Em referencia aos comentarios feitos a este post nos ultimos dias, permitam-me, como “ser humano genuino” – tal como o sao (ou foram) os retratados, brancos e negros,
nesta materia –, alinhar aqui algumas breves notas para esta que me parece ser, manifestamente, uma discussao de, entre e sobre portugueses, “genuinos” ou nao.
Tres vectores fundamentais confluem de forma problematica e frequentemente conflituosa para esta questao: a Historia, a Cultura e a Economia:
1. Historia – Portugal colonizou partes do actual territorio de Angola durante cerca de 5 seculos. Foi uma colonizacao, como todas, nao pacificamente aceite pela esmagadora maioria dos seus subditos, mesmo quando todas as aparencias pudessem sugerir o contrario. Por isso houve guerras de resistencia ao longo dos seculos, por isso houve uma guerra anti-colonial durante mais de uma decada, por isso houve a independencia – todos, factos historicos incontestaveis e irreversiveis: nao
ficcao cientifica.
Poderia o processo de “descolonizacao” ter sido menos traumatico para ambos os lados? Questao ainda nao resolvida e que, pelo menos nos termos em que o debate (nao) tem vindo a ser conduzido, parece jamais vir a se-lo, pelo que sobre ela limitar-me-ei a sugerir que “o que aconteceu, esta’ acontecido” e “o que nao tem remedio, remediado esta’”, ou ainda, "de nada serve chorar sobre o leite derramado"... sendo certo que, qualquer que seja a evolucao, ou resolucao, dessa questao, a chamada “recolonizacao” nao me parece ser a resposta mais adequada para ela, certamente nao nos termos em que tem vindo a ser advogada.
2. Cultura – Uma parte, diga-se que minoritaria, dos angolanos foi assimilada, voluntaria ou involuntariamente, a cultura e lingua portuguesas. Mas, precisamente por ser minoritaria, embora
contemporaneamente “poderosa”, “elitizante” e “socio-economicamente dominante”, ela nao detem de facto os “fios condutores” da totalidade da vida cultural, social e humana do pais Angola. Ha’ outros “fios condutores” no tecido que (con)forma o pais real, enfim
outras sensibilidades que, embora tentem (e, de algum modo, consigam em alguns casos) negociar entre si e acomodar-se umas as outras em nome do um “um so' povo, uma so' nacao”, continuam (e, diga-se, legitimamente) a ansiar pela sua “validacao”, ou, dito de outro modo, pela legitimacao das suas respectivas “identidades e etnicidades” proprias como parte de um todo diverso, mas que se pretende harmonioso, depois de uma guerra fratricida de cerca de tres decadas, que teve em grande medida na sua base tais anseios e reivindicacoes (veja-se, por exemplo, o caso das Lundas
aqui e
aqui, ou o de Cabinda,
aqui). Trata-se de facto real, indesmentivel, incontornavel e insofismavel, nao de
mito, nem de
ficcao literaria!
E sobre isso, ha’ ja’ varios anos, em Portugal, lembro-me de ter escrito e publicado algo em que me detinha sobre a manifesta dificuldade que os portugueses em geral demonstram em compreender cabalmente essa realidade, possivelmente por Portugal ser um pais cerca de 14 vezes menor do que Angola em tamanho e nao se apresentar tao diverso etnica, linguistica e culturalmente como esta. E esse e’ tambem um facto, embora os portugueses na Europa, ou em qualquer outra parte do mundo, se comportem geralmente como extremamente ciosos da sua propria “identidade” ou, se se preferir, da sua “genuinidade”: abrem as suas proprias lojas, bares, cafes e restaurantes com produtos alimentares e musica exclusivamente portugueses e frequentados quase exclusivamente por portugueses, falam exclusivamente portugues entre si, estabelecem as suas proprias igrejas com servicos exclusivamente em portugues, promovem as suas proprias e exclusivas actividades comunitarias e sociais com base na sua cultura nacional, chegam a formar verdadeiros
ghetos em algumas zonas das cidades, onde tudo o que se ve, cheira e ouve e' portugues... ou seja, nascem, crescem, vivem, socializam-se, reproduzem-se e morrem como qualquer outro “grupo etnico” nesses paises (algo que, embora de forma “conglomerada” com as comunidades ditas hispanicas ou latinas no Reino Unido, se deixa bem patente
aqui ).
Porque entao, tanta dificuldade e resistencia em compreender-se e aceitar-se (como, de resto, resulta evidente quer dos ataques sistematicos de que tenho sido abertamente alvo neste blog - seja directamente aqui por "desconhecidos", seja indirectamente noutros blogs bem identificados na lusosfera -, quer das
campanhas que, de forma mais ou menos velada e insidiosa me teem sido dirigidas a partir de Angola, sobretudo, mas nao apenas, atraves de uma
“certa imprensa” controlada por grupos financeiros portugueses, ou seus associados...) que os angolanos, ou pelo menos (grandes!) segmentos deles, o facam, ou pretendam fazer, de forma civica e democratica no seu proprio pais?
E, nesse particular, parece-me que eu me encontro neste momento muito mais na posicao dos emigrantes portugueses de ontem e de hoje que se diz serem e terem sido vitimas do chauvinismo, escarnio e oprobrio dos seus compatriotas
“que ficaram”, do que na dos ditos “angolanos genuinos” que se diz “entenderem ter recebido Angola como
heranca dos seus ancestrais”...
3. Economia – Angola tem vindo, de ha’ uns anos a esta parte, a apresentar niveis “espectaculares” de crescimento economico – facto. Portugal encontra-se neste momento a apresentar niveis, igualmente “espectaculares”, de recessao economica – facto. Sera’ natural que um numero cada vez maior de portugueses busquem oportunidades economicas noutras paragens e, em especial, em Angola, sua antiga “joia da coroa” – facto. O que ja’ nao sera’ tao natural, nem tao factual assim, e’ que se tente transformar tudo isso num caso de “atraccao fatal” entre os dois paises... Desde logo porque nao ha’ nada nos principios fundamentais da economia, seja ela de mercado ou nao - e muito menos nos de uma economia globalizada e competitiva como a que “estamos com ela” quer queiramos e gostemos quer nao -, que o fundamente.
O facto e’ que, qualquer que seja o modelo economico adoptado, “crescimento do PIB” nao significa
ipso facto “desenvolvimento economico” e a sistematica marginalizacao, quando nao total exclusao da maioria dos angolanos dos beneficios desse crescimento economico - e ate’ mesmo da sua participacao/contribuicao para ele, em particular por parte de alguns que, como eu, se viram forcados a permanecer no exterior por varias circunstancias adversas originadas no pais (... e provocadas por angolanos!...) e que sao ostensivamente hostilizados por alguns sectores proteccionistas de uma certa auto-designada “prata da casa”... -, devido a um inexistente ou deficiente investimento no
stock de capital humano nacional e a sua absorcao e integracao sistematica num processo consistente de desenvolvimento economico-social e cultural endogeno, sustentado e sustentavel, apenas tende a elevar os “muros de resistencia” ao crescente numero de estrangeiros (portugueses ou nao) aportando presentemente as costas angolanas e, em muitos casos, sem qualquer controlo... e isso, no longo prazo, nao e’ bom para ninguem, “genuinos” ou nao – facto.
A realidade e’ que a actual politica de imigracao de Angola e’ explicita e ostensivamente enviezada contra os africanos que tentam entrar pelas suas fronteiras terrestres (como os cartoons, adaptados
daqui, com que ilustro este texto o explicitam), nao contra os portugueses: estes, como todas as estatisticas o revelam, nao so’ teem ido para Angola e “em forca” nos ultimos anos sem grandes empecilhos, como e’ em Portugal que os angolanos endinheirados fazem o grosso dos seus gastos de consumo e investimentos publicos e privados.
[E abro aqui um parentesis para sugerir o seguinte: imagine-se que apenas uma infima fraccao dos verdadeiros "balurdios" de dinheiro publico usados pela Sonangol em investimentos em Portugal, fosse aplicada no financiamento de investimentos produtivos trabalho-intensivos que criassem emprego nas regioes fronteiricas, tanto em Angola, como nos paises vizinhos. Nao seriam tais investimentos muito mais recomendaveis, louvaveis e ate' rentaveis sob todos os pontos de vista - desde logo, porque teriam o condao de funcionar como um "travao" aos fluxos migratorios por razoes economicas nessas areas e contribuiriam para o tao propalado "
desenvolvimento e independencia economica do continente", para alem de funcionarem como um mecanismo de poupanca dos recursos materiais e financeiros actualmente empregues no patrulhamento das fronteiras e controlo/contencao/repressao dos emigrantes africanos pretendendo entrar em Angola e, em ultima analise, contribuirem de forma substantiva, permanente e duravel para a prosperidade, paz e seguranca regional... - especialmente neste momento em que Angola assume, mais uma vez, a presidencia da SADC?!]
E na base de tudo isso esta’ uma ideia de “desenvolvimento” que tem no periodo colonial o seu “modelo”. Acontece que os niveis de “desenvolvimento” atingidos sob tal “modelo” tinham por base um regime politico-ideologico que nao me parece ser o mais adaptavel, certamente nao o mais adequado, quer 'a Angola, quer ao Portugal, quer ao Mundo de hoje. Modelo esse, alias, que foi de forma magistral e visionaria descrito e denunciado por Viriato da Cruz nos termos em que
aqui parcialmente destaquei...
Todas essas questoes, abordei-as, de forma mais ‘academica’, recentemente
aqui , e de forma mais ‘prosaica’, ha’ ja’ algum tempo,
aqui - onde, note-se, dos posicionamentos de Pepetela, a par dos de
outros membros da
inteligentzia angolana, ou luso-angolana, que sobre essas questoes se teem pronunciado publicamente nos ultimos tempos, resulta evidente que a corrente onda dominante nao e’ adversa 'a ‘recolonizacao’ de Angola pelos portugueses, como, de resto
aqui se pode constatar
ad nauseum: bem pelo contrario!
E nao deixa de ser interessante notar a este proposito que essa mesma
inteligentzia conta entre as suas fileiras com alguns dos que nao so' dizem ter participado na "luta contra o colonialismo" (e desse estatuto de "antigos combatentes" muita gala fazem e amplos beneficios vitalicios, pessoais e familiares, colhem...), como se destacaram entre os mais radicais no desmantelamento e "transformacao revolucionaria" do tal "
patamar tecno-juridico-administrativo que Angola ja' teve", em nome da criacao, desenvolvimento e reproducao do dito
"homem novo"... a comecar pelo
sistema de ensino! ... E quem naquela altura se lhes opusesse, ainda que passivamente, era apelidado de "contra-revolucionario", "pequeno burgues", "lacaio do colonialismo", "agente do imperialismo", etc. etc. etc. ... Nao deixo, porem, de lhes gabar a "coerencia": foram tao radicais em relacao 'a "descolonizacao" como o sao agora em relacao 'a "recolonizacao" (enfim, em quaisquer circunstancias "iguais a si proprios"!) ... o que talvez nao seja de todo estranho ao facto de certas
neofitas formacoes politicas ultra-minoritarias precisarem desesperadamente de alargar a sua base eleitoral de apoio...
E, aqui, convira' distinguir-se claramente "recolonizacao" sem qualquer qualificacao, planificacao ou priorizacao (o que, alias, o poema aqui em questao, revela: "escolhe uma profissao"...), de "cooperacao" (economica, tecnico-cientifica e profissional) - esta existe, e sempre existiu desde a independencia, com Portugal e com outros paises, e se os portugueses podem contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola com a "vantagem comparativa" da sua lingua e cultura devido a historia que liga os dois paises, pois eles sao e sempre foram bem vindos (idos) naquelas areas e sectores onde realmente tal "vantagem comparativa" possa ser transformada em "valor acrescentado" para ambas as partes. Mas que nao se perca de vista, por via da chamada "
neofita ideologia dos (pretensos) afectos", que Portugal nao e' o unico pais que pode contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola.
Veja-se, a esse respeito,
o caso de Mocambique que, desde a sua independencia, aderiu 'a Commonwealth, adoptou o Ingles praticamente como sua segunda lingua oficial e tem um leque bastante diversificado de parceiros de cooperacao economica internacional, sem que por isso tenha impedido Portugal, ou os portugueses, de la' viverem, regressarem, ou trabalharem...
Enfim, em geito de conclusao, parece-me ser avisado que tanto angolanos (“genuinos” ou nao), como portugueses (tambem “genuinos” ou nao), bem como todos os nacionais de outros paises, ajam neste momento historico particularmente critico da vida de Angola tao racionalmente quanto possivel face aos
factos e realidades, nao aos
mitos e ficcoes, em presenca.
Tudo o resto nao passara’ de um pernicioso e
patetico “display de emoti(c)ons” com mais do que previsiveis consequencias nefastas para todas as partes – a Historia de Angola revela-o a saciedade!
Tenho dito.
P.S.: Acrescentaria apenas as seguintes notas a margem:
i. A proposito de "fechamentos sociais e economicos" ou, se se preferir, mecanismos de exclusao social, tradicionais em Angola, esta citacao de
David Sogge: "
Colonial and post-colonial elites showed no interest in creating an ‘open access order’ based on citizenship for all and competitive markets. A path was laid down around a weak but autocratic colonial state dependent on outside powers. Mediocre institutions and underskilled people were additional legacies. Angolan nationalist movements, their leaders imbued with norms of a ‘limited access order’, and habituated to the use of armed force, had no ready alternatives when they assumed power.";
ii. Em relacao a todas essas questoes, mas em particular a suposta "dificuldade de entendimento e aceitacao" por parte da generalidade dos portugueses da diversidade etnico-linguistica de Angola, seria recomendavel uma exploracao da area da Historia Moderna designada
Subaltern Studies;
iii. Sobre os movimentos trans-fronteiricos entre Angola e o Congo (Zaire) em epocas mais recuadas, com a devida venia, esta detalhada descricao por Fernando Ribeiro:
Nos troços de fronteira entre Angola e o Zaire em que não houvesse obstáculos naturais, não existia qualquer vedação ou outra barreira que impedisse a comunicação entre ambos os lados. A fronteira estava apenas assinalada por marcos de pedra em forma de grossos obeliscos, com 2 metros de altura ou pouco mais, que mostravam o escudo da monarquia portuguesa, esculpido em baixo relevo, no lado virado para Angola, o da monarquia belga no lado virado para o Zaire e o ano de 1895 gravado por cima de cada um dos escudos. Os marcos fronteiriços estavam colocados a uma distância de cerca de 40 quilómetros uns dos outros, talvez, e estavam milimetricamente alinhados uns pelos outros, numa linha reta espantosamente rigorosa.
Como, nos troços onde não havia obstáculos naturais, a fronteira estava desimpedida, ela era atravessada por caminhos de pé posto, que todos os dias eram percorridos por pessoas que passavam "a salto" de Angola para o Zaire e vice-versa. O movimento de pessoas ao longo destes carreiros era bastante intenso. Angolanos (refugiados ou não) e zairenses circulavam de um lado para o outro ao longo do dia, em função, sobretudo, das feiras mensais e mercados rurais que de ambos os lados se iam realizando. Levavam os produtos das suas lavras (campos), a fim de os vender onde fossem mais caros, e traziam as mercadorias de que necessitavam, compradas onde elas fossem mais baratas. É evidente que os contrabandistas (havia bastantes) também faziam um uso intensivo destes caminhos transfronteiriços.
Assim que o sol nascia, nas zonas onde houvesse uma sanzala do lado de Angola que ficasse próxima da fronteira e estivesse dotada de uma escola, os caminhos referidos eram percorridos por crianças, vindas do Zaire para Angola, que vinham frequentar as aulas. Estas crianças percorriam a pé vários quilómetros a caminho da escola e eram as primeiras pessoas que atravessavam a fronteira logo pela manhãzinha.
Estas crianças eram filhas de angolanos refugiados no Zaire. Os seus encarregados de educação faziam questão em que elas frequentassem uma escola angolana, porque queriam que elas não se esquecessem das suas raízes, apesar de já terem nascido no exílio, se sentissem orgulhosas de Angola e soubessem falar, ler e escrever em português.
[aqui, onde, ja' agora, tambem se pode ver esta descricao de Kinshasa e ouvir um pouco da musica do magistral Franco]