solta, outros à trela,
vamos invadir Angola
do Moxico até Benguela.

Vamos de avião, navio,
canoa, bote ou jangada,
isto aqui está por um fio,
vai ser uma debandada.

Vamos todos para Angola,
destino de emigração,
vamos todos para Angola,
atrás do Diogo Cão.


[Poema daqui /// Ecos do original aqui]



*[Postado inicialmente a 06/05/09 - "repostado" hoje devido aos ultimos comentarios a ele feitos]







Em referencia aos comentarios feitos a este post nos ultimos dias, permitam-me, como “ser humano genuino” – tal como o sao (ou foram) os retratados, brancos e negros, nesta materia –, alinhar aqui algumas breves notas para esta que me parece ser, manifestamente, uma discussao de, entre e sobre portugueses, “genuinos” ou nao.

Tres vectores fundamentais confluem de forma problematica e frequentemente conflituosa para esta questao: a Historia, a Cultura e a Economia:


1. Historia – Portugal colonizou partes do actual territorio de Angola durante cerca de 5 seculos. Foi uma colonizacao, como todas, nao pacificamente aceite pela esmagadora maioria dos seus subditos, mesmo quando todas as aparencias pudessem sugerir o contrario. Por isso houve guerras de resistencia ao longo dos seculos, por isso houve uma guerra anti-colonial durante mais de uma decada, por isso houve a independencia – todos, factos historicos incontestaveis e irreversiveis: nao ficcao cientifica.

Poderia o processo de “descolonizacao” ter sido menos traumatico para ambos os lados? Questao ainda nao resolvida e que, pelo menos nos termos em que o debate (nao) tem vindo a ser conduzido, parece jamais vir a se-lo, pelo que sobre ela limitar-me-ei a sugerir que “o que aconteceu, esta’ acontecido” e “o que nao tem remedio, remediado esta’”, ou ainda, "de nada serve chorar sobre o leite derramado"... sendo certo que, qualquer que seja a evolucao, ou resolucao, dessa questao, a chamada “recolonizacao” nao me parece ser a resposta mais adequada para ela, certamente nao nos termos em que tem vindo a ser advogada.


2. Cultura – Uma parte, diga-se que minoritaria, dos angolanos foi assimilada, voluntaria ou involuntariamente, a cultura e lingua portuguesas. Mas, precisamente por ser minoritaria, embora contemporaneamente “poderosa”, “elitizante” e “socio-economicamente dominante”, ela nao detem de facto os “fios condutores” da totalidade da vida cultural, social e humana do pais Angola. Ha’ outros “fios condutores” no tecido que (con)forma o pais real, enfim outras sensibilidades que, embora tentem (e, de algum modo, consigam em alguns casos) negociar entre si e acomodar-se umas as outras em nome do um “um so' povo, uma so' nacao”, continuam (e, diga-se, legitimamente) a ansiar pela sua “validacao”, ou, dito de outro modo, pela legitimacao das suas respectivas “identidades e etnicidades” proprias como parte de um todo diverso, mas que se pretende harmonioso, depois de uma guerra fratricida de cerca de tres decadas, que teve em grande medida na sua base tais anseios e reivindicacoes (veja-se, por exemplo, o caso das Lundas aqui e aqui, ou o de Cabinda, aqui). Trata-se de facto real, indesmentivel, incontornavel e insofismavel, nao de mito, nem de ficcao literaria!

E sobre isso, ha’ ja’ varios anos, em Portugal, lembro-me de ter escrito e publicado algo em que me detinha sobre a manifesta dificuldade que os portugueses em geral demonstram em compreender cabalmente essa realidade, possivelmente por Portugal ser um pais cerca de 14 vezes menor do que Angola em tamanho e nao se apresentar tao diverso etnica, linguistica e culturalmente como esta. E esse e’ tambem um facto, embora os portugueses na Europa, ou em qualquer outra parte do mundo, se comportem geralmente como extremamente ciosos da sua propria “identidade” ou, se se preferir, da sua “genuinidade”: abrem as suas proprias lojas, bares, cafes e restaurantes com produtos alimentares e musica exclusivamente portugueses e frequentados quase exclusivamente por portugueses, falam exclusivamente portugues entre si, estabelecem as suas proprias igrejas com servicos exclusivamente em portugues, promovem as suas proprias e exclusivas actividades comunitarias e sociais com base na sua cultura nacional, chegam a formar verdadeiros ghetos em algumas zonas das cidades, onde tudo o que se ve, cheira e ouve e' portugues... ou seja, nascem, crescem, vivem, socializam-se, reproduzem-se e morrem como qualquer outro “grupo etnico” nesses paises (algo que, embora de forma “conglomerada” com as comunidades ditas hispanicas ou latinas no Reino Unido, se deixa bem patente aqui ).

Porque entao, tanta dificuldade e resistencia em compreender-se e aceitar-se (como, de resto, resulta evidente quer dos ataques sistematicos de que tenho sido abertamente alvo neste blog - seja directamente aqui por "desconhecidos", seja indirectamente noutros blogs bem identificados na lusosfera -, quer das campanhas que, de forma mais ou menos velada e insidiosa me teem sido dirigidas a partir de Angola, sobretudo, mas nao apenas, atraves de uma “certa imprensa” controlada por grupos financeiros portugueses, ou seus associados...) que os angolanos, ou pelo menos (grandes!) segmentos deles, o facam, ou pretendam fazer, de forma civica e democratica no seu proprio pais?

E, nesse particular, parece-me que eu me encontro neste momento muito mais na posicao dos emigrantes portugueses de ontem e de hoje que se diz serem e terem sido vitimas do chauvinismo, escarnio e oprobrio dos seus compatriotas “que ficaram”, do que na dos ditos “angolanos genuinos” que se diz “entenderem ter recebido Angola como heranca dos seus ancestrais”...


3. Economia – Angola tem vindo, de ha’ uns anos a esta parte, a apresentar niveis “espectaculares” de crescimento economico – facto. Portugal encontra-se neste momento a apresentar niveis, igualmente “espectaculares”, de recessao economica – facto. Sera’ natural que um numero cada vez maior de portugueses busquem oportunidades economicas noutras paragens e, em especial, em Angola, sua antiga “joia da coroa” – facto. O que ja’ nao sera’ tao natural, nem tao factual assim, e’ que se tente transformar tudo isso num caso de “atraccao fatal” entre os dois paises... Desde logo porque nao ha’ nada nos principios fundamentais da economia, seja ela de mercado ou nao - e muito menos nos de uma economia globalizada e competitiva como a que “estamos com ela” quer queiramos e gostemos quer nao -, que o fundamente.

O facto e’ que, qualquer que seja o modelo economico adoptado, “crescimento do PIB” nao significa ipso facto “desenvolvimento economico” e a sistematica marginalizacao, quando nao total exclusao da maioria dos angolanos dos beneficios desse crescimento economico - e ate’ mesmo da sua participacao/contribuicao para ele, em particular por parte de alguns que, como eu, se viram forcados a permanecer no exterior por varias circunstancias adversas originadas no pais (... e provocadas por angolanos!...) e que sao ostensivamente hostilizados por alguns sectores proteccionistas de uma certa auto-designada “prata da casa”... -, devido a um inexistente ou deficiente investimento no stock de capital humano nacional e a sua absorcao e integracao sistematica num processo consistente de desenvolvimento economico-social e cultural endogeno, sustentado e sustentavel, apenas tende a elevar os “muros de resistencia” ao crescente numero de estrangeiros (portugueses ou nao) aportando presentemente as costas angolanas e, em muitos casos, sem qualquer controlo... e isso, no longo prazo, nao e’ bom para ninguem, “genuinos” ou nao – facto.

A realidade e’ que a actual politica de imigracao de Angola e’ explicita e ostensivamente enviezada contra os africanos que tentam entrar pelas suas fronteiras terrestres (como os cartoons, adaptados daqui, com que ilustro este texto o explicitam), nao contra os portugueses: estes, como todas as estatisticas o revelam, nao so’ teem ido para Angola e “em forca” nos ultimos anos sem grandes empecilhos, como e’ em Portugal que os angolanos endinheirados fazem o grosso dos seus gastos de consumo e investimentos publicos e privados.

[E abro aqui um parentesis para sugerir o seguinte: imagine-se que apenas uma infima fraccao dos verdadeiros "balurdios" de dinheiro publico usados pela Sonangol em investimentos em Portugal, fosse aplicada no financiamento de investimentos produtivos trabalho-intensivos que criassem emprego nas regioes fronteiricas, tanto em Angola, como nos paises vizinhos. Nao seriam tais investimentos muito mais recomendaveis, louvaveis e ate' rentaveis sob todos os pontos de vista - desde logo, porque teriam o condao de funcionar como um "travao" aos fluxos migratorios por razoes economicas nessas areas e contribuiriam para o tao propalado "desenvolvimento e independencia economica do continente", para alem de funcionarem como um mecanismo de poupanca dos recursos materiais e financeiros actualmente empregues no patrulhamento das fronteiras e controlo/contencao/repressao dos emigrantes africanos pretendendo entrar em Angola e, em ultima analise, contribuirem de forma substantiva, permanente e duravel para a prosperidade, paz e seguranca regional... - especialmente neste momento em que Angola assume, mais uma vez, a presidencia da SADC?!]

E na base de tudo isso esta’ uma ideia de “desenvolvimento” que tem no periodo colonial o seu “modelo”. Acontece que os niveis de “desenvolvimento” atingidos sob tal “modelo” tinham por base um regime politico-ideologico que nao me parece ser o mais adaptavel, certamente nao o mais adequado, quer 'a Angola, quer ao Portugal, quer ao Mundo de hoje. Modelo esse, alias, que foi de forma magistral e visionaria descrito e denunciado por Viriato da Cruz nos termos em que aqui parcialmente destaquei...

Todas essas questoes, abordei-as, de forma mais ‘academica’, recentemente aqui , e de forma mais ‘prosaica’, ha’ ja’ algum tempo, aqui - onde, note-se, dos posicionamentos de Pepetela, a par dos de outros membros da inteligentzia angolana, ou luso-angolana, que sobre essas questoes se teem pronunciado publicamente nos ultimos tempos, resulta evidente que a corrente onda dominante nao e’ adversa 'a ‘recolonizacao’ de Angola pelos portugueses, como, de resto aqui se pode constatar ad nauseum: bem pelo contrario!

E nao deixa de ser interessante notar a este proposito que essa mesma inteligentzia conta entre as suas fileiras com alguns dos que nao so' dizem ter participado na "luta contra o colonialismo" (e desse estatuto de "antigos combatentes" muita gala fazem e amplos beneficios vitalicios, pessoais e familiares, colhem...), como se destacaram entre os mais radicais no desmantelamento e "transformacao revolucionaria" do tal "patamar tecno-juridico-administrativo que Angola ja' teve", em nome da criacao, desenvolvimento e reproducao do dito "homem novo"... a comecar pelo sistema de ensino! ... E quem naquela altura se lhes opusesse, ainda que passivamente, era apelidado de "contra-revolucionario", "pequeno burgues", "lacaio do colonialismo", "agente do imperialismo", etc. etc. etc. ... Nao deixo, porem, de lhes gabar a "coerencia": foram tao radicais em relacao 'a "descolonizacao" como o sao agora em relacao 'a "recolonizacao" (enfim, em quaisquer circunstancias "iguais a si proprios"!) ... o que talvez nao seja de todo estranho ao facto de certas neofitas formacoes politicas ultra-minoritarias precisarem desesperadamente de alargar a sua base eleitoral de apoio...

E, aqui, convira' distinguir-se claramente "recolonizacao" sem qualquer qualificacao, planificacao ou priorizacao (o que, alias, o poema aqui em questao, revela: "escolhe uma profissao"...), de "cooperacao" (economica, tecnico-cientifica e profissional) - esta existe, e sempre existiu desde a independencia, com Portugal e com outros paises, e se os portugueses podem contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola com a "vantagem comparativa" da sua lingua e cultura devido a historia que liga os dois paises, pois eles sao e sempre foram bem vindos (idos) naquelas areas e sectores onde realmente tal "vantagem comparativa" possa ser transformada em "valor acrescentado" para ambas as partes. Mas que nao se perca de vista, por via da chamada "neofita ideologia dos (pretensos) afectos", que Portugal nao e' o unico pais que pode contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola.

Veja-se, a esse respeito, o caso de Mocambique que, desde a sua independencia, aderiu 'a Commonwealth, adoptou o Ingles praticamente como sua segunda lingua oficial e tem um leque bastante diversificado de parceiros de cooperacao economica internacional, sem que por isso tenha impedido Portugal, ou os portugueses, de la' viverem, regressarem, ou trabalharem...

Enfim, em geito de conclusao, parece-me ser avisado que tanto angolanos (“genuinos” ou nao), como portugueses (tambem “genuinos” ou nao), bem como todos os nacionais de outros paises, ajam neste momento historico particularmente critico da vida de Angola tao racionalmente quanto possivel face aos factos e realidades, nao aos mitos e ficcoes, em presenca.

Tudo o resto nao passara’ de um pernicioso e patetico “display de emoti(c)ons” com mais do que previsiveis consequencias nefastas para todas as partes – a Historia de Angola revela-o a saciedade!

Tenho dito.





P.S.: Acrescentaria apenas as seguintes notas a margem:

i. A proposito de "fechamentos sociais e economicos" ou, se se preferir, mecanismos de exclusao social, tradicionais em Angola, esta citacao de David Sogge: "Colonial and post-colonial elites showed no interest in creating an ‘open access order’ based on citizenship for all and competitive markets. A path was laid down around a weak but autocratic colonial state dependent on outside powers. Mediocre institutions and underskilled people were additional legacies. Angolan nationalist movements, their leaders imbued with norms of a ‘limited access order’, and habituated to the use of armed force, had no ready alternatives when they assumed power.";


ii. Em relacao a todas essas questoes, mas em particular a suposta "dificuldade de entendimento e aceitacao" por parte da generalidade dos portugueses da diversidade etnico-linguistica de Angola, seria recomendavel uma exploracao da area da Historia Moderna designada Subaltern Studies;


iii. Sobre os movimentos trans-fronteiricos entre Angola e o Congo (Zaire) em epocas mais recuadas, com a devida venia, esta detalhada descricao por Fernando Ribeiro:

Nos troços de fronteira entre Angola e o Zaire em que não houvesse obstáculos naturais, não existia qualquer vedação ou outra barreira que impedisse a comunicação entre ambos os lados. A fronteira estava apenas assinalada por marcos de pedra em forma de grossos obeliscos, com 2 metros de altura ou pouco mais, que mostravam o escudo da monarquia portuguesa, esculpido em baixo relevo, no lado virado para Angola, o da monarquia belga no lado virado para o Zaire e o ano de 1895 gravado por cima de cada um dos escudos. Os marcos fronteiriços estavam colocados a uma distância de cerca de 40 quilómetros uns dos outros, talvez, e estavam milimetricamente alinhados uns pelos outros, numa linha reta espantosamente rigorosa.

Como, nos troços onde não havia obstáculos naturais, a fronteira estava desimpedida, ela era atravessada por caminhos de pé posto, que todos os dias eram percorridos por pessoas que passavam "a salto" de Angola para o Zaire e vice-versa. O movimento de pessoas ao longo destes carreiros era bastante intenso. Angolanos (refugiados ou não) e zairenses circulavam de um lado para o outro ao longo do dia, em função, sobretudo, das feiras mensais e mercados rurais que de ambos os lados se iam realizando. Levavam os produtos das suas lavras (campos), a fim de os vender onde fossem mais caros, e traziam as mercadorias de que necessitavam, compradas onde elas fossem mais baratas. É evidente que os contrabandistas (havia bastantes) também faziam um uso intensivo destes caminhos transfronteiriços.

Assim que o sol nascia, nas zonas onde houvesse uma sanzala do lado de Angola que ficasse próxima da fronteira e estivesse dotada de uma escola, os caminhos referidos eram percorridos por crianças, vindas do Zaire para Angola, que vinham frequentar as aulas. Estas crianças percorriam a pé vários quilómetros a caminho da escola e eram as primeiras pessoas que atravessavam a fronteira logo pela manhãzinha.

Estas crianças eram filhas de angolanos refugiados no Zaire. Os seus encarregados de educação faziam questão em que elas frequentassem uma escola angolana, porque queriam que elas não se esquecessem das suas raízes, apesar de já terem nascido no exílio, se sentissem orgulhosas de Angola e soubessem falar, ler e escrever em português.



[aqui, onde, ja' agora, tambem se pode ver esta descricao de Kinshasa e ouvir um pouco da musica do magistral Franco]






PARA ANGOLA, RAPIDAMENTE E EM FORÇA

Peço ao vento por graçola
notícias do meu país
e o vento diz: «Vai para Angola».
(É o que o vento me diz.)
«Tem juízo, vai para Angola,
isto aqui está por um triz.»

Vamos todos para Angola
desde o Malanje ao Namibe
aproveitar por esmola
o crescimento do PIB.

Vem tu também, anda, anda,
escolhe uma profissão:
agora os preto é quem manda,
os preto é nosso patrão.

Leva a família na frente,
mulher, filhos, pai e mãe,
e se ainda couber mais gente
traz outro amigo também.

Vamos todos sem demora,
uns à solta, outros à trela,
vamos invadir Angola
do Moxico até Benguela.

Vamos de avião, navio,
canoa, bote ou jangada,
isto aqui está por um fio,
vai ser uma debandada.

Vamos todos para Angola,
destino de emigração,
vamos todos para Angola,
atrás do Diogo Cão.


[Poema daqui /// Ecos do original aqui]



*[Postado inicialmente a 06/05/09 - "repostado" hoje devido aos ultimos comentarios a ele feitos]







Em referencia aos comentarios feitos a este post nos ultimos dias, permitam-me, como “ser humano genuino” – tal como o sao (ou foram) os retratados, brancos e negros, nesta materia –, alinhar aqui algumas breves notas para esta que me parece ser, manifestamente, uma discussao de, entre e sobre portugueses, “genuinos” ou nao.

Tres vectores fundamentais confluem de forma problematica e frequentemente conflituosa para esta questao: a Historia, a Cultura e a Economia:


1. Historia – Portugal colonizou partes do actual territorio de Angola durante cerca de 5 seculos. Foi uma colonizacao, como todas, nao pacificamente aceite pela esmagadora maioria dos seus subditos, mesmo quando todas as aparencias pudessem sugerir o contrario. Por isso houve guerras de resistencia ao longo dos seculos, por isso houve uma guerra anti-colonial durante mais de uma decada, por isso houve a independencia – todos, factos historicos incontestaveis e irreversiveis: nao ficcao cientifica.

Poderia o processo de “descolonizacao” ter sido menos traumatico para ambos os lados? Questao ainda nao resolvida e que, pelo menos nos termos em que o debate (nao) tem vindo a ser conduzido, parece jamais vir a se-lo, pelo que sobre ela limitar-me-ei a sugerir que “o que aconteceu, esta’ acontecido” e “o que nao tem remedio, remediado esta’”, ou ainda, "de nada serve chorar sobre o leite derramado"... sendo certo que, qualquer que seja a evolucao, ou resolucao, dessa questao, a chamada “recolonizacao” nao me parece ser a resposta mais adequada para ela, certamente nao nos termos em que tem vindo a ser advogada.


2. Cultura – Uma parte, diga-se que minoritaria, dos angolanos foi assimilada, voluntaria ou involuntariamente, a cultura e lingua portuguesas. Mas, precisamente por ser minoritaria, embora contemporaneamente “poderosa”, “elitizante” e “socio-economicamente dominante”, ela nao detem de facto os “fios condutores” da totalidade da vida cultural, social e humana do pais Angola. Ha’ outros “fios condutores” no tecido que (con)forma o pais real, enfim outras sensibilidades que, embora tentem (e, de algum modo, consigam em alguns casos) negociar entre si e acomodar-se umas as outras em nome do um “um so' povo, uma so' nacao”, continuam (e, diga-se, legitimamente) a ansiar pela sua “validacao”, ou, dito de outro modo, pela legitimacao das suas respectivas “identidades e etnicidades” proprias como parte de um todo diverso, mas que se pretende harmonioso, depois de uma guerra fratricida de cerca de tres decadas, que teve em grande medida na sua base tais anseios e reivindicacoes (veja-se, por exemplo, o caso das Lundas aqui e aqui, ou o de Cabinda, aqui). Trata-se de facto real, indesmentivel, incontornavel e insofismavel, nao de mito, nem de ficcao literaria!

E sobre isso, ha’ ja’ varios anos, em Portugal, lembro-me de ter escrito e publicado algo em que me detinha sobre a manifesta dificuldade que os portugueses em geral demonstram em compreender cabalmente essa realidade, possivelmente por Portugal ser um pais cerca de 14 vezes menor do que Angola em tamanho e nao se apresentar tao diverso etnica, linguistica e culturalmente como esta. E esse e’ tambem um facto, embora os portugueses na Europa, ou em qualquer outra parte do mundo, se comportem geralmente como extremamente ciosos da sua propria “identidade” ou, se se preferir, da sua “genuinidade”: abrem as suas proprias lojas, bares, cafes e restaurantes com produtos alimentares e musica exclusivamente portugueses e frequentados quase exclusivamente por portugueses, falam exclusivamente portugues entre si, estabelecem as suas proprias igrejas com servicos exclusivamente em portugues, promovem as suas proprias e exclusivas actividades comunitarias e sociais com base na sua cultura nacional, chegam a formar verdadeiros ghetos em algumas zonas das cidades, onde tudo o que se ve, cheira e ouve e' portugues... ou seja, nascem, crescem, vivem, socializam-se, reproduzem-se e morrem como qualquer outro “grupo etnico” nesses paises (algo que, embora de forma “conglomerada” com as comunidades ditas hispanicas ou latinas no Reino Unido, se deixa bem patente aqui ).

Porque entao, tanta dificuldade e resistencia em compreender-se e aceitar-se (como, de resto, resulta evidente quer dos ataques sistematicos de que tenho sido abertamente alvo neste blog - seja directamente aqui por "desconhecidos", seja indirectamente noutros blogs bem identificados na lusosfera -, quer das campanhas que, de forma mais ou menos velada e insidiosa me teem sido dirigidas a partir de Angola, sobretudo, mas nao apenas, atraves de uma “certa imprensa” controlada por grupos financeiros portugueses, ou seus associados...) que os angolanos, ou pelo menos (grandes!) segmentos deles, o facam, ou pretendam fazer, de forma civica e democratica no seu proprio pais?

E, nesse particular, parece-me que eu me encontro neste momento muito mais na posicao dos emigrantes portugueses de ontem e de hoje que se diz serem e terem sido vitimas do chauvinismo, escarnio e oprobrio dos seus compatriotas “que ficaram”, do que na dos ditos “angolanos genuinos” que se diz “entenderem ter recebido Angola como heranca dos seus ancestrais”...


3. Economia – Angola tem vindo, de ha’ uns anos a esta parte, a apresentar niveis “espectaculares” de crescimento economico – facto. Portugal encontra-se neste momento a apresentar niveis, igualmente “espectaculares”, de recessao economica – facto. Sera’ natural que um numero cada vez maior de portugueses busquem oportunidades economicas noutras paragens e, em especial, em Angola, sua antiga “joia da coroa” – facto. O que ja’ nao sera’ tao natural, nem tao factual assim, e’ que se tente transformar tudo isso num caso de “atraccao fatal” entre os dois paises... Desde logo porque nao ha’ nada nos principios fundamentais da economia, seja ela de mercado ou nao - e muito menos nos de uma economia globalizada e competitiva como a que “estamos com ela” quer queiramos e gostemos quer nao -, que o fundamente.

O facto e’ que, qualquer que seja o modelo economico adoptado, “crescimento do PIB” nao significa ipso facto “desenvolvimento economico” e a sistematica marginalizacao, quando nao total exclusao da maioria dos angolanos dos beneficios desse crescimento economico - e ate’ mesmo da sua participacao/contribuicao para ele, em particular por parte de alguns que, como eu, se viram forcados a permanecer no exterior por varias circunstancias adversas originadas no pais (... e provocadas por angolanos!...) e que sao ostensivamente hostilizados por alguns sectores proteccionistas de uma certa auto-designada “prata da casa”... -, devido a um inexistente ou deficiente investimento no stock de capital humano nacional e a sua absorcao e integracao sistematica num processo consistente de desenvolvimento economico-social e cultural endogeno, sustentado e sustentavel, apenas tende a elevar os “muros de resistencia” ao crescente numero de estrangeiros (portugueses ou nao) aportando presentemente as costas angolanas e, em muitos casos, sem qualquer controlo... e isso, no longo prazo, nao e’ bom para ninguem, “genuinos” ou nao – facto.

A realidade e’ que a actual politica de imigracao de Angola e’ explicita e ostensivamente enviezada contra os africanos que tentam entrar pelas suas fronteiras terrestres (como os cartoons, adaptados daqui, com que ilustro este texto o explicitam), nao contra os portugueses: estes, como todas as estatisticas o revelam, nao so’ teem ido para Angola e “em forca” nos ultimos anos sem grandes empecilhos, como e’ em Portugal que os angolanos endinheirados fazem o grosso dos seus gastos de consumo e investimentos publicos e privados.

[E abro aqui um parentesis para sugerir o seguinte: imagine-se que apenas uma infima fraccao dos verdadeiros "balurdios" de dinheiro publico usados pela Sonangol em investimentos em Portugal, fosse aplicada no financiamento de investimentos produtivos trabalho-intensivos que criassem emprego nas regioes fronteiricas, tanto em Angola, como nos paises vizinhos. Nao seriam tais investimentos muito mais recomendaveis, louvaveis e ate' rentaveis sob todos os pontos de vista - desde logo, porque teriam o condao de funcionar como um "travao" aos fluxos migratorios por razoes economicas nessas areas e contribuiriam para o tao propalado "desenvolvimento e independencia economica do continente", para alem de funcionarem como um mecanismo de poupanca dos recursos materiais e financeiros actualmente empregues no patrulhamento das fronteiras e controlo/contencao/repressao dos emigrantes africanos pretendendo entrar em Angola e, em ultima analise, contribuirem de forma substantiva, permanente e duravel para a prosperidade, paz e seguranca regional... - especialmente neste momento em que Angola assume, mais uma vez, a presidencia da SADC?!]

E na base de tudo isso esta’ uma ideia de “desenvolvimento” que tem no periodo colonial o seu “modelo”. Acontece que os niveis de “desenvolvimento” atingidos sob tal “modelo” tinham por base um regime politico-ideologico que nao me parece ser o mais adaptavel, certamente nao o mais adequado, quer 'a Angola, quer ao Portugal, quer ao Mundo de hoje. Modelo esse, alias, que foi de forma magistral e visionaria descrito e denunciado por Viriato da Cruz nos termos em que aqui parcialmente destaquei...

Todas essas questoes, abordei-as, de forma mais ‘academica’, recentemente aqui , e de forma mais ‘prosaica’, ha’ ja’ algum tempo, aqui - onde, note-se, dos posicionamentos de Pepetela, a par dos de outros membros da inteligentzia angolana, ou luso-angolana, que sobre essas questoes se teem pronunciado publicamente nos ultimos tempos, resulta evidente que a corrente onda dominante nao e’ adversa 'a ‘recolonizacao’ de Angola pelos portugueses, como, de resto aqui se pode constatar ad nauseum: bem pelo contrario!

E nao deixa de ser interessante notar a este proposito que essa mesma inteligentzia conta entre as suas fileiras com alguns dos que nao so' dizem ter participado na "luta contra o colonialismo" (e desse estatuto de "antigos combatentes" muita gala fazem e amplos beneficios vitalicios, pessoais e familiares, colhem...), como se destacaram entre os mais radicais no desmantelamento e "transformacao revolucionaria" do tal "patamar tecno-juridico-administrativo que Angola ja' teve", em nome da criacao, desenvolvimento e reproducao do dito "homem novo"... a comecar pelo sistema de ensino! ... E quem naquela altura se lhes opusesse, ainda que passivamente, era apelidado de "contra-revolucionario", "pequeno burgues", "lacaio do colonialismo", "agente do imperialismo", etc. etc. etc. ... Nao deixo, porem, de lhes gabar a "coerencia": foram tao radicais em relacao 'a "descolonizacao" como o sao agora em relacao 'a "recolonizacao" (enfim, em quaisquer circunstancias "iguais a si proprios"!) ... o que talvez nao seja de todo estranho ao facto de certas neofitas formacoes politicas ultra-minoritarias precisarem desesperadamente de alargar a sua base eleitoral de apoio...

E, aqui, convira' distinguir-se claramente "recolonizacao" sem qualquer qualificacao, planificacao ou priorizacao (o que, alias, o poema aqui em questao, revela: "escolhe uma profissao"...), de "cooperacao" (economica, tecnico-cientifica e profissional) - esta existe, e sempre existiu desde a independencia, com Portugal e com outros paises, e se os portugueses podem contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola com a "vantagem comparativa" da sua lingua e cultura devido a historia que liga os dois paises, pois eles sao e sempre foram bem vindos (idos) naquelas areas e sectores onde realmente tal "vantagem comparativa" possa ser transformada em "valor acrescentado" para ambas as partes. Mas que nao se perca de vista, por via da chamada "neofita ideologia dos (pretensos) afectos", que Portugal nao e' o unico pais que pode contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola.

Veja-se, a esse respeito, o caso de Mocambique que, desde a sua independencia, aderiu 'a Commonwealth, adoptou o Ingles praticamente como sua segunda lingua oficial e tem um leque bastante diversificado de parceiros de cooperacao economica internacional, sem que por isso tenha impedido Portugal, ou os portugueses, de la' viverem, regressarem, ou trabalharem...

Enfim, em geito de conclusao, parece-me ser avisado que tanto angolanos (“genuinos” ou nao), como portugueses (tambem “genuinos” ou nao), bem como todos os nacionais de outros paises, ajam neste momento historico particularmente critico da vida de Angola tao racionalmente quanto possivel face aos factos e realidades, nao aos mitos e ficcoes, em presenca.

Tudo o resto nao passara’ de um pernicioso e patetico “display de emoti(c)ons” com mais do que previsiveis consequencias nefastas para todas as partes – a Historia de Angola revela-o a saciedade!

Tenho dito.





P.S.: Acrescentaria apenas as seguintes notas a margem:

i. A proposito de "fechamentos sociais e economicos" ou, se se preferir, mecanismos de exclusao social, tradicionais em Angola, esta citacao de David Sogge: "Colonial and post-colonial elites showed no interest in creating an ‘open access order’ based on citizenship for all and competitive markets. A path was laid down around a weak but autocratic colonial state dependent on outside powers. Mediocre institutions and underskilled people were additional legacies. Angolan nationalist movements, their leaders imbued with norms of a ‘limited access order’, and habituated to the use of armed force, had no ready alternatives when they assumed power.";


ii. Em relacao a todas essas questoes, mas em particular a suposta "dificuldade de entendimento e aceitacao" por parte da generalidade dos portugueses da diversidade etnico-linguistica de Angola, seria recomendavel uma exploracao da area da Historia Moderna designada Subaltern Studies;


iii. Sobre os movimentos trans-fronteiricos entre Angola e o Congo (Zaire) em epocas mais recuadas, com a devida venia, esta detalhada descricao por Fernando Ribeiro:

Nos troços de fronteira entre Angola e o Zaire em que não houvesse obstáculos naturais, não existia qualquer vedação ou outra barreira que impedisse a comunicação entre ambos os lados. A fronteira estava apenas assinalada por marcos de pedra em forma de grossos obeliscos, com 2 metros de altura ou pouco mais, que mostravam o escudo da monarquia portuguesa, esculpido em baixo relevo, no lado virado para Angola, o da monarquia belga no lado virado para o Zaire e o ano de 1895 gravado por cima de cada um dos escudos. Os marcos fronteiriços estavam colocados a uma distância de cerca de 40 quilómetros uns dos outros, talvez, e estavam milimetricamente alinhados uns pelos outros, numa linha reta espantosamente rigorosa.

Como, nos troços onde não havia obstáculos naturais, a fronteira estava desimpedida, ela era atravessada por caminhos de pé posto, que todos os dias eram percorridos por pessoas que passavam "a salto" de Angola para o Zaire e vice-versa. O movimento de pessoas ao longo destes carreiros era bastante intenso. Angolanos (refugiados ou não) e zairenses circulavam de um lado para o outro ao longo do dia, em função, sobretudo, das feiras mensais e mercados rurais que de ambos os lados se iam realizando. Levavam os produtos das suas lavras (campos), a fim de os vender onde fossem mais caros, e traziam as mercadorias de que necessitavam, compradas onde elas fossem mais baratas. É evidente que os contrabandistas (havia bastantes) também faziam um uso intensivo destes caminhos transfronteiriços.

Assim que o sol nascia, nas zonas onde houvesse uma sanzala do lado de Angola que ficasse próxima da fronteira e estivesse dotada de uma escola, os caminhos referidos eram percorridos por crianças, vindas do Zaire para Angola, que vinham frequentar as aulas. Estas crianças percorriam a pé vários quilómetros a caminho da escola e eram as primeiras pessoas que atravessavam a fronteira logo pela manhãzinha.

Estas crianças eram filhas de angolanos refugiados no Zaire. Os seus encarregados de educação faziam questão em que elas frequentassem uma escola angolana, porque queriam que elas não se esquecessem das suas raízes, apesar de já terem nascido no exílio, se sentissem orgulhosas de Angola e soubessem falar, ler e escrever em português.



[aqui, onde, ja' agora, tambem se pode ver esta descricao de Kinshasa e ouvir um pouco da musica do magistral Franco]




Tuesday, 5 October 2010

Tuesday, 10 August 2010

Just Poetry (xxiv) [R]*


A IMPLOSÃO DA MENTIRA OU O EPISÓDIO DO RIOCENTRO
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

(…)

E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
-diária/mente.

(…)

Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.

(…)

Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

(…)

Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.

Extractos de um poema apresentado
por Affonso Romano de Sant'anna (Brasil)
durante um Congresso Internacional de Lusitanistas
[versao integral aqui]


*[First posted 27/05/07]
 

A IMPLOSÃO DA MENTIRA OU O EPISÓDIO DO RIOCENTRO
Mentiram-me. Mentiram-me ontem
e hoje mentem novamente. Mentem
de corpo e alma, completamente.
E mentem de maneira tão pungente
que acho que mentem sinceramente.

Mentem, sobretudo, impune/mente.
Não mentem tristes. Alegremente
mentem. Mentem tão nacional/mente
que acham que mentindo história afora
vão enganar a morte eterna/mente.

Mentem. Mentem e calam. Mas suas frases
falam. E desfilam de tal modo nuas
que mesmo um cego pode ver
a verdade em trapos pelas ruas.

Sei que a verdade é difícil
e para alguns é cara e escura.
Mas não se chega à verdade
pela mentira, nem à democracia
pela ditadura.

(…)

E de tanto mentir tão brava/mente
constroem um país
de mentira
-diária/mente.

(…)

Mentem no passado. E no presente
passam a mentira a limpo. E no futuro
mentem novamente.
Mentem fazendo o sol girar
em torno à terra medieval/mente.

(…)

Tanta mentira assim industriada
me faz partir para o deserto
penitente/mente, ou me exilar
com Mozart musical/mente em harpas
e oboés, como um solista vegetal
que absorve a vida indiferente.

(…)

Página branca onde escrevo. Único espaço
de verdade que me resta. Onde transcrevo
o arroubo, a esperança, e onde tarde
ou cedo deposito meu espanto e medo.
Para tanta mentira só mesmo um poema
explosivo-conotativo
onde o advérbio e o adjetivo não mentem
ao substantivo
e a rima rebenta a frase
numa explosão da verdade.

E a mentira repulsiva
se não explode pra fora
pra dentro explode
implosiva.

Extractos de um poema apresentado
por Affonso Romano de Sant'anna (Brasil)
durante um Congresso Internacional de Lusitanistas
[versao integral aqui]


*[First posted 27/05/07]
 

Monday, 9 August 2010

Frei Domingos (R.I.P.)



[Imagem e texto daqui - Obituario aqui]


[Imagem e texto daqui - Obituario aqui]

Monday, 21 June 2010

MARCELO CAETANO REBELO DE SOUSA FERREIRA E SARKOZY… (RECIDIVUS)*

…OU OS 4 MOMENTOS DE UM BELO DISCURSO… OU DE COMO «ISTO ANDA TUDO LIGADO»

1. Antonio de Oliveira Salazar tera’ sido recentemente eleito «O Maior Portugues de Sempre». Supostamente Marcelo Caetano nao lhe teria ficado muito longe na votacao...

2. Lourenco do Rosario afirmou aqui que «Marcelo Rebelo de Sousa, esteve recentemente em Moçambique, no âmbito de cooperação académica entre as universidades portuguesas e moçambicanas. Ele escandalizou meio mundo ao, pela primeira vez, assumir a postura muitas vezes pronunciada em surdina de que havia que resgatar o lado bom do colonialismo, fazendo justiça àqueles que, embora servidores do sistema, conseguiram dar-lhe um rosto humano. E chocou, porquê? Na justa medida de que para nós, é um dado adquirido de que o colonialismo é sempre mau para quem o sofreu e é sempre bom para quem dele beneficiou»;

3. Eugenio Ferreira afirmou aqui, parafraseando acidentalmente(?) Salazar, «rapidamente e em forca», que «(…) a escravatura nao foi mais do que um processo geral da humanidade na sua transicao para o capitalismo»...

4. O Presidente Frances, Nicolas Sarkozy, esteve ha’ cerca de 2 meses no Senegal, onde proferiu na Universidade de Dakar este belissimo discurso (que continua ate’ hoje a fazer correr muita tinta), do qual extrai as seguintes perolas:

Il y a eu la traite négrière, il y a eu l'esclavage, les hommes, les femmes, les enfants achetés et vendus comme des marchandises. Et ce crime ne fut pas seulement un crime contre les Africains, ce fut un crime contre l'homme, ce fut un crime contre l'humanité toute entière. Et l'homme noir qui éternellement «entend de la cale monter les malédictions enchaînées, les hoquettements des mourants, le bruit de l'un d'entre eux qu'on jette à la mer». Cet homme noir qui ne peut s'empêcher de se répéter sans fin «Et ce pays cria pendant des siècles que nous sommes des bêtes brutes». Cet homme noir, je veux le dire ici à Dakar, a le visage de tous les hommes du monde.
Cette souffrance de l'homme noir, je ne parle pas de l'homme au sens du sexe, je parle de l'homme au sens de l'être humain et bien sûr de la femme et de l'homme dans son acceptation générale. Cette souffrance de l'homme noir, c'est la souffrance de tous les hommes. Cette blessure ouverte dans l'âme de l'homme noir est une blessure ouverte dans l'âme de tous les hommes. Jeunes d'Afrique, je ne suis pas venu vous parler de repentance. Je suis venu vous dire que je ressens la traite et l'esclavage comme des crimes envers l'humanité. Je suis venu vous dire que votre déchirure et votre souffrance sont les nôtres et sont donc les miennes.
(...)
Mais il est vrai que jadis, les Européens sont venus en Afrique en conquérants. Ils ont pris la terre de vos ancêtres. Ils ont banni les dieux, les langues, les croyances, les coutumes de vos pères. Ils ont dit à vos pères ce qu'ils devaient penser, ce qu'ils devaient croire, ce qu'ils devaient faire. Ils ont coupé vos pères de leur passé, ils leur ont arraché leur âme et leurs racines. Ils ont désenchanté l'Afrique. Ils ont eu tort. Ils n'ont pas vu la profondeur et la richesse de l'âme africaine. Ils ont cru qu'ils étaient supérieurs, qu'ils étaient plus avancés, qu'ils étaient le progrès, qu'ils étaient la civilisation. Ils ont eu tort.
Ils ont voulu convertir l'homme africain, ils ont voulu le façonner à leur image, ils ont cru qu'ils avaient tous les droits, ils ont cru qu'ils étaient tout puissants, plus puissants que les dieux de l'Afrique, plus puissants que l'âme africaine, plus puissants que les liens sacrés que les hommes avaient tissés patiemment pendant des millénaires avec le ciel et la terre d'Afrique, plus puissants que les mystères qui venaient du fond des âges. Ils ont eu tort. Ils ont abîmé un art de vivre. Ils ont abîmé un imaginaire merveilleux. Ils ont abîmé une sagesse ancestrale. Ils ont eu tort.
Ils ont créé une angoisse, un mal de vivre. Ils ont nourri la haine. Ils ont rendu plus difficile l'ouverture aux autres, l'échange, le partage parce que pour s'ouvrir, pour échanger, pour partager, il faut être assuré de son identité, de ses valeurs, de ses convictions. Face au colonisateur, le colonisé avait fini par ne plus avoir confiance en lui, par ne plus savoir qui il était, par se laisser gagner par la peur de l'autre, par la crainte de l'avenir. Le colonisateur est venu, il a pris, il s'est servi, il a exploité, il a pillé des ressources, des richesses qui ne lui appartenaient pas. Il a dépouillé le colonisé de sa personnalité, de sa liberté, de sa terre, du fruit de son travail.
(...)
Je veux vous dire, jeunes d'Afrique, que le drame de l'Afrique n'est pas dans une prétendue infériorité de son art, sa pensée, de sa culture. Car, pour ce qui est de l'art, de la pensée et de la culture, c'est l'Occident qui s'est mis à l'école de l'Afrique. L'art moderne doit presque tout à l'Afrique. L'influence de l'Afrique a contribué à changer non seulement l'idée de la beauté, non seulement le sens du rythme, de la musique, de la danse, mais même dit Senghor, la manière de marcher ou de rire du monde du XXème siècle. Je veux donc dire, à la jeunesse d'Afrique, que le drame de l'Afrique ne vient pas de ce que l'âme africaine serait imperméable à la logique et à la raison. Car l'homme africain est aussi logique et raisonnable que l'homme européen.
C'est en puisant dans l'imaginaire africain que vous ont légué vos ancêtres, c'est en puisant dans les contes, dans les proverbes, dans les mythologies, dans les rites, dans ces formes qui, depuis l'aube des temps, se transmettent et s'enrichissent de génération en génération que vous trouverez l'imagination et la force de vous inventer un avenir qui vous soit propre, un avenir singulier qui ne ressemblera à aucun autre, où vous vous sentirez enfin libres, libres, jeunes d'Afrique d'être vous-mêmes, libres de décider par vous-mêmes.
(...)
Je suis venu vous dire que vous n'avez pas à avoir honte des valeurs de la civilisation africaine, qu'elles ne vous tirent pas vers le bas mais vers le haut, qu'elles sont un antidote au matérialisme et à l'individualisme qui asservissent l'homme moderne, qu'elles sont le plus précieux des héritages face à la déshumanisation et à l'aplatissement du monde. Je suis venu vous dire que l'homme moderne qui éprouve le besoin de se réconcilier avec la nature a beaucoup à apprendre de l'homme africain qui vit en symbiose avec la nature depuis des millénaires. Je suis venu vous dire que cette déchirure entre ces deux parts de vous-mêmes est votre plus grande force, et votre plus grande faiblesse selon que vous vous efforcerez ou non d'en faire la synthèse.
N'écoutez pas jeunes d'Afrique, ceux qui veulent vous déraciner, vous priver de votre identité, faire table rase de tout ce qui est africain, de toute la mystique, la religiosité, la sensibilité, la mentalité africaine, parce que pour échanger il faut avoir quelque chose à donner, parce que pour parler aux autres, il faut avoir quelque chose à leur dire.

(...)

Pergunta: perante tao belo discurso (e digo-o sem qualquer ponta de 'sarkasmo', em face de artigos e pronunciamentos como o de Eugenio Ferreira e outros similares) porque sera’ que varios escritores Africanos, liderados pelo proeminente Historiador do colonialismo Jean-Luc Raharimanana, enderecaram a Sarkozy esta carta aberta (onde se pode ler esta passagem: «Vous avez tort de mettre sur le même pied d’égalité la responsabilité des Africains et les crimes de l’esclavage et de la colonisation, car s’il y avait des complices de notre côté, ils ne sont que les émanations de ces entreprises totalitaires initiées par l’Europe, depuis quand les systèmes totalitaires n’ont-ils pas leurs collaborateurs locaux ? Car oui, l’esclavage et la colonisation sont des systèmes totalitaires, et vous avez tort de tenter de les justifier en évoquant nos responsabilités et ce bon côté de la colonisation.») em tons pouco simpaticos, para dizer o minimo?

Desafio: descubra as 4 semelhancas.


*[First posted 26/09/07]
…OU OS 4 MOMENTOS DE UM BELO DISCURSO… OU DE COMO «ISTO ANDA TUDO LIGADO»

1. Antonio de Oliveira Salazar tera’ sido recentemente eleito «O Maior Portugues de Sempre». Supostamente Marcelo Caetano nao lhe teria ficado muito longe na votacao...

2. Lourenco do Rosario afirmou
aqui que «Marcelo Rebelo de Sousa, esteve recentemente em Moçambique, no âmbito de cooperação académica entre as universidades portuguesas e moçambicanas. Ele escandalizou meio mundo ao, pela primeira vez, assumir a postura muitas vezes pronunciada em surdina de que havia que resgatar o lado bom do colonialismo, fazendo justiça àqueles que, embora servidores do sistema, conseguiram dar-lhe um rosto humano. E chocou, porquê? Na justa medida de que para nós, é um dado adquirido de que o colonialismo é sempre mau para quem o sofreu e é sempre bom para quem dele beneficiou»;

3. Eugenio Ferreira afirmou aqui, parafraseando acidentalmente(?) Salazar, «rapidamente e em forca», que «(…) a escravatura nao foi mais do que um processo geral da humanidade na sua transicao para o capitalismo»...

4. O Presidente Frances, Nicolas Sarkozy, esteve ha’ cerca de 2 meses no Senegal, onde proferiu na Universidade de Dakar este belissimo discurso (que continua ate’ hoje a fazer correr muita tinta), do qual extrai as seguintes perolas:

Il y a eu la traite négrière, il y a eu l'esclavage, les hommes, les femmes, les enfants achetés et vendus comme des marchandises. Et ce crime ne fut pas seulement un crime contre les Africains, ce fut un crime contre l'homme, ce fut un crime contre l'humanité toute entière. Et l'homme noir qui éternellement «entend de la cale monter les malédictions enchaînées, les hoquettements des mourants, le bruit de l'un d'entre eux qu'on jette à la mer». Cet homme noir qui ne peut s'empêcher de se répéter sans fin «Et ce pays cria pendant des siècles que nous sommes des bêtes brutes». Cet homme noir, je veux le dire ici à Dakar, a le visage de tous les hommes du monde.
Cette souffrance de l'homme noir, je ne parle pas de l'homme au sens du sexe, je parle de l'homme au sens de l'être humain et bien sûr de la femme et de l'homme dans son acceptation générale. Cette souffrance de l'homme noir, c'est la souffrance de tous les hommes. Cette blessure ouverte dans l'âme de l'homme noir est une blessure ouverte dans l'âme de tous les hommes. Jeunes d'Afrique, je ne suis pas venu vous parler de repentance. Je suis venu vous dire que je ressens la traite et l'esclavage comme des crimes envers l'humanité. Je suis venu vous dire que votre déchirure et votre souffrance sont les nôtres et sont donc les miennes.
(...)
Mais il est vrai que jadis, les Européens sont venus en Afrique en conquérants. Ils ont pris la terre de vos ancêtres. Ils ont banni les dieux, les langues, les croyances, les coutumes de vos pères. Ils ont dit à vos pères ce qu'ils devaient penser, ce qu'ils devaient croire, ce qu'ils devaient faire. Ils ont coupé vos pères de leur passé, ils leur ont arraché leur âme et leurs racines. Ils ont désenchanté l'Afrique. Ils ont eu tort. Ils n'ont pas vu la profondeur et la richesse de l'âme africaine. Ils ont cru qu'ils étaient supérieurs, qu'ils étaient plus avancés, qu'ils étaient le progrès, qu'ils étaient la civilisation. Ils ont eu tort.
Ils ont voulu convertir l'homme africain, ils ont voulu le façonner à leur image, ils ont cru qu'ils avaient tous les droits, ils ont cru qu'ils étaient tout puissants, plus puissants que les dieux de l'Afrique, plus puissants que l'âme africaine, plus puissants que les liens sacrés que les hommes avaient tissés patiemment pendant des millénaires avec le ciel et la terre d'Afrique, plus puissants que les mystères qui venaient du fond des âges. Ils ont eu tort. Ils ont abîmé un art de vivre. Ils ont abîmé un imaginaire merveilleux. Ils ont abîmé une sagesse ancestrale. Ils ont eu tort.
Ils ont créé une angoisse, un mal de vivre. Ils ont nourri la haine. Ils ont rendu plus difficile l'ouverture aux autres, l'échange, le partage parce que pour s'ouvrir, pour échanger, pour partager, il faut être assuré de son identité, de ses valeurs, de ses convictions. Face au colonisateur, le colonisé avait fini par ne plus avoir confiance en lui, par ne plus savoir qui il était, par se laisser gagner par la peur de l'autre, par la crainte de l'avenir. Le colonisateur est venu, il a pris, il s'est servi, il a exploité, il a pillé des ressources, des richesses qui ne lui appartenaient pas. Il a dépouillé le colonisé de sa personnalité, de sa liberté, de sa terre, du fruit de son travail.
(...)
Je veux vous dire, jeunes d'Afrique, que le drame de l'Afrique n'est pas dans une prétendue infériorité de son art, sa pensée, de sa culture. Car, pour ce qui est de l'art, de la pensée et de la culture, c'est l'Occident qui s'est mis à l'école de l'Afrique. L'art moderne doit presque tout à l'Afrique. L'influence de l'Afrique a contribué à changer non seulement l'idée de la beauté, non seulement le sens du rythme, de la musique, de la danse, mais même dit Senghor, la manière de marcher ou de rire du monde du XXème siècle. Je veux donc dire, à la jeunesse d'Afrique, que le drame de l'Afrique ne vient pas de ce que l'âme africaine serait imperméable à la logique et à la raison. Car l'homme africain est aussi logique et raisonnable que l'homme européen.
C'est en puisant dans l'imaginaire africain que vous ont légué vos ancêtres, c'est en puisant dans les contes, dans les proverbes, dans les mythologies, dans les rites, dans ces formes qui, depuis l'aube des temps, se transmettent et s'enrichissent de génération en génération que vous trouverez l'imagination et la force de vous inventer un avenir qui vous soit propre, un avenir singulier qui ne ressemblera à aucun autre, où vous vous sentirez enfin libres, libres, jeunes d'Afrique d'être vous-mêmes, libres de décider par vous-mêmes.
(...)
Je suis venu vous dire que vous n'avez pas à avoir honte des valeurs de la civilisation africaine, qu'elles ne vous tirent pas vers le bas mais vers le haut, qu'elles sont un antidote au matérialisme et à l'individualisme qui asservissent l'homme moderne, qu'elles sont le plus précieux des héritages face à la déshumanisation et à l'aplatissement du monde. Je suis venu vous dire que l'homme moderne qui éprouve le besoin de se réconcilier avec la nature a beaucoup à apprendre de l'homme africain qui vit en symbiose avec la nature depuis des millénaires. Je suis venu vous dire que cette déchirure entre ces deux parts de vous-mêmes est votre plus grande force, et votre plus grande faiblesse selon que vous vous efforcerez ou non d'en faire la synthèse.
N'écoutez pas jeunes d'Afrique, ceux qui veulent vous déraciner, vous priver de votre identité, faire table rase de tout ce qui est africain, de toute la mystique, la religiosité, la sensibilité, la mentalité africaine, parce que pour échanger il faut avoir quelque chose à donner, parce que pour parler aux autres, il faut avoir quelque chose à leur dire.

(...)

Pergunta: perante tao belo discurso (e digo-o sem qualquer ponta de 'sarkasmo', em face de artigos e pronunciamentos como o de Eugenio Ferreira e outros similares) porque sera’ que varios escritores Africanos, liderados pelo proeminente Historiador do colonialismo Jean-Luc Raharimanana, enderecaram a Sarkozy esta carta aberta (onde se pode ler esta passagem: «Vous avez tort de mettre sur le même pied d’égalité la responsabilité des Africains et les crimes de l’esclavage et de la colonisation, car s’il y avait des complices de notre côté, ils ne sont que les émanations de ces entreprises totalitaires initiées par l’Europe, depuis quand les systèmes totalitaires n’ont-ils pas leurs collaborateurs locaux ? Car oui, l’esclavage et la colonisation sont des systèmes totalitaires, et vous avez tort de tenter de les justifier en évoquant nos responsabilités et ce bon côté de la colonisation.») em tons pouco simpaticos, para dizer o minimo?

Desafio: descubra as 4 semelhancas.


*[First posted 26/09/07]

Saturday, 17 April 2010

Afinale?

"Cabo Verde não deveria ter sido independente"



O ex-Presidente da República Mário Soares defendeu hoje que Cabo Verde "não deveria ter sido independente" e que o arquipélago "teria muito a ganhar" em ter evitado a separação em relação a Portugal.
"Eu sempre achei que Cabo Verde não deveria ter sido independente, não assisti à independência de Cabo Verde por isso mesmo", disse, no colóquio "Vozes da Revolução: Guerra Colonial e Descolonização", no Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE).
Na opinião do antigo Chefe de Estado, Cabo Verde "teria muito a ganhar" caso se tivesse mantido parte do território nacional.
"Eu pensava que Cabo Verde não é propriamente África porque Cabo Verde é um arquipélago do norte do Atlântico e que há uma relação que deveria ter sido mais explorada entre os três arquipélagos existentes que são Europa, ou seja, Açores, Madeira, depois Canárias e podia ser Cabo Verde", argumentou.
Nas viagens que realizou como membro do Governo após a revolução de Abril de 1974, Mário Soares disse ter contactado muitos cabo-verdianos, nomeadamente nos Estados Unidos "onde havia uma colónia muito poderosa e rica", que "não queriam de maneira nenhuma a independência de Cabo Verde".
Admitindo que "era muito difícil" que o caminho seguido não tivesse sido a independência, Mário Soares explicou que não explicitou "no momento exacto" o seu pensamento sobre o assunto porque interrompeu a sua participação directa no processo que conduziu à independência - "nessa altura em já estava fora do combate", disse.


[Informacao daqui]
"Cabo Verde não deveria ter sido independente"



O ex-Presidente da República Mário Soares defendeu hoje que Cabo Verde "não deveria ter sido independente" e que o arquipélago "teria muito a ganhar" em ter evitado a separação em relação a Portugal.
"Eu sempre achei que Cabo Verde não deveria ter sido independente, não assisti à independência de Cabo Verde por isso mesmo", disse, no colóquio "Vozes da Revolução: Guerra Colonial e Descolonização", no Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE).
Na opinião do antigo Chefe de Estado, Cabo Verde "teria muito a ganhar" caso se tivesse mantido parte do território nacional.
"Eu pensava que Cabo Verde não é propriamente África porque Cabo Verde é um arquipélago do norte do Atlântico e que há uma relação que deveria ter sido mais explorada entre os três arquipélagos existentes que são Europa, ou seja, Açores, Madeira, depois Canárias e podia ser Cabo Verde", argumentou.
Nas viagens que realizou como membro do Governo após a revolução de Abril de 1974, Mário Soares disse ter contactado muitos cabo-verdianos, nomeadamente nos Estados Unidos "onde havia uma colónia muito poderosa e rica", que "não queriam de maneira nenhuma a independência de Cabo Verde".
Admitindo que "era muito difícil" que o caminho seguido não tivesse sido a independência, Mário Soares explicou que não explicitou "no momento exacto" o seu pensamento sobre o assunto porque interrompeu a sua participação directa no processo que conduziu à independência - "nessa altura em já estava fora do combate", disse.


[Informacao daqui]

Sunday, 28 March 2010

CUBA! AFRICA! REVOLUTION! [R]*

[Em memoria da Batalha do Kuito Kwanavale]


A segunda parte desta serie foi exibida ontem, como previsto, e concentrou-se exclusivamente no periodo imediatamente anterior ao 11 de Novembro e ao pos-independencia de Angola.

Um dos primeiros intervenientes foi Jorge Valentim, que relatou o ambiente de desconfianca existente durante as negociacoes de Penina em que, citando-o, “no hotel de quatro andares em que as partes foram hospedadas, o r/c era destinado as reunioes plenarias, o primeiro andar a UNITA, o segundo a FNLA, o terceiro ao MPLA e o quarto aos Portugueses”… o que, para alem da ideia de hierarquia, tera’ criado nos hospedados nos primeiro e segundo andares um clima de suspeicao em relacao aos hospedados nos andares de cima ou, para usar a sua expressao, uma constante sensacao de “plotting going on up there”…

Outro interveniente pela UNITA foi Tony da Costa Fernandes, que relatou o encontro entre Savimbi e Reagan alguns anos mais tarde, ao fim do qual Reagan tera’ ordenado aos seus assistentes militares: “o homem quer os Stingers… nos nao os demos nem sequer aos nossos amigos Sul-Koreanos... but, if he wants the Stingers, give him the Stingers”! Outros intervenientes de destaque foram Ngola Kabango pela FNLA, Paulo Jorge, Ndalu e Onambwe pelo MPLA, Chester Crocker pelos Americanos, Jorge Risquet pelos Cubanos e Pik Botha pelos Sul-Africanos.

O episodio foi marcado por uma remarcavel boa disposicao, sobretudo por parte de Onambwe e Ndalu (“o sorriso dos vencedores”?), com anedotas a volta do relato de alguns dos episodios mais criticos do periodo em analise. Por qualquer razao, as anedotas foram quase todas a volta de charutos cubanos… Onambwe conta como Neto, que nunca tinha fumado na vida, uma vez acende um charuto cubano durante uma reuniao e quando da’ conta de que esta’ toda a gente a olhar para ele, levanta o charuto e diz: foi o Fidel que me mandou! ... Ndalu recorda a poluicao provocada nas salas de reunioes das negociacoes a volta da batalha do Kuito Kwanavale pelos charutos de Jorge Risquet, enquanto este explica que o fazia so’ para irritar Americanos e Sul-Africanos…

Uma das poucas anedotas que nao teve a ver com charutos cubanos foi contada por Crocker que recorda como era facil monitorar os movimentos dos cubanos: segundo ele, sempre que aparecia um campo de baseball algures, era sinal de que os cubanos tinham chegado, ou estavam para chegar, aquela localidade; sempre que desaparecia um campo de baseball, era porque os cubanos tinham abandonado a localidade... O que me fez lembrar de um "ditado", tipo nota "precaucionaria" para automobilistas, que se usava (sera' que ainda se usa?) la' na banda: "tal como atras de uma bola vem sempre uma crianca, atras de um porco vem sempre um cubano"!


Os momentos mais serios sao trazidos por Pik Botha que acusa Risquet de, para alem de poluir o ambiente com os seus charutos, ter sido “vicious” logo no inicio das tais reunioes, acusando os Sul-Africanos de serem “racistas, fascistas e de so’ provocarem dissabores onde quer que se envolvessem” (… como se isso fosse alguma mentira!). Entretanto, Ndalu recorda das mesmas reunioes, sempre com o seu sorriso, ter perguntado a Botha, depois de este ter acusado os Cubanos de “adoptarem falsa nacionalidade Angolana e de se casarem com Angolan(a)os para permanecerem em Angola”, “quantos negros estavam encarcerados na Africa do Sul”… ao que Botha tera’ arregacado as mangas e dito: “se eu fosse mais jovem, respondia a essa pergunta com socos! Eu nao tenho medo de ti!... Vamos la' para fora!...”

Mas no fim de tudo, Botha afirma que num dos bares do Cairo, onde teve lugar uma das ultimas sessoes das negociacoes despoletadas pela batalha do Kuito Kwanavale, ele tera’ dito a Risquet: “Ja’ imaginou que poderemos os dois sair vencedores desta disputa? Cuba retira-se e podera’ reclamar ter permitido a independencia da Namibia e eu posso voltar e dizer ao eleitorado branco Sul-Africano que nos livramos dos Cubanos. Isso fara’ de nos ambos vencedores!”… Ao que Risquet se tera’ engasgado na sua bebida e decidido ponderar sobre o assunto, dando lugar ao acordo que finalmente consagrou a total retirada das tropas Cubanas de Angola, a independencia da Namibia e a libertacao de Mandela...

O episodio termina com esta afirmacao de Risquet: “… de 24 de Abril de 1965, quando Che atravessou o Lago Tanganyka e chegou ao Congo, ate’ 25 de Maio de 1991, quando foi assinado o acordo de retirada das tropas Cubanas de Angola, transcorreu a grande epopeia de Cuba em Africa… exactamente um quarto de seculo, um ano, um mes e um dia!”

Entretanto, no computo final, pelo menos 10 mil Cubanos sao contabilizados como mortos em Angola...

E eu tive a oportunidade de ouvir algo de que quase me tinha esquecido: Fidel referir-se a nosotros como “los Angoleños”…

(Ler sobre a primeira parte aqui)


*[First posted 03/05/07]


Post relacionado: Jacob Zuma in Angola
[Em memoria da Batalha do Kuito Kwanavale]


A segunda parte desta serie foi exibida ontem, como previsto, e concentrou-se exclusivamente no periodo imediatamente anterior ao 11 de Novembro e ao pos-independencia de Angola.

Um dos primeiros intervenientes foi Jorge Valentim, que relatou o ambiente de desconfianca existente durante as negociacoes de Penina em que, citando-o, “no hotel de quatro andares em que as partes foram hospedadas, o r/c era destinado as reunioes plenarias, o primeiro andar a UNITA, o segundo a FNLA, o terceiro ao MPLA e o quarto aos Portugueses”… o que, para alem da ideia de hierarquia, tera’ criado nos hospedados nos primeiro e segundo andares um clima de suspeicao em relacao aos hospedados nos andares de cima ou, para usar a sua expressao, uma constante sensacao de “plotting going on up there”…

Outro interveniente pela UNITA foi Tony da Costa Fernandes, que relatou o encontro entre Savimbi e Reagan alguns anos mais tarde, ao fim do qual Reagan tera’ ordenado aos seus assistentes militares: “o homem quer os Stingers… nos nao os demos nem sequer aos nossos amigos Sul-Koreanos... but, if he wants the Stingers, give him the Stingers”! Outros intervenientes de destaque foram Ngola Kabango pela FNLA, Paulo Jorge, Ndalu e Onambwe pelo MPLA, Chester Crocker pelos Americanos, Jorge Risquet pelos Cubanos e Pik Botha pelos Sul-Africanos.

O episodio foi marcado por uma remarcavel boa disposicao, sobretudo por parte de Onambwe e Ndalu (“o sorriso dos vencedores”?), com anedotas a volta do relato de alguns dos episodios mais criticos do periodo em analise. Por qualquer razao, as anedotas foram quase todas a volta de charutos cubanos… Onambwe conta como Neto, que nunca tinha fumado na vida, uma vez acende um charuto cubano durante uma reuniao e quando da’ conta de que esta’ toda a gente a olhar para ele, levanta o charuto e diz: foi o Fidel que me mandou! ... Ndalu recorda a poluicao provocada nas salas de reunioes das negociacoes a volta da batalha do Kuito Kwanavale pelos charutos de Jorge Risquet, enquanto este explica que o fazia so’ para irritar Americanos e Sul-Africanos…

Uma das poucas anedotas que nao teve a ver com charutos cubanos foi contada por Crocker que recorda como era facil monitorar os movimentos dos cubanos: segundo ele, sempre que aparecia um campo de baseball algures, era sinal de que os cubanos tinham chegado, ou estavam para chegar, aquela localidade; sempre que desaparecia um campo de baseball, era porque os cubanos tinham abandonado a localidade... O que me fez lembrar de um "ditado", tipo nota "precaucionaria" para automobilistas, que se usava (sera' que ainda se usa?) la' na banda: "tal como atras de uma bola vem sempre uma crianca, atras de um porco vem sempre um cubano"!


Os momentos mais serios sao trazidos por Pik Botha que acusa Risquet de, para alem de poluir o ambiente com os seus charutos, ter sido “vicious” logo no inicio das tais reunioes, acusando os Sul-Africanos de serem “racistas, fascistas e de so’ provocarem dissabores onde quer que se envolvessem” (… como se isso fosse alguma mentira!). Entretanto, Ndalu recorda das mesmas reunioes, sempre com o seu sorriso, ter perguntado a Botha, depois de este ter acusado os Cubanos de “adoptarem falsa nacionalidade Angolana e de se casarem com Angolan(a)os para permanecerem em Angola”, “quantos negros estavam encarcerados na Africa do Sul”… ao que Botha tera’ arregacado as mangas e dito: “se eu fosse mais jovem, respondia a essa pergunta com socos! Eu nao tenho medo de ti!... Vamos la' para fora!...”

Mas no fim de tudo, Botha afirma que num dos bares do Cairo, onde teve lugar uma das ultimas sessoes das negociacoes despoletadas pela batalha do Kuito Kwanavale, ele tera’ dito a Risquet: “Ja’ imaginou que poderemos os dois sair vencedores desta disputa? Cuba retira-se e podera’ reclamar ter permitido a independencia da Namibia e eu posso voltar e dizer ao eleitorado branco Sul-Africano que nos livramos dos Cubanos. Isso fara’ de nos ambos vencedores!”… Ao que Risquet se tera’ engasgado na sua bebida e decidido ponderar sobre o assunto, dando lugar ao acordo que finalmente consagrou a total retirada das tropas Cubanas de Angola, a independencia da Namibia e a libertacao de Mandela...

O episodio termina com esta afirmacao de Risquet: “… de 24 de Abril de 1965, quando Che atravessou o Lago Tanganyka e chegou ao Congo, ate’ 25 de Maio de 1991, quando foi assinado o acordo de retirada das tropas Cubanas de Angola, transcorreu a grande epopeia de Cuba em Africa… exactamente um quarto de seculo, um ano, um mes e um dia!”

Entretanto, no computo final, pelo menos 10 mil Cubanos sao contabilizados como mortos em Angola...

E eu tive a oportunidade de ouvir algo de que quase me tinha esquecido: Fidel referir-se a nosotros como “los Angoleños”…

(Ler sobre a primeira parte aqui)


*[First posted 03/05/07]


Post relacionado: Jacob Zuma in Angola

Saturday, 6 March 2010

Contract: Portugal's Exploitative Labor Practices in Africa


The 2010 Pan African Film Festival (PAFF) in Los Angeles featured the
world premier of Contract by Cape Verdean filmmaker Guenny K. Pires.
Contract is a documentary film that tells the story of thousands of
Cape Verdean contract workers who traveled to the Portuguese colony of
Sao Tome and Principe to work in the 19th and 20th Centuries. Cape
Verdeans, and workers from Portugal's other African colonies, were
forced or coerced into contracts obligating them to work on coffee and
cacao plantations on the islands of Sao Tome and Principe. After
decades of brutally hard labor, contract workers were often forced to
stay in Sao Tome and Principe, unable to secure passage home.

Many of the Cape Verdean contract workers featured in the film still
hold on to memories of home. Filmmaker Guenny Pires blends the stories
of Cape Verdean families affected by the contract labor system with
interviews with experts to tell this little known chapter in Africa's
history. The Cape Verdeans interviewed, including Pires' own uncle,
share that after decades in Sao Tome and Principe, many have
maintained their spiritual ties to their home. After marriages,
children, and new lives established in Sao Tome and Principe, many of
the Cape Verdean contract workers shown in the film expressed a strong
desire to return home.

At the heart of Contract is the family story of the filmmaker himself.
The film documents his journey to reunite his family after his uncle
left for Sao Tome and Principe decades earlier. The emotional journey
of Guenny Pires' family was the most salient aspect of the film. Pires
re-tells his uncle's departure for Sao Tome and Principe and the
eventual loss of contact between his uncle and his family. Pires'
speaks with various relatives and narrates the impact losing his uncle
had on the family. This deeply emotional journal to reunite the family
is one of the film's strengths.


Other aspects of the film are at times disjointed and difficult to
follow. The film often jumps from personal story to historical
documentary without warning. In addition, some of the experts
interviewed for the film gave information that was culturally
inaccurate and factually unclear. Portugal's colonial policies in
Africa have been researched by several scholars, scholars who could
have provided the insight needed to put the film in proper context.*

The film will likely inspire viewers to want to learn more about
Portugal's policy of bringing workers from its other African colonies
to Sao Tome and Principe. Portugal, one of the last European countries
to leave Africa did so in 1975, with no regard for the thousands of
workers stranded in Sao Tome and Principe. The film provided a great
opportunity to clearly outline the experiences of Cape Verdeans and
other Lusophone Africans in Sao Tome and Principe, but fell a bit
short of this.

This is one of Guenny Pires' first films and his passion for the fate
and lives of the Cape Verdeans in Sao Tome and Principe is clear. The
story of Pires' family is compelling and emotional. While Contract was
premiered at PAFF, Pires says that the film is a work in progress. The
film, even with issues of clarity and continuity, is one of the only
documentaries to deal with the exploitative experiences of contract
workers in Sao Tome and Principe.

[By Msia Kibona Clark @ AllAfrica.com]


*Reference to related work by one such scholar can be found here.


The 2010 Pan African Film Festival (PAFF) in Los Angeles featured the
world premier of Contract by Cape Verdean filmmaker Guenny K. Pires.
Contract is a documentary film that tells the story of thousands of
Cape Verdean contract workers who traveled to the Portuguese colony of
Sao Tome and Principe to work in the 19th and 20th Centuries. Cape
Verdeans, and workers from Portugal's other African colonies, were
forced or coerced into contracts obligating them to work on coffee and
cacao plantations on the islands of Sao Tome and Principe. After
decades of brutally hard labor, contract workers were often forced to
stay in Sao Tome and Principe, unable to secure passage home.

Many of the Cape Verdean contract workers featured in the film still
hold on to memories of home. Filmmaker Guenny Pires blends the stories
of Cape Verdean families affected by the contract labor system with
interviews with experts to tell this little known chapter in Africa's
history. The Cape Verdeans interviewed, including Pires' own uncle,
share that after decades in Sao Tome and Principe, many have
maintained their spiritual ties to their home. After marriages,
children, and new lives established in Sao Tome and Principe, many of
the Cape Verdean contract workers shown in the film expressed a strong
desire to return home.

At the heart of Contract is the family story of the filmmaker himself.
The film documents his journey to reunite his family after his uncle
left for Sao Tome and Principe decades earlier. The emotional journey
of Guenny Pires' family was the most salient aspect of the film. Pires
re-tells his uncle's departure for Sao Tome and Principe and the
eventual loss of contact between his uncle and his family. Pires'
speaks with various relatives and narrates the impact losing his uncle
had on the family. This deeply emotional journal to reunite the family
is one of the film's strengths.


Other aspects of the film are at times disjointed and difficult to
follow. The film often jumps from personal story to historical
documentary without warning. In addition, some of the experts
interviewed for the film gave information that was culturally
inaccurate and factually unclear. Portugal's colonial policies in
Africa have been researched by several scholars, scholars who could
have provided the insight needed to put the film in proper context.*

The film will likely inspire viewers to want to learn more about
Portugal's policy of bringing workers from its other African colonies
to Sao Tome and Principe. Portugal, one of the last European countries
to leave Africa did so in 1975, with no regard for the thousands of
workers stranded in Sao Tome and Principe. The film provided a great
opportunity to clearly outline the experiences of Cape Verdeans and
other Lusophone Africans in Sao Tome and Principe, but fell a bit
short of this.

This is one of Guenny Pires' first films and his passion for the fate
and lives of the Cape Verdeans in Sao Tome and Principe is clear. The
story of Pires' family is compelling and emotional. While Contract was
premiered at PAFF, Pires says that the film is a work in progress. The
film, even with issues of clarity and continuity, is one of the only
documentaries to deal with the exploitative experiences of contract
workers in Sao Tome and Principe.

[By Msia Kibona Clark @ AllAfrica.com]


*Reference to related work by one such scholar can be found here.

Saturday, 7 November 2009

SOBRE PRATICAS LABORAIS DE EMPRESAS PORTUGUESAS EM ANGOLA

[Como uma especie de “complemento”, em portugues, ao post anterior, esta noticia sobre as praticas laborais de empresas portuguesas em Angola…]


Empresas portuguesas lideram violações aos direitos dos trabalhadores (NJ)

As empresas portuguesas são as que mais desrespeitam os direitos dos trabalhadores em Angola. A constatação saiu do encontro que em Luanda juntou representantes do Sindicato do Ramo da Construção, Materiais de Construção e Habitação de cinco províncias do país. Falando ao Novo Jornal, Albano Calei secretário-geral do sindicato de Benguela referiu que no topo da lista das violações está a desatenção dos empregadores no cumprimento do estipulado na lei geral do trabalho e na lei sindical.

Aquele dirigente sindical refere que as dificuldades criadas pelos líderes das empresas portuguesas presentes em território nacional na constituição das comissão sindicais, relacionam- se única e simplesmente com o pensamento “errado” do empregador em que, após conhecerem a lei, os trabalhadores exigem condições salariais e sociais acima das possibilidades da empresa.

Dizendo ser conhecedor de um elevado número de casos desta natureza, Albano Calei chama a atenção para a atitude prepotente evidenciada por muitos gestores, logo à chegada ao nosso país. “São muitos os responsáveis que entram no mercado nacional da construção, criam empresas e não se preocupam com o cumprimento da lei” esclarece o sindicalista que mais adiante adverte que se eles (empregadores) continuarem a fazer ouvidos de mercador, mais cedo do que esperam chegará a resposta no âmbito da lei.

Os sindicalistas de Benguela, Luanda, Cunene, Cabinda e Namibe, reunidos na capital do país, delinearam estratégias de actuação viradas para a formação dos líderes das comissões sindicais. Afinal, diz ele, também é verdade que não são poucas as vezes que, sem conhecer a situação económica da empresa em que labutam, os representantes sindicais elaboram cadernos reivindicativos em desobediência aos parâmetros estabelecidos na lei. E quando se dão situações deste género, o empregador simplesmente não consegue resolver.

Identificada a dificuldade em grande parte das empresas lusas de construção e algumas de outros países em facilitar a constituição das comissões sindicais, a atenção volta- se para a busca de soluções que facilitem o diálogo entre as partes. Com este propósito, foi aprovada uma curta resolução que os sindicalistas acreditam ser o primeiro passo para a inversão do quadro.

Solicitam e prometem acompanhar de perto a aplicação da Lei Geral do Trabalho e da Lei Sindical, como instrumento jurídico. Com a sua aplicação, acredita o entrevistado, os trabalhadores serão fortemente beneficiados, mas igualmente o empregador poderá, a partir dessa base de conversação, melhorar o entendimento.

(IN) SEGURANÇA NO TRABALHO

Na mira da acção sindical, estão também as empresas chinesas que agem à margem da lei vigente no país. Afirma que um dos grandes problemas difíceis de ser resolvido é a segurança no trabalho, que não é cumprida. Sublinha que muitos pensam que segurança é apenas capacete e fato, quando é muito mais do que isso. Atira que na sua maioria, as empresas de construção olham apenas para os lucros, esquivando- se a cumprir as suas obrigações laborais.

Concentrando-se na província de Benguela, onde as empresas portuguesas são as maiores empregadores no ramo da construção civil, Albano Calei assegura que a estratégia para melhorar o relacionamento entre as partes em causa, está montada. “A situação de Benguela é melhor comparativamente às outras quatro províncias” lembra o entrevistado que apesar da melhor relação entre sindicato e empresas, assume que há um pequeno grupo apostado em criar barreiras. Por essa razão assegura estar a trabalhar na realização de um seminário com diversos sindicatos que vai aprovar caminhos com o objectivo de manter, posteriormente, contactos directos com as empresas e explicar os benefícios do cumprimento da lei em vigor.

[Aqui]
[Como uma especie de “complemento”, em portugues, ao post anterior, esta noticia sobre as praticas laborais de empresas portuguesas em Angola…]


Empresas portuguesas lideram violações aos direitos dos trabalhadores (NJ)

As empresas portuguesas são as que mais desrespeitam os direitos dos trabalhadores em Angola. A constatação saiu do encontro que em Luanda juntou representantes do Sindicato do Ramo da Construção, Materiais de Construção e Habitação de cinco províncias do país. Falando ao Novo Jornal, Albano Calei secretário-geral do sindicato de Benguela referiu que no topo da lista das violações está a desatenção dos empregadores no cumprimento do estipulado na lei geral do trabalho e na lei sindical.

Aquele dirigente sindical refere que as dificuldades criadas pelos líderes das empresas portuguesas presentes em território nacional na constituição das comissão sindicais, relacionam- se única e simplesmente com o pensamento “errado” do empregador em que, após conhecerem a lei, os trabalhadores exigem condições salariais e sociais acima das possibilidades da empresa.

Dizendo ser conhecedor de um elevado número de casos desta natureza, Albano Calei chama a atenção para a atitude prepotente evidenciada por muitos gestores, logo à chegada ao nosso país. “São muitos os responsáveis que entram no mercado nacional da construção, criam empresas e não se preocupam com o cumprimento da lei” esclarece o sindicalista que mais adiante adverte que se eles (empregadores) continuarem a fazer ouvidos de mercador, mais cedo do que esperam chegará a resposta no âmbito da lei.

Os sindicalistas de Benguela, Luanda, Cunene, Cabinda e Namibe, reunidos na capital do país, delinearam estratégias de actuação viradas para a formação dos líderes das comissões sindicais. Afinal, diz ele, também é verdade que não são poucas as vezes que, sem conhecer a situação económica da empresa em que labutam, os representantes sindicais elaboram cadernos reivindicativos em desobediência aos parâmetros estabelecidos na lei. E quando se dão situações deste género, o empregador simplesmente não consegue resolver.

Identificada a dificuldade em grande parte das empresas lusas de construção e algumas de outros países em facilitar a constituição das comissões sindicais, a atenção volta- se para a busca de soluções que facilitem o diálogo entre as partes. Com este propósito, foi aprovada uma curta resolução que os sindicalistas acreditam ser o primeiro passo para a inversão do quadro.

Solicitam e prometem acompanhar de perto a aplicação da Lei Geral do Trabalho e da Lei Sindical, como instrumento jurídico. Com a sua aplicação, acredita o entrevistado, os trabalhadores serão fortemente beneficiados, mas igualmente o empregador poderá, a partir dessa base de conversação, melhorar o entendimento.

(IN) SEGURANÇA NO TRABALHO

Na mira da acção sindical, estão também as empresas chinesas que agem à margem da lei vigente no país. Afirma que um dos grandes problemas difíceis de ser resolvido é a segurança no trabalho, que não é cumprida. Sublinha que muitos pensam que segurança é apenas capacete e fato, quando é muito mais do que isso. Atira que na sua maioria, as empresas de construção olham apenas para os lucros, esquivando- se a cumprir as suas obrigações laborais.

Concentrando-se na província de Benguela, onde as empresas portuguesas são as maiores empregadores no ramo da construção civil, Albano Calei assegura que a estratégia para melhorar o relacionamento entre as partes em causa, está montada. “A situação de Benguela é melhor comparativamente às outras quatro províncias” lembra o entrevistado que apesar da melhor relação entre sindicato e empresas, assume que há um pequeno grupo apostado em criar barreiras. Por essa razão assegura estar a trabalhar na realização de um seminário com diversos sindicatos que vai aprovar caminhos com o objectivo de manter, posteriormente, contactos directos com as empresas e explicar os benefícios do cumprimento da lei em vigor.

[Aqui]

Friday, 6 November 2009

THE WALL STREET JOURNAL ON THE RECOLONISATION OF ANGOLA



Nearly 35 years after winning independence from Portugal, Angola is being populated by its former colonizer once again -- this time by professionals and scores of workers laid off amid the economic slump.

Portugal has been hard hit by the global downturn. Unemployment in the second quarter was 9.2% and the economy is expected to shrink by 3.7% this year. Temporary and seasonal construction work in other European Union countries -- a mainstay for Portuguese laborers -- have been drying up. As workers from across Europe return to Portugal, a country of 10.6 million, they struggle to find jobs.

Portugal's former colony, meanwhile, has emerged in recent years as one of the world's fastest-growing economies. Angola's gross domestic product has grown well over 10% annually since 2004, and topped 20% in 2007, bolstered by oil production and mining. Even with the drop in oil prices in 2008, GDP grew 14.8% for the year.

Filomeno Vieira Lopes, an economist and member of the Angolan opposition party Front for Democracy, said three factors have contributed to economic growth. "First, there was the rise in petrol prices and the rise in production; second, the interest from China; and now, all the rebuilding after the war," he said.

While Angola is luring unemployed and underemployed Portuguese, it has many internal problems, including an unemployment rate of its own that has reached 40%, increasing inflation and widespread poverty. This reality has created a "certain a level of animosity," toward foreigners, who are seen as taking jobs from Angolans, said Mr. Vieira Lopes.

But for Justino Pinto de Andrade, a professor of economics at the Catholic University of Luanda, having foreigners -- particularly those who have come to work on rebuilding projects -- pour into his country is something positive, and temporary. Local companies were paralyzed for years during the wars, he said, putting the country's workers at a disadvantage in terms of training.

"Angola has to be constructed," said the professor. "Borders are disintegrating. They don't make sense in this globalized world. We need qualified people -- not just people with advanced school degrees, but people who are qualified in all senses of the word."


[Read More Here]


Nearly 35 years after winning independence from Portugal, Angola is being populated by its former colonizer once again -- this time by professionals and scores of workers laid off amid the economic slump.

Portugal has been hard hit by the global downturn. Unemployment in the second quarter was 9.2% and the economy is expected to shrink by 3.7% this year. Temporary and seasonal construction work in other European Union countries -- a mainstay for Portuguese laborers -- have been drying up. As workers from across Europe return to Portugal, a country of 10.6 million, they struggle to find jobs.

Portugal's former colony, meanwhile, has emerged in recent years as one of the world's fastest-growing economies. Angola's gross domestic product has grown well over 10% annually since 2004, and topped 20% in 2007, bolstered by oil production and mining. Even with the drop in oil prices in 2008, GDP grew 14.8% for the year.

Filomeno Vieira Lopes, an economist and member of the Angolan opposition party Front for Democracy, said three factors have contributed to economic growth. "First, there was the rise in petrol prices and the rise in production; second, the interest from China; and now, all the rebuilding after the war," he said.

While Angola is luring unemployed and underemployed Portuguese, it has many internal problems, including an unemployment rate of its own that has reached 40%, increasing inflation and widespread poverty. This reality has created a "certain a level of animosity," toward foreigners, who are seen as taking jobs from Angolans, said Mr. Vieira Lopes.

But for Justino Pinto de Andrade, a professor of economics at the Catholic University of Luanda, having foreigners -- particularly those who have come to work on rebuilding projects -- pour into his country is something positive, and temporary. Local companies were paralyzed for years during the wars, he said, putting the country's workers at a disadvantage in terms of training.

"Angola has to be constructed," said the professor. "Borders are disintegrating. They don't make sense in this globalized world. We need qualified people -- not just people with advanced school degrees, but people who are qualified in all senses of the word."


[Read More Here]

Friday, 17 July 2009

VIVA O BRASIL!

Alguem se lembra desta conversa?

umBhalane Says:

Monday, June 22, 2009
Portugal 10.023 leitores

Brasil 9.406 leitores

Me agarra, Brasil!

A meta dos 20.000 está em jogo.

Abração, mesmo.


Koluki Says:

Monday, June 22, 2009
Pois eu ca' fico a observar a corrida... mesmo.



{O Brasil acaba de agarrar (10707 contra 10681)! Continuo a observar a corrida...}
Alguem se lembra desta conversa?

umBhalane Says:

Monday, June 22, 2009
Portugal 10.023 leitores

Brasil 9.406 leitores

Me agarra, Brasil!

A meta dos 20.000 está em jogo.

Abração, mesmo.


Koluki Says:

Monday, June 22, 2009
Pois eu ca' fico a observar a corrida... mesmo.



{O Brasil acaba de agarrar (10707 contra 10681)! Continuo a observar a corrida...}

Saturday, 20 June 2009

VIVA PORTUGAL!

Um pouco à margem. Vou-me ausentar para o fim de semana, sem internete, e já lá vão 9.990 leitores de Portugal, pressupondo que atinja os 10.000 durante a minha ausência.

Desde já os meus parabéns.

Obrigado também por este rico espaço, com grande qualidade.

E pensar que seria possível, foi coisa que, sinceramente, não julguei concretizável!

Agora, na meta dos 20.000, vamos ver o que se nos oferece...

BFS

umBhalane


{Comentario feito aqui}


O meu MUITO OBRIGADA, especialmente a si, umBhalane, pela dedicacao, assiduidade, encorajamento e sempre enriquecedores comentarios!

Friday, 29 May 2009

AINDA SOBRE AS "7 MARAVILHAS PORTUGUESAS NO MUNDO"

Ainda sobre esta questao, um grupo de historiadores, incluindo alguns angolanos, acaba de emitir uma peticao dirigida ao Governo Portugues, suportada por esta carta aberta:


O concurso As 7 maravilhas portuguesas no mundo ignora a história da escravidão e do tráfico atlântico

Há mais ou menos vinte anos, vários países europeus, americanos e africanos vêm afirmando a memória dolorosa do comércio de africanos escravizados e valorizando o patrimônio que lhe é associado. Essa valorização se traduziu não somente na publicação de um grande número de obras historiográficas, mas também se expressou na realização de projetos como A Rota do Escravo iniciado pela UNESCO em 1994.

Apesar das dificuldades e das lutas políticas que envolveram a emergência da memória do passado escravista das nações europeias, americanas e africanas, de dez anos para cá a memória e a história do comércio atlântico passaram a fazer parte da memória pública de muitos países nos três continentes circundando o Atlântico. Em 2001, através da Lei Taubira, a França foi o primeiro país a reconhecer a escravidão e o tráfico atlântico como crimes contra a humanidade. Também na França, o 10 de Maio é doravante "dia nacional de comemoração das memórias do tráfico negreiro, da escravatura e das suas abolições". Em 2001, em Durban na África do Sul, a Terceira Conferência da ONU contra o racismo inscreveu em suas declarações finais a escravidão como "crime contra a humanidade". Em 1992, na Casa dos Escravos na Ilha de Gorée no Senegal, o Papa João Paulo II expressou suas desculpas pelo papel desempenhado pela Igreja Católica durante o tráfico atlântico. Bill Clinton, George W. Bush, e o próprio Presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, condenaram publicamente a participação passada de seus países no comércio atlântico de africanos escravizados. Em 2006, Michaelle Jean, governadora geral do Canadá, escolheu o Castelo de Elmina em Gana para denunciar passado escravista. Em 2007, durante as comemorações do aniversário de duzentos anos da abolição do tráfico de escravos pela Inglaterra, foi a vez do ministro Tony Blair expressar publicamente seu profundo pesar pelo papel da Grã-Bretanha no comércio de africanos escravizados.

Em pleno ano de 2009, o governo de Portugal e instituições portuguesas como a Universidade de Coimbra, escolheram um caminho oposto ao descrito acima. No primeiro semestre desse ano essas instituições apoiaram a realização de um concurso para escolher as Sete Maravilhas Portuguesas no Mundo. Na lista das Sete Maravilhas a serem votadas pelo público na internet (http://www.7maravilhas.sapo.pt), constam não somente o Castelo São Jorge da Mina (Elmina), entreposto comercial fundado pelos portugueses em 1482, mas também a Cidade Velha (Ribeira Grande) na Ilha de Santiago em Cabo Verde, além de Luanda e da Ilha de Moçambique. Ao descrever esses sítios, a organização do concurso optou por omitir o uso desses lugares para o comércio de escravos. No texto descrevendo o Castelo São Jorge da Mina ou Elmina chegou-se ao cúmulo de afirmar que aquele local foi entreposto de escravos somente a partir da ocupação holandesa em 1637.

Para ser fiel à história e moralmente responsável, consideramos que a inclusão desses "monumentos" no dito concurso deveria ser acompanhada de informações completas sobre o papel deles no tráfico atlântico, assim como sobre seu uso atual. O Castelo de São Jorge da Mina ou Elmina, por exemplo, é hoje um museu que tenta retratar a história do tráfico. Trata-se de um lugar visitado por milhares de turistas de todo o mundo, entre os quais muitos representantes da diáspora africana que buscam ali prestar homenagem a seus ancestrais. O governo português, as instituições que apóiam o concurso e sua organização ignoraram a dor daqueles que tiveram seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos. Seria possível desvincular a arquitetura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm no presente enquanto lugares de memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colônias européias ? Segundo as estimativas mais recentes (www.slavevoyages.org), Portugal e posteriormente sua ex-colônia, o Brasil, foram juntos responsáveis por quase a metade dos 12 milhões de cativos transportados através do Atlântico.

Em respeito à história e à memória dos milhões de vítimas do tráfico atlântico de escravos, viemos através desta carta aberta repudiar a omissão do papel que tiveram esses lugares no comércio atlântico de africanos escravizados. Convidamos todos aqueles que têm um compromisso com a pesquisa do tráfico atlântico de escravos e da escravidão a repudiar que essa história seja banalizada e apagada em prol da exaltação de um passado português glorioso expresso na suposta "beleza" arquitetural de tais sítios de morte e tragédia.

[Podera' consultar a lista de subscritores e assinar a peticao aqui]
Ainda sobre esta questao, um grupo de historiadores, incluindo alguns angolanos, acaba de emitir uma peticao dirigida ao Governo Portugues, suportada por esta carta aberta:


O concurso As 7 maravilhas portuguesas no mundo ignora a história da escravidão e do tráfico atlântico

Há mais ou menos vinte anos, vários países europeus, americanos e africanos vêm afirmando a memória dolorosa do comércio de africanos escravizados e valorizando o patrimônio que lhe é associado. Essa valorização se traduziu não somente na publicação de um grande número de obras historiográficas, mas também se expressou na realização de projetos como A Rota do Escravo iniciado pela UNESCO em 1994.

Apesar das dificuldades e das lutas políticas que envolveram a emergência da memória do passado escravista das nações europeias, americanas e africanas, de dez anos para cá a memória e a história do comércio atlântico passaram a fazer parte da memória pública de muitos países nos três continentes circundando o Atlântico. Em 2001, através da Lei Taubira, a França foi o primeiro país a reconhecer a escravidão e o tráfico atlântico como crimes contra a humanidade. Também na França, o 10 de Maio é doravante "dia nacional de comemoração das memórias do tráfico negreiro, da escravatura e das suas abolições". Em 2001, em Durban na África do Sul, a Terceira Conferência da ONU contra o racismo inscreveu em suas declarações finais a escravidão como "crime contra a humanidade". Em 1992, na Casa dos Escravos na Ilha de Gorée no Senegal, o Papa João Paulo II expressou suas desculpas pelo papel desempenhado pela Igreja Católica durante o tráfico atlântico. Bill Clinton, George W. Bush, e o próprio Presidente do Brasil, Luis Inácio Lula da Silva, condenaram publicamente a participação passada de seus países no comércio atlântico de africanos escravizados. Em 2006, Michaelle Jean, governadora geral do Canadá, escolheu o Castelo de Elmina em Gana para denunciar passado escravista. Em 2007, durante as comemorações do aniversário de duzentos anos da abolição do tráfico de escravos pela Inglaterra, foi a vez do ministro Tony Blair expressar publicamente seu profundo pesar pelo papel da Grã-Bretanha no comércio de africanos escravizados.

Em pleno ano de 2009, o governo de Portugal e instituições portuguesas como a Universidade de Coimbra, escolheram um caminho oposto ao descrito acima. No primeiro semestre desse ano essas instituições apoiaram a realização de um concurso para escolher as Sete Maravilhas Portuguesas no Mundo. Na lista das Sete Maravilhas a serem votadas pelo público na internet (http://www.7maravilhas.sapo.pt), constam não somente o Castelo São Jorge da Mina (Elmina), entreposto comercial fundado pelos portugueses em 1482, mas também a Cidade Velha (Ribeira Grande) na Ilha de Santiago em Cabo Verde, além de Luanda e da Ilha de Moçambique. Ao descrever esses sítios, a organização do concurso optou por omitir o uso desses lugares para o comércio de escravos. No texto descrevendo o Castelo São Jorge da Mina ou Elmina chegou-se ao cúmulo de afirmar que aquele local foi entreposto de escravos somente a partir da ocupação holandesa em 1637.

Para ser fiel à história e moralmente responsável, consideramos que a inclusão desses "monumentos" no dito concurso deveria ser acompanhada de informações completas sobre o papel deles no tráfico atlântico, assim como sobre seu uso atual. O Castelo de São Jorge da Mina ou Elmina, por exemplo, é hoje um museu que tenta retratar a história do tráfico. Trata-se de um lugar visitado por milhares de turistas de todo o mundo, entre os quais muitos representantes da diáspora africana que buscam ali prestar homenagem a seus ancestrais. O governo português, as instituições que apóiam o concurso e sua organização ignoraram a dor daqueles que tiveram seus antepassados deportados desses entrepostos comerciais e muitas vezes ali mortos. Seria possível desvincular a arquitetura dessas construções do papel que elas tiveram no passado e que ainda têm no presente enquanto lugares de memória da imensa tragédia que representou o tráfico transatlântico e a escravidão africana nas colônias européias ? Segundo as estimativas mais recentes (www.slavevoyages.org), Portugal e posteriormente sua ex-colônia, o Brasil, foram juntos responsáveis por quase a metade dos 12 milhões de cativos transportados através do Atlântico.

Em respeito à história e à memória dos milhões de vítimas do tráfico atlântico de escravos, viemos através desta carta aberta repudiar a omissão do papel que tiveram esses lugares no comércio atlântico de africanos escravizados. Convidamos todos aqueles que têm um compromisso com a pesquisa do tráfico atlântico de escravos e da escravidão a repudiar que essa história seja banalizada e apagada em prol da exaltação de um passado português glorioso expresso na suposta "beleza" arquitetural de tais sítios de morte e tragédia.

[Podera' consultar a lista de subscritores e assinar a peticao aqui]

Saturday, 9 May 2009

OLHARES DIVERSOS (II)


O texto que planeara postar neste segundo “Olhares Diversos”, encontrei-o ha’ dias, por mero acaso, num forum cujo link segui a partir da lista de “referrers” de um dos contadores deste blog – trabalho a que apenas me dou quando tais referencias indiciam uma qualquer ligacao a posts meus. Ao chegar ao tal forum, assolou-me imediatamente uma sensacao de mal-estar pelas mencoes no seu cabecalho ao “white pride world wide”...

Continuei, no entanto, a descer pela pagina abaixo a procura do que por la’ poderia haver relacionado com o meu blog. E, a medida que o fazia, pelos titulos, as imagens e, sobretudo, a referencia permanente a Declaracao da ONU sobre os Direitos dos Povos Indigenas, foi-se-me instalando a duvida sobre se realmente aquele se trataria de um forum da “extrema-direita racista”... ate’ que encontrei o que o ligava ao meu blog: este texto do meu amigo Denudado aqui publicado na serie “Be My Guest!”.

Mas, chamou-me particularmente a atencao o post imediatamente anterior, sob o titulo "Brancos, Pretos e Mulatos", que assim comecava: “Uma boa parte dos mulatos, nos tempos coloniais, não saberia quem era o pai. Os brancos entravam no caniço e tinham a negra que quisessem. A bem ou a mal. A seguir desapareciam, e como poderia alguém saber de onde eram, como se chamavam? Se os mulatos eram renegados pelos pais, não aconteceria por serem mulatos, mas por serem filhos nascidos fora do casamento. Os brancos mantinham a mulher branca algures no centro da cidade, ou na Metrópole. E para lá seguiam. As "traquinices" sexuais dos brancos com negras não assombravam o seu futuro, porque uma negra não tinha poder para reclamar qualquer paternidade. Ninguém lhe daria crédito.”

Enquanto o lia, a partir de um determinado momento comecei a ficar com a sensacao de que conhecia aquele tipo de estoria e a forma como era escrita de um blog que 'espreitei' durante algum tempo (ainda muito proximo de quando me lancei na blogosfera, qual “pata brava em mar alto”...). Cheguei mesmo a inclui-lo nos links do meu blog, mas pouco tempo depois conclui que, por “mais que perfeito” que fosse, aquele, definitivamente, nao era o meu mundo. “Deslinkei-o” entao e aos poucos fui deixando de o visitar.

Ja’ la’ nao ia ha’ um bom par de anos (e’... ja’ por aqui ando ha’ uns tempos...), ate’ hoje, quando me preparava para postar aqui o texto em questao e fui a procura do sitio onde ele tinha sido originalmente publicado, porque faco sempre questao de indicar a origem do que aqui publico e que nao e' de minha autoria, e... sim, era do “Mundo Perfeito” (MP). E se isso nao constituiu espanto para mim, espantou-me deveras acabar por descobrir que a sua autora decidiu encerra-lo em protesto pela (re)postagem de textos seus em espacos com os quais nao se identifica ideologicamente e, transcrevo, “Por outro lado, sinto que o que fui escrevendo sobre as minhas memórias coloniais, as quais considero historica e politicamente relevantes, foi sendo erradamente interpretado. Afinal, talvez não seja possível escrever sobre colonialismo três décadas após o seu término, a não ser como se espera vê-lo escrito. Talvez o colonialismo não tenha terminado ainda. Talvez seja confuso isto de uma mulher não conservadora, um pouco anarca, independente de esquerda ser simultaneamente filha de uma pesada herança colonial que não nega.”

Tendo eu tido, nestas minhas lides na blogosfera e, muito especialmente, na lusosfera, as minhas mais do que suficientes doses de abusos de toda a ordem por parte de terceiros (incluindo gente nos antipodas das minhas conviccoes ideologicas e/ou inclinacao sexual), nao posso deixar de manifestar a minha solidariedade para com a lesada. No entanto, como ficou registado pelas minhas reaccoes a tais abusos, nao sei se, no seu lugar, eu teria tomado a mesma decisao, mas... longe de mim a leviandade de pretender questiona-la e muito menos as suas razoes. E, perante tal decisao e suas razoes, mesmo nao me tendo sentido movida por quaisquer intentos eticamente reprovaveis quando pensei em postar o seu texto aqui, coibi-me imediatamente de o fazer. Contudo, nao foi fundamentalmente isso que me levou a tracar estas linhas – mesmo porque acabei por ficar tambem a saber que ela ja’ decidiu criar um outro blog. No que lhe desejo melhor sorte.

O que me trouxe a estas linhas, porem, foi o reviver da sensacao de desconforto que sentira ao ler algumas das suas “cronicas coloniais” quando inicialmente descobri o MP. Fui para elas atraida nao apenas pelo tema, obviamente, mas tambem pela forma, nua e crua (quase que diria mordaz e impiedosa), como as escrevia. Mas esse polo de atraccao acabou por ser rapidamente anulado por um outro, senao de rejeicao, pelo menos de indiferenca: porque cedo fiquei convencida de que se tratava de alguem a tentar resolver intimamente a sua relacao com os seus pais, em particular com o seu pai, usando apenas como “pano de fundo” o mundo “dos (seus) pretos” e, como pretexto, o lugar do seu pai nesse mundo (um lugar com doses nauseantes de paternalismo para com os "seus pretos"...) e, mais particularmente, o seu lugar (dela, da sua mae e do seu pai) no mundo (e, mais nua e cruamente, no lugar mais intimo) “das pretas” (n.b.: a cronica que se tornou mais popular na serie entitulava-se, e perdoem-me os leitores mais susceptiveis, "a cona das pretas"...). Nao chegou a repugnar-me, muito menos a revoltar-me, porque... simples e sinceramente nunca a cheguei a perceber (particularmente se lida simultaneamente com outras posturas por si manifestadas sobre assuntos mais correntes da Africa post-colonial), mesmo porque nao me lembro de na altura ter conseguido ler alguma daquelas cronicas ate’ ao fim. Tomei-o apenas como algo pessoal da autora que, nao sendo de modo nenhum irrelevante, tinha um impacto limitado sobre o mundo que pretendia retratar. Por isso, tambem, achei a cronica que aqui pretendi postar adequada ao espaco de “olhares diversos” – como apenas isso, um olhar diverso sobre uma realidade que todos conhecemos de modos diversos.

E, tal como tive dificuldade em percebe-la, nao percebo a que proposito o texto do Denudado publicado aqui no meu blog constitui materia de interesse e "suporte de causa" para um forum de grupos racistas de extrema-direita. Nao sei sequer se foi esse o mesmo forum que provocou o encerramento do MP. Sei apenas que esta’ longe de mim a ideia de encerrar o meu blog por causa deles, porque... pura e simplesmente nao os percebo. Nem me interessa.

O que me interessa, todavia, em toda esta estoria, e’ a ideia de olhares diversos – neste caso, respectivamente de “extrema direita” e de “extrema(?) esquerda” (ja’ se escreveu bastante sobre a “atraccao entre os opostos” e sobre como, mais frequentemente do que nao, os extremos se tocam...) – mas convergentes, sobre um mesmo mundo, sobre os mesmos “objectos”: “os pretos” e, muito especialmente, “as pretas” e a sua intimidade. Porque, em ambos os casos, mesmo se com motivacoes diferentes, “os pretos”, e especialmente “as pretas”, a quem se inventaram mulatos, parecem nao passar disso mesmo: objectos para os quais se olha a distancia mas que se evita a todo o custo ver, sobre os quais se fala mas com quem nao se comunica e muito menos interage para la’ da superficie (para la’ da pele e da sua cor... para la’ do sexo!), as quais se usa para psicanalisar as relacoes entre eles - eles “sujeitos”, eles “outros” -, perante elas ou a sua revelia, mas nao a sua relacao com elas. E’ tudo quanto julgo perceber em ambos os casos. Ah... isso, mais o que me parece infinitamente ridiculo nas disputas sobre se “os brancos em Africa eram mais ou menos racistas que os brancos da Metropole”...

Mas tudo isto me leva a um outro questionamento: o deste olhar aqui apresentado sobre o que o meu antigo (e controverso) professor de Historia de Africa no Lubango, Arlindo Barbeitos, uma das pessoas que tive a oportunidade de reencontrar durante a minha recente estada em Luanda, classifica como “identidades coloniais equivocadas” (obviamente, nao tendo ainda lido o livro, reservo melhor opiniao para quando o puder fazer): “(...) no final, essas relacoes assemelham-se a um sistema de vasos comunicantes onde, neste caso preciso, dominadores e dominados se influenciam reciprocamente e em todos os dominios desde o seu primeiro contacto registado no seculo XVI. 'A relacao com o outro e’ inscrita virtualmente na relacao consigo mesmo', escreveu o sociologo Edgar Morin.”

Sera’ mesmo? Bom, admitamos que sim, que “a relacao com o outro e’ inscrita virtualmente na relacao consigo mesmo”. Mas sera’ que isso conduz necessariamente a um “equivoco de identidades”? Sera’ que os “vasos” a que se alude sao efectivamente “comunicantes”? Sera’ que, de facto, “dominadores e dominados se influenciam reciprocamente”? Nao contera’ a condicao de “dominador” (seja homem ou mulher, pai ou mae, preto, branco ou mulato), isso mesmo na sua essencia: dominar, influenciar unilateralmente? Nao serao os olhares trocados entre dominados e dominadores numa relacao de poder (como a que e', sempre, a relacao colonial!) forcosamente (forcadamente) diversos? Nao sera’ o olhar do “eu” sobre o “outro” um veiculo de estabelecimento da identidade propria e de diferenciacao do “eu” em relacao a identidade do “outro”? Nao sera’ esse, precisamente, o processo de formacao e afirmacao de identidades distintas, sem (nao diria “quaisquer”, mas...) muitas margens para equivocos? O que e', afinal, isso que dizemos prezar e a que chamamos "diversidade"?

Ou, colocado de outro modo, teremos agora que passar de uma discussao sobre o “white pow(d)er” para uma discussao sobre “white washing” (... da historia colonial, quero dizer, nao "da pele dos pretos ou do sexo das pretas"...)?!

O texto que planeara postar neste segundo “Olhares Diversos”, encontrei-o ha’ dias, por mero acaso, num forum cujo link segui a partir da lista de “referrers” de um dos contadores deste blog – trabalho a que apenas me dou quando tais referencias indiciam uma qualquer ligacao a posts meus. Ao chegar ao tal forum, assolou-me imediatamente uma sensacao de mal-estar pelas mencoes no seu cabecalho ao “white pride world wide”...

Continuei, no entanto, a descer pela pagina abaixo a procura do que por la’ poderia haver relacionado com o meu blog. E, a medida que o fazia, pelos titulos, as imagens e, sobretudo, a referencia permanente a Declaracao da ONU sobre os Direitos dos Povos Indigenas, foi-se-me instalando a duvida sobre se realmente aquele se trataria de um forum da “extrema-direita racista”... ate’ que encontrei o que o ligava ao meu blog: este texto do meu amigo Denudado aqui publicado na serie “Be My Guest!”.

Mas, chamou-me particularmente a atencao o post imediatamente anterior, sob o titulo "Brancos, Pretos e Mulatos", que assim comecava: “Uma boa parte dos mulatos, nos tempos coloniais, não saberia quem era o pai. Os brancos entravam no caniço e tinham a negra que quisessem. A bem ou a mal. A seguir desapareciam, e como poderia alguém saber de onde eram, como se chamavam? Se os mulatos eram renegados pelos pais, não aconteceria por serem mulatos, mas por serem filhos nascidos fora do casamento. Os brancos mantinham a mulher branca algures no centro da cidade, ou na Metrópole. E para lá seguiam. As "traquinices" sexuais dos brancos com negras não assombravam o seu futuro, porque uma negra não tinha poder para reclamar qualquer paternidade. Ninguém lhe daria crédito.”

Enquanto o lia, a partir de um determinado momento comecei a ficar com a sensacao de que conhecia aquele tipo de estoria e a forma como era escrita de um blog que 'espreitei' durante algum tempo (ainda muito proximo de quando me lancei na blogosfera, qual “pata brava em mar alto”...). Cheguei mesmo a inclui-lo nos links do meu blog, mas pouco tempo depois conclui que, por “mais que perfeito” que fosse, aquele, definitivamente, nao era o meu mundo. “Deslinkei-o” entao e aos poucos fui deixando de o visitar.

Ja’ la’ nao ia ha’ um bom par de anos (e’... ja’ por aqui ando ha’ uns tempos...), ate’ hoje, quando me preparava para postar aqui o texto em questao e fui a procura do sitio onde ele tinha sido originalmente publicado, porque faco sempre questao de indicar a origem do que aqui publico e que nao e' de minha autoria, e... sim, era do “Mundo Perfeito” (MP). E se isso nao constituiu espanto para mim, espantou-me deveras acabar por descobrir que a sua autora decidiu encerra-lo em protesto pela (re)postagem de textos seus em espacos com os quais nao se identifica ideologicamente e, transcrevo, “Por outro lado, sinto que o que fui escrevendo sobre as minhas memórias coloniais, as quais considero historica e politicamente relevantes, foi sendo erradamente interpretado. Afinal, talvez não seja possível escrever sobre colonialismo três décadas após o seu término, a não ser como se espera vê-lo escrito. Talvez o colonialismo não tenha terminado ainda. Talvez seja confuso isto de uma mulher não conservadora, um pouco anarca, independente de esquerda ser simultaneamente filha de uma pesada herança colonial que não nega.”

Tendo eu tido, nestas minhas lides na blogosfera e, muito especialmente, na lusosfera, as minhas mais do que suficientes doses de abusos de toda a ordem por parte de terceiros (incluindo gente nos antipodas das minhas conviccoes ideologicas e/ou inclinacao sexual), nao posso deixar de manifestar a minha solidariedade para com a lesada. No entanto, como ficou registado pelas minhas reaccoes a tais abusos, nao sei se, no seu lugar, eu teria tomado a mesma decisao, mas... longe de mim a leviandade de pretender questiona-la e muito menos as suas razoes. E, perante tal decisao e suas razoes, mesmo nao me tendo sentido movida por quaisquer intentos eticamente reprovaveis quando pensei em postar o seu texto aqui, coibi-me imediatamente de o fazer. Contudo, nao foi fundamentalmente isso que me levou a tracar estas linhas – mesmo porque acabei por ficar tambem a saber que ela ja’ decidiu criar um outro blog. No que lhe desejo melhor sorte.

O que me trouxe a estas linhas, porem, foi o reviver da sensacao de desconforto que sentira ao ler algumas das suas “cronicas coloniais” quando inicialmente descobri o MP. Fui para elas atraida nao apenas pelo tema, obviamente, mas tambem pela forma, nua e crua (quase que diria mordaz e impiedosa), como as escrevia. Mas esse polo de atraccao acabou por ser rapidamente anulado por um outro, senao de rejeicao, pelo menos de indiferenca: porque cedo fiquei convencida de que se tratava de alguem a tentar resolver intimamente a sua relacao com os seus pais, em particular com o seu pai, usando apenas como “pano de fundo” o mundo “dos (seus) pretos” e, como pretexto, o lugar do seu pai nesse mundo (um lugar com doses nauseantes de paternalismo para com os "seus pretos"...) e, mais particularmente, o seu lugar (dela, da sua mae e do seu pai) no mundo (e, mais nua e cruamente, no lugar mais intimo) “das pretas” (n.b.: a cronica que se tornou mais popular na serie entitulava-se, e perdoem-me os leitores mais susceptiveis, "a cona das pretas"...). Nao chegou a repugnar-me, muito menos a revoltar-me, porque... simples e sinceramente nunca a cheguei a perceber (particularmente se lida simultaneamente com outras posturas por si manifestadas sobre assuntos mais correntes da Africa post-colonial), mesmo porque nao me lembro de na altura ter conseguido ler alguma daquelas cronicas ate’ ao fim. Tomei-o apenas como algo pessoal da autora que, nao sendo de modo nenhum irrelevante, tinha um impacto limitado sobre o mundo que pretendia retratar. Por isso, tambem, achei a cronica que aqui pretendi postar adequada ao espaco de “olhares diversos” – como apenas isso, um olhar diverso sobre uma realidade que todos conhecemos de modos diversos.

E, tal como tive dificuldade em percebe-la, nao percebo a que proposito o texto do Denudado publicado aqui no meu blog constitui materia de interesse e "suporte de causa" para um forum de grupos racistas de extrema-direita. Nao sei sequer se foi esse o mesmo forum que provocou o encerramento do MP. Sei apenas que esta’ longe de mim a ideia de encerrar o meu blog por causa deles, porque... pura e simplesmente nao os percebo. Nem me interessa.

O que me interessa, todavia, em toda esta estoria, e’ a ideia de olhares diversos – neste caso, respectivamente de “extrema direita” e de “extrema(?) esquerda” (ja’ se escreveu bastante sobre a “atraccao entre os opostos” e sobre como, mais frequentemente do que nao, os extremos se tocam...) – mas convergentes, sobre um mesmo mundo, sobre os mesmos “objectos”: “os pretos” e, muito especialmente, “as pretas” e a sua intimidade. Porque, em ambos os casos, mesmo se com motivacoes diferentes, “os pretos”, e especialmente “as pretas”, a quem se inventaram mulatos, parecem nao passar disso mesmo: objectos para os quais se olha a distancia mas que se evita a todo o custo ver, sobre os quais se fala mas com quem nao se comunica e muito menos interage para la’ da superficie (para la’ da pele e da sua cor... para la’ do sexo!), as quais se usa para psicanalisar as relacoes entre eles - eles “sujeitos”, eles “outros” -, perante elas ou a sua revelia, mas nao a sua relacao com elas. E’ tudo quanto julgo perceber em ambos os casos. Ah... isso, mais o que me parece infinitamente ridiculo nas disputas sobre se “os brancos em Africa eram mais ou menos racistas que os brancos da Metropole”...

Mas tudo isto me leva a um outro questionamento: o deste olhar aqui apresentado sobre o que o meu antigo (e controverso) professor de Historia de Africa no Lubango, Arlindo Barbeitos, uma das pessoas que tive a oportunidade de reencontrar durante a minha recente estada em Luanda, classifica como “identidades coloniais equivocadas” (obviamente, nao tendo ainda lido o livro, reservo melhor opiniao para quando o puder fazer): “(...) no final, essas relacoes assemelham-se a um sistema de vasos comunicantes onde, neste caso preciso, dominadores e dominados se influenciam reciprocamente e em todos os dominios desde o seu primeiro contacto registado no seculo XVI. 'A relacao com o outro e’ inscrita virtualmente na relacao consigo mesmo', escreveu o sociologo Edgar Morin.”

Sera’ mesmo? Bom, admitamos que sim, que “a relacao com o outro e’ inscrita virtualmente na relacao consigo mesmo”. Mas sera’ que isso conduz necessariamente a um “equivoco de identidades”? Sera’ que os “vasos” a que se alude sao efectivamente “comunicantes”? Sera’ que, de facto, “dominadores e dominados se influenciam reciprocamente”? Nao contera’ a condicao de “dominador” (seja homem ou mulher, pai ou mae, preto, branco ou mulato), isso mesmo na sua essencia: dominar, influenciar unilateralmente? Nao serao os olhares trocados entre dominados e dominadores numa relacao de poder (como a que e', sempre, a relacao colonial!) forcosamente (forcadamente) diversos? Nao sera’ o olhar do “eu” sobre o “outro” um veiculo de estabelecimento da identidade propria e de diferenciacao do “eu” em relacao a identidade do “outro”? Nao sera’ esse, precisamente, o processo de formacao e afirmacao de identidades distintas, sem (nao diria “quaisquer”, mas...) muitas margens para equivocos? O que e', afinal, isso que dizemos prezar e a que chamamos "diversidade"?

Ou, colocado de outro modo, teremos agora que passar de uma discussao sobre o “white pow(d)er” para uma discussao sobre “white washing” (... da historia colonial, quero dizer, nao "da pele dos pretos ou do sexo das pretas"...)?!