Wednesday, 14 January 2009

MAMBORRO': A SAGA DE UM PIONEIRO ANGOLANO




Ou "Recordando Pio"...




Mamborró foi um dos principais nomes na década de 80 e 90 em Angola
. Por essa razão, transcrever a sua trajectória é um desafio de grandes obstáculos. “Vi a minha vida próximo do fim, mas graças ao apoio da sociedade civil angolana, consegui salvar-me. Muito obrigado aos angolanos de Cabinda ao Cunene e do Mar ao Leste!”. Estas foram as primeiras palavras expressas por Mamborró, no início da nossa conversa.*

José Machado Jorge sofre de diabetes por isso está proibido de beber, fumar e perder noites. Chá e a água são as companheiras inseparáveis de agora.
É filho de Felismina José da Costa e de José Manuel Machado Jorge, é o terceiro de seis irmãos. Nasceu a 7 de Agosto de 1970, na Rua C, na vila da Gabela, província do Kwanza-Sul. Tinha tudo para seguir a carreira de desportista, de empresário ou mesmo de piloto de aeronaves. Mas aos nove anos, sentiu que tinha verdadeiramente queda para a música. Mesmo assim, por causa da timidez, fugia quando era convidado a cantar em actos públicos. Foi a partir do primo Nando Borró, que já cantava no agrupamento Sagrada Esperança, que ele descobriu a forma de enfrentar a multidão. Nando Borró sempre foi um empreendedor, com valioso faro artístico. Decidiu introduzir o primo, como bailarino, num grupo de dança e música de grande sucesso, na Gabela.
Mas Mamborró queria mesmo chegar ao topo da música. Daí que durante um festival infantil, onde os membros do júri eram provenientes de Luanda, Nando Borró inscreveu o primo como um dos concorrentes do festival infantil. Mamborró conquistou o segundo lugar entre dezenas de candidatos.
Pela voz segura e pela sua maneira de dançar, Dionísio Rocha, um dos integrantes do júri, decidiu deixar-lhe o endereço e um convite. “Quando fores a Luanda, aparece”.

À procura do Dionísio

Depois do concurso, durante meses, Mamborró passou a ser uma estrela musical da Gabela. O sucesso levou-o a recordar o convite de Dionísio Rocha. Contra a vontade dos pais, partiu para Luanda, onde já se encontrava a morar uma irmã mais velha. Mas o objectivo era localizar Dionísio Rocha, para se tornar num músico de verdade.
Mamborró chegou a Luanda e minutos depois de pousar as malas, procurou imediatamente o endereço de Dionísio Rocha. Não foi difícil localizá-lo. Dionísio Rocha ensinou-lhe o caminho da RNA, onde encontraria as pessoas indicadas. Mamborró perdeu-se e não conseguiu localizar as instalações da rádio. Desgostoso com o sucedido, decidiu fazer uma segunda tentativa.
Na sua convivência com os novos amigos no Bairro Prenda, conheceu o músico infantil Maranax que lhe deu as instruções precisas para chegar à RNA. Desta vez teve êxito. Pela mão de Artur Arriscado foi fazer um teste de voz em companhia de vários concorrentes como Joséca, Ângelo Ramos, hoje Boss, entre outros nomes da música em Angola. Com a canção “Quando Passo pelas Ruas”, Mamborró deixou toda a gente de boca aberta e foi aceite.
Alguns meses depois passou a ser uma figura emblemática da música infanto-juvenil do país, o que o levou a ganhar o apelido de Mamborró. Partiu para uma carreira notável que o levou, em 1987, a conquistar o Top dos Mais Queridos e o título do melhor cantor do Top dos Cinco. Depois de um ano de glórias, sucessos e inúmeros espectáculos, José Manuel Machado Jorge foi chamado para o serviço militar obrigatório.

Músico na recruta

Aos 18 anos, Mamborró era visto como um dos pilares da música em Angola. Mas nem com isso ficou isento do cumprimento do serviço militar obrigatório. Em 1988 foi para Menongue. As dramáticas notícias vindas do campo de batalha levaram-no a pensar no pior. Mas por força do amor à pátria desprezou o medo e enfrentou os dissabores da recruta na Escola Primeiro-tenente Marcolino.
“Justamente por ser o famoso Mamborró, fui chamado para a tropa. Fiz a minha parte como patriota”. E, logo no ano seguinte, depois do juramento da bandeira fui transferido para a direcção política em Luanda.

Brasil e regresso dramático

A necessidade de se aperfeiçoar cada vez mais no domínio da música, levou Mamborró a estabelecer contactos para ­conseguir uma bolsa de estudo. Solicitou ajuda ao então comandante da direcção política. O pedido foi aceite e partiu para o Brasil, onde estudou durante três anos violão e canto. Mas nem tudo foi bom para Mamborró. Os atrasos no pagamento da bolsa levaram-no a desistir do curso. O pouco apoio para a sua sobrevivência vinha do jornalista João Melo, que na época trabalhava no Brasil. “Esta pessoa esteve presente na minha formação”. Em Agosto de 1993, por causa das dívidas, decidiu abandonar o Brasil e regressar.
Já em Angola, as mudanças políticas que se operaram no país, levaram à desvalorização da música angolana. Mamborró deixou de ser o ídolo e o nome esfumou-se no meio dos enormes problemas sociais que o país vivia na época. Passou a viver autênticas odisseias em cada acção do seu dia a dia.

Mamborró responde

Como foi a sua reintegração em Angola?

Muito difícil. Primeiro fui taxista e depois trabalhei no Terminal Aéreo Militar (TAM), como motorista. O Zecax disse-me que um dia eu abandonaria essa actividade, acabei por abandonar. No TAM passei a oficial de operações. Trabalhei seis anos nessa situação. Mas nunca pensei em desistir da música. Há pessoas que dizem que usei drogas, é mentira. Nunca cheguei a esse ponto. Apenas bebia muito. Hoje, vivo da música e sou relações públicas da empresa do meu promotor Manuel Dias dos Santos (Kito).

Quando é que decidiu regressar à música?

Não tive quem que me ajudasse a gravar um disco. Bati portas, enviei cartas para várias instituições, mas nunca obtive respostas satisfatórias. Talvez por causa dos 16 anos que fiquei inactivo. Num belo dia, caminhava com destino a Ilha de Luanda, encontrei-me com o Kito dos Santos, um companheiro e compadre de longos anos. Reconheceu-me e, depois de vários minutos de conversa, disse que me apoiaria. Tirou-me da fossa. É um pai para mim, atendendo à vida que eu levava: cigarro, bebida e perdas de noites consecutivas. Agora só penso na música e no curso superior de Sociologia. Sei que vou a tempo.

A fama deu para conquistar muitas mulheres?

Não é verdade. Se assim fosse teria muitos filhos, mas veja que só tenho cinco, com três mulheres apenas. Elas é que me moldaram para este mundo, pois que fui sempre uma pessoa tímida. Mas ao longo do sucesso apareceram muitas Belinhas Chuchus, Guidas e Nonôs. Foi uma fase que já passou. Hoje eu é que corro atrás delas. Chamo por elas e já ninguém liga o Mamborró.

Aconteceu comigo

José Manuel Machado Jorge ou Mamborró, como é conhecido nas lides artísticas, aos 38 anos, tem guardado na sua trajectória de vida, vários momentos. Mas o realce recai para a solidariedade e carinho dos velhos tempos, enquanto cantor do programa radiofónico “Piô-piô” e o bom senso que o salvou das vicissitudes que viveu recentemente, depois do seu internamento num dos hospitais na Namíbia. “Muito obrigado Angola”, diz Mamborró.

*Entrevista de Jornal de Angola

[Ouca-o Aqui]



Ou
"Recordando Pio"...




Mamborró foi um dos principais nomes na década de 80 e 90 em Angola
. Por essa razão, transcrever a sua trajectória é um desafio de grandes obstáculos. “Vi a minha vida próximo do fim, mas graças ao apoio da sociedade civil angolana, consegui salvar-me. Muito obrigado aos angolanos de Cabinda ao Cunene e do Mar ao Leste!”. Estas foram as primeiras palavras expressas por Mamborró, no início da nossa conversa.*

José Machado Jorge sofre de diabetes por isso está proibido de beber, fumar e perder noites. Chá e a água são as companheiras inseparáveis de agora.
É filho de Felismina José da Costa e de José Manuel Machado Jorge, é o terceiro de seis irmãos. Nasceu a 7 de Agosto de 1970, na Rua C, na vila da Gabela, província do Kwanza-Sul. Tinha tudo para seguir a carreira de desportista, de empresário ou mesmo de piloto de aeronaves. Mas aos nove anos, sentiu que tinha verdadeiramente queda para a música. Mesmo assim, por causa da timidez, fugia quando era convidado a cantar em actos públicos. Foi a partir do primo Nando Borró, que já cantava no agrupamento Sagrada Esperança, que ele descobriu a forma de enfrentar a multidão. Nando Borró sempre foi um empreendedor, com valioso faro artístico. Decidiu introduzir o primo, como bailarino, num grupo de dança e música de grande sucesso, na Gabela.
Mas Mamborró queria mesmo chegar ao topo da música. Daí que durante um festival infantil, onde os membros do júri eram provenientes de Luanda, Nando Borró inscreveu o primo como um dos concorrentes do festival infantil. Mamborró conquistou o segundo lugar entre dezenas de candidatos.
Pela voz segura e pela sua maneira de dançar, Dionísio Rocha, um dos integrantes do júri, decidiu deixar-lhe o endereço e um convite. “Quando fores a Luanda, aparece”.

À procura do Dionísio

Depois do concurso, durante meses, Mamborró passou a ser uma estrela musical da Gabela. O sucesso levou-o a recordar o convite de Dionísio Rocha. Contra a vontade dos pais, partiu para Luanda, onde já se encontrava a morar uma irmã mais velha. Mas o objectivo era localizar Dionísio Rocha, para se tornar num músico de verdade.
Mamborró chegou a Luanda e minutos depois de pousar as malas, procurou imediatamente o endereço de Dionísio Rocha. Não foi difícil localizá-lo. Dionísio Rocha ensinou-lhe o caminho da RNA, onde encontraria as pessoas indicadas. Mamborró perdeu-se e não conseguiu localizar as instalações da rádio. Desgostoso com o sucedido, decidiu fazer uma segunda tentativa.
Na sua convivência com os novos amigos no Bairro Prenda, conheceu o músico infantil Maranax que lhe deu as instruções precisas para chegar à RNA. Desta vez teve êxito. Pela mão de Artur Arriscado foi fazer um teste de voz em companhia de vários concorrentes como Joséca, Ângelo Ramos, hoje Boss, entre outros nomes da música em Angola. Com a canção “Quando Passo pelas Ruas”, Mamborró deixou toda a gente de boca aberta e foi aceite.
Alguns meses depois passou a ser uma figura emblemática da música infanto-juvenil do país, o que o levou a ganhar o apelido de Mamborró. Partiu para uma carreira notável que o levou, em 1987, a conquistar o Top dos Mais Queridos e o título do melhor cantor do Top dos Cinco. Depois de um ano de glórias, sucessos e inúmeros espectáculos, José Manuel Machado Jorge foi chamado para o serviço militar obrigatório.

Músico na recruta

Aos 18 anos, Mamborró era visto como um dos pilares da música em Angola. Mas nem com isso ficou isento do cumprimento do serviço militar obrigatório. Em 1988 foi para Menongue. As dramáticas notícias vindas do campo de batalha levaram-no a pensar no pior. Mas por força do amor à pátria desprezou o medo e enfrentou os dissabores da recruta na Escola Primeiro-tenente Marcolino.
“Justamente por ser o famoso Mamborró, fui chamado para a tropa. Fiz a minha parte como patriota”. E, logo no ano seguinte, depois do juramento da bandeira fui transferido para a direcção política em Luanda.

Brasil e regresso dramático

A necessidade de se aperfeiçoar cada vez mais no domínio da música, levou Mamborró a estabelecer contactos para ­conseguir uma bolsa de estudo. Solicitou ajuda ao então comandante da direcção política. O pedido foi aceite e partiu para o Brasil, onde estudou durante três anos violão e canto. Mas nem tudo foi bom para Mamborró. Os atrasos no pagamento da bolsa levaram-no a desistir do curso. O pouco apoio para a sua sobrevivência vinha do jornalista João Melo, que na época trabalhava no Brasil. “Esta pessoa esteve presente na minha formação”. Em Agosto de 1993, por causa das dívidas, decidiu abandonar o Brasil e regressar.
Já em Angola, as mudanças políticas que se operaram no país, levaram à desvalorização da música angolana. Mamborró deixou de ser o ídolo e o nome esfumou-se no meio dos enormes problemas sociais que o país vivia na época. Passou a viver autênticas odisseias em cada acção do seu dia a dia.

Mamborró responde

Como foi a sua reintegração em Angola?

Muito difícil. Primeiro fui taxista e depois trabalhei no Terminal Aéreo Militar (TAM), como motorista. O Zecax disse-me que um dia eu abandonaria essa actividade, acabei por abandonar. No TAM passei a oficial de operações. Trabalhei seis anos nessa situação. Mas nunca pensei em desistir da música. Há pessoas que dizem que usei drogas, é mentira. Nunca cheguei a esse ponto. Apenas bebia muito. Hoje, vivo da música e sou relações públicas da empresa do meu promotor Manuel Dias dos Santos (Kito).

Quando é que decidiu regressar à música?

Não tive quem que me ajudasse a gravar um disco. Bati portas, enviei cartas para várias instituições, mas nunca obtive respostas satisfatórias. Talvez por causa dos 16 anos que fiquei inactivo. Num belo dia, caminhava com destino a Ilha de Luanda, encontrei-me com o Kito dos Santos, um companheiro e compadre de longos anos. Reconheceu-me e, depois de vários minutos de conversa, disse que me apoiaria. Tirou-me da fossa. É um pai para mim, atendendo à vida que eu levava: cigarro, bebida e perdas de noites consecutivas. Agora só penso na música e no curso superior de Sociologia. Sei que vou a tempo.

A fama deu para conquistar muitas mulheres?

Não é verdade. Se assim fosse teria muitos filhos, mas veja que só tenho cinco, com três mulheres apenas. Elas é que me moldaram para este mundo, pois que fui sempre uma pessoa tímida. Mas ao longo do sucesso apareceram muitas Belinhas Chuchus, Guidas e Nonôs. Foi uma fase que já passou. Hoje eu é que corro atrás delas. Chamo por elas e já ninguém liga o Mamborró.

Aconteceu comigo

José Manuel Machado Jorge ou Mamborró, como é conhecido nas lides artísticas, aos 38 anos, tem guardado na sua trajectória de vida, vários momentos. Mas o realce recai para a solidariedade e carinho dos velhos tempos, enquanto cantor do programa radiofónico “Piô-piô” e o bom senso que o salvou das vicissitudes que viveu recentemente, depois do seu internamento num dos hospitais na Namíbia. “Muito obrigado Angola”, diz Mamborró.

*Entrevista de Jornal de Angola

[Ouca-o Aqui]

5 comments:

SOLOMONSYDELLE said...

That song was absolutely lovely. I don't read Portuguese, but I gather the singer is from Angola? Nice.

I finally put up my post on Why I Blog About Africa.

Thanks for the tag.

Koluki said...

Yes, he is Angolan and that was his first hit while still a child. Since then he had a troubled life and his musical career is practically dead. But, mostly, this interview is about him expressing his gratitute to all the Angolan people for the support given to him and the contributions to pay for his recent treatment at an hospital in Namibia.
I wish him a speedy and full recovery from all he has been through in life health and careerwise.


Very interesting your post on the WIBAA. I share particularly this bit with you:
"I blog about Africa because I am insane in my passion for progress and the fulfillment of the most basic and the grandest African dreams. I do this for free, with no expectations and even if it might subject me to the whims of those offended by my frankness. I do this because I am free and know that freedom is, ultimately, what Africa seeks."

I thank you again.

VERONICA BENESI said...

Mana,

A 'elegância' vem da alma. E é extamente o que esta foto nos revela: duas pessoas elegantemente vitoriosas.

Parabéns aos dois!

Beijo grande

Koluki said...

Muito obrigada mana.
E embora este seu tao elegante comentario - como todos os outros alias! - tenha saido no post errado, sabemos a que foto se refere.

Um grande abraco!

VERONICA BENESI said...

MAna!
Peço desculpas pelo comentário no post errado. Às vezes sou muito tonta mesmo...
Beijo