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Sunday, 7 February 2010

A Tarefa de Substituir JES (II)



Dizia aqui no outro dia que "substituir JES nao e’ tarefa facil"… "Desde logo porque o corrente embroglio politico-constitucional (aparentemente de sua inteira criacao) a torna mais complexa do que ja’ o seria por natureza."

Pois bem, o dito embroglio entretanto foi resolvido como e’ do conhecimento geral (dizem algumas mas linguas que em perfeito "timming" - como alguns fazem muita questao de escrever -, enquanto o povo era entretido com "bailes de mascaras", "can-cans" e "fogos de artificio" - mas ja' diziam outras mas linguas que "o futebol e' o opio do povo", nao e'?...), num desfecho (que tambem poderia ser lido como os "dois passos a retaguarda" a que aqui me referia) que vem provocando as mais diversas reaccoes – desde acusacoes de “golpe de estado constitucional” ou “palaciano” a apelos ao sempre prestavel "patriotismo" dos cidadaos para que o aceitem incondicionalmente.

A tal desfecho seguiram-se uma serie de decisoes em catadupa, das quais se destacam a nomeacao de um novo governo, de um Vice-Presidente (tomado ‘putativamente’ como substituto de JES) e do anuncio de eleicoes gerais para 2012.

Pois… olhem, se por aqui ainda estiver nessa altura, talvez volte a esta serie que aqui dou por suspensa e adiada sine die. Por enquanto, ainda estou naquela do “nao, ou a va gloria de (nao) mandar”

[Para outros olhares sobre esta questao, ver aqui]


Dizia aqui no outro dia que "substituir JES nao e’ tarefa facil"… "Desde logo porque o corrente embroglio politico-constitucional (aparentemente de sua inteira criacao) a torna mais complexa do que ja’ o seria por natureza."

Pois bem, o dito embroglio entretanto foi resolvido como e’ do conhecimento geral (dizem algumas mas linguas que em perfeito "timming" - como alguns fazem muita questao de escrever -, enquanto o povo era entretido com "bailes de mascaras", "can-cans" e "fogos de artificio" - mas ja' diziam outras mas linguas que "o futebol e' o opio do povo", nao e'?...), num desfecho (que tambem poderia ser lido como os "dois passos a retaguarda" a que aqui me referia) que vem provocando as mais diversas reaccoes – desde acusacoes de “golpe de estado constitucional” ou “palaciano” a apelos ao sempre prestavel "patriotismo" dos cidadaos para que o aceitem incondicionalmente.

A tal desfecho seguiram-se uma serie de decisoes em catadupa, das quais se destacam a nomeacao de um novo governo, de um Vice-Presidente (tomado ‘putativamente’ como substituto de JES) e do anuncio de eleicoes gerais para 2012.

Pois… olhem, se por aqui ainda estiver nessa altura, talvez volte a esta serie que aqui dou por suspensa e adiada sine die. Por enquanto, ainda estou naquela do “nao, ou a va gloria de (nao) mandar”

[Para outros olhares sobre esta questao, ver aqui]

Monday, 9 November 2009

VIRIATO DA CRUZ




AQUELE POR QUEM (INICIALMENTE) SE ESPERAVA...




«As leis do condicionamento industrial e as pautas aduaneiras dos industriais de Portugal, freando a actividade dos industriais de Angola. Existe um controlo absoluto em toda a industria e todo o comércio de Angola, visando, fundamentalmente, manter Angola em situação de perpétua dependência económica em relação a Portugal e as potências imperialistas.
O colonialismo inoculou, pois, em todo o organismo de Angola, o micróbio da ruína, do ódio, do atraso, da miséria, do obscurantismo, da reacção. O caminho em que nos vêm obrigando a seguir é, portanto, absolutamente contrário aos supremos interesses do povo angolano: aos da nossa sobrevivência, da nossa liberdade, do rápido e livre progresso económico, da nossa felicidade, de pão, terra, paz e cultura para todos.»

Viriato da Cruz, Dezembro de 1956


Serão de Menino

Na noite morna, escura de breu,
enquanto na vasta sanzala do céu,
de volta de estrelas, quais fogaréus,
os anjos escutam parábolas de santos...

na noite de breu
ao quente da voz
de suas avós,
meninos se encantam
de contos bantos...

"Era uma vez uma corça
dona de cabra sem macho...
.........................................
... Matreiro, o cágado lento
tuc... tuc... foi entrando
para o conselho animal...
("- Tão tarde que ele chegou!")
Abriu a boca e falou -
deu a sentença final:
"- Não tenham medo da força!
Se o leão o alheio retém
- luta ao Mal! Vitória ao Bem!
tire-se ao leão, dê-se à corça."

Mas quando lá fora
o vento irado nas fresta chora
e ramos xuaxalha de altas mulembas
e portas bambas batem em massembas
os meninos se apertam de olhos abertos:

- Eué
- É casumbi...

E a gente grande -
bem perto dali
feijão descascando para o quitande-
a gente grande com gosto ri...

Com gosto ri, porque ela diz
que o casumbi males só faz
a quem não tem amor, aos mais
seres buscam, em negra noite,
essa outra voz de casumbi
essa outra voz - Felicidade...
[Felicidade]

Mamã Negra

(canto da esperança)

(À memória do poeta haitiano Jacques Roumain)

Tua presença, minha Mãe - drama vivo duma Raça,
Drama de carne e sangue
Que a Vida escreveu com a pena dos séculos!

Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais
[dos seringais dos algodoais!...
Vozes das plantações de Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
Cuba
Brasil...
Vozes dos engenhos dos bangüês das tongas dos eitos
[das pampas das minas!
Vozes de Harlem Hill District South
vozes das sanzalas!
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando
[dos vagões!
Vozes chorando na voz de Corrothers:
Lord God, what will have we done
- Vozes de toda América! Vozes de toda África!
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
Na bela voz de Guillén...

Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aso sóis mais fortes do mundo!
Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor
[amaciando as mais ricas terras do mundo!
Rebrilhantes dorsos (ai, a cor desses dorsos...)
Rebrilhantes dorsos torcidos no "tronco", pendentes da
[forca, caídos por Lynch!
Rebrilhantes dorsos (Ah, como brilham esses dorsos!)
ressuscitados em Zumbi, em Toussaint alevantados!
Rebrilhantes dorsos...
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música!
...do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo...

Pelo teu regaço, minha Mãe,
Outras gentes embaladas
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça...
santos poetas e sábios...

Outras gentes... não teus filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias,
mais são filhos da desgraça:
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo - folguedo...

Pelos teus olhos, minha Mãe
Vejo oceanos de dor
Claridades de sol-posto, paisagens
Roxas paisagens
Dramas de Cam e Jafé...
Mas vejo (Oh! se vejo!...)
mas vejo também que a luz roubada aos teus
[olhos, ora esplende
demoniacamente tentadora - como a Certeza...
cintilantemente firme - como a Esperança...
em nós outros, teus filhos,
gerando, formando, anunciando -

o dia da humanidade

O DIA DA HUMANIDADE!...


[Biography]

Post Relacionado:



AQUELE POR QUEM (INICIALMENTE) SE ESPERAVA...




«As leis do condicionamento industrial e as pautas aduaneiras dos industriais de Portugal, freando a actividade dos industriais de Angola. Existe um controlo absoluto em toda a industria e todo o comércio de Angola, visando, fundamentalmente, manter Angola em situação de perpétua dependência económica em relação a Portugal e as potências imperialistas.
O colonialismo inoculou, pois, em todo o organismo de Angola, o micróbio da ruína, do ódio, do atraso, da miséria, do obscurantismo, da reacção. O caminho em que nos vêm obrigando a seguir é, portanto, absolutamente contrário aos supremos interesses do povo angolano: aos da nossa sobrevivência, da nossa liberdade, do rápido e livre progresso económico, da nossa felicidade, de pão, terra, paz e cultura para todos.»

Viriato da Cruz, Dezembro de 1956


Serão de Menino

Na noite morna, escura de breu,
enquanto na vasta sanzala do céu,
de volta de estrelas, quais fogaréus,
os anjos escutam parábolas de santos...

na noite de breu
ao quente da voz
de suas avós,
meninos se encantam
de contos bantos...

"Era uma vez uma corça
dona de cabra sem macho...
.........................................
... Matreiro, o cágado lento
tuc... tuc... foi entrando
para o conselho animal...
("- Tão tarde que ele chegou!")
Abriu a boca e falou -
deu a sentença final:
"- Não tenham medo da força!
Se o leão o alheio retém
- luta ao Mal! Vitória ao Bem!
tire-se ao leão, dê-se à corça."

Mas quando lá fora
o vento irado nas fresta chora
e ramos xuaxalha de altas mulembas
e portas bambas batem em massembas
os meninos se apertam de olhos abertos:

- Eué
- É casumbi...

E a gente grande -
bem perto dali
feijão descascando para o quitande-
a gente grande com gosto ri...

Com gosto ri, porque ela diz
que o casumbi males só faz
a quem não tem amor, aos mais
seres buscam, em negra noite,
essa outra voz de casumbi
essa outra voz - Felicidade...
[Felicidade]

Mamã Negra

(canto da esperança)

(À memória do poeta haitiano Jacques Roumain)

Tua presença, minha Mãe - drama vivo duma Raça,
Drama de carne e sangue
Que a Vida escreveu com a pena dos séculos!

Pela tua voz
Vozes vindas dos canaviais dos arrozais dos cafezais
[dos seringais dos algodoais!...
Vozes das plantações de Virgínia
dos campos das Carolinas
Alabama
Cuba
Brasil...
Vozes dos engenhos dos bangüês das tongas dos eitos
[das pampas das minas!
Vozes de Harlem Hill District South
vozes das sanzalas!
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando
[dos vagões!
Vozes chorando na voz de Corrothers:
Lord God, what will have we done
- Vozes de toda América! Vozes de toda África!
Voz de todas as vozes, na voz altiva de Langston
Na bela voz de Guillén...

Pelo teu dorso
Rebrilhantes dorsos aso sóis mais fortes do mundo!
Rebrilhantes dorsos, fecundando com sangue, com suor
[amaciando as mais ricas terras do mundo!
Rebrilhantes dorsos (ai, a cor desses dorsos...)
Rebrilhantes dorsos torcidos no "tronco", pendentes da
[forca, caídos por Lynch!
Rebrilhantes dorsos (Ah, como brilham esses dorsos!)
ressuscitados em Zumbi, em Toussaint alevantados!
Rebrilhantes dorsos...
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música!
...do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo...

Pelo teu regaço, minha Mãe,
Outras gentes embaladas
à voz da ternura ninadas
do teu leite alimentadas
de bondade e poesia
de música ritmo e graça...
santos poetas e sábios...

Outras gentes... não teus filhos,
que estes nascendo alimárias
semoventes, coisas várias,
mais são filhos da desgraça:
a enxada é o seu brinquedo
trabalho escravo - folguedo...

Pelos teus olhos, minha Mãe
Vejo oceanos de dor
Claridades de sol-posto, paisagens
Roxas paisagens
Dramas de Cam e Jafé...
Mas vejo (Oh! se vejo!...)
mas vejo também que a luz roubada aos teus
[olhos, ora esplende
demoniacamente tentadora - como a Certeza...
cintilantemente firme - como a Esperança...
em nós outros, teus filhos,
gerando, formando, anunciando -

o dia da humanidade

O DIA DA HUMANIDADE!...


[Biography]

Post Relacionado:

Tuesday, 3 November 2009

OLHARES DIVERSOS (XVI)

BENTO BENTO ao Pais

(…)

Nós, como dizia no princípio, estamos na primeira linha de combate contra uma oposição liderada por um opositor também de respeito e com alguma capacidade de intervenção. Mas graças à nossa própria capacidade e à nossa combatividade, e principalmente à nossa capacidade de organização e mobilização, temos levado vantagem sobre os nossos opositores. Depois há também os problemas que Luanda tem e nós temos estado a passar à população a mensagem segundo a qual é preciso trabalharmos com alguma velocidade, mas também termos alguma paciência porque nem todos os problemas poderão ser resolvidos de um dia para outro.

Temos também a considerar algumas falhas … talvez voluntaristas de alguns quadros do partido que deveriam dialogar cada vez mais, que deveriam procurar entender cada vez mais antes de partir para algumas medidas impopulares que poderiam ser materializadas num outro clima …

(…)

Porque muitas das pessoas visadas são nossos militantes também. Mas tivemos de fazer um trabalho para que as pessoas pudessem entender que o desenvolvimento às vezes dá nisso. Mas, também, será que a capacidade de alguns dos nossos quadros administrativos, sendo eles militantes do MPLA, ou não, que não têm em conta a forma como devem materializar algumas decisões do governo, que podem materializá-las de forma distinta. Mas saímos deste mandato que hoje cessa com o sentido de missão cumprida, com o espírito e o ânimo de soldados que acabam de sair de um duro combate.

(…)

É importante dizer que nós, do Comité Provincial do Partido de Luanda, os comités municipais, os comités de acção, somos de opinião de que é preciso pôr fim à ocupação anárquica de terrenos. É preciso pôr fim às negociatas de terrenos, que tem havido de forma generalizada nalguns municípios de Luanda. Razão pela qual, todos quantos utilizam a ocupação ilegal de terras para negócio ilícito… nós somos por uma posição drástica por parte do Estado. Agora, temos situações em que muitos dos nossos munícipes construíram ilegalmente, mas para benefício familiar. E muitas dessas casas são casas que foram construídas como fruto das poupanças das populações. E isto multiplicado, na prática, são milhares e milhares de dólares, ou de kwanzas.

Muitas dessas populações viram-se privadas dos seus bens, das suas residências de um momento para outro. Então nós fazemos um diálogo com essas populações. E o partido, a todos os níveis, principalmente na base, nos seus activistas, podem facilitar esse diálogo, fazendo compreender às pessoas que para construir devem seguir determinados pressupostos. Pois que torna-se doloroso que uma família se veja privada da sua residência e, principalmente, vendo crianças e mulheres ao relento. E aí, nós, às vezes, ficamos sem argumentos para explicar a uma família, para explicar às crianças e às mulheres que de um momento para outro ficaram sem as suas residências.

Quanto às cabanas de chapa isso resolve-se. Uma cabana de chapas destruída agora, ainda que estejam pessoas a residir nela, essas pessoas podem ser transferidas numa fracção de segundos, constroem noutro lugar. Mas uma casa definitiva, uma residência com três, quatro quartos, uma residência de primeiro andar, devemos ter cuidado. É melhor usarmos o diálogo, inclusive darmos algum tempo, porque as pessoas, depois, podem não ter os recursos para construir outras casas.

(…)

Há, por exemplo uma reflexão que às vezes nos tem chegado… de pessoas que vão ao Comité provincial, que são às dezenas e às vezes até às centenas, que nos dizem: o pior é tirarem os nossos terrenos, demolirem as nossas casas, e depois aparecerem condomínios privados. E aí ficamos sem respostas. Não era conveniente, por exemplo, negociar com as pessoas, os privados que têm esses terrenos e dar-lhes outras parcelas de terreno? Porque também muitos desses privados ligados a imobiliária, cujos terrenos têm sido resgatados, usufruíram da distribuição sem o próprio Estado se precaver que já aí residem pessoas.

Por isso é que só com o diálogo profundo, inteligente, prudente, com uma concertação de todas as estruturas do partido e organizações da sociedade civil poderemos levar a bom termo os processos de demolições, por um lado, e, por outro lado, o realojamento. Mas também somos contra aqueles que desafiam o Estado, porque há indivíduos que o Estado diz: não construam aqui. E ele insiste construindo. Aí não há alternativas. Mas para mim, Bento Bento, o mais doloroso é ver crianças e mulheres chorando ao relento, não pela cabana destruída, mas por uma casa de construção definitiva.

[Aqui]

BENTO BENTO ao Pais

(…)

Nós, como dizia no princípio, estamos na primeira linha de combate contra uma oposição liderada por um opositor também de respeito e com alguma capacidade de intervenção. Mas graças à nossa própria capacidade e à nossa combatividade, e principalmente à nossa capacidade de organização e mobilização, temos levado vantagem sobre os nossos opositores. Depois há também os problemas que Luanda tem e nós temos estado a passar à população a mensagem segundo a qual é preciso trabalharmos com alguma velocidade, mas também termos alguma paciência porque nem todos os problemas poderão ser resolvidos de um dia para outro.

Temos também a considerar algumas falhas … talvez voluntaristas de alguns quadros do partido que deveriam dialogar cada vez mais, que deveriam procurar entender cada vez mais antes de partir para algumas medidas impopulares que poderiam ser materializadas num outro clima …

(…)

Porque muitas das pessoas visadas são nossos militantes também. Mas tivemos de fazer um trabalho para que as pessoas pudessem entender que o desenvolvimento às vezes dá nisso. Mas, também, será que a capacidade de alguns dos nossos quadros administrativos, sendo eles militantes do MPLA, ou não, que não têm em conta a forma como devem materializar algumas decisões do governo, que podem materializá-las de forma distinta. Mas saímos deste mandato que hoje cessa com o sentido de missão cumprida, com o espírito e o ânimo de soldados que acabam de sair de um duro combate.

(…)

É importante dizer que nós, do Comité Provincial do Partido de Luanda, os comités municipais, os comités de acção, somos de opinião de que é preciso pôr fim à ocupação anárquica de terrenos. É preciso pôr fim às negociatas de terrenos, que tem havido de forma generalizada nalguns municípios de Luanda. Razão pela qual, todos quantos utilizam a ocupação ilegal de terras para negócio ilícito… nós somos por uma posição drástica por parte do Estado. Agora, temos situações em que muitos dos nossos munícipes construíram ilegalmente, mas para benefício familiar. E muitas dessas casas são casas que foram construídas como fruto das poupanças das populações. E isto multiplicado, na prática, são milhares e milhares de dólares, ou de kwanzas.

Muitas dessas populações viram-se privadas dos seus bens, das suas residências de um momento para outro. Então nós fazemos um diálogo com essas populações. E o partido, a todos os níveis, principalmente na base, nos seus activistas, podem facilitar esse diálogo, fazendo compreender às pessoas que para construir devem seguir determinados pressupostos. Pois que torna-se doloroso que uma família se veja privada da sua residência e, principalmente, vendo crianças e mulheres ao relento. E aí, nós, às vezes, ficamos sem argumentos para explicar a uma família, para explicar às crianças e às mulheres que de um momento para outro ficaram sem as suas residências.

Quanto às cabanas de chapa isso resolve-se. Uma cabana de chapas destruída agora, ainda que estejam pessoas a residir nela, essas pessoas podem ser transferidas numa fracção de segundos, constroem noutro lugar. Mas uma casa definitiva, uma residência com três, quatro quartos, uma residência de primeiro andar, devemos ter cuidado. É melhor usarmos o diálogo, inclusive darmos algum tempo, porque as pessoas, depois, podem não ter os recursos para construir outras casas.

(…)

Há, por exemplo uma reflexão que às vezes nos tem chegado… de pessoas que vão ao Comité provincial, que são às dezenas e às vezes até às centenas, que nos dizem: o pior é tirarem os nossos terrenos, demolirem as nossas casas, e depois aparecerem condomínios privados. E aí ficamos sem respostas. Não era conveniente, por exemplo, negociar com as pessoas, os privados que têm esses terrenos e dar-lhes outras parcelas de terreno? Porque também muitos desses privados ligados a imobiliária, cujos terrenos têm sido resgatados, usufruíram da distribuição sem o próprio Estado se precaver que já aí residem pessoas.

Por isso é que só com o diálogo profundo, inteligente, prudente, com uma concertação de todas as estruturas do partido e organizações da sociedade civil poderemos levar a bom termo os processos de demolições, por um lado, e, por outro lado, o realojamento. Mas também somos contra aqueles que desafiam o Estado, porque há indivíduos que o Estado diz: não construam aqui. E ele insiste construindo. Aí não há alternativas. Mas para mim, Bento Bento, o mais doloroso é ver crianças e mulheres chorando ao relento, não pela cabana destruída, mas por uma casa de construção definitiva.

[Aqui]

Saturday, 4 October 2008

LANCAMENTO DE "UM AMPLO MOVIMENTO" E APRESENTACAO DA ASSOCIACAO TCHIWEKA DE DOCUMENTACAO

Como aqui anunciado, foram lancados em Luanda, na quinta-feira que passou, mais dois volumes de "Um Amplo Movimento", de Lucio Lara. O lancamento coincidiu com a apresentacao ao publico da Associacao e Centro de Documentacao Tchiweka, que tambem abriu recentemente este portal na internet.

O Jornal de Angola (JA)noticiou assim o evento:

"O anfiteatro da Faculdade de Arquitectura acolhe(u) a sessão de lançamento do segundo e terceiro volumes da obra intitulada "Um amplo movimento –Itinerário do MPLA através de documentos de Lúcio Lara ". Trata-se de um trabalho iniciado há cerca de dez anos por Ruth, esposa e companheira de Lúcio Lara, com a publicação do primeiro volume em 1998. Depois da morte de Ruth Lara, também ela figura ligada à génese do MPLA, o projecto foi retomado pela filha Wanda, sob o apadrinhamento da Africa Group da Suécia e do Instituto Nórdico de Estudos Africanos. São documentos e cartas de extrema valia para quem esteja interessado em descodificar alguns dos enigmas mais persistentes da história do maior partido político de Angola, tais como a expulsão de Matias Miguéis, José Bernardo Domingos e Viriato da Cruz, em 1963, a fuga de Agostinho Neto para o Reino de Marrocos, em 1962, e também perceber alguns dos episódios da luta de libertação nacional no período de 1961 a 1964."

Wanda Lara, coordenadora do projecto, afirmou em entrevista ao JA:

"Desejo que as pessoas tenham interesse
pelos livros e pelos documentos nele
inseridos. E que de alguma forma isso sirva
não só para que as pessoas que
participaram na luta de libertação, quer na
clandestinidade, quer na luta armada,
escrevam as suas memórias"
(...)
Penso que dependendo de quem vai ler,
um historiador, um estudante de Direito,
um interessado pela história de Angola,
cada um vai retirar sempre alguma coisa
diferente. Uns vão gostar e outros não. As
coisas têm sempre dois ou mais lados."

Paulo Lara rememora experiencias de vida que alguns dos documentos ora publicados lhe evocam:

"Eu nasci em 1956, no ano do famoso manifesto do MPLA, e de facto há muitas coisas de que me lembro perfeitamente e que estão relacionadas com momentos importantes que nós tivemos ao longo da nossa vida. Eu era miúdo quando cheguei a Guiné-Conacry, não lembro de nada do que se passou antes da ida a Conacry, da saída de Portugal, a ida para a Alemanha, a ida ao Reino de Marrocos, mas de Conacry sim, até porque as fotografias ajudam nos a lembrar de coisas. Lembro-me de Amílcar Cabral e sua família. Da filha de Amílcar Cabral, com quem brincava, e do filho de Aristides Pereira, lembro-me perfeitamente de ter ficado em casa de Hugo de Menezes. Lembro-me do momento em que nós saímos de Conacry para Léopoldville, quem nos acompanhou até ao aeroporto foi Amílcar Cabral, e lembro porque inclusivamente ele me ofereceu um relógio. (…) O relógio devia ter vindo lá da Checoslováquia. Mas sei que era tão bom que quando cheguei a Léopoldville já não funcionava (risos). Durou apenas a viagem de avião até Brazzaville e depois de barco para Léopoldville. Mas foi o primeiro relógio da minha vida. Se hoje os relógios se vendem em qualquer canto, naquela altura um relógio era uma relíquia.
(…)
Quando chegámos a Léopoldville foi em plena crise com o Viriato, onde o MPLA estava para ser expulso de Léopoldville. O velho (Lúcio Lara) e o Presidente Neto já haviam sido até detidos por algum tempo pelas autoridades congolesas e acabámos por voltar outra vez a Brazzaville. Ficámos poucos dias em Léopoldville e quando regressámos a Brazzaville havia a revolução Brazzaville, as famosas "Três Gloriosas", no mês de Agosto. Portanto, vivemos tudo, evidentemente que muito jovens, não entendendo bem o que se passava, mas são coisas que nos marcaram profundamente. Há muita coisa que está aí que acompanhámos. Por exemplo, aí no livro aparece uma fotografia em que já éramos chamados 'kudianguelas' (naquele tempo não se chamava pioneiros). Portanto, os jovens, miúdos, kudianguelas, que estávamos em Brazaville naquele tempo, fomos organizados para cantarmos o primeiro hino do MPLA. Nestes documentos vem quando é que apareceu o hino e quem foi o autor do hino.
(…)
Uma questão importante que estes documentos vêm clarificar é, por exemplo, a de saber de quem foi a iniciativa de organizar a fuga de Agostinho Neto. Se foi do Partido Comunista Português ou se partiu mesmo a nível interno, da direcção do MPLA. Outra questão tem a ver com a crise com Viriato da Cruz. Nos livros tem correspondências que dão conta das divergências entre o grupo de Viriato da Cruz e a Direcção do MPLA. E há a questão da altura em que surge o manifesto. Trata-se de uma questão que os documentos ajudam a esclarecer, embora já seja um assunto de certo modo ultrapassado."
[Aqui]

A apresentacao esteve a cargo de Joao Melo, que o fez atraves do que entitulou "Um Retrato a preto-e-branco da Revolucao":

“A Revolução foi feita pelos revolucionários disponíveis”. Esta citação do grande e
inquieto – como convém aos intelectuais dignos da sua profunda vocação cívica, ou
seja, assumirem-se como a consciência crítica das suas sociedades e do seu tempo –
poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht assaltou-me pela primeira vez quando li o
romance inaugural Mayombe, de Pepetela, lançado no distante ano de 1980.
A mesma ocorreu-me agora, mais uma vez, ao ler estes dois volumes dos documentos
de Lúcio Lara acerca do itinerário histórico do MPLA, que a Associação Tchiweka de
Documentação teve a gentileza de me convidar a apresentar e que eu agradeci de
imediato, talvez demasiado afoitamente, entre honrado, emocionado e amedrontado.
Afinal, apresentar uma obra deste vulto implica um grande sentido de responsabilidade, em especial se o apresentador, como eu, não é historiador.
(...)
Os documentos que compõem estes dois volumes revelam alguns dos principais
protagonistas da gesta nacionalista angolana em toda a sua dimensão, não só política,
mas também pessoal. Forças e fraquezas, ousadias e temores, misérias e grandezas –
tudo perpassa por esta enorme quantidade de documentos, que, sendo um retrato a pree-
branco original, ou seja, sem quaisquer retoques, da fase inicial da Revolução
Angolana, também podem ser lidos, se o quisermos, como uma espécie de “história do
quotidano” do nosso nacionalismo.
Os “revolucionarios disponíveis” que iniciaram a longa e difícil luta pela independência
de Angola estão todos aqui, em carne e osso, sem romantismos de qualquer espécie. O
retrato histórico de alguns pode ser, a partir de agora, mais objectivo, o que confirma
que os tabus e o “black out” informativo só ajudam a alimentar os mitos.
É o caso – vou dizê-lo – do Viriato da Cruz revolucionário (e não, ressalvo, do Viriato
da Cruz poeta), sobre quem foi lançado no mês passado um livro, cujo título remete
precisamente para a sua dimensão mítica. Esse retrato, como é evidente, não pode
esquecer as circunstâncias que envolviam as personagens, pelo que não pode continuar
a servir de pretexto para a tentativa de eliminar algumas delas da fotografia, como, para
usar o mesmo exemplo, o próprio Viriato.
Isso suscita a minha primeira sugestão. Creio ser chegada a hora da direcção actual do
MPLA, confortada pela larga vitória do mencionado partido nas últimas eleições,
resgatar o papel e a memória de algumas das suas figuras históricas, as quais, dentro dos
seus limites e circunstâncias, contribuíram para a sua própria formação e ajudaram a
configurar a feição que o transformou na única organização política verdadeiramente
nacional. Se o MPLA é hoje, mais do que um partido, uma cultura, uma mística e uma
marca, também o deve a figuras como Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Matias
Miguéis e tantos outros.
[Aqui]

Afonso Van-Dúnem Mbinda, veterano do MPLA, afirmou a proposito:

Lúcio Lara encarnou o MPLA e deu a este país e ao MPLA o maior contributo que nós podemos imaginar. Era um caça bilhetinhos. Tudo quanto saísse nos congressos, nas reuniões, ele recolhia. Era um "caça bichinhos", como nós o chamávamos. Esse comportamento permite que hoje se possa lançar em livro tudo quanto guardou. O leitor encontra os fenómenos que aconteceram na vida de uma organização como é o MPLA, que tem vários tipos de pessoas, vários estratos sociais, desde o camponês, o operário, o estudante, toda esta amalgama de pessoas que constituem uma grande riqueza. São fenómenos que serviram de lição para que o MPLA reforçasse, na sua direcção, a coesão interna. Foi exactamente a falta de coesão interna naquela altura que levou à divisão no seio do MPLA. Mas o partido resolveu os seus problemas, continua forte e hoje é uma organização forte, coesa, solidaria. Vimos agora no resultado das eleições, porque no seio da direcção do MPLA tivemos em causa os interesses supremos do povo angolano.
[Aqui]

Mais detalhes aqui e aqui.

Como aqui anunciado, foram lancados em Luanda, na quinta-feira que passou, mais dois volumes de "Um Amplo Movimento", de Lucio Lara. O lancamento coincidiu com a apresentacao ao publico da Associacao e Centro de Documentacao Tchiweka, que tambem abriu recentemente este portal na internet.

O Jornal de Angola (JA)noticiou assim o evento:

"O anfiteatro da Faculdade de Arquitectura acolhe(u) a sessão de lançamento do segundo e terceiro volumes da obra intitulada "Um amplo movimento –Itinerário do MPLA através de documentos de Lúcio Lara ". Trata-se de um trabalho iniciado há cerca de dez anos por Ruth, esposa e companheira de Lúcio Lara, com a publicação do primeiro volume em 1998. Depois da morte de Ruth Lara, também ela figura ligada à génese do MPLA, o projecto foi retomado pela filha Wanda, sob o apadrinhamento da Africa Group da Suécia e do Instituto Nórdico de Estudos Africanos. São documentos e cartas de extrema valia para quem esteja interessado em descodificar alguns dos enigmas mais persistentes da história do maior partido político de Angola, tais como a expulsão de Matias Miguéis, José Bernardo Domingos e Viriato da Cruz, em 1963, a fuga de Agostinho Neto para o Reino de Marrocos, em 1962, e também perceber alguns dos episódios da luta de libertação nacional no período de 1961 a 1964."

Wanda Lara, coordenadora do projecto, afirmou em entrevista ao JA:

"Desejo que as pessoas tenham interesse
pelos livros e pelos documentos nele
inseridos. E que de alguma forma isso sirva
não só para que as pessoas que
participaram na luta de libertação, quer na
clandestinidade, quer na luta armada,
escrevam as suas memórias"
(...)
Penso que dependendo de quem vai ler,
um historiador, um estudante de Direito,
um interessado pela história de Angola,
cada um vai retirar sempre alguma coisa
diferente. Uns vão gostar e outros não. As
coisas têm sempre dois ou mais lados."

Paulo Lara rememora experiencias de vida que alguns dos documentos ora publicados lhe evocam:

"Eu nasci em 1956, no ano do famoso manifesto do MPLA, e de facto há muitas coisas de que me lembro perfeitamente e que estão relacionadas com momentos importantes que nós tivemos ao longo da nossa vida. Eu era miúdo quando cheguei a Guiné-Conacry, não lembro de nada do que se passou antes da ida a Conacry, da saída de Portugal, a ida para a Alemanha, a ida ao Reino de Marrocos, mas de Conacry sim, até porque as fotografias ajudam nos a lembrar de coisas. Lembro-me de Amílcar Cabral e sua família. Da filha de Amílcar Cabral, com quem brincava, e do filho de Aristides Pereira, lembro-me perfeitamente de ter ficado em casa de Hugo de Menezes. Lembro-me do momento em que nós saímos de Conacry para Léopoldville, quem nos acompanhou até ao aeroporto foi Amílcar Cabral, e lembro porque inclusivamente ele me ofereceu um relógio. (…) O relógio devia ter vindo lá da Checoslováquia. Mas sei que era tão bom que quando cheguei a Léopoldville já não funcionava (risos). Durou apenas a viagem de avião até Brazzaville e depois de barco para Léopoldville. Mas foi o primeiro relógio da minha vida. Se hoje os relógios se vendem em qualquer canto, naquela altura um relógio era uma relíquia.
(…)
Quando chegámos a Léopoldville foi em plena crise com o Viriato, onde o MPLA estava para ser expulso de Léopoldville. O velho (Lúcio Lara) e o Presidente Neto já haviam sido até detidos por algum tempo pelas autoridades congolesas e acabámos por voltar outra vez a Brazzaville. Ficámos poucos dias em Léopoldville e quando regressámos a Brazzaville havia a revolução Brazzaville, as famosas "Três Gloriosas", no mês de Agosto. Portanto, vivemos tudo, evidentemente que muito jovens, não entendendo bem o que se passava, mas são coisas que nos marcaram profundamente. Há muita coisa que está aí que acompanhámos. Por exemplo, aí no livro aparece uma fotografia em que já éramos chamados 'kudianguelas' (naquele tempo não se chamava pioneiros). Portanto, os jovens, miúdos, kudianguelas, que estávamos em Brazaville naquele tempo, fomos organizados para cantarmos o primeiro hino do MPLA. Nestes documentos vem quando é que apareceu o hino e quem foi o autor do hino.
(…)
Uma questão importante que estes documentos vêm clarificar é, por exemplo, a de saber de quem foi a iniciativa de organizar a fuga de Agostinho Neto. Se foi do Partido Comunista Português ou se partiu mesmo a nível interno, da direcção do MPLA. Outra questão tem a ver com a crise com Viriato da Cruz. Nos livros tem correspondências que dão conta das divergências entre o grupo de Viriato da Cruz e a Direcção do MPLA. E há a questão da altura em que surge o manifesto. Trata-se de uma questão que os documentos ajudam a esclarecer, embora já seja um assunto de certo modo ultrapassado."
[Aqui]

A apresentacao esteve a cargo de Joao Melo, que o fez atraves do que entitulou "Um Retrato a preto-e-branco da Revolucao":

“A Revolução foi feita pelos revolucionários disponíveis”. Esta citação do grande e
inquieto – como convém aos intelectuais dignos da sua profunda vocação cívica, ou
seja, assumirem-se como a consciência crítica das suas sociedades e do seu tempo –
poeta e dramaturgo alemão Bertolt Brecht assaltou-me pela primeira vez quando li o
romance inaugural Mayombe, de Pepetela, lançado no distante ano de 1980.
A mesma ocorreu-me agora, mais uma vez, ao ler estes dois volumes dos documentos
de Lúcio Lara acerca do itinerário histórico do MPLA, que a Associação Tchiweka de
Documentação teve a gentileza de me convidar a apresentar e que eu agradeci de
imediato, talvez demasiado afoitamente, entre honrado, emocionado e amedrontado.
Afinal, apresentar uma obra deste vulto implica um grande sentido de responsabilidade, em especial se o apresentador, como eu, não é historiador.
(...)
Os documentos que compõem estes dois volumes revelam alguns dos principais
protagonistas da gesta nacionalista angolana em toda a sua dimensão, não só política,
mas também pessoal. Forças e fraquezas, ousadias e temores, misérias e grandezas –
tudo perpassa por esta enorme quantidade de documentos, que, sendo um retrato a pree-
branco original, ou seja, sem quaisquer retoques, da fase inicial da Revolução
Angolana, também podem ser lidos, se o quisermos, como uma espécie de “história do
quotidano” do nosso nacionalismo.
Os “revolucionarios disponíveis” que iniciaram a longa e difícil luta pela independência
de Angola estão todos aqui, em carne e osso, sem romantismos de qualquer espécie. O
retrato histórico de alguns pode ser, a partir de agora, mais objectivo, o que confirma
que os tabus e o “black out” informativo só ajudam a alimentar os mitos.
É o caso – vou dizê-lo – do Viriato da Cruz revolucionário (e não, ressalvo, do Viriato
da Cruz poeta), sobre quem foi lançado no mês passado um livro, cujo título remete
precisamente para a sua dimensão mítica. Esse retrato, como é evidente, não pode
esquecer as circunstâncias que envolviam as personagens, pelo que não pode continuar
a servir de pretexto para a tentativa de eliminar algumas delas da fotografia, como, para
usar o mesmo exemplo, o próprio Viriato.
Isso suscita a minha primeira sugestão. Creio ser chegada a hora da direcção actual do
MPLA, confortada pela larga vitória do mencionado partido nas últimas eleições,
resgatar o papel e a memória de algumas das suas figuras históricas, as quais, dentro dos
seus limites e circunstâncias, contribuíram para a sua própria formação e ajudaram a
configurar a feição que o transformou na única organização política verdadeiramente
nacional. Se o MPLA é hoje, mais do que um partido, uma cultura, uma mística e uma
marca, também o deve a figuras como Mário Pinto de Andrade, Viriato da Cruz, Matias
Miguéis e tantos outros.
[Aqui]

Afonso Van-Dúnem Mbinda, veterano do MPLA, afirmou a proposito:

Lúcio Lara encarnou o MPLA e deu a este país e ao MPLA o maior contributo que nós podemos imaginar. Era um caça bilhetinhos. Tudo quanto saísse nos congressos, nas reuniões, ele recolhia. Era um "caça bichinhos", como nós o chamávamos. Esse comportamento permite que hoje se possa lançar em livro tudo quanto guardou. O leitor encontra os fenómenos que aconteceram na vida de uma organização como é o MPLA, que tem vários tipos de pessoas, vários estratos sociais, desde o camponês, o operário, o estudante, toda esta amalgama de pessoas que constituem uma grande riqueza. São fenómenos que serviram de lição para que o MPLA reforçasse, na sua direcção, a coesão interna. Foi exactamente a falta de coesão interna naquela altura que levou à divisão no seio do MPLA. Mas o partido resolveu os seus problemas, continua forte e hoje é uma organização forte, coesa, solidaria. Vimos agora no resultado das eleições, porque no seio da direcção do MPLA tivemos em causa os interesses supremos do povo angolano.
[Aqui]

Mais detalhes aqui e aqui.

Monday, 19 May 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (11)

O rescaldo da III Conferencia Nacional do MPLA ocupou consideravel espaco em praticamente todos os jornais, com destaque para uma ‘grande reportagem’ no SA

…e tempo de varios “fazedores de opiniao”, entre politicos, colunistas e activistas civicos (e.g. Eunice Van-Dunem no A Capital, Fernando Pacheco no Novo Jornal e Ismael Mateus no Cruzeiro do Sul).

Mas, o que talvez tenha sido o “sub-produto” mais marcante daquele conclave foram as explosivas declaracoes do ex-bastonario da Ordem dos Advogados de Angola, Raul Araujo, que, a proposito do discurso de abertura de Jose’ Eduardo dos Santos, segundo o qual ha’ “necessidade de haver reformas profundas no sistema judicial angolano, devido a uma crise que o descredibiliza”, afirmou:

«Sei que os meus colegas da justiça podem não gostar disso, mas hoje temos situações em que as decisões são feitas por pagamentos. Quer dizer, uma das partes compra o juiz para dar uma determinada sentença». «Há dias tomei conhecimento de um caso que, a ser verdade, é gravíssimo: que há colegas advogados que contratam juízes como seus consultores e que depois, num processo, o juiz da causa é o consultor do processo e dá assessoria jurídica ao advogado como conduzir o processo. Isto é grave do ponto de vista deontológico».
«Se nós hoje virmos os contratos internacionais (aqui no país), todos eles baseiam-se numa cláusula que é a seguinte: em caso de litígio os processos não são resolvidos em Angola, vão todos para a resolução pela via da arbitragem internacional. Porquê? Porque os investidores não confiam na justiça em Angola. Os próprios nacionais hoje também estão a ir cada vez mais para as cláusulas de arbitragem porque não confiam no funcionamento da justiça em Angola».
[Aqui]

Varias reaccoes as acusacoes de Raul Araujo foram ja’ registadas, das quais destaco as de Imaculada Melo, que, em “A dimensao democratica da nossa hipocrisia”, sobrepoe a analise da questao as igualmente contenciosas declaracoes de Bob Geldof recentemente em Lisboa:

Julgo que é neste contexto, e não dentro dos marcos do colonialismo que pelos vistos deixou feridas incuráveis mais profundas do que o imaginável no "complexo do colonizado", que o músico irlandês Bob Geldof, no decorrer da gala promovida recentemente em Lisboa pelo semanário "Expresso" e pelo grupo do Banco Espírito Santo, se julgou no direito de tecer considerações sobre a situação em Angola a título de exemplo, por acaso pertinente, na medida que é em Angola onde se compram casas mais caras que as do bairro mais luxuoso de Londres; onde ter uma fortuna avaliada em cinco milhões de dólares já não é significativo; onde uns sendo apenas funcionários públicos se tornaram "milionários". Em contrapartida continuam- se a mobilizar doadores internacionais e os índices de pobreza aparecem entre os piores do mundo.
(…)
Afinal a justiça no nosso país vai muito mal, constata-se agora em tempo de eleições. Mas sempre esteve, apesar de ser uma questão de Estado. Esta é a minha opinião que manifestei aos órgãos competentes deste país, denunciei situações impensáveis, inadmissíveis e surrealistas que ocorriam e que mais do que uma falta de aptidão demonstravam e indiciavam um estado de perversão em que a própria justiça tinha caído logo fazendo com que o país estivesse em estado de perigo que conduziria certamente á anomia. Mas fui mal entendida e propositadamente mal interpretada até mesmo pelos próprios colegas da direcção da Ordem dos Advogados de Angola à qual já pertenci e não raras vezes até por amigas pessoais. Hoje aqui ao constatar tão profunda denúncia e preocupação de quem de direito, não posso deixar de proclamar o meu direito de denúncia independentemente da minha opção partidária, porque não é exclusivo de ninguém em particular, antes pelo contrário, é uma manifestação de consciência que assiste a todo o cidadão angolano.
[Aqui]


No Novo Jornal, uma entrevista com Antonio Ole:

Tenho uma exposição em Paris no final do ano, outra para Novembro, em Nova Orleãs, Estados Unidos da América. Faço uma individual, agora em Maio, no Centro Cultural Elinga Teatro. Além destas, estou a preparar um grande projecto que consiste na exposição de algumas das minhas fotografias desde os anos em que comecei a fotografar até a data presente. É um projecto que gostaria de ver concretizado talvez não este ano, porque envolve uma preparação muito séria, para se apresentar um bom trabalho. Penso fazer uma exposição itinerante, que começaria em Luanda, depois passar por São Paulo, Bahia e Lisboa. Tenho um outro convite feito pelos ingleses, que vivem no Algarve, para expor no Centro Cultural de Lagos, em Portugal.

[Aqui]
O rescaldo da III Conferencia Nacional do MPLA ocupou consideravel espaco em praticamente todos os jornais, com destaque para uma ‘grande reportagem’ no SA

…e tempo de varios “fazedores de opiniao”, entre politicos, colunistas e activistas civicos (e.g. Eunice Van-Dunem no A Capital, Fernando Pacheco no Novo Jornal e Ismael Mateus no Cruzeiro do Sul).

Mas, o que talvez tenha sido o “sub-produto” mais marcante daquele conclave foram as explosivas declaracoes do ex-bastonario da Ordem dos Advogados de Angola, Raul Araujo, que, a proposito do discurso de abertura de Jose’ Eduardo dos Santos, segundo o qual ha’ “necessidade de haver reformas profundas no sistema judicial angolano, devido a uma crise que o descredibiliza”, afirmou:

«Sei que os meus colegas da justiça podem não gostar disso, mas hoje temos situações em que as decisões são feitas por pagamentos. Quer dizer, uma das partes compra o juiz para dar uma determinada sentença». «Há dias tomei conhecimento de um caso que, a ser verdade, é gravíssimo: que há colegas advogados que contratam juízes como seus consultores e que depois, num processo, o juiz da causa é o consultor do processo e dá assessoria jurídica ao advogado como conduzir o processo. Isto é grave do ponto de vista deontológico».
«Se nós hoje virmos os contratos internacionais (aqui no país), todos eles baseiam-se numa cláusula que é a seguinte: em caso de litígio os processos não são resolvidos em Angola, vão todos para a resolução pela via da arbitragem internacional. Porquê? Porque os investidores não confiam na justiça em Angola. Os próprios nacionais hoje também estão a ir cada vez mais para as cláusulas de arbitragem porque não confiam no funcionamento da justiça em Angola».
[Aqui]

Varias reaccoes as acusacoes de Raul Araujo foram ja’ registadas, das quais destaco as de Imaculada Melo, que, em “A dimensao democratica da nossa hipocrisia”, sobrepoe a analise da questao as igualmente contenciosas declaracoes de Bob Geldof recentemente em Lisboa:

Julgo que é neste contexto, e não dentro dos marcos do colonialismo que pelos vistos deixou feridas incuráveis mais profundas do que o imaginável no "complexo do colonizado", que o músico irlandês Bob Geldof, no decorrer da gala promovida recentemente em Lisboa pelo semanário "Expresso" e pelo grupo do Banco Espírito Santo, se julgou no direito de tecer considerações sobre a situação em Angola a título de exemplo, por acaso pertinente, na medida que é em Angola onde se compram casas mais caras que as do bairro mais luxuoso de Londres; onde ter uma fortuna avaliada em cinco milhões de dólares já não é significativo; onde uns sendo apenas funcionários públicos se tornaram "milionários". Em contrapartida continuam- se a mobilizar doadores internacionais e os índices de pobreza aparecem entre os piores do mundo.
(…)
Afinal a justiça no nosso país vai muito mal, constata-se agora em tempo de eleições. Mas sempre esteve, apesar de ser uma questão de Estado. Esta é a minha opinião que manifestei aos órgãos competentes deste país, denunciei situações impensáveis, inadmissíveis e surrealistas que ocorriam e que mais do que uma falta de aptidão demonstravam e indiciavam um estado de perversão em que a própria justiça tinha caído logo fazendo com que o país estivesse em estado de perigo que conduziria certamente á anomia. Mas fui mal entendida e propositadamente mal interpretada até mesmo pelos próprios colegas da direcção da Ordem dos Advogados de Angola à qual já pertenci e não raras vezes até por amigas pessoais. Hoje aqui ao constatar tão profunda denúncia e preocupação de quem de direito, não posso deixar de proclamar o meu direito de denúncia independentemente da minha opção partidária, porque não é exclusivo de ninguém em particular, antes pelo contrário, é uma manifestação de consciência que assiste a todo o cidadão angolano.
[Aqui]


No Novo Jornal, uma entrevista com Antonio Ole:

Tenho uma exposição em Paris no final do ano, outra para Novembro, em Nova Orleãs, Estados Unidos da América. Faço uma individual, agora em Maio, no Centro Cultural Elinga Teatro. Além destas, estou a preparar um grande projecto que consiste na exposição de algumas das minhas fotografias desde os anos em que comecei a fotografar até a data presente. É um projecto que gostaria de ver concretizado talvez não este ano, porque envolve uma preparação muito séria, para se apresentar um bom trabalho. Penso fazer uma exposição itinerante, que começaria em Luanda, depois passar por São Paulo, Bahia e Lisboa. Tenho um outro convite feito pelos ingleses, que vivem no Algarve, para expor no Centro Cultural de Lagos, em Portugal.

[Aqui]

Monday, 25 February 2008

JOAQUIM PINTO DE ANDRADE E GENTIL VIANA (R.I.P.)

[N.B.: Nao era esta, exactamente, a homenagem que me merecem e que planeara em memoria desses dois Mais Velhos. No entanto, tendo sido confrontada com dois blog posts, um deles reproduzido no GVO e onde claramente se confunde a figura de Joaquim com a de Vicente, ou de Justino, Pinto de Andrade... e outro onde este texto da Lusa e' reproduzido sem qualquer indicacao da fonte citada... achei por bem publica-lo aqui.]


Lisboa, 23 Fev (Lusa) - Joaquim Pinto de Andrade e Gentil Ferreira Viana, dois "históricos" do MPLA e protagonistas do movimento dissidente Revolta Activa, morreram hoje, em Luanda e Lisboa, respectivamente. Joaquim Pinto de Andrade, nascido em 1926, morreu vítima de doença prolongada, na sua residência do Bairro Azul, em Luanda, confirmou à Lusa fonte próxima da família.

Gentil Viana, 72 anos, que residia há mais de três décadas em Portugal, faleceu também vítima de doença prolongada, em Lisboa, onde se encontrava hospitalizado, disse à Lusa Vitor Ramalho, amigo do falecido. Os dois "históricos" hoje falecidos estiveram entre os impulsionadores da tendência política Revolta Activa, no seio do MPLA, em que participaram também o irmão de Joaquim Pinto de Andrade, Mário - primeiro presidente do MPLA -, Carlos "Liceu" Vieira Dias, Maria do Céu Carmo Reis e outros intelectuais angolanos.

Esta tendência contestatária da liderança de Agostinho Neto procurava afirmar-se como "independente, plural, não engajada com nenhum dos blocos" em disputa em Angola no pós independência, segundo disse à Lusa Vítor Ramalho, que partilhou durante muitos anos um escritório de advogados com Gentil Viana. Com a Revolta Activa afirmava-se então no MPLA a "Revolta de Leste", liderada por Daniel Chipenda, além do grupo leal a Neto. Em 1975, juntamente com muitos outros intelectuais do MPLA, Gentil Viana é preso e só dois anos depois conseguiria a liberdade.

Numa luta na prisão foi ferido com gravidade num olho, tendo ficado praticamente cego de uma vista. Para a sua libertação, disse à Lusa Vítor Ramalho, intercedeu pessoalmente o general Tito, o líder da então Jugoslávia, país que o acolheu logo após a saída da prisão. Questionado sobre o seu destino de eleição, Viana acaba por se decidir por Portugal, onde se tinha licenciado em Direito nos anos 60, e mais tarde fugido - com outros intelectuais como o moçambicano Joaquim Chissano e o escritor Pepetela - para iniciar um longo périplo que o levaria a Paris, Gana, Congo Brazzaville, Argélia, China, e mais tarde para a guerrilha em Angola.

Divorciado de uma professoria universitária moçambicana residente em Portugal, Gentil Ferreira Viana foi pai de cinco filhos, dois dos quais já falecidos e os outros três residentes em Angola. Neto de um português, Viana voltou a Angola por duas vezes, depois de se estabelecer em Lisboa em 1977 - a primeira logo após os Acordos de Bicesse (1991) e a última há poucos anos. Conta Vítor Ramalho que Viana voltou das viagens a Angola "amargurado pela sua terra", mas "sem guardar ressentimentos a quem quer que fosse".

"Era um conciliador, um homem marcante para quem o conheceu bem. É preciso saber honrar este homem que foi precursor do que há de mais profundo na política. Era respeitado por todas as sensibilidades, um grande amigo de Portugal e dos portugueses", afirma Ramalho. O corpo de Gentil Viana ficará em câmara ardente na Casa de Angola, em Lisboa, a partir das 16:00 de domingo.

Na segunda-feira, o féretro segue para Luanda, cidade natal do político angolano, onde será sepultado. A vida de Gentil Viana cruzou-se, em vários momentos, com a de Joaquim Pinto de Andrade. O seu pai - Frederico Viana, filho de um português - e Pinto de Andrade "pai" foram ambos fundadores da Liga Nacional Africana, movimento político que nos anos 40 e 50 se afirmou como impulsionador da identidade africana nas então colónias.

Também pelos calabouços angolanos passou Joaquim Pinto de Andrade, presidente honorário do MPLA, que se manteve até há pouco tempo activo na política angolana. Esteve ligado ao "fugaz" Partido Reformador Democrático (PRD), que obteve um resultado pouco expressivo nas eleições de 1992. Foi durante umas férias em Portugal, em meados dos anos 90, que adoeceu com gravidade, tendo desde então passado longos períodos hospitalizado. Ainda jovem, abraçou o sacerdócio católico, que abandonou mais tarde para se casar com Vitória Almeida e Sousa, médica pediatra; tiveram dois filhos. Como contou à Lusa em Luanda Jerónimo Belo, amigo de Pinto de Andrade, morreu hoje na capital angolana "um grande nacionalista angolano". PDF/RB. Lusa/Fim
[N.B.: Nao era esta, exactamente, a homenagem que me merecem e que planeara em memoria desses dois Mais Velhos. No entanto, tendo sido confrontada com dois blog posts, um deles reproduzido no GVO e onde claramente se confunde a figura de Joaquim com a de Vicente, ou de Justino, Pinto de Andrade... e outro onde este texto da Lusa e' reproduzido sem qualquer indicacao da fonte citada... achei por bem publica-lo aqui.]


Lisboa, 23 Fev (Lusa) - Joaquim Pinto de Andrade e Gentil Ferreira Viana, dois "históricos" do MPLA e protagonistas do movimento dissidente Revolta Activa, morreram hoje, em Luanda e Lisboa, respectivamente. Joaquim Pinto de Andrade, nascido em 1926, morreu vítima de doença prolongada, na sua residência do Bairro Azul, em Luanda, confirmou à Lusa fonte próxima da família.

Gentil Viana, 72 anos, que residia há mais de três décadas em Portugal, faleceu também vítima de doença prolongada, em Lisboa, onde se encontrava hospitalizado, disse à Lusa Vitor Ramalho, amigo do falecido. Os dois "históricos" hoje falecidos estiveram entre os impulsionadores da tendência política Revolta Activa, no seio do MPLA, em que participaram também o irmão de Joaquim Pinto de Andrade, Mário - primeiro presidente do MPLA -, Carlos "Liceu" Vieira Dias, Maria do Céu Carmo Reis e outros intelectuais angolanos.

Esta tendência contestatária da liderança de Agostinho Neto procurava afirmar-se como "independente, plural, não engajada com nenhum dos blocos" em disputa em Angola no pós independência, segundo disse à Lusa Vítor Ramalho, que partilhou durante muitos anos um escritório de advogados com Gentil Viana. Com a Revolta Activa afirmava-se então no MPLA a "Revolta de Leste", liderada por Daniel Chipenda, além do grupo leal a Neto. Em 1975, juntamente com muitos outros intelectuais do MPLA, Gentil Viana é preso e só dois anos depois conseguiria a liberdade.

Numa luta na prisão foi ferido com gravidade num olho, tendo ficado praticamente cego de uma vista. Para a sua libertação, disse à Lusa Vítor Ramalho, intercedeu pessoalmente o general Tito, o líder da então Jugoslávia, país que o acolheu logo após a saída da prisão. Questionado sobre o seu destino de eleição, Viana acaba por se decidir por Portugal, onde se tinha licenciado em Direito nos anos 60, e mais tarde fugido - com outros intelectuais como o moçambicano Joaquim Chissano e o escritor Pepetela - para iniciar um longo périplo que o levaria a Paris, Gana, Congo Brazzaville, Argélia, China, e mais tarde para a guerrilha em Angola.

Divorciado de uma professoria universitária moçambicana residente em Portugal, Gentil Ferreira Viana foi pai de cinco filhos, dois dos quais já falecidos e os outros três residentes em Angola. Neto de um português, Viana voltou a Angola por duas vezes, depois de se estabelecer em Lisboa em 1977 - a primeira logo após os Acordos de Bicesse (1991) e a última há poucos anos. Conta Vítor Ramalho que Viana voltou das viagens a Angola "amargurado pela sua terra", mas "sem guardar ressentimentos a quem quer que fosse".

"Era um conciliador, um homem marcante para quem o conheceu bem. É preciso saber honrar este homem que foi precursor do que há de mais profundo na política. Era respeitado por todas as sensibilidades, um grande amigo de Portugal e dos portugueses", afirma Ramalho. O corpo de Gentil Viana ficará em câmara ardente na Casa de Angola, em Lisboa, a partir das 16:00 de domingo.

Na segunda-feira, o féretro segue para Luanda, cidade natal do político angolano, onde será sepultado. A vida de Gentil Viana cruzou-se, em vários momentos, com a de Joaquim Pinto de Andrade. O seu pai - Frederico Viana, filho de um português - e Pinto de Andrade "pai" foram ambos fundadores da Liga Nacional Africana, movimento político que nos anos 40 e 50 se afirmou como impulsionador da identidade africana nas então colónias.

Também pelos calabouços angolanos passou Joaquim Pinto de Andrade, presidente honorário do MPLA, que se manteve até há pouco tempo activo na política angolana. Esteve ligado ao "fugaz" Partido Reformador Democrático (PRD), que obteve um resultado pouco expressivo nas eleições de 1992. Foi durante umas férias em Portugal, em meados dos anos 90, que adoeceu com gravidade, tendo desde então passado longos períodos hospitalizado. Ainda jovem, abraçou o sacerdócio católico, que abandonou mais tarde para se casar com Vitória Almeida e Sousa, médica pediatra; tiveram dois filhos. Como contou à Lusa em Luanda Jerónimo Belo, amigo de Pinto de Andrade, morreu hoje na capital angolana "um grande nacionalista angolano". PDF/RB. Lusa/Fim

Friday, 2 November 2007

DE PAULO LARA, UM TESTEMUNHO PARA A HISTORIA: CHE E ANGOLA

E’ com enorme prazer que tenho a honra de publicar aqui hoje, em primeira mao, um documento unico e exclusivo: as memorias de Paulo Lara sobre o encontro de Che Guevara com Agostinho Neto, Lucio Lara e outros dirigentes do MPLA, que marcou, em 1965, o inicio das relacoes entre Cuba e Angola. Trata-se de um testemunho pessoal, relatado com a sensibilidade e profundidade analitica proprias de quem, tendo observado, vivido e sentido momentos impares da Historia de Angola, de Africa e do Mundo, nao deixa, contudo, que ao seu olhar sobre eles falte objectividade e sentido critico.
Nao menos importante, este documento, contendo fotografias ineditas, constitui tambem um crucial instrumento corrector de alguns estabelecidos relatos historicos que pecarao por vicio de imprecisao e/ou distorcao dos factos em causa. Enfim, sem mais delongas de minha parte, aqui ficam as suas proprias palavras:


Há 40 anos desapareceu uma figura que se tornou lendária no mundo inteiro. Na linguagem agora em voga, poderíamos até dizer “globalizada”. Mas, para os angolanos, não se trata simplesmente desta figura que vemos passar colada aos carros, em algumas bandeiras ou nas tatuagens agora na moda em alguns jovens. Trata-se sobretudo daquele que protagonizou as primeiras relações oficiais entre o Estado Cubano e um Movimento de Libertação Angolano. Tendo sido, com muitos outros, um mero assistente do encontro em Brazzaville, a pedido de alguns amigos, decidi-me a fazer este pequeno relato testemunhando alguns momentos da visita de Ché Guevara à delegação do MPLA naquela cidade, num dos primeiros dias do mês de Janeiro de 1965.


Ao invés de visões sensacionalistas, ideológicas ou imaginativas que têm caracterizado algumas referências feitas ao revolucionário cubano-argentino, procurou-se relatar aqui um momento histórico que ligou aquela figura ao continente africano, e mais particularmente a Angola. Figura extremamente polémica no seio do movimento revolucionário mundial em meados do século passado, Ché Guevara não deixou de ser aquele que estabeleceu as relações diplomáticas de Cuba com vários actores internacionais africanos (e não só), sendo estes, Estados ou Movimentos de Libertação.


Para um melhor entendimento daquele período, e para estimular o interesse à leitura e o estudo da nossa história e não só, incluímos a visão de dois protagonistas e de um historiador. O de Jorge Risquet, que foi o primeiro responsável do destacamento cubano que seguiu para o Congo Brazzaville donde sairiam alguns instrutores para treinar os angolanos, e que posteriormente viria a ser o chefe da missão cubana na República Popular de Angola, que resumidamente explica os principais contactos feitos por Ché no Congo. O do historiador americano Piero Gleijeses que teve acesso a diferentes fontes abertas e ainda confidenciais sobre as relações de Cuba com o continente africano, que se refere ao possível conteúdo do encontro tido, bem como a uma polémica visita realizada a uma base guerrilheira do MPLA por Jorge Serguera, primeiro embaixador cubano na Argélia e que acompanhou Guevara durante parte do seu recorrido africano, cujo relatório teria levado a uma avaliação incorrecta de Cuba sobre as verdadeiras capacidades do movimento nacionalista. Inserimos aqui um contributo nosso baseado em alguns documentos e entrevistas em torno desta visita.


O extracto do relatório de Ché Guevara, elaborado depois da sua retirada das matas congolesas da região dos Grandes Lagos, permite apreciar a ideia geopolítica que tinha para aquela parte do continente africano.
Com base nos dados actualmente existentes, incluímos uma cronologia de contactos havidos entre angolanos e cubanos, no quadro da luta nacionalista, antes do encontro oficial de Brazzaville. A efectivação de um provável encontro entre Ché Guevara e Savimbi durante o seu famoso périplo africano tem sido motivo de referência por alguns historiadores. Achamos oportuno inserir uma análise de Jorge Risquet em que demonstra a grande improbabilidade do mesmo se ter realizado.

Paulo Lara
Luanda 8 de Outubro de 2007


© COPYRIGHT PAULO LARA E CENTRO DE DOCUMENTAÇÃO TCHIWEKA. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.

(Obrigada Paulo)


{Continue a ler aqui: Parte I e Parte II}

E’ com enorme prazer que tenho a honra de publicar aqui hoje, em primeira mao, um documento unico e exclusivo: as memorias de Paulo Lara sobre o encontro de Che Guevara com Agostinho Neto, Lucio Lara e outros dirigentes do MPLA, que marcou, em 1965, o inicio das relacoes entre Cuba e Angola. Trata-se de um testemunho pessoal, relatado com a sensibilidade e profundidade analitica proprias de quem, tendo observado, vivido e sentido momentos impares da Historia de Angola, de Africa e do Mundo, nao deixa, contudo, que ao seu olhar sobre eles falte objectividade e sentido critico.
Nao menos importante, este documento, contendo fotografias ineditas, constitui tambem um crucial instrumento corrector de alguns estabelecidos relatos historicos que pecarao por vicio de imprecisao e/ou distorcao dos factos em causa. Enfim, sem mais delongas de minha parte, aqui ficam as suas proprias palavras:


Há 40 anos desapareceu uma figura que se tornou lendária no mundo inteiro. Na linguagem agora em voga, poderíamos até dizer “globalizada”. Mas, para os angolanos, não se trata simplesmente desta figura que vemos passar colada aos carros, em algumas bandeiras ou nas tatuagens agora na moda em alguns jovens. Trata-se sobretudo daquele que protagonizou as primeiras relações oficiais entre o Estado Cubano e um Movimento de Libertação Angolano. Tendo sido, com muitos outros, um mero assistente do encontro em Brazzaville, a pedido de alguns amigos, decidi-me a fazer este pequeno relato testemunhando alguns momentos da visita de Ché Guevara à delegação do MPLA naquela cidade, num dos primeiros dias do mês de Janeiro de 1965.


Ao invés de visões sensacionalistas, ideológicas ou imaginativas que têm caracterizado algumas referências feitas ao revolucionário cubano-argentino, procurou-se relatar aqui um momento histórico que ligou aquela figura ao continente africano, e mais particularmente a Angola. Figura extremamente polémica no seio do movimento revolucionário mundial em meados do século passado, Ché Guevara não deixou de ser aquele que estabeleceu as relações diplomáticas de Cuba com vários actores internacionais africanos (e não só), sendo estes, Estados ou Movimentos de Libertação.


Para um melhor entendimento daquele período, e para estimular o interesse à leitura e o estudo da nossa história e não só, incluímos a visão de dois protagonistas e de um historiador. O de Jorge Risquet, que foi o primeiro responsável do destacamento cubano que seguiu para o Congo Brazzaville donde sairiam alguns instrutores para treinar os angolanos, e que posteriormente viria a ser o chefe da missão cubana na República Popular de Angola, que resumidamente explica os principais contactos feitos por Ché no Congo. O do historiador americano Piero Gleijeses que teve acesso a diferentes fontes abertas e ainda confidenciais sobre as relações de Cuba com o continente africano, que se refere ao possível conteúdo do encontro tido, bem como a uma polémica visita realizada a uma base guerrilheira do MPLA por Jorge Serguera, primeiro embaixador cubano na Argélia e que acompanhou Guevara durante parte do seu recorrido africano, cujo relatório teria levado a uma avaliação incorrecta de Cuba sobre as verdadeiras capacidades do movimento nacionalista. Inserimos aqui um contributo nosso baseado em alguns documentos e entrevistas em torno desta visita.


O extracto do relatório de Ché Guevara, elaborado depois da sua retirada das matas congolesas da região dos Grandes Lagos, permite apreciar a ideia geopolítica que tinha para aquela parte do continente africano.
Com base nos dados actualmente existentes, incluímos uma cronologia de contactos havidos entre angolanos e cubanos, no quadro da luta nacionalista, antes do encontro oficial de Brazzaville. A efectivação de um provável encontro entre Ché Guevara e Savimbi durante o seu famoso périplo africano tem sido motivo de referência por alguns historiadores. Achamos oportuno inserir uma análise de Jorge Risquet em que demonstra a grande improbabilidade do mesmo se ter realizado.

Paulo Lara
Luanda 8 de Outubro de 2007

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(Obrigada Paulo)


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