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Friday, 25 April 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (7)


Eu nao disse que o 'kibeto' ia continuar?
Na continuacao da ja' tristemente celebre Maka de 1 Jose' contra 3 Antonios, este fim de semana poderao encontrar no SA duas replicas 'a ultima replica de Agualusa...


Luis Kandjimbo, em "A TRADIÇÃO LITERÁRIA ANGOLANA E O GRAU ZERO DA MEMÓRIA DE UM ESCRITOR":


Que motivação subjaz à exaltação dos estudos clássicos de Leopold Senghor realizados na Universidade da Sorbonne, quando se esquece que, nas décadas de 40 e 50, Agostinho Neto foi dos primeiros negros angolanos a realizar os seus estudos de Medicina nas Universidades de Coimbra e de Lisboa? Ou será porque a alusão que Senghor faz à origem portuguesa do nome e à gota de sangue português representa uma virtude luso-tropical? Vê-se logo que o suposto juízo estético sobre a poesia de Agostinho Neto resvala para um registo biografista com laivos deterministas sem relevância crítica.
(...)
Afirmar que Agostinho Neto (1922-1979) foi um político que frequentou a poesia e Senghor (1906-2001) um poeta que frequentou a política é, na verdade, um trocadilho que constitui o cúmulo da bazófia. Conhecendo bem as literaturas africanas de língua francesa e inglesa, considero que semelhantes afirmações revelam a mais desbragada irresponsabilidade do acto judicativo e hermenêutico. Por isso, tenho dúvidas que quem assim pensa, conheça verdadeiramente as trajectórias biográficas dos dois escritores mencionados.
(...)
Como compreender que (JE Agualusa) venha emitir juízos estéticos depreciativos acerca de três poetas angolanos importantes, revelando pertencer a uma tradição literária universal? Como se explica que ganhe fortuna crítica em nome da tradição literária angolana cuja existência nega com frequência, tal como fez mais recentemente numa entrevista concedida ao conhecido humorista brasileiro Jô Soares?

[Aqui]


Adriano dos Santos Junior, em "O SEU A SEU DONO":

O que não estamos de acordo é com o fundamento de Agualusa, segundo o qual Leopold Senghor tenha sido um grande poeta por ter ido beber à fonte da Grécia Antiga para além das tradições africanas, ter estudado na Sorbonne, ter tido orgulho pela sua «gota de sangue português», evocada num dos seus grandes poemas transcritos por Agualusa, e ter publicado onze livros, enquanto que Agostinho Neto não poderia ser um grande poeta porque não teria ido beber à bica da Grécia antiga, não passou pela Sorbonne e não publicou assim tantos livros. Para nós Leopold Senghor e Agostinho Neto foram grandes poetas pelas suas obras, independentemente dos santuários do saber que tenha frequentado ou visitado.
Por mais que devamos incentivar os nossos literatos a produzirem muito e terem o máximo apego à Cultura quer seja clássica ou tradicional, não nos podemos esquecer que o Poeta nasce e o Erudito faz-se. Há Poetas analfabetos e Eruditos incapazes de engendrar um poema. Por outro lado, os critérios para a classificação de escritores, poetas, contistas, romancistas, etc., não têm como factor essencial a quantidade de obras publicadas nem o número de versos ou de páginas das mesmas, mas sim a sua qualidade. Existem poetas de um poema só, contistas de um conto só e romancistas de um só romance. Embora possam ser excepções, literaturas relevantes de vários povos e em diversas épocas, registam casos em que autores de uma só obra integram as mesmas galerias que as de outros mais fecundos e com todo o merecimento.
(...)
«…Talvez se justifique aqui acrescentar, para concluir, que gosto muito de escutar os versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas. Gosto deles, como centenas de milhares de angolanos, devido à arte de Rui Mingas e também porque fazem parte do meu imaginário, e isto independentemente da sua qualidade literária…», revela Agualusa. A nosso ver, a beleza e o sucesso dos versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas, que o nosso grande escritor adora escutar, não depende apenas da intervenção do genial compositor; Agualusa atribui todo mérito a Rui Mingas porque se recusa a perceber que os poemas de Agostinho Neto, por si sós, têm uma musicalidade intrínseca, «uma melodia silenciosa», como diria o poeta João Maimona referindo-se à poesia de António Jacinto. Interagindo e complementando-se, os talentos do poeta e do cancionista produziram as maravilhas que encantam até os desafectos.

[Aqui]


“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

Eu nao disse que o 'kibeto' ia continuar?
Na continuacao da ja' tristemente celebre Maka de 1 Jose' contra 3 Antonios, este fim de semana poderao encontrar no SA duas replicas 'a ultima replica de Agualusa...


Luis Kandjimbo, em "A TRADIÇÃO LITERÁRIA ANGOLANA E O GRAU ZERO DA MEMÓRIA DE UM ESCRITOR":


Que motivação subjaz à exaltação dos estudos clássicos de Leopold Senghor realizados na Universidade da Sorbonne, quando se esquece que, nas décadas de 40 e 50, Agostinho Neto foi dos primeiros negros angolanos a realizar os seus estudos de Medicina nas Universidades de Coimbra e de Lisboa? Ou será porque a alusão que Senghor faz à origem portuguesa do nome e à gota de sangue português representa uma virtude luso-tropical? Vê-se logo que o suposto juízo estético sobre a poesia de Agostinho Neto resvala para um registo biografista com laivos deterministas sem relevância crítica.
(...)
Afirmar que Agostinho Neto (1922-1979) foi um político que frequentou a poesia e Senghor (1906-2001) um poeta que frequentou a política é, na verdade, um trocadilho que constitui o cúmulo da bazófia. Conhecendo bem as literaturas africanas de língua francesa e inglesa, considero que semelhantes afirmações revelam a mais desbragada irresponsabilidade do acto judicativo e hermenêutico. Por isso, tenho dúvidas que quem assim pensa, conheça verdadeiramente as trajectórias biográficas dos dois escritores mencionados.
(...)
Como compreender que (JE Agualusa) venha emitir juízos estéticos depreciativos acerca de três poetas angolanos importantes, revelando pertencer a uma tradição literária universal? Como se explica que ganhe fortuna crítica em nome da tradição literária angolana cuja existência nega com frequência, tal como fez mais recentemente numa entrevista concedida ao conhecido humorista brasileiro Jô Soares?

[Aqui]


Adriano dos Santos Junior, em "O SEU A SEU DONO":

O que não estamos de acordo é com o fundamento de Agualusa, segundo o qual Leopold Senghor tenha sido um grande poeta por ter ido beber à fonte da Grécia Antiga para além das tradições africanas, ter estudado na Sorbonne, ter tido orgulho pela sua «gota de sangue português», evocada num dos seus grandes poemas transcritos por Agualusa, e ter publicado onze livros, enquanto que Agostinho Neto não poderia ser um grande poeta porque não teria ido beber à bica da Grécia antiga, não passou pela Sorbonne e não publicou assim tantos livros. Para nós Leopold Senghor e Agostinho Neto foram grandes poetas pelas suas obras, independentemente dos santuários do saber que tenha frequentado ou visitado.
Por mais que devamos incentivar os nossos literatos a produzirem muito e terem o máximo apego à Cultura quer seja clássica ou tradicional, não nos podemos esquecer que o Poeta nasce e o Erudito faz-se. Há Poetas analfabetos e Eruditos incapazes de engendrar um poema. Por outro lado, os critérios para a classificação de escritores, poetas, contistas, romancistas, etc., não têm como factor essencial a quantidade de obras publicadas nem o número de versos ou de páginas das mesmas, mas sim a sua qualidade. Existem poetas de um poema só, contistas de um conto só e romancistas de um só romance. Embora possam ser excepções, literaturas relevantes de vários povos e em diversas épocas, registam casos em que autores de uma só obra integram as mesmas galerias que as de outros mais fecundos e com todo o merecimento.
(...)
«…Talvez se justifique aqui acrescentar, para concluir, que gosto muito de escutar os versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas. Gosto deles, como centenas de milhares de angolanos, devido à arte de Rui Mingas e também porque fazem parte do meu imaginário, e isto independentemente da sua qualidade literária…», revela Agualusa. A nosso ver, a beleza e o sucesso dos versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas, que o nosso grande escritor adora escutar, não depende apenas da intervenção do genial compositor; Agualusa atribui todo mérito a Rui Mingas porque se recusa a perceber que os poemas de Agostinho Neto, por si sós, têm uma musicalidade intrínseca, «uma melodia silenciosa», como diria o poeta João Maimona referindo-se à poesia de António Jacinto. Interagindo e complementando-se, os talentos do poeta e do cancionista produziram as maravilhas que encantam até os desafectos.

[Aqui]


“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

Friday, 2 November 2007

DE PAULO LARA, UM TESTEMUNHO PARA A HISTORIA: CHE E ANGOLA

E’ com enorme prazer que tenho a honra de publicar aqui hoje, em primeira mao, um documento unico e exclusivo: as memorias de Paulo Lara sobre o encontro de Che Guevara com Agostinho Neto, Lucio Lara e outros dirigentes do MPLA, que marcou, em 1965, o inicio das relacoes entre Cuba e Angola. Trata-se de um testemunho pessoal, relatado com a sensibilidade e profundidade analitica proprias de quem, tendo observado, vivido e sentido momentos impares da Historia de Angola, de Africa e do Mundo, nao deixa, contudo, que ao seu olhar sobre eles falte objectividade e sentido critico.
Nao menos importante, este documento, contendo fotografias ineditas, constitui tambem um crucial instrumento corrector de alguns estabelecidos relatos historicos que pecarao por vicio de imprecisao e/ou distorcao dos factos em causa. Enfim, sem mais delongas de minha parte, aqui ficam as suas proprias palavras:


Há 40 anos desapareceu uma figura que se tornou lendária no mundo inteiro. Na linguagem agora em voga, poderíamos até dizer “globalizada”. Mas, para os angolanos, não se trata simplesmente desta figura que vemos passar colada aos carros, em algumas bandeiras ou nas tatuagens agora na moda em alguns jovens. Trata-se sobretudo daquele que protagonizou as primeiras relações oficiais entre o Estado Cubano e um Movimento de Libertação Angolano. Tendo sido, com muitos outros, um mero assistente do encontro em Brazzaville, a pedido de alguns amigos, decidi-me a fazer este pequeno relato testemunhando alguns momentos da visita de Ché Guevara à delegação do MPLA naquela cidade, num dos primeiros dias do mês de Janeiro de 1965.


Ao invés de visões sensacionalistas, ideológicas ou imaginativas que têm caracterizado algumas referências feitas ao revolucionário cubano-argentino, procurou-se relatar aqui um momento histórico que ligou aquela figura ao continente africano, e mais particularmente a Angola. Figura extremamente polémica no seio do movimento revolucionário mundial em meados do século passado, Ché Guevara não deixou de ser aquele que estabeleceu as relações diplomáticas de Cuba com vários actores internacionais africanos (e não só), sendo estes, Estados ou Movimentos de Libertação.


Para um melhor entendimento daquele período, e para estimular o interesse à leitura e o estudo da nossa história e não só, incluímos a visão de dois protagonistas e de um historiador. O de Jorge Risquet, que foi o primeiro responsável do destacamento cubano que seguiu para o Congo Brazzaville donde sairiam alguns instrutores para treinar os angolanos, e que posteriormente viria a ser o chefe da missão cubana na República Popular de Angola, que resumidamente explica os principais contactos feitos por Ché no Congo. O do historiador americano Piero Gleijeses que teve acesso a diferentes fontes abertas e ainda confidenciais sobre as relações de Cuba com o continente africano, que se refere ao possível conteúdo do encontro tido, bem como a uma polémica visita realizada a uma base guerrilheira do MPLA por Jorge Serguera, primeiro embaixador cubano na Argélia e que acompanhou Guevara durante parte do seu recorrido africano, cujo relatório teria levado a uma avaliação incorrecta de Cuba sobre as verdadeiras capacidades do movimento nacionalista. Inserimos aqui um contributo nosso baseado em alguns documentos e entrevistas em torno desta visita.


O extracto do relatório de Ché Guevara, elaborado depois da sua retirada das matas congolesas da região dos Grandes Lagos, permite apreciar a ideia geopolítica que tinha para aquela parte do continente africano.
Com base nos dados actualmente existentes, incluímos uma cronologia de contactos havidos entre angolanos e cubanos, no quadro da luta nacionalista, antes do encontro oficial de Brazzaville. A efectivação de um provável encontro entre Ché Guevara e Savimbi durante o seu famoso périplo africano tem sido motivo de referência por alguns historiadores. Achamos oportuno inserir uma análise de Jorge Risquet em que demonstra a grande improbabilidade do mesmo se ter realizado.

Paulo Lara
Luanda 8 de Outubro de 2007


© COPYRIGHT PAULO LARA E CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO TCHIWEKA. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.

(Obrigada Paulo)


{Continue a ler aqui: Parte I e Parte II}

E’ com enorme prazer que tenho a honra de publicar aqui hoje, em primeira mao, um documento unico e exclusivo: as memorias de Paulo Lara sobre o encontro de Che Guevara com Agostinho Neto, Lucio Lara e outros dirigentes do MPLA, que marcou, em 1965, o inicio das relacoes entre Cuba e Angola. Trata-se de um testemunho pessoal, relatado com a sensibilidade e profundidade analitica proprias de quem, tendo observado, vivido e sentido momentos impares da Historia de Angola, de Africa e do Mundo, nao deixa, contudo, que ao seu olhar sobre eles falte objectividade e sentido critico.
Nao menos importante, este documento, contendo fotografias ineditas, constitui tambem um crucial instrumento corrector de alguns estabelecidos relatos historicos que pecarao por vicio de imprecisao e/ou distorcao dos factos em causa. Enfim, sem mais delongas de minha parte, aqui ficam as suas proprias palavras:


Há 40 anos desapareceu uma figura que se tornou lendária no mundo inteiro. Na linguagem agora em voga, poderíamos até dizer “globalizada”. Mas, para os angolanos, não se trata simplesmente desta figura que vemos passar colada aos carros, em algumas bandeiras ou nas tatuagens agora na moda em alguns jovens. Trata-se sobretudo daquele que protagonizou as primeiras relações oficiais entre o Estado Cubano e um Movimento de Libertação Angolano. Tendo sido, com muitos outros, um mero assistente do encontro em Brazzaville, a pedido de alguns amigos, decidi-me a fazer este pequeno relato testemunhando alguns momentos da visita de Ché Guevara à delegação do MPLA naquela cidade, num dos primeiros dias do mês de Janeiro de 1965.


Ao invés de visões sensacionalistas, ideológicas ou imaginativas que têm caracterizado algumas referências feitas ao revolucionário cubano-argentino, procurou-se relatar aqui um momento histórico que ligou aquela figura ao continente africano, e mais particularmente a Angola. Figura extremamente polémica no seio do movimento revolucionário mundial em meados do século passado, Ché Guevara não deixou de ser aquele que estabeleceu as relações diplomáticas de Cuba com vários actores internacionais africanos (e não só), sendo estes, Estados ou Movimentos de Libertação.


Para um melhor entendimento daquele período, e para estimular o interesse à leitura e o estudo da nossa história e não só, incluímos a visão de dois protagonistas e de um historiador. O de Jorge Risquet, que foi o primeiro responsável do destacamento cubano que seguiu para o Congo Brazzaville donde sairiam alguns instrutores para treinar os angolanos, e que posteriormente viria a ser o chefe da missão cubana na República Popular de Angola, que resumidamente explica os principais contactos feitos por Ché no Congo. O do historiador americano Piero Gleijeses que teve acesso a diferentes fontes abertas e ainda confidenciais sobre as relações de Cuba com o continente africano, que se refere ao possível conteúdo do encontro tido, bem como a uma polémica visita realizada a uma base guerrilheira do MPLA por Jorge Serguera, primeiro embaixador cubano na Argélia e que acompanhou Guevara durante parte do seu recorrido africano, cujo relatório teria levado a uma avaliação incorrecta de Cuba sobre as verdadeiras capacidades do movimento nacionalista. Inserimos aqui um contributo nosso baseado em alguns documentos e entrevistas em torno desta visita.


O extracto do relatório de Ché Guevara, elaborado depois da sua retirada das matas congolesas da região dos Grandes Lagos, permite apreciar a ideia geopolítica que tinha para aquela parte do continente africano.
Com base nos dados actualmente existentes, incluímos uma cronologia de contactos havidos entre angolanos e cubanos, no quadro da luta nacionalista, antes do encontro oficial de Brazzaville. A efectivação de um provável encontro entre Ché Guevara e Savimbi durante o seu famoso périplo africano tem sido motivo de referência por alguns historiadores. Achamos oportuno inserir uma análise de Jorge Risquet em que demonstra a grande improbabilidade do mesmo se ter realizado.

Paulo Lara
Luanda 8 de Outubro de 2007

© COPYRIGHT PAULO LARA E CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO TCHIWEKA. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.

(Obrigada Paulo)


{Continue a ler aqui: Parte I e Parte II}