ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (11)
«Sei que os meus colegas da justiça podem não gostar disso, mas hoje temos situações em que as decisões são feitas por pagamentos. Quer dizer, uma das partes compra o juiz para dar uma determinada sentença». «Há dias tomei conhecimento de um caso que, a ser verdade, é gravíssimo: que há colegas advogados que contratam juízes como seus consultores e que depois, num processo, o juiz da causa é o consultor do processo e dá assessoria jurídica ao advogado como conduzir o processo. Isto é grave do ponto de vista deontológico».
«Se nós hoje virmos os contratos internacionais (aqui no país), todos eles baseiam-se numa cláusula que é a seguinte: em caso de litígio os processos não são resolvidos em Angola, vão todos para a resolução pela via da arbitragem internacional. Porquê? Porque os investidores não confiam na justiça em Angola. Os próprios nacionais hoje também estão a ir cada vez mais para as cláusulas de arbitragem porque não confiam no funcionamento da justiça em Angola».
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Varias reaccoes as acusacoes de Raul Araujo foram ja’ registadas, das quais destaco as de Imaculada Melo, que, em “A dimensao democratica da nossa hipocrisia”, sobrepoe a analise da questao as igualmente contenciosas declaracoes de Bob Geldof recentemente em Lisboa:Julgo que é neste contexto, e não dentro dos marcos do colonialismo que pelos vistos deixou feridas incuráveis mais profundas do que o imaginável no "complexo do colonizado", que o músico irlandês Bob Geldof, no decorrer da gala promovida recentemente em Lisboa pelo semanário "Expresso" e pelo grupo do Banco Espírito Santo, se julgou no direito de tecer considerações sobre a situação em Angola a título de exemplo, por acaso pertinente, na medida que é em Angola onde se compram casas mais caras que as do bairro mais luxuoso de Londres; onde ter uma fortuna avaliada em cinco milhões de dólares já não é significativo; onde uns sendo apenas funcionários públicos se tornaram "milionários". Em contrapartida continuam- se a mobilizar doadores internacionais e os índices de pobreza aparecem entre os piores do mundo.
(…)
Afinal a justiça no nosso país vai muito mal, constata-se agora em tempo de eleições. Mas sempre esteve, apesar de ser uma questão de Estado. Esta é a minha opinião que manifestei aos órgãos competentes deste país, denunciei situações impensáveis, inadmissíveis e surrealistas que ocorriam e que mais do que uma falta de aptidão demonstravam e indiciavam um estado de perversão em que a própria justiça tinha caído logo fazendo com que o país estivesse em estado de perigo que conduziria certamente á anomia. Mas fui mal entendida e propositadamente mal interpretada até mesmo pelos próprios colegas da direcção da Ordem dos Advogados de Angola à qual já pertenci e não raras vezes até por amigas pessoais. Hoje aqui ao constatar tão profunda denúncia e preocupação de quem de direito, não posso deixar de proclamar o meu direito de denúncia independentemente da minha opção partidária, porque não é exclusivo de ninguém em particular, antes pelo contrário, é uma manifestação de consciência que assiste a todo o cidadão angolano.
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Jean Pierre tem 62 anos, o cabelo grisalho, celibatário empedernido, director'de uma agência de publicidade, comemora com um jantar entre amigos no seu magnífico apartamento na Bastilha, o 40° aniversário da Revolta de Maio de 68. Agarrou uma pedra de granito negro, encima da lareira, e virou-se
para os seus convivas (todos soixante-huitards): " Lembram-se? Ainda tenho uma pedra como recordação..."
Todos se lembravam. Brindaram com champanhe, por todas as pedradas que choveram contra a polícia anti-motim do general Charles De Gaulle. Foi o tempo mais lindo e autêntico da vida deles. "E agora, há dias vem o Sarkozy, dizer "que é preciso aniquilar a memória de 68" continuou ele " sem sequer pensar que se não fosse o Maio1 de 68, ele provavelmente não teria casado com a Carla Bruni".
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"Um pandemónio! Um fim do mundo em cuecas," ri Jean Pierre, e depois foi uma festa, pá, quando a polícia de choque fecha as pontes do Sena que acedem ao Quartier Latin, levantámos barricadas nas ruas com carros incendiados, fabricamos os nossos primeiros cocktails Molotov. Eu era um guerrilheiro urbano,
entre tupamaro e vietcong, tinha um poster do Ho-Chi-Min.
"E à noite, estavas com aquela bonitona de Nanterre, se bem me lembro, era um pedaço de mulher..."
"Tu és louco? Ela está aqui, olha, Maddie, (é aquela gordinha, que estava em psicologia). Não foi este gajo que tentou converter-te ao regime albanês para ir contigo para a cama?"
"Não sei! Eram tantos que eu tinha que libertar das tutelas freudianas da mamã e do papá!... Eu era jovem
e tinha a convicção de uma ONG. Pecados da juventude..."
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Uma nova ordem social e de mentalidades começara. A geração do baby-boom do pós guerra rebentava
com as utopias e preferia um bom "charro" a escutar os Rolling Stones, Beatles, Ike and Tina Turner que os sisudos discursos dos mas velhos. "The times are changing", cantava Bob Dylan. Eu ainda tenho guardada a minha camisa de mil-flores!
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Passaram-se 40 anos. A maior parte dos " soixante-huitards"- que abalaram o mundo nos anos sessenta, os Hippies, os Black Panthers, as mulheres do Women's Lib, as Brigadas Vermelhas, os Guerrilheiros da América Latina, de África, não obstante o seu relativo insucesso, conseguiram dar a este mundo um rosto mais humano. Talvez possamos (todos), com o seu exemplo, esquecer novos e velhos fanatismos e a intolerância. E humanizar a Terra. E viver.
(…)
De Paris, aos trambolhões, sobressaltos e agitada- epicentro dos acontecimentos desse ano prodigioso e inesquecível- à Califórnia da contracultura, passando pela fúria estudantil em Nanterre e Berkley ou à celebração de Woodstock, o que verdadeiramente caracterizou os anos 60 não foi só o desejo de ruptura e o ressurgimento irrepreensível de novas linguagens, posturas e comportamentos; foi também o desenvolvimento do espírito de generosidade e de solidariedade, foi ainda a rebeldia ardente e autêntica, o grito de fúria e de revolta e o reacender de uma alegria incontida contra um mundo desesperadamente caduco, desajustado, intolerante e autoritário. E esse mundo- que não morreu- vem, de vez em quando, em ondas como o mar.
Entretanto, em Angola, a geração anterior à minha não tinha escolha: um futuro de subalternidade permanente, ou o sacrifício consentido da construção das avenidas largas para que os "filhos da terra" circulassem um dia livres de constrangimentos. Maio de 68 efectivamente não passou por aqui.
Em Angola lutava-se pelo regresso do país à história, para recorrer à expressão feliz de Mário de Andrade.
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Ainda no Novo Jornal, uma entrevista com Antonio Ole:


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