participando nas campanhas de producao e de alfabetizacao, etc., etc., etc....
Thursday, 17 May 2012
Sobre o Movimento Estudantil (IV)
participando nas campanhas de producao e de alfabetizacao, etc., etc., etc....
Friday, 2 March 2012
NO "DIA DA MULHER ANGOLANA"... [R]*

Mãe-Negra, desce com ela...
Nem buganvilias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...
Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo Mãe-Negra!
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta, bem calada.
É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada
Alda Lara
( ... Ha' quem continue a "saber tudo" e quem continue a "nao saber nada"... a questao e': "quem e' quem e quem sabe o que sobre o que"...)
(NB: a cancao da saudosa Lourdes Van Dunem que eu queria realmente colocar aqui era o Monami. Mas, como nao a tenho, podera' ouvi-la no Kurikutela)
(Foto daqui)
*[Postado inicialmente a 02/03/2007]
Post Relacionado:
Ainda Sobre o Dia da Mulher Angolana

Mãe-Negra, desce com ela...
Nem buganvilias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.
Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.
Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...
Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...
Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...
Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...
Mãe-Negra não sabe nada...
Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo Mãe-Negra!
Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...
Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...
Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta, bem calada.
É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada
Alda Lara
( ... Ha' quem continue a "saber tudo" e quem continue a "nao saber nada"... a questao e': "quem e' quem e quem sabe o que sobre o que"...)
(NB: a cancao da saudosa Lourdes Van Dunem que eu queria realmente colocar aqui era o Monami. Mas, como nao a tenho, podera' ouvi-la no Kurikutela)
(Foto daqui)
*[Postado inicialmente a 02/03/2007]
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Ainda Sobre o Dia da Mulher Angolana
Wednesday, 12 October 2011
Andre' Mingas (R.I.P.)

Antes da musica, conheci-lhe a danca… aqueles momentos que, tal como na musica jazz, nao se voltam a repetir mas que, por qualquer razao aparentemente inexplicavel, ficam para sempre plasmados na memoria. Foi numa pequena festa de amigos em casa de familia, tinha eu 14/15 anos. Chamou-me a atencao a forma como dancava: chamo-lhe agora “danca jazz”, mas na altura pareceu-me apenas “diferente”, “solto”, “inconvencional”, “inventivo”… dancando, a partir de dentro, “no topo das notas”, “surfando a tonalidade da musica”... como um passaro... com alma!
E sempre sorrindo.
E era ("apenas") semba o que dancavamos ("intuitivamente") em roda.
Gostei, e os meus olhos devem te-lo dito, porque era assim que eu gostava de dancar.
Nunca mais o vi, mas ouvi-lhe, anos mais tarde, a musica.
Tambem gostei porque era assim que o meu pai gostava de cantar.
Sim, inspirando emocoes…
[Obituario aqui e aqui]

Coisas da Vida (1991)
Esperança
Vejo-te ainda bem aqui
teu riso solto no espaço.
teu corpo alegre livre dança
e eu vou no rumo leve dos teus braços
O mar ninava o amor
as rosas davam-lhe o cheiro
e tu eras o ar que hoje busco em desespero
Mas agora de tudo o que era luz
ficou a sombra
de tudo o que era vida
só a lembrança
no horizonte o meu olhar buscando o teu
Sigo o caminho
alma vazia
meu corpo cansado
no coração brilha a centelha
que o amor deixou
e a esperança de um dia
ver tudo começado.
[Esperanca]
[Coisas do Amor]
[O Que Eu Quero]
[Hino ao Amor]
[Jiminina]
[Nzambi]
[Tchipalepa]
Post Relacionado:
Morro do Semba (III)

Antes da musica, conheci-lhe a danca… aqueles momentos que, tal como na musica jazz, nao se voltam a repetir mas que, por qualquer razao aparentemente inexplicavel, ficam para sempre plasmados na memoria. Foi numa pequena festa de amigos em casa de familia, tinha eu 14/15 anos. Chamou-me a atencao a forma como dancava: chamo-lhe agora “danca jazz”, mas na altura pareceu-me apenas “diferente”, “solto”, “inconvencional”, “inventivo”… dancando, a partir de dentro, “no topo das notas”, “surfando a tonalidade da musica”... como um passaro... com alma!
E sempre sorrindo.
E era ("apenas") semba o que dancavamos ("intuitivamente") em roda.
Gostei, e os meus olhos devem te-lo dito, porque era assim que eu gostava de dancar.
Nunca mais o vi, mas ouvi-lhe, anos mais tarde, a musica.
Tambem gostei porque era assim que o meu pai gostava de cantar.
Sim, inspirando emocoes…
[Obituario aqui e aqui]

Coisas da Vida (1991)
Esperança
Vejo-te ainda bem aqui
teu riso solto no espaço.
teu corpo alegre livre dança
e eu vou no rumo leve dos teus braços
O mar ninava o amor
as rosas davam-lhe o cheiro
e tu eras o ar que hoje busco em desespero
Mas agora de tudo o que era luz
ficou a sombra
de tudo o que era vida
só a lembrança
no horizonte o meu olhar buscando o teu
Sigo o caminho
alma vazia
meu corpo cansado
no coração brilha a centelha
que o amor deixou
e a esperança de um dia
ver tudo começado.
[Esperanca]
[Coisas do Amor]
[O Que Eu Quero]
[Hino ao Amor]
[Jiminina]
[Nzambi]
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Tuesday, 4 October 2011
Yinka Shonibare's 'Odile and Odette'
The film, with choreography by Kim Brandstrup features two ballerinas, one black one white, who explore the Swan Lake roles of Odile and Odette through a baroque mirror emphasizing the interplay between reality and reflection, conscious and unconscious. With the dancers wearing classical tutus made of African textiles Shonibare's film challenges assumptions about representation by playfully blurring the boundaries between stereotypically Western ideas about 'high' art and traditional categorisations of 'African art.'
[here]
We see each dancer emulating the other’s movements and expressions, although the emphasis here is on the African dancer who is enacting a careful and studied imitation of the highly valued, and European-produced, ballet art form.
[here]
Shonibare's interpretation extends the theme of blackness and whiteness in his juxtaposition of the two dancers and calls into question the Western binary opposition in which negative or "dark" forces are polarized against positive, "light" ones.
Odile and Odette, Shonibare's second film work to date, was commissioned by London's Royal Opera and Ballet. The artist has noted, with some irony, that his film features one ballerina drawn from the Royal Ballet (the white dancer) and an independent dancer sourced by the company because it did not have a black ballerina in its corps.
[here]
[Full lenght film: 14 minutes, 28 seconds]
Speaking of the work at a recent lecture at Goldsmiths College Shonibare explained the ballerina represents “the epitome of ‘civilized sensibilities’.” Accompanying the film was a sculpture of a ballerina of ambivalent race perched atop a black cloud: “a ballerina balanced on a black mushroom cloud of war and destruction.” Irony, again, is writ large. Civilization creates beautiful things, beautiful art in particular, but at what cost?
[here]

Gostaria de dedicar, com amizade, este post ‘a Marinela.
A Marinela foi minha colega no Liceu e era (ainda e’?) a unica bailarina classica negra Angolana que conheco. Foi ela que, na primeira metade da decada de 90, em Lisboa, me levou 'a companhia de danca que aqui mencionava, onde pratiquei o que entao se chamava “danca jazz” (ainda se chama?). As aulas que frequentei eram para amadores, mas o “warm-up”, baseado em exercicios 'tailor-made' para bailarinos classicos, era feito em conjunto com os profissionais da companhia, entre os quais a Marinela se incluia. Eramos entao, eu e ela, as unicas negras no grupo.
A companhia era dirigida por uma coreografa Franco-Argelina coadjuvada por um ex-bailarino classico Russo, que tinha tido o desaire de ter fracturado um joelho e assim ficado incapacitado de dancar profissionalmente. Ela tinha sempre um ar muito frio e distante e a unica vez que se dirigiu a mim foi para dizer, como se estivesse a dirigir-se a outra pessoa: "vejo ai muita emocao e sensualidade, mas muito pouca tecnica!" ...como se eu nao fosse, assumidamente, apenas uma amadora... Ja' ele, muito mais relaxado e divertido, estava sempre muito atento a minha “postura” (nao apenas fisica) nas aulas e explicava porque ao resto do grupo: “ela ri-se de si propria em frente ao espelho, mostrando-se consciente das suas falhas, mas depois de se rir fica muito seria e corrige a sua postura e os seus passos”…
Mas, era da Marinela que me apetecia falar… que e’ feito de ti Marinela?
[Post (nao) relacionado: Sobras]
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Maqoma's Beautiful Me
Materia (nao) Relacionada
The film, with choreography by Kim Brandstrup features two ballerinas, one black one white, who explore the Swan Lake roles of Odile and Odette through a baroque mirror emphasizing the interplay between reality and reflection, conscious and unconscious. With the dancers wearing classical tutus made of African textiles Shonibare's film challenges assumptions about representation by playfully blurring the boundaries between stereotypically Western ideas about 'high' art and traditional categorisations of 'African art.'
[here]
We see each dancer emulating the other’s movements and expressions, although the emphasis here is on the African dancer who is enacting a careful and studied imitation of the highly valued, and European-produced, ballet art form.
[here]
Shonibare's interpretation extends the theme of blackness and whiteness in his juxtaposition of the two dancers and calls into question the Western binary opposition in which negative or "dark" forces are polarized against positive, "light" ones.
Odile and Odette, Shonibare's second film work to date, was commissioned by London's Royal Opera and Ballet. The artist has noted, with some irony, that his film features one ballerina drawn from the Royal Ballet (the white dancer) and an independent dancer sourced by the company because it did not have a black ballerina in its corps.
[here]
[Full lenght film: 14 minutes, 28 seconds]
Speaking of the work at a recent lecture at Goldsmiths College Shonibare explained the ballerina represents “the epitome of ‘civilized sensibilities’.” Accompanying the film was a sculpture of a ballerina of ambivalent race perched atop a black cloud: “a ballerina balanced on a black mushroom cloud of war and destruction.” Irony, again, is writ large. Civilization creates beautiful things, beautiful art in particular, but at what cost?
[here]

Gostaria de dedicar, com amizade, este post ‘a Marinela.
A Marinela foi minha colega no Liceu e era (ainda e’?) a unica bailarina classica negra Angolana que conheco. Foi ela que, na primeira metade da decada de 90, em Lisboa, me levou 'a companhia de danca que aqui mencionava, onde pratiquei o que entao se chamava “danca jazz” (ainda se chama?). As aulas que frequentei eram para amadores, mas o “warm-up”, baseado em exercicios 'tailor-made' para bailarinos classicos, era feito em conjunto com os profissionais da companhia, entre os quais a Marinela se incluia. Eramos entao, eu e ela, as unicas negras no grupo.
A companhia era dirigida por uma coreografa Franco-Argelina coadjuvada por um ex-bailarino classico Russo, que tinha tido o desaire de ter fracturado um joelho e assim ficado incapacitado de dancar profissionalmente. Ela tinha sempre um ar muito frio e distante e a unica vez que se dirigiu a mim foi para dizer, como se estivesse a dirigir-se a outra pessoa: "vejo ai muita emocao e sensualidade, mas muito pouca tecnica!" ...como se eu nao fosse, assumidamente, apenas uma amadora... Ja' ele, muito mais relaxado e divertido, estava sempre muito atento a minha “postura” (nao apenas fisica) nas aulas e explicava porque ao resto do grupo: “ela ri-se de si propria em frente ao espelho, mostrando-se consciente das suas falhas, mas depois de se rir fica muito seria e corrige a sua postura e os seus passos”…
Mas, era da Marinela que me apetecia falar… que e’ feito de ti Marinela?
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Monday, 3 October 2011
Memoria de Morabezza (II)

Regresso brevemente a esta memoria para marcar o recente passamento fisico de Aristides Pereira, primeiro Presidente de Cabo Verde.
Lembro-me de naquele simposio me ter sido dada a honra de fazer a primeira alocucao pelos participantes a seguir 'a cerimonia solene de abertura e de, depois da emocional saudacao que recebi de Mario Pinto de Andrade, Aristides Pereira, perto de quem estava sentada, tambem me ter dirigido algumas palavras de morabezza.

Nao se tratando este apontamento estritamente de um obituario, essa memoria traz consigo a de um outro protagonista da luta anti-colonial, tambem falecido ha’ relativamente pouco tempo: Luis Cabral – irmao de Amilcar Cabral e primeiro presidente da Guine’ Bissau. Conheci-o, e a sua familia, num ambiente mais informal, atravez da Lourdes e do seu marido Carlos Rubio, de quem era amigo e vizinho em Lisboa.
Aos dois ex-estadistas, ambos co-fundadores do PAIGC com Amilcar Cabral, ligava o laco fraternal que, durante algum tempo, uniu a Guine’ Bissau e Cabo Verde sob a mesma bandeira.
Paz 'as suas Almas.
[Mindjeres di Pano Preto - Jose' Carlos Swarts]

Regresso brevemente a esta memoria para marcar o recente passamento fisico de Aristides Pereira, primeiro Presidente de Cabo Verde.
Lembro-me de naquele simposio me ter sido dada a honra de fazer a primeira alocucao pelos participantes a seguir 'a cerimonia solene de abertura e de, depois da emocional saudacao que recebi de Mario Pinto de Andrade, Aristides Pereira, perto de quem estava sentada, tambem me ter dirigido algumas palavras de morabezza.

Nao se tratando este apontamento estritamente de um obituario, essa memoria traz consigo a de um outro protagonista da luta anti-colonial, tambem falecido ha’ relativamente pouco tempo: Luis Cabral – irmao de Amilcar Cabral e primeiro presidente da Guine’ Bissau. Conheci-o, e a sua familia, num ambiente mais informal, atravez da Lourdes e do seu marido Carlos Rubio, de quem era amigo e vizinho em Lisboa.
Aos dois ex-estadistas, ambos co-fundadores do PAIGC com Amilcar Cabral, ligava o laco fraternal que, durante algum tempo, uniu a Guine’ Bissau e Cabo Verde sob a mesma bandeira.
Paz 'as suas Almas.
[Mindjeres di Pano Preto - Jose' Carlos Swarts]
Friday, 29 July 2011
Listening to Classical Acoustic Guitar

So, it all sounded and felt a bit ‘ancient’ going back to listening to a man and his instrument in front of sheets of written music which he at the end of each piece threw to the floor. It was good.
Here’s a bit about him:
Tony premiered Memórias, the published works of Silvestre Fonseca's Fado arrangements, and had a piece, Serenata, written for him by Silvestre Fonseca.
He has several arrangements published: Ennio Morricone's Once Upon A Time In The West and The Master and Margerita and the book Easy Ensembles. His playing is featured in the films Silent Shakespeare, with pieces composed by Laura Rossi, and an animated film with music composed by Miguel Mera.
Tony has been teaching at the City Literary Institute in Holborn, London for the past twelve years and runs a class at Bedford House Community Centre. He has performed with Carlos Bonell as well as flautists, recorder players, Renaissance singers and a guitar trio. He has recently played in Garcia Lorca's Blood Wedding, Lope de Vega's Peribanez and a musical version of George Orwell's Animal Farm.
[More here]

So, it all sounded and felt a bit ‘ancient’ going back to listening to a man and his instrument in front of sheets of written music which he at the end of each piece threw to the floor. It was good.
Here’s a bit about him:
Tony premiered Memórias, the published works of Silvestre Fonseca's Fado arrangements, and had a piece, Serenata, written for him by Silvestre Fonseca.
He has several arrangements published: Ennio Morricone's Once Upon A Time In The West and The Master and Margerita and the book Easy Ensembles. His playing is featured in the films Silent Shakespeare, with pieces composed by Laura Rossi, and an animated film with music composed by Miguel Mera.
Tony has been teaching at the City Literary Institute in Holborn, London for the past twelve years and runs a class at Bedford House Community Centre. He has performed with Carlos Bonell as well as flautists, recorder players, Renaissance singers and a guitar trio. He has recently played in Garcia Lorca's Blood Wedding, Lope de Vega's Peribanez and a musical version of George Orwell's Animal Farm.
[More here]
Friday, 1 July 2011
Memoria de Uma Tarde de Verao

E’ verao no hemisferio Norte quando o cacimbo aperta no Sul. E’ verao, e por aqui (no Norte) sucedem-se as feiras da epoca: feiras de rua, de bairro, de cidade, de regiao, onde se (re)descobrem prazeres e sonhos de infancia, de adolescencia, de juventude, de vida. E’ verao em Londres (embora, para nao variar, com muita chuva e mau tempo, e este ano ate' com trovoadas, raios e coriscos pelo meio…) e e’ tempo de feiras locais.
Tantas feiras acabaram por me transportar de volta ‘a “minha decada maldita”: a de 80. Era talvez 84 e eu estava a passar umas ferias em Paris – a segunda vez que visitava a “cidade luz”. Fi-lo com o tipo de “reverencia” que parece apenas servir para nos demonstrar o quanto aquela cidade so’ pode ser completamente “enjoyable” para quem tenha (muito) dinheiro!... Enfim, Paris: uma cidade na verdade (muito) pouco “enjoyable”, “fraternal”, “igualitaria” ou “irma”, et pourtant, na realidade (muito) pouco “romantica”, apesar de toda a propaganda em contrario…
Mas houve uma tarde durante aquelas ferias, em que eu e uma mulher angolana decidimos encontrar-nos para irmos em busca de um pouco do tal “romantismo” que todos temos como a “marca registada” daquela cidade, numa feira de verao nos seus arredores. Foi uma inesperada longa viagem de trem para uma feira muito propagandeada atraves de posters na cidade central, mas que… acabou por se revelar a total flop! Uma completa perda de tempo: nao encontramos la’ nada que pudesse justificar o entusiasmo que ali nos levara e muito menos o nosso (pouco) dinheiro que inutilmente gastaramos para la’ ir! E, ainda por cima, chovia quando la' chegamos!...
Voltamos entao ao centro da cidade, com toda a expectativa que la’ nos levara transformada em frustracao. Mas nao sem antes termos passado por uma estacao de metro em que encontramos um stand de venda de flores aparentemente abandonado… Sem sequer trocarmos muitas palavras, decidimos (inocentemente!), para nos ressarcirmos do desencanto da jornada, levar de la’ um ramo de flores. Mas…. eis que o stand nao estava nada abandonado (o seu dono, ou empregado, estava apenas a alguma distancia) e, de repente, enquanto nos deliciavamos com a frescura, o cheiro e a beleza das flores, vimo-nos perseguidas por ele, ameacando-nos de chamar a policia!... Ja’ nao me lembro bem se acabamos por pagar pelo ramo de flores e levamo-lo, ou se por o devolver pura e simplesmente…
Mas, por entre entusiasmos, frustracoes, aventuras, irreverencias e perseguicoes, foi uma divertida e memoravel jornada – para mim e para uma Mulher a quem nos ultimos tempos me tenho vindo a dirigir como se “nao a conhecesse de parte nenhuma”… muito tempo sem nos vermos – de facto, desde aquele dia – um certo distanciamento das instituicoes e a "separacao das aguas" por que gosto de me pautar em relacao ao poder politico oblige! Mas nao creio que, apesar do tempo, da distancia e das circunstancias, me tenha estado a dirigir a uma pessoa completamente diferente daquela que conheci naquela tarde de verao, na decada de 80, em Paris…
Ja’ entao conhecia as suas irmas, que daqui saudo, e o seu irmao – na altura pos-graduando de Economia naquele pais e agora a bracos com esses sempre tremendos desafios do desenvolvimento em Angola – que, mais tarde, no inicio da decada de 90, durante uma reuniao de membros da sociedade civil e da comunidade Angolana em Portugal, durante a qual tive a oportunidade de apresentar o projecto de actividades em prol da PAZ E DEMOCRACIA no nosso pais pelo grupo de estudantes que representava, ele se demonstrara solidario com a nossa causa, nao tendo no entanto deixado de me advertir dos ‘perigos politicos’ em que incorria … nao me preparou, porem (nada, nem ninguem, o faria!), para as escutas, vigias, perseguicoes e ameacas de morte, que continuam ate’ hoje a determinar o curso da minha vida!
Mas, voltando a Paris, no espirito de “igualdade, irmandade e fraternidade” que nos guiou naquela tarde de verao: Ola’ Carolina!

E’ verao no hemisferio Norte quando o cacimbo aperta no Sul. E’ verao, e por aqui (no Norte) sucedem-se as feiras da epoca: feiras de rua, de bairro, de cidade, de regiao, onde se (re)descobrem prazeres e sonhos de infancia, de adolescencia, de juventude, de vida. E’ verao em Londres (embora, para nao variar, com muita chuva e mau tempo, e este ano ate' com trovoadas, raios e coriscos pelo meio…) e e’ tempo de feiras locais.
Tantas feiras acabaram por me transportar de volta ‘a “minha decada maldita”: a de 80. Era talvez 84 e eu estava a passar umas ferias em Paris – a segunda vez que visitava a “cidade luz”. Fi-lo com o tipo de “reverencia” que parece apenas servir para nos demonstrar o quanto aquela cidade so’ pode ser completamente “enjoyable” para quem tenha (muito) dinheiro!... Enfim, Paris: uma cidade na verdade (muito) pouco “enjoyable”, “fraternal”, “igualitaria” ou “irma”, et pourtant, na realidade (muito) pouco “romantica”, apesar de toda a propaganda em contrario…
Mas houve uma tarde durante aquelas ferias, em que eu e uma mulher angolana decidimos encontrar-nos para irmos em busca de um pouco do tal “romantismo” que todos temos como a “marca registada” daquela cidade, numa feira de verao nos seus arredores. Foi uma inesperada longa viagem de trem para uma feira muito propagandeada atraves de posters na cidade central, mas que… acabou por se revelar a total flop! Uma completa perda de tempo: nao encontramos la’ nada que pudesse justificar o entusiasmo que ali nos levara e muito menos o nosso (pouco) dinheiro que inutilmente gastaramos para la’ ir! E, ainda por cima, chovia quando la' chegamos!...
Voltamos entao ao centro da cidade, com toda a expectativa que la’ nos levara transformada em frustracao. Mas nao sem antes termos passado por uma estacao de metro em que encontramos um stand de venda de flores aparentemente abandonado… Sem sequer trocarmos muitas palavras, decidimos (inocentemente!), para nos ressarcirmos do desencanto da jornada, levar de la’ um ramo de flores. Mas…. eis que o stand nao estava nada abandonado (o seu dono, ou empregado, estava apenas a alguma distancia) e, de repente, enquanto nos deliciavamos com a frescura, o cheiro e a beleza das flores, vimo-nos perseguidas por ele, ameacando-nos de chamar a policia!... Ja’ nao me lembro bem se acabamos por pagar pelo ramo de flores e levamo-lo, ou se por o devolver pura e simplesmente…
Mas, por entre entusiasmos, frustracoes, aventuras, irreverencias e perseguicoes, foi uma divertida e memoravel jornada – para mim e para uma Mulher a quem nos ultimos tempos me tenho vindo a dirigir como se “nao a conhecesse de parte nenhuma”… muito tempo sem nos vermos – de facto, desde aquele dia – um certo distanciamento das instituicoes e a "separacao das aguas" por que gosto de me pautar em relacao ao poder politico oblige! Mas nao creio que, apesar do tempo, da distancia e das circunstancias, me tenha estado a dirigir a uma pessoa completamente diferente daquela que conheci naquela tarde de verao, na decada de 80, em Paris…
Ja’ entao conhecia as suas irmas, que daqui saudo, e o seu irmao – na altura pos-graduando de Economia naquele pais e agora a bracos com esses sempre tremendos desafios do desenvolvimento em Angola – que, mais tarde, no inicio da decada de 90, durante uma reuniao de membros da sociedade civil e da comunidade Angolana em Portugal, durante a qual tive a oportunidade de apresentar o projecto de actividades em prol da PAZ E DEMOCRACIA no nosso pais pelo grupo de estudantes que representava, ele se demonstrara solidario com a nossa causa, nao tendo no entanto deixado de me advertir dos ‘perigos politicos’ em que incorria … nao me preparou, porem (nada, nem ninguem, o faria!), para as escutas, vigias, perseguicoes e ameacas de morte, que continuam ate’ hoje a determinar o curso da minha vida!
Mas, voltando a Paris, no espirito de “igualdade, irmandade e fraternidade” que nos guiou naquela tarde de verao: Ola’ Carolina!
Saturday, 28 May 2011
Kwando a Diferenca…
... Mais do que um 'problema' ou um 'desafio', se torna uma sordida, obscena, pornografica, porca, nojenta, esquizofrenica e sinistra permanente RACISTA, SUPREMACISTA BRANCA DE EXTREMA DIREITA, NEO-NAZI
AMEACA DE MORTE!

[E... para que NUNCA se perca, aqui fica a "confissao" da dita vulta, publicada no seu blog:
TESTAMENTO
… quero dançar, dançar sempre até me evaporar, até os meus pés e a minha alma se rasgarem em fragmentos que se espalharão pela terra de todas as vidas que vivi, de todas as vidas que pisei, de todas as vidas que construí e destruí. De todas as vidas que sonhei e nem conheci.
Que o céu me arranque os olhos castanhos e os faça azuis de mar e cinzentos de tempestade. Que os ogros me levem o coração inscrito de sinuosas cicatrizes. E que tu me guardes a pele transparente e inofensiva e dela faças uma janela para coar o sol. O meu sol.
E que a raiva do meu corpo, te deite brutalmente sobre a areia de uma praia qualquer, onde te arrancarei a roupa e os complexos, onde te amputarei o génio e a identidade, onde te extirparei a serenidade e o sorriso, para te possuir, selvagem, extinguindo-me na vontade de te engolir para sempre.
Na intensidade de um orgasmo lúgubre, conseguirei então o que desejo, afinal, e que há de mais belo em ti:
a tua alma pura e frágil!..
Ana Clara Guerra Marques - "Premio Nacional de Cultura e Artes" de Angola - a.k.a. "A Diva das Kostas Largas (Nuas) do P(h)oder" - publicado no seu blog a 06 de Marco de 2008 , mas de que so' ontem me apercebi...]

DESAFIO
De sangue na ponta
lança desafio a palavra
jorrada do colo tão nosso,
tranzido.
Trata-se apenas
de a encontrar
neste saco placentário
em frase
e a voz para a dizer
pelo furacão em transe
cumprindo o tempo
do poema parido assim
em desespero
quando de paz se quer
alado, se desfaz
como suspiro na boca
ao lado.
[A.S. in S.O.S.]
[... Prefiro deixar as questoes culturais de parte nesta discussao, porque ai entao e' que vamos encontrar verdadeiramente as maiores falacias do tal "projecto de sociedade"...]
Regresso hoje brevemente ao Meu Liceu para dele “desencantar” dois fantasmas (ou melhor, vultos!) que por la’ pairavam e que continuam a ensombrar, a atormentar e a infernizar a minha vida depois de dele ter saido ha’ mais de 30 anos…
Como aqui notei, no antigo Liceu Feminino de Luanda existia um invisivel ‘muro de apartheid’ que produziu ‘Donas Guiomares de Lencastre’ por um lado e ‘Rainhas Nzinga Mbandis’ por outro. E, como sera’ facil de imaginar, de um lado daquele muro estavam mulheres e raparigas – professoras e alunas – brancas, e do outro estavam negras - apenas alunas -, com algumas mesticas um pouco dos dois lados.
O que ja’ nao seria assim tao facil de imaginar, era que aquele ‘muro de apartheid’ tambem separava outros dois mundos: um habitado por lesbicas e outro por heterosexuais. E embora o primeiro desses mundos fosse ‘ultra-minoritario’ - ao contrario do que se passava no que separava negras e brancas, onde estas eram maioritarias -, apesar de aparentemente “insuspeito”, ele tornava-se visivel a quem o pudesse observar mais de perto, especialmente depois do 25 de Abril de 1974.
Falo, obviamente, apenas do que posso falar: do que vi, ouvi e senti durante o periodo em que o frequentei como aluna, entre 1972 e 1976. De outros periodos, anteriores e posteriors, poderao porventura testemunhar com mais propriedade, e quica com diferentes apreciacoes ou pontos de vista, aquelas (e/ou aqueles) que os terao vivido. Dos reais e/ou imaginados ‘sexual shenanigans’ que por la’ se terao passado, homo ou heterosexuais, tao pouco posso falar com qualquer propriedade, uma vez que nunca os vi, nem os vivi e muito menos os senti: ja' andava entao demasiado ocupada com o meu engajamento politico, em Luanda e fora dela. Nem mesmo os de que ‘todo o mundo’ por vezes (nao) fala e que terao tido lugar especialmente em 74/75, em particular desde que os ‘rapazes’ dos outros liceus de Luanda, vulgo “a malta do liceu”, lhe arrombou os cadeados, lhe escancarou as grades e lhe pulou as cercas para por la’ passar a assentar arraiais…
Mas pude, no entanto, dar-me conta do grupo das lesbicas – em particular de duas, uma professora e outra aluna. Eram especialmente notorias por tenderem a dedicar-se a educacao fisica e ao desporto ou, mais geralmente, as “disciplinas do corpo”, nas quais uma sua, agora tristemente celebre, offspring (que na altura, como aqui observei, eu nao conhecia e que, de resto, felizmente continuo a nao ter o desprazer de conhecer pessoalmente, senao atraves dos seus actos de vulturismo racista, terrorista e assassino contra mim… Conhecia, no entanto, a mae dela, que tambem la’ era professora - embora nunca tenha sido minha professora - e lembro-me de uma vez, na sala das professoras(*), essa outra professora de que falo lhe ter dado uma ‘palmadona’ no traseiro – e’, aquela bunDona e’ hereditaria…– que fez acompanhar de umas palavras de “apreciacao” que eu antes apenas ouvira sair da boca de homens…) se haveria de “especializar”…
Com aquela professora haveria de ter um contacto mais proximo, quando ambas fizemos parte do Conselho Directivo do Liceu, durante um curto periodo de tentativa de "experimentacao" de uma certa “miscigenacao” hierarquica, funcional, social, racial e cultural, que tentava espelhar e replicar o que se comecava a passar um pouco por todo o lado em Luanda e no pais em geral durante aquele (in)famoso e efemero ‘Periodo Revolucionario em Curso’, vulgo PREC, findo o qual nao nos voltamos a ver. Mas aquele foi estritamente um contacto digamos que, por falta de melhor designacao, "profissional" e que nunca extravazou os limites do liceu e das relacoes professora-aluna, embora ela tambem nunca tivesse sido pessoalmente minha professora...(**)
Anos mais tarde, porem, ja’ na decada de 80, alguem amigo comum levou-me a casa da tal professora (por sinal tambem localizada na entao "minha" rua dos Ex-Combatentes ), mas numa altura em que ela se encontrava fora do pais. Eu estava com o meu filho, na altura com uns 3 ou 4 anitos de idade, e lembro-me de a sua, julgo que, 'companheira' na altura, que la’ nos recebeu, as tantas me ter atirado com algo como “para que trazer filhos a este mundo – so’ para virem sofrer?”… O que naquele momento me deixou algo perturbada e sem saber muito bem o que lhe responder, mas que agora nao posso deixar de relacionar com um certo “pobres e insignificantes criaturas rejeitadas e por isso verdes e doentes, etc…”, ao qual reagi inicialmente aqui (e que posteriormente auto-censurei) e ao qual me venho frequentemente referindo neste blog!...
Tao pouco posso deixar de relacionar todas essas memorias com
TODA ESTA MERDA!!!
(*) Sendo de notar aqui, en passant, que uma daquelas tais professoras tambem fez, mais tarde, parte da "Embaixada do Sr. Rui Mingas (... tambem ele um 'especialista em assuntos do fisico'...) em Portugal"...
(**)... E julgo que tera' sido ai que comecei a apreender o conceito de "diversidade", a respeitar a "diferenca" e a dar-me conta da minha propria "identidade", a afirma-la e a defende-la e, logo, a nao ter problemas em admitir e dizer sem qualquer hesitacao e muito menos "complexos":
"NAO, NAO SOMOS, NUNCA FOMOS, TODOS IGUAIS!"...
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... Mais do que um 'problema' ou um 'desafio', se torna uma sordida, obscena, pornografica, porca, nojenta, esquizofrenica e sinistra permanente RACISTA, SUPREMACISTA BRANCA DE EXTREMA DIREITA, NEO-NAZI
AMEACA DE MORTE!

[E... para que NUNCA se perca, aqui fica a "confissao" da dita vulta, publicada no seu blog:
TESTAMENTO
… quero dançar, dançar sempre até me evaporar, até os meus pés e a minha alma se rasgarem em fragmentos que se espalharão pela terra de todas as vidas que vivi, de todas as vidas que pisei, de todas as vidas que construí e destruí. De todas as vidas que sonhei e nem conheci.
Que o céu me arranque os olhos castanhos e os faça azuis de mar e cinzentos de tempestade. Que os ogros me levem o coração inscrito de sinuosas cicatrizes. E que tu me guardes a pele transparente e inofensiva e dela faças uma janela para coar o sol. O meu sol.
E que a raiva do meu corpo, te deite brutalmente sobre a areia de uma praia qualquer, onde te arrancarei a roupa e os complexos, onde te amputarei o génio e a identidade, onde te extirparei a serenidade e o sorriso, para te possuir, selvagem, extinguindo-me na vontade de te engolir para sempre.
Na intensidade de um orgasmo lúgubre, conseguirei então o que desejo, afinal, e que há de mais belo em ti:
a tua alma pura e frágil!..
Ana Clara Guerra Marques - "Premio Nacional de Cultura e Artes" de Angola - a.k.a. "A Diva das Kostas Largas (Nuas) do P(h)oder" - publicado no seu blog a 06 de Marco de 2008 , mas de que so' ontem me apercebi...]

DESAFIO
De sangue na ponta
lança desafio a palavra
jorrada do colo tão nosso,
tranzido.
Trata-se apenas
de a encontrar
neste saco placentário
em frase
e a voz para a dizer
pelo furacão em transe
cumprindo o tempo
do poema parido assim
em desespero
quando de paz se quer
alado, se desfaz
como suspiro na boca
ao lado.
[A.S. in S.O.S.]
[... Prefiro deixar as questoes culturais de parte nesta discussao, porque ai entao e' que vamos encontrar verdadeiramente as maiores falacias do tal "projecto de sociedade"...]
Regresso hoje brevemente ao Meu Liceu para dele “desencantar” dois fantasmas (ou melhor, vultos!) que por la’ pairavam e que continuam a ensombrar, a atormentar e a infernizar a minha vida depois de dele ter saido ha’ mais de 30 anos…
Como aqui notei, no antigo Liceu Feminino de Luanda existia um invisivel ‘muro de apartheid’ que produziu ‘Donas Guiomares de Lencastre’ por um lado e ‘Rainhas Nzinga Mbandis’ por outro. E, como sera’ facil de imaginar, de um lado daquele muro estavam mulheres e raparigas – professoras e alunas – brancas, e do outro estavam negras - apenas alunas -, com algumas mesticas um pouco dos dois lados.
O que ja’ nao seria assim tao facil de imaginar, era que aquele ‘muro de apartheid’ tambem separava outros dois mundos: um habitado por lesbicas e outro por heterosexuais. E embora o primeiro desses mundos fosse ‘ultra-minoritario’ - ao contrario do que se passava no que separava negras e brancas, onde estas eram maioritarias -, apesar de aparentemente “insuspeito”, ele tornava-se visivel a quem o pudesse observar mais de perto, especialmente depois do 25 de Abril de 1974.
Falo, obviamente, apenas do que posso falar: do que vi, ouvi e senti durante o periodo em que o frequentei como aluna, entre 1972 e 1976. De outros periodos, anteriores e posteriors, poderao porventura testemunhar com mais propriedade, e quica com diferentes apreciacoes ou pontos de vista, aquelas (e/ou aqueles) que os terao vivido. Dos reais e/ou imaginados ‘sexual shenanigans’ que por la’ se terao passado, homo ou heterosexuais, tao pouco posso falar com qualquer propriedade, uma vez que nunca os vi, nem os vivi e muito menos os senti: ja' andava entao demasiado ocupada com o meu engajamento politico, em Luanda e fora dela. Nem mesmo os de que ‘todo o mundo’ por vezes (nao) fala e que terao tido lugar especialmente em 74/75, em particular desde que os ‘rapazes’ dos outros liceus de Luanda, vulgo “a malta do liceu”, lhe arrombou os cadeados, lhe escancarou as grades e lhe pulou as cercas para por la’ passar a assentar arraiais…
Mas pude, no entanto, dar-me conta do grupo das lesbicas – em particular de duas, uma professora e outra aluna. Eram especialmente notorias por tenderem a dedicar-se a educacao fisica e ao desporto ou, mais geralmente, as “disciplinas do corpo”, nas quais uma sua, agora tristemente celebre, offspring (que na altura, como aqui observei, eu nao conhecia e que, de resto, felizmente continuo a nao ter o desprazer de conhecer pessoalmente, senao atraves dos seus actos de vulturismo racista, terrorista e assassino contra mim… Conhecia, no entanto, a mae dela, que tambem la’ era professora - embora nunca tenha sido minha professora - e lembro-me de uma vez, na sala das professoras(*), essa outra professora de que falo lhe ter dado uma ‘palmadona’ no traseiro – e’, aquela bunDona e’ hereditaria…– que fez acompanhar de umas palavras de “apreciacao” que eu antes apenas ouvira sair da boca de homens…) se haveria de “especializar”…
Com aquela professora haveria de ter um contacto mais proximo, quando ambas fizemos parte do Conselho Directivo do Liceu, durante um curto periodo de tentativa de "experimentacao" de uma certa “miscigenacao” hierarquica, funcional, social, racial e cultural, que tentava espelhar e replicar o que se comecava a passar um pouco por todo o lado em Luanda e no pais em geral durante aquele (in)famoso e efemero ‘Periodo Revolucionario em Curso’, vulgo PREC, findo o qual nao nos voltamos a ver. Mas aquele foi estritamente um contacto digamos que, por falta de melhor designacao, "profissional" e que nunca extravazou os limites do liceu e das relacoes professora-aluna, embora ela tambem nunca tivesse sido pessoalmente minha professora...(**)
Anos mais tarde, porem, ja’ na decada de 80, alguem amigo comum levou-me a casa da tal professora (por sinal tambem localizada na entao "minha" rua dos Ex-Combatentes ), mas numa altura em que ela se encontrava fora do pais. Eu estava com o meu filho, na altura com uns 3 ou 4 anitos de idade, e lembro-me de a sua, julgo que, 'companheira' na altura, que la’ nos recebeu, as tantas me ter atirado com algo como “para que trazer filhos a este mundo – so’ para virem sofrer?”… O que naquele momento me deixou algo perturbada e sem saber muito bem o que lhe responder, mas que agora nao posso deixar de relacionar com um certo “pobres e insignificantes criaturas rejeitadas e por isso verdes e doentes, etc…”, ao qual reagi inicialmente aqui (e que posteriormente auto-censurei) e ao qual me venho frequentemente referindo neste blog!...
Tao pouco posso deixar de relacionar todas essas memorias com
TODA ESTA MERDA!!!
(*) Sendo de notar aqui, en passant, que uma daquelas tais professoras tambem fez, mais tarde, parte da "Embaixada do Sr. Rui Mingas (... tambem ele um 'especialista em assuntos do fisico'...) em Portugal"...
(**)... E julgo que tera' sido ai que comecei a apreender o conceito de "diversidade", a respeitar a "diferenca" e a dar-me conta da minha propria "identidade", a afirma-la e a defende-la e, logo, a nao ter problemas em admitir e dizer sem qualquer hesitacao e muito menos "complexos":
"NAO, NAO SOMOS, NUNCA FOMOS, TODOS IGUAIS!"...
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Wednesday, 6 April 2011
Ola’ Matadi!…
Este e’ um ola’ atirado “as cegas” ‘a cortina, por vezes de fumo, por vezes de ferro, que nos vai transformando cada vez mais em “surdos-mudos” (e “cegos”?), mesmo quando usamos meios, como este, inventados supostamente para “nos aproximar e facilitar-nos a comunicacao”…E’ um ola’ a um velho amigo que, ‘a falta de outra referencia mais recente, incluiria na minha Geracao R – uma geracao em que alguns interiorizaram de tal modo a “rejeicao” que, talvez por nao encontrarem outra saida, nela se 'perderam', enquanto outros, contra ventos, mares e calemas decidiram “rejeita-la” e passar ao largo dela para se afirmarem pessoal, cultural, social e profissionalmente como cidadaos dignos, responsaveis, validos e uteis a sociedade.
Mas creio que todos teremos passado, embora uns mais do que outros e cada um a seu modo, pelos dois lados da reaccao a tal “rejeicao”, e andamos por ai, com maior ou menor sucesso, fazendo a vida e tratando dela – menos os que ficaram pelo caminho e nos abandonaram neste mundo (como este nosso contemporaneo).
E’ um ola’ a um amigo, do que chamaria um pequeno circulo, embora nao exclusivo nem exclusivista e, em grande medida, precario e intermitente, que se manteve em contacto desde os tempos do movimento associativo estudantil de 74/75, se separou entretanto e se voltou a reencontrar, apenas brevemente em alguns casos, na primeira parte da decada de 80.
Ele era um dos poucos que me visitava regularmente sem constrangimentos no(s) meu(s) kubiko(s), quer no do predio da Novembro/Sociborda, quer no do Kinaxixi. Ficavamos a conversa um pouco sobre tudo e nada, ou jogavamos xadrez – demonstrando a nos proprios e a ‘todo o mundo’ que nisso pudesse estar interessado que e’ (sim!) possivel a Amizade e o Respeito Mutuo entre um Homem e uma Mulher sem que a sua relacao tenha forcosamente que envolver sexo e sem que por isso as suas respectivas masculinidade e feminilidade, ou mais precisamente a sua sexualidade, tenham que ser "questionadas"! … Mesmo quando “sozinhos em casa”… o que me lembra aqui, en passant, de uma outra grande amizade masculina nos mesmos moldes na minha vida, que “herdara” das amizades da minha mae, portanto de uma geracao que se separava da nossa por pelo menos uma decada: o Victor Simoes Alexandre (...que saudades…)!
[But, again, that's what separates de The Men from the boys and The Women from the girls!...]
Ja’ nao vejo o Matadi desde aqueles tempos, uns bons 25-30 anos, e apenas voltei a ouvir falar dele pela primeira vez brevemente quando o Buca, outro nosso contemporaneo, esteve comigo em Cape Town ha’ cerca de 5 anos e, mais recentemente, no ano passado, quando soube desta iniciativa dele e de outros seus colegas aquando da tragedia do Haiti. E agora, ha’ alguns dias, atraves desta entrevista, que, para alem de noticias da minha geracao, tambem me deu outras noticias do meu pais.
Mas talvez mais do que um ola’ a um contemporaneo, trata-se de um ola’ a um tempo de angustias ‘a mistura com esperancas; um tempo de desenganos e de busca de certezas…
Este e’ um ola’ atirado “as cegas” ‘a cortina, por vezes de fumo, por vezes de ferro, que nos vai transformando cada vez mais em “surdos-mudos” (e “cegos”?), mesmo quando usamos meios, como este, inventados supostamente para “nos aproximar e facilitar-nos a comunicacao”…E’ um ola’ a um velho amigo que, ‘a falta de outra referencia mais recente, incluiria na minha Geracao R – uma geracao em que alguns interiorizaram de tal modo a “rejeicao” que, talvez por nao encontrarem outra saida, nela se 'perderam', enquanto outros, contra ventos, mares e calemas decidiram “rejeita-la” e passar ao largo dela para se afirmarem pessoal, cultural, social e profissionalmente como cidadaos dignos, responsaveis, validos e uteis a sociedade.
Mas creio que todos teremos passado, embora uns mais do que outros e cada um a seu modo, pelos dois lados da reaccao a tal “rejeicao”, e andamos por ai, com maior ou menor sucesso, fazendo a vida e tratando dela – menos os que ficaram pelo caminho e nos abandonaram neste mundo (como este nosso contemporaneo).
E’ um ola’ a um amigo, do que chamaria um pequeno circulo, embora nao exclusivo nem exclusivista e, em grande medida, precario e intermitente, que se manteve em contacto desde os tempos do movimento associativo estudantil de 74/75, se separou entretanto e se voltou a reencontrar, apenas brevemente em alguns casos, na primeira parte da decada de 80.
Ele era um dos poucos que me visitava regularmente sem constrangimentos no(s) meu(s) kubiko(s), quer no do predio da Novembro/Sociborda, quer no do Kinaxixi. Ficavamos a conversa um pouco sobre tudo e nada, ou jogavamos xadrez – demonstrando a nos proprios e a ‘todo o mundo’ que nisso pudesse estar interessado que e’ (sim!) possivel a Amizade e o Respeito Mutuo entre um Homem e uma Mulher sem que a sua relacao tenha forcosamente que envolver sexo e sem que por isso as suas respectivas masculinidade e feminilidade, ou mais precisamente a sua sexualidade, tenham que ser "questionadas"! … Mesmo quando “sozinhos em casa”… o que me lembra aqui, en passant, de uma outra grande amizade masculina nos mesmos moldes na minha vida, que “herdara” das amizades da minha mae, portanto de uma geracao que se separava da nossa por pelo menos uma decada: o Victor Simoes Alexandre (...que saudades…)!
[But, again, that's what separates de The Men from the boys and The Women from the girls!...]
Ja’ nao vejo o Matadi desde aqueles tempos, uns bons 25-30 anos, e apenas voltei a ouvir falar dele pela primeira vez brevemente quando o Buca, outro nosso contemporaneo, esteve comigo em Cape Town ha’ cerca de 5 anos e, mais recentemente, no ano passado, quando soube desta iniciativa dele e de outros seus colegas aquando da tragedia do Haiti. E agora, ha’ alguns dias, atraves desta entrevista, que, para alem de noticias da minha geracao, tambem me deu outras noticias do meu pais.
Mas talvez mais do que um ola’ a um contemporaneo, trata-se de um ola’ a um tempo de angustias ‘a mistura com esperancas; um tempo de desenganos e de busca de certezas…
Tuesday, 18 January 2011
Sunday, 2 January 2011
Bêó...

IMPRENSA Jornal Bêó Ritmos do coração
A Imprensa angolana já teve, ao longo da sua história, momentos de grande esplendor mas também muitos baixos. No tempo em que vivemos, a situação não é das melhores mas começam a surgir sinais de que é possível retomar o rumo de um jornalismo com rigor, isenção e responsabilidade. Por isso, saudamos o aparecimento do Jornal Bêó, projecto liderado pelo repórter Paulo Mateta. O jornalismo tem uma vertente regional que não pode ser desprezada. E o Bairro Operário, pelo que significa sob o ponto de vista cultural e histórico, merece um jornal.

Enquanto procurava o jornal, ou outras mencoes a ele na net (sem qualquer sucesso nesse aspecto), encontrei essas fotos do B.O. e arredores aqui, onde tambem encontrei a foto abaixo... que me trouxe outras recordacoes de corridas atras do "carro do fumo" em tempos mais recuados da ndenguice la' para as bandas da Vila Alice...

IMPRENSA Jornal Bêó Ritmos do coração
A Imprensa angolana já teve, ao longo da sua história, momentos de grande esplendor mas também muitos baixos. No tempo em que vivemos, a situação não é das melhores mas começam a surgir sinais de que é possível retomar o rumo de um jornalismo com rigor, isenção e responsabilidade. Por isso, saudamos o aparecimento do Jornal Bêó, projecto liderado pelo repórter Paulo Mateta. O jornalismo tem uma vertente regional que não pode ser desprezada. E o Bairro Operário, pelo que significa sob o ponto de vista cultural e histórico, merece um jornal.

Enquanto procurava o jornal, ou outras mencoes a ele na net (sem qualquer sucesso nesse aspecto), encontrei essas fotos do B.O. e arredores aqui, onde tambem encontrei a foto abaixo... que me trouxe outras recordacoes de corridas atras do "carro do fumo" em tempos mais recuados da ndenguice la' para as bandas da Vila Alice...
Thursday, 16 December 2010
Uma estorieta infantil [actualizado]
Era uma vez...
Corriam os anos “de todas as certezas”, entre finais da decada de 60 e principios da de 70.
Era Luanda e moravamos entao nas, na altura brand new, urbanizacoes da Cuca – na verdade, aquilo era mais Precol do que Cuca, uma vez que a separar-nos havia apenas a linha ferrea. Tratava-se, para a epoca e para aquela zona da cidade, de um moderno complexo habitacional, construido por uma das entao maiores cooperativas habitacionais do pais, com casas suficientemente amenas e condignas, todas de dois andares e varios quartos, jardim com varanda a frente e quintal atras (... invocando um pouco a imagem da “batata no cu, batata na boca” dos casorios de entao...).
Os jardins eram o espaco de todas as competicoes entre os vizinhos (to 'keep up with the joneses', como dizem os ingleses): 'quem mantinha melhor a relva', 'quem tinha as plantas mais bonitas'... Mas o meu espaco de ser, estar e crescer era o quintal, onde cultivavamos uma horta e o meu pai exercia um dos seus maiores especialismos: fertilizar mamoeiros machos!

Outros dos seus especialismos eram ouvir religiosamente o Angola Combatente num radio antigo muito parecido com o da imagem, ler bastante (foi nos livros dele que bebi as minhas primeiras “leituras serias”), fumar cachimbo (para alem dos imprescindiveis ACs) e... escrever poesia!

Um dos seus poemas que ficou mais celebre na familia, escrito em elaborada caligrafia gotica, era dedicado a sua primeira filha, a quem tinha dado o nome Elinar (embora a tenham baptizado Elisa Bernarda, nomes, respectivamente das minhas avos materna e paterna - Elinar era a combinacao dos dois) de onde lhe vem o diminutivo Nanay com que e’ geralmente conhecida ate’ hoje. Poema esse que sempre associo a balada Fur Elise de Beethoven...
E havia os vizinhos: familias negras, brancas, mesticas, cabo-verdianas (estas, geralmente, apenas se distinguiam pelo seu crioulo - que entao se referia apenas a linguagem em que comunicavam entre si...), suponho que quase todos vivendo pela primeira vez a experiencia de partilhar as mesmas ruas e ruelas, becos e vielas, maximbombos e boleias, lojas e cantinas. Enfim, andavamos todos ali a negociar as nossas respectivas identidades e a ver se (... em portugues...) nos entendiamos...
Mas os desentendimentos eram frequentes entre “nos” e os “outros”... Os “nos”, no meu caso particular, eram todo/as com quem eu me entendia e que nao me faziam chorar, ou “perder a paciencia”! Os “outros” eram... os outros! Em particular uns miudos cabo-verdianos muito mais escuros do que nos, mas que quando perdiam em algum jogo ou se saiam mal em alguma brincadeira na rua, iam a correr para casa gritando: “mama, bim ka bie’ ke esta’ faze pretito”! ... Os “pretitos” eramos nos, alguns dos quais mais claros do que eles...
“Outros” eram tambem as miudas brancas da vizinhanca. Um grupinho delas, um belo dia, por entre chorrilhos de insultos racistas, comecou a atirar-nos pedras (... nao, nada parecido com “brincando na serra enquanto o lobo nao vem”...)! Mas nos nao batemos em retirada, nem lhes devolvemos os insultos (... nao sabiamos como – eramos um tanto "gentias", “matumbas” e "bantus" nesse aspecto ...), mas devolvemos-lhes as pedradas... ate’ que eu lhes atirei com uma que acertou em cheio no olho de uma delas!
Bom... a miuda viu estrelas, ficou sem saber de que terra era e... ia perdendo a vista! Por outras palavras, ia ficando aveugle que nem uma cegueta!
Mas o meu pai quando chegou a casa naquele dia e ouviu o relato dos “acontecimentos”, saiu calmamente com a sua caixa de enfermagem, foi pedir desculpas aos pais dela e, durante semanas, como bom enfermeiro que (tambem) era, tratou profissionalmente do olho da miuda ate’ recupera-lo completamente.[*]
Porem, educador firme que (tambem) era, mas tambem sempre cumplice com a minha “paciencia curta” para com racismos e injusticas outras, o meu pai em nenhum momento durante todo aquele episodio, ou depois dele, me dirigiu uma palavra de repreensao... [**]
[Aqueles eram (tambem) os tempos do Milhorro’...]
Mas pergunto, agora “afectuosamente”: o que sera’ feito de ti, oh miuda?...

For many are the pleasant forms which exist in
numerous sins,
and incontinencies,
and disgraceful passions
and fleeting pleasures,
which (men) embrace until they become
sober
and go up to their resting place
And they will find me there,
and they will live
and they will not die again.
[Toni Morrison, introduction to Paradise]
***
Pai,
Aparentemente, eu matei o mulato (santo) deles.
Aparentemente, eu matei o branco (alheio) deles.
Aparentemente, so’ nao te matei a ti, pai.
Nem matei Cristo.
Mas, aparentemente, Cristo pode ressuscitar e pedir:
pai afasta de mim esse calice de vinho tinto de sangue.
Tu nao podes ressuscitar, pai.
Nao podes afastar de mim essas pedras com que me lapidam em Madalena,
nem essa lama com que tentam sujar o bom nome que me deste.
Tu nao podes pai, nunca pudeste.
Por isso nao tenho arrependimentos de Madalena,
nem sentimentos de culpa,
nem complexos de colonizado, pai…
So’ revolta e uma vontade grande de ter respostas!
P.

[*] E isto lembra-me de uma vez, muitos anos depois, em que o artista fez uma feia contusao no dedo grande do pe’ e comecou a ser tratado por uma medica amiga que era vizinha dele, mas passada mais de uma semana nao se notavam nenhumas melhoras, ate’ que eu comecei a trata-lo e... em cerca de 3 dias as melhoras eram notaveis, ate’ que o dedo sarou completamente. Ele veio depois dizer-me que a medica tinha mandado perguntar qual tinha sido o “meu segredo”... Eu na altura "fiz caixinha" so' por gozo, mas revelo-o agora: anos a fio a ver o meu pai trabalhar!
[**] O que me traz a memoria um outro episodio alguns anos antes, quando ainda moravamos na Rua de Benguela [que era separada em duas pela Rua de S. Paulo: para quem viesse da Igreja do mesmo nome - onde fui baptizada e fiz a primeira comunhao e o crisma -, a nossa Rua de Benguela ficava do lado esquerdo, ou seja, no Bairro Operario, vulgo B.O. (ou seja, o SOWETO - South West Township - Luandense), e era a ultima antes da Antonio Enes que separava o B.O. do Miramar]. O meu pai trabalhava, na altura, como enfermeiro da, tambem na altura brand new, fabrica de texteis Textang num turno das 7 da manha as 3 da tarde. Entao o almoco dele era separado e colocado na mesa a sua espera. Num certo dia, o almoco era cozido de bacalhau e eu, por fome ou apenas gulodice ou vontade de comer, fui destapar o prato dele, de onde retirei apenas o ovo, comi-o e voltei a tapar o prato.
Quando o meu pai chegou e alguem lhe disse quem e’ que tinha comido o ovo dele, ele chamou-me, mandou-me sentar a mesa e ordenou-me que comesse todo o resto do prato e que bebesse ao mesmo tempo um litro de agua!
Bem, foi um verdadeiro ordeal para mim que nao tinha estomago para tudo aquilo (especialmente para as batatas enormes!) ... mas que, por entre lagrimas, comi e bebi tudo, la’ isso comi e bebi! E nao vomitei, nem nunca mais me esqueci da licao (sem qualquer outra violencia... alias, nao me lembro de alguma vez o meu pai ter levantado uma mao para me bater!) ou me atrevi a voltar a tocar no prato do pai antes de ele regressar do trabalho.... Era assim que se educavam (algumas) criancas naqueles tempos!
Era uma vez...
Corriam os anos “de todas as certezas”, entre finais da decada de 60 e principios da de 70.
Era Luanda e moravamos entao nas, na altura brand new, urbanizacoes da Cuca – na verdade, aquilo era mais Precol do que Cuca, uma vez que a separar-nos havia apenas a linha ferrea. Tratava-se, para a epoca e para aquela zona da cidade, de um moderno complexo habitacional, construido por uma das entao maiores cooperativas habitacionais do pais, com casas suficientemente amenas e condignas, todas de dois andares e varios quartos, jardim com varanda a frente e quintal atras (... invocando um pouco a imagem da “batata no cu, batata na boca” dos casorios de entao...).
Os jardins eram o espaco de todas as competicoes entre os vizinhos (to 'keep up with the joneses', como dizem os ingleses): 'quem mantinha melhor a relva', 'quem tinha as plantas mais bonitas'... Mas o meu espaco de ser, estar e crescer era o quintal, onde cultivavamos uma horta e o meu pai exercia um dos seus maiores especialismos: fertilizar mamoeiros machos!

Outros dos seus especialismos eram ouvir religiosamente o Angola Combatente num radio antigo muito parecido com o da imagem, ler bastante (foi nos livros dele que bebi as minhas primeiras “leituras serias”), fumar cachimbo (para alem dos imprescindiveis ACs) e... escrever poesia!

Um dos seus poemas que ficou mais celebre na familia, escrito em elaborada caligrafia gotica, era dedicado a sua primeira filha, a quem tinha dado o nome Elinar (embora a tenham baptizado Elisa Bernarda, nomes, respectivamente das minhas avos materna e paterna - Elinar era a combinacao dos dois) de onde lhe vem o diminutivo Nanay com que e’ geralmente conhecida ate’ hoje. Poema esse que sempre associo a balada Fur Elise de Beethoven...
E havia os vizinhos: familias negras, brancas, mesticas, cabo-verdianas (estas, geralmente, apenas se distinguiam pelo seu crioulo - que entao se referia apenas a linguagem em que comunicavam entre si...), suponho que quase todos vivendo pela primeira vez a experiencia de partilhar as mesmas ruas e ruelas, becos e vielas, maximbombos e boleias, lojas e cantinas. Enfim, andavamos todos ali a negociar as nossas respectivas identidades e a ver se (... em portugues...) nos entendiamos...
Mas os desentendimentos eram frequentes entre “nos” e os “outros”... Os “nos”, no meu caso particular, eram todo/as com quem eu me entendia e que nao me faziam chorar, ou “perder a paciencia”! Os “outros” eram... os outros! Em particular uns miudos cabo-verdianos muito mais escuros do que nos, mas que quando perdiam em algum jogo ou se saiam mal em alguma brincadeira na rua, iam a correr para casa gritando: “mama, bim ka bie’ ke esta’ faze pretito”! ... Os “pretitos” eramos nos, alguns dos quais mais claros do que eles...
“Outros” eram tambem as miudas brancas da vizinhanca. Um grupinho delas, um belo dia, por entre chorrilhos de insultos racistas, comecou a atirar-nos pedras (... nao, nada parecido com “brincando na serra enquanto o lobo nao vem”...)! Mas nos nao batemos em retirada, nem lhes devolvemos os insultos (... nao sabiamos como – eramos um tanto "gentias", “matumbas” e "bantus" nesse aspecto ...), mas devolvemos-lhes as pedradas... ate’ que eu lhes atirei com uma que acertou em cheio no olho de uma delas!
Bom... a miuda viu estrelas, ficou sem saber de que terra era e... ia perdendo a vista! Por outras palavras, ia ficando aveugle que nem uma cegueta!
Mas o meu pai quando chegou a casa naquele dia e ouviu o relato dos “acontecimentos”, saiu calmamente com a sua caixa de enfermagem, foi pedir desculpas aos pais dela e, durante semanas, como bom enfermeiro que (tambem) era, tratou profissionalmente do olho da miuda ate’ recupera-lo completamente.[*]
Porem, educador firme que (tambem) era, mas tambem sempre cumplice com a minha “paciencia curta” para com racismos e injusticas outras, o meu pai em nenhum momento durante todo aquele episodio, ou depois dele, me dirigiu uma palavra de repreensao... [**]
[Aqueles eram (tambem) os tempos do Milhorro’...]
Mas pergunto, agora “afectuosamente”: o que sera’ feito de ti, oh miuda?...

For many are the pleasant forms which exist in
numerous sins,
and incontinencies,
and disgraceful passions
and fleeting pleasures,
which (men) embrace until they become
sober
and go up to their resting place
And they will find me there,
and they will live
and they will not die again.
[Toni Morrison, introduction to Paradise]
***
Pai,
Aparentemente, eu matei o mulato (santo) deles.
Aparentemente, eu matei o branco (alheio) deles.
Aparentemente, so’ nao te matei a ti, pai.
Nem matei Cristo.
Mas, aparentemente, Cristo pode ressuscitar e pedir:
pai afasta de mim esse calice de vinho tinto de sangue.
Tu nao podes ressuscitar, pai.
Nao podes afastar de mim essas pedras com que me lapidam em Madalena,
nem essa lama com que tentam sujar o bom nome que me deste.
Tu nao podes pai, nunca pudeste.
Por isso nao tenho arrependimentos de Madalena,
nem sentimentos de culpa,
nem complexos de colonizado, pai…
So’ revolta e uma vontade grande de ter respostas!
P.

[*] E isto lembra-me de uma vez, muitos anos depois, em que o artista fez uma feia contusao no dedo grande do pe’ e comecou a ser tratado por uma medica amiga que era vizinha dele, mas passada mais de uma semana nao se notavam nenhumas melhoras, ate’ que eu comecei a trata-lo e... em cerca de 3 dias as melhoras eram notaveis, ate’ que o dedo sarou completamente. Ele veio depois dizer-me que a medica tinha mandado perguntar qual tinha sido o “meu segredo”... Eu na altura "fiz caixinha" so' por gozo, mas revelo-o agora: anos a fio a ver o meu pai trabalhar!
[**] O que me traz a memoria um outro episodio alguns anos antes, quando ainda moravamos na Rua de Benguela [que era separada em duas pela Rua de S. Paulo: para quem viesse da Igreja do mesmo nome - onde fui baptizada e fiz a primeira comunhao e o crisma -, a nossa Rua de Benguela ficava do lado esquerdo, ou seja, no Bairro Operario, vulgo B.O. (ou seja, o SOWETO - South West Township - Luandense), e era a ultima antes da Antonio Enes que separava o B.O. do Miramar]. O meu pai trabalhava, na altura, como enfermeiro da, tambem na altura brand new, fabrica de texteis Textang num turno das 7 da manha as 3 da tarde. Entao o almoco dele era separado e colocado na mesa a sua espera. Num certo dia, o almoco era cozido de bacalhau e eu, por fome ou apenas gulodice ou vontade de comer, fui destapar o prato dele, de onde retirei apenas o ovo, comi-o e voltei a tapar o prato.
Quando o meu pai chegou e alguem lhe disse quem e’ que tinha comido o ovo dele, ele chamou-me, mandou-me sentar a mesa e ordenou-me que comesse todo o resto do prato e que bebesse ao mesmo tempo um litro de agua!
Bem, foi um verdadeiro ordeal para mim que nao tinha estomago para tudo aquilo (especialmente para as batatas enormes!) ... mas que, por entre lagrimas, comi e bebi tudo, la’ isso comi e bebi! E nao vomitei, nem nunca mais me esqueci da licao (sem qualquer outra violencia... alias, nao me lembro de alguma vez o meu pai ter levantado uma mao para me bater!) ou me atrevi a voltar a tocar no prato do pai antes de ele regressar do trabalho.... Era assim que se educavam (algumas) criancas naqueles tempos!
Thursday, 2 December 2010
E POR FALAR EM CINEMA...

Numa altura em que o recem-criado Festival Internacional de Cinema (FIC) de Luanda se parece estar a sedimentar, veem-me a memoria os tempos (finais da decada de 70 e boa parte da de 80) em que Luanda se podia orgulhar de poder ver algum do melhor cinema do mundo.
Era-nos trazido pela Cinemateca la' da banda que regularmente apresentava ciclos de cinema (frances, alemao, espanhol, russo, italiano, enfim, um pouco de todo o mundo), com algumas sessoes precedidas ou seguidas de apresentacoes e discussao, sendo que alguns dos filmes tambem eram passados na TPA.
Pudemos assim tomar contacto com as tematicas, os realizadores e actores (nao que estes estivessem la’ fisicamente presentes, como agora parece ja’ vir acontecendo um pouco mais nesse tipo de eventos em Luanda...) que fizeram epoca, tanto na altura como em decadas passadas. Nomes como Bunuel, Wenders, Coppola, Polanski, Truffaut, Godard, entre muitos outros, enchiam-nos os olhos e as mentes de "outros mundos" e da vida “la’ fora” (... dois filmes que, por varias razoes, me marcaram particularmente naquela altura foram “Ana e as Suas Irmas”, de Woody Allen e “As Lagrimas Amargas de Petra Von Kant”, de Rainer Fassbinder).
Havia tambem regular e substantiva critica de cinema nas paginas do Vida e Cultura do “nosso Pravda” – claro que, em grande medida, era de teor ideologico, visando “guiar/condicionar” a “visao/opiniao” do espectador, mas a maravilha da setima arte e’ que a podemos ver sem qualquer “intermediacao” entre os nossos olhos e o screen, descontando a eventual censura previa, como e’ obvio...
E tudo se passava sem quaisquer fanfarras ou jamborees “inaugurais”... Talvez por isso, nunca vi nas sessoes daqueles ciclos de cinema certa(o)s “suma(o)s pontifices” que agora do FIC apenas nos dao conta da “vanity fair” que, a conta dele, protagonizam e que nada tem a ver com cinema...
O mesmo se poderia dizer, por exemplo, das “Makas a Quarta-Feira” na UEA naquela altura: eram abertas a tutti quanti, digo, a todo o mundo (eu so’ nao ia quando absolutamente impedida de o fazer, e isso muito antes de publicar o meu livro ou de fazer parte da UEA... e, ja' agora, isso sem qualquer relacao com um certo poeta errante, que tambem nunca me aconteceu ver na UEA...), mas nunca la’ vi tais “pontifices” (entre os quais se incluem neofitas vultas e intelectualoides a prova de bala e espinafre, kabungados, minions, epigonos e afins...). Por isso nunca a(o)s conheci! Por onde andariam? Nos “cavalos”? No lo creo, porque tanto os filmes como as makas eram a noite...
Anyway, este pretendia-se apenas um breve comentario a (des)proposito.

Mas, ja’ agora, sera’ de notar que tal como os habitos de leitura se devem criar desde cedo para se manterem e desenvolverem naturalmente ao longo da vida, o mesmo se passa com o (bom) cinema e, ja’ agora, com a (boa) musica.
No entanto, ficando-me apenas pelo cinema, levei o habito para Lisboa, onde, sempre que podia, ia ver pelo menos um filme por semana e fui tambem, ocasionalmente, a alguns ciclos de cinema especialisados. E isto lembra-me da forma como algumas pessoas (por sinal nao negras) minhas amigas viram “A Cor Purpura” do Spielberg (com base na obra de Alice Walker e onde se destacaram Whoopi Goldberg e Oprah Winfrey): uma, que ja’ o tinha visto, aconselhou-me a levar “muitos lencos de papel” porque me “ia fartar de chorar”; outro, anos mais tarde, tentando “adivinhar” qual o filme que mais me tinha marcado/emocionado na vida, saiu-se “perfeitamente seguro” com esta: “A Cor Purpura”!
Bom, lamentei ter que desiludi-los porque, embora "A Cor Purpura" me tenha certamente emocionado e marcado bastante, o filme que realmente me fez chorar “baba e ranho” (... e me apanhou sem lencos de papel...) foi um filme relativamente obscuro que vi num dos ciclos de cinema de Lisboa, sobre a vida da escultora francesa Camille Claudel, irma do poeta Paul Claudel, e o seu relacionamento com o igualmente escultor (mas considerado um “monstro sagrado” relativamente a ela, que dir-se-ia passar, na mente de alguns, como uma “pobre e insignificante criatura rejeitada”) August Rodin ...Porque?... Vejam-se os processos de negacao, supressao e apagamento a que aqui me referi...
Soube mais tarde que Isabelle Adjani (nomeada, tal como Whoopi Goldberg pelo seu papel em "A Cor Purpura", para o Oscar de Melhor Actriz e premiada com varios outros premios internacionais de cinema por aquele papel) ficou de tal modo afectada pela encarnacao e representacao da personagem de Camille, que teve que ser submetida a tratamento psicoterapico...
E um dos efeitos colaterais que esses dois filmes me deixaram foi que, durante muito tempo, por "mais bonzinho", ou "melhor", que fosse o papel que visse o Gerard Depardieu ou o Danny Glover desempenhar, eu pura e simplesmente nao os conseguia "chupar", mas... ja' passou.
E' assim (tambem) no (bom) cinema.

Numa altura em que o recem-criado Festival Internacional de Cinema (FIC) de Luanda se parece estar a sedimentar, veem-me a memoria os tempos (finais da decada de 70 e boa parte da de 80) em que Luanda se podia orgulhar de poder ver algum do melhor cinema do mundo.
Era-nos trazido pela Cinemateca la' da banda que regularmente apresentava ciclos de cinema (frances, alemao, espanhol, russo, italiano, enfim, um pouco de todo o mundo), com algumas sessoes precedidas ou seguidas de apresentacoes e discussao, sendo que alguns dos filmes tambem eram passados na TPA.
Pudemos assim tomar contacto com as tematicas, os realizadores e actores (nao que estes estivessem la’ fisicamente presentes, como agora parece ja’ vir acontecendo um pouco mais nesse tipo de eventos em Luanda...) que fizeram epoca, tanto na altura como em decadas passadas. Nomes como Bunuel, Wenders, Coppola, Polanski, Truffaut, Godard, entre muitos outros, enchiam-nos os olhos e as mentes de "outros mundos" e da vida “la’ fora” (... dois filmes que, por varias razoes, me marcaram particularmente naquela altura foram “Ana e as Suas Irmas”, de Woody Allen e “As Lagrimas Amargas de Petra Von Kant”, de Rainer Fassbinder).
Havia tambem regular e substantiva critica de cinema nas paginas do Vida e Cultura do “nosso Pravda” – claro que, em grande medida, era de teor ideologico, visando “guiar/condicionar” a “visao/opiniao” do espectador, mas a maravilha da setima arte e’ que a podemos ver sem qualquer “intermediacao” entre os nossos olhos e o screen, descontando a eventual censura previa, como e’ obvio...
E tudo se passava sem quaisquer fanfarras ou jamborees “inaugurais”... Talvez por isso, nunca vi nas sessoes daqueles ciclos de cinema certa(o)s “suma(o)s pontifices” que agora do FIC apenas nos dao conta da “vanity fair” que, a conta dele, protagonizam e que nada tem a ver com cinema...
O mesmo se poderia dizer, por exemplo, das “Makas a Quarta-Feira” na UEA naquela altura: eram abertas a tutti quanti, digo, a todo o mundo (eu so’ nao ia quando absolutamente impedida de o fazer, e isso muito antes de publicar o meu livro ou de fazer parte da UEA... e, ja' agora, isso sem qualquer relacao com um certo poeta errante, que tambem nunca me aconteceu ver na UEA...), mas nunca la’ vi tais “pontifices” (entre os quais se incluem neofitas vultas e intelectualoides a prova de bala e espinafre, kabungados, minions, epigonos e afins...). Por isso nunca a(o)s conheci! Por onde andariam? Nos “cavalos”? No lo creo, porque tanto os filmes como as makas eram a noite...
Anyway, este pretendia-se apenas um breve comentario a (des)proposito.

Mas, ja’ agora, sera’ de notar que tal como os habitos de leitura se devem criar desde cedo para se manterem e desenvolverem naturalmente ao longo da vida, o mesmo se passa com o (bom) cinema e, ja’ agora, com a (boa) musica.
No entanto, ficando-me apenas pelo cinema, levei o habito para Lisboa, onde, sempre que podia, ia ver pelo menos um filme por semana e fui tambem, ocasionalmente, a alguns ciclos de cinema especialisados. E isto lembra-me da forma como algumas pessoas (por sinal nao negras) minhas amigas viram “A Cor Purpura” do Spielberg (com base na obra de Alice Walker e onde se destacaram Whoopi Goldberg e Oprah Winfrey): uma, que ja’ o tinha visto, aconselhou-me a levar “muitos lencos de papel” porque me “ia fartar de chorar”; outro, anos mais tarde, tentando “adivinhar” qual o filme que mais me tinha marcado/emocionado na vida, saiu-se “perfeitamente seguro” com esta: “A Cor Purpura”!
Bom, lamentei ter que desiludi-los porque, embora "A Cor Purpura" me tenha certamente emocionado e marcado bastante, o filme que realmente me fez chorar “baba e ranho” (... e me apanhou sem lencos de papel...) foi um filme relativamente obscuro que vi num dos ciclos de cinema de Lisboa, sobre a vida da escultora francesa Camille Claudel, irma do poeta Paul Claudel, e o seu relacionamento com o igualmente escultor (mas considerado um “monstro sagrado” relativamente a ela, que dir-se-ia passar, na mente de alguns, como uma “pobre e insignificante criatura rejeitada”) August Rodin ...Porque?... Vejam-se os processos de negacao, supressao e apagamento a que aqui me referi...
Soube mais tarde que Isabelle Adjani (nomeada, tal como Whoopi Goldberg pelo seu papel em "A Cor Purpura", para o Oscar de Melhor Actriz e premiada com varios outros premios internacionais de cinema por aquele papel) ficou de tal modo afectada pela encarnacao e representacao da personagem de Camille, que teve que ser submetida a tratamento psicoterapico...
E um dos efeitos colaterais que esses dois filmes me deixaram foi que, durante muito tempo, por "mais bonzinho", ou "melhor", que fosse o papel que visse o Gerard Depardieu ou o Danny Glover desempenhar, eu pura e simplesmente nao os conseguia "chupar", mas... ja' passou.
E' assim (tambem) no (bom) cinema.
Memoria de (um) "nosso Pravda"

Houve (ha') "outros" - antes e depois. Este era dirigido pelo David Mestre.
Da foto apenas reconheco, para alem do David, o Leston Bandeira, o Graca Campos, o Adelino de Almeida e o Victor Silva...
Wednesday, 8 September 2010
Abrindo a Caixa de Pandora (VII)
[P.S.: Aproveito para enderecar aqui os meus parabens ao Americo Goncalves pela merecida Homenagem que lhe foi prestada pelo Premio Maboque de Jornalismo 2010]



