Thursday, 23 August 2007

ABOLITION OF THE SLAVE TRADE: 200 YEARS ON (RECIDIVUS)*





Ja’ aqui afirmei, uma ou duas vezes, que tenho para mim que a sociedade Britanica contemporanea e’, do ponto de vista racial, a mais amadurecida, descomplexada, politicamente sofisticada, harmoniosa e saudavel do mundo ocidental. Tenho perfeita consciencia dos “votos contra” tal afirmacao que se terao levantado e continuarao a levantar… Mas o facto e’ que, 'malgre tout', mais uma vez essa realidade se desenrola, e em abundancia, aos olhos de todos quantos a puderem ver por estes dias.





O Reino Unido esta’ em plena comemoracao dos 200 anos sobre a passagem, no Parlamento de Westminster, do Acto de Abolicao da Escravatura, aqui referido como o “Abolition of the Slave Trade Act Bicentenary”, assinalado oficialmente ontem. ‘A conta disso, temos sido servidos nos ultimos dias e continuaremos a se-lo ao longo do resto do ano, por um verdadeiro “banquete” de programas, actividades e debates a volta das questoes da escravatura, do racismo e das relacoes inter-raciais, passadas, presentes e futuras, tanto neste pais, como globalmente. E todos que nele participam, ou apenas observam, parecem estar determinados a comer de tudo um pouco, sem deixarem nenhuma migalha do “buffet” ser varrida para debaixo do tapete… Perante tanta abundancia e variedade e’-me literalmente impossivel dar aqui conta de tudo quanto se tem passado, mas aqui fica o registo, necessariamente breve, de alguns dos eventos que teem marcado esta efemeride.

"The body of Christ is not just a body that exists at any one time, it exists across history and we therefore share the shame and the sinfulness of our predecessors and part of what we can do, with them and for them in the body of Christ, is prayer for acknowledgement of the failure that is part of us not just of some distant 'them'." Archbishop of Canterbury Rowan Williams, Church of England

I. Procissao da Igreja Anglicana em demonstracao do seu arrependimento pelo seu papel no e beneficio do esclavagismo, ou o “Walk of Witness”: Dirigida pelos Arcebispos de York e Canterbury, acompanhada pelos seus parceiros ecumenicos e presidida no seu acto central por uma das suas figuras centrais, por sinal uma mulher negra, esta procissao congregou varias caminhadas, incluindo a “Marcha dos Abolicionistas” iniciada na cidade de Hull e composta por caminhantes usando cangas, correntes e t-shirts ostentando a frase "So Sorry", que comecaram desde o inicio do ano em varias partes do pais e culminaram anteontem em Londres. Durante o acto central, em Kennington, municipio de Lambeth, os participantes foram convidados a assinar uma ‘Declaracao Internacional Contra a Escravatura’ apelando por medidas para uma melhor compreensao do comercio transatlantico de escravos, para a compensacao dos seus legados historicos e para o fim de todas as formas de escravatura moderna. O acto foi tambem marcado pela leitura de textos de escritores negros e ‘freedom-fighters’, incluindo Nelson Mandela e Martin Luther King e pela entoacao do Hino “Amazing Grace”.

"We were directly responsible for what happened. In the sense of inheriting our history, we can say we owned slaves, we branded slaves, that is why I believe we must actually recognise our history and offer an apology." Rev Blessant, Church of England

II. Filmes "Amazing Grace" e “The Walk”: sobre a trajectoria de vida de William Wilberforce que, segundo a versao oficial, tera’ levado a passagem, ao final dos debates de que ele foi o principal protagonista, do “Abolition of Slave Trade Act” no Parlamento Britanico.

Nos debates em varias series televisivas e revistas culturais, estes filmes e o papel de Wilberforce teem sido sistematicamente questionados a luz, nao so’ da veracidade e integridade da sua historia oficial, mas tambem e sobretudo do papel, por muitos considerado mais relevante e crucial, do ex-escravo Olaudah Equiano, de origem Nigeriana, que com o seu livro, tornado best-seller na epoca, “The Interesting Narrative of the Life of Olaudah Equiano, or Gustavus Vassa the African (1789)”, tera’ tido uma influencia mais determinante na abolicao da escravatura. (Leia mais sobre esta questao AQUI)

III. Documentario “Rough Crossings” pelo bastante mediatico, mas nem por isso menos conceituado, embora de rigor cientifico algo questionavel, historiador Simon Schama, baseado no seu livro com o mesmo titulo (BBC 2): retraca a historia da fundacao da Serra Leoa por ex-escravos que fugiram das plantacoes e se juntaram aos Britanicos na Guerra de Independencia Americana.

IV. Serie “Racism: A History” (BBC 4): uma verdadeira “gourmet meal”, congregando a mesa de discussao os mais internacionalmente prestigiados e conceituados estudiosos do racismo, de varias nacionalidades, racas e etnias. Alguns dos temas abordados: o papel dos Reinos Africanos no trafico de escravos; o papel do esclavagismo na evolucao e prosperidade da Gra-Bretanha; a Revolucao Haitiana, com a historica vitoria dos seus escravos das plantacoes sobre o jugo esclavagista; a historia do racismo na Religiao e ao longo da evolucao das varias disciplinas cientificas, desde a Geografia, a Biologia e a Filosofia, passando pela Antropologia, a Etnologia e a Psicologia e culminando na Historia; as varias formas de organizacao social do racismo em diferentes contextos geograficos, historicos e economicos, da Africa a Europa e da America do Norte ao Brasil e de como o racismo se torna mais intenso quanto mais baixo o nivel economico, cultural e educacional das pessoas pertencentes as racas julgadas "superiores", grupos sociais e nacoes; “The Colour of Money” (segundo episodio da serie), examinando a forma como o dinheiro afecta a vida das pessoas e ate’ que ponto o racismo e’ um produto da "globalizacao economica" do sec. XVII e as representacoes estereotipadas dos negros ao longo da Historia.

V. Serie “O Seculo XVIII Negro” (BBC 4): Como sobremesa, uma exploracao da experiencia da populacao negra Britanica no seculo 18, usando arte do periodo, incluindo obras por Gainsborough e Hogarth.


(Pictures: BBC and Anglican Church online)

*First published 26/03/07







Ja’ aqui afirmei, uma ou duas vezes, que tenho para mim que a sociedade Britanica contemporanea e’, do ponto de vista racial, a mais amadurecida, descomplexada, politicamente sofisticada, harmoniosa e saudavel do mundo ocidental. Tenho perfeita consciencia dos “votos contra” tal afirmacao que se terao levantado e continuarao a levantar… Mas o facto e’ que, 'malgre tout', mais uma vez essa realidade se desenrola, e em abundancia, aos olhos de todos quantos a puderem ver por estes dias.





O Reino Unido esta’ em plena comemoracao dos 200 anos sobre a passagem, no Parlamento de Westminster, do Acto de Abolicao da Escravatura, aqui referido como o “Abolition of the Slave Trade Act Bicentenary”, assinalado oficialmente ontem. ‘A conta disso, temos sido servidos nos ultimos dias e continuaremos a se-lo ao longo do resto do ano, por um verdadeiro “banquete” de programas, actividades e debates a volta das questoes da escravatura, do racismo e das relacoes inter-raciais, passadas, presentes e futuras, tanto neste pais, como globalmente. E todos que nele participam, ou apenas observam, parecem estar determinados a comer de tudo um pouco, sem deixarem nenhuma migalha do “buffet” ser varrida para debaixo do tapete… Perante tanta abundancia e variedade e’-me literalmente impossivel dar aqui conta de tudo quanto se tem passado, mas aqui fica o registo, necessariamente breve, de alguns dos eventos que teem marcado esta efemeride.

"The body of Christ is not just a body that exists at any one time, it exists across history and we therefore share the shame and the sinfulness of our predecessors and part of what we can do, with them and for them in the body of Christ, is prayer for acknowledgement of the failure that is part of us not just of some distant 'them'." Archbishop of Canterbury Rowan Williams, Church of England

I. Procissao da Igreja Anglicana em demonstracao do seu arrependimento pelo seu papel no e beneficio do esclavagismo, ou o “Walk of Witness”: Dirigida pelos Arcebispos de York e Canterbury, acompanhada pelos seus parceiros ecumenicos e presidida no seu acto central por uma das suas figuras centrais, por sinal uma mulher negra, esta procissao congregou varias caminhadas, incluindo a “Marcha dos Abolicionistas” iniciada na cidade de Hull e composta por caminhantes usando cangas, correntes e t-shirts ostentando a frase "So Sorry", que comecaram desde o inicio do ano em varias partes do pais e culminaram anteontem em Londres. Durante o acto central, em Kennington, municipio de Lambeth, os participantes foram convidados a assinar uma ‘Declaracao Internacional Contra a Escravatura’ apelando por medidas para uma melhor compreensao do comercio transatlantico de escravos, para a compensacao dos seus legados historicos e para o fim de todas as formas de escravatura moderna. O acto foi tambem marcado pela leitura de textos de escritores negros e ‘freedom-fighters’, incluindo Nelson Mandela e Martin Luther King e pela entoacao do Hino “Amazing Grace”.

"We were directly responsible for what happened. In the sense of inheriting our history, we can say we owned slaves, we branded slaves, that is why I believe we must actually recognise our history and offer an apology." Rev Blessant, Church of England

II. Filmes "Amazing Grace" e “The Walk”: sobre a trajectoria de vida de William Wilberforce que, segundo a versao oficial, tera’ levado a passagem, ao final dos debates de que ele foi o principal protagonista, do “Abolition of Slave Trade Act” no Parlamento Britanico.

Nos debates em varias series televisivas e revistas culturais, estes filmes e o papel de Wilberforce teem sido sistematicamente questionados a luz, nao so’ da veracidade e integridade da sua historia oficial, mas tambem e sobretudo do papel, por muitos considerado mais relevante e crucial, do ex-escravo Olaudah Equiano, de origem Nigeriana, que com o seu livro, tornado best-seller na epoca, “The Interesting Narrative of the Life of Olaudah Equiano, or Gustavus Vassa the African (1789)”, tera’ tido uma influencia mais determinante na abolicao da escravatura. (Leia mais sobre esta questao AQUI)

III. Documentario “Rough Crossings” pelo bastante mediatico, mas nem por isso menos conceituado, embora de rigor cientifico algo questionavel, historiador Simon Schama, baseado no seu livro com o mesmo titulo (BBC 2): retraca a historia da fundacao da Serra Leoa por ex-escravos que fugiram das plantacoes e se juntaram aos Britanicos na Guerra de Independencia Americana.

IV. Serie “Racism: A History” (BBC 4): uma verdadeira “gourmet meal”, congregando a mesa de discussao os mais internacionalmente prestigiados e conceituados estudiosos do racismo, de varias nacionalidades, racas e etnias. Alguns dos temas abordados: o papel dos Reinos Africanos no trafico de escravos; o papel do esclavagismo na evolucao e prosperidade da Gra-Bretanha; a Revolucao Haitiana, com a historica vitoria dos seus escravos das plantacoes sobre o jugo esclavagista; a historia do racismo na Religiao e ao longo da evolucao das varias disciplinas cientificas, desde a Geografia, a Biologia e a Filosofia, passando pela Antropologia, a Etnologia e a Psicologia e culminando na Historia; as varias formas de organizacao social do racismo em diferentes contextos geograficos, historicos e economicos, da Africa a Europa e da America do Norte ao Brasil e de como o racismo se torna mais intenso quanto mais baixo o nivel economico, cultural e educacional das pessoas pertencentes as racas julgadas "superiores", grupos sociais e nacoes; “The Colour of Money” (segundo episodio da serie), examinando a forma como o dinheiro afecta a vida das pessoas e ate’ que ponto o racismo e’ um produto da "globalizacao economica" do sec. XVII e as representacoes estereotipadas dos negros ao longo da Historia.

V. Serie “O Seculo XVIII Negro” (BBC 4): Como sobremesa, uma exploracao da experiencia da populacao negra Britanica no seculo 18, usando arte do periodo, incluindo obras por Gainsborough e Hogarth.


(Pictures: BBC and Anglican Church online)

*First published 26/03/07



20 comments:

Patricio said...

Excelententes iniciativas! Uma das consequencias da escravatura,do colonialismo da subjugacao em geral dos povos Africanos que me parece extremamente importante mas que e pouco debatida e a questao do impacto negativo que ela teve e continua a ter na auto-estima do Africano. Como e que o Africano se ve a si proprio no contexto global. Qual e futuro que quer criar para si... etc.

luis said...

E será que Portugal alguma vez irá seguir o exemplo britânico?

Koluki said...

Patricio,

Realmente toca em alguns dos aspectos fundamentais do impacto da escravatura e do colonialismo. Se quiser obter mais informacoes sobre isso, dentro dos programas desta comemoracao, veja a seguinte website:

http://www.100bmol.org.uk/800/index-800.html


Luis:

Nao achas que ja' tenho arranjado por aqui sarna suficiente com que me cossar? Responde la' tu a essa tua pergunta, homem!

luis said...

eu pensei q tinhas respostas para tudo...ohhhhh....:-) bem....a verdade é que quem lê os jornais portugueses practicamente vê passar ao lado estas iniciativas internacionais...como que não tivessem nada a ver connosco....é a tal estória da avestruz que espeta a cabeça na areia/terra.

Denudado said...

Há tempos, quando Joaquim Chissano veio a Portugal receber um doutoramento honoris causa pela Universidade de Coimbra, ele afirmou numa entrevista que Portugal deveria pedir perdão a África pela escravatura e pelo colonialismo. De imediato os jornais portugueses se mostraram muito "indignados" com estas declarações, por serem uma falta de cortesia e uma ingratidão... Disseram: «Então ele veio a Portugal receber um título honorífico e agradece desta maneira?!»

É no mínimo preocupante o desconhecimento existente entre os portugueses sobre os reais efeitos e consequências da colonização, estando muito generalizada em Portugal a ideia de que o colonialismo português, afinal, não foi tão mau como os outros! O inefável blogueiro-mor do reino José Pacheco Pereira, que tinha a estrita obrigação de saber um pouco mais destes assuntos, pois se considera historiador entre outras coisas, de vez em quando diz que a colonização portuguesa foi «benévola»!!!

Assim, à pergunta «será que Portugal alguma vez irá seguir o exemplo britânico?», a resposta é um rotundo não. Ainda terão que passar muitos anos antes que isso aconteça, a menos que haja um milagre.

P.S. - Koluki, nesta página existe uma fotografia de Geraldo Bessa Victor e um seu poema.

Koluki said...

Patricio,

O endereco que lhe indiquei e' de facto util para se ter uma ideia do tipo de iniciativas que podem contribuir para uma maior auto-estima do Africano e a forma como se ve a si proprio e projecta o seu futuro no contexto global.
Mas o que eu tinha em mente era uma materia dessa mesma organizacao sobre Wilberforce e varias outras questoes relacionadas com a escravatura que me foi enviada por e-mail, mas que acabo de verificar que nao se encontra na website e talvez tenha sido apenas circulada por newsletter. Pu-la como anexo no texto deste post.


Luis,

Acho que cabe a cidadaos portugueses como tu comecarem esse exercicio de desenterrar a cabeca da areia...


Denudado,

Pois e' assim, meu caro amigo. Essa e' uma questao que me e' muito cara por varias razoes, academicas, profissionais e nao so', e com a qual me debato ha anos... mas, acabo sempre por embater nos tais "muros intransponiveis".
Acho que o problema reside fundamentalmente na "auto-satisfacao" de Portugal com a sua Historia e os seus legados coloniais, o que leva a um auto-convencimento que frequentemente se expressa em frases como "nos os portugueses ja' resolvemos essas questoes (raciais) ha' muito tempo, com, por exemplo a criacao de hierarquias raciais: preto, pardo, cafuso, mulato, cabrito, etc."... sem qualquer realizacao de quao racista e' essa mesma hierarquizacao, e as formas como ela se traduz na sociedade! Mas este e' apenas um exemplo dentre muitos dos mal-entendidos e incompreensoes que pessoas ate' dos extractos mais educados da sociedade portuguesa manifestam nos seus discursos correntes.
Mas para mim, o dilema maior situa-se nao exactamente na sociedade portuguesa, mas nas nossas proprias sociedades ex-colonizadas (e aqui prometo um dia voltar a algumas das 'homilias' do Mia Couto...). Nao me vou expandir muito sobre isso aqui e agora, mas e' de facto aflitiva a forma como tudo se reduz a uma receita basica: o esclavagismo ja' acabou ha' dois seculos (o que, de resto, nao e' inteiramente verdadeiro no que toca ao esclavagismo portugues e seus sucedaneos como o contrato, como bem nota), para alem de que os reinos africanos tambem "foram cumplices" (uma "realidade" a necessitar de muitas qualificacoes...); o colonialismo ja' acabou ha' 30 anos e a independencia so' piorou as condicoes de vida da maioria dos ex-colonizados... portanto, quem ainda fala em sequelas da escravatura e da colonizacao so' pode ter "complexos de colonizado mal resolvidos"! E, pronto, assim se resolvem todos esses problemas! Quanto mais nao seja porque, como ninguem gosta de ser considerado "complexado" (e note-se como nesse contexto so' se fala de "complexo de colonizado", "complexo de negro" e "complexo de inferioridade", como se fosse de todo impossivel existirem "complexo de colonizador", "complexo de branco" e "complexo de superioridade"...), fica tudo calado e a desenvolver os verdadeiros complexos de inferioridade que actualmente se expressam cada vez mais em "apelos a recolonizacao"...
Mas isso e' uma conversa que da' muito pano para mangas (tenho por exemplo na ponta da lingua o que foi dito no programa "Racism: A History" numa analise comparativa entre o racismo nos EUA e no Brasil, mas isso talvez mereca um post aparte), por isso e' melhor deixar que ela se desenrole ao longo do tempo, porque oportunidades nao faltarao.

Obrigada pelo link... o Bessa Victor era mesmo negro, nao so' na foto como no "lamento da Maricota"!

Maria Muadié said...

Koluki, seu blog é interessantíssimo, querida. Adoro vir aqui.
Um beijo,
Martha

Koluki said...

Obrigada Martha.
Parabens tambem pelo seu blog e por essa dedicacao inabalavel a (boa) poesia!

Beijo.

m.silvera said...

Cara amiga,
Excelente apontamento como é seu apanágio. Sempre temas de grande interesse e actualidade.
Ao ler o seu texto, duas ou três questões me pareceram paralelas, e que gostaria de ver mais desenvolvidas em debate amplo e franco.
1. De facto, tem-se falado pouco, sobretudo nos países africanos, na escravatura "branca" (na Europa, na África do Norte), que é mais antiga que a escravatura negra levada a cabo por europeus. Ou seja, o flagelo da escravatura não é uma exclusividade dos africanos negros.
2. Também não se fala muito, na escravatura levada a cabo em África pelos povos bantos, por exemplo, que "arrasaram" os povos que viviam no actual continente africano. De igual modo, apagou-se a história de povos africanos (em Angola, por exemplo) que capturavam e escravizavam irmãos seus, usando-os para o seu serviço ou vendendo-os aos europeus. Grandes monarcas africanos, que hoje aparecem elevados a símbolos da resistência, foram no entanto, e como a Koluki diz, grandes traficantes e fornecedores de escravos que vendiam aos europeus.
3. Parece-me a mim que há um certo exagero quando se fala de 500 anos de colonialismo, quando sabemos perfeitamente que os povos africanos resistiram e mantiveram em muitos casos, intactos ops seus impérios. Em Angola, que é o caso que neste forum nos aproxima mais, só no século XX os portugueses se conseguiram estabelecer no interior e na zona oriental.

Em suma, era interessante nestas discussões sobre a escravatura, recorrer-se aos outros exemplos (e ainda há as diversas formas da escravatura actual). A discussão ganharia mais e seria mais elucidativa. Se calhar, até se ganharia alguma solidariedade para com os povos europeus, americanos ou asiáticos, pois nenhum destes continentes escapou a tão duro flagelo. Talvez o racismo saísse enfraquecido deste tipo de discussões.
Sobre os pedidos de desculpas, realmente, não é tão fácil assim encontrar um contra ou um a favor. No entanto, uma coisa é certa, o argumento quase naife de que os actuais governos não têm qualquer responsabilidade sobre aquilo que os anteriores regimes fizeram, pode fazer algum sentido.
Por vezes, estes pedidos de desculpas cheiram-me a paternalismo e a hipocrisia. talvez esteja errado, mas qualquer destas questões não são lineares.
Devo agradecer-lhe cara Koluki, por ter levantado questões que nos obrigaram a reflectir.
Bem haja, amiga.

Koluki said...

Amigo Silvera,


Obrigada pelo seu elaborado contributo para a nossa reflexao.
Sobre os pertinentes pontos que levanta, e sem pretender com esta resposta esgotar a possibilidade de outros amigos tambem expressarem os seus pareceres, gostaria de notar o seguinte:

1. A escravatura, enquanto fenomeno “civilizacional” e politico, mas sobretudo economico, nao e’ de facto exclusiva de nenhum povo ou continente e certamente nao comecou apenas no seculo XV em Africa. De facto, no primeiro episodio da serie “Racism: A History” foi feita uma abordagem bastante precisa sobre a escravatura na Europa, nomeadamente dos povos eslavos, nome que precisamente deu origem a palavra ‘slave’ – escravo. O que deu ao comercio de escravos africanos a dimensao tragica que lhe e’ atribuida foi a imprecedente escala em que foi praticado, o seu caracter de comercio transatlantico e o uso dos escravos africanos para a construcao do “novo mundo” europeu, sem qualquer retribuicao quer aos escravos, quer aos seus paises de origem;
2. Tem-se falado bastante e ha algumas publicacoes sobre isso, da escravatura praticada pelos proprios africanos em Africa. Porem, o que e’ consensual, e’ que ela era praticada nao so’ em muito pequena escala comparativamente a praticada/incentivada pela chegada dos europeus, como era praticada quase exclusivamente sobre captivos de guerra e nao indiscriminadamente, como se verifica a partir do seculo XV. A excepcao mais notoria a esta regra e’ a captura de escravos africanos por traficantes arabes. Confesso-lhe a minha ignorancia sobre isso, mas nao tenho conhecimento de algo que possa ser classificado como “arrasamento” de outros povos africanos pelos bantu. A prova disso e’ a existencia dos Khoisan ate’ hoje e o facto de o seu confinamento geografico e definhamento numerico ao longo dos seculos ser sobretudo um resultado da sua propria cultura. Quanto aos monarcas que vendiam escravos aos europeus e’ preciso enquadrar essa ocorrencia na ‘disrupcao’ politica, social e cultural causada pela chegada dos europeus que fomentaram guerras inter-africanas para estabelecerem e consolidarem a sua conquista territorial. Nas suas guerras de resistencia aos europeus, alguns reinos africanos foram forcados a praticar a captura e venda de escravos aos europeus em troca de armas para se fortalecerem e defenderem militarmente quer de outros, quer dos proprios europeus… sao notorias, neste contexto, as chamadas guerras do “kwata-kwata” em Angola.
3. Tem toda a razao quanto aos 500 anos. Porem, do ponto de vista historico, fala-se de colonialismo em Africa a partir do inicio das guerras de conquista iniciadas pelos europeus nos seculos XV/XVI que por si so’ introduziram uma dinamica de intervencao estrangeira nas sociedades africanas desde essa altura ate’ a concretizacao do quase completo dominio territorial e colonizacao pelos europeus. Se em Angola a total colonizacao administrativa so’ se tornou efectiva ja’ no seculo XX, sobretudo por “incentivo” da Conferencia de Berlim em finais do sec. XIX, o facto e’ que ja’ pelos seculos XV/XVI os portugueses dominavam partes significativas do litoral, incluindo Luanda e Benguela.

Quanto a escravatura moderna, quer em algumas partes de Africa, quer noutras partes do mundo, incluindo formas de escravatura como a escravatura sexual actualmente praticada em grande escala na Europa do leste e na Asia, a “Declaracao Internacional contra a Escravatura” introduzida pela Igreja Anglicana visa precisamente o proposito de a eliminar.
Concordo plenamente que nenhuma destas questoes e’ linear, mas o que me parece inequivoco no que toca aos pedidos de desculpas e’ que se tratam de uma questao de “consciencia colectiva” – no caso do UK, e’ de salientar que ha’ sectores desta sociedade, incluindo entre as comunidades negras, que nao dao muito valor aos pedidos de perdao (um pouco como diz o ditado popular “desculpa nao cura ferida”…). Mas o que ficara’ para o registo historico e’ que as mais altas instituicoes deste pais – a Igreja, a Monarquia (ontem a familia real esteve num servico religioso que congregou toda a classe politica deste pais aos seus mais altos niveis na Catedral de Westminster para o assinalamento desta efemeride – acto esse que foi interrompido por um africano mais “esquentado” e insatisfeito que se dirigiu a Rainha dizendo-lhe “you should be ashamed”! Acto que considero totalmente reprovavel, mas que indica ate’ que ponto esta questao e’ cara para o que julgo ser a esmagadora maioria dos Africanos…) e o Governo, se sentiram na obrigacao de expressar o seu arrependimento, como Nacao, por praticas que nao se restringiram a compra e venda de seres humanos, mas que degradaram moral e psicologicamente varias geracoes de todo um continente tratando-os como animais; tendo-se com essas praticas enriquecido e prosperado e inclusive construido o que e’ hoje a maior potencia mundial… enquanto o continente de origem desses escravos foi sistematicamente delapidado, durante e depois do periodo esclavista, nao so’ do seu capital humano, como tambem das suas riquezas naturais, sem qualquer reparacao. Os pedidos de desculpa neste contexto, nao constituem apenas um acto formal ou ‘hipocrita’, mas um acto moral que pode em muito contribuir para a pacificacao e conciliacao dos espiritos de todas as partes envolvidas (vi, por exemplo, ha’ dias, homens adultos negros americanos a chorarem desesperadamente durante uma visita ao museu da escravatura na ilha de Goree’…). A escravatura nao foi apenas um “acidente” ultrapassado pela Historia, foi um processo que durou seculos e que deixou sequelas profundas em Africa e em varias geracoes de africanos e seus descendentes, sobretudo nas Americas (veja-se, por exemplo, o caso do Haiti no texto que anexei ao post), que perduram ate’ hoje… admita-se, ou nao.

Obrigada, mais uma vez caro amigo, por lancar achas enriquecedoras para a reflexao/discussao.

Patricio said...

Koluki,

Obrigado pela informacao adicional,
e pela sua dissertacao como resposta ao senhor Silvera.

Efectivamente, esses pontos sao bastante importantes e nem toda gente e capaz de os abordar e articular da forma em que ambos o fizeram.

E efectivamente, muito bom existir alguem que se da ao trabalho de investigar os factos e expo-los de forma sa, como voce o fez. Desemcobrir as distorcoes/bias imbutidas em certas versoes historicas e o primeiro passo.

Se o passado continuar a ser mal entendido ou explicado como tem sido por todas as partes sera muito dificil sermos capazes de abordar e resolver com a perspectiva correcta os problemas que afligem a raca negra, e que fazem com o seu futuro pareca ou talvez seja mesmo muito sombrio.

Grato

Koluki said...

Obrigada Patricio.
E seja sempre bem vindo tambem com as suas optimas contribuicoes.

Nao acho que o futuro seja assim tao sombrio... como se fala cada vez mais em recolonizacao de Africa e com o cada vez maior numero de Africanos a emigrarem para a Europa pode ser que no futuro acabemos todos por trocar de continentes... E tambem pode ser que depois os novos colonos de Africa venham recolonizar a Europa para capturarem escravos para irem trabalhar para eles em Africa, mas nao sei quem tera' entao mais probabilidades de ganhar as guerras que dai advirao... Quem sabe? Tudo e' possivel!

Koluki said...

COMENTARIOS ERRONEAMENTE FEITOS NUM OUTRO POST:

Thursday, March 29, 2007
Maria Muadié said...
Koluki, fiquei intrigada com este texto que te mandarei agora. Saiu hoje na Folha de São Paulo, escrito por um colunista que é psicanalista. Por causa da sua postagem anterior, estou te mandando pra você ler este ponto de vista. Um beijo.

CONTARDO CALLIGARIS

O "mea-culpa" pela escravatura
As desculpas retroativas pela escravatura parecem ser sinais da volta do racismo

O REINO Unido celebra os 200 anos da abolição do comércio de escravos. Tony Blair expressou seu pesar pelo antigo papel dos britânicos no tráfico.
Como assinala Marco Aurélio Canônico na Folha do dia 24, os aniversários anteriores passaram sem destaque especial. O historiador John Oldfield, citado por Canônico, atribui o interesse atual pelo aniversário às mudanças na sociedade britânica: o "mea-culpa" seria um jeito de agradar às massas de imigrantes das ex-colônias, facilitando sua integração. Quem dera...
O processo da abolição da escravatura é uma longa jornada da consciência ocidental; começou nos primeiros séculos da cristandade, com o sucesso da idéia de que o limite da humanidade não é a tribo, a raça ou a fé, mas é a própria espécie: somos irmãos, simplesmente por sermos humanos. Hoje, por um sentimento espontâneo e imediato, qualquer ser humano é "dos nossos". No passado e em outras culturas, já foi e ainda é banal considerar que nosso semelhante é só quem dorme na toca da gente.
A idéia de uma comunidade da espécie humana é uma invenção, se não exclusiva, no mínimo peculiar da cultura ocidental. E, sem essa idéia, vinga a tentação de usar e possuir o outro (diferente e, portanto, subumano) como um objeto.
Em suma, o aniversário do dia 25 deveria ser uma festa para todos - no caso, todos os cidadãos e residentes do Reino Unido, celebrando juntos sua igualdade de princípio.
Ora, as desculpas pela escravatura sugerem uma divisão: de um lado, há os "descendentes de escravos", do outro, os "descendentes de escravocratas". É curioso, pois, na modernidade ocidental, presume-se que ninguém se defina como "descendente de": se somos todos humanos, indiferentemente, é também porque somos definidos não pelo passado, mas por nossas potencialidades futuras.
Entende-se que os ditos "descendentes de escravos" (cuja cultura de origem pode ser escravocrata) sejam, eventualmente, enredados numa divisão subjetiva dolorosa: aderir à cultura que os acolhe como cidadãos (porque, para ela, só há homens livres) significa renegar sua tradição.
Mais complicado é entender as desculpas dos ditos "descendentes de escravocratas", pois qual é o sentido da desculpa retroativa de quem não se define pelo seu passado?
Versão otimista: hoje, por termos "evoluído", enxergaríamos o horror de um passado que não nos define, que não é o da gente, mas que, afinal, carregava nosso nome.
Tony Blair não tem nada a ver com os ministros dos séculos 17 e 18, salvo a referência comum a um "Reino Unido" que, aliás, não é mais o mesmo país.
Versão realista (a de Oldfield): as desculpas constituem uma homenagem (forçada) aos imigrantes, que são os novos cidadãos do Ocidente.
Minha versão é pessimista. A necessidade de se desculpar pela escravatura não vem do sentimento (improvável) de uma responsabilidade retroativa nem da vontade (duvidosa) de desejar as boas-vindas aos africanos. As desculpas se parecem mais com os desagravos preventivos e hipócritas que são pronunciados quando a gente está à beira de fazer uma besteira: "Desculpe, mas vou ter de lhe dar um soco na cara". Explico.
As diferenças que a Europa deveria integrar hoje não são maiores do que as que povoaram as Américas, por exemplo, no começo do século passado. As Américas tentaram diluir as diferenças transformando todos em puros agentes econômicos: "Esqueça-se de suas origens e pense em fazer fortuna".
A Europa, zelosa de sua história e de suas identidades nacionais, pode dificilmente pedir a seus imigrantes que se esqueçam do passado deles. Com isso, na Europa, as diferenças não se perdem, se agudizam.
As desculpas de hoje, justamente, parecem assinalar uma intolerância crescente. "Desculpe-me por tê-lo escravizado no passado" é um jeito de lembrar que o passado continua valendo, e, nesse passado, você foi escravo, eu não. Ou seja, não somos bem humanos da mesma forma.
Em 1973, um psicanalista francês, Jacques Lacan, previa a subida do racismo. Na época, antes das recentes ondas de imigração do Terceiro Mundo para a Europa, suas palavras pareciam estranhas: afinal, não estávamos no meio do luminoso caminho da tolerância? Hoje, obviamente, elas parecem proféticas. E as pretensas desculpas pelo passado escravagista parecem ser mais uma inquietante confirmação do pressentimento de Lacan.

ccalligari@uol.com.br

Thursday, March 29, 2007
Koluki said...
Querida Martha,

Obrigada por esta contribuicao.
So' e' pena nao a ter colocado no post devido, mas nao faz mal.

Olhe Martha, neste momento acabei de postar um outro artigo no Africanpath e sinceramente nao tenho cabeca para muito mais neste momento.

De qualquer modo, li o artigo e o que tenho a dizer de imediato e' o seguinte:

1. Parece-me no minimo arrogante que um psicanalista do pais que, sob muitos pontos de vista, e' considerado o pais mais racista do mundo e que contem a maior populacao de Africanos descendentes de escravos fora de Africa, se permita fazer uma analise psicanalitica nao apenas de um individuo, mas de toda uma nacao a milhas de distancia e suas motivacoes supostamente "racistas"...

2. O psicanalista em causa, bem como o outro autor que ele repetidamente cita, demonstram desconhecer completamente a historia das comunidades negras no UK e a composicao dessas comunidades. Mas nao sou eu quem vai dar o seu tempo para o elucidar sobre isso, ja' que ele parece estar tao certo das suas conviccoes...

3. Caso ele nao saiba, o UK tambem tem psicanalistas e foi aqui que Freud (por sinal bem perto de onde moro) exerceu a maior parte da sua actividade e nao me parece que algum deles tambem iria perder muito tempo com esse tipo de analises que suponho eles considerariam, no minimo, "far-fetched" e, no maximo, uma defesa consciente, inconsciente ou subconsciente do sistema racial no Brasil e da incapacidade das suas classes dominantes de sequer considerarem uma atitude como a que as instituicoes do UK acabam de assumir... Com que direito se sente ele, por exemplo, de pretender falar em nome de um Tony Blair que se juntou as celebracoes desta efemeride e ao pedido de desculpas?

Bom, minha querida, decididamente, tenho mais preocupacoes com que ocupar o meu tempo, por isso apenas sugeriria que ele tomasse nota das declaracoes dos dignitarios da Igreja Anglicana que sublinhei no post a que elas se referem.

Desculpe-me Martha se pareco um pouco rispida, mas para alem das razoes que ja mencionei, esta nao e' a primeira vez que leio este tipo de discursos por parte de "intelectuais" brasileiros... so' e' pena que eles nao escrevam em Ingles e publiquem esses artigos em revistas cientificas internacionais para terem resposta dos seus homologos nao so' Britanicos como de outras partes do mundo.

De qualquer modo agradeco-lhe a contribuicao porque talvez haja entre os outros leitores quem esteja interessado em se debrucar mais profundamente sobre esse artigo.

Um beijo.

Thursday, March 29, 2007
Koluki said...
Martha,

Ao deambular pelos meus arquivos no computador, tropecei neste apontamento, que me lembro de ter traduzido de um jornal das comunidades hispanicas aqui na Inglaterra. Fiquei curiosa em saber a sua opiniao sobre estes dados:

Segundo o Relatorio de Desenvolvimento Humano 2005 do PNUD: com a segunda maior populacao negra do mundo (44.7 da populacao e’ afrodescendente) estes vivem 5 anos menos que os brancos, sofrem 4 vezes mais homicidios, recebem apenas 26% dos rendimentos nacionais e teem mais do dobro de analfabetos do que aqueles; de 1992 a 2001 o numero total de pobres baixou em 5 milhoes de pessoas, mas os negros nessa categoria aumentaram em 500 mil; entre os 10% mais pobres da populacao, 70% sao negros, enquanto que entre os 10% mais ricos apenas 16% sao negros.

O Brasil ocupou o 73ro lugar no Indice de Desenvolvimento Humano da ONU de 2000, mas se contabilizassem apenas os brancos saltaria ao 44to lugar e se se contassem apenas os negros e mulatos cairia para o 105to, uma diferenca de 65 posicoes.

O documento evidencia tambem o que qualifica de “pobreza politica” no pais, ao privar-se os negros de acesso a cargos de decisao nas varias esferas do poder.

Jose Libanio, do Centro Internacional contra a Pobreza da ONU, afirmou que o estudo “mostra que a desigualdade entre brancos e negros e’ algo que nao se altera na sociedade brasileira, de forma sempre desfavoravel a estes ultimos.”

Diva Moreira, editora do relatorio, vaticinou que “este estudo desfaz de uma vez o mito de que as relacoes raciais no Brasil sao harmoniosas e nao havera solucao para problemas como pobreza e violencia sem que as politicas publicas actuem directamente para diminuir a discriminacao.”

Outro estudo realizado pelo Instituto de Pesquisa Economica Aplicada da ONU e o Fundo de Desenvolvimento da ONU para a Mulher (UNIFEM), indicou que as mulheres negras, as mais afectadas pela discriminacao, recebem em media salarios equivalentes a 30% do que se paga aos homens brancos, enquanto que as trabalhadoras domesticas brancas ganham em media entre 3.3 e 4.7 vezes mais do que as negras, num universo em que 20% da populacao branca e 43% da negra vivem abaixo da linha de pobreza.

A ministra brasileira para a Promocao da Igualdade Racial, Matilde Ribeiro, afirmou aquando da apresentacao destes dados que “sabemos que a populacao negra e’ a mais pobre entre os pobres e que as mulheres negras sao ainda mais pobres que os homens.”

Denise Pacheco, funcionaria superior daquela instituicao acrescentou que “estes dados demonstram o que o periodo colonial deixou para a nossa sociedade. O lugar das mulheres negras, objectivamente, e’ o trabalho domestico. E’ evidente que essa discriminacao e’ de raca, genero e classe.”

Entretanto, o Senado do Brasil aprovou o “Estatuto de Igualdade Racial” que visa enfrentar a discriminacao que afecta os brasileiros afrodescendentes e aborda aspectos da saude, educacao, trabalho, direitos humanos e a propriedade da terra, mas que ainda se encontra pendente na Camara de Deputados.

Saturday, March 31, 2007
Maria Muadié said...
Te digo, amiga, que esta é uma questão realmente delicada e complexa. Após séculos, finalmente, estamos começando a nos olhar e a admitir o quanto, infelizmente, o nosso país é racista.
Convivemos no Brasil com uma violência absurda. Violência urbana, muitas mortes no trânsito, a violência da desigualdade social, a falta de atendimento de qualidade de saúde para grande parte da população, falta de moradia, etc....Imagine que ainda é comum mulheres serem assassinadas por seus companheiros nos chamados crimes passionais, mulheres de diferentes classes sociais e de todas as cores de pele.
Compreendo que as políticas afirmativas têm grande importância e são fruto dos movimentos negros organizados e dos desorganizados também. É um momento importante, quando estamos rompendo, espero que definitivamente, com o mito da democracia racial brasileira.
Há vários aspectos que poderia considerar, muitas coisas para abordar, inclusive não posso desconsiderar a nossa mestiçagem, tanto genética como cultural.
Não sei se vc sabe, mas moro em Salvador, na Bahia. Minha cidade é negra. Dados oficiais mostram que em 2005, 78,8% da população se declarou parda(mestiço) e negra.
Me interesso muito por este assunto, e acho que o que será realmente revolucionário será o dia em que, sem deixar de reconhecer que há diferentes cores de peles, pararmos de dividir as pessoas em raças.
Raça é uma só: humana.

Tuesday, April 03, 2007
Koluki said...
Martha,

Fico contente em saber de uma brasileira culta e consciente que finalmente o grande gigante autoconvencido da sua "impar democracia racial" comeca a despertar de um torpor de seculos que o levou a apresentar hoje os indicadores sociais que os estudos do PNUD e da UNIFEM revelam.
Mas temo que enquanto essas realidades nao forem plenamente interiorizadas e assumidas pelos sectores mais importantes da sociedade e cultura brasileira e nao apenas induzidas de fora por organizacoes internacionais, dificilmente se verificarao mudancas significativas. A mudanca tem que partir de dentro...
Digo isto, porque o que me parece ser o maior problema e' o paradigma cultural dominante nao so' no Brasil, como em praticamente todo o mundo lusofono, baseado precisamente no dogma religiosamente interpretado de que "raca e' so' uma, a humana"... o que sera' verdade, tanto quanto o conceito de raca e' tido como um constructo ideologico, datado no tempo historico. Mas, infelizmente, essa mesma constatacao que noutros contextos poderia ter os qualificativos revolucionarios que a Martha correctamente lhe atribui, nos nossos contextos sociais tem servido precisamente como instrumento de "denial", de negacao da realidade social. Assim a propria abordagem do PNUD, da UNIFEM e de outros organismos especializados, e' tida por sectores "muito bem pensantes" das nossas sociedades ela propria como "racista": porque raca e' so' uma, nao faz sentido fazerem-se estudos com base em estratificacao racial... e assim se mantenhem os problemas sociais intactos, as suas razoes profundas enterradas no mito da "democracia racial" e da "inexistencia" do racismo... e assim se mantenhem a pobreza e violencia que afectam a esmagadora maioria da populacao afrodescendente em total desproporcao comparativamente a populacao branca. Uma situacao equiparavel a do Brasil so' se encontrava ate' ha pouco tempo na Africa do Sul, embora o sistema de apartheid estivesse nos antipodas da "democracia racial"...
Temo bem que Angola esteja a caminhar para o mesmo caminho... E o problema maior para mim e' a incapacidade nas nossas sociedades de se atacar de frente e racionalmente esses problemas. E' tudo muito emotivo, muito "romantico"... o povo esta' bem porque trabalha todo o ano apenas para um fim, o carnaval, ja' dizia uma velha cancao. Ignoram-se ainda as metodologias mais eficientes de estudo, analise e formulacao e implementacao de politicas sociais que esbatam as desigualdades sociais resultantes da discriminacao racial. Denunciam-se politicas como a "accao afirmativa" como sendo elas proprias "racistas" e uma mera imitacao dos EUA, cuja realidade se diz nao ter nada a ver com as nossas sociedades... E sao intelectuais como o Mia Couto e outros, dentre os quais pelo menos um brasileiro que li ha pouco tempo, que assim pensam, advogam e admoestam quem se atreva a sugerir o contrario... e assim se perpetua o racismo nas nossas sociedades... do meu ponto de vista muito pior que o que se verifica nos EUA ou no UK!
E assim seguimos enterrando os mortos da pobreza e da violencia ao longo do ano... ate' ao proximo carnaval...
Escrevi muito: espero ter conseguido dizer alguma coisa. Se nao, tentarei melhor numa proxima oportunidade...

Thursday, April 05, 2007
Koluki said...
PS: esta nao e' ainda a tal "proxima oportunidade; e' apenas para notar como, numa breve releitura do texto que voce aqui colocou no outro dia, o autor "psicanalista" usa a saciedade e ate' em sentidos contraditorios essa tal nocao de "raca humana" para denunciar como "racista" o pedido de desculpas britanico, defendendo algo como "somos todos humanos, logo nao houve vitimas nem algozes da escravatura", tal como sob o mito da "democracia racial" se defende que "somos todos humanos, logo nao ha vitimas nem perpetradores de racismo"... mas mais curioso ainda e' que ele afirme que "a idéia de uma comunidade da espécie humana é uma invenção, se não exclusiva, no mínimo peculiar da cultura ocidental", denotando desconhecer completamente os fundamentos da cultura Bantu, a comecar pelo proprio significado etimologico dessa palavra.

Anonymous said...

Oh, afinal as férias foram bem curtas!
Nao sei se isso é bom pra ti, mas para nosostros que gostamos de vir aqui todos os dias é bué bala!
Bjs.
AR

Canadiano said...

Ja que estou com a mao na massa, passe a expressao,deixe-me tambem dizer algo de minha justica sobre a tendencia que se verifica de alguns misturarem alhos com bugalhos quando se esta a falar do trafico de escravos para as Americas e eles imediatamente apontam o dedo a dita escravatura que os Bantu terao feito aos outros povos africanos. Aqui na nossa congregacao religiosa no Canada, tambem temos vindo a realizar varias actividades e debates sobre o bicentenario e vamos verificando que isso tende a vir sempre de individuos conotados com a extrema direita racista. Nao sou historiador, mas nao tenho duvidas que se isso realmente se verificou certo eh que um mal nao pode justificar outro.
Mais uma vez obrigado por tudo!!

Koluki said...

Oi AR! As minhas ferias ainda nao acabaram... mas tive que reconhecer que realmente as ferias do blog nao passavam de uma ficcao. Portanto, vamos so' andando malembe, malembe...

***

Caro Canadiano,

Mais uma vez obrigada pela acutilancia das suas observacoes. Nao e' por nada, mas sou Mestre de Ciencia em Historia Economica (precisamente a disciplina onde o fenomeno escravatura, em todas as suas vertentes, e' estudado com maior acuidade) com o grau de Merito, pelo departamento universitario com os mais elevados creditos academicos da especialidade em todo o mundo. Por isso, francamente, as vezes prefiro fazer-me passar por parva com respostas tipo "confesso a minha ignorancia sobre isso" do que entrar em debates com escrevinhadores de estorietas que nem nas suas supostas areas de especialidade sao capazes de demonstrar qualquer credibilidade academica...
Quanto aos 'denialistas', eles proprios se teem encarregue de se desmascarar a si proprios, em todos os sentidos do termo. Basta ver que sao os mesmos que usam apelativos tipo "o preto de Belas" nas suas investidas pretensamente "moralizadoras"...
Mas, por falar em 'denialistas', sabe certamente que tambem os ha' em relacao ao holocausto dos judeus e que o mais 'vocal' dentre eles acabou por ser condenado a muitos anos de prisao porque, pelo menos na Europa, e' crime negar o holocausto... Mas pelo menos esse ainda e' Historiador!
Sobre as conotacoes dessas vertentes com a extrema direita racista, meu caro, so' lhe digo que, vivendo nos em sociedades onde ha' debate aberto sobre praticamente todo o tipo de questoes, e-nos muito mais facil identificar imediatamente a origem e as motivacoes de certo tipo de discurso. E devo dizer-lhe que uma das coisas que mais me tem chocado nos meus contactos com a actual sociedade angolana e' a presenca viva nas mentes, discursos e praticas de muito boa gente dos mais sofisticados argumentos da extrema-direita, quer europeia, quer sul-africana...
Enfim, meu caro amigo, tentemos fazer avancar a nossa caravana enquanto os caes e cadelas ladram aos ventos sem conseguirem enganar ninguem sobre as suas verdadeiras motivacoes. A Historia nao tem tempo para eles!

Um grande abraco!

Canadiano said...

Koluki,
Agradecido pelas suas respostas esclarecedoras, volto para lhe dar os parabéns pelo seu sucesso académico. Mas infelizmente a nossa Angola não valoriza os seus verdadeiros quadros e trata os seus filhos como enteados, enfim.
Quanto ao holocausto -- um outro aspecto que apenas se tem falado tímidamente são as reparações pela escravatura. Acho uma grande injustiça que se paguem reparações aos judeus mas quanto se trata dos africanos -- está quieto! Qual a sua opinião?
Grato.

Koluki said...

Muito obrigada, Canadiano. Quanto a Angola e os seus quadros, digamos que eu prefiro por-me no papel de 'giz'...
A questao das reparacoes e' bastante complexa, mas e' evidente que ha' comparativamente as vitimas do holocausto dois pesos e duas medidas, como bem nota. E isso, em minha opiniao, deve-se fundamentalmente a influencia e poder financeiro de que gozam os judeus no ocidente, que com os seus fortissimos lobbies conseguiram nao so todo o apoio que Israel tem tido, como tambem legislacao que permitiu a condenacao do tal 'denialista' - ja' agora, cabe-me corrigir aqui o lapso de me ter referido a ele como Historiador, qdo. deveria ter usado 'h' pequeno, ou nem sequer o considerar como tal, pq. na verdade ele demonstrou nao passar de um ideologo, como tantos 'ologos' que ha' por ai...
Ja' no que toca as reparacoes pela escravatura, a unica comunidade negra na diaspora com influencia politica para fazer vingar tal reivindicacao e' a Americana, mas essa nao tem, nem de perto nem de longe, o clout financeiro que teem os judeus. Portanto, so' mesmo os estados Africanos poderiam vencer essa batalha. Acontece porem que varios deles, a comecar pela maior potencia continental, a Africa do Sul, se nao sao abertamente contra, teem-se mostrado reticentes em suportar essa causa...
Mas a questao nao esta' morta e continua a ser incentivada por varios 'grassroots' (detesto essa palavra, mas e' a que esta' a dar...) movements em toda a diaspora.
Pessoalmente, sou a favor de reparacoes.

Um abraco.

luis said...

Olá koluki,
uma questão: de que forma a ajuda pública ao desenvolvimento, ou so-called "overseas development aid" para África não é (ou pode) ser visto como "reparações"? E pegando na questão da abolição da escravatura...já tenho mencionado em várias conversas por terras lusas o facto de Portugal não pegar no tema como os britânicos têm vindo a fazer, e até os próprios franceses...e sabes o que me dizem os ditos "iluminados"? Portugal foi o primeiro país a abolir a escravatura....e isso parece ser suficiente para lidar com o nosso passado....voilá..

gosto de te ter de volta à blogosfera..

Luís

Koluki said...

Ola' Luis,

Tambem gosto de te ter de volta aqui ao espaco de comentarios. Olha:

1. Embora qdo. me perguntam de que lado da questao estou eu diga que, formal e eticamente, sou a favor de reparacoes, intimamente acho que nao ha' reparacoes possiveis pela escravatura a nao ser aquelas que as proprias vitimas e seus descendentes possam suprir espiritualmente a si proprias... E e' de facto isso o que tem estado a acontecer desde a abolicao;

2. Quanto a APD, eu diria que se ela pode ser vista como reparacao por alguma coisa, sera' quanto muito pela colonizacao... Mas recomendo-te vivamente que vejas este podcast da 'minha heroina' Ngozi: http://www.africanpath.com/p_blogEntry.cfm?blogEntryID=2089

3. "Portugal foi o primeiro pais a abolir a escravatura"? Contem-me la' isso muito bem?! E mesmo que tivesse sido, a questao aqui e' sobre a atitude actual das nacoes envolvidas em relacao ao trafico de escravos, nao sobre quem dobrou primeiro o Cabo da Boa Esperanca...

Bjs.