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Thursday, 19 August 2010

Inconstitucionalidades em Cabinda

Cidadãos e advogados angolanos apresentam reclamações junto da Ordem dos Advogados de Angola, denunciando violações dos preceitos da Constituição.

Em comunicado divulgado no passado dia 16 de Agosto, a Ordem dos Advogados de Angola exorta "as instituições angolanas de direito, tribunais, Procuradoria-Geral da República, orgãos de investigação criminal, polícia e outros orgãos encarregues da administração da justiça em particular e a sociedade em geral, a cumprirem rigorosamente a Constituição e as leis do país".

Este pronunciamento surge após os advogados dos activistas de direitos humanos julgados e detidos em Cabinda por "crime de actos contra a segurança do estado", terem interposto recurso de anulação das sentenças junto do Tribunal Constitucional, alegando precisamente a inconstitucionalidade da norma aplicada (a lei 7/78) que consideram incompatível com a nova Constituição de Angola, aprovada em Janeiro último.

A Human Rights Watch por sua vez, pede também ao governo de Angola que anule estas sentenças, alegando que os julgamentos foram politicamente motivados e sugere que sejam revogados os "artigos demasiado genéricos e vagos, estipulados na lei de crimes contra a segurança do Estado, utilizados para condenar os activistas".

Para esta ONG, o artigo em causa - N° 26 da lei 7/78 - viola princípios fundamentais do Estado de Direito e o direito a um julgamento justo de acordo com a lei internacional.


Noticia daqui

Post Relacionado: Human Rights Issues in Cabinda



UPDATE:

O Tribunal Provincial de Cabinda absolveu hoje o ativista de direitos humanos de Cabinda Barnabé Paca Peso, detido há cerca de oito meses no enclave angolano, sob a acusação de crime contra a segurança de Estado. De acordo com o juiz, não foram encontradas provas suficientes para a condenação do arguido, detido por terem sido encontrados na sua residência documentos retirados da Internet sobre a situação em Cabinda.

[Aqui]

Cidadãos e advogados angolanos apresentam reclamações junto da Ordem dos Advogados de Angola, denunciando violações dos preceitos da Constituição.

Em comunicado divulgado no passado dia 16 de Agosto, a Ordem dos Advogados de Angola exorta "as instituições angolanas de direito, tribunais, Procuradoria-Geral da República, orgãos de investigação criminal, polícia e outros orgãos encarregues da administração da justiça em particular e a sociedade em geral, a cumprirem rigorosamente a Constituição e as leis do país".

Este pronunciamento surge após os advogados dos activistas de direitos humanos julgados e detidos em Cabinda por "crime de actos contra a segurança do estado", terem interposto recurso de anulação das sentenças junto do Tribunal Constitucional, alegando precisamente a inconstitucionalidade da norma aplicada (a lei 7/78) que consideram incompatível com a nova Constituição de Angola, aprovada em Janeiro último.

A Human Rights Watch por sua vez, pede também ao governo de Angola que anule estas sentenças, alegando que os julgamentos foram politicamente motivados e sugere que sejam revogados os "artigos demasiado genéricos e vagos, estipulados na lei de crimes contra a segurança do Estado, utilizados para condenar os activistas".

Para esta ONG, o artigo em causa - N° 26 da lei 7/78 - viola princípios fundamentais do Estado de Direito e o direito a um julgamento justo de acordo com a lei internacional.


Noticia daqui

Post Relacionado: Human Rights Issues in Cabinda



UPDATE:

O Tribunal Provincial de Cabinda absolveu hoje o ativista de direitos humanos de Cabinda Barnabé Paca Peso, detido há cerca de oito meses no enclave angolano, sob a acusação de crime contra a segurança de Estado. De acordo com o juiz, não foram encontradas provas suficientes para a condenação do arguido, detido por terem sido encontrados na sua residência documentos retirados da Internet sobre a situação em Cabinda.

[Aqui]

Tuesday, 3 August 2010

Human Rights Issues in Cabinda

Angola jails four human rights activists

LUANDA, Aug 3 (Reuters) - Four Angolan human rights activists were sentenced to up to six years in jail in Angola's oil-producing Cabinda province, a lawyer said on Tuesday.
The human rights activists were all arrested shortly after the Cabindan separatist group FLEC killed two members of the Togo national soccer delegation as they made their way by bus to the African Nations Cup in Angola in January.
The trial took place under a heavy police presence, a month after exiled leaders of the Front for the Liberation of the Enclave of Cabinda (FLEC) said their three-decade long war against the government was over.
Priest Raul Tati, lawyer Francisco Luemba, economist Belchior Tati and engineer Barnabe Paca Peso were jailed for crimes against the state but the judge did not say whether they had direct links to the FLEC attack.
According to lawyer and human rights activist Martinho Nombo, who has taken part in the court hearings, the judge convicted the four activists because they had spoken or written about the independence of Cabinda. "This is unconstitutional. A judge cannot jail someone for nothing," said Nombo, who is also a former vice-governor of Cabinda. "This will only worsen Angola's poor record on human rights and the whole peace process with FLEC."


In June, another Angolan human rights activist, Andre Zeferino Puati, was sentenced to three years in jail by the same court. He was also accused of crimes against the state.
Amnesty International and Human Rights Watch, which have criticised Angola's record on human rights in Cabinda for years, have both called for the release of all five human right campaigners.
Angola's secretary of state for human rights, Antonio Bento Bembe, was not immediately available for comment.
FLEC's war against Angola's government for independence is long and complex. One grievance is that Cabindans see little of the oil money that comes from their homeland.

(Reporting by Henrique Almeida; Editing by Giles Elgood)


[Related articles: here , here e aqui]
Angola jails four human rights activists

LUANDA, Aug 3 (Reuters) - Four Angolan human rights activists were sentenced to up to six years in jail in Angola's oil-producing Cabinda province, a lawyer said on Tuesday.
The human rights activists were all arrested shortly after the Cabindan separatist group FLEC killed two members of the Togo national soccer delegation as they made their way by bus to the African Nations Cup in Angola in January.
The trial took place under a heavy police presence, a month after exiled leaders of the Front for the Liberation of the Enclave of Cabinda (FLEC) said their three-decade long war against the government was over.
Priest Raul Tati, lawyer Francisco Luemba, economist Belchior Tati and engineer Barnabe Paca Peso were jailed for crimes against the state but the judge did not say whether they had direct links to the FLEC attack.
According to lawyer and human rights activist Martinho Nombo, who has taken part in the court hearings, the judge convicted the four activists because they had spoken or written about the independence of Cabinda. "This is unconstitutional. A judge cannot jail someone for nothing," said Nombo, who is also a former vice-governor of Cabinda. "This will only worsen Angola's poor record on human rights and the whole peace process with FLEC."


In June, another Angolan human rights activist, Andre Zeferino Puati, was sentenced to three years in jail by the same court. He was also accused of crimes against the state.
Amnesty International and Human Rights Watch, which have criticised Angola's record on human rights in Cabinda for years, have both called for the release of all five human right campaigners.
Angola's secretary of state for human rights, Antonio Bento Bembe, was not immediately available for comment.
FLEC's war against Angola's government for independence is long and complex. One grievance is that Cabindans see little of the oil money that comes from their homeland.

(Reporting by Henrique Almeida; Editing by Giles Elgood)


[Related articles: here , here e aqui]

Wednesday, 28 March 2007

NOVO LIVRO DE JOAO MILANDO

Colecção Sociedades Africanas

««Este livro surge na sequência de um outro, do mesmo autor, publica­do em 2005, pela Imprensa de Ciências Sociais, sobre “Cooperação sem Desenvolvimento”, no qual analisa o complexo desenvolvimen­tista e os seus objectivos declarados e não declarados, em África, as­sim como questiona a viabilidade do próprio desenvolvimento, seja em que tipo de sociedade for.

O presente livro analisa o modo como o desenvolvimento institucionalizado, levado a cabo ou apoiado pelas elites políticas angolanas, afecta as representações e práticas sociais de populações rurais de Cabinda. Por um lado, o desenvolvimento surge como uma máquina trituradora/reconstrutora de identidades e de culturas, com grande capacidade de integrar, gerir e perturbar as populações locais, levando a supor que estas estão condenadas a su­cumbir rapidamente diante dos projectos desenvolvimentistas ou a entrar em processos de desagregação, lentos mas irreversíveis.

Por outro, há sinais locais de resiliência social, que parecem exprimir processos de introversão defensiva, de regressão “tradicional” e de ulterior complexificação destas sociedades, configurando dinâmicas sociais que escapam sempre a qualquer análise linear. Assim, o desen­volvimento é analisado não como um choque de culturas, mas como um encontro de diferentes racionalidades culturais, de que resultam situações extremamente complexas e, quase sempre, imprevisíveis.

João Milando é sociólogo, Doutorado em Ciências Sociais (Es­tudos Africanos Interdisciplinares). Faz pesquisas, há vários anos, sobre processos de desenvolvimento em Angola e África em geral. É investigador do Centro de Estudos Africanos do Ins­tituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa - Lisboa. »»

Texto: Transcricao da Introducao ao Livro
Colecção Sociedades Africanas

««Este livro surge na sequência de um outro, do mesmo autor, publica­do em 2005, pela Imprensa de Ciências Sociais, sobre “Cooperação sem Desenvolvimento”, no qual analisa o complexo desenvolvimen­tista e os seus objectivos declarados e não declarados, em África, as­sim como questiona a viabilidade do próprio desenvolvimento, seja em que tipo de sociedade for.

O presente livro analisa o modo como o desenvolvimento institucionalizado, levado a cabo ou apoiado pelas elites políticas angolanas, afecta as representações e práticas sociais de populações rurais de Cabinda. Por um lado, o desenvolvimento surge como uma máquina trituradora/reconstrutora de identidades e de culturas, com grande capacidade de integrar, gerir e perturbar as populações locais, levando a supor que estas estão condenadas a su­cumbir rapidamente diante dos projectos desenvolvimentistas ou a entrar em processos de desagregação, lentos mas irreversíveis.

Por outro, há sinais locais de resiliência social, que parecem exprimir processos de introversão defensiva, de regressão “tradicional” e de ulterior complexificação destas sociedades, configurando dinâmicas sociais que escapam sempre a qualquer análise linear. Assim, o desen­volvimento é analisado não como um choque de culturas, mas como um encontro de diferentes racionalidades culturais, de que resultam situações extremamente complexas e, quase sempre, imprevisíveis.

João Milando é sociólogo, Doutorado em Ciências Sociais (Es­tudos Africanos Interdisciplinares). Faz pesquisas, há vários anos, sobre processos de desenvolvimento em Angola e África em geral. É investigador do Centro de Estudos Africanos do Ins­tituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa - Lisboa. »»

Texto: Transcricao da Introducao ao Livro

Thursday, 22 February 2007

A DETENCAO DE SARAH WYKES EM CABINDA

Para mim, ainda nao estao suficientemente claros os contornos da detencao em Cabinda, no passado domingo, da Dra. Sarah Wykes, investigadora vinculada a Global Witness, sob acusacao de espionagem, ou das circunstancias e condicoes da sua libertacao, ocorrida ontem.
Dito isso, e sabendo-se que Wykes se encontrava em Cabinda para, segundo a Global Witness , "falar com a sociedade civil, companhias e o governo para avaliar o progresso feito na melhoria da transparencia do dinheiro do sector petrolifero Angolano, que constitui a maior parte do orcamento do governo", parece-me no minimo estranho que ela tenha entrado no pais sem autorizacao do governo para tal. E, se entrou com autorizacao (visto) e conhecimento por parte do governo do programa da sua visita, nao e' compreensivel, nem admissivel, que ela tenha sido detida no exercicio da sua missao, a menos que isso possa ser justificado juridicamente sob o "estatuto especial" de Cabinda. Por isso prefiro aguardar pelas suas proprias declaracoes e, possivelmente, pelo pronunciamento de entidades juridicas internacionais, para emitir qualquer outra opiniao a nao ser, por agora, congratular-me com a sua libertacao, ainda que condicionada, pois continua impedida de sair do territorio nacional.

Entretanto, e notando previamente que a Iniciativa de Transparencia nas Industrias Extractivas (ITIE) nao e' uma iniciativa da Global Witness e que Angola ainda nao e' formalmente membro da ITIE (embora esta afirme na sua website que o sistema de publicacao das contas petroliferas vem melhorando no pais e que o governo Angolano deu o seu acordo a um programa de assistencia tecnica relacionada com a transparencia pelo Banco Mundial e esta' presentemente a considerar a implementacao ou nao da ITIE), tomo esta oportunidade para reproduzir aqui um texto que escrevi, a seu pedido, para um membro de uma ONG Angolana ligada ao sector da Justica Economica, em preparacao para a participacao da sua organizacao nas conferencias internacionais da ITIE, que tiveram lugar durante o ultimo trimestre do ano passado nas cidades de Bona, Alemanha e Oslo, Noruega:

A ITIE e' uma parceria internacional criada em 2003, em Londres, congregando varios paises doadores e implementadores, companhias extractivas, associacoes industriais do sector, instituicoes financeiras internacionais, ONGs internacionais (incluindo a Global Witness) e investidores internacionais. Essa parceria visa aumentar a transparencia dos fluxos de pagamentos das companhias envolvidas nessas industrias aos governos e entidades governamentais, assim como das receitas dos governos provenientes dessas industrias. As industrias extractivas incluem a exploracao de petroleo, gas e outros minerais (diamantes, ouro, cobre, platinium, etc.). Em linhas gerais, a ITIE pretende promover a obtencao de um acordo a nivel do pais aderente que estabeleca provisoes para a publicacao anual pelas companhias extractivas dos seus pagamentos ao governo e dos recebimentos por parte deste. Uma vez obtida a adesao do pais, essa publicacao devera' ser feita a uma terceira parte a ser identificada no seio da ITIE e os dados fornecidos deverao ser compilados e agregados conforme necessario para a producao de um relatorio anual sumarizado referente ao pais, o qual sera’ posto a disposicao do publico em geral para consulta.

As receitas que os governos obteem dessas industrias proveem normalmente de impostos, royalties, bonus e outros pagamentos, mas a falta de transparencia e responsabilizacao sobre esses rendimentos, particularmente em paises quase exclusivamente dependentes dessas industrias como o nosso, faz com que em vez de contribuirem, como deveriam, para o desenvolvimento, levem facilmente a corrupcao e ao exacerbamento da pobreza, quando nao a conflitos militares, tendo-se provado ao longo dos anos a existencia, particularmente em Africa, de uma forte correlacao entre a presenca de vastos recursos naturais num pais e altos niveis de pobreza e propensao para conflitos nesse mesmo pais. Portanto, a primeira vantagem da adesao a ITIE e’ a minimizacao e, idealmente, eliminacao, desses efeitos perversos no processo de desenvolvimento do modus operandi das industrias extractivas e dos governos dos paises nos quais elas operam.

Um outro efeito perverso da corrupcao a volta das industrias extractivas e’ a alta propensao de essa corrupcao se generalizar ao resto do sistema governativo, economico e social do pais, ao ponto de provocar uma descida geral dos indices de desenvolvimento comparativamente a paises que nao possuam tais recursos, fazendo com que potenciais investidores nos sectores nao extractivos prefiram investir nestes ultimos paises em detrimento dos ricos em recursos naturais. Portanto, o aumento da transparencia e da informacao sobre os rendimentos do governo provenientes das industrias extractivas tem o potencial de dar poder aos cidadaos e ‘as instituicoes para responsabilizarem os governantes sobre a aplicacao desses rendimentos. As vantagens sao obvias: torna-se mais dificil para os governantes o desvio de fundos que deveriam ser empregues em programas de desenvolvimento social; o ambiente de negocios torna-se mais atractivo para os investidores nacionais e estrangeiros; as companhias envolvidas a montante e a juzante das industrias extractivas e noutros sectores economicos podem beneficiar de um ambiente de competicao empresarial mais saudavel, justo e honesto e, portanto, de uma maior predictabilidade para os seus investimentos e lucros e, no que toca particularmente ao sector petrolifero, de melhores perspectivas de seguranca energetica para o pais e o resto do mundo.

No entanto, a ITIE nao envolve apenas os parceiros acima citados, mas tambem outras partes publicas e privadas, nomeadamente grupos comunitarios e organizacoes da sociedade civil dos paises produtores, interessadas em contribuir voluntariamente para o desenvolvimento de um quadro institucional nacional que promova a transparencia e a responsabilizacao nas industrias extractivas. Assim, a adesao a ITIE permite promover o entendimento pelos cidadaos das despesas e receitas do estado e, dessa forma, contribuir para o debate publico e a escolha informada das opcoes de desenvolvimento mais apropriadas, sustentaveis e realisticas para o pais. Por exemplo, os processos de elaboracao, discussao, aprovacao e revisao do Orcamento Geral do Estado beneficiariam grandemente de um melhor conhecimento daqueles montantes e seus destinos, permitindo assim um envolvimento mais activo e produtivo dos parlamentares e da sociedade civil nesses processos, bem como o direccionamento efectivo para programas de combate a pobreza dos fundos excedentarios gerados pelos diferenciais entre o preco real do petroleo e as estimativas ex-ante do governo.

Por ultimo, mas nao menos importante, um beneficio absolutamente nao negligenciavel da adesao a ITIE seria a melhoria do ranking do pais nos indices de percepcao de corrupcao da Transparencia Internacional (uma ONG tambem afiliada a ITIE), com base nos quais cada vez mais a reputacao dos paises e’ medida, tanto para efeitos de investimento produtivo ou financeiro, quanto para ajuda internacional, ou mesmo turismo. A adesao a ITIE em muito contribuiria para esse desiderato, porque atraves dela os paises, organizacoes e instituicoes aderentes tambem podem obter assistencia tecnica para melhorarem as suas performances nos varios dominios da gestao e responsabilizacao governativa.

Em anexo, mando-lhe o texto de um discurso proferido, em 2003, pelo Presidente Obasanjo no decimo aniversario da Transparencia Internacional, da qual foi um dos fundadores, que ilustra a trajectoria da Nigeria nesse dominio:

Nigeria: From Pond of Corruption to Island of Integrity
Para mim, ainda nao estao suficientemente claros os contornos da detencao em Cabinda, no passado domingo, da Dra. Sarah Wykes, investigadora vinculada a Global Witness, sob acusacao de espionagem, ou das circunstancias e condicoes da sua libertacao, ocorrida ontem.
Dito isso, e sabendo-se que Wykes se encontrava em Cabinda para, segundo a Global Witness , "falar com a sociedade civil, companhias e o governo para avaliar o progresso feito na melhoria da transparencia do dinheiro do sector petrolifero Angolano, que constitui a maior parte do orcamento do governo", parece-me no minimo estranho que ela tenha entrado no pais sem autorizacao do governo para tal. E, se entrou com autorizacao (visto) e conhecimento por parte do governo do programa da sua visita, nao e' compreensivel, nem admissivel, que ela tenha sido detida no exercicio da sua missao, a menos que isso possa ser justificado juridicamente sob o "estatuto especial" de Cabinda. Por isso prefiro aguardar pelas suas proprias declaracoes e, possivelmente, pelo pronunciamento de entidades juridicas internacionais, para emitir qualquer outra opiniao a nao ser, por agora, congratular-me com a sua libertacao, ainda que condicionada, pois continua impedida de sair do territorio nacional.

Entretanto, e notando previamente que a Iniciativa de Transparencia nas Industrias Extractivas (ITIE) nao e' uma iniciativa da Global Witness e que Angola ainda nao e' formalmente membro da ITIE (embora esta afirme na sua website que o sistema de publicacao das contas petroliferas vem melhorando no pais e que o governo Angolano deu o seu acordo a um programa de assistencia tecnica relacionada com a transparencia pelo Banco Mundial e esta' presentemente a considerar a implementacao ou nao da ITIE), tomo esta oportunidade para reproduzir aqui um texto que escrevi, a seu pedido, para um membro de uma ONG Angolana ligada ao sector da Justica Economica, em preparacao para a participacao da sua organizacao nas conferencias internacionais da ITIE, que tiveram lugar durante o ultimo trimestre do ano passado nas cidades de Bona, Alemanha e Oslo, Noruega:

A ITIE e' uma parceria internacional criada em 2003, em Londres, congregando varios paises doadores e implementadores, companhias extractivas, associacoes industriais do sector, instituicoes financeiras internacionais, ONGs internacionais (incluindo a Global Witness) e investidores internacionais. Essa parceria visa aumentar a transparencia dos fluxos de pagamentos das companhias envolvidas nessas industrias aos governos e entidades governamentais, assim como das receitas dos governos provenientes dessas industrias. As industrias extractivas incluem a exploracao de petroleo, gas e outros minerais (diamantes, ouro, cobre, platinium, etc.). Em linhas gerais, a ITIE pretende promover a obtencao de um acordo a nivel do pais aderente que estabeleca provisoes para a publicacao anual pelas companhias extractivas dos seus pagamentos ao governo e dos recebimentos por parte deste. Uma vez obtida a adesao do pais, essa publicacao devera' ser feita a uma terceira parte a ser identificada no seio da ITIE e os dados fornecidos deverao ser compilados e agregados conforme necessario para a producao de um relatorio anual sumarizado referente ao pais, o qual sera’ posto a disposicao do publico em geral para consulta.

As receitas que os governos obteem dessas industrias proveem normalmente de impostos, royalties, bonus e outros pagamentos, mas a falta de transparencia e responsabilizacao sobre esses rendimentos, particularmente em paises quase exclusivamente dependentes dessas industrias como o nosso, faz com que em vez de contribuirem, como deveriam, para o desenvolvimento, levem facilmente a corrupcao e ao exacerbamento da pobreza, quando nao a conflitos militares, tendo-se provado ao longo dos anos a existencia, particularmente em Africa, de uma forte correlacao entre a presenca de vastos recursos naturais num pais e altos niveis de pobreza e propensao para conflitos nesse mesmo pais. Portanto, a primeira vantagem da adesao a ITIE e’ a minimizacao e, idealmente, eliminacao, desses efeitos perversos no processo de desenvolvimento do modus operandi das industrias extractivas e dos governos dos paises nos quais elas operam.

Um outro efeito perverso da corrupcao a volta das industrias extractivas e’ a alta propensao de essa corrupcao se generalizar ao resto do sistema governativo, economico e social do pais, ao ponto de provocar uma descida geral dos indices de desenvolvimento comparativamente a paises que nao possuam tais recursos, fazendo com que potenciais investidores nos sectores nao extractivos prefiram investir nestes ultimos paises em detrimento dos ricos em recursos naturais. Portanto, o aumento da transparencia e da informacao sobre os rendimentos do governo provenientes das industrias extractivas tem o potencial de dar poder aos cidadaos e ‘as instituicoes para responsabilizarem os governantes sobre a aplicacao desses rendimentos. As vantagens sao obvias: torna-se mais dificil para os governantes o desvio de fundos que deveriam ser empregues em programas de desenvolvimento social; o ambiente de negocios torna-se mais atractivo para os investidores nacionais e estrangeiros; as companhias envolvidas a montante e a juzante das industrias extractivas e noutros sectores economicos podem beneficiar de um ambiente de competicao empresarial mais saudavel, justo e honesto e, portanto, de uma maior predictabilidade para os seus investimentos e lucros e, no que toca particularmente ao sector petrolifero, de melhores perspectivas de seguranca energetica para o pais e o resto do mundo.

No entanto, a ITIE nao envolve apenas os parceiros acima citados, mas tambem outras partes publicas e privadas, nomeadamente grupos comunitarios e organizacoes da sociedade civil dos paises produtores, interessadas em contribuir voluntariamente para o desenvolvimento de um quadro institucional nacional que promova a transparencia e a responsabilizacao nas industrias extractivas. Assim, a adesao a ITIE permite promover o entendimento pelos cidadaos das despesas e receitas do estado e, dessa forma, contribuir para o debate publico e a escolha informada das opcoes de desenvolvimento mais apropriadas, sustentaveis e realisticas para o pais. Por exemplo, os processos de elaboracao, discussao, aprovacao e revisao do Orcamento Geral do Estado beneficiariam grandemente de um melhor conhecimento daqueles montantes e seus destinos, permitindo assim um envolvimento mais activo e produtivo dos parlamentares e da sociedade civil nesses processos, bem como o direccionamento efectivo para programas de combate a pobreza dos fundos excedentarios gerados pelos diferenciais entre o preco real do petroleo e as estimativas ex-ante do governo.

Por ultimo, mas nao menos importante, um beneficio absolutamente nao negligenciavel da adesao a ITIE seria a melhoria do ranking do pais nos indices de percepcao de corrupcao da Transparencia Internacional (uma ONG tambem afiliada a ITIE), com base nos quais cada vez mais a reputacao dos paises e’ medida, tanto para efeitos de investimento produtivo ou financeiro, quanto para ajuda internacional, ou mesmo turismo. A adesao a ITIE em muito contribuiria para esse desiderato, porque atraves dela os paises, organizacoes e instituicoes aderentes tambem podem obter assistencia tecnica para melhorarem as suas performances nos varios dominios da gestao e responsabilizacao governativa.

Em anexo, mando-lhe o texto de um discurso proferido, em 2003, pelo Presidente Obasanjo no decimo aniversario da Transparencia Internacional, da qual foi um dos fundadores, que ilustra a trajectoria da Nigeria nesse dominio:

Nigeria: From Pond of Corruption to Island of Integrity