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Monday, 23 August 2010

SUNDAY TELLY [R]*

Sou uma daquelas “estranhas criaturas” que pouca ou nenhuma televisao veem ao longo da vida… Em ‘media agregada’ devo ver umas 2 a 3 horas/dia durante uns 3 a 6 meses/ano de TV. Trata-se de um ‘habito’ que criei inicialmente em Angola, onde e quando pouco ou nada das curtas emissoes da TPA (ainda estavam muito longe os tempos da 'Multichoice'...), frequente e longamente interrompidas pela falta de electricidade, me interessava. Um ‘habito’ que mantive noutros paises em que entretanto tenho vivido, por se ter tornado um habito e porque a minha vida – centrada a volta de leituras e escrituras – nao me deixa espaco ou tempo suficientes para olhares ‘para fora’ dos livros/papers/artigos/folhas de papel ou laptop screens, ou, nos momentos de lazer individual, dos espacos naturais exteriores sem os quais nao sobrevivo e, dependendo dos meus moods, do meu xadrez electronico (chama-se Kasparov e fala…) ou, mais recentemente, do meu Sudoku igualmente electronico (nao tem nome proprio e nao fala, emite apenas alguns sons irritantes que imediatamente desligo assim que comeco um jogo…).
A radio, essa sim, e’ e sempre foi a minha companheira indispensavel.

Vem isto a proposito de nos ultimos 3 a 4 meses nao ter visto praticamente nenhuma TV, a excepcao de um ou dois programas ocasionais, e de por isso nao ter visto a ultima serie do Big Brother UK… E, pelo que vim a saber depois, com muita pena minha porque ela produziu o primeiro vencedor negro de sempre, tanto no UK como na Europa, Brian Belo.

Vem isto tambem a proposito da multiplicidade de possiveis diferentes olhares, leituras e visoes que se podem ter, obter, ou fazer do BB, que variam de espectador para espectador, de cultura para cultura e de pais para pais – no UK, os regulamentos das emissoes televisivas apenas permitem a projeccao de “imagens ou linguagem eventualmente chocantes” fora da chamada watershed, ou seja depois de ‘horas decentes’ e quem as quiser ver tera’, por "vontade propria", que ficar a pe’ durante a noite para as chamadas edicoes uncut, para as quais definitivamente nao tenho tempo, interesse ou inclinacao – por isso nunca vi tais cenas em nenhuma das edicoes, ou fragmentos delas, do BB que tive oportunidade de ver ate’ agora, embora tenha lido sobre cenas de 'sexo explicito' envolvendo particularmente uma concorrente Zambiana do Big Bráder UK e, mais recentemente, a participante Angolana na corrente edicao do Big Bréder Africa (isto para apenas mencionar as Africanas, porque entre as Europeias julgo saber que isso e' bastante comum - afinal, a 'tristemente celebre' Jade Goody virou celebrity precisamente por isso...).

Num post que
aqui publiquei ha’ ja' um tempo, falei um pouco do que me interessa no BB e sao as mesmas razoes nele apontadas que me fazem sentir pena de nao ter visto esta ultima edicao. Tal como tive pena de ter perdido a “prestacao” da concorrente Angolana na primeira serie do BB Africa – o que aconteceu porque na altura estava tambem num daqueles periodos em que nao via televisao ha’ meses. Mas, voltando aos possiveis diferentes olhares, leituras e visoes que se podem ter, obter, ou fazer do BB, tenho para mim que cada um ve nele o que procura, ou o que os preconceitos que informam os seus olhares projectam.

A esse proposito devo dizer, nao sem alguma reluctancia, por razoes que teem a ver precisamente com os olhares e leituras dos outros, que sou tambem uma daquelas “estranhas criaturas” que teem uma absoluta aversao a pornografia, ou a qualquer dos seus associados como o chamado voyeurismo, e que, incidentalmente, considero tao pornograficas as imagens que certas criaturas insanas na ‘lusosfera’ tentaram a viva forca colar a minha poesia (en passant, nao deixa de ser interessante notar que, sobre os mesmos poemas, o intelectual Angolano Nelson Pestana ‘Bonavena’ escreveu, nos idos dos anos 80 em Luanda, no saudoso “Archote”, uma recensao critica sob o titulo, tanto quanto me lembro, “A Intertextualidade entre Sabores, Odores & Sonho e o texto Biblico”…) como certos relatos de ‘momentos intimos’ com mulheres Tchokwe’ algures no leste de Angola - e estes, em particular, de um voyeurismo absolutamente mais repulsivo, obsceno e condenavel do que qualquer outro devido as questoes eticas, deontologicas, morais e culturais, enfim de valores, principios e conceitos, a eles subjacentes e que, tal como as imagens de 'sexo explicito' em que a concorrente Angolana no BB Africa se tera' envolvido "por vontade propria", nao teem outra serventia senao perpetuar os tradicionais estereotipos negativos e exoticos a volta da imagem mediatica da mulher Africana (e muito especialmente da Angolana - mas a isto voltarei noutra ocasiao), especialmente quando precedidos de 'inuendos' e 'promessas' aliciatorias a um publico bloguista absolutamente despreparado para as ver

Alias, considero tao idioticas, absurdas, pateticas, ridiculas e doentias as criaturas que esperam encontrar no BB a ‘pedra filosofal’, como as que ‘conseguem’ ver pornografia nos frescos da Capela Sistina (que as ha'!)… Mas sobre isso ja’ Freud explicou uma parte, Chomsky outra, Germaine Greer - a mais 'iconica' feminista do mundo 'anglofono' depois de Virginia Woolf (que, ja' agora note-se, expressou recentemente num dos mais prestigiados programas culturais da TV Britanica - o Newsnight Review - a sua absoluta repulsao pelo ballet classico!), e que participou numa das versoes celebrity do BB UK, que lamento tambem nao ter visto - ainda outra, e Noemia de Sousa outra ainda...


Bom Domingo e Boa Semana!

*[First posted 23/09/07]
Sou uma daquelas “estranhas criaturas” que pouca ou nenhuma televisao veem ao longo da vida… Em ‘media agregada’ devo ver umas 2 a 3 horas/dia durante uns 3 a 6 meses/ano de TV. Trata-se de um ‘habito’ que criei inicialmente em Angola, onde e quando pouco ou nada das curtas emissoes da TPA (ainda estavam muito longe os tempos da 'Multichoice'...), frequente e longamente interrompidas pela falta de electricidade, me interessava. Um ‘habito’ que mantive noutros paises em que entretanto tenho vivido, por se ter tornado um habito e porque a minha vida – centrada a volta de leituras e escrituras – nao me deixa espaco ou tempo suficientes para olhares ‘para fora’ dos livros/papers/artigos/folhas de papel ou laptop screens, ou, nos momentos de lazer individual, dos espacos naturais exteriores sem os quais nao sobrevivo e, dependendo dos meus moods, do meu xadrez electronico (chama-se Kasparov e fala…) ou, mais recentemente, do meu Sudoku igualmente electronico (nao tem nome proprio e nao fala, emite apenas alguns sons irritantes que imediatamente desligo assim que comeco um jogo…).
A radio, essa sim, e’ e sempre foi a minha companheira indispensavel.

Vem isto a proposito de nos ultimos 3 a 4 meses nao ter visto praticamente nenhuma TV, a excepcao de um ou dois programas ocasionais, e de por isso nao ter visto a ultima serie do Big Brother UK… E, pelo que vim a saber depois, com muita pena minha porque ela produziu o primeiro vencedor negro de sempre, tanto no UK como na Europa, Brian Belo.

Vem isto tambem a proposito da multiplicidade de possiveis diferentes olhares, leituras e visoes que se podem ter, obter, ou fazer do BB, que variam de espectador para espectador, de cultura para cultura e de pais para pais – no UK, os regulamentos das emissoes televisivas apenas permitem a projeccao de “imagens ou linguagem eventualmente chocantes” fora da chamada watershed, ou seja depois de ‘horas decentes’ e quem as quiser ver tera’, por "vontade propria", que ficar a pe’ durante a noite para as chamadas edicoes uncut, para as quais definitivamente nao tenho tempo, interesse ou inclinacao – por isso nunca vi tais cenas em nenhuma das edicoes, ou fragmentos delas, do BB que tive oportunidade de ver ate’ agora, embora tenha lido sobre cenas de 'sexo explicito' envolvendo particularmente uma concorrente Zambiana do Big Bráder UK e, mais recentemente, a participante Angolana na corrente edicao do Big Bréder Africa (isto para apenas mencionar as Africanas, porque entre as Europeias julgo saber que isso e' bastante comum - afinal, a 'tristemente celebre' Jade Goody virou celebrity precisamente por isso...).

Num post que
aqui publiquei ha’ ja' um tempo, falei um pouco do que me interessa no BB e sao as mesmas razoes nele apontadas que me fazem sentir pena de nao ter visto esta ultima edicao. Tal como tive pena de ter perdido a “prestacao” da concorrente Angolana na primeira serie do BB Africa – o que aconteceu porque na altura estava tambem num daqueles periodos em que nao via televisao ha’ meses. Mas, voltando aos possiveis diferentes olhares, leituras e visoes que se podem ter, obter, ou fazer do BB, tenho para mim que cada um ve nele o que procura, ou o que os preconceitos que informam os seus olhares projectam.

A esse proposito devo dizer, nao sem alguma reluctancia, por razoes que teem a ver precisamente com os olhares e leituras dos outros, que sou tambem uma daquelas “estranhas criaturas” que teem uma absoluta aversao a pornografia, ou a qualquer dos seus associados como o chamado voyeurismo, e que, incidentalmente, considero tao pornograficas as imagens que certas criaturas insanas na ‘lusosfera’ tentaram a viva forca colar a minha poesia (en passant, nao deixa de ser interessante notar que, sobre os mesmos poemas, o intelectual Angolano Nelson Pestana ‘Bonavena’ escreveu, nos idos dos anos 80 em Luanda, no saudoso “Archote”, uma recensao critica sob o titulo, tanto quanto me lembro, “A Intertextualidade entre Sabores, Odores & Sonho e o texto Biblico”…) como certos relatos de ‘momentos intimos’ com mulheres Tchokwe’ algures no leste de Angola - e estes, em particular, de um voyeurismo absolutamente mais repulsivo, obsceno e condenavel do que qualquer outro devido as questoes eticas, deontologicas, morais e culturais, enfim de valores, principios e conceitos, a eles subjacentes e que, tal como as imagens de 'sexo explicito' em que a concorrente Angolana no BB Africa se tera' envolvido "por vontade propria", nao teem outra serventia senao perpetuar os tradicionais estereotipos negativos e exoticos a volta da imagem mediatica da mulher Africana (e muito especialmente da Angolana - mas a isto voltarei noutra ocasiao), especialmente quando precedidos de 'inuendos' e 'promessas' aliciatorias a um publico bloguista absolutamente despreparado para as ver

Alias, considero tao idioticas, absurdas, pateticas, ridiculas e doentias as criaturas que esperam encontrar no BB a ‘pedra filosofal’, como as que ‘conseguem’ ver pornografia nos frescos da Capela Sistina (que as ha'!)… Mas sobre isso ja’ Freud explicou uma parte, Chomsky outra, Germaine Greer - a mais 'iconica' feminista do mundo 'anglofono' depois de Virginia Woolf (que, ja' agora note-se, expressou recentemente num dos mais prestigiados programas culturais da TV Britanica - o Newsnight Review - a sua absoluta repulsao pelo ballet classico!), e que participou numa das versoes celebrity do BB UK, que lamento tambem nao ter visto - ainda outra, e Noemia de Sousa outra ainda...


Bom Domingo e Boa Semana!

*[First posted 23/09/07]

Sunday, 28 March 2010

CUBA! AFRICA! REVOLUTION! [R]*

[Em memoria da Batalha do Kuito Kwanavale]


A segunda parte desta serie foi exibida ontem, como previsto, e concentrou-se exclusivamente no periodo imediatamente anterior ao 11 de Novembro e ao pos-independencia de Angola.

Um dos primeiros intervenientes foi Jorge Valentim, que relatou o ambiente de desconfianca existente durante as negociacoes de Penina em que, citando-o, “no hotel de quatro andares em que as partes foram hospedadas, o r/c era destinado as reunioes plenarias, o primeiro andar a UNITA, o segundo a FNLA, o terceiro ao MPLA e o quarto aos Portugueses”… o que, para alem da ideia de hierarquia, tera’ criado nos hospedados nos primeiro e segundo andares um clima de suspeicao em relacao aos hospedados nos andares de cima ou, para usar a sua expressao, uma constante sensacao de “plotting going on up there”…

Outro interveniente pela UNITA foi Tony da Costa Fernandes, que relatou o encontro entre Savimbi e Reagan alguns anos mais tarde, ao fim do qual Reagan tera’ ordenado aos seus assistentes militares: “o homem quer os Stingers… nos nao os demos nem sequer aos nossos amigos Sul-Koreanos... but, if he wants the Stingers, give him the Stingers”! Outros intervenientes de destaque foram Ngola Kabango pela FNLA, Paulo Jorge, Ndalu e Onambwe pelo MPLA, Chester Crocker pelos Americanos, Jorge Risquet pelos Cubanos e Pik Botha pelos Sul-Africanos.

O episodio foi marcado por uma remarcavel boa disposicao, sobretudo por parte de Onambwe e Ndalu (“o sorriso dos vencedores”?), com anedotas a volta do relato de alguns dos episodios mais criticos do periodo em analise. Por qualquer razao, as anedotas foram quase todas a volta de charutos cubanos… Onambwe conta como Neto, que nunca tinha fumado na vida, uma vez acende um charuto cubano durante uma reuniao e quando da’ conta de que esta’ toda a gente a olhar para ele, levanta o charuto e diz: foi o Fidel que me mandou! ... Ndalu recorda a poluicao provocada nas salas de reunioes das negociacoes a volta da batalha do Kuito Kwanavale pelos charutos de Jorge Risquet, enquanto este explica que o fazia so’ para irritar Americanos e Sul-Africanos…

Uma das poucas anedotas que nao teve a ver com charutos cubanos foi contada por Crocker que recorda como era facil monitorar os movimentos dos cubanos: segundo ele, sempre que aparecia um campo de baseball algures, era sinal de que os cubanos tinham chegado, ou estavam para chegar, aquela localidade; sempre que desaparecia um campo de baseball, era porque os cubanos tinham abandonado a localidade... O que me fez lembrar de um "ditado", tipo nota "precaucionaria" para automobilistas, que se usava (sera' que ainda se usa?) la' na banda: "tal como atras de uma bola vem sempre uma crianca, atras de um porco vem sempre um cubano"!


Os momentos mais serios sao trazidos por Pik Botha que acusa Risquet de, para alem de poluir o ambiente com os seus charutos, ter sido “vicious” logo no inicio das tais reunioes, acusando os Sul-Africanos de serem “racistas, fascistas e de so’ provocarem dissabores onde quer que se envolvessem” (… como se isso fosse alguma mentira!). Entretanto, Ndalu recorda das mesmas reunioes, sempre com o seu sorriso, ter perguntado a Botha, depois de este ter acusado os Cubanos de “adoptarem falsa nacionalidade Angolana e de se casarem com Angolan(a)os para permanecerem em Angola”, “quantos negros estavam encarcerados na Africa do Sul”… ao que Botha tera’ arregacado as mangas e dito: “se eu fosse mais jovem, respondia a essa pergunta com socos! Eu nao tenho medo de ti!... Vamos la' para fora!...”

Mas no fim de tudo, Botha afirma que num dos bares do Cairo, onde teve lugar uma das ultimas sessoes das negociacoes despoletadas pela batalha do Kuito Kwanavale, ele tera’ dito a Risquet: “Ja’ imaginou que poderemos os dois sair vencedores desta disputa? Cuba retira-se e podera’ reclamar ter permitido a independencia da Namibia e eu posso voltar e dizer ao eleitorado branco Sul-Africano que nos livramos dos Cubanos. Isso fara’ de nos ambos vencedores!”… Ao que Risquet se tera’ engasgado na sua bebida e decidido ponderar sobre o assunto, dando lugar ao acordo que finalmente consagrou a total retirada das tropas Cubanas de Angola, a independencia da Namibia e a libertacao de Mandela...

O episodio termina com esta afirmacao de Risquet: “… de 24 de Abril de 1965, quando Che atravessou o Lago Tanganyka e chegou ao Congo, ate’ 25 de Maio de 1991, quando foi assinado o acordo de retirada das tropas Cubanas de Angola, transcorreu a grande epopeia de Cuba em Africa… exactamente um quarto de seculo, um ano, um mes e um dia!”

Entretanto, no computo final, pelo menos 10 mil Cubanos sao contabilizados como mortos em Angola...

E eu tive a oportunidade de ouvir algo de que quase me tinha esquecido: Fidel referir-se a nosotros como “los Angoleños”…

(Ler sobre a primeira parte aqui)


*[First posted 03/05/07]


Post relacionado: Jacob Zuma in Angola
[Em memoria da Batalha do Kuito Kwanavale]


A segunda parte desta serie foi exibida ontem, como previsto, e concentrou-se exclusivamente no periodo imediatamente anterior ao 11 de Novembro e ao pos-independencia de Angola.

Um dos primeiros intervenientes foi Jorge Valentim, que relatou o ambiente de desconfianca existente durante as negociacoes de Penina em que, citando-o, “no hotel de quatro andares em que as partes foram hospedadas, o r/c era destinado as reunioes plenarias, o primeiro andar a UNITA, o segundo a FNLA, o terceiro ao MPLA e o quarto aos Portugueses”… o que, para alem da ideia de hierarquia, tera’ criado nos hospedados nos primeiro e segundo andares um clima de suspeicao em relacao aos hospedados nos andares de cima ou, para usar a sua expressao, uma constante sensacao de “plotting going on up there”…

Outro interveniente pela UNITA foi Tony da Costa Fernandes, que relatou o encontro entre Savimbi e Reagan alguns anos mais tarde, ao fim do qual Reagan tera’ ordenado aos seus assistentes militares: “o homem quer os Stingers… nos nao os demos nem sequer aos nossos amigos Sul-Koreanos... but, if he wants the Stingers, give him the Stingers”! Outros intervenientes de destaque foram Ngola Kabango pela FNLA, Paulo Jorge, Ndalu e Onambwe pelo MPLA, Chester Crocker pelos Americanos, Jorge Risquet pelos Cubanos e Pik Botha pelos Sul-Africanos.

O episodio foi marcado por uma remarcavel boa disposicao, sobretudo por parte de Onambwe e Ndalu (“o sorriso dos vencedores”?), com anedotas a volta do relato de alguns dos episodios mais criticos do periodo em analise. Por qualquer razao, as anedotas foram quase todas a volta de charutos cubanos… Onambwe conta como Neto, que nunca tinha fumado na vida, uma vez acende um charuto cubano durante uma reuniao e quando da’ conta de que esta’ toda a gente a olhar para ele, levanta o charuto e diz: foi o Fidel que me mandou! ... Ndalu recorda a poluicao provocada nas salas de reunioes das negociacoes a volta da batalha do Kuito Kwanavale pelos charutos de Jorge Risquet, enquanto este explica que o fazia so’ para irritar Americanos e Sul-Africanos…

Uma das poucas anedotas que nao teve a ver com charutos cubanos foi contada por Crocker que recorda como era facil monitorar os movimentos dos cubanos: segundo ele, sempre que aparecia um campo de baseball algures, era sinal de que os cubanos tinham chegado, ou estavam para chegar, aquela localidade; sempre que desaparecia um campo de baseball, era porque os cubanos tinham abandonado a localidade... O que me fez lembrar de um "ditado", tipo nota "precaucionaria" para automobilistas, que se usava (sera' que ainda se usa?) la' na banda: "tal como atras de uma bola vem sempre uma crianca, atras de um porco vem sempre um cubano"!


Os momentos mais serios sao trazidos por Pik Botha que acusa Risquet de, para alem de poluir o ambiente com os seus charutos, ter sido “vicious” logo no inicio das tais reunioes, acusando os Sul-Africanos de serem “racistas, fascistas e de so’ provocarem dissabores onde quer que se envolvessem” (… como se isso fosse alguma mentira!). Entretanto, Ndalu recorda das mesmas reunioes, sempre com o seu sorriso, ter perguntado a Botha, depois de este ter acusado os Cubanos de “adoptarem falsa nacionalidade Angolana e de se casarem com Angolan(a)os para permanecerem em Angola”, “quantos negros estavam encarcerados na Africa do Sul”… ao que Botha tera’ arregacado as mangas e dito: “se eu fosse mais jovem, respondia a essa pergunta com socos! Eu nao tenho medo de ti!... Vamos la' para fora!...”

Mas no fim de tudo, Botha afirma que num dos bares do Cairo, onde teve lugar uma das ultimas sessoes das negociacoes despoletadas pela batalha do Kuito Kwanavale, ele tera’ dito a Risquet: “Ja’ imaginou que poderemos os dois sair vencedores desta disputa? Cuba retira-se e podera’ reclamar ter permitido a independencia da Namibia e eu posso voltar e dizer ao eleitorado branco Sul-Africano que nos livramos dos Cubanos. Isso fara’ de nos ambos vencedores!”… Ao que Risquet se tera’ engasgado na sua bebida e decidido ponderar sobre o assunto, dando lugar ao acordo que finalmente consagrou a total retirada das tropas Cubanas de Angola, a independencia da Namibia e a libertacao de Mandela...

O episodio termina com esta afirmacao de Risquet: “… de 24 de Abril de 1965, quando Che atravessou o Lago Tanganyka e chegou ao Congo, ate’ 25 de Maio de 1991, quando foi assinado o acordo de retirada das tropas Cubanas de Angola, transcorreu a grande epopeia de Cuba em Africa… exactamente um quarto de seculo, um ano, um mes e um dia!”

Entretanto, no computo final, pelo menos 10 mil Cubanos sao contabilizados como mortos em Angola...

E eu tive a oportunidade de ouvir algo de que quase me tinha esquecido: Fidel referir-se a nosotros como “los Angoleños”…

(Ler sobre a primeira parte aqui)


*[First posted 03/05/07]


Post relacionado: Jacob Zuma in Angola

Tuesday, 9 June 2009

COISAS QUE SE PODEM VER NA TV ANGOLANA

in Novo Jornal, ed. 72 - Caderno Mutamba
in Novo Jornal, ed. 72 - Caderno Mutamba

Thursday, 24 July 2008

HERE'S SOME COMPULSORY VIEWING...

THE BLACK IN AMERICA SERIES ON CNN



This time the word compulsory is actually meant for everyone - Black and White, American or not! Except maybe for those of you who only have eyes for Obama in Germany today...
I watched the first part of this series ("Black Women & Family") yesterday and am looking forward to the second part ("The Black Man") this evening. Watch it if you can!

Saturday, 15 March 2008

TIBET

Two days ago, I stayed up late into the night watching an episode of a new BBC documentary series, “A Year In Tibet” , whose advert, featuring an excerpt from the song “Ordinary People” by John Legend, I had been seeing in the last few days.

According to its producers, “the documentary follows a calendar year inside the secret confines of a Tibetan monastery and charts the lives of those living in Gyanste, the small town which surrounds it and surrounding villages. The series examines the reality of life today for Tibetans living under Chinese rule. The filming crew has gained unparalleled access to one of the most isolated and spiritual parts of the world and their cameras were the first ever allowed to follow members of the community, offering the Western audience a rare insight into their lives, religion, servitude and family.”

Yesterday, as I started following reports of the protests in Lhasa and other locations in Tibet and India, all I could think of was whether the people – the woman and her three husbands who, after being refused a state student loan, partly thanks to the year’s bumper crop of barley still managed to make their son the first person from Gyanste to be sent to a University in “China proper”; the young 11-year old student monk who, during his home holiday, finally learns to drive his father’s tractor, having crashed it on his first go; the mother who could only smile at her daughter’s uncontrollable crying all the way to her new husband parent’s home for a wedding she was not supposed to know anything about beforehand; the monks who had a special day out to indulge in gambling, a little beer and bathing in the river - all those ordinary people, part of whose lives I had followed in the previous day, could have been involved in the protests, or victimised by the brutal repression that ensued.

Is any of them in these pictures?

Could any of them be among the now dead?

Is any of them dreaming about this year’s Olympic Games?

Is any of them praying for next year’s crop?

Two days ago, I stayed up late into the night watching an episode of a new BBC documentary series, “A Year In Tibet” , whose advert, featuring an excerpt from the song “Ordinary People” by John Legend, I had been seeing in the last few days.

According to its producers, “the documentary follows a calendar year inside the secret confines of a Tibetan monastery and charts the lives of those living in Gyanste, the small town which surrounds it and surrounding villages. The series examines the reality of life today for Tibetans living under Chinese rule. The filming crew has gained unparalleled access to one of the most isolated and spiritual parts of the world and their cameras were the first ever allowed to follow members of the community, offering the Western audience a rare insight into their lives, religion, servitude and family.”

Yesterday, as I started following reports of the protests in Lhasa and other locations in Tibet and India, all I could think of was whether the people – the woman and her three husbands who, after being refused a state student loan, partly thanks to the year’s bumper crop of barley still managed to make their son the first person from Gyanste to be sent to a University in “China proper”; the young 11-year old student monk who, during his home holiday, finally learns to drive his father’s tractor, having crashed it on his first go; the mother who could only smile at her daughter’s uncontrollable crying all the way to her new husband parent’s home for a wedding she was not supposed to know anything about beforehand; the monks who had a special day out to indulge in gambling, a little beer and bathing in the river - all those ordinary people, part of whose lives I had followed in the previous day, could have been involved in the protests, or victimised by the brutal repression that ensued.

Is any of them in these pictures?

Could any of them be among the now dead?

Is any of them dreaming about this year’s Olympic Games?

Is any of them praying for next year’s crop?

Thursday, 29 November 2007

"JO SOARES: UM GORDO MUITO IMBECIL"

O titulo nao e' meu! E' deste blog, onde tambem se diz isto:

"Hoje, por coincidência, a segunda entrevista foi com Marcelo Paixão, que falou sobre “multiculturalismo e a situação do negro no Brasil“. Algo que somente piorou a situação, um remendo pior que o soneto, algo arranjado. A impressão que se tem, é que pegaram o primeiro “entendido” do assunto para botar panos quentes sobre as atrocidades que se falou e culpar, na verdade, a sociedade sobre os preconceitos de nossa cultura.Com frases do tipo “eu não opero por uma ótica relativista absoluta” e vários “a nível de“, “aportes“, “qüestões” (sic) Marcelo Paixão falou muito em tolerância, diálogo e compreensão. Jô, teceu vários elogios à eloqüência do entrevistado e sua facilidade de falar, ao que atribui um dom natural. Provas de que foi algo arranjado? Dos dois livros escritos pelo Marcelo, nenhum deles era lançamento. Ao fim da entrevista, Soares errou o nome da faculdade em que ele leciona - era UFRJ e ele falou em UERJ. Para finalizar, somente uma pessoa puxou o aahhh, típico de finais de entrevistas interessantes.
Sr. José Eugênio Soares, pede para sair! Pede para sair!"


Mas ha' quem tenha feito uma 'leitura' diferente, e.g.: "o Prof. Marcelo Paixão da UFRJ, e coordenador do observatório Afro-Brasileiro foi entrevistado pelo Jô. Vale a pena assistir ao vídeo, pois, além de ser uma verdadeira aula sobre a questão do preconceito, mostra o quão o Jô está alienado sobre estas questões (se mostrou um verdadeiro babaca). É cômico ver a cara do Jô sem saber o que questionar ou comentar sobre as exposições do Prof., de tão atrapalhado e embasbacado, ele até quebrou seus óculos. Este foi um verdadeiro "cala-a-boca" no gordinho. Vale a pena assistir e divulgar." Comentario daqui, onde tambem se fica a saber que o Jo ja' apresentou ontem uma "desculpa esfarrapada"... 'a Lusa.

Entretanto, a Embaixada de Angola no Brasil parece ter-se decidido a dizer qualquer coisa... 'a Lusa (aqui).

[Clique na imagem para aceder ao video]
O titulo nao e' meu! E' deste blog, onde tambem se diz isto:

"Hoje, por coincidência, a segunda entrevista foi com Marcelo Paixão, que falou sobre “multiculturalismo e a situação do negro no Brasil“. Algo que somente piorou a situação, um remendo pior que o soneto, algo arranjado. A impressão que se tem, é que pegaram o primeiro “entendido” do assunto para botar panos quentes sobre as atrocidades que se falou e culpar, na verdade, a sociedade sobre os preconceitos de nossa cultura.Com frases do tipo “eu não opero por uma ótica relativista absoluta” e vários “a nível de“, “aportes“, “qüestões” (sic) Marcelo Paixão falou muito em tolerância, diálogo e compreensão. Jô, teceu vários elogios à eloqüência do entrevistado e sua facilidade de falar, ao que atribui um dom natural. Provas de que foi algo arranjado? Dos dois livros escritos pelo Marcelo, nenhum deles era lançamento. Ao fim da entrevista, Soares errou o nome da faculdade em que ele leciona - era UFRJ e ele falou em UERJ. Para finalizar, somente uma pessoa puxou o aahhh, típico de finais de entrevistas interessantes.
Sr. José Eugênio Soares, pede para sair! Pede para sair!"


Mas ha' quem tenha feito uma 'leitura' diferente, e.g.: "o Prof. Marcelo Paixão da UFRJ, e coordenador do observatório Afro-Brasileiro foi entrevistado pelo Jô. Vale a pena assistir ao vídeo, pois, além de ser uma verdadeira aula sobre a questão do preconceito, mostra o quão o Jô está alienado sobre estas questões (se mostrou um verdadeiro babaca). É cômico ver a cara do Jô sem saber o que questionar ou comentar sobre as exposições do Prof., de tão atrapalhado e embasbacado, ele até quebrou seus óculos. Este foi um verdadeiro "cala-a-boca" no gordinho. Vale a pena assistir e divulgar." Comentario daqui, onde tambem se fica a saber que o Jo ja' apresentou ontem uma "desculpa esfarrapada"... 'a Lusa.

Entretanto, a Embaixada de Angola no Brasil parece ter-se decidido a dizer qualquer coisa... 'a Lusa (aqui).

[Clique na imagem para aceder ao video]

Thursday, 23 August 2007

ABOLITION OF THE SLAVE TRADE: 200 YEARS ON (RECIDIVUS)*





Ja’ aqui afirmei, uma ou duas vezes, que tenho para mim que a sociedade Britanica contemporanea e’, do ponto de vista racial, a mais amadurecida, descomplexada, politicamente sofisticada, harmoniosa e saudavel do mundo ocidental. Tenho perfeita consciencia dos “votos contra” tal afirmacao que se terao levantado e continuarao a levantar… Mas o facto e’ que, 'malgre tout', mais uma vez essa realidade se desenrola, e em abundancia, aos olhos de todos quantos a puderem ver por estes dias.





O Reino Unido esta’ em plena comemoracao dos 200 anos sobre a passagem, no Parlamento de Westminster, do Acto de Abolicao da Escravatura, aqui referido como o “Abolition of the Slave Trade Act Bicentenary”, assinalado oficialmente ontem. ‘A conta disso, temos sido servidos nos ultimos dias e continuaremos a se-lo ao longo do resto do ano, por um verdadeiro “banquete” de programas, actividades e debates a volta das questoes da escravatura, do racismo e das relacoes inter-raciais, passadas, presentes e futuras, tanto neste pais, como globalmente. E todos que nele participam, ou apenas observam, parecem estar determinados a comer de tudo um pouco, sem deixarem nenhuma migalha do “buffet” ser varrida para debaixo do tapete… Perante tanta abundancia e variedade e’-me literalmente impossivel dar aqui conta de tudo quanto se tem passado, mas aqui fica o registo, necessariamente breve, de alguns dos eventos que teem marcado esta efemeride.

"The body of Christ is not just a body that exists at any one time, it exists across history and we therefore share the shame and the sinfulness of our predecessors and part of what we can do, with them and for them in the body of Christ, is prayer for acknowledgement of the failure that is part of us not just of some distant 'them'." Archbishop of Canterbury Rowan Williams, Church of England

I. Procissao da Igreja Anglicana em demonstracao do seu arrependimento pelo seu papel no e beneficio do esclavagismo, ou o “Walk of Witness”: Dirigida pelos Arcebispos de York e Canterbury, acompanhada pelos seus parceiros ecumenicos e presidida no seu acto central por uma das suas figuras centrais, por sinal uma mulher negra, esta procissao congregou varias caminhadas, incluindo a “Marcha dos Abolicionistas” iniciada na cidade de Hull e composta por caminhantes usando cangas, correntes e t-shirts ostentando a frase "So Sorry", que comecaram desde o inicio do ano em varias partes do pais e culminaram anteontem em Londres. Durante o acto central, em Kennington, municipio de Lambeth, os participantes foram convidados a assinar uma ‘Declaracao Internacional Contra a Escravatura’ apelando por medidas para uma melhor compreensao do comercio transatlantico de escravos, para a compensacao dos seus legados historicos e para o fim de todas as formas de escravatura moderna. O acto foi tambem marcado pela leitura de textos de escritores negros e ‘freedom-fighters’, incluindo Nelson Mandela e Martin Luther King e pela entoacao do Hino “Amazing Grace”.

"We were directly responsible for what happened. In the sense of inheriting our history, we can say we owned slaves, we branded slaves, that is why I believe we must actually recognise our history and offer an apology." Rev Blessant, Church of England

II. Filmes "Amazing Grace" e “The Walk”: sobre a trajectoria de vida de William Wilberforce que, segundo a versao oficial, tera’ levado a passagem, ao final dos debates de que ele foi o principal protagonista, do “Abolition of Slave Trade Act” no Parlamento Britanico.

Nos debates em varias series televisivas e revistas culturais, estes filmes e o papel de Wilberforce teem sido sistematicamente questionados a luz, nao so’ da veracidade e integridade da sua historia oficial, mas tambem e sobretudo do papel, por muitos considerado mais relevante e crucial, do ex-escravo Olaudah Equiano, de origem Nigeriana, que com o seu livro, tornado best-seller na epoca, “The Interesting Narrative of the Life of Olaudah Equiano, or Gustavus Vassa the African (1789)”, tera’ tido uma influencia mais determinante na abolicao da escravatura. (Leia mais sobre esta questao AQUI)

III. Documentario “Rough Crossings” pelo bastante mediatico, mas nem por isso menos conceituado, embora de rigor cientifico algo questionavel, historiador Simon Schama, baseado no seu livro com o mesmo titulo (BBC 2): retraca a historia da fundacao da Serra Leoa por ex-escravos que fugiram das plantacoes e se juntaram aos Britanicos na Guerra de Independencia Americana.

IV. Serie “Racism: A History” (BBC 4): uma verdadeira “gourmet meal”, congregando a mesa de discussao os mais internacionalmente prestigiados e conceituados estudiosos do racismo, de varias nacionalidades, racas e etnias. Alguns dos temas abordados: o papel dos Reinos Africanos no trafico de escravos; o papel do esclavagismo na evolucao e prosperidade da Gra-Bretanha; a Revolucao Haitiana, com a historica vitoria dos seus escravos das plantacoes sobre o jugo esclavagista; a historia do racismo na Religiao e ao longo da evolucao das varias disciplinas cientificas, desde a Geografia, a Biologia e a Filosofia, passando pela Antropologia, a Etnologia e a Psicologia e culminando na Historia; as varias formas de organizacao social do racismo em diferentes contextos geograficos, historicos e economicos, da Africa a Europa e da America do Norte ao Brasil e de como o racismo se torna mais intenso quanto mais baixo o nivel economico, cultural e educacional das pessoas pertencentes as racas julgadas "superiores", grupos sociais e nacoes; “The Colour of Money” (segundo episodio da serie), examinando a forma como o dinheiro afecta a vida das pessoas e ate’ que ponto o racismo e’ um produto da "globalizacao economica" do sec. XVII e as representacoes estereotipadas dos negros ao longo da Historia.

V. Serie “O Seculo XVIII Negro” (BBC 4): Como sobremesa, uma exploracao da experiencia da populacao negra Britanica no seculo 18, usando arte do periodo, incluindo obras por Gainsborough e Hogarth.


(Pictures: BBC and Anglican Church online)

*First published 26/03/07







Ja’ aqui afirmei, uma ou duas vezes, que tenho para mim que a sociedade Britanica contemporanea e’, do ponto de vista racial, a mais amadurecida, descomplexada, politicamente sofisticada, harmoniosa e saudavel do mundo ocidental. Tenho perfeita consciencia dos “votos contra” tal afirmacao que se terao levantado e continuarao a levantar… Mas o facto e’ que, 'malgre tout', mais uma vez essa realidade se desenrola, e em abundancia, aos olhos de todos quantos a puderem ver por estes dias.





O Reino Unido esta’ em plena comemoracao dos 200 anos sobre a passagem, no Parlamento de Westminster, do Acto de Abolicao da Escravatura, aqui referido como o “Abolition of the Slave Trade Act Bicentenary”, assinalado oficialmente ontem. ‘A conta disso, temos sido servidos nos ultimos dias e continuaremos a se-lo ao longo do resto do ano, por um verdadeiro “banquete” de programas, actividades e debates a volta das questoes da escravatura, do racismo e das relacoes inter-raciais, passadas, presentes e futuras, tanto neste pais, como globalmente. E todos que nele participam, ou apenas observam, parecem estar determinados a comer de tudo um pouco, sem deixarem nenhuma migalha do “buffet” ser varrida para debaixo do tapete… Perante tanta abundancia e variedade e’-me literalmente impossivel dar aqui conta de tudo quanto se tem passado, mas aqui fica o registo, necessariamente breve, de alguns dos eventos que teem marcado esta efemeride.

"The body of Christ is not just a body that exists at any one time, it exists across history and we therefore share the shame and the sinfulness of our predecessors and part of what we can do, with them and for them in the body of Christ, is prayer for acknowledgement of the failure that is part of us not just of some distant 'them'." Archbishop of Canterbury Rowan Williams, Church of England

I. Procissao da Igreja Anglicana em demonstracao do seu arrependimento pelo seu papel no e beneficio do esclavagismo, ou o “Walk of Witness”: Dirigida pelos Arcebispos de York e Canterbury, acompanhada pelos seus parceiros ecumenicos e presidida no seu acto central por uma das suas figuras centrais, por sinal uma mulher negra, esta procissao congregou varias caminhadas, incluindo a “Marcha dos Abolicionistas” iniciada na cidade de Hull e composta por caminhantes usando cangas, correntes e t-shirts ostentando a frase "So Sorry", que comecaram desde o inicio do ano em varias partes do pais e culminaram anteontem em Londres. Durante o acto central, em Kennington, municipio de Lambeth, os participantes foram convidados a assinar uma ‘Declaracao Internacional Contra a Escravatura’ apelando por medidas para uma melhor compreensao do comercio transatlantico de escravos, para a compensacao dos seus legados historicos e para o fim de todas as formas de escravatura moderna. O acto foi tambem marcado pela leitura de textos de escritores negros e ‘freedom-fighters’, incluindo Nelson Mandela e Martin Luther King e pela entoacao do Hino “Amazing Grace”.

"We were directly responsible for what happened. In the sense of inheriting our history, we can say we owned slaves, we branded slaves, that is why I believe we must actually recognise our history and offer an apology." Rev Blessant, Church of England

II. Filmes "Amazing Grace" e “The Walk”: sobre a trajectoria de vida de William Wilberforce que, segundo a versao oficial, tera’ levado a passagem, ao final dos debates de que ele foi o principal protagonista, do “Abolition of Slave Trade Act” no Parlamento Britanico.

Nos debates em varias series televisivas e revistas culturais, estes filmes e o papel de Wilberforce teem sido sistematicamente questionados a luz, nao so’ da veracidade e integridade da sua historia oficial, mas tambem e sobretudo do papel, por muitos considerado mais relevante e crucial, do ex-escravo Olaudah Equiano, de origem Nigeriana, que com o seu livro, tornado best-seller na epoca, “The Interesting Narrative of the Life of Olaudah Equiano, or Gustavus Vassa the African (1789)”, tera’ tido uma influencia mais determinante na abolicao da escravatura. (Leia mais sobre esta questao AQUI)

III. Documentario “Rough Crossings” pelo bastante mediatico, mas nem por isso menos conceituado, embora de rigor cientifico algo questionavel, historiador Simon Schama, baseado no seu livro com o mesmo titulo (BBC 2): retraca a historia da fundacao da Serra Leoa por ex-escravos que fugiram das plantacoes e se juntaram aos Britanicos na Guerra de Independencia Americana.

IV. Serie “Racism: A History” (BBC 4): uma verdadeira “gourmet meal”, congregando a mesa de discussao os mais internacionalmente prestigiados e conceituados estudiosos do racismo, de varias nacionalidades, racas e etnias. Alguns dos temas abordados: o papel dos Reinos Africanos no trafico de escravos; o papel do esclavagismo na evolucao e prosperidade da Gra-Bretanha; a Revolucao Haitiana, com a historica vitoria dos seus escravos das plantacoes sobre o jugo esclavagista; a historia do racismo na Religiao e ao longo da evolucao das varias disciplinas cientificas, desde a Geografia, a Biologia e a Filosofia, passando pela Antropologia, a Etnologia e a Psicologia e culminando na Historia; as varias formas de organizacao social do racismo em diferentes contextos geograficos, historicos e economicos, da Africa a Europa e da America do Norte ao Brasil e de como o racismo se torna mais intenso quanto mais baixo o nivel economico, cultural e educacional das pessoas pertencentes as racas julgadas "superiores", grupos sociais e nacoes; “The Colour of Money” (segundo episodio da serie), examinando a forma como o dinheiro afecta a vida das pessoas e ate’ que ponto o racismo e’ um produto da "globalizacao economica" do sec. XVII e as representacoes estereotipadas dos negros ao longo da Historia.

V. Serie “O Seculo XVIII Negro” (BBC 4): Como sobremesa, uma exploracao da experiencia da populacao negra Britanica no seculo 18, usando arte do periodo, incluindo obras por Gainsborough e Hogarth.


(Pictures: BBC and Anglican Church online)

*First published 26/03/07



Saturday, 28 April 2007

OH D(G)EAR!


Bom, isto e' que sao sortes ou azares...

Entao nao e' que o bom do Richard Gere, apesar dos ultimos longos anos de endoutrinacao Budista que supostamente lhe deviam ter ensinado suficientes licoes de contencao de impulsos, se deixou levar pelos mais "basic instincts" e vai de beijocar assim a Shilpa Shetty - lembram-se dela, de boa 'Big Brother UK' fame?

Nao foi nos labios nem nada, apenas na face, mas nem isso o safou de um mandato de prisao por alegada ofensa as sensibilidades conservadoras Indianas... com direito a queima de efigies na rua e tudo! A continuar assim, a boa da Shilpa ainda acaba por deitar toda a India em chamas... Mas antes disso, ela tambem tera' que comparecer perante um tribunal local daqui ha uns dias para dizer de sua justica sobre os beijinhos... Sempre gostava de saber o que, quando a coitada foi assim "assaltada" por um beijoqueiro todo tomado de "amores" durante um show televisivo de sensibilizacao para os perigos de contracao do virus HIV que ela apresentava?!

Coisas...

Bom, isto e' que sao sortes ou azares...

Entao nao e' que o bom do Richard Gere, apesar dos ultimos longos anos de endoutrinacao Budista que supostamente lhe deviam ter ensinado suficientes licoes de contencao de impulsos, se deixou levar pelos mais "basic instincts" e vai de beijocar assim a Shilpa Shetty - lembram-se dela, de boa 'Big Brother UK' fame?

Nao foi nos labios nem nada, apenas na face, mas nem isso o safou de um mandato de prisao por alegada ofensa as sensibilidades conservadoras Indianas... com direito a queima de efigies na rua e tudo! A continuar assim, a boa da Shilpa ainda acaba por deitar toda a India em chamas... Mas antes disso, ela tambem tera' que comparecer perante um tribunal local daqui ha uns dias para dizer de sua justica sobre os beijinhos... Sempre gostava de saber o que, quando a coitada foi assim "assaltada" por um beijoqueiro todo tomado de "amores" durante um show televisivo de sensibilizacao para os perigos de contracao do virus HIV que ela apresentava?!

Coisas...

Wednesday, 25 April 2007

NO 25 DE ABRIL


CUBA! AFRICA! REVOLUTION!

Jihan El Tahri, 2007 Part 1: Tuesday 24 April 10.30pm-11.30pm; rpt 2.30am-3.30am; Part 2: Tuesday 1 May 10.30pm-11.30pm; rpt 2am-3am. Jihan El Tahri documents Cuba's interventions in Africa from Che Guevara's Congo campaign to Castro's role in Angola, and shows how the country's efforts to carve out an alternative path for Third World nations, and the USA's response to it, are still felt today.
The programme contains unique archive stills and footage of Che Guevara and Fidel Castro, and features interviews and testimony from the men who fought with them.

Acabo de ver, na BBC 4, a primeira parte deste documentario sobre a longa relacao entre revolucionarios Cubanos e nacionalistas Africanos. Esta primeira parte refere-se especialmente aos principios dos anos 60, detendo-se particularmente no Congo de Patrice Lumumba (incluindo o seu discurso, considerado de "lesa-majestade" pelos Belgas - que desde ali terao "jurado vinganca" contra ele - durante a cerimonia de independencia, em frente ao Rei Balduino; o papel dos recursos naturais do Congo, em especial o cobalto, no 'complot' ocidental contra Lumumba; depoimentos do oficial da CIA, Larry Devlin, instruido directamente por Eisenhower para assassinar Lumumba e o apoio dado a Mobutu nesse contexto), passando pela experiencia do primeiro grupo de 'internacionalistas cubanos' liderados por Che Guevara, chegados ao Congo via Tanzania, para apoiar a guerrilha anti-Mobutu liderada por Joseph Kabila (incluindo depoimentos de Fidel, do comandante do grupo cubano, Victor Dreke, do tradutor de Che e do seu assistente pessoal).

Registado o relativo falhanco da missao cubana no Congo, o documentario segue para a Guine-Bissau de Amilcar Cabral, em meados da decada de 60 (incluindo depoimentos de Paulo Jorge, dirigente do MPLA e primeiro Ministro das Relacoes Exteriores de Angola, de Luis Cabral, irmao de Amilcar e antigo Presidente da Guine-Bissau, Herman Cohen, antigo Secretario de Estado Americano Adjunto para Africa, entre outros).

O episodio termina com evocativas imagens do 25 de Abril de 1974 em Portugal. Como musica de fundo foi usado o "Balumukeno" do Bonga. Note-se que alguns documentarios da BBC, nao sei se sera’ o caso deste, podem ser obtidos em DVD.

[Segunda Parte]


CUBA! AFRICA! REVOLUTION!

Jihan El Tahri, 2007 Part 1: Tuesday 24 April 10.30pm-11.30pm; rpt 2.30am-3.30am; Part 2: Tuesday 1 May 10.30pm-11.30pm; rpt 2am-3am. Jihan El Tahri documents Cuba's interventions in Africa from Che Guevara's Congo campaign to Castro's role in Angola, and shows how the country's efforts to carve out an alternative path for Third World nations, and the USA's response to it, are still felt today.
The programme contains unique archive stills and footage of Che Guevara and Fidel Castro, and features interviews and testimony from the men who fought with them.

Acabo de ver, na BBC 4, a primeira parte deste documentario sobre a longa relacao entre revolucionarios Cubanos e nacionalistas Africanos. Esta primeira parte refere-se especialmente aos principios dos anos 60, detendo-se particularmente no Congo de Patrice Lumumba (incluindo o seu discurso, considerado de "lesa-majestade" pelos Belgas - que desde ali terao "jurado vinganca" contra ele - durante a cerimonia de independencia, em frente ao Rei Balduino; o papel dos recursos naturais do Congo, em especial o cobalto, no 'complot' ocidental contra Lumumba; depoimentos do oficial da CIA, Larry Devlin, instruido directamente por Eisenhower para assassinar Lumumba e o apoio dado a Mobutu nesse contexto), passando pela experiencia do primeiro grupo de 'internacionalistas cubanos' liderados por Che Guevara, chegados ao Congo via Tanzania, para apoiar a guerrilha anti-Mobutu liderada por Joseph Kabila (incluindo depoimentos de Fidel, do comandante do grupo cubano, Victor Dreke, do tradutor de Che e do seu assistente pessoal).

Registado o relativo falhanco da missao cubana no Congo, o documentario segue para a Guine-Bissau de Amilcar Cabral, em meados da decada de 60 (incluindo depoimentos de Paulo Jorge, dirigente do MPLA e primeiro Ministro das Relacoes Exteriores de Angola, de Luis Cabral, irmao de Amilcar e antigo Presidente da Guine-Bissau, Herman Cohen, antigo Secretario de Estado Americano Adjunto para Africa, entre outros).

O episodio termina com evocativas imagens do 25 de Abril de 1974 em Portugal. Como musica de fundo foi usado o "Balumukeno" do Bonga. Note-se que alguns documentarios da BBC, nao sei se sera’ o caso deste, podem ser obtidos em DVD.

[Segunda Parte]

Monday, 12 February 2007

"THE LAST KING OF SCOTLAND"

Ontem, finalmente, conseguimos ver “The Last King of Scotland”, no Odeon de Camden, depois de termos “batido com o nariz na porta” no Sabado, porque as sessoes estavam esgotadas. Com o advento dos ‘multimedia’, cada vez menos gente vai ao cinema e ninguem espera encontrar filme algum, seja em que dia ou horas for, completamente esgotado. Mas isso tem estado a acontecer sucessivamente com este filme aqui em Londres. Conseguimos os bilhetes, mas os melhores lugares que conseguimos foram na primeira fila, isto e’, na pior fila para se ver um filme.

Ja’ vi melhores filmes sobre Africa e os Africanos, ja’ vi melhores filmes sobre a politica, a ditadura e os ditadores em Africa, ja’ vi melhores filmes sobre as relacoes amorosas, ou simplesmente sexuais, entre Europeus e Africanas… mas nao vi filmes muito melhores sobre a relacao entre dois seres humanos de caracteristicas tao diametralmente opostas, sob todos os pontos de vista, como a relacao entre Idi Amin (Forest Whitaker) e o seu “medico e conselheiro privado”, Nicholas Garrigan (James McAvoy), embora baseada numa estoria completamente ficcionada. Relacao ainda mais valorizada pelas eximias representacoes dos dois actores.

E apenas isso, quanto a mim, impede que ”The Last King of Scotland” resvale para a longa serie de filmes sobre Africa que pouco mais conseguem ser do que colagens, mais ou menos bem conseguidas cinematograficamente, de cliches e estereotipos baseados em personagens ou episodios historicos. Isso e o facto de, tendo visitado o Uganda ha cerca de um ano atras, visita durante a qual fiz uma longa viagem de autocarro pelo interior do pais, ter reconhecido nas paisagens e habitats naturais, humanos e animais mostrados no filme (incluindo a enorme “ave de rapina”, cujo nome desconheco, que vi, repetidamente em varios locais, pela primeira e unica vez no Uganda), o “pais real” retratado, o que e’ sempre reconfortante perante a quantidade de filmes sobre pais A filmados em pais B, ou estudio C, quantas vezes em continentes completamente diferentes.


De volta a casa, a noticia: Forest Whitaker tinha acabado de ganhar o Bafta para melhor actor do ano, o que o coloca numa posicao mais proxima de concretizar a expectativa assim expressa ha' dias por um apresentador da ex-Jazz FM (agora ‘downgraded’ para Smooth FM, mas que continua a ser a minha radio preferida, a excepcao das Quartas e Sabados quando vira uma radio quase exclusivamente de futebol e com relatos quase exclusivamente dos jogos do Chelsea…): “if there’s any justice in the world, which rarely is, Whitaker should win the Oscar”. Com ele no podium de ‘bests’, a minha favorita British Dame, Helen Mirren, que ganhou o Bafta para melhor actriz pela sua representacao de Elizabeth II em “The Queen”. Parecem estar encontrados, merecidamente, o Rei e a Rainha dos Oscars deste ano…

Apenas uma nota ‘a margem: um dos episodios historicos mais dramaticos, nem sequer tocados superficialmente neste filme (para la’ do poder das imagens e do "assustado" conselho alegadamente dado por Garrigan a Amin: "pare com isso, senao a economia vai ficar de joelhos"), e’ a expulsao de cerca de 50,000 Indianos do Uganda, ordenada por Idi Amin em 1972. O episodio e’ apresentado sem qualquer contextualizacao historica, como se fosse um dado adquirido que todos os espectadores, independentemente das suas posicoes politicas ou ideologicas, estariam a par do seu ‘background’ ou ‘further developments'. Isto fez-me lembrar da explicacao que um colega Ugandes, aquando da minha visita ao seu pais, me deu para o total dominio do comercio (predominantemente de quinquilharias de pouco ou nenhum valor utilitario), mesmo nas mais reconditas zonas rurais do pais, por Indianos: “nao era o caso de as comunidades locais nao terem capacidade para se dedicarem ao comercio de produtos importados, ou dos seus proprios produtos, para aliviarem os seus proprios niveis de pobreza, mas o regresso em massa, em condicoes priviligiadas, dos Indianos ao pais (que para la' comecaram a emigrar inicialmente, sob patrocinio Britanico, quando tanto a India como o Uganda eram colonias do UK), tinha sido parte de um ‘deal’ entre o actual presidente Museveni e as instituicoes de Bretton Woods, como condicao para a concessao de ajuda financeira por parte destas ao pais”… Ainda mais 'a margem, lembro-me de, aquando da “Maka na Sanzala Global” por causa dos ataques racistas contra a actriz Indiana Shilpa Shetty no programa Big Brother UK, ter lido em alguns sites de opiniao comentarios, principalmente por Ugandeses e Kenianos, que afirmavam nao nutrir qualquer simpatia pela situacao da Shilpa por causa do racismo que os Indianos praticam contra os negros nos seus proprios paises…


Curiosamente, hoje Shilpa voltou as primeiras paginas dos tabloides Londrinos depois de alguns dias de ausencia, desta vez ela propria acusada de racismo por ter apresentado e participado num ‘sketch’ do seu show numa cadeia televisiva Indiana que recriava os “minstreis” (actores pintados de preto dizendo piadas supostamente hilariantes, mas consideradas profundamente ofensivas pelas comunidades negras). Ora, este tipo de shows e imagens (tradicionalmente parte dos tristemente celebres “Minstrel Shows” no Ocidente) foram banidos da TV Britanica em 1978, depois de grandes controversias e manifestacoes de repudio no UK, por finalmente terem sido oficialmente classificados como “obscenamente racistas”… O que me leva de volta ao “Last King of Scotland” porque nao pude deixar de reparar na quantidade de ‘black make-up’ que lhe foi aplicado para tornar Whitaker tao “preto” como Idi Amin… O que me transporta a um outro filme que vale a pena ver: “Bamboozled”, de Spike Lee, uma brilhante satira sobre os “Minstrel Shows” nos EUA.


P.S.: O “Grazing in the Grass” do Bra Masekela pareceu-me um pouco deslocado no filme, mas como boa musica vai sempre bem com quaisquer imagens, soube-me bem ouvi-lo.

Ontem, finalmente, conseguimos ver “The Last King of Scotland”, no Odeon de Camden, depois de termos “batido com o nariz na porta” no Sabado, porque as sessoes estavam esgotadas. Com o advento dos ‘multimedia’, cada vez menos gente vai ao cinema e ninguem espera encontrar filme algum, seja em que dia ou horas for, completamente esgotado. Mas isso tem estado a acontecer sucessivamente com este filme aqui em Londres. Conseguimos os bilhetes, mas os melhores lugares que conseguimos foram na primeira fila, isto e’, na pior fila para se ver um filme.

Ja’ vi melhores filmes sobre Africa e os Africanos, ja’ vi melhores filmes sobre a politica, a ditadura e os ditadores em Africa, ja’ vi melhores filmes sobre as relacoes amorosas, ou simplesmente sexuais, entre Europeus e Africanas… mas nao vi filmes muito melhores sobre a relacao entre dois seres humanos de caracteristicas tao diametralmente opostas, sob todos os pontos de vista, como a relacao entre Idi Amin (Forest Whitaker) e o seu “medico e conselheiro privado”, Nicholas Garrigan (James McAvoy), embora baseada numa estoria completamente ficcionada. Relacao ainda mais valorizada pelas eximias representacoes dos dois actores.

E apenas isso, quanto a mim, impede que ”The Last King of Scotland” resvale para a longa serie de filmes sobre Africa que pouco mais conseguem ser do que colagens, mais ou menos bem conseguidas cinematograficamente, de cliches e estereotipos baseados em personagens ou episodios historicos. Isso e o facto de, tendo visitado o Uganda ha cerca de um ano atras, visita durante a qual fiz uma longa viagem de autocarro pelo interior do pais, ter reconhecido nas paisagens e habitats naturais, humanos e animais mostrados no filme (incluindo a enorme “ave de rapina”, cujo nome desconheco, que vi, repetidamente em varios locais, pela primeira e unica vez no Uganda), o “pais real” retratado, o que e’ sempre reconfortante perante a quantidade de filmes sobre pais A filmados em pais B, ou estudio C, quantas vezes em continentes completamente diferentes.


De volta a casa, a noticia: Forest Whitaker tinha acabado de ganhar o Bafta para melhor actor do ano, o que o coloca numa posicao mais proxima de concretizar a expectativa assim expressa ha' dias por um apresentador da ex-Jazz FM (agora ‘downgraded’ para Smooth FM, mas que continua a ser a minha radio preferida, a excepcao das Quartas e Sabados quando vira uma radio quase exclusivamente de futebol e com relatos quase exclusivamente dos jogos do Chelsea…): “if there’s any justice in the world, which rarely is, Whitaker should win the Oscar”. Com ele no podium de ‘bests’, a minha favorita British Dame, Helen Mirren, que ganhou o Bafta para melhor actriz pela sua representacao de Elizabeth II em “The Queen”. Parecem estar encontrados, merecidamente, o Rei e a Rainha dos Oscars deste ano…

Apenas uma nota ‘a margem: um dos episodios historicos mais dramaticos, nem sequer tocados superficialmente neste filme (para la’ do poder das imagens e do "assustado" conselho alegadamente dado por Garrigan a Amin: "pare com isso, senao a economia vai ficar de joelhos"), e’ a expulsao de cerca de 50,000 Indianos do Uganda, ordenada por Idi Amin em 1972. O episodio e’ apresentado sem qualquer contextualizacao historica, como se fosse um dado adquirido que todos os espectadores, independentemente das suas posicoes politicas ou ideologicas, estariam a par do seu ‘background’ ou ‘further developments'. Isto fez-me lembrar da explicacao que um colega Ugandes, aquando da minha visita ao seu pais, me deu para o total dominio do comercio (predominantemente de quinquilharias de pouco ou nenhum valor utilitario), mesmo nas mais reconditas zonas rurais do pais, por Indianos: “nao era o caso de as comunidades locais nao terem capacidade para se dedicarem ao comercio de produtos importados, ou dos seus proprios produtos, para aliviarem os seus proprios niveis de pobreza, mas o regresso em massa, em condicoes priviligiadas, dos Indianos ao pais (que para la' comecaram a emigrar inicialmente, sob patrocinio Britanico, quando tanto a India como o Uganda eram colonias do UK), tinha sido parte de um ‘deal’ entre o actual presidente Museveni e as instituicoes de Bretton Woods, como condicao para a concessao de ajuda financeira por parte destas ao pais”… Ainda mais 'a margem, lembro-me de, aquando da “Maka na Sanzala Global” por causa dos ataques racistas contra a actriz Indiana Shilpa Shetty no programa Big Brother UK, ter lido em alguns sites de opiniao comentarios, principalmente por Ugandeses e Kenianos, que afirmavam nao nutrir qualquer simpatia pela situacao da Shilpa por causa do racismo que os Indianos praticam contra os negros nos seus proprios paises…


Curiosamente, hoje Shilpa voltou as primeiras paginas dos tabloides Londrinos depois de alguns dias de ausencia, desta vez ela propria acusada de racismo por ter apresentado e participado num ‘sketch’ do seu show numa cadeia televisiva Indiana que recriava os “minstreis” (actores pintados de preto dizendo piadas supostamente hilariantes, mas consideradas profundamente ofensivas pelas comunidades negras). Ora, este tipo de shows e imagens (tradicionalmente parte dos tristemente celebres “Minstrel Shows” no Ocidente) foram banidos da TV Britanica em 1978, depois de grandes controversias e manifestacoes de repudio no UK, por finalmente terem sido oficialmente classificados como “obscenamente racistas”… O que me leva de volta ao “Last King of Scotland” porque nao pude deixar de reparar na quantidade de ‘black make-up’ que lhe foi aplicado para tornar Whitaker tao “preto” como Idi Amin… O que me transporta a um outro filme que vale a pena ver: “Bamboozled”, de Spike Lee, uma brilhante satira sobre os “Minstrel Shows” nos EUA.


P.S.: O “Grazing in the Grass” do Bra Masekela pareceu-me um pouco deslocado no filme, mas como boa musica vai sempre bem com quaisquer imagens, soube-me bem ouvi-lo.

Friday, 9 February 2007

ANNA NICOLE SMITH'S DEATH


Now… esta e’ uma daquelas noticias capazes de me fazerem reflectir por alguns momentos sobre os meus proprios criterios de seleccao de materias a incluir neste blog, mas que acabam por impor-se a qualquer tentativa de racionalizacao mais profunda…
Anna Nicole Smith (ANS), de seu nome de baptismo Vickie Lynn Hogan, natural do Texas, USA, acaba de falecer em circunstancias ainda nao esclarecidas, aos 39 anos de idade. ANS e’ (foi) uma daquelas figuras que se catapultaram para todo o tipo de headlines gracas ‘as suas imitacoes, mais ou menos bem conseguidas, da imagem de Marilyn Monroe, mas, sobretudo, ‘as sempre fascinantes estorias de “rags to riches”, isto e’, de “celebridades” que, vindo "do nada", por “acidentes de percurso”, acabam por juntar os seus nomes 'as listas das maiores fortunas do mundo. O “acidente de percurso” que mudou radicalmente a “fortuna” de ANS foi o seu casamento com um nonagenario bilionario da industria petrolifera, preso a uma cadeira de rodas, quando ela tinha 20 anos de idade. O nonagenario faleceu pouco tempo depois, como se esperava, e ANS saltou para as headlines por conta de um longo e turbulento processo judicial que lhe foi movido por um dos filhos do falecido pela heranca do seu pai… Ela ganha parcialmente o processo e, entretanto, volta a casar-se com o seu advogado, enquanto gravida de uma crianca, cuja paternidade esta’ ainda a ser disputada entre o novo marido e um dos seus namorados… Tres dias depois de essa crianca nascer, o filho de ANS, de 20 anos de idade, morre de uma suspeita overdose de anti-depressivos. Fui obtendo estas informacoes atraves de programas de televisao que ocasionalmente fui vendo ao longo dos anos, incluindo alguns episodios do “Anna Nicole Smith Show” (que vi, imagine-se, no Botswana), em que ela cronicava, entre outras coisas, a sua batalha contra a sua auto-induzida obesidade… Ha’ pouco mais de uma semana vi, no legendario “Larry King Live”, esse imparavel cronista das "altas esferas" americanas, uma longa sessao de acusacoes, contra-acusacoes, afirmacoes e contradicoes entre os dois pretendentes ‘a paternidade da filha recem-nascida de ANS… Sera’ interessante verificar que posicoes tomara’ cada um deles agora que ANS deixou o mundo dos vivos.
Enquanto escrevia isto nao parei de pensar em razoes que justifiquem o trazer deste assunto a este blog … A que se apresenta mais plausivel e’ que talvez valha a pena olharmos, nem que seja apenas de vez em quando, um pouco para mundos que parecem tao afastados do “mundo normal”, mas que na verdade sao povoados por protagonistas que acabam por ser tao vulneraveis como o comum dos mortais (… sorry excuse, I know… or... maybe not).

Adenda: Entretanto, um terceiro pretendente ao "trono" de pai da filha de ANS (...a ter em conta que quem "ganhe o titulo" habilita-se a herdar uma enorme fortuna, pelo menos ate' a crianca atingir a idade adulta...) saltou para a spotlight... Trata-se do "Principe Frederic Von Anhalf" (que e' na verdade filho de um policia alemao, que comprou o titulo 'a Princesa Marie Auguste von Anhalt da Alemanha, quando esta precisava de dinheiro, e que se dedica ao negocio de compra e venda de titulos nobiliarios europeus em Hollywood), marido da legendaria Zsa Zsa Gabor (que tambem tem passado os ultimos anos numa cadeira de rodas desde que sofreu um terrivel acidente de viacao), por sua vez tia-avo de uma outra "it girl" que tambem passa a vida nas headlines "just for the sex (... I mean, the sake) of it", a menina Paris Hilton. Larry King perguntou-lhe como e' que se sentia a Zsa Zsa perante a aparicao do marido no meio desta estoria, ao que o "principe" respondeu que "claro que ela esta' aborrecida porque ela e' loura e a ANS tambem era loura... mas eu gosto de louras, o que e' que eu posso fazer... eu sou homem, ninguem me pode culpar por isso." Larry perguntou-lhe se ele amava ANS. O "principe" respondeu: "Nao, eu nunca a amei, eu sempre amei a minha esposa. Ha' pessoas que vao para a cama com alguem e pensam que isso e' amor... amor e' uma coisa completamente diferente." (Pronto, prometo que nao volto a esta estoria!)

Now… esta e’ uma daquelas noticias capazes de me fazerem reflectir por alguns momentos sobre os meus proprios criterios de seleccao de materias a incluir neste blog, mas que acabam por impor-se a qualquer tentativa de racionalizacao mais profunda…
Anna Nicole Smith (ANS), de seu nome de baptismo Vickie Lynn Hogan, natural do Texas, USA, acaba de falecer em circunstancias ainda nao esclarecidas, aos 39 anos de idade. ANS e’ (foi) uma daquelas figuras que se catapultaram para todo o tipo de headlines gracas ‘as suas imitacoes, mais ou menos bem conseguidas, da imagem de Marilyn Monroe, mas, sobretudo, ‘as sempre fascinantes estorias de “rags to riches”, isto e’, de “celebridades” que, vindo "do nada", por “acidentes de percurso”, acabam por juntar os seus nomes 'as listas das maiores fortunas do mundo. O “acidente de percurso” que mudou radicalmente a “fortuna” de ANS foi o seu casamento com um nonagenario bilionario da industria petrolifera, preso a uma cadeira de rodas, quando ela tinha 20 anos de idade. O nonagenario faleceu pouco tempo depois, como se esperava, e ANS saltou para as headlines por conta de um longo e turbulento processo judicial que lhe foi movido por um dos filhos do falecido pela heranca do seu pai… Ela ganha parcialmente o processo e, entretanto, volta a casar-se com o seu advogado, enquanto gravida de uma crianca, cuja paternidade esta’ ainda a ser disputada entre o novo marido e um dos seus namorados… Tres dias depois de essa crianca nascer, o filho de ANS, de 20 anos de idade, morre de uma suspeita overdose de anti-depressivos. Fui obtendo estas informacoes atraves de programas de televisao que ocasionalmente fui vendo ao longo dos anos, incluindo alguns episodios do “Anna Nicole Smith Show” (que vi, imagine-se, no Botswana), em que ela cronicava, entre outras coisas, a sua batalha contra a sua auto-induzida obesidade… Ha’ pouco mais de uma semana vi, no legendario “Larry King Live”, esse imparavel cronista das "altas esferas" americanas, uma longa sessao de acusacoes, contra-acusacoes, afirmacoes e contradicoes entre os dois pretendentes ‘a paternidade da filha recem-nascida de ANS… Sera’ interessante verificar que posicoes tomara’ cada um deles agora que ANS deixou o mundo dos vivos.
Enquanto escrevia isto nao parei de pensar em razoes que justifiquem o trazer deste assunto a este blog … A que se apresenta mais plausivel e’ que talvez valha a pena olharmos, nem que seja apenas de vez em quando, um pouco para mundos que parecem tao afastados do “mundo normal”, mas que na verdade sao povoados por protagonistas que acabam por ser tao vulneraveis como o comum dos mortais (… sorry excuse, I know… or... maybe not).

Adenda: Entretanto, um terceiro pretendente ao "trono" de pai da filha de ANS (...a ter em conta que quem "ganhe o titulo" habilita-se a herdar uma enorme fortuna, pelo menos ate' a crianca atingir a idade adulta...) saltou para a spotlight... Trata-se do "Principe Frederic Von Anhalf" (que e' na verdade filho de um policia alemao, que comprou o titulo 'a Princesa Marie Auguste von Anhalt da Alemanha, quando esta precisava de dinheiro, e que se dedica ao negocio de compra e venda de titulos nobiliarios europeus em Hollywood), marido da legendaria Zsa Zsa Gabor (que tambem tem passado os ultimos anos numa cadeira de rodas desde que sofreu um terrivel acidente de viacao), por sua vez tia-avo de uma outra "it girl" que tambem passa a vida nas headlines "just for the sex (... I mean, the sake) of it", a menina Paris Hilton. Larry King perguntou-lhe como e' que se sentia a Zsa Zsa perante a aparicao do marido no meio desta estoria, ao que o "principe" respondeu que "claro que ela esta' aborrecida porque ela e' loura e a ANS tambem era loura... mas eu gosto de louras, o que e' que eu posso fazer... eu sou homem, ninguem me pode culpar por isso." Larry perguntou-lhe se ele amava ANS. O "principe" respondeu: "Nao, eu nunca a amei, eu sempre amei a minha esposa. Ha' pessoas que vao para a cama com alguem e pensam que isso e' amor... amor e' uma coisa completamente diferente." (Pronto, prometo que nao volto a esta estoria!)

Thursday, 8 February 2007

WHOOPI'S AFRICAN ORIGINS TRACED BACK TO GUINE-BISSAU

Acabei de ver/ouvir esta noticia numa cadeia de televisao Americana:

Atraves de testes de DNA, as origens Africanas de Whoopi Goldberg foram tracadas a Guine-Bissau. Ao tomar conhecimento dessa descoberta, o governo Guineense tera' enviado uma carta a Whoopi convidando-a a visitar o pais... (o comentador chama a atencao para a forma incorrecta como o nome da "nova filha da Guine Bissau" e' escrito na carta e para "o facto de que, no fundo, o que o governo Guineense pretende e' atrair turistas ao pais"...).

Em resposta, os representantes da Whoopi afirmaram que tal carta nunca foi recebida pela destinataria... que esta evita ao maximo viajar de aviao e que nao tem quaisquer intencoes de viajar no futuro proximo... (o comentador acrescenta que, imediatamente apos a descoberta, os filmes da Whoopi comecaram a ser intensamente divulgados no pais, embora com legendas "lost in translation" e que, apesar de o pais nao ter quaisquer recursos naturais, ao governo de Bissau nao falta optimismo, pelo que continua a acreditar que Whoopi visitara' o pais brevemente e que, atras dela, irao os turistas...).

Ca' estaremos para aplaudir!
Acabei de ver/ouvir esta noticia numa cadeia de televisao Americana:

Atraves de testes de DNA, as origens Africanas de Whoopi Goldberg foram tracadas a Guine-Bissau. Ao tomar conhecimento dessa descoberta, o governo Guineense tera' enviado uma carta a Whoopi convidando-a a visitar o pais... (o comentador chama a atencao para a forma incorrecta como o nome da "nova filha da Guine Bissau" e' escrito na carta e para "o facto de que, no fundo, o que o governo Guineense pretende e' atrair turistas ao pais"...).

Em resposta, os representantes da Whoopi afirmaram que tal carta nunca foi recebida pela destinataria... que esta evita ao maximo viajar de aviao e que nao tem quaisquer intencoes de viajar no futuro proximo... (o comentador acrescenta que, imediatamente apos a descoberta, os filmes da Whoopi comecaram a ser intensamente divulgados no pais, embora com legendas "lost in translation" e que, apesar de o pais nao ter quaisquer recursos naturais, ao governo de Bissau nao falta optimismo, pelo que continua a acreditar que Whoopi visitara' o pais brevemente e que, atras dela, irao os turistas...).

Ca' estaremos para aplaudir!

Saturday, 20 January 2007

MAKAS NA SANZALA GLOBAL

THE GOODY, THE BADDY & THE UGGLY

Confesso (para algum embaraco do meu filho, que diz nao entender muito bem essa minha “inclinacao”…) que, embora nao veja novelas, sempre que posso, sou uma espectadora interessada do show televisivo Big Brother (BB). Vi, pelo menos parcialmente, algumas das series do UK e duas da Africa do Sul – uma domestica e outra continental, o “Big Brother Africa”, embora nesta tenha perdido a “prestacao” da participante Angolana na sua primeira serie, porque quando fui alertada sobre o programa ja ela tinha sido a primeira a ser expulsa… Para mim, a atraccao do BB consiste em observar um “microcosmos social” nos seus mais pequenos detalhes e seguir as logicas de interaccao entre pessoas, ou grupos, dos mais diversos "backgrounds" sociais, culturais, politicos, etnicos, raciais ou religiosos e, talvez o mais interessante, a reaccao do publico atraves do sistema de votacao semanal... e, talvez mais interessante ainda, o programa de discussao sobre o BB-UK, "Big Brother Big Mouth", actualmente apresentado pelo "enfant terrible" da TV Britanica, Russell Brand (I 'loves' him!)... Enfim, tenho achado o BB bastante elucidativo sobre a(s) sociedade(s) que, mais ou menos explicitamente, acaba por retratar - um verdadeiro "observatorio sociologico".

Ora, estas duas ultimas semanas foram marcadas, a custa da versao “Celebrity” do BB-UK, por um dos mais bizarros acontecimentos na Sanzala Global, que nao tera' sequer passado pela prodigiosa imaginacao de Orwell, quando, em 1949, escreveu 1984 (“Big Brother is Watching You”) … Feliz ou infelizmente, por causa deste meu actual “blogging bug”, nao tenho visto esta serie e apenas comecei a seguir as headlines quando elas se comecaram a tornar mais estridentes e incontornaveis.

A maka conta-se mais ou menos assim: Jade Goody – uma “London lass” de 25 anos de idade, com um baixissimo nivel de educacao e instrucao, para dizer o minimo, e criada por uma mae toxico-dependente, tornou-se “celebrity” ao longo dos ultimos 4 anos, desde que participou numa das series “normais” do BB e, depois de ter ostensivamente "empurrado" para a obscuridade a que tinha sido a vencedora daquela serie, embarcou num processo publico de “polimento” que a fez chegar a um patamar que recentemente lhe permitiu dizer “I’m the 25th most influential person in the world…Pathetic! I don’t even know what that word (influential) means!” – proferiu uma serie de ataques de cariz racista contra outra participante no programa. Esta, Shilpa Shetty, de 31 anos de idade – uma “Bollywood star” de primeiro nivel na India e com um background familiar, educacional e cultural diametralmente oposto ao da Goody – viu-se sem vocabulario, ou “atitude”, para responder a verdadeira torrente de insultos e constante "bullying" por parte da outra e dos seus aliados na casa, incluindo a mae da Jade, que tambem virou "celebridade" a custa da filha…

Vai dai, o Governo Indiano "toma-se de ultrajes" e, entre manifestacoes nas ruas de Mombay, muito parecidas com as que vimos por causa da maka dos cartoons sobre o Profeta Allah, incluindo queima de efigies dos produtores do BB-UK e tudo, pede explicacoes ao desprevenido Gordon Brown, que tem o azar de estar em visita oficial a India nos dias mais quentes da maka... O coitado do Brown apenas conseguiu dizer que nunca tinha visto o programa, mas que condenava veementemente todo e qualquer acto de racismo no UK… Entretanto, em Londres, varios MPs, liderados por um parlamentar de origem Indiana (e tambem, talvez, de origem Portuguesa de Goa, porque tem o apelido Vaz), levaram a questao a sessao semanal, as quartas-feiras, do “Prime Minister’s Questions” em Westminster e o Tony Blair tambem nao ficou menos engasgado que o Brown… Pelo meio, o Channel 4, responsavel pelo BB-UK, recebeu mais de 30 mil queixas de telespectadores indignados com o que estavam a ver nos seus ecrans - o que constituiu um record absoluto de queixas por parte do publico na historia da TV Britanica - e alguns dos principais sponsors do programa comecaram a retirar os seus patrocinios… Enfim, uma “total mess”!

Entretanto, as duas foram postas "head to head" a votacao esta semana para serem expulsas e… saiu a Goody, por votacao da maioria absolutamente esmagadora do publico! Ontem, pela primeira vez na vida do programa, houve uma “eviction night” marcada pelo mais ensurdecedor silencio, ao contrario dos habituais banhos de multidao, cartazes, flashes e poses… Sem duvida, um “marco historico” na vida do BB. Quanto a Jade, que conseguiu acumular, nas duas series em que participou e no periodo entre elas, os papeis de “good, bad & uggly”, ontem, sob a orientacao da sua forte equipa de “coaches”, “career managers” e PRs, desfez-se em desculpas, explicacoes e “denials”, mas parece ja ter percebido o que todos os 'tabloids' e 'broadsheets' dizem esta manha sobre a sua carreira: pelos olhos do BB foi feita e aos olhos do BB foi desfeita...

Toda esta maka tambem me confirmou a conviccao que tenho ha muito de que a sociedade Britanica de hoje sera’ profundamente “class-based” e tera’, certamente, como qualquer outra, individuos e grupos racistas - o que em varias series do BB tem sido, em menor ou maior grau, evidenciado - mas nao e’ uma sociedade inerentemente racista, particularmente se comparada a outras sociedades Europeias (ou Africanas, for that matter)…

VER VIDEOS aqui e aqui

PS: SHILPA WON "CELEBRITY BIG BROTHER 2007"...
THE GOODY, THE BADDY & THE UGGLY

Confesso (para algum embaraco do meu filho, que diz nao entender muito bem essa minha “inclinacao”…) que, embora nao veja novelas, sempre que posso, sou uma espectadora interessada do show televisivo Big Brother (BB). Vi, pelo menos parcialmente, algumas das series do UK e duas da Africa do Sul – uma domestica e outra continental, o “Big Brother Africa”, embora nesta tenha perdido a “prestacao” da participante Angolana na sua primeira serie, porque quando fui alertada sobre o programa ja ela tinha sido a primeira a ser expulsa… Para mim, a atraccao do BB consiste em observar um “microcosmos social” nos seus mais pequenos detalhes e seguir as logicas de interaccao entre pessoas, ou grupos, dos mais diversos "backgrounds" sociais, culturais, politicos, etnicos, raciais ou religiosos e, talvez o mais interessante, a reaccao do publico atraves do sistema de votacao semanal... e, talvez mais interessante ainda, o programa de discussao sobre o BB-UK, "Big Brother Big Mouth", actualmente apresentado pelo "enfant terrible" da TV Britanica, Russell Brand (I 'loves' him!)... Enfim, tenho achado o BB bastante elucidativo sobre a(s) sociedade(s) que, mais ou menos explicitamente, acaba por retratar - um verdadeiro "observatorio sociologico".

Ora, estas duas ultimas semanas foram marcadas, a custa da versao “Celebrity” do BB-UK, por um dos mais bizarros acontecimentos na Sanzala Global, que nao tera' sequer passado pela prodigiosa imaginacao de Orwell, quando, em 1949, escreveu 1984 (“Big Brother is Watching You”) … Feliz ou infelizmente, por causa deste meu actual “blogging bug”, nao tenho visto esta serie e apenas comecei a seguir as headlines quando elas se comecaram a tornar mais estridentes e incontornaveis.

A maka conta-se mais ou menos assim: Jade Goody – uma “London lass” de 25 anos de idade, com um baixissimo nivel de educacao e instrucao, para dizer o minimo, e criada por uma mae toxico-dependente, tornou-se “celebrity” ao longo dos ultimos 4 anos, desde que participou numa das series “normais” do BB e, depois de ter ostensivamente "empurrado" para a obscuridade a que tinha sido a vencedora daquela serie, embarcou num processo publico de “polimento” que a fez chegar a um patamar que recentemente lhe permitiu dizer “I’m the 25th most influential person in the world…Pathetic! I don’t even know what that word (influential) means!” – proferiu uma serie de ataques de cariz racista contra outra participante no programa. Esta, Shilpa Shetty, de 31 anos de idade – uma “Bollywood star” de primeiro nivel na India e com um background familiar, educacional e cultural diametralmente oposto ao da Goody – viu-se sem vocabulario, ou “atitude”, para responder a verdadeira torrente de insultos e constante "bullying" por parte da outra e dos seus aliados na casa, incluindo a mae da Jade, que tambem virou "celebridade" a custa da filha…

Vai dai, o Governo Indiano "toma-se de ultrajes" e, entre manifestacoes nas ruas de Mombay, muito parecidas com as que vimos por causa da maka dos cartoons sobre o Profeta Allah, incluindo queima de efigies dos produtores do BB-UK e tudo, pede explicacoes ao desprevenido Gordon Brown, que tem o azar de estar em visita oficial a India nos dias mais quentes da maka... O coitado do Brown apenas conseguiu dizer que nunca tinha visto o programa, mas que condenava veementemente todo e qualquer acto de racismo no UK… Entretanto, em Londres, varios MPs, liderados por um parlamentar de origem Indiana (e tambem, talvez, de origem Portuguesa de Goa, porque tem o apelido Vaz), levaram a questao a sessao semanal, as quartas-feiras, do “Prime Minister’s Questions” em Westminster e o Tony Blair tambem nao ficou menos engasgado que o Brown… Pelo meio, o Channel 4, responsavel pelo BB-UK, recebeu mais de 30 mil queixas de telespectadores indignados com o que estavam a ver nos seus ecrans - o que constituiu um record absoluto de queixas por parte do publico na historia da TV Britanica - e alguns dos principais sponsors do programa comecaram a retirar os seus patrocinios… Enfim, uma “total mess”!

Entretanto, as duas foram postas "head to head" a votacao esta semana para serem expulsas e… saiu a Goody, por votacao da maioria absolutamente esmagadora do publico! Ontem, pela primeira vez na vida do programa, houve uma “eviction night” marcada pelo mais ensurdecedor silencio, ao contrario dos habituais banhos de multidao, cartazes, flashes e poses… Sem duvida, um “marco historico” na vida do BB. Quanto a Jade, que conseguiu acumular, nas duas series em que participou e no periodo entre elas, os papeis de “good, bad & uggly”, ontem, sob a orientacao da sua forte equipa de “coaches”, “career managers” e PRs, desfez-se em desculpas, explicacoes e “denials”, mas parece ja ter percebido o que todos os 'tabloids' e 'broadsheets' dizem esta manha sobre a sua carreira: pelos olhos do BB foi feita e aos olhos do BB foi desfeita...

Toda esta maka tambem me confirmou a conviccao que tenho ha muito de que a sociedade Britanica de hoje sera’ profundamente “class-based” e tera’, certamente, como qualquer outra, individuos e grupos racistas - o que em varias series do BB tem sido, em menor ou maior grau, evidenciado - mas nao e’ uma sociedade inerentemente racista, particularmente se comparada a outras sociedades Europeias (ou Africanas, for that matter)…

VER VIDEOS aqui e aqui

PS: SHILPA WON "CELEBRITY BIG BROTHER 2007"...