Showing posts with label AGUALUSA. Show all posts
Showing posts with label AGUALUSA. Show all posts

Monday, 12 September 2011

KIBETO II: Here they go again!...







Se eu ‘tivesse juizo’, depois das kibetadas que levei de passagem “por arrasto e associacao” aquando do Kibeto I, desta vez deveria quedar-me pura e simplesmente “cega, surda e muda” como mandam as ‘sabias leis da sobrevivencia’ no “nosso pais”...

Nao que aquando do primeiro kibeto, como tive oportunidade de notar num comentario que fiz na altura, eu tivesse tomado qualquer partido, ou sequer manifestado os meus pontos de vista sobre as questoes de fundo na altura debatidas acaloradamente um pouco por ‘todo o mundo’ a volta daquela que designei “Maka de um Jose’ contra tres Antonios” (e a que o Luis Kandjimbo viria a acrescentar “mais os Mukuaxis”), excepto num certo timido “Elogio da Mediocridade”...

No entanto, ainda assim nao faltou quem me tivesse tentado puxar e/ou empurrar para um ou outro lado da contenda, tendo eu por isso acabado por apanhar com alguns bastante incomodos, para dizer o minimo, estilhacos do campo de batalha. E quando digo “para um ou outro lado”, tenho perfeita consciencia de que estou de algum modo a tentar “neutralizar” aquilo que entao se manifestou por demias obvio: tratou-se, por parte de alguns, abertamente de “me empurrar a viva forca” para o lado do Agualusa...

Bem, sempre achei deveras interessante a forma (diga-se geralmente despropositada) como algumas pessoas me “ligam” ao Agualusa e tentam, em alguns casos, de alguma maneira “politizar” e “ideologizar” aquilo que teem como “a nossa relacao” – como, de resto, pelo que aos poucos me venho dando conta, o tentam fazer com just about todos os aspectos, relacionamentos e posicionamentos da minha vida (... por isso tenho dado comigo tao frequentemente a perguntar “afinale?”...), particularmente quando estes apresentam uma qualquer interface com algumas das mais controversas questoes literarias e, mais amplamente, socio-culturais que (nao) se debatem na sociedade angolana.

Ora, tenho certamente as minhas discordancias com algumas das posturas do Agualusa, mormente em relacao a uma, em alguns circulos dominante, corrente de opiniao que ele tem vindo a protagonizar com base numa certa leitura, quanto a mim miope e enviezada, da Historia colonial e pos-colonial de Angola e da Africa em geral (e, para que conste, esta e' uma versao de pelo menos parte dessa(as) historia(as) na qual me revejo) – e disso nao tenho feito propriamente “caixinha” ...


[Continue lendo aqui]







Se eu ‘tivesse juizo’, depois das kibetadas que levei de passagem “por arrasto e associacao” aquando do Kibeto I, desta vez deveria quedar-me pura e simplesmente “cega, surda e muda” como mandam as ‘sabias leis da sobrevivencia’ no “nosso pais”...

Nao que aquando do primeiro kibeto, como tive oportunidade de notar num comentario que fiz na altura, eu tivesse tomado qualquer partido, ou sequer manifestado os meus pontos de vista sobre as questoes de fundo na altura debatidas acaloradamente um pouco por ‘todo o mundo’ a volta daquela que designei “Maka de um Jose’ contra tres Antonios” (e a que o Luis Kandjimbo viria a acrescentar “mais os Mukuaxis”), excepto num certo timido “Elogio da Mediocridade”...

No entanto, ainda assim nao faltou quem me tivesse tentado puxar e/ou empurrar para um ou outro lado da contenda, tendo eu por isso acabado por apanhar com alguns bastante incomodos, para dizer o minimo, estilhacos do campo de batalha. E quando digo “para um ou outro lado”, tenho perfeita consciencia de que estou de algum modo a tentar “neutralizar” aquilo que entao se manifestou por demias obvio: tratou-se, por parte de alguns, abertamente de “me empurrar a viva forca” para o lado do Agualusa...

Bem, sempre achei deveras interessante a forma (diga-se geralmente despropositada) como algumas pessoas me “ligam” ao Agualusa e tentam, em alguns casos, de alguma maneira “politizar” e “ideologizar” aquilo que teem como “a nossa relacao” – como, de resto, pelo que aos poucos me venho dando conta, o tentam fazer com just about todos os aspectos, relacionamentos e posicionamentos da minha vida (... por isso tenho dado comigo tao frequentemente a perguntar “afinale?”...), particularmente quando estes apresentam uma qualquer interface com algumas das mais controversas questoes literarias e, mais amplamente, socio-culturais que (nao) se debatem na sociedade angolana.

Ora, tenho certamente as minhas discordancias com algumas das posturas do Agualusa, mormente em relacao a uma, em alguns circulos dominante, corrente de opiniao que ele tem vindo a protagonizar com base numa certa leitura, quanto a mim miope e enviezada, da Historia colonial e pos-colonial de Angola e da Africa em geral (e, para que conste, esta e' uma versao de pelo menos parte dessa(as) historia(as) na qual me revejo) – e disso nao tenho feito propriamente “caixinha” ...


[Continue lendo aqui]

Tuesday, 9 November 2010

"Conferencia Internacional sobre Cultura Cokwe" ... [R]*




E, fundamentalmente, tenta compreender que uma coisa é o domínio técnico das formas de expressão cultural de um particular grupo etno-linguístico, que fazes bem em tentar incorporar na tua dança, outra coisa é tentares apropriar-te da identidade do teu objecto de estudo… porque é isso que, consciente ou inconscientemente andas a tentar fazer. Será isso éticamente aceitável? Culturalmente legítimo? Intelectualmente honesto?[K. - aqui]


Ninguém pode tudo na vida. E também ninguém sabe tudo, mas podemos fazer muito quando há solidariedade, interacção e entreajuda e, sobretudo, quando a pessoa em questão se sente entre os seus.
[JES -
aqui]

... Ou "o estado angolano tentando justificar (defender?) o seu 'mais alto galardao'"? ...

AQUI


E, ja' agora, outro take sobre a "Historia, Kultura (e Identidade) Tchokwe'"...

AKI





OU AINDA...


COMO FABRICAR UM MONSTRO 'POS-COLONIAL'...


{Ou, provavelmente, "O Charme (in)Discreto da ex-Burguesia Colonial" - lembram-se do filme do Bunuel?...}


1. Pegue-se numa lourinha da media-alta burguesia colonial. Coloque-se-a, aos oito anos de idade, na academia local de ballet classico, como e' de 'bom gosto e bom tom' fazer-se com as 'meninas bem' das sociedades coloniais, para que elas "nao fiquem atras" das suas congeneres da metropole.

2. Aproveite-se a debandada dos colonos por altura da independencia e coloque-se a lourinha, aos quinze anos de idade, como directora da mesma academia, onde ela, por falta de competicao, challenges, e muito menos criticas, de colegas ou professore/as mais velho/as e mais experientes, nao so' nao aprimora a sua formacao basica, tanto tecnica como conceptual, cultural, espiritual e etica, moral ou humanistica, nem sedimenta quaisquer valores ou principios e menos ainda qualquer sensibilidade ou maturidade socio-politica, como comeca a desenvolver todos os tiques ditatorias de "prima doninha" e "vaquinha sagrada", ate' que... um grupo de "ingratos" emite um abaixo-assinado acusando-a de "praticas social e racialmente discriminatorias".

3. Nao tardara' muito e a loura, guiada pelos "mais elevados espiritas pos-coloniais", decide trocar as sapatilhas de ballet classico pela mascara da Mwana P(h)wo... e o resto... e' 'historia'!

4. Ou seja, a blonde bombshell decide criar uma privada 'companhia de danca contemporanea' a partir das cinzas da publica academia em que fez das suas a seu bel prazer, companhia essa que, va-se la' saber como e/ou porque, viria a ficar "falecida" durante cerca de 10 anos, ate' que... a loura e' confrontada com o primeiro challenge da sua dolce vitta sob a forma de alguns serios questionamentos por parte de uma "pobre e insignificante criatura", contra a qual por isso move uma sordida campanha em alianca com outros tantos sordidos personagens, mas gracas a qual e ao blog dessa mesma criatura consegue "reunir forcas" - nao sem usar, mais uma vez, a muleta dos seus paternus guias - para sair do seu letargico longo dolce fare niente e la' consegue fazer renascer das cinzas, qual Fenix, a tal companhia que apenas 'inclui' black men e para a qual obtem de mao beijada um volume de patrocinios inaudito no pais...

5. Depois e' so' ve-la tornar-se, do dia para a noite, "monstro sagrado da danca patrimonial nacional" (palmas por favor !), portadora do "mais alto galardao do estado pos-colonial" e (calem-se todos porra!!!), "mae da danca contemporanea em Africa", "coreografa-em-chefe do CAN", "unico verdadeiro icone da danca em Angola, unico membro do Conselho Mundial da Danca e unico item que nao merece ser abortado e muito menos suicidado em grande estilo ou esquartejado a catanada" e "mais angolana do que a angolanidade"!!!

6. Mas nao e' tudo: a loura, tendo sido sempre uma estudante mediocre e sem nunca ter completado o ensino medio formal, entra por portas travessas para a universidade local onde desconsegue de fazer o curso atraves do qual pretendia obter creditos de "ser pensante" (e' que isto de ser bailarina classica europeia, apenas porque os pais assim o quizeram e puderam e ainda por cima loura, tem as suas coisas...).

7. Vai dai, abala para uma qualquer universidade na ex-metropole onde se torna "mestre" e "doutoranda" em qualquer coisa ligada a motricidade humana, mas que tambem lhe permite vir a reclamar (desastradamente, diga-se de passagem...) creditos como "coreografa", "antropologa" "historiadora", "economista" e "critica literaria"!

8. E o monstro fica pronto quando, depois de ter dito e feito todas as patetices, ordinarices, ignorancias e mentiras descaradas aqui registadas, comeca arrogantemente a auto-designar-se "Dra." sem o ser, a auto-proclamar-se "grande especialista da cultura cokwe" e a mandar bocas destas: "(...) a dança não é instintiva, não é apenas recreativa, mas é uma área do saber tão académica e tão rigorosa como qualquer outra..."! [O facto e' que, mesmo que tal statement possa ser de algum modo "substanciado" numa qualquer versao talvez do dominio do "fantastico" (... e, ainda assim, quanto muito, apenas no 'circulo restrito' da "danca classica europeia"... e com "muitas aspas" e reticencias...), ela sera' a ultima pessoa a poder demonstra-lo convincentemente, dado o seu background e a sua prestacao nos registos acima mencionados e linkados...]


E MAIS!!! PERMITE-SE PUBLICAR "TESTAMENTOS" COMO ESTE:


TESTAMENTO


… quero dançar, dançar sempre até me evaporar, até os meus pés e a minha alma se rasgarem em fragmentos que se espalharão pela terra de todas as vidas que vivi, de todas as vidas que pisei, de todas as vidas que construí e destruí. De todas as vidas que sonhei e nem conheci.

Que o céu me arranque os olhos castanhos e os faça azuis de mar e cinzentos de tempestade. Que os ogros me levem o coração inscrito de sinuosas cicatrizes. E que tu me guardes a pele transparente e inofensiva e dela faças uma janela para coar o sol. O meu sol.

E que a raiva do meu corpo, te deite brutalmente sobre a areia de uma praia qualquer, onde te arrancarei a roupa e os complexos, onde te amputarei o génio e a identidade, onde te extirparei a serenidade e o sorriso, para te possuir, selvagem, extinguindo-me na vontade de te engolir para sempre.

Na intensidade de um orgasmo lúgubre, conseguirei então o que desejo, afinal, e que há de mais belo em ti:

a tua alma pura e frágil!..



[AQUI]


E PRONTO, COM SEXO, VENALIDADE E DECADENCIA q.b. A MISTURA - mais o "apoio incondicional" do regime e estruturas governamentais (nomeadamente o Ministerio da Cultura para o qual diz trabalhar ha' 33 anos...) "contra" os quais de vez em quando "manda umas bocas" para ingles ver e ouvir e para "conquistar a oposicao e, em particular, os intelectuais activistas do social" - AI' TEEM O PERFEITO MONSTRO 'POS-COLONIAL'... ABSOLUTAMENTE IRRESISTIVEL... ENJOY!



P.S.: Apenas algumas breves 'observacoes empiricas' (atrevidas) a esta materia:
i) A "interessante conversa sobre cultura e etnologia" com Mesquitela Lima a que me referia nesta memoria de morabezza, comecou num momento em que ele me atirou (morabezzamente) com este statement: "nos conhecemos melhor as vossas culturas do que voces proprios"!...

ii) Num pais como Angola, composto por um mosaico cultural que conta com pelo menos 10 grupos etnicos e respectivos sistemas e sub-sistemas etno-linguisticos e culturais, como explicar (compreender) o "lugar central" e ate' "matricial" que, aparentemente, nele e' atribuido a cultura Cokwe (Tchokwe)? Para o leigo, porem atento observador de cultural trends, como eu, ele tem pelo menos duas vertentes (hipoteses) explicativas fundamentais:

1. [Infrastrutura] - Os recursos financeiros e materiais que a toda poderosa Diamang (um verdadeiro "estado dentro do estado" no periodo colonial/ pre-economia petrolifera) pode dispender na investigacao, inventariacao, recolha, documentacao e arquivo daquela cultura nas suas varias vertentes - foi o que tornou possivel o estabelecimento, sob a direccao de Mesquitela Lima, do dedicado Museu do Dundo, que nao encontra replica na atencao (nao) dispensada as culturas de outros grupos etnicos do pais e a obra de Marie Louise Bastin ;

2. [Superstrutura] - A "gesta da Nacao Crioula", como fulcro cultural e intelectual do (ideologico) "projecto de engenharia social" para a criacao do "homem novo" que o MPLA vem (utopicamente) implementando, com maior ou menor sucesso, desde a independencia (replicando, em grande medida, a gesta cultural do "Portugal Imperial do Minho a Timor", com sede no eixo Sagres-Lisboa/Porto, na "Angola Pos-Colonial de Cabinda ao Cunene", com sede no eixo Dundo (Kabebe?) -Loanda/Benguela...). Projecto esse em que, ademais, no plano politico, os conceitos de Angolanidade, Cidadania e Patriotismo continuam a ser ideologicamente confundidos com a filiacao, adesao, ou comunhao de ideais, principios, programas e praticas ao/com o ate' recentemente unico e ate' agora partido maioritario - processo esse facilitado pela "acoplacao" e "acantonamento" dos outros dois maiores partidos tradicionais a forcas estrangeiras, nomeadamente aos "carcamanos sul-africanos" a Sul e aos "neo-authenticites apostolos de Mobutu" a Norte (... como se cubanos e sovieticos, entre outros, incluindo portugueses e chineses, nao fossem estrangeiros...):

- Essa gesta (utopica) tem a sua genese em Mwanapwo, os seus caboucos em Yaka , o seu apogeu em Lueji, o Nascimento de um Imperio e o seu extase na Gloriosa Familia, de Pepetela - 'o mais elevado dos espiritas', passando, embora um tanto ao largo e com outros referentes socio-culturais e geograficos (e.g. Luanda 'Ilha' Crioula de Mario Antonio), pela Nacao Crioula de Agualusa. Trata-se aqui de ficcao literaria, bem entendido, mas uma ficcao literaria que, neste contexto, "faz (pretende fazer?) as vezes" (ideologicamente) da Historia, da Sociologia, da Demografia, da Etnologia e da Antropologia - em suma, das Ciencias Sociais e Humanas...

- E esses vultos literarios, sao seguidos por um circulo restrito de poetas como Ana Paula Tavares [que, interessantemente, no seu A Cabeca de Salome', dedica uma cronica a Marie Louise Bastin, com um curioso "sincero pedido de perdao" (assumidamente por ter chegado tarde a taca do vinho lunda), que, pelo menos a mim, teve o condao de evocar a um certo nivel o statement de Mesquitela Lima acima referido... sendo que no mesmo livro, a autora (re?) cria uma fantastica carta de Dona Ana Joaquina - a escravocrata mestica - ao Muatianvua Noeji - senhor de todas as Lundas - em que estabelece uma ponte povoada de sonhos e pesadelos de escravos e pombeiros entre o palacio da primeira em Loanda - a cidade branca - e a mussumba do segundo em Kabebe - a cidade ideia...], bailarinas classicas europeias como Ana Clara Guerra Marques (a.k.a. P(h)wo, de Mwanapwo... "mera coincidencia"?!) e, entre outros, alguns artistas plasticos e musicos (embora estes apenas pontualmente e a titulo de curiosidade, ou apenas na intencao declarada) como Paulo Flores ou Tirso Amaral (e, certamente nao por acaso, excepto no caso deste, ja' falecido, os ultimos todos galardoados nos ultimos anos com o Premio Nacional de Cultura e Artes)...

E' a "Nacao Crioula" (Krioula? - ou, nas suas versoes mais hodiernas, a "(neofita) ideologia dos (pretensos) afectos" ou a "cultura africana contemporanea", ou pelo menos parte dela - onde o termo bantu passou a ser o insulto preferido de alguns e em que todos os caminhos parecem inevitavelmente ir dar a recolonizacao...) urdindo, fundindo, forjando, brandindo e esgrimindo, sob o olhar silencioso de Neto, em bom Portugues de Camoes (Kamoes?), ao sabor de bom vinho do Porto e ao som de Wagner, assepticamente, as suas "raizes mais profundas"! SARAVA'!!!

Is there more to it than just that, really?!
I wonder...


[Se Mesquitela Lima estivesse vivo, talvez me pudesse esclarecer melhor essas questoes e, muito especialmente, porque que o meu Kongo Blues e' considerado "tara tribal" e esse tipo de conferencias e respectivos produtos e sub-produtos culturais nao o e'... ]



*[First posted 02/10/10]




Ninguém pode tudo na vida. E também ninguém sabe tudo, mas podemos fazer muito quando há solidariedade, interacção e entreajuda e, sobretudo, quando a pessoa em questão se sente entre os seus.
[JES -
aqui]

... Ou "o estado angolano tentando justificar (defender?) o seu 'mais alto galardao'"? ...

AQUI


E, ja' agora, outro take sobre a "Historia, Kultura (e Identidade) Tchokwe'"...

AKI





OU AINDA...


COMO FABRICAR UM MONSTRO 'POS-COLONIAL'...


{Ou, provavelmente, "O Charme (in)Discreto da ex-Burguesia Colonial" - lembram-se do filme do Bunuel?...}


1. Pegue-se numa lourinha da media-alta burguesia colonial. Coloque-se-a, aos oito anos de idade, na academia local de ballet classico, como e' de 'bom gosto e bom tom' fazer-se com as 'meninas bem' das sociedades coloniais, para que elas "nao fiquem atras" das suas congeneres da metropole.

2. Aproveite-se a debandada dos colonos por altura da independencia e coloque-se a lourinha, aos quinze anos de idade, como directora da mesma academia, onde ela, por falta de competicao, challenges, e muito menos criticas, de colegas ou professore/as mais velho/as e mais experientes, nao so' nao aprimora a sua formacao basica, tanto tecnica como conceptual, cultural, espiritual e etica, moral ou humanistica, nem sedimenta quaisquer valores ou principios e menos ainda qualquer sensibilidade ou maturidade socio-politica, como comeca a desenvolver todos os tiques ditatorias de "prima doninha" e "vaquinha sagrada", ate' que... um grupo de "ingratos" emite um abaixo-assinado acusando-a de "praticas social e racialmente discriminatorias".

3. Nao tardara' muito e a loura, guiada pelos "mais elevados espiritas pos-coloniais", decide trocar as sapatilhas de ballet classico pela mascara da Mwana P(h)wo... e o resto... e' 'historia'!

4. Ou seja, a blonde bombshell decide criar uma privada 'companhia de danca contemporanea' a partir das cinzas da publica academia em que fez das suas a seu bel prazer, companhia essa que, va-se la' saber como e/ou porque, viria a ficar "falecida" durante cerca de 10 anos, ate' que... a loura e' confrontada com o primeiro challenge da sua dolce vitta sob a forma de alguns serios questionamentos por parte de uma "pobre e insignificante criatura", contra a qual por isso move uma sordida campanha em alianca com outros tantos sordidos personagens, mas gracas a qual e ao blog dessa mesma criatura consegue "reunir forcas" - nao sem usar, mais uma vez, a muleta dos seus paternus guias - para sair do seu letargico longo dolce fare niente e la' consegue fazer renascer das cinzas, qual Fenix, a tal companhia que apenas 'inclui' black men e para a qual obtem de mao beijada um volume de patrocinios inaudito no pais...

5. Depois e' so' ve-la tornar-se, do dia para a noite, "monstro sagrado da danca patrimonial nacional" (palmas por favor !), portadora do "mais alto galardao do estado pos-colonial" e (calem-se todos porra!!!), "mae da danca contemporanea em Africa", "coreografa-em-chefe do CAN", "unico verdadeiro icone da danca em Angola, unico membro do Conselho Mundial da Danca e unico item que nao merece ser abortado e muito menos suicidado em grande estilo ou esquartejado a catanada" e "mais angolana do que a angolanidade"!!!

6. Mas nao e' tudo: a loura, tendo sido sempre uma estudante mediocre e sem nunca ter completado o ensino medio formal, entra por portas travessas para a universidade local onde desconsegue de fazer o curso atraves do qual pretendia obter creditos de "ser pensante" (e' que isto de ser bailarina classica europeia, apenas porque os pais assim o quizeram e puderam e ainda por cima loura, tem as suas coisas...).

7. Vai dai, abala para uma qualquer universidade na ex-metropole onde se torna "mestre" e "doutoranda" em qualquer coisa ligada a motricidade humana, mas que tambem lhe permite vir a reclamar (desastradamente, diga-se de passagem...) creditos como "coreografa", "antropologa" "historiadora", "economista" e "critica literaria"!

8. E o monstro fica pronto quando, depois de ter dito e feito todas as patetices, ordinarices, ignorancias e mentiras descaradas aqui registadas, comeca arrogantemente a auto-designar-se "Dra." sem o ser, a auto-proclamar-se "grande especialista da cultura cokwe" e a mandar bocas destas: "(...) a dança não é instintiva, não é apenas recreativa, mas é uma área do saber tão académica e tão rigorosa como qualquer outra..."! [O facto e' que, mesmo que tal statement possa ser de algum modo "substanciado" numa qualquer versao talvez do dominio do "fantastico" (... e, ainda assim, quanto muito, apenas no 'circulo restrito' da "danca classica europeia"... e com "muitas aspas" e reticencias...), ela sera' a ultima pessoa a poder demonstra-lo convincentemente, dado o seu background e a sua prestacao nos registos acima mencionados e linkados...]


E MAIS!!! PERMITE-SE PUBLICAR "TESTAMENTOS" COMO ESTE:


TESTAMENTO


… quero dançar, dançar sempre até me evaporar, até os meus pés e a minha alma se rasgarem em fragmentos que se espalharão pela terra de todas as vidas que vivi, de todas as vidas que pisei, de todas as vidas que construí e destruí. De todas as vidas que sonhei e nem conheci.

Que o céu me arranque os olhos castanhos e os faça azuis de mar e cinzentos de tempestade. Que os ogros me levem o coração inscrito de sinuosas cicatrizes. E que tu me guardes a pele transparente e inofensiva e dela faças uma janela para coar o sol. O meu sol.

E que a raiva do meu corpo, te deite brutalmente sobre a areia de uma praia qualquer, onde te arrancarei a roupa e os complexos, onde te amputarei o génio e a identidade, onde te extirparei a serenidade e o sorriso, para te possuir, selvagem, extinguindo-me na vontade de te engolir para sempre.

Na intensidade de um orgasmo lúgubre, conseguirei então o que desejo, afinal, e que há de mais belo em ti:

a tua alma pura e frágil!..



[AQUI]


E PRONTO, COM SEXO, VENALIDADE E DECADENCIA q.b. A MISTURA - mais o "apoio incondicional" do regime e estruturas governamentais (nomeadamente o Ministerio da Cultura para o qual diz trabalhar ha' 33 anos...) "contra" os quais de vez em quando "manda umas bocas" para ingles ver e ouvir e para "conquistar a oposicao e, em particular, os intelectuais activistas do social" - AI' TEEM O PERFEITO MONSTRO 'POS-COLONIAL'... ABSOLUTAMENTE IRRESISTIVEL... ENJOY!



P.S.: Apenas algumas breves 'observacoes empiricas' (atrevidas) a esta materia:
i) A "interessante conversa sobre cultura e etnologia" com Mesquitela Lima a que me referia nesta memoria de morabezza, comecou num momento em que ele me atirou (morabezzamente) com este statement: "nos conhecemos melhor as vossas culturas do que voces proprios"!...

ii) Num pais como Angola, composto por um mosaico cultural que conta com pelo menos 10 grupos etnicos e respectivos sistemas e sub-sistemas etno-linguisticos e culturais, como explicar (compreender) o "lugar central" e ate' "matricial" que, aparentemente, nele e' atribuido a cultura Cokwe (Tchokwe)? Para o leigo, porem atento observador de cultural trends, como eu, ele tem pelo menos duas vertentes (hipoteses) explicativas fundamentais:

1. [Infrastrutura] - Os recursos financeiros e materiais que a toda poderosa Diamang (um verdadeiro "estado dentro do estado" no periodo colonial/ pre-economia petrolifera) pode dispender na investigacao, inventariacao, recolha, documentacao e arquivo daquela cultura nas suas varias vertentes - foi o que tornou possivel o estabelecimento, sob a direccao de Mesquitela Lima, do dedicado Museu do Dundo, que nao encontra replica na atencao (nao) dispensada as culturas de outros grupos etnicos do pais e a obra de Marie Louise Bastin ;

2. [Superstrutura] - A "gesta da Nacao Crioula", como fulcro cultural e intelectual do (ideologico) "projecto de engenharia social" para a criacao do "homem novo" que o MPLA vem (utopicamente) implementando, com maior ou menor sucesso, desde a independencia (replicando, em grande medida, a gesta cultural do "Portugal Imperial do Minho a Timor", com sede no eixo Sagres-Lisboa/Porto, na "Angola Pos-Colonial de Cabinda ao Cunene", com sede no eixo Dundo (Kabebe?) -Loanda/Benguela...). Projecto esse em que, ademais, no plano politico, os conceitos de Angolanidade, Cidadania e Patriotismo continuam a ser ideologicamente confundidos com a filiacao, adesao, ou comunhao de ideais, principios, programas e praticas ao/com o ate' recentemente unico e ate' agora partido maioritario - processo esse facilitado pela "acoplacao" e "acantonamento" dos outros dois maiores partidos tradicionais a forcas estrangeiras, nomeadamente aos "carcamanos sul-africanos" a Sul e aos "neo-authenticites apostolos de Mobutu" a Norte (... como se cubanos e sovieticos, entre outros, incluindo portugueses e chineses, nao fossem estrangeiros...):

- Essa gesta (utopica) tem a sua genese em Mwanapwo, os seus caboucos em Yaka , o seu apogeu em Lueji, o Nascimento de um Imperio e o seu extase na Gloriosa Familia, de Pepetela - 'o mais elevado dos espiritas', passando, embora um tanto ao largo e com outros referentes socio-culturais e geograficos (e.g. Luanda 'Ilha' Crioula de Mario Antonio), pela Nacao Crioula de Agualusa. Trata-se aqui de ficcao literaria, bem entendido, mas uma ficcao literaria que, neste contexto, "faz (pretende fazer?) as vezes" (ideologicamente) da Historia, da Sociologia, da Demografia, da Etnologia e da Antropologia - em suma, das Ciencias Sociais e Humanas...

- E esses vultos literarios, sao seguidos por um circulo restrito de poetas como Ana Paula Tavares [que, interessantemente, no seu A Cabeca de Salome', dedica uma cronica a Marie Louise Bastin, com um curioso "sincero pedido de perdao" (assumidamente por ter chegado tarde a taca do vinho lunda), que, pelo menos a mim, teve o condao de evocar a um certo nivel o statement de Mesquitela Lima acima referido... sendo que no mesmo livro, a autora (re?) cria uma fantastica carta de Dona Ana Joaquina - a escravocrata mestica - ao Muatianvua Noeji - senhor de todas as Lundas - em que estabelece uma ponte povoada de sonhos e pesadelos de escravos e pombeiros entre o palacio da primeira em Loanda - a cidade branca - e a mussumba do segundo em Kabebe - a cidade ideia...], bailarinas classicas europeias como Ana Clara Guerra Marques (a.k.a. P(h)wo, de Mwanapwo... "mera coincidencia"?!) e, entre outros, alguns artistas plasticos e musicos (embora estes apenas pontualmente e a titulo de curiosidade, ou apenas na intencao declarada) como Paulo Flores ou Tirso Amaral (e, certamente nao por acaso, excepto no caso deste, ja' falecido, os ultimos todos galardoados nos ultimos anos com o Premio Nacional de Cultura e Artes)...

E' a "Nacao Crioula" (Krioula? - ou, nas suas versoes mais hodiernas, a "(neofita) ideologia dos (pretensos) afectos" ou a "cultura africana contemporanea", ou pelo menos parte dela - onde o termo bantu passou a ser o insulto preferido de alguns e em que todos os caminhos parecem inevitavelmente ir dar a recolonizacao...) urdindo, fundindo, forjando, brandindo e esgrimindo, sob o olhar silencioso de Neto, em bom Portugues de Camoes (Kamoes?), ao sabor de bom vinho do Porto e ao som de Wagner, assepticamente, as suas "raizes mais profundas"! SARAVA'!!!

Is there more to it than just that, really?!
I wonder...


[Se Mesquitela Lima estivesse vivo, talvez me pudesse esclarecer melhor essas questoes e, muito especialmente, porque que o meu Kongo Blues e' considerado "tara tribal" e esse tipo de conferencias e respectivos produtos e sub-produtos culturais nao o e'... ]



*[First posted 02/10/10]


Wednesday, 8 September 2010

Abrindo a Caixa de Pandora (VII)

'Amizade(s) Masculina(s)'
































[P.S.: Aproveito para enderecar aqui os meus parabens ao Americo Goncalves pela merecida Homenagem que lhe foi prestada pelo Premio Maboque de Jornalismo 2010]





[P.S.: Aproveito para enderecar aqui os meus parabens ao Americo Goncalves pela merecida Homenagem que lhe foi prestada pelo Premio Maboque de Jornalismo 2010]



Monday, 22 June 2009

AGUALUSA ACUSADO DE PLAGIO


Clique nas imagens para as ampliar

[Informacao daqui]

Clique nas imagens para as ampliar

[Informacao daqui]

Wednesday, 23 July 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (18)

Para variar um pouco o “mau habito” de so’ incluir nesta serie artigos dos semanarios (diga-se que apenas porque estes, ao contrario do nosso unico diario, nao sao livremente acessiveis online), comeco com uma noticia publicada hoje no Jornal de Angola… pelo tema e por envolver Ngozi Okonjo-Iewala, que aqui anteriormente referi (acontecimento que quem tenha lido o meu artigo "Angola, Petroleo e Economia Post-Conflito: Que Fazer?", achara' certamente interessante):

O Banco Mundial felicitou Angola pela “boa gestão macro-económica”, assim como pela estabilidade, segurança e paz alcançadas pelos angolanos.Esta felicitação foi manifestada ao princípio da tarde de ontem, em Luanda, pela directora de Gestão (vice-presidente) do Banco, a nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala, à saída de uma audiência que lhe foi concedida, no Palácio da Cidade Alta, em Luanda, pelo Primeiro-Ministro Fernando da Piedade Dias dos Santos.Durante a audiência foi abordado o reforço da cooperação entre o país e a instituição financeira.A vice-presidente do Banco Mundial disse ter vindo a Angola “para felicitar o Presidente José Eduardo dos Santos e o Primeiro-Ministro pela estabilidade, segurança e paz alcançadas no país, bem como pela boa gestão macro-económica”.

No SA, encontramos a Resenha aritmética de uma legislatura de 16 anos:

O Relatório de Actividades da Primeira Legislatura, lido na plenária que na terça-feira, 14, encerrou um ciclo parlamentar de 16 anos, considera positivo o desempenho dos órgãos da Assembleia Nacional e dos deputados, à luz de números fornecidos no dito documento. As actividades estatisticamente reportadas no documento, referente ao período entre Novembro de 1992 e o presente mês de Julho, atribuem um rol de actividades à Secretaria da Assembleia Nacional (SAN), o que constitui, entretanto, uma inferição ao trabalho do próprio Parlamento. Os números dizem que durante os 16 anos pelos quais perdurou a legislatura, a SAN produziu 179 leis e 384 resoluções, perfazendo um total de 563 actos legislativos.

Segue-se-lhe, em Eles só não prometem o céu e a terra, a primeira parte de uma serie que o mesmo semanario dedica, a partir deste numero, as propostas eleitorais dos dois maiores partidos politicos Angolanos:

Embora os dois partidos tenham feito questão de mostrar uma pontinha do seu conteúdo em actos públicos, os seus programas de governo não foram totalmente escancarados porque havia a conveniência de os preservar de «olhares indiscretos». Ou, mais concretamente, da espionagem dos adversários e concorrentes. Mesmo assim, não vá o diabo tece-las, os programas da UNITA e do MPLA ainda não andam por aí à mercê de qualquer manápula. Foi o cabo dos trabalhos para o Semanário Angolense lograr aceder a dois exemplares. Assim, a partir desta edição, o leitor já não terá de esperar pelo início da campanha propriamente dita e dos comícios que a partir daí correrão à larga para dar uma olhada às propostas dos gigantes da política angolana.

Severino Carlos apresenta uma recente comunicacao sua sobre Rigor informativo vs verdades jornalísticas:

Vivemos, actualmente, num contexto de super-informação global, cujas características principais centram-se na velocidade da difusão e circulação de informação. Trata-se de uma espécie de darwinismo no universo da comunicação, em que o melhor e mais apto é aquele que não só chega primeiro aos factos dignos de serem noticiados, como também aquele que os divulga primeiro. A lógica é ser o primeiro jornal, rádio ou canal de televisão. É proibido ser ultrapassado. Chega a ser uma tirania para todos: receptores e emissores de comunicação.
Angola não está isolada deste contexto. E, por isso, a vaga tem vindo a salpicar o nosso país. Não é um fenómeno necessariamente negativo, mas configura um quadro que, face às debilidades da envolvente político-organizativa e às condições materiais em que os jornalistas laboram, gera sérios problemas específicos de rigor informativo. Ou, melhor dizendo, problemas que imbricam com uma das regras de ouro da actividade jornalística: o pressuposto de que toda a informação, para ser entendida como tal, e não como um exercício de manipulação ou de contra-informação, deve caracterizar-se pela objectividade. O que quer dizer que tem de ser enxuta e despida da emotividade e da visão pessoal do jornalista que a veicula. Por fim, e mais importante do que tudo, tem de ser verdadeira.

No NJ, Fernando Pacheco critica alguns desenvolvimentos e posturas em relacao a politica agricola no pais, Enquanto o ferro está quente:

Tenho criticado os nossos mais conceituados economistas por também não dedicarem a devida atenção à agricultura e à produção de alimentos. Na recente apresentação do prestigiado Relatório Económico do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica o meu amigo Justino Pinto de Andrade dedicou menos de dois dos mais de trinta minutos da sua intervenção ao capítulo da agricultura, apesar de ele abordar temas pertinentes e polémicos como os biocombustíveis. Nestes momentos lembro-me de como seria importante para Angola ter economistas como o malogrado moçambicano José Negrão, que tanto contribuiu para que a agricultura do seu país tivesse crescido de forma tão contundente desde o fim da guerra.
(…)
A ausência de sentido crítico e a auto censura de jornais e de técnicos não têm permitido que a opinião pública se aperceba de alguns dos enormes erros que se estão a acontecer. Um exemplo inquietante do que estou a dizer tem a ver com a importação de gado de raça nelore do Brasil, que aparece frequentemente nas telenovelas da Globo. Subitamente surgiram em Angola empresas brasileiras a vender esse gado e tudo indica que até final deste ano as importações terão atingido cerca de cem mil cabeças, apesar dos resultados não estarem a ser animadores. Como está envolvida gente importante, não foram ouvidas as instituições competentes nem os conselhos dos técnicos mais qualificados, nem sequer respeitadas as normas mais elementares de importação de gado, como, por exemplo, a obrigatoriedade de quarentenas, como acontece em todo o mundo.

Voltando ao SA, encontramos a noticia do lancamento amanha, em Lisboa, do canal internacional da TPA:

Na próxima quinta-feira, 24, o canal internacional da Televisão Pública de Angola (TPA) será apresentado no Coliseu dos Recreios de Lisboa (Portugal), numa gala especialmente preparada para o efeito e na qual marcará presença o ministro da Comunicação Social de Angola, Manuel Rabelais. Durante a cerimónia será gravado o primeiro programa, o «Hora Quente», do humorista Pedro Zage. Artistas angolanos vão abrilhantar a gala em que se farão presentes vários dignitários portugueses, além de figuras ligadas à comunicação social de ambos os países. O «cardápio» da festa oferece os músicos Yola Araújo, Puto Lilas, Carlos Burity, Bonga, Karina Santos, Bruna Tatiana, Maya Cool e Yuri da Cunha.

Finalmente, uma entrevista de Mia Couto ao NJ:

Visitei Angola na condição de escritor e de biólogo. Em todos os casos, encontrei gente de uma afabilidade extrema, o que faz renascer a vontade de voltar sempre e sempre. Devo também dizer que, do ponto de vista literário, tenho uma espécie de dívida para com Luandino Vieira, cuja leitura me encorajou a enveredar por processos de recriação da norma portuguesa.
(…)
O Agualusa é um amigo e o que eu penso digo-lho a ele directamente.
(…)
Não vivo num país de negros mas de moçambicanos. E é muito raro que me lembrem que tenho raça. Invariavelmente, a minha condição de branco é lembrada apenas quando se reivindica o usufruto de privilégios e é necessário criar hierarquias na base da raça.
(…)
O facto de sermos africanos e de língua portuguesa coloca-nos numa condição de dupla dificuldade. É preciso entender que África continua a funcionar como uma coisa exótica e que apenas 'vende' se estiver a envergar vestes folclóricas e estereotipadas. Por outro lado, cada vez menos se fazem traduções. Por exemplo, em Inglaterra menos de 3% dos livros publicados resultam de traduções. Temos, portanto, que vencer estes dois obstáculos, e isso está a acontecer, a pouco e pouco, mas há ainda um longo caminho a percorrer.
(…)
O escritor é aquele que conhece a língua dos sonhos e, mais do que um idioma específico, usa a dimensão poética da palavra. Esse ser existe em todos nós, mesmo nos que não se crêem escritores. Adormecemos dentro de nós a capacidade de inventarmos histórias e, mais do que histórias, modos únicos de as contarmos. A oralidade que trazemos da nossa infância é tida como uma menoridade que o estado chamado de adulto deve saber ofuscar.(Capa do ultimo livro de Mia Couto, Editorial Caminho, 2008)
Para variar um pouco o “mau habito” de so’ incluir nesta serie artigos dos semanarios (diga-se que apenas porque estes, ao contrario do nosso unico diario, nao sao livremente acessiveis online), comeco com uma noticia publicada hoje no Jornal de Angola… pelo tema e por envolver Ngozi Okonjo-Iewala, que aqui anteriormente referi (acontecimento que quem tenha lido o meu artigo "Angola, Petroleo e Economia Post-Conflito: Que Fazer?", achara' certamente interessante):

O Banco Mundial felicitou Angola pela “boa gestão macro-económica”, assim como pela estabilidade, segurança e paz alcançadas pelos angolanos.Esta felicitação foi manifestada ao princípio da tarde de ontem, em Luanda, pela directora de Gestão (vice-presidente) do Banco, a nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala, à saída de uma audiência que lhe foi concedida, no Palácio da Cidade Alta, em Luanda, pelo Primeiro-Ministro Fernando da Piedade Dias dos Santos.Durante a audiência foi abordado o reforço da cooperação entre o país e a instituição financeira.A vice-presidente do Banco Mundial disse ter vindo a Angola “para felicitar o Presidente José Eduardo dos Santos e o Primeiro-Ministro pela estabilidade, segurança e paz alcançadas no país, bem como pela boa gestão macro-económica”.

No SA, encontramos a Resenha aritmética de uma legislatura de 16 anos:

O Relatório de Actividades da Primeira Legislatura, lido na plenária que na terça-feira, 14, encerrou um ciclo parlamentar de 16 anos, considera positivo o desempenho dos órgãos da Assembleia Nacional e dos deputados, à luz de números fornecidos no dito documento. As actividades estatisticamente reportadas no documento, referente ao período entre Novembro de 1992 e o presente mês de Julho, atribuem um rol de actividades à Secretaria da Assembleia Nacional (SAN), o que constitui, entretanto, uma inferição ao trabalho do próprio Parlamento. Os números dizem que durante os 16 anos pelos quais perdurou a legislatura, a SAN produziu 179 leis e 384 resoluções, perfazendo um total de 563 actos legislativos.

Segue-se-lhe, em Eles só não prometem o céu e a terra, a primeira parte de uma serie que o mesmo semanario dedica, a partir deste numero, as propostas eleitorais dos dois maiores partidos politicos Angolanos:

Embora os dois partidos tenham feito questão de mostrar uma pontinha do seu conteúdo em actos públicos, os seus programas de governo não foram totalmente escancarados porque havia a conveniência de os preservar de «olhares indiscretos». Ou, mais concretamente, da espionagem dos adversários e concorrentes. Mesmo assim, não vá o diabo tece-las, os programas da UNITA e do MPLA ainda não andam por aí à mercê de qualquer manápula. Foi o cabo dos trabalhos para o Semanário Angolense lograr aceder a dois exemplares. Assim, a partir desta edição, o leitor já não terá de esperar pelo início da campanha propriamente dita e dos comícios que a partir daí correrão à larga para dar uma olhada às propostas dos gigantes da política angolana.

Severino Carlos apresenta uma recente comunicacao sua sobre Rigor informativo vs verdades jornalísticas:

Vivemos, actualmente, num contexto de super-informação global, cujas características principais centram-se na velocidade da difusão e circulação de informação. Trata-se de uma espécie de darwinismo no universo da comunicação, em que o melhor e mais apto é aquele que não só chega primeiro aos factos dignos de serem noticiados, como também aquele que os divulga primeiro. A lógica é ser o primeiro jornal, rádio ou canal de televisão. É proibido ser ultrapassado. Chega a ser uma tirania para todos: receptores e emissores de comunicação.
Angola não está isolada deste contexto. E, por isso, a vaga tem vindo a salpicar o nosso país. Não é um fenómeno necessariamente negativo, mas configura um quadro que, face às debilidades da envolvente político-organizativa e às condições materiais em que os jornalistas laboram, gera sérios problemas específicos de rigor informativo. Ou, melhor dizendo, problemas que imbricam com uma das regras de ouro da actividade jornalística: o pressuposto de que toda a informação, para ser entendida como tal, e não como um exercício de manipulação ou de contra-informação, deve caracterizar-se pela objectividade. O que quer dizer que tem de ser enxuta e despida da emotividade e da visão pessoal do jornalista que a veicula. Por fim, e mais importante do que tudo, tem de ser verdadeira.

No NJ, Fernando Pacheco critica alguns desenvolvimentos e posturas em relacao a politica agricola no pais, Enquanto o ferro está quente:

Tenho criticado os nossos mais conceituados economistas por também não dedicarem a devida atenção à agricultura e à produção de alimentos. Na recente apresentação do prestigiado Relatório Económico do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica o meu amigo Justino Pinto de Andrade dedicou menos de dois dos mais de trinta minutos da sua intervenção ao capítulo da agricultura, apesar de ele abordar temas pertinentes e polémicos como os biocombustíveis. Nestes momentos lembro-me de como seria importante para Angola ter economistas como o malogrado moçambicano José Negrão, que tanto contribuiu para que a agricultura do seu país tivesse crescido de forma tão contundente desde o fim da guerra.
(…)
A ausência de sentido crítico e a auto censura de jornais e de técnicos não têm permitido que a opinião pública se aperceba de alguns dos enormes erros que se estão a acontecer. Um exemplo inquietante do que estou a dizer tem a ver com a importação de gado de raça nelore do Brasil, que aparece frequentemente nas telenovelas da Globo. Subitamente surgiram em Angola empresas brasileiras a vender esse gado e tudo indica que até final deste ano as importações terão atingido cerca de cem mil cabeças, apesar dos resultados não estarem a ser animadores. Como está envolvida gente importante, não foram ouvidas as instituições competentes nem os conselhos dos técnicos mais qualificados, nem sequer respeitadas as normas mais elementares de importação de gado, como, por exemplo, a obrigatoriedade de quarentenas, como acontece em todo o mundo.

Voltando ao SA, encontramos a noticia do lancamento amanha, em Lisboa, do canal internacional da TPA:

Na próxima quinta-feira, 24, o canal internacional da Televisão Pública de Angola (TPA) será apresentado no Coliseu dos Recreios de Lisboa (Portugal), numa gala especialmente preparada para o efeito e na qual marcará presença o ministro da Comunicação Social de Angola, Manuel Rabelais. Durante a cerimónia será gravado o primeiro programa, o «Hora Quente», do humorista Pedro Zage. Artistas angolanos vão abrilhantar a gala em que se farão presentes vários dignitários portugueses, além de figuras ligadas à comunicação social de ambos os países. O «cardápio» da festa oferece os músicos Yola Araújo, Puto Lilas, Carlos Burity, Bonga, Karina Santos, Bruna Tatiana, Maya Cool e Yuri da Cunha.

Finalmente, uma entrevista de Mia Couto ao NJ:

Visitei Angola na condição de escritor e de biólogo. Em todos os casos, encontrei gente de uma afabilidade extrema, o que faz renascer a vontade de voltar sempre e sempre. Devo também dizer que, do ponto de vista literário, tenho uma espécie de dívida para com Luandino Vieira, cuja leitura me encorajou a enveredar por processos de recriação da norma portuguesa.
(…)
O Agualusa é um amigo e o que eu penso digo-lho a ele directamente.
(…)
Não vivo num país de negros mas de moçambicanos. E é muito raro que me lembrem que tenho raça. Invariavelmente, a minha condição de branco é lembrada apenas quando se reivindica o usufruto de privilégios e é necessário criar hierarquias na base da raça.
(…)
O facto de sermos africanos e de língua portuguesa coloca-nos numa condição de dupla dificuldade. É preciso entender que África continua a funcionar como uma coisa exótica e que apenas 'vende' se estiver a envergar vestes folclóricas e estereotipadas. Por outro lado, cada vez menos se fazem traduções. Por exemplo, em Inglaterra menos de 3% dos livros publicados resultam de traduções. Temos, portanto, que vencer estes dois obstáculos, e isso está a acontecer, a pouco e pouco, mas há ainda um longo caminho a percorrer.
(…)
O escritor é aquele que conhece a língua dos sonhos e, mais do que um idioma específico, usa a dimensão poética da palavra. Esse ser existe em todos nós, mesmo nos que não se crêem escritores. Adormecemos dentro de nós a capacidade de inventarmos histórias e, mais do que histórias, modos únicos de as contarmos. A oralidade que trazemos da nossa infância é tida como uma menoridade que o estado chamado de adulto deve saber ofuscar.(Capa do ultimo livro de Mia Couto, Editorial Caminho, 2008)

Friday, 2 May 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (8)

Chegou-me hoje, pelo correio, de Luanda, o numero de Fevereiro deste ano da revista Figuras & Negocios (F&N). A figura em manchete e’ a nova governadora provincial de Luanda, sobre quem se pode ler o seguinte:

“Aconteca o que acontecer, uma coisa e’ certa, Francisca Espirito Santo e’ a primeira mulher em Angola a ser nomeada pelo Presidente da Republica para dirigir os destinos de uma Provincia. No inicio de Fevereiro, ela foi nomeada governadora interina de Luanda, em substituicao de Job Capapinha.
Ate’ entao vice-governadora de Luanda, Francisca Espirito Santo ascende tambem pela primeira vez ao patamar alto da governacao, apos ter sido ja’ vice-Ministra da Educacao. De trato afavel e comunicativa, Francisca Espirito Santo nao esconde o peso da empreitada colocada agora sobre os seus ombros, sobretudo quando se tem em conta que Luanda e’ das provincias que mais sofre pressao, cuja governacao acusa a influencia de estar aqui instalado o poder central, onde a falta de clarificacao das regras de jogo permite atropelos de competencias. So’ assim se compreende, alias, que ate’ ao momento, em pouco mais de trinta anos de independencia, a Provincia de Luanda ja’ tenha visto passar pela cadeira do poder 15 governadores, numa media de 2 anos para cada um. Francisca Espirito Santo engorda com Luanda o seu curriculum, almofadado do ponto de vista politico com o facto de ser membro do Comite’ Central do MPLA, o Partido no poder.”

Ainda na F&N, este eco do Brasil:


Nos jornais, para nao variar, continua-se a fazer eco da "Maka de 1 Jose' contra 3 Antonios mais os Mukuaxis"...

Pires Laranjeira, em “Agostinho Neto nao e’ um poeta mediocre”, no Jornal de Angola:

José Eduardo Agualusa (n. em Angola, Huambo, em 1960) considerou, como se sabe, numa entrevista ao Semanário Angolense, que Agostinho Neto (n. em Angola, Icolo-e-Bengo, em 1922; m. em Moscovo, em 1979) é um “poeta medíocre”. Ele ainda associou dois outros poetas angolanos da Geração da Mensagem e Cultura (II )(anos 50), salvando, por exclusão de partes, o poeta Viriato da Cruz, do qual é um admirador confesso: “uma pessoa que acha que Agostinho Neto foi um poeta extraordinário é porque não conhece rigorosamente nada de poesia, (…) foi um poeta medíocre (…) o mesmo se pode dizer de António Cardoso ou António Jacinto”. Para perceber esta afirmação, é necessário ter em conta que apenas são conhecidos 12 poemas de Viriato, incomensuravelmente menos do que os de António Cardoso e António Jacinto, tendo este último escrito também uma meia dúzia tão importante, consagrada e conseguida quanto a meia dúzia daquele (em Portugal, para quem não saiba ou não se recorde, o grupo Trovante e Sérgio Godinho tiveram grande êxito, nos anos 80, cantando um poema de Viriato, “Namoro”, que a maior parte do público pensava ser um texto português). A minha opinião é que, para Agualusa, os dois Antónios são “medíocres”, não por que o sejam, mas por terem continuado no MPLA, até falecerem, sempre ao lado de Agostinho Neto, enquanto Viriato foi um adversário politicamente derrotado no interior do movimento, no início da década de 60. Agualusa, de facto, não consegue desligar a qualidade literária do percurso político das pessoas.

[Aqui]

Continuando com os literatos, mas mudando de assunto e voltando a governacao de Luanda, um artigo de Pepetela, “Horror do Vazio”, cujo local de publicacao ainda nao me foi possivel apurar: “Sei que pode parecer repetitivo, mas afligem-me as megalomanias se apossando de algumas cabeças que assumem responsabilidades em relação a Luanda. Uns tantos acham que merecemos ter uma capital no estilo Singapura ou Hong Kong, com torres de quarenta andares (no mínimo) ao longo do mar. (…) Problema que estamos com ele é que todas essas novas construções vão ter sérias infiltrações de água salgada, pois ali antes era mar. E o mar gosta de recuperar o que lhe roubaram, ainda mais agora com a previsão da subida dos oceanos, como em todas as conferências se apregoa. Vai ser lindo, com as fundações das torres a serem corroídas pelo salitre e os prédios a desabarem. Felizmente para eles, já não estarão cá os responsáveis nem os seus filhos. E os netos dos outros que se lixem.”

[Aqui]

Finalmente, no SA, tres artigos dignos de nota:


Ismael Mateus escreve em defesa de David Borges, a proposito de uma materia aqui discutida:

Escrevo ao Semanário Angolense com o fim de partilhar com os leitores deste jornal o conhecimento pessoal que tenho de David Borges. Nas últimas duas edições, sobretudo na de há quinze dias, foram feitas considerações sobre a pessoa e sobre as motivações do jornalista angolano David Borges que não me deixaram descansado com a minha consciência. Por gratidão pessoal ao homem e ao profissional mas também por dever para com a verdade, sinto-me na obrigação de dizer publicamente que não concordo, não são justas as insinuações sobre uma colagem de David Borges a um conjunto de luso-descendentes que agora descobriram o nosso país e oferecem a sua pena para serem «mais papistas que o Papa». Se o autor tivesse tido a possibilidade de trabalhar, durante mais de cinco anos, com o David Borges (como eu tive), se tivesse tido contacto com a sua seriedade e o rigor profissional e honestidade, jamais teria incluído este filho do Cunene no rol destes mercenários dos negócios que agora se abatem sobre várias áreas da nossa sociedade, entre as quais a comunicação social. Quero assegurar-te, amigo Graça Campos e aos leitores deste semanário, que o DB não é destes.

[Aqui]

Um relato de (quase) tudo quanto pode acontecer quando musica e literatura se confundem com politica no Parlamento: “O debate no Parlamento já tinha atingido o rubro. Ao agendado debate sobre o desarmamento dos civis, o Mpla acrescentou um ponto relativo ao respeito pelos símbolos nacionais, inspirado numa música de autor desconhecido e atentatória à pessoa do Presidente José Eduardo dos Santos. Deputados da oposição disseram que não se opunham à discussão do tema se antes pudessem ouvir a dita música. «Temos que ouvir a música para analisar a sua gravidade», disse Lindo Bernardo Tito, do Prs. Um corte de luz pôs fim à discussão quando começava a tornar-se um embaraço para a bancada do Mpla. (…) Ultrapassada então o que para alguns deputados do próprio Mpla tinha sido um completo despropósito, veio a questão que deixou uma parte da bancada da «grande família», particularmente a sua liderança, politicamente irada. Benjamin da Silva, deputado da Fnla, propôs a observação de um minuto de silêncio em honra de Aime Cesaire, poeta e político de Martinica, criador do conceito de negritude e inspirador de muitas gerações de políticos africanos. Aime Cesaire faleceu há uma semana, na sua terra natal, aos 94 anos. Tudo parecia bem até que o proponente associou Aime Cesaire a várias personalidades africanas, entre as quais Holden Roberto. Bornito de Sousa, chefe da bancada do Mpla, não gostou da colagem. Disse que o Mpla anuía à proposta, porém os seus deputados manter-se-iam sentados pois que a associação entre Holden Roberto e Aime Cesaire, feita por Benjamin da Silva, era uma provocação que visava dividendos políticos e com a qual não podiam pactuar.”

[Aqui]

E... '50-cent' assaltado em pleno palco!

O «rapper» norte-americano «50-Cent», que se encontrava em Luanda para participar no Festival Internacional da Paz, promovido pela Casablanca, do empresário Henrique Miguel «Riquinho», terá «morrido» do próprio veneno, como sói dizer-se, ao ser vítima de um espectacular assalto em pleno palco, quarta-feira, no pavilhão da cidadela desportiva, durante a actuação que estava fazendo, no quadro do 1.º dia do evento, noticiou a Angop. O assalto aconteceu quando um indivíduo não identificado surgiu da assistência como num passe de mágica, iludindo o sistema de segurança montado pelo organização do espectáculo, conseguiu subir ao palco, acercar-se do «rapper» e, com um esticão, roubar-lhe o valioso colar, que se diz ser de platina e continha vários diamantes incrustados, que portava, avaliado em dois milhões de dólares, muito menos do que valia certamente o seu «cachet». O músico americano, que nas suas músicas tem feito a apologia de comportamentos pouco dignos, sendo por isso vítima do que promove de algum modo, ainda saiu em perseguição do ladrão, mas sem sucesso, por este se ter camuflado entre a numerosa assistência que acorrera ao espectáculo.

[Aqui]

Chegou-me hoje, pelo correio, de Luanda, o numero de Fevereiro deste ano da revista Figuras & Negocios (F&N). A figura em manchete e’ a nova governadora provincial de Luanda, sobre quem se pode ler o seguinte:

“Aconteca o que acontecer, uma coisa e’ certa, Francisca Espirito Santo e’ a primeira mulher em Angola a ser nomeada pelo Presidente da Republica para dirigir os destinos de uma Provincia. No inicio de Fevereiro, ela foi nomeada governadora interina de Luanda, em substituicao de Job Capapinha.
Ate’ entao vice-governadora de Luanda, Francisca Espirito Santo ascende tambem pela primeira vez ao patamar alto da governacao, apos ter sido ja’ vice-Ministra da Educacao. De trato afavel e comunicativa, Francisca Espirito Santo nao esconde o peso da empreitada colocada agora sobre os seus ombros, sobretudo quando se tem em conta que Luanda e’ das provincias que mais sofre pressao, cuja governacao acusa a influencia de estar aqui instalado o poder central, onde a falta de clarificacao das regras de jogo permite atropelos de competencias. So’ assim se compreende, alias, que ate’ ao momento, em pouco mais de trinta anos de independencia, a Provincia de Luanda ja’ tenha visto passar pela cadeira do poder 15 governadores, numa media de 2 anos para cada um. Francisca Espirito Santo engorda com Luanda o seu curriculum, almofadado do ponto de vista politico com o facto de ser membro do Comite’ Central do MPLA, o Partido no poder.”

Ainda na F&N, este eco do Brasil:


Nos jornais, para nao variar, continua-se a fazer eco da "Maka de 1 Jose' contra 3 Antonios mais os Mukuaxis"...

Pires Laranjeira, em “Agostinho Neto nao e’ um poeta mediocre”, no Jornal de Angola:

José Eduardo Agualusa (n. em Angola, Huambo, em 1960) considerou, como se sabe, numa entrevista ao Semanário Angolense, que Agostinho Neto (n. em Angola, Icolo-e-Bengo, em 1922; m. em Moscovo, em 1979) é um “poeta medíocre”. Ele ainda associou dois outros poetas angolanos da Geração da Mensagem e Cultura (II )(anos 50), salvando, por exclusão de partes, o poeta Viriato da Cruz, do qual é um admirador confesso: “uma pessoa que acha que Agostinho Neto foi um poeta extraordinário é porque não conhece rigorosamente nada de poesia, (…) foi um poeta medíocre (…) o mesmo se pode dizer de António Cardoso ou António Jacinto”. Para perceber esta afirmação, é necessário ter em conta que apenas são conhecidos 12 poemas de Viriato, incomensuravelmente menos do que os de António Cardoso e António Jacinto, tendo este último escrito também uma meia dúzia tão importante, consagrada e conseguida quanto a meia dúzia daquele (em Portugal, para quem não saiba ou não se recorde, o grupo Trovante e Sérgio Godinho tiveram grande êxito, nos anos 80, cantando um poema de Viriato, “Namoro”, que a maior parte do público pensava ser um texto português). A minha opinião é que, para Agualusa, os dois Antónios são “medíocres”, não por que o sejam, mas por terem continuado no MPLA, até falecerem, sempre ao lado de Agostinho Neto, enquanto Viriato foi um adversário politicamente derrotado no interior do movimento, no início da década de 60. Agualusa, de facto, não consegue desligar a qualidade literária do percurso político das pessoas.

[Aqui]

Continuando com os literatos, mas mudando de assunto e voltando a governacao de Luanda, um artigo de Pepetela, “Horror do Vazio”, cujo local de publicacao ainda nao me foi possivel apurar: “Sei que pode parecer repetitivo, mas afligem-me as megalomanias se apossando de algumas cabeças que assumem responsabilidades em relação a Luanda. Uns tantos acham que merecemos ter uma capital no estilo Singapura ou Hong Kong, com torres de quarenta andares (no mínimo) ao longo do mar. (…) Problema que estamos com ele é que todas essas novas construções vão ter sérias infiltrações de água salgada, pois ali antes era mar. E o mar gosta de recuperar o que lhe roubaram, ainda mais agora com a previsão da subida dos oceanos, como em todas as conferências se apregoa. Vai ser lindo, com as fundações das torres a serem corroídas pelo salitre e os prédios a desabarem. Felizmente para eles, já não estarão cá os responsáveis nem os seus filhos. E os netos dos outros que se lixem.”

[Aqui]

Finalmente, no SA, tres artigos dignos de nota:


Ismael Mateus escreve em defesa de David Borges, a proposito de uma materia aqui discutida:

Escrevo ao Semanário Angolense com o fim de partilhar com os leitores deste jornal o conhecimento pessoal que tenho de David Borges. Nas últimas duas edições, sobretudo na de há quinze dias, foram feitas considerações sobre a pessoa e sobre as motivações do jornalista angolano David Borges que não me deixaram descansado com a minha consciência. Por gratidão pessoal ao homem e ao profissional mas também por dever para com a verdade, sinto-me na obrigação de dizer publicamente que não concordo, não são justas as insinuações sobre uma colagem de David Borges a um conjunto de luso-descendentes que agora descobriram o nosso país e oferecem a sua pena para serem «mais papistas que o Papa». Se o autor tivesse tido a possibilidade de trabalhar, durante mais de cinco anos, com o David Borges (como eu tive), se tivesse tido contacto com a sua seriedade e o rigor profissional e honestidade, jamais teria incluído este filho do Cunene no rol destes mercenários dos negócios que agora se abatem sobre várias áreas da nossa sociedade, entre as quais a comunicação social. Quero assegurar-te, amigo Graça Campos e aos leitores deste semanário, que o DB não é destes.

[Aqui]

Um relato de (quase) tudo quanto pode acontecer quando musica e literatura se confundem com politica no Parlamento: “O debate no Parlamento já tinha atingido o rubro. Ao agendado debate sobre o desarmamento dos civis, o Mpla acrescentou um ponto relativo ao respeito pelos símbolos nacionais, inspirado numa música de autor desconhecido e atentatória à pessoa do Presidente José Eduardo dos Santos. Deputados da oposição disseram que não se opunham à discussão do tema se antes pudessem ouvir a dita música. «Temos que ouvir a música para analisar a sua gravidade», disse Lindo Bernardo Tito, do Prs. Um corte de luz pôs fim à discussão quando começava a tornar-se um embaraço para a bancada do Mpla. (…) Ultrapassada então o que para alguns deputados do próprio Mpla tinha sido um completo despropósito, veio a questão que deixou uma parte da bancada da «grande família», particularmente a sua liderança, politicamente irada. Benjamin da Silva, deputado da Fnla, propôs a observação de um minuto de silêncio em honra de Aime Cesaire, poeta e político de Martinica, criador do conceito de negritude e inspirador de muitas gerações de políticos africanos. Aime Cesaire faleceu há uma semana, na sua terra natal, aos 94 anos. Tudo parecia bem até que o proponente associou Aime Cesaire a várias personalidades africanas, entre as quais Holden Roberto. Bornito de Sousa, chefe da bancada do Mpla, não gostou da colagem. Disse que o Mpla anuía à proposta, porém os seus deputados manter-se-iam sentados pois que a associação entre Holden Roberto e Aime Cesaire, feita por Benjamin da Silva, era uma provocação que visava dividendos políticos e com a qual não podiam pactuar.”

[Aqui]

E... '50-cent' assaltado em pleno palco!

O «rapper» norte-americano «50-Cent», que se encontrava em Luanda para participar no Festival Internacional da Paz, promovido pela Casablanca, do empresário Henrique Miguel «Riquinho», terá «morrido» do próprio veneno, como sói dizer-se, ao ser vítima de um espectacular assalto em pleno palco, quarta-feira, no pavilhão da cidadela desportiva, durante a actuação que estava fazendo, no quadro do 1.º dia do evento, noticiou a Angop. O assalto aconteceu quando um indivíduo não identificado surgiu da assistência como num passe de mágica, iludindo o sistema de segurança montado pelo organização do espectáculo, conseguiu subir ao palco, acercar-se do «rapper» e, com um esticão, roubar-lhe o valioso colar, que se diz ser de platina e continha vários diamantes incrustados, que portava, avaliado em dois milhões de dólares, muito menos do que valia certamente o seu «cachet». O músico americano, que nas suas músicas tem feito a apologia de comportamentos pouco dignos, sendo por isso vítima do que promove de algum modo, ainda saiu em perseguição do ladrão, mas sem sucesso, por este se ter camuflado entre a numerosa assistência que acorrera ao espectáculo.

[Aqui]

Friday, 25 April 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (7)


Eu nao disse que o 'kibeto' ia continuar?
Na continuacao da ja' tristemente celebre Maka de 1 Jose' contra 3 Antonios, este fim de semana poderao encontrar no SA duas replicas 'a ultima replica de Agualusa...


Luis Kandjimbo, em "A TRADIÇÃO LITERÁRIA ANGOLANA E O GRAU ZERO DA MEMÓRIA DE UM ESCRITOR":


Que motivação subjaz à exaltação dos estudos clássicos de Leopold Senghor realizados na Universidade da Sorbonne, quando se esquece que, nas décadas de 40 e 50, Agostinho Neto foi dos primeiros negros angolanos a realizar os seus estudos de Medicina nas Universidades de Coimbra e de Lisboa? Ou será porque a alusão que Senghor faz à origem portuguesa do nome e à gota de sangue português representa uma virtude luso-tropical? Vê-se logo que o suposto juízo estético sobre a poesia de Agostinho Neto resvala para um registo biografista com laivos deterministas sem relevância crítica.
(...)
Afirmar que Agostinho Neto (1922-1979) foi um político que frequentou a poesia e Senghor (1906-2001) um poeta que frequentou a política é, na verdade, um trocadilho que constitui o cúmulo da bazófia. Conhecendo bem as literaturas africanas de língua francesa e inglesa, considero que semelhantes afirmações revelam a mais desbragada irresponsabilidade do acto judicativo e hermenêutico. Por isso, tenho dúvidas que quem assim pensa, conheça verdadeiramente as trajectórias biográficas dos dois escritores mencionados.
(...)
Como compreender que (JE Agualusa) venha emitir juízos estéticos depreciativos acerca de três poetas angolanos importantes, revelando pertencer a uma tradição literária universal? Como se explica que ganhe fortuna crítica em nome da tradição literária angolana cuja existência nega com frequência, tal como fez mais recentemente numa entrevista concedida ao conhecido humorista brasileiro Jô Soares?

[Aqui]


Adriano dos Santos Junior, em "O SEU A SEU DONO":

O que não estamos de acordo é com o fundamento de Agualusa, segundo o qual Leopold Senghor tenha sido um grande poeta por ter ido beber à fonte da Grécia Antiga para além das tradições africanas, ter estudado na Sorbonne, ter tido orgulho pela sua «gota de sangue português», evocada num dos seus grandes poemas transcritos por Agualusa, e ter publicado onze livros, enquanto que Agostinho Neto não poderia ser um grande poeta porque não teria ido beber à bica da Grécia antiga, não passou pela Sorbonne e não publicou assim tantos livros. Para nós Leopold Senghor e Agostinho Neto foram grandes poetas pelas suas obras, independentemente dos santuários do saber que tenha frequentado ou visitado.
Por mais que devamos incentivar os nossos literatos a produzirem muito e terem o máximo apego à Cultura quer seja clássica ou tradicional, não nos podemos esquecer que o Poeta nasce e o Erudito faz-se. Há Poetas analfabetos e Eruditos incapazes de engendrar um poema. Por outro lado, os critérios para a classificação de escritores, poetas, contistas, romancistas, etc., não têm como factor essencial a quantidade de obras publicadas nem o número de versos ou de páginas das mesmas, mas sim a sua qualidade. Existem poetas de um poema só, contistas de um conto só e romancistas de um só romance. Embora possam ser excepções, literaturas relevantes de vários povos e em diversas épocas, registam casos em que autores de uma só obra integram as mesmas galerias que as de outros mais fecundos e com todo o merecimento.
(...)
«…Talvez se justifique aqui acrescentar, para concluir, que gosto muito de escutar os versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas. Gosto deles, como centenas de milhares de angolanos, devido à arte de Rui Mingas e também porque fazem parte do meu imaginário, e isto independentemente da sua qualidade literária…», revela Agualusa. A nosso ver, a beleza e o sucesso dos versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas, que o nosso grande escritor adora escutar, não depende apenas da intervenção do genial compositor; Agualusa atribui todo mérito a Rui Mingas porque se recusa a perceber que os poemas de Agostinho Neto, por si sós, têm uma musicalidade intrínseca, «uma melodia silenciosa», como diria o poeta João Maimona referindo-se à poesia de António Jacinto. Interagindo e complementando-se, os talentos do poeta e do cancionista produziram as maravilhas que encantam até os desafectos.

[Aqui]


“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

Eu nao disse que o 'kibeto' ia continuar?
Na continuacao da ja' tristemente celebre Maka de 1 Jose' contra 3 Antonios, este fim de semana poderao encontrar no SA duas replicas 'a ultima replica de Agualusa...


Luis Kandjimbo, em "A TRADIÇÃO LITERÁRIA ANGOLANA E O GRAU ZERO DA MEMÓRIA DE UM ESCRITOR":


Que motivação subjaz à exaltação dos estudos clássicos de Leopold Senghor realizados na Universidade da Sorbonne, quando se esquece que, nas décadas de 40 e 50, Agostinho Neto foi dos primeiros negros angolanos a realizar os seus estudos de Medicina nas Universidades de Coimbra e de Lisboa? Ou será porque a alusão que Senghor faz à origem portuguesa do nome e à gota de sangue português representa uma virtude luso-tropical? Vê-se logo que o suposto juízo estético sobre a poesia de Agostinho Neto resvala para um registo biografista com laivos deterministas sem relevância crítica.
(...)
Afirmar que Agostinho Neto (1922-1979) foi um político que frequentou a poesia e Senghor (1906-2001) um poeta que frequentou a política é, na verdade, um trocadilho que constitui o cúmulo da bazófia. Conhecendo bem as literaturas africanas de língua francesa e inglesa, considero que semelhantes afirmações revelam a mais desbragada irresponsabilidade do acto judicativo e hermenêutico. Por isso, tenho dúvidas que quem assim pensa, conheça verdadeiramente as trajectórias biográficas dos dois escritores mencionados.
(...)
Como compreender que (JE Agualusa) venha emitir juízos estéticos depreciativos acerca de três poetas angolanos importantes, revelando pertencer a uma tradição literária universal? Como se explica que ganhe fortuna crítica em nome da tradição literária angolana cuja existência nega com frequência, tal como fez mais recentemente numa entrevista concedida ao conhecido humorista brasileiro Jô Soares?

[Aqui]


Adriano dos Santos Junior, em "O SEU A SEU DONO":

O que não estamos de acordo é com o fundamento de Agualusa, segundo o qual Leopold Senghor tenha sido um grande poeta por ter ido beber à fonte da Grécia Antiga para além das tradições africanas, ter estudado na Sorbonne, ter tido orgulho pela sua «gota de sangue português», evocada num dos seus grandes poemas transcritos por Agualusa, e ter publicado onze livros, enquanto que Agostinho Neto não poderia ser um grande poeta porque não teria ido beber à bica da Grécia antiga, não passou pela Sorbonne e não publicou assim tantos livros. Para nós Leopold Senghor e Agostinho Neto foram grandes poetas pelas suas obras, independentemente dos santuários do saber que tenha frequentado ou visitado.
Por mais que devamos incentivar os nossos literatos a produzirem muito e terem o máximo apego à Cultura quer seja clássica ou tradicional, não nos podemos esquecer que o Poeta nasce e o Erudito faz-se. Há Poetas analfabetos e Eruditos incapazes de engendrar um poema. Por outro lado, os critérios para a classificação de escritores, poetas, contistas, romancistas, etc., não têm como factor essencial a quantidade de obras publicadas nem o número de versos ou de páginas das mesmas, mas sim a sua qualidade. Existem poetas de um poema só, contistas de um conto só e romancistas de um só romance. Embora possam ser excepções, literaturas relevantes de vários povos e em diversas épocas, registam casos em que autores de uma só obra integram as mesmas galerias que as de outros mais fecundos e com todo o merecimento.
(...)
«…Talvez se justifique aqui acrescentar, para concluir, que gosto muito de escutar os versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas. Gosto deles, como centenas de milhares de angolanos, devido à arte de Rui Mingas e também porque fazem parte do meu imaginário, e isto independentemente da sua qualidade literária…», revela Agualusa. A nosso ver, a beleza e o sucesso dos versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas, que o nosso grande escritor adora escutar, não depende apenas da intervenção do genial compositor; Agualusa atribui todo mérito a Rui Mingas porque se recusa a perceber que os poemas de Agostinho Neto, por si sós, têm uma musicalidade intrínseca, «uma melodia silenciosa», como diria o poeta João Maimona referindo-se à poesia de António Jacinto. Interagindo e complementando-se, os talentos do poeta e do cancionista produziram as maravilhas que encantam até os desafectos.

[Aqui]


“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

Tuesday, 22 April 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (6)

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

Bom, tudo parece indicar que enquanto os apetites do aparentemente interminavel numero de replicantes as implicancias de Agualusa sobre a poesia de Neto (e de Jacinto, e de Cardoso – mas parece que a maka, chamemos-lhe a “Maka de 1 Jose' contra 3 Antonios”, tanto por parte do implicante, como dos replicantes, se restringe mesmo a poesia daquele que tera' sido eleito 'por unanimidade e aclamacao', “Poeta Maior da Nacao Angolana”…) nao estiverem completamente saciados, o ‘kibeto’ promete continuar ad-infinitum. Dos ultimos episodios, destaque vai para o que se segue:

Celso Malavoloneke despacha, do seu canto no SA, recados tanto para o implicante como para o mais inflamado dos replicantes:

RECADO I
Ao José Eduardo Agualusa, uma réplica: se por gostar desalmadamente da
poesia de Agostinho Neto não percebo rigorosamente nada de poesia, então
o senhor percebe ainda menos -se é que isso é possível - do papel essencial
da Arte e Literatura na vida dos povos

RECADO II
Ao Artur Queiroz outro recado: a poesia de Agostinho Neto não precisa de
ser defendida com linguagem de carroceiros brigando por uma picha de
cerveja barata numa taberna qualquer

RECADO III
A não ser que vocês os dois decidam fazê-lo algures em terras lusas, onde
essas baixarias parecem confundidas com democracia. Então porquê não
irem para lá e entabernarem-se, que assim deixa de ser problema nosso?
[Aqui]

Por seu lado, o implicante provocador de ‘toda a maka no museke’, para alem de uma primeira reaccao, registada aqui, disse mais de sua justica ao Novo Jornal:

Para me fazer compreender melhor, quanto ao assunto que me traz aqui, talvez seja útil comparar a obra e o trajecto de Agostinho Neto com o de outro grande nome do nacionalismo africano: Leopold Sedar Senghor. Agostinho Neto e Leopold Senghor tiveram percursos aparentemente semelhantes. Senghor foi o primeiro presidente do Senegal. Agostinho Neto foi o primeiro presidente de Angola. Ambos publicaram livros de poesia. Olhando com mais atenção, porém, começam a perceber-se as diferenças. Agostinho Neto foi um político que frequentou a poesia -por razões políticas. Senghor foi um poeta que frequentou a política - por razões poéticas.
(…)
Talvez se justifique aqui acrescentar, para concluir, que gosto muito de escutar os versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas. Gosto deles, como centenas de milhares de angolanos, devido à arte de Rui Mingas e também porque fazem parte do meu imaginário, e isto independentemente da sua qualidade literária. Quando quero ler grande poesia, então procuro outros autores. E era aqui que eu queria chegar na entrevista ao Semanário Angolense.
[Aqui]

Agora, quem, apesar de tao penosamente elaborada explicacao, continue com o apetite insaciado (eu creio ter percebido tudo, excepto uma coisa, e espero com isto nao dar mais alento a outros eventuais replicantes a espera de vez: porque que o implicante, nas suas replicas aos replicantes, continua repetidamente a referir-se ao Semanario Angolese?), talvez consiga encontrar alguma luz na ‘Teoria Geral dos Xinguilamentos’, cientificamente exposta por Mestre Paulo Mulembo no Agora:

Queremos reportar-nos ao debate que se gerou em torno da entrevista dada pelo escritor Agualusa ao Jornal Angolense, que ao exprimir numa frase a sua opinião sobre a poesia de Agostinho Neto ("Neto é um poeta medíocre"), provocou uma onda de mal estar em certos sectores, a ponto de provocar xinguilamentos ou vontades de xinguilar.
(…)
"Xingar o Kilamba faz Xinguilar", "Kidi Kidi, Kididi Kididi". O professor começa por esta bonita marcação de identidade cultural (linguística) pese embora o sincretismo da primeira expressão, onde a força da rima clássica, portanto exógena, é conseguida através da apropriação gramatical da conjugação portuguesa. Não é pecado. A interface cultural produz estes empréstimos ou apropriações em todo legitimas de ambas as partes, angolana e portuguesa. Mas é exactamente por esta primeira afirmação: Xingar o Kilamba faz Xinguilar que queremos começar, na sincera esperança de poder acalmar o xinguilamento do Professor. Elegemos esta expressão porque achamos que é sobre ela que assenta toda a estrutura profunda da reacção do Professor, objectivada no texto.
(…)
Sabemos que a FRENTE, a FpD, tem uma proposta de código de conduta social, que serviria de pauta reguladora para a coexistência saudável entre nós. Pedimos que aí seja inscrito o princípio seguinte:
"Não vale Xinguilar, quem xinguilar perde a razão".
[Aqui]

Entenderam, oh replicantes de insaciaveis apetites? Assumindo que sim, passemos entao das makas literarias as mais substantivas makas da economia. Ou, mais especificamente, as makas do piteu que esta’ cada vez mais caro a nivel global e cujos efeitos se comecam a fazer sentir de forma dramatica em varias partes do mundo (so’ para citar os casos mais mediatizados, vimos nos ultimos dias violentos confrontos no Haiti e no Egipto por nao outra razao que o aumento vertiginoso dos precos de bens alimentares basicos):

No Novo Jornal, Fernando Pacheco, equaciona a crise alimentar em termos de proposicoes concretas para uma politica agricola mais autonoma e sustentavel em Angola:

Acabada a guerra, aumentou naturalmente o interesse na produção camponesa - que erradamente continua a ser considerada de subsistência, ignorando-se que ela foi responsável pela auto suficiência alimentar de Angola em termos líquidos até 1973 - pelo papel que pode ter na redução do peso do petróleo no Produto Interno Bruto. Como durante mais de trinta anos esta questão esteve longe do centro do debate nacional - excepto quando os preços do petróleo baixaram para níveis considerados inquietantes -, não há hoje ideias claras sobre a forma de lidar com ela.
[Aqui]

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

Bom, tudo parece indicar que enquanto os apetites do aparentemente interminavel numero de replicantes as implicancias de Agualusa sobre a poesia de Neto (e de Jacinto, e de Cardoso – mas parece que a maka, chamemos-lhe a “Maka de 1 Jose' contra 3 Antonios”, tanto por parte do implicante, como dos replicantes, se restringe mesmo a poesia daquele que tera' sido eleito 'por unanimidade e aclamacao', “Poeta Maior da Nacao Angolana”…) nao estiverem completamente saciados, o ‘kibeto’ promete continuar ad-infinitum. Dos ultimos episodios, destaque vai para o que se segue:

Celso Malavoloneke despacha, do seu canto no SA, recados tanto para o implicante como para o mais inflamado dos replicantes:

RECADO I
Ao José Eduardo Agualusa, uma réplica: se por gostar desalmadamente da
poesia de Agostinho Neto não percebo rigorosamente nada de poesia, então
o senhor percebe ainda menos -se é que isso é possível - do papel essencial
da Arte e Literatura na vida dos povos

RECADO II
Ao Artur Queiroz outro recado: a poesia de Agostinho Neto não precisa de
ser defendida com linguagem de carroceiros brigando por uma picha de
cerveja barata numa taberna qualquer

RECADO III
A não ser que vocês os dois decidam fazê-lo algures em terras lusas, onde
essas baixarias parecem confundidas com democracia. Então porquê não
irem para lá e entabernarem-se, que assim deixa de ser problema nosso?
[Aqui]

Por seu lado, o implicante provocador de ‘toda a maka no museke’, para alem de uma primeira reaccao, registada aqui, disse mais de sua justica ao Novo Jornal:

Para me fazer compreender melhor, quanto ao assunto que me traz aqui, talvez seja útil comparar a obra e o trajecto de Agostinho Neto com o de outro grande nome do nacionalismo africano: Leopold Sedar Senghor. Agostinho Neto e Leopold Senghor tiveram percursos aparentemente semelhantes. Senghor foi o primeiro presidente do Senegal. Agostinho Neto foi o primeiro presidente de Angola. Ambos publicaram livros de poesia. Olhando com mais atenção, porém, começam a perceber-se as diferenças. Agostinho Neto foi um político que frequentou a poesia -por razões políticas. Senghor foi um poeta que frequentou a política - por razões poéticas.
(…)
Talvez se justifique aqui acrescentar, para concluir, que gosto muito de escutar os versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas. Gosto deles, como centenas de milhares de angolanos, devido à arte de Rui Mingas e também porque fazem parte do meu imaginário, e isto independentemente da sua qualidade literária. Quando quero ler grande poesia, então procuro outros autores. E era aqui que eu queria chegar na entrevista ao Semanário Angolense.
[Aqui]

Agora, quem, apesar de tao penosamente elaborada explicacao, continue com o apetite insaciado (eu creio ter percebido tudo, excepto uma coisa, e espero com isto nao dar mais alento a outros eventuais replicantes a espera de vez: porque que o implicante, nas suas replicas aos replicantes, continua repetidamente a referir-se ao Semanario Angolese?), talvez consiga encontrar alguma luz na ‘Teoria Geral dos Xinguilamentos’, cientificamente exposta por Mestre Paulo Mulembo no Agora:

Queremos reportar-nos ao debate que se gerou em torno da entrevista dada pelo escritor Agualusa ao Jornal Angolense, que ao exprimir numa frase a sua opinião sobre a poesia de Agostinho Neto ("Neto é um poeta medíocre"), provocou uma onda de mal estar em certos sectores, a ponto de provocar xinguilamentos ou vontades de xinguilar.
(…)
"Xingar o Kilamba faz Xinguilar", "Kidi Kidi, Kididi Kididi". O professor começa por esta bonita marcação de identidade cultural (linguística) pese embora o sincretismo da primeira expressão, onde a força da rima clássica, portanto exógena, é conseguida através da apropriação gramatical da conjugação portuguesa. Não é pecado. A interface cultural produz estes empréstimos ou apropriações em todo legitimas de ambas as partes, angolana e portuguesa. Mas é exactamente por esta primeira afirmação: Xingar o Kilamba faz Xinguilar que queremos começar, na sincera esperança de poder acalmar o xinguilamento do Professor. Elegemos esta expressão porque achamos que é sobre ela que assenta toda a estrutura profunda da reacção do Professor, objectivada no texto.
(…)
Sabemos que a FRENTE, a FpD, tem uma proposta de código de conduta social, que serviria de pauta reguladora para a coexistência saudável entre nós. Pedimos que aí seja inscrito o princípio seguinte:
"Não vale Xinguilar, quem xinguilar perde a razão".
[Aqui]

Entenderam, oh replicantes de insaciaveis apetites? Assumindo que sim, passemos entao das makas literarias as mais substantivas makas da economia. Ou, mais especificamente, as makas do piteu que esta’ cada vez mais caro a nivel global e cujos efeitos se comecam a fazer sentir de forma dramatica em varias partes do mundo (so’ para citar os casos mais mediatizados, vimos nos ultimos dias violentos confrontos no Haiti e no Egipto por nao outra razao que o aumento vertiginoso dos precos de bens alimentares basicos):

No Novo Jornal, Fernando Pacheco, equaciona a crise alimentar em termos de proposicoes concretas para uma politica agricola mais autonoma e sustentavel em Angola:

Acabada a guerra, aumentou naturalmente o interesse na produção camponesa - que erradamente continua a ser considerada de subsistência, ignorando-se que ela foi responsável pela auto suficiência alimentar de Angola em termos líquidos até 1973 - pelo papel que pode ter na redução do peso do petróleo no Produto Interno Bruto. Como durante mais de trinta anos esta questão esteve longe do centro do debate nacional - excepto quando os preços do petróleo baixaram para níveis considerados inquietantes -, não há hoje ideias claras sobre a forma de lidar com ela.
[Aqui]

Monday, 7 April 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (4)

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre


Com algum atraso, mas ainda em tempo util, a resposta de Jose' Eduardo Agualusa as reaccoes as suas afirmacoes, publicada a 28/03/08 no A Capital:

'GOSTO UNICO'

"Não posso dizer que tenha ficado surpreendido com algumas das reacções a uma entrevista que concedi recentemente ao Semanário Angolense. Atravessamos um tempo um pouco estranho, de transição de um regime de pensamento único para aquilo que, espero, venha a ser uma verdadeira democracia. O que diferencia uma ditadura de uma democracia é a pluralidade de ideias e de opiniões sobre qualquer assunto, e a forma como essas ideias são recebidas não apenas pelos governantes, mas pela generalidade da população.Os ditadores esforçam-se por estabelecer primeiro uma determinada ideologia política, mas raramente se detêm aqui – tentam a seguir impor a toda a gente os seus próprios gostos sobre música, literatura, artes plásticas, desporto, sexo, ou mesmo moda."

[Aqui]

***
O post-mortem do desabamento do edificio da DNIC dominou as headlines

no Semanario Angolense:


[Aqui e Aqui]

e no Angolense:


[Aqui]


“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre


Com algum atraso, mas ainda em tempo util, a resposta de Jose' Eduardo Agualusa as reaccoes as suas afirmacoes, publicada a 28/03/08 no A Capital:

'GOSTO UNICO'

"Não posso dizer que tenha ficado surpreendido com algumas das reacções a uma entrevista que concedi recentemente ao Semanário Angolense. Atravessamos um tempo um pouco estranho, de transição de um regime de pensamento único para aquilo que, espero, venha a ser uma verdadeira democracia. O que diferencia uma ditadura de uma democracia é a pluralidade de ideias e de opiniões sobre qualquer assunto, e a forma como essas ideias são recebidas não apenas pelos governantes, mas pela generalidade da população.Os ditadores esforçam-se por estabelecer primeiro uma determinada ideologia política, mas raramente se detêm aqui – tentam a seguir impor a toda a gente os seus próprios gostos sobre música, literatura, artes plásticas, desporto, sexo, ou mesmo moda."

[Aqui]

***
O post-mortem do desabamento do edificio da DNIC dominou as headlines

no Semanario Angolense:


[Aqui e Aqui]

e no Angolense:


[Aqui]


Wednesday, 2 April 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA - 3

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”


Manuel Alegre

***


A polemica sobre os supostamente “poetas mediocres” continuou e dos varios artigos de opiniao que sobre ela recebi, destaco os que se seguem.


Wilson Dada, introdu-la assim na sua Kuluna semanal:

“O ambiente começa a ficar escaldante. O ambiente já é de facto de pré-campanha eleitoral. Cruzam-se as entrevistas. Chocam-se os colunistas. Trocam-se os galhardetes. Ninguém quer levar desaforos para casa, pois todos já temos problemas domésticos mais do que suficientes para acrescentarmos mais um. Estamos no território livre da opinião para todos os gostos e feitios em nome do direito à diferença que é fundamental, que é constitucional. A liberdade de expressão. A liberdade de crítica política, social, cultural, religiosa e desportiva, sem a qual a democracia não faz qualquer sentido. Todas estas liberdades manifestam-se, como sempre, no grande berço da humanidade que é a acolhedora liberdade de imprensa, sem a qual o debate público indispensável ao projecto democrático não seria possível.”

***

Laurindo Vieira expressa a sua opiniao no Jornal de Angola:

“Julgo que a comparação entre Agostinho Neto com outros poetas, feita por Agualusa e retomada por Sousa Jamba é patológica. Patológica porque toda a comparação que visa denegrir uns e valorizar outros não é comparação. A comparação deve resultar de uma perspectiva diferencial, ou seja, compreender o que cada um tem de diferente em relação ao outro e de que forma estas diferenças podem ser construtoras de sentidos epistemológicos ou de outra natureza. Gosto da poesia de Agostinho Neto, de Viriato da Cruz, tal como gosto da poesia de Manuel Alegre. São todas poesias lindas, mas diferentes, porque se os sonhos são diferentes, por que razão Agostinho Neto há-de ser igual a Philipp Larkin, Ted Hughes ou José Craveirinha?”

***

Luis Kandjimbo, no Semanario Angolense (SA), insere o debate num quadro analitico mais alargado:

“O debate sobre o cânone literário em Angola emerge pela primeira vez e ganha visibilidade pública a partir de 1997, por ocasião do Encontro Internacional sobre Literatura Angolana, realizado em Luanda, quando perante os argumentos de Pires Laranjeira, que identificava a coexistência em Angola de duas lutas por um novo cânone, rotulando-me como «fundamentalista negro» devido à minha leitura fundamentada do romance Yaka de Pepetela – no qual o autor esvazia o valor de determinada categoria de personagens referenciais – apresentei uma comunicação denunciando a existência de uma ideologia oculta na «escola de estudos literários africanos em Portugal» que faz a apologia da crioulidade e de um cânone literário de «escritores mestiços» de que dependeria o prestígio da Literatura Angolana.
(…)
No entanto, Angola não se assemelha em nada àquilo a que os luso-tropicalistas consideravam como sendo «o mundo que o português criou» de que resultariam as sobreditas «ilhas crioulas». De resto, estas não existem em Angola. As polémicas desencadeadas em torno da selecção de obras constitutivas de um conjunto a que se deu o nome de «Biblioteca da Literatura Angolana» e acerca da apreciação estética da obra poética de Agostinho Neto, António Jacinto e António Cardoso traduzem bem a existência de conflitualidade de teorias, estéticas e interpretações, revelando uma certa geopolítica do conhecimento, o lugar a partir do qual cada um produz o seu discurso.”


***

O Secretario Geral da UEA, Botelho de Vasconcelos, tambem disse de sua justica em entrevista ao SA:

"Quero deixar claro que não sou apologista de uma certa crítica publicada em certos órgãos que usaram expressões nada polidas e até sugeriam que por causa dessas declarações todos nós, principalmente o João Melo e o Mena Abrantes, o considerássemos como um «homem» sarnento. Mesmo nos actos mais graves da nossa vida social, os laços de amizade devem sempre fazer florir os gestos de solidariedade, porque é nos momentos «infelizes» que devemos contar com os ombros do próximo. Num dos textos deixaram passar respostas que utilizaram a maledicência para atingirem com pedras o confrade. Por essa via viciada, teríamos que usar mais pedras porque alguns confrades gostam desse exercício de escárnio e de falta de rigor e ética quando escrevem ou comentam os títulos dos seus confrades cujas obras sempre concorrerão para o enriquecimento da nossa literatura."

***

Para fechar com chave de ouro, tambem no SA, uma noticia ainda no dominio da cultura/literatura, um tanto agridoce pelo que evoca de saudades do Tio Aires, mas mais bonita que as anteriores, como ele certamente gostaria:

"A anciã Esperança Lima Coelho, a «Panchita», como é chamada por todos, que se diz ter sido a «musa» que, ao seu tempo, inspirou o poeta Aires de Almeida Santos a escrever o seu célebre poema «Meu Amor da Rua 11», faz 80 anos na próxima terça-feira, 25, sendo por isso alvo de uma homenagem da sociedade benguelense, onde é bem-querida, pela comemoração da data."
“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”


Manuel Alegre

***


A polemica sobre os supostamente “poetas mediocres” continuou e dos varios artigos de opiniao que sobre ela recebi, destaco os que se seguem.


Wilson Dada, introdu-la assim na sua Kuluna semanal:

“O ambiente começa a ficar escaldante. O ambiente já é de facto de pré-campanha eleitoral. Cruzam-se as entrevistas. Chocam-se os colunistas. Trocam-se os galhardetes. Ninguém quer levar desaforos para casa, pois todos já temos problemas domésticos mais do que suficientes para acrescentarmos mais um. Estamos no território livre da opinião para todos os gostos e feitios em nome do direito à diferença que é fundamental, que é constitucional. A liberdade de expressão. A liberdade de crítica política, social, cultural, religiosa e desportiva, sem a qual a democracia não faz qualquer sentido. Todas estas liberdades manifestam-se, como sempre, no grande berço da humanidade que é a acolhedora liberdade de imprensa, sem a qual o debate público indispensável ao projecto democrático não seria possível.”

***

Laurindo Vieira expressa a sua opiniao no Jornal de Angola:

“Julgo que a comparação entre Agostinho Neto com outros poetas, feita por Agualusa e retomada por Sousa Jamba é patológica. Patológica porque toda a comparação que visa denegrir uns e valorizar outros não é comparação. A comparação deve resultar de uma perspectiva diferencial, ou seja, compreender o que cada um tem de diferente em relação ao outro e de que forma estas diferenças podem ser construtoras de sentidos epistemológicos ou de outra natureza. Gosto da poesia de Agostinho Neto, de Viriato da Cruz, tal como gosto da poesia de Manuel Alegre. São todas poesias lindas, mas diferentes, porque se os sonhos são diferentes, por que razão Agostinho Neto há-de ser igual a Philipp Larkin, Ted Hughes ou José Craveirinha?”

***

Luis Kandjimbo, no Semanario Angolense (SA), insere o debate num quadro analitico mais alargado:

“O debate sobre o cânone literário em Angola emerge pela primeira vez e ganha visibilidade pública a partir de 1997, por ocasião do Encontro Internacional sobre Literatura Angolana, realizado em Luanda, quando perante os argumentos de Pires Laranjeira, que identificava a coexistência em Angola de duas lutas por um novo cânone, rotulando-me como «fundamentalista negro» devido à minha leitura fundamentada do romance Yaka de Pepetela – no qual o autor esvazia o valor de determinada categoria de personagens referenciais – apresentei uma comunicação denunciando a existência de uma ideologia oculta na «escola de estudos literários africanos em Portugal» que faz a apologia da crioulidade e de um cânone literário de «escritores mestiços» de que dependeria o prestígio da Literatura Angolana.
(…)
No entanto, Angola não se assemelha em nada àquilo a que os luso-tropicalistas consideravam como sendo «o mundo que o português criou» de que resultariam as sobreditas «ilhas crioulas». De resto, estas não existem em Angola. As polémicas desencadeadas em torno da selecção de obras constitutivas de um conjunto a que se deu o nome de «Biblioteca da Literatura Angolana» e acerca da apreciação estética da obra poética de Agostinho Neto, António Jacinto e António Cardoso traduzem bem a existência de conflitualidade de teorias, estéticas e interpretações, revelando uma certa geopolítica do conhecimento, o lugar a partir do qual cada um produz o seu discurso.”


***

O Secretario Geral da UEA, Botelho de Vasconcelos, tambem disse de sua justica em entrevista ao SA:

"Quero deixar claro que não sou apologista de uma certa crítica publicada em certos órgãos que usaram expressões nada polidas e até sugeriam que por causa dessas declarações todos nós, principalmente o João Melo e o Mena Abrantes, o considerássemos como um «homem» sarnento. Mesmo nos actos mais graves da nossa vida social, os laços de amizade devem sempre fazer florir os gestos de solidariedade, porque é nos momentos «infelizes» que devemos contar com os ombros do próximo. Num dos textos deixaram passar respostas que utilizaram a maledicência para atingirem com pedras o confrade. Por essa via viciada, teríamos que usar mais pedras porque alguns confrades gostam desse exercício de escárnio e de falta de rigor e ética quando escrevem ou comentam os títulos dos seus confrades cujas obras sempre concorrerão para o enriquecimento da nossa literatura."

***

Para fechar com chave de ouro, tambem no SA, uma noticia ainda no dominio da cultura/literatura, um tanto agridoce pelo que evoca de saudades do Tio Aires, mas mais bonita que as anteriores, como ele certamente gostaria:

"A anciã Esperança Lima Coelho, a «Panchita», como é chamada por todos, que se diz ter sido a «musa» que, ao seu tempo, inspirou o poeta Aires de Almeida Santos a escrever o seu célebre poema «Meu Amor da Rua 11», faz 80 anos na próxima terça-feira, 25, sendo por isso alvo de uma homenagem da sociedade benguelense, onde é bem-querida, pela comemoração da data."

Friday, 21 March 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (2)

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”


Manuel Alegre






in Jornal de Angola, 20/03/08
[Clique na imagem para a ampliar]


OUTRAS REACCOES:


'O Comerciante Desalmado'
Agostinho Neto guiou o seu povo pelo caminho das estrelas. Que outro poeta na História Universal libertou a sua pátria com poemas e fuzis? A grandeza da obra literária de Agostinho Neto foi reconhecida em todo o mundo por académicos, professores, críticos literários e confrades.
Artur Queiroz, in Jornal de Angola, 18/03/08 (aqui)


'O Marketing Tem Dessas'
Escrevi e repito, que Agostinho Neto foi um extraordinário Poeta. Volto a dizê-lo. O Poeta da Libertação, o fundador com alguns de nós, da UEA, que dele não diz. Sou portanto, inapelavelmente, um total e irrecuperável ignorante de poesia...
Ndunduma, in Jornal de Angola, 21/03/08 (aqui)


'Em Defesa do José Eduardo Agualusa'
Um tal jornalista de nome Artur Queiroz atacou o Agualusa no Jornal de Angola de uma forma tão grosseira que reduz o que deveria ser um debate serio sobre a nossa herança cultural Angolana á uma briga entre bêbados num botequim. Eu admiro bastante o José Eduardo Agualusa que, sem duvida, deve ser o escritor mais serio da nossa geração; a sua capacidade de trabalho e determinação em sobreviver como escritor é impressionante. Lamento é o facto de ele não ter ido recentemente a nossa cidade natal do Huambo aonde tem havido muitas mudanças.
Sousa Jamba, in Semanario Angolense, 22/03/08 (aqui)


'Resposta de Artur Queiroz a Sousa Jamba'
Sousa Jamba quer que eu discuta a herança cultural dos angolanos com quem não tem nada a ver com a cultura ou as culturas de Angola. E Agualusa não tem.
Falta-lhe lastro e memória. Vivência. Estudo. Sentimento. Afinal falta-lhe tudo. É muito grave não é? Os colonialistas usaram sempre a arma da memória para imporem os seus valores e apagarem os nossos. Agualusa aprendeu a lição. Para ele, a Literatura Angolana começou no dia em que foi publicado o seu primeiro livro. Quando muito, o primeiro livro de Sousa Jamba. É uma táctica que os nazis adoptaram e dela abusaram. A Alemanha começou no dia em Hitler subiu ao Poder. O salazarismo fez o mesmo. Angola sem os portugueses nunca existiu.
Artur Queiroz, ao Semanario Angolense, 22/03/08 (aqui)
“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”


Manuel Alegre






in Jornal de Angola, 20/03/08
[Clique na imagem para a ampliar]


OUTRAS REACCOES:


'O Comerciante Desalmado'
Agostinho Neto guiou o seu povo pelo caminho das estrelas. Que outro poeta na História Universal libertou a sua pátria com poemas e fuzis? A grandeza da obra literária de Agostinho Neto foi reconhecida em todo o mundo por académicos, professores, críticos literários e confrades.
Artur Queiroz, in Jornal de Angola, 18/03/08 (aqui)


'O Marketing Tem Dessas'
Escrevi e repito, que Agostinho Neto foi um extraordinário Poeta. Volto a dizê-lo. O Poeta da Libertação, o fundador com alguns de nós, da UEA, que dele não diz. Sou portanto, inapelavelmente, um total e irrecuperável ignorante de poesia...
Ndunduma, in Jornal de Angola, 21/03/08 (aqui)


'Em Defesa do José Eduardo Agualusa'
Um tal jornalista de nome Artur Queiroz atacou o Agualusa no Jornal de Angola de uma forma tão grosseira que reduz o que deveria ser um debate serio sobre a nossa herança cultural Angolana á uma briga entre bêbados num botequim. Eu admiro bastante o José Eduardo Agualusa que, sem duvida, deve ser o escritor mais serio da nossa geração; a sua capacidade de trabalho e determinação em sobreviver como escritor é impressionante. Lamento é o facto de ele não ter ido recentemente a nossa cidade natal do Huambo aonde tem havido muitas mudanças.
Sousa Jamba, in Semanario Angolense, 22/03/08 (aqui)


'Resposta de Artur Queiroz a Sousa Jamba'
Sousa Jamba quer que eu discuta a herança cultural dos angolanos com quem não tem nada a ver com a cultura ou as culturas de Angola. E Agualusa não tem.
Falta-lhe lastro e memória. Vivência. Estudo. Sentimento. Afinal falta-lhe tudo. É muito grave não é? Os colonialistas usaram sempre a arma da memória para imporem os seus valores e apagarem os nossos. Agualusa aprendeu a lição. Para ele, a Literatura Angolana começou no dia em que foi publicado o seu primeiro livro. Quando muito, o primeiro livro de Sousa Jamba. É uma táctica que os nazis adoptaram e dela abusaram. A Alemanha começou no dia em Hitler subiu ao Poder. O salazarismo fez o mesmo. Angola sem os portugueses nunca existiu.
Artur Queiroz, ao Semanario Angolense, 22/03/08 (aqui)

Monday, 11 June 2007

AGORA LUANDA

Chega-me noticia de que o livro Agora Luanda, com fotografias de Ines Goncalves e Kiluanje Liberdade e textos de Jose Eduardo Agualusa e Delfim Sardo, recentemente publicado pela editora portuguesa Almedina, serviu de base a um documentario entitulado “Mae Ju” e a uma exposicao fotografica nas instalacoes do Centro Cutural Portugues de Luanda.



“Hoje, misturam-se pelas ruas de Luanda o umbundo oblongo dos ovimbundos. O lingala (língua que nasceu para ser cantada) e o francês arranhado dos regrês. O português afinado dos burgueses. O surdo português dos portugueses. O raro quimbundo das derradeiras bessanganas. A isso junte-se, com os novos tempos, uma pitada do mandarim elíptico dos chineses, um cheiro a especiarias do árabe solar dos libaneses; e ainda alguns vocábulos em hebreu ressuscitado, (...), colhidos sem pressa nas manhãs de domingo, em alguns dos mais sofisticados bares da Ilha. Mais o inglês, em tons sortidos, de ingleses, americanos e sul-africanos. O português feliz dos brasileiros. O espanhol encantado de um outro cubano que ficou para trás. E toda esta gente movendo-se pelos passeios, acotovelando-se nas esquinas, numa espécie de jogo universal da cabra-cega. Moços líricos. Moças tísicas. Empresas de esperança privada”, escreve Jose Eduardo Agualusa neste livro.

Chega-me noticia de que o livro Agora Luanda, com fotografias de Ines Goncalves e Kiluanje Liberdade e textos de Jose Eduardo Agualusa e Delfim Sardo, recentemente publicado pela editora portuguesa Almedina, serviu de base a um documentario entitulado “Mae Ju” e a uma exposicao fotografica nas instalacoes do Centro Cutural Portugues de Luanda.



“Hoje, misturam-se pelas ruas de Luanda o umbundo oblongo dos ovimbundos. O lingala (língua que nasceu para ser cantada) e o francês arranhado dos regrês. O português afinado dos burgueses. O surdo português dos portugueses. O raro quimbundo das derradeiras bessanganas. A isso junte-se, com os novos tempos, uma pitada do mandarim elíptico dos chineses, um cheiro a especiarias do árabe solar dos libaneses; e ainda alguns vocábulos em hebreu ressuscitado, (...), colhidos sem pressa nas manhãs de domingo, em alguns dos mais sofisticados bares da Ilha. Mais o inglês, em tons sortidos, de ingleses, americanos e sul-africanos. O português feliz dos brasileiros. O espanhol encantado de um outro cubano que ficou para trás. E toda esta gente movendo-se pelos passeios, acotovelando-se nas esquinas, numa espécie de jogo universal da cabra-cega. Moços líricos. Moças tísicas. Empresas de esperança privada”, escreve Jose Eduardo Agualusa neste livro.

Thursday, 3 May 2007

ANGOLAN AUTHOR AWARDED LITERARY PRIZE IN LONDON


"The Book of Chameleons", by Angolan journalist and author Jose Eduardo Agualusa, has won this year's “Independent Foreign Fiction Prize” by the London newspaper The Independent.

The author shares the £10,000 prize money with translator Daniel Hahn.
The prize celebrates a novel that has been translated into English and published in the UK in the past year.

(MAIS DETALHES AQUI)

"The Book of Chameleons", by Angolan journalist and author Jose Eduardo Agualusa, has won this year's “Independent Foreign Fiction Prize” by the London newspaper The Independent.

The author shares the £10,000 prize money with translator Daniel Hahn.
The prize celebrates a novel that has been translated into English and published in the UK in the past year.

(MAIS DETALHES AQUI)

Tuesday, 20 March 2007

CORACAO DOS BOSQUES




"CORACAO DOS BOSQUES" de Jose Eduardo Agualusa EM 'BOOKS OF LIFE'


E’ assim nos bosques: ha' olhares que se espreitam por entre folhagens... bocas que se desdizem por entre o oco dos troncos... coracoes que se desdobram por entre o vazio dos corpos... maos que se tocam por entre intersticios de alma... sombras que se atropelam por entre luzes difusas... passos que se entrecruzam por entre picadas esconsas... sons que se sussurram por entre palavras indiziveis... aguas que se separam por entre caminhos do rio. Coracoes. E’ assim.
(A.S. Mar 20, 07)

Coracao dos Bosques (1991): consta da obra de Jose’ Eduardo Agualusa como o seu unico volume de poesia. Foi-me dedicado. Por isso o seu lugar em ‘Books of Life’.





“A poesia acerta mais que a ciência. Na natureza, por exemplo, a beleza é utilitária, isto é, não existe no universo fulgor sem serventia. Se os cientistas fossem à procura da beleza ao invés da funcionalidade chegariam mais depressa à funcionalidade.”

José Eduardo Agualusa
(“Discurso sobre o fulgor da língua” in “Catálogo de sombras”)


Uma Voz Que Canta Convoca A Terra Perdida

Uma voz que canta convoca a terra perdida.
Quase em surdina, evoca os secretos lugares
da infância;
o sítio onde pousavam os pássaros
o quintal cheio de estórias
e - lembras-te?- a tarde em chamas.

A voz murmura:
O exílio é onde nada se recorda de ti
Nada te diz:
sou teu/és meu




O Homem Que Vinha Ao Entardecer

(Ouvindo “Sonho de Um Camponês”, por Teta Lando)

Falava com devagar, ajeitando
as palavras. Falava com cuidado,
houvesse lume entre as palavras.

Chegava ao entardecer, os sapatos
cheios de terra vermelha e do perfume
dos matos.

Cumpria rigorosamente os rituais.

Batia primeiro as palmas (junto
ao peito)

Depois falava.
Dos bois, das lavras, das coisas
simples do seu dia-a-dia. E todavia
era tal o mistério das tardes quando
assim falava
que doía.



Os Rios Atónitos

(Ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba)


Há palavras a dormir sobre o seu largo
assombro
Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo
é como se houvesse pronunciado os próprios
rios
Ou seja, as águas
pesadas de lama, os peixes todos e os perigos
inumeráveis
O musgo das margens, o escuro
mistério em movimento.

Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre
Lento
em tua boca.

Dizes Quanza
e o ar se preenche de perfumes perplexos.

E dizes Congo
e onde o dizes há grandes aves
e súbitos sons redondos e convexos.

E dizes Quanza, ou dizes Congo
e sempre que o dizes acorda em torno
um turbilhão de águas:
a vida, em seu inteiro e infinito assombro.




"CORACAO DOS BOSQUES" de Jose Eduardo Agualusa EM 'BOOKS OF LIFE'


E’ assim nos bosques: ha' olhares que se espreitam por entre folhagens... bocas que se desdizem por entre o oco dos troncos... coracoes que se desdobram por entre o vazio dos corpos... maos que se tocam por entre intersticios de alma... sombras que se atropelam por entre luzes difusas... passos que se entrecruzam por entre picadas esconsas... sons que se sussurram por entre palavras indiziveis... aguas que se separam por entre caminhos do rio. Coracoes. E’ assim.
(A.S. Mar 20, 07)

Coracao dos Bosques (1991): consta da obra de Jose’ Eduardo Agualusa como o seu unico volume de poesia. Foi-me dedicado. Por isso o seu lugar em ‘Books of Life’.





“A poesia acerta mais que a ciência. Na natureza, por exemplo, a beleza é utilitária, isto é, não existe no universo fulgor sem serventia. Se os cientistas fossem à procura da beleza ao invés da funcionalidade chegariam mais depressa à funcionalidade.”

José Eduardo Agualusa
(“Discurso sobre o fulgor da língua” in “Catálogo de sombras”)


Uma Voz Que Canta Convoca A Terra Perdida

Uma voz que canta convoca a terra perdida.
Quase em surdina, evoca os secretos lugares
da infância;
o sítio onde pousavam os pássaros
o quintal cheio de estórias
e - lembras-te?- a tarde em chamas.

A voz murmura:
O exílio é onde nada se recorda de ti
Nada te diz:
sou teu/és meu




O Homem Que Vinha Ao Entardecer

(Ouvindo “Sonho de Um Camponês”, por Teta Lando)

Falava com devagar, ajeitando
as palavras. Falava com cuidado,
houvesse lume entre as palavras.

Chegava ao entardecer, os sapatos
cheios de terra vermelha e do perfume
dos matos.

Cumpria rigorosamente os rituais.

Batia primeiro as palmas (junto
ao peito)

Depois falava.
Dos bois, das lavras, das coisas
simples do seu dia-a-dia. E todavia
era tal o mistério das tardes quando
assim falava
que doía.



Os Rios Atónitos

(Ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba)


Há palavras a dormir sobre o seu largo
assombro
Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo
é como se houvesse pronunciado os próprios
rios
Ou seja, as águas
pesadas de lama, os peixes todos e os perigos
inumeráveis
O musgo das margens, o escuro
mistério em movimento.

Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre
Lento
em tua boca.

Dizes Quanza
e o ar se preenche de perfumes perplexos.

E dizes Congo
e onde o dizes há grandes aves
e súbitos sons redondos e convexos.

E dizes Quanza, ou dizes Congo
e sempre que o dizes acorda em torno
um turbilhão de águas:
a vida, em seu inteiro e infinito assombro.