Thursday, 19 November 2015


UPDATE:

Tendo finalmente aparecido a (her)story (depois de uma longa viagem 'a terra dos Yalorixas, de onde muito provavelmente tambem regressara’ feita “mae de santo” como esta outra sua amiga “cientista social”: http://koluki.blogspot.co.uk/2011/11/desculpem-me-mas.html), ocorrem-me as seguintes observacoes:

1 -  Afinal o ataque ‘a Vila Alice foi um ‘ATAQUE RACISTA’?!… What a “shocker”!...
E isto dito por alguem que numa outra 'versao' da sua estoria se afirma abertamente "nao imparcial" e pergunta, para fundamentar a sua tese de "ataque racista", porque que, se seguiam uma politica de "neutralidade activa", as FAP nao atacaram tambem a FNLA e a UNITA - esquecendo-se porventura que estas, 'a altura, tinham sido "escorracadas" de Luanda pelo MPLA e seus aliados, sob o "olhar silencioso" das FAP!... Seria porque a FNLA e a UNITA nao tinham "mulheres brancas" como ela misturadas com, usando as suas proprias palavras, "pretos de merda" como o MPLA?!

2 – O “espirito mercenario”*, de esquerda ou de direita, ou “mentalidade de Tarzan (Jane)”, realmente nao so’ nao tem cor, nem nacionalidade, nem ideologia, como tambem nao tem cura: leva quem o possui a defender encarnicadamente quem quer que lhes pague melhor (financeiramente ou de qualquer outro modo): se em 74/75 era o MPLA, agora e’ o BD… Mas o seu ‘modus operandi’ nunca muda! Por isso, como dizia aqui (http://koluki.blogspot.co.uk/2009/05/just-poetry-v.html) ha' tempos, GABO-LHES A COERENCIA!...

*Note-se que a 'Jane' deste caso se trata de alguem que, segundo as minhas fontes, fez parte de um grupo de estudantes universitarios portugueses afectos a forcas de esquerda, nomeadamente o PCP, que, por altura do 25 de Abril de 1974, foram recrutados para irem dar "instrucao revolucionaria", como "comissarios politicos", aos militares das FAPLA nos Centros de Instrucao Revolucionaria (CIR) em Angola. Assim, a nossa 'Jane', que nao nasceu nem cresceu em Angola e nunca antes la' estivera, cai de "para-quedas" em Brazzaville onde estava sediado o "estado-maior general" do MPLA - note-se, nao na Primeira Regiao, nem na Frente Leste, de facto, em nenhuma Frente de Combate - nos meses que precederam a entrada da primeira delegacao oficial do MPLA em Luanda em finais de 1974... e o resto e'... "estoria"!

3 - No meio de tanto 'cacarejar' de galos e galinhas em busca de protagonismo numa guerra em que parece que os Angolanos apenas ocuparam o "lugar do morto", nao deixa de ser interessante notar o que realmente e' fundamental nessa (his)estooooria toda, seja ela contada por homens ou por mulheres, qualquer que seja a sua raca ou ideologia: o episodio da Vila Alice (chame-se-lhe ou nao "massacre") se constituiu o "canto do cisne" do Imperio Colonial Portugues em Africa, constituiu tambem o rastilho de uma guerra fraticida entre Irmaos Angolanos que durou mais de 30 anos e durante a qual as nossas 'Janes' nao ficaram em Angola para lhe apanhar sequer os estilhacos!...






From: Margarida Paredes, Universidade de Lisboa

        guidaparedes@hotmail.com

Date: 23 December 2005

 

Estou a fazer um trabalho para a faculdade, Estudos Africanos, sobre o 

ataque à Vila Alice, sede da delegação do MPLA em Luanda, no dia 27 de 

Julho de 1975, pelas Forças Armadas Portuguesas onde 14 elementos do MPLA 

foram mortos e 21 feridos. Consultados os jornais da época as versões são 

contraditórias. O comunicado das Forças Armadas Portuguesas e o General 

Silva Cardoso, alegam que foi uma acção punitiva contra um incidente 

provocado por soldados do MPLA que feriram gravemente um oficial português, 

na noite anterior, e porque o MPLA não obedeceu ao ultimato que lhe foi 

dirigido - entregar os responsáveis pelo incidente. O Brigadeiro Pezarat 

Correia alega que o MPLA não poderia entregar os responsáveis do incidente 

porque este foi responsabilidade de um grupo das FRA interessado em 

provocar um conflito entre o MPLA e as FAP com a finalidade de inviabilizar 

a data da independência acordada no Alvor. Pompílio da Cruz responsável das 

FRA alega que foi a "quadrilha de Toni Rodrigues", também ele pertencente 

às FRA, que envergando fardas das FAPLA provocaram o incidente. O 

comunicado do MPLA sem negar o incidente da noite anterior alega que foi 

responsabilidade de "agentes infiltrados já identificados que serão 

entregues" posteriormente às FAP. Estou perplexa com as diferentes versões 

e há várias questões que não entendo. Porque as FAP, que seguiam um 

política de "neutralidade activa" tomaram a inciativa de atacar um dos 

Movimentos de Libertação? Porque não foi levantado um inquérito para apurar 

o que efectivamente aconteceu? Porque deram um prazo de apenas meia dúzia 

de horas para os responsáveis serem entregues? O que eu gostaria de saber é 

se este incidente foi a última acção militar ofensiva no continente 

Africano por parte de Portugal e das Forças Armadas Portuguesas. Também 

gostaria de saber se durante o processo de descolonização em Angola as 

Forças Armadas Portuguesas terão atacado algum dos outros movimentos FNLA e 

UNITA? Se era uma acção punitiva porque mataram tantos elementos do MPLA e 

porque nenhum soldado das FAP morreu? Obrigada!


From: Margarida Paredes, Universidade de Lisboa

        guidaparedes@hotmail.com

Date: 23 December 2005

 

Estou a fazer um trabalho para a faculdade, Estudos Africanos, sobre o 

ataque à Vila Alice, sede da delegação do MPLA em Luanda, no dia 27 de 

Julho de 1975, pelas Forças Armadas Portuguesas onde 14 elementos do MPLA 

foram mortos e 21 feridos. Consultados os jornais da época as versões são 

contraditórias. O comunicado das Forças Armadas Portuguesas e o General 

Silva Cardoso, alegam que foi uma acção punitiva contra um incidente 

provocado por soldados do MPLA que feriram gravemente um oficial português, 

na noite anterior, e porque o MPLA não obedeceu ao ultimato que lhe foi 

dirigido - entregar os responsáveis pelo incidente. O Brigadeiro Pezarat 

Correia alega que o MPLA não poderia entregar os responsáveis do incidente 

porque este foi responsabilidade de um grupo das FRA interessado em 

provocar um conflito entre o MPLA e as FAP com a finalidade de inviabilizar 

a data da independência acordada no Alvor. Pompílio da Cruz responsável das 

FRA alega que foi a "quadrilha de Toni Rodrigues", também ele pertencente 

às FRA, que envergando fardas das FAPLA provocaram o incidente. O 

comunicado do MPLA sem negar o incidente da noite anterior alega que foi 

responsabilidade de "agentes infiltrados já identificados que serão 

entregues" posteriormente às FAP. Estou perplexa com as diferentes versões 

e há várias questões que não entendo. Porque as FAP, que seguiam um 

política de "neutralidade activa" tomaram a inciativa de atacar um dos 

Movimentos de Libertação? Porque não foi levantado um inquérito para apurar 

o que efectivamente aconteceu? Porque deram um prazo de apenas meia dúzia 

de horas para os responsáveis serem entregues? O que eu gostaria de saber é 

se este incidente foi a última acção militar ofensiva no continente 

Africano por parte de Portugal e das Forças Armadas Portuguesas. Também 

gostaria de saber se durante o processo de descolonização em Angola as 

Forças Armadas Portuguesas terão atacado algum dos outros movimentos FNLA e 

UNITA? Se era uma acção punitiva porque mataram tantos elementos do MPLA e 

porque nenhum soldado das FAP morreu? Obrigada!


From: Margarida Paredes, Universidade de Lisboa

guidaparedes@hotmail.com

Date: 14 January 2006

 

 

O CANTO DO CISNE DA DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA EM ANGOLA

 

 

 

Na continuação da clarividente contribuição de Norrie Macqueen, University of Dundee, sobre o ataque à Vila Alice pelas FAP no dia 27 de Julho de 1975, também gostaria de contribuir para responder a uma das questões levantadas.  Ao contrário do que seria de esperar a minha contribuição não se vai fazer através do trabalho de investigação das fontes porque neste caso concreto, apesar de eu estar mais virada para a literatura do que para a história, eu sou uma das fontes. Quer eu queira quer não, faço parte desta história. A minha versão será apenas mais uma e como todas as outras já referidas, dificilmente imparcial.

 

 

 

Numa entrevista informal ao coronel Hélder Vaz Pereira que integrou as FA no ataque à Vila Alice, este oficial leu-me o seu diário de guerra: No dia 27 de Julho de 1975 escreveu: “durante o ataque à Vila Alice todos os elementos do MPLA foram mortos”. Esta era a verdadeira natureza da missão dos soldados portugueses. Matar! A missão punitiva motivada por um dos sentimentos humanos mais ultrajante - a vingança, ao contrário do que ele alega, não foi cumprida porque no seu diário não contabilizou os feridos nem os elementos do MPLA que não foram atingidos. Confrontado com o facto da autora deste trabalho não ter sido morta nem ferida durante o “ataque” ele recusou-se a acreditar que uma europeia tenha tido um papel durante o confronto. Quando a autora descreveu o facto do radiotelegrafista das FA ter sido atingido por uma rajada num braço durante a operação, ele só acreditou depois da autora ter respondido correctamente às perguntas: - que braço foi atingido e onde? O militar foi atingido no braço direito, uns 10 cm acima do cotovelo. Felizmente a autora lembrava-se, trinta anos depois, que um enfermeiro das FA lhe aplicou um garrote no braço e ele continuou ferido em comunicação com o quartel-general.  Quando o coronel se convenceu retrucou filosoficamente – a senhora não foi morta porque pensámos que era uma prisioneira do MPLA. A cor da pele salvou a autora de uma morte certa. Acho que este facto é suficiente para ilustrar a clivagem racial existente durante o ataque à Vila Alice e a verdadeira natureza do confronto. A violência gratuita deste ataque, numa altura em que Portugal já tinha decidido abandonar o império colonial é prova disso. Obrigados a renunciar ao poder e conscientes de que tinham perdido o estatuto de dominadores reagiram em função da identidade racial.

 

 

 

Na origem do conflito também está a “questão racial”. Como já foi dito as FA além de se sentirem impotentes durante a “batalha por Luanda” também foram completamente marginalizadas pelo processo em curso. O MPLA lutava contra as forças da FNLA que integravam militares e equipamento do exército zairense, nas ruas da cidade. Quem tivesse uma farda e uma arma combatia sem qualquer enquadramento na estrutura do comando das FAPLA. Todos os elementos armados combatiam quer tivessem tido treino militar ou não. A autora foi instrutora política no CIR Hoji Ya Henda e sabe como a preparação dos militares era incipiente. No dia 26 de Julho de 1975 a autora esteve presente no cerco ao Forte da Barra até às 23h, onde forças da FNLA estavam entrincheiradas. Quando regressou à Vila Alice, sede do comando operacional constatou que nenhum comandante se encontrava no COL. Nestas circunstâncias assumiu as responsabilidades possíveis. Pouco tempo depois apresentou-se um pequeno grupo de soldados das Fapla (quatro talvez) relatando o incidente descrito por Silva Cardoso. Pensavam que o oficial português tinha morrido e informaram que tinham atirado porque ele os tinha chamado de “pretos de merda” e insultado de toda uma série de impropérios racistas. Estavam revoltados e amedrontados. Em face do sucedido a autora tirou-lhes as armas e deu-lhes voz de prisão. Imediatamente a seguir a autora recebeu um telefonema das FA exigindo que os responsáveis do incidente fossem entregues. Sem estar investida de autoridade para tomar essa decisão a autora explicou que ia tentar contactar alguém do comando. Com todos os responsáveis a combater nas ruas não foi possível contactar ninguém. Nunca passou pela cabeça da autora que o ultimato das FA fosse para cumprir. O MPLA não estava em guerra com os portugueses. O conflito, no dia seguinte, iria ser investigado seguramente e resolvido no âmbito das conversações bilaterais.  Depois de tomar banho na casa de um camarada que dava apoio logístico ao MPLA na Vila Alice, a autora regressou ao COL onde só teve tempo de se aperceber, antes das FA desencadearem o ataque às 8 da manhã, que “alguém” tinha levado os militares das Fapla. Como o MPLA tinha no COL outros prisioneiros, eles foram soltos e a autora introduziu-se no meio do cordão humano que eles formaram. A autora foi colocada em cima de um Unimog donde mais tarde escapou com a ajuda do comandante Onambwé que apareceu no rescaldo do ataque acompanhado pelo Alto-Comissário Silva Cardoso.

 

 

 

Na recta final da descolonização em África, creio que o Ataque à Vila Alice  representa o canto do cisne da dominação portuguesa no continente africano. Mas ao contrário do belo canto que o cisne emite ao morrer, Portugal escolheu sair de Angola desafinado. Ultrapassado por acontecimentos que não dominava nem entendia, abandonou o seu papel de maestro durante o complicado processo da descolonização e resolveu ferir de morte o MPLA numa aventura punitiva e desesperada de quem, quando sentiu chegada a hora da partida, ao contrário do cisne do soneto de Camões,

 

 

 

O cisne quando sente ser chegada

 

A hora que põe termo a sua vida

 

Música com voz alta e mui subida

 

Levanta pela praia inabitada.

 

 

 

resolveu abandonar a “neutralidade activa” e participar através da cacofonia das armas numa situação de guerra generalizada que se vivia na “batalha por Luanda” antes da data da independência, o dia 11 de Novembro de 1975.



UPDATE:

Tendo finalmente aparecido a (her)story (depois de uma longa viagem 'a terra dos Yalorixas, de onde muito provavelmente tambem regressara’ feita “mae de santo” como esta outra sua amiga “cientista social”: http://koluki.blogspot.co.uk/2011/11/desculpem-me-mas.html), ocorrem-me as seguintes observacoes:

1 -  Afinal o ataque ‘a Vila Alice foi um ‘ATAQUE RACISTA’?!… What a “shocker”!...
E isto dito por alguem que numa outra 'versao' da sua estoria se afirma abertamente "nao imparcial" e pergunta, para fundamentar a sua tese de "ataque racista", porque que, se seguiam uma politica de "neutralidade activa", as FAP nao atacaram tambem a FNLA e a UNITA - esquecendo-se porventura que estas, 'a altura, tinham sido "escorracadas" de Luanda pelo MPLA e seus aliados, sob o "olhar silencioso" das FAP!... Seria porque a FNLA e a UNITA nao tinham "mulheres brancas" como ela misturadas com, usando as suas proprias palavras, "pretos de merda" como o MPLA?!

2 – O “espirito mercenario”*, de esquerda ou de direita, ou “mentalidade de Tarzan (Jane)”, realmente nao so’ nao tem cor, nem nacionalidade, nem ideologia, como tambem nao tem cura: leva quem o possui a defender encarnicadamente quem quer que lhes pague melhor (financeiramente ou de qualquer outro modo): se em 74/75 era o MPLA, agora e’ o BD… Mas o seu ‘modus operandi’ nunca muda! Por isso, como dizia aqui (http://koluki.blogspot.co.uk/2009/05/just-poetry-v.html) ha' tempos, GABO-LHES A COERENCIA!...

*Note-se que a 'Jane' deste caso se trata de alguem que, segundo as minhas fontes, fez parte de um grupo de estudantes universitarios portugueses afectos a forcas de esquerda, nomeadamente o PCP, que, por altura do 25 de Abril de 1974, foram recrutados para irem dar "instrucao revolucionaria", como "comissarios politicos", aos militares das FAPLA nos Centros de Instrucao Revolucionaria (CIR) em Angola. Assim, a nossa 'Jane', que nao nasceu nem cresceu em Angola e nunca antes la' estivera, cai de "para-quedas" em Brazzaville onde estava sediado o "estado-maior general" do MPLA - note-se, nao na Primeira Regiao, nem na Frente Leste, de facto, em nenhuma Frente de Combate - nos meses que precederam a entrada da primeira delegacao oficial do MPLA em Luanda em finais de 1974... e o resto e'... "estoria"!

3 - No meio de tanto 'cacarejar' de galos e galinhas em busca de protagonismo numa guerra em que parece que os Angolanos apenas ocuparam o "lugar do morto", nao deixa de ser interessante notar o que realmente e' fundamental nessa (his)estooooria toda, seja ela contada por homens ou por mulheres, qualquer que seja a sua raca ou ideologia: o episodio da Vila Alice (chame-se-lhe ou nao "massacre") se constituiu o "canto do cisne" do Imperio Colonial Portugues em Africa, constituiu tambem o rastilho de uma guerra fraticida entre Irmaos Angolanos que durou mais de 30 anos e durante a qual as nossas 'Janes' nao ficaram em Angola para lhe apanhar sequer os estilhacos!...






From: Margarida Paredes, Universidade de Lisboa

        guidaparedes@hotmail.com

Date: 23 December 2005

 

Estou a fazer um trabalho para a faculdade, Estudos Africanos, sobre o 

ataque à Vila Alice, sede da delegação do MPLA em Luanda, no dia 27 de 

Julho de 1975, pelas Forças Armadas Portuguesas onde 14 elementos do MPLA 

foram mortos e 21 feridos. Consultados os jornais da época as versões são 

contraditórias. O comunicado das Forças Armadas Portuguesas e o General 

Silva Cardoso, alegam que foi uma acção punitiva contra um incidente 

provocado por soldados do MPLA que feriram gravemente um oficial português, 

na noite anterior, e porque o MPLA não obedeceu ao ultimato que lhe foi 

dirigido - entregar os responsáveis pelo incidente. O Brigadeiro Pezarat 

Correia alega que o MPLA não poderia entregar os responsáveis do incidente 

porque este foi responsabilidade de um grupo das FRA interessado em 

provocar um conflito entre o MPLA e as FAP com a finalidade de inviabilizar 

a data da independência acordada no Alvor. Pompílio da Cruz responsável das 

FRA alega que foi a "quadrilha de Toni Rodrigues", também ele pertencente 

às FRA, que envergando fardas das FAPLA provocaram o incidente. O 

comunicado do MPLA sem negar o incidente da noite anterior alega que foi 

responsabilidade de "agentes infiltrados já identificados que serão 

entregues" posteriormente às FAP. Estou perplexa com as diferentes versões 

e há várias questões que não entendo. Porque as FAP, que seguiam um 

política de "neutralidade activa" tomaram a inciativa de atacar um dos 

Movimentos de Libertação? Porque não foi levantado um inquérito para apurar 

o que efectivamente aconteceu? Porque deram um prazo de apenas meia dúzia 

de horas para os responsáveis serem entregues? O que eu gostaria de saber é 

se este incidente foi a última acção militar ofensiva no continente 

Africano por parte de Portugal e das Forças Armadas Portuguesas. Também 

gostaria de saber se durante o processo de descolonização em Angola as 

Forças Armadas Portuguesas terão atacado algum dos outros movimentos FNLA e 

UNITA? Se era uma acção punitiva porque mataram tantos elementos do MPLA e 

porque nenhum soldado das FAP morreu? Obrigada!


From: Margarida Paredes, Universidade de Lisboa

        guidaparedes@hotmail.com

Date: 23 December 2005

 

Estou a fazer um trabalho para a faculdade, Estudos Africanos, sobre o 

ataque à Vila Alice, sede da delegação do MPLA em Luanda, no dia 27 de 

Julho de 1975, pelas Forças Armadas Portuguesas onde 14 elementos do MPLA 

foram mortos e 21 feridos. Consultados os jornais da época as versões são 

contraditórias. O comunicado das Forças Armadas Portuguesas e o General 

Silva Cardoso, alegam que foi uma acção punitiva contra um incidente 

provocado por soldados do MPLA que feriram gravemente um oficial português, 

na noite anterior, e porque o MPLA não obedeceu ao ultimato que lhe foi 

dirigido - entregar os responsáveis pelo incidente. O Brigadeiro Pezarat 

Correia alega que o MPLA não poderia entregar os responsáveis do incidente 

porque este foi responsabilidade de um grupo das FRA interessado em 

provocar um conflito entre o MPLA e as FAP com a finalidade de inviabilizar 

a data da independência acordada no Alvor. Pompílio da Cruz responsável das 

FRA alega que foi a "quadrilha de Toni Rodrigues", também ele pertencente 

às FRA, que envergando fardas das FAPLA provocaram o incidente. O 

comunicado do MPLA sem negar o incidente da noite anterior alega que foi 

responsabilidade de "agentes infiltrados já identificados que serão 

entregues" posteriormente às FAP. Estou perplexa com as diferentes versões 

e há várias questões que não entendo. Porque as FAP, que seguiam um 

política de "neutralidade activa" tomaram a inciativa de atacar um dos 

Movimentos de Libertação? Porque não foi levantado um inquérito para apurar 

o que efectivamente aconteceu? Porque deram um prazo de apenas meia dúzia 

de horas para os responsáveis serem entregues? O que eu gostaria de saber é 

se este incidente foi a última acção militar ofensiva no continente 

Africano por parte de Portugal e das Forças Armadas Portuguesas. Também 

gostaria de saber se durante o processo de descolonização em Angola as 

Forças Armadas Portuguesas terão atacado algum dos outros movimentos FNLA e 

UNITA? Se era uma acção punitiva porque mataram tantos elementos do MPLA e 

porque nenhum soldado das FAP morreu? Obrigada!


From: Margarida Paredes, Universidade de Lisboa

guidaparedes@hotmail.com

Date: 14 January 2006

 

 

O CANTO DO CISNE DA DESCOLONIZAÇÃO PORTUGUESA EM ANGOLA

 

 

 

Na continuação da clarividente contribuição de Norrie Macqueen, University of Dundee, sobre o ataque à Vila Alice pelas FAP no dia 27 de Julho de 1975, também gostaria de contribuir para responder a uma das questões levantadas.  Ao contrário do que seria de esperar a minha contribuição não se vai fazer através do trabalho de investigação das fontes porque neste caso concreto, apesar de eu estar mais virada para a literatura do que para a história, eu sou uma das fontes. Quer eu queira quer não, faço parte desta história. A minha versão será apenas mais uma e como todas as outras já referidas, dificilmente imparcial.

 

 

 

Numa entrevista informal ao coronel Hélder Vaz Pereira que integrou as FA no ataque à Vila Alice, este oficial leu-me o seu diário de guerra: No dia 27 de Julho de 1975 escreveu: “durante o ataque à Vila Alice todos os elementos do MPLA foram mortos”. Esta era a verdadeira natureza da missão dos soldados portugueses. Matar! A missão punitiva motivada por um dos sentimentos humanos mais ultrajante - a vingança, ao contrário do que ele alega, não foi cumprida porque no seu diário não contabilizou os feridos nem os elementos do MPLA que não foram atingidos. Confrontado com o facto da autora deste trabalho não ter sido morta nem ferida durante o “ataque” ele recusou-se a acreditar que uma europeia tenha tido um papel durante o confronto. Quando a autora descreveu o facto do radiotelegrafista das FA ter sido atingido por uma rajada num braço durante a operação, ele só acreditou depois da autora ter respondido correctamente às perguntas: - que braço foi atingido e onde? O militar foi atingido no braço direito, uns 10 cm acima do cotovelo. Felizmente a autora lembrava-se, trinta anos depois, que um enfermeiro das FA lhe aplicou um garrote no braço e ele continuou ferido em comunicação com o quartel-general.  Quando o coronel se convenceu retrucou filosoficamente – a senhora não foi morta porque pensámos que era uma prisioneira do MPLA. A cor da pele salvou a autora de uma morte certa. Acho que este facto é suficiente para ilustrar a clivagem racial existente durante o ataque à Vila Alice e a verdadeira natureza do confronto. A violência gratuita deste ataque, numa altura em que Portugal já tinha decidido abandonar o império colonial é prova disso. Obrigados a renunciar ao poder e conscientes de que tinham perdido o estatuto de dominadores reagiram em função da identidade racial.

 

 

 

Na origem do conflito também está a “questão racial”. Como já foi dito as FA além de se sentirem impotentes durante a “batalha por Luanda” também foram completamente marginalizadas pelo processo em curso. O MPLA lutava contra as forças da FNLA que integravam militares e equipamento do exército zairense, nas ruas da cidade. Quem tivesse uma farda e uma arma combatia sem qualquer enquadramento na estrutura do comando das FAPLA. Todos os elementos armados combatiam quer tivessem tido treino militar ou não. A autora foi instrutora política no CIR Hoji Ya Henda e sabe como a preparação dos militares era incipiente. No dia 26 de Julho de 1975 a autora esteve presente no cerco ao Forte da Barra até às 23h, onde forças da FNLA estavam entrincheiradas. Quando regressou à Vila Alice, sede do comando operacional constatou que nenhum comandante se encontrava no COL. Nestas circunstâncias assumiu as responsabilidades possíveis. Pouco tempo depois apresentou-se um pequeno grupo de soldados das Fapla (quatro talvez) relatando o incidente descrito por Silva Cardoso. Pensavam que o oficial português tinha morrido e informaram que tinham atirado porque ele os tinha chamado de “pretos de merda” e insultado de toda uma série de impropérios racistas. Estavam revoltados e amedrontados. Em face do sucedido a autora tirou-lhes as armas e deu-lhes voz de prisão. Imediatamente a seguir a autora recebeu um telefonema das FA exigindo que os responsáveis do incidente fossem entregues. Sem estar investida de autoridade para tomar essa decisão a autora explicou que ia tentar contactar alguém do comando. Com todos os responsáveis a combater nas ruas não foi possível contactar ninguém. Nunca passou pela cabeça da autora que o ultimato das FA fosse para cumprir. O MPLA não estava em guerra com os portugueses. O conflito, no dia seguinte, iria ser investigado seguramente e resolvido no âmbito das conversações bilaterais.  Depois de tomar banho na casa de um camarada que dava apoio logístico ao MPLA na Vila Alice, a autora regressou ao COL onde só teve tempo de se aperceber, antes das FA desencadearem o ataque às 8 da manhã, que “alguém” tinha levado os militares das Fapla. Como o MPLA tinha no COL outros prisioneiros, eles foram soltos e a autora introduziu-se no meio do cordão humano que eles formaram. A autora foi colocada em cima de um Unimog donde mais tarde escapou com a ajuda do comandante Onambwé que apareceu no rescaldo do ataque acompanhado pelo Alto-Comissário Silva Cardoso.

 

 

 

Na recta final da descolonização em África, creio que o Ataque à Vila Alice  representa o canto do cisne da dominação portuguesa no continente africano. Mas ao contrário do belo canto que o cisne emite ao morrer, Portugal escolheu sair de Angola desafinado. Ultrapassado por acontecimentos que não dominava nem entendia, abandonou o seu papel de maestro durante o complicado processo da descolonização e resolveu ferir de morte o MPLA numa aventura punitiva e desesperada de quem, quando sentiu chegada a hora da partida, ao contrário do cisne do soneto de Camões,

 

 

 

O cisne quando sente ser chegada

 

A hora que põe termo a sua vida

 

Música com voz alta e mui subida

 

Levanta pela praia inabitada.

 

 

 

resolveu abandonar a “neutralidade activa” e participar através da cacofonia das armas numa situação de guerra generalizada que se vivia na “batalha por Luanda” antes da data da independência, o dia 11 de Novembro de 1975.