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CARPE DIEM
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August 16, 2008

LUANDA DESAPARECIDA

Avenida dos Restauradores



Calcada de Sao Miguel


Rua Pereira Forjaz

Mercado da Caponte

Postais da serie "Luanda Antiga" editados na decada de 80, em Luanda, pela UNAP - Uniao Nacional dos Artistas Plasticos

[E'... os edificios, incluindo os mercados, morrem... seja de morte morrida ou de morte matada... independentemente dos 'tempos historicos']

August 14, 2008

KINAXIXE (R.I.P.)


Desde a minha ultima morada em Luanda, no Largo do Kinaxixi, tenho vivido, entre outros lugares, naquela que pode, seguramente, ser considerada a cidade mais conservadora do mundo: Londres. Uma das manifestacoes desse conservadorismo e’ a forma como o planeamento, a edificacao, a arquitectura e o ambiente construido ('the built environment’ e’ uma disciplina que aqui tem uma faculdade inteira de pelo menos uma universidade a ela dedicada) sao levados muito a serio. Esta e’ uma cidade tradicionalmente construida extensiva e horizontalmente (por oposicao a intensiva e verticalmente) e onde as normas de construcao, manutencao e reconstrucao dos edificios sao para ser respeitadas a risca, desde os materiais usados (por norma o tijolo de tons entre o ocre, o castanho e o vermelho), a altura (basicamente, pode dizer-se que qualquer proposta de construcao de um edificio mais alto que o Big Ben e’ severamente escrutinizada e muitissimo raramente aprovada), sob pena de os edificios infractores poderem vir a ser demolidos, por mais dispendiosos, vistosos ou funcionais que se apresentem e por mais famosos e conceituados que sejam os arquitectos ou engenheiros neles envolvidos. As excepcoes mais notorias a essas regras sao as torres de habitacao social construidas nas decadas de 60 e 70 do seculo XX, em varias areas da cidade, para suprir as necessidades habitacionais criadas pelo crescimento populacional provocado pelo baby boom do post-Segunda Guerra Mundial, muitas das quais, entretanto, ja’ foram demolidas ou estao em vias disso.

No entanto, e precisamente por ser levada tao a serio, a implementacao das politicas de manutencao da arquitectura tradicional da cidade nao e’ deixada simplesmente ao sabor dos ventos, mares e calemas, ou aos caprichos, interesses, fantasias e preconceitos politico-ideologicos dos que podem gritar mais alto. Pelo contrario, existem organismos centrais e locais especificamente encarregues de velar pelo respeito dessas politicas, as quais sao definidas por leis e regulamentos, entre os quais se destaca um sistema de listagem e graduacao de acordo com estritos criterios de localizacao, significacao historica e valencia cultural, que impede que determinados edificios sejam construidos em determinados locais ou que outros possam ser estruturalmente alterados ou demolidos. Mas, em ultima instancia, o sucesso da implementacao dessas politicas depende, como em qualquer outro caso, da presenca, ou ausencia, de determinados factores, quer de ordem endogena (e.g. a nao degradacao dos edificios para la’ de qualquer possibilidade de reabilitacao), quer de ordem exogena (e.g. a ausencia de catastrofes, sejam elas naturais, ou provocadas, como guerras).

A existencia e a defesa de tais politicas de conservacao nao impede, todavia, que a arquitectura da cidade se adapte a novas necessidades economicas, tendencias arquitectonicas e/ou realidades socio-culturais, pelo que projectos ineditos e inovadores sao ocasionalmente aprovados. Assim, embora dificilmente se venha a ver algo tao dramatico como a piramide de vidro adjacente ao Louvre, em Paris, ser construido nas imediacoes, digamos, do Buckingham Palace, ha’ alguns edificios, embora se possam contar praticamente pelos dedos de uma mao, que ao longo das ultimas decadas teem conseguido, com sucesso, quebrar os moldes do landscape londrino e impor-se como landmarks na skyline da cidade, e.g. o Centre Point (este embora, nos ultimos tempos, marcado para demolicao por ter deixado de se coadunar com os principios e valencias socio-culturais que inicialmente garantiram a sua edificacao), o Gherkhin, a BT Tower, ou o conjunto do Canary Wharf.

Mas, voltando ao Kinaxixe (refiro-me aqui ao edificio demolido nos ultimos dias e nao ao espaco geografico do Kinaxixi que historica e culturalmente lhe antecede), em texto que escrevi por altura do anuncio, ha’ cerca de quatro anos, dos planos da sua transformacao (texto esse de que ainda ando a procura e que o facto de ate’ agora nao o ter encontrado me sugere que talvez o tenha publicado como comentario num sitio como o Angonoticias, ou numa das networks ou foruns de discussao em que na altura ocasionalmente participava), manifestei duas preocupacoes fundamentais: uma com o futuro da/os vendedora/es que nele ganhavam a sua vida e outra com o destino que se lhe pretendia dar, ou seja, a sua transformacao num shopping centre. Em relacao a primeira, sugeria que, caso a/os vendedora/es tivessem mesmo que ser evacuados do mercado, que os compensassem devidamente, quer com locais alternativos para a continuacao dos seus negocios, quer financeiramente, para que pudessem, caso assim o decidissem, recorrer a outras formas de ganhar a sua vida. Em relacao a segunda, sugeria que o Kinaxixe fosse transformado num mercado como o Covent Garden de Londres.

O Covent Garden e’ um mercado tradicional londrino que, durante grande parte da sua historia de pelo menos 3 seculos, era exclusivamente um mercado de flores, frutas e vegetais mas, com a crescente tercializacao da economia, a transformacao do local em que se encontra numa zona menos residencial e mais de servicos e de lazer e a gradual satisfacao das necessidades alimentares dos residentes locais por super-mercados, restaurantes e lojas de conveniencia (onde, by the way, o bife de atum e’ consideravelmente mais caro e melhor apreciado do que o ‘outro bife’), foi-se diversificando para o comercio de outros produtos e a integracao de algumas das lojas de marca tipicas das principais high streets da cidade, isto e’, foi-se transformando organicamente num shopping center, sem contudo perder a sua traca arquitectonica original, nem a sua atmosfera de mercado tradicional. Para alem do mais, tal como o Covent Garden, que esta’ rodeado de museus e outros edificios historicos no centro de Londres, o Kinaxixe tambem esta’(va) rodeado de outros edificios historicos e museus no centro de Luanda… E essa, propunha eu, seria uma das alternativas de transformacao do Kinaxixe, sem a criacao de desnecessarios custos humanos, ambientais ou patrimoniais.

A outra alternativa, que parece ser a defendida por alguns, seria o status quo, ou seja, mante-lo como era e como estava. Ora, e deixando de lado a 'brilhante ideia' segundo a qual "Africa nao deve ter shopping centers" (...), ha’ aqui varias questoes a considerar. Em primeiro lugar, que politicas, leis e regulamentos existem para a garantia da manutencao de tal status quo? Nao tenho conhecimento de nenhuns, mas caso existam, que mecanismos institucionais e sociais existem para a garantia da sua implementacao? A julgar pelas vozes que, como a minha, desde o inicio se manifestaram contra as intencoes do grupo privado que se decidiu pela transformacao daquele mercado e, finalmente, pela sua demolicao, nenhuns. Evidentemente, ha’ que salvaguardar aqui o que parece ser um facto, do qual apenas tive conhecimento muito recentemente: a impossibilidade de recuperacao das estruturas do edificio, de acordo com os responsaveis pela obra.

Mas, independentemente desse facto aparentemente incontestavel e para alem das vozes e do tom ou intensidade com que porventura se tenham ou nao manifestado ao longo desse tempo, urge colocar algumas questoes mais criticas sobre esse evento: e.g. nos quatro anos (lembremo-nos que, em condicoes normais, esse e’ o tempo de duracao de uma legislatura), que mediaram o anuncio da decisao e o acto final a que se assistiu nos ultimos dias, tera’ algum partido da oposicao com assento parlamentar interpelado o governo sobre os planos em questao? Tera’ algum deputado, de qualquer partido, agindo independentemente ou em associacao com outros, tomado tal iniciativa? Tera’ alguma organizacao da sociedade civil activa e sistematicamente advogado essa causa e/ou agido no sentido de impedir o que acabou por acontecer? Tera’ algum cidadao, agindo individualmente ou em grupo, tomado qualquer iniciativa seria naquele sentido? Terao quaisquer representantes de grupos de interesses economicos, culturais (em especial os 'premios nacionais de cultura' e dentre estes muito particularmente alguem que nao perde uma oportunidade para se auto-proclamar "mais angolana que a Angolanidade!"...), politicos, ideologicos ou outros, considerados afectados, directa ou indirectamente, por aquela medida, submetido alguma peticao, ou pressionado de outro modo, as autoridades competentes para evitar a consumacao daquele acto?

Nao tenho noticia de que qualquer dessas perguntas possa ser respondida positiva e satisfatoriamente. Ou seja, ao contrario do que se passa no pais do Covent Garden, ha’ um vacuo institucional no nosso sistema de tomada, implementacao e contestacao de decisoes que, nao dando lugar a accoes concretas e construtivas no sentido de se impedir que tais decisoes produzam resultados socialmente adversos e insatisfatorios aos mais diversos niveis, acaba por ser preenchido por toda a sorte de irracionalidades, improperios, histerias, racismos, oportunismos, sensacionalismos e ataques pessoais depois dos factos consumados…

Dito tudo isso, devo dizer tambem que a minha oposicao inicial ao projecto de transformacao (na altura nem sequer se falava ainda em demolicao) do Kinaxixe, para alem de uma preocupacao objectiva de ordem etica e humanitaria em relacao aos futuros modos de sobrevivencia da/os vendedora/es e suas familias, se devia menos a factores objectivos do que afectivos, em resultado do meu sentimento de ‘pertenca’ ao local e ao habito de, desde a infancia, quando estudava na Escola 8, que fica ali muito perto, ver ali o mercado, ou de ocasionalmente ir la’ as compras com as mais velhas, ou, na altura do boicote aos exames no Sao Jose’ de Cluny, em 74/75, para la’ fugir dos tiros (para o ar...) da tropa portuguesa e, alguns anos mais tarde, de o ter mesmo ao lado do meu local de trabalho, na Angop… De outro modo, durante os varios anos que ali morei no Largo do Kinaxixi, depois da independencia, em termos objectivos, aquele mercado, ao contrario dos outros mercados existentes na cidade, ja’ nao satisfazia qualquer necessidade economica, cultural, ou social dos residentes locais ou do resto da cidade: praticamente nao se vendiam la’ ja’ quaisquer produtos alimentares e as lojas e outros espacos ainda com alguma serventia nao se dedicavam exactamente ao comercio de bens ou servicos indispensaveis a sobrevivencia dos seus utentes.

Diga-se tambem que o Kinaxixe nunca foi um mercado verdadeiramente popular ou tradicional – populares e tradicionais eram e sao mercados como o Sao Paulo, os Kongolenses ou o Xamavu e, mais recentemente, o Roque Santeiro e tenho poucas duvidas de que, a excepcao deste ultimo, a demolicao de qualquer deles teria um impacto economico e socio-cultural na cidade bastante mais dramatico do que a do Kinaxixe. E’ do Sao Paulo, por exemplo, que trago referencias mais marcantes e consistentes ao longo da minha vida, desde ir la' apanhar ingredientes para cozinhar nas ‘brincadeiras de casa’ da minha infancia na Rua de Benguela, ao fascinio pelas colas, gengibres, missangas, pembas, takulas, xas de kaxinde e outros produtos da cultura tradicional Africana que la’ sempre se venderam e que eu saiba, 'por qualquer razao', nunca o foram no Kinaxixe, a cruzar-me com a Joana Maluka a caminho do mercado ou da igreja… E’ com o dos Kongolenses, por outro exemplo, que tenho as maiores afinidades culturais e afectivas: desde as cores dos panos do Kongo e dos cachos de dendem, ao cheiro dos micates a serem fritos, da banana a ser assada, do bagre fumado e da fuba de bombo branquinha, ao sabor da kikwanga, da kizaka ou da mwamba de ginguba acabadas de fazer... E tenho a certeza que esse tipo de relacao afectiva, cultural, historica e funcional com os mercados verdadeiramente populares, tradicionais e culturais de Luanda marca o imaginario e a vida quotidiana de bastantes mais cidadaos Angolanos do que aqueles agora objectiva ou subjectivamente afectados pela demolicao do Kinaxixe.

Em suma, o Kinaxixe – que sempre foi destinado a classe media-alta do centro da cidade, que nas ultimas decadas tambem passou a satisfazer as suas necessidades alimentares basicas naqueles mercados populares ou, mais recentemente, nas lojas de elite da baixa de Luanda, classe essa a qual tambem se destina o projectado novo shopping centre, pelo que nao ha’ conflitos socio-culturais fundamentais entre o status quo e a proposta alternativa (excepto, talvez, que a composicao dessa classe se tera’ alterado significativamente em tempos mais recentes…) – tornou-se ao longo das decadas desde a independencia, em grande medida, um edificio morto para todos os efeitos praticos, utilitarios e socio-culturais, preenchendo apenas um lugar no imaginario de uma parte dos Kaluandas (e, provavelmente, de outros que, por nunca terem realmente vivido a maior parte, ou sequer alguma parte significativa, das suas vidas em Luanda e, em qualquer caso, certamente nao no Kinaxixi, dele apenas teem imagens livrescas e confabuladas, memorias emprestadas e deturpadas e ate' mesmo completamente inventadas, para ja’ nao falar nos que nunca foram dados a frequentar quaisquer mercados porque sempre tiveram empregada/os que o fizessem por eles). Ora, acontece que o imaginario, e por isso mesmo ele tem esse nome, quando nao impedido disso por empecilhos como o racismo, a ideologia, a hipocrisia ou a esquizofrenia, tem as suas formas de criar, re-criar, adaptar-se e afeicoar-se a novas imagens: como essa do novo proposto edificio, contra o qual nao tenho objeccoes inconciliaveis, assumindo que os tecnicos que o projectaram saibam bem o que estao a fazer com tanta vidraca e que de facto o facam tao ‘verde’ quanto as imagens do prototipo sugerem.

Claro que me ocorrem possibilidades arquitectonicas mais consentaneas com a historia, arte e cultura locais, mas para isso, a falta de exemplos nacionais, teria que fazer uma outra digressao, nao ja' por Londres, mas por algumas das principais cidades Sul-Africanas e de outros paises da Africa Austral. E tais possibilidades ainda se podem vir a concretizar no vasto espaco geografico e populacional circundante ao centro da cidade, caso em que depois sera’ uma questao de competicao por gostos e preferencias esteticas, funcionalidades socio-economicas e valencias culturais entre tais possiveis novos espacos e propostas arquitectonicas e o que agora nos e’ apresentado em substituicao do Kinaxixe, competicao em resultado da qual este podera’ vir a ter a mesma sorte agora destinada ao Centre Point de Londres…

Terminada esta longa digressao pelos escombros do Kinaxixe, onde e’ que entram aqui argumentos de ‘nacionalismos racicos’ nao e’ exactamente uma questao que me escape… Mas essa e’ uma ‘peixeirada’ de um ‘mercado’ em que nao pretendo ir apanhar, nem comprar nada e nem sequer entrar, ate’ porque os seus participantes, vociferando histrionicamente contra o desaparecimento de um certo Quinachiche encimado por uma certa Maria da Fonte e de tudo quanto seja reminiscente do ‘tempo da outra senhora’, sao muito dados a ‘ameacas de morte’ e sao gente para se levar muito a serio nessas coisas: afinal eles estiveram envolvidos, directa ou indirectamente, na maior matanca a que a Historia contemporanea Angolana ja’ assistiu… E, mesmo sabendo e tendo experimentado os efeitos do seu “braco comprido”, continuo na minha: “estou no mundo, a esquizofrenia fica longe, na cultura”!

O Kinaxixe morreu! Longa Vida ao Kinaxixi!!!

August 12, 2008

E JA' K'ESTAMOS EM MARE' DE (DES)KONSTRUCOES...

[AKI]

August 10, 2008

OH XENTE!

O Kinaxixe…

Vai virar Quinaxixe!

Mas nao se xateiem muito nao (pelo menos nao mais do ke eu ja’ me xatiei desde ke esses planos foram anunciados ha’ varios anos – xaticia essa ke manifestei em eskrito publikado algures…) porke:

… assim ke dizem ke as novas torres a beira-mar plantadas, komo essa ai da Baia, vao ruir porke o mar gosta de reklamar o ke e’ seu, akela Kianda do Kinaxixi ke nunka ke ainda fez ruir nenhum predio ali no largo – nem o ‘meu’ ke fika mesmo ao lado da kacimba dela e onde ke ainda tem la’ mo kubiku ke me kassumbularam kum ele nuns tuga bue' malaikes e buerere' karrulas ainda por cima e ke agora dizem ke tem la’ uns xinokas (ja’ viram so’ o mo azar? Esses anos todos se eles me pagassem so' mbora mo kumbu essa hora eu ja’ ke podia subir tambem na torre da Baia, ne’? Pelo menos ate' ela ruir...); nem akele eskeleto ke lhe plantaram mesmo em cima da kacimba dela e ke por isso mesmo ela nunka ke deixou ke lhe kompletassem – num sei se ela vai deixar esse novo Quinaxixe dai vingar (ou sera’ Quinachiche?)… num sei nao!

Mas se kalhar essa e' uma maka pra Kianda e a Mma Nzinga resolverem la' no Kinaxixi delas, ne'?

[Mais dikas aki e aki]

July 18, 2008

ESCAPE FROM LUANDA


Once again, my good friend and ubber blogger Bill wakes me up for some great stuff I’ve been missing.
This time it's a documentary film about the musical passion and ambitions of a group of students of the Music School of Luanda, the capital of Angola.
Here are the links he sent to me and that I strongly encourage everybody to check:

July 03, 2008

NOVA MUKANDA DO "ILUSTRE"

Meu Kamba Kinito;

Já deves estar a me falar mal né? Epá sabes como é a vida aqui está a ficar apertada, e os kumbús cada vez mais coxito. Agora fui mas arranjar uma 2ª dama, uma miúda boa ali do BO e que está a dar cabo da minha cabeça, e do meu bolso (é toda hora dinheiro para pagar Universidade, Escola de Condução, e saldo para o telefone e outros mambos e quê).
Mano a nossa Luanda aqui continua na mesma, só que agora deixou de ser a cidade da Kianda passou a ser “ Noanda” a cidade que não anda! Há umas semanas atrás aqui na zona da Boavista um camião contentorizado avariou e aquilo é que foi um caos, nenhum carro passava, um autêntico engarrafamento. Naquele dia era mesmo “ Angola em Movimento”, uma autêntica maratona todo mundo a apear.

É meu mano a Engarrafobia (horror aos engarrafamentos) uma doença que já esta a tomar conta de Luanda. Longas filas de carros, estradas esburacadas, ruas fechadas tudo mal. S. Tomas que manda nos Transportes no ajuda só uê, kota HC das Obras Públicas deixa ainda um pouco de lado as obras privadas e se preocupa também com as obras públicas, deixa também de rodeios e dos Rodeos e resolve só as makas das estradas meu! Tia Xica de Luanda, você que está com a bola toda, que arrancaste com toda a força (ou é só força do inicio, ou é por causa das eleições), resolve os mambos e pelos menos nos promete: Estradas novas em Setembro.
Por causa destas porcarias dos engarrafamentos, os candengues lá do bairro já chamam o tio Zé Domingos de: “ Man Mbaia”. É porque o kota anda a cortar caminho para fugir os engarrafamentos, por as estradas principais (as chamadas primárias, pois aqui há as secundárias, terciárias e etc.) andam todas congestionadas e ele tem de estar a fugir deles e entrar pelos becos, levando-o a fazer o movimento típico dos taxistas: A Mbaia. Por isso agora nome dele virou Man Mbaia.

Então Kinito até na igreja o engarrafamento é também motivo para te sacar kumbú. Então no outro dia o pastor de uma igreja de nome Universal – Única e Verdadeira Salvação, ou também Unidos Vamos te Enganar e Roubar o teu Salário. Começou já o culto assim (É então angolano mas está a falar tipo é brasileiro, porque lhe disseram que o sotaque brasileiro é melhor quando se trata de enganar o povo):

- «Meu irmão, você que mora ali no Benfica, você que enfrenta engarrafamento todo o dia, você que não tem Jesus na sua vida. Hoje eu tenho uma palavra para você: Jesus vai lhe mostrar o caminho, vai lhe abrir as estradas e acabar com o engarrafamento na sua vida.
Porque esse engarrafamento meu irmão é coisa do Demónio! É o Demónio que não quer que você chegue cedo ao serviço, é o Demónio que provoca o engarrafamento para lhe atrasar a sua vida. Por isso está amarrado o engarrafamento na sua vida! Meu irmão, não pense que o engarrafamento que você enfrenta todo o dia é culpa do Governo, não! Ele é obra do Demónio. Por isso o Pastor Jonas vai impor as mãos, e vocês vão fechar os olhos e depois você vai contribuir com o seu dinheirinho para a campanha de combate ao engarrafamento».

Já viste Kinito, hoje já engarrafamento é coisa do Demónio? Não é mas culpa do Governo, das estradas esburacadas, dos taxistas e etc..? Aqui mesmo ganhar dinheiro é fácil porra pá.

Agora mudando de assunto, me perguntaste como ficou então o inquérito sobre a derrocada da DNIC? Tens razão desde o dia 29 de Março que o prédio desabou e até agora nada né? Já está quase a fazer 90 dias. Olha os candengues aqui da banda até já se anteciparam aos inspectores e apresentaram 3 propostas para o resultado dos inquéritos:

1ª Proposta (apresentada pelo dengue Netinho Kiolho) cujo resultado é: DNIC – Devíamos Necessariamente Incriminar o Cerqueira.
2ª Proposta (apresentada pelo dengue Kito Bebucho) cujo resultado é: DNIC – Dom Ngongo Ignora Cidadãos
3º Proposta (apresentada pela Minga do Tio Manuel) cujo resultado é: DNIC – Deixa o Ngongo Inventar Conversas.

Mas a proposta mesmo que ganhou todos os mambos foi a apresentada pelo Zezito Nguimbola, e que reuniu consenso quanto ao resultado final deste inquérito cujo resultados andaram no segredo dos Deuses:

DNIC – Detectamos Negligência e Incompetência Crónica.

May 06, 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (9)

Em entrevista ao Novo Jornal, Pepetela fala do seu novo livro, de Luanda, de Angola e do (quase fim do) Mundo:

"(…) Diria que alguns escritores africanos mais sortudos têm sido divulgados (em Portugal). Mas são ainda muito poucos se pensarmos no muito que se produz. Quanto a ressentimentos pós-coloniais, eles continuam a existir dos dois lados.
(…)
Contrariamente a muitos, não penso que o escritor, como tal, seja obrigado a ter um papel relevante na sociedade. Cada um sabe de si, mas é claro que em países onde tudo está por fazer, os escritores, se por acaso tiverem meios de serem ouvidos, podem participar, sobretudo fazendo perguntas, apresentando problemas e questões. As respostas já não serão para eles, mas para os administradores, políticos, etc. Em suma: "Dar a César o que é de César..."
(…)
Cada vez há mais Luandas, com inovações recentes, como a "Luanda dos condomínios de classe média". A Luanda dos musseques, por outro lado, tem cada vez mais dificuldades em sobreviver. Aliás, a parte central de Luanda está a mussequizar-se com as torres novas que se constroem, porque musseque deve ser compreendido na sua acepção social, de exclusão. E esta é uma cidade de exclusões como talvez não haja outra.

(…)
As pessoas continuam a vir cá para fazer negócios e já não só os que se relacionam com o petróleo. Aliás, não é o petróleo que atrai mais pessoas a Angola. São os negócios sujos com os diamantes, as lavagens de dinheiro, as empresas fantasmas, etc. Vêm aqui vender tudo, raramente comprar. Os aviões estão sempre cheios e basta olhar para os olhos de quem vem: brilham a sonhar com a árvore das patacas. É a nossa triste sina que fazer?Angola tem apresentado números importantes a nível da macroeconomia e há esse corre-corre. Mas o que é que ganhou o povo até agora com isso? Cava-se o fosso entre os muito ricos e os muito pobres. Se não começar a ser melhor repartido isso que se diz ser o 'fabuloso' crescimento de Angola, preparemo-nos para ver o circo pegar fogo."

[Aqui]



No SA, Manuel Rui escreve uma 'cronica desinvencionada' sobre Luanda:

«Luanda debruçada sobre o mar» assim começa uma lindérrima canção desenhada e pintada por Eleutério Sanches, que os mais novos deviam ouvir com atenção, mais a interpretação do «Duo Ouro Negro», que chegaram a ser trio e acho que o que abandonou ainda está vivo e por cá. Aos assuntos. Tem muita canção a falar de Luanda como cidade maravilhosa. O que agora não condiz e também não condizia antes porque a maravilha deve ser mais no chão do que de helicóptero. Ora, Luanda, nem no tempo do colono tinha jardins, verde e árvores como se encontra, por exemplo, em Maputo ou Harare. Luanda sempre foi a descoberta colonial do cimento armado e enquanto nos quintais da então Nova Lisboa (Huambo), Benguela ou Sá da Bandeira (Lubango), os colonos enfeitavam os quintais de verde, aqui, cimentavam os quintais. Essa mal herdança de muito cimento, muita gente, muito escriturário, burocracia e tratamento (hoje chamam engenharias financeiras!) das riquezas que vinham das outras províncias (mato!), foi andando e, com a independência, guerra e paz, acabou neste desastre que já não pode ser chamado de ecológico mas patológico, assim: «Olha, desta vez parece que vai porque a Governadora é uma gaja com…» «Salada?» «Sim. Mas não é de alface, vocês os homens é que pensam que a salada é só…»

boomp3.com

[Aqui]

Pensavam que a "Maka de 1 Jose' contra 3 Antonios mais os Mukuaxis" ja' acabou? Pois desenganem-se: Joao Pinto diz, no JA, que
'Comparar Neto com Senghor e' perfeita ignorancia':

“Senghor era um poeta profissional, pretendendo uma luta intelectual, literária sem o uso de armas, procurando manifestar a eterna doçura que o colonizado devia apresentar como assimilado dócil, cristão ou servil, buscando um parentesco remoto e humilhante com uma pretensa paternidade biológica ou cultural, segundo Senghor (1975) aquando da apresentação da sua dissertação "Lusitanidade e Negritude" na Academia de Ciências de Lisboa, no dia 20 de Maio de 1975;
(...)
Neto escreveu num período curto (1947/60), foi um poeta sofrido, angustiado, sem tréguas, sofreu a luta ideológica interna com as convicções políticas socialistas inerentes às suas alianças conjunturais, lutou para unificar a nação, teve resistência e dissidência dentro do seu Governo, depois de proclamar a Independência, aliou-se aos russos e cubanos para combater o racismo, tribalismo e o regionalismo, Apartheid tendo sido por isso, um poeta que nunca teve sossego, escreveu atendendo as suas circunstâncias, pois, os homens são seres influenciados pelo tempo, espaço e espirito, escreveu atendendo os seus valores, as suas aspirações. A "negritude sengoriana é uma máquina de guerra onde o destinatário é o servilismo definitivo intelectual do negro" segundo Mongo Beti & Odile Tobner, ob. Cit. Respondemos à título pessoal.”

[Aqui]

Na sua Kuluna semanal, Wilson Dada, da-nos conta:

i. de como a (des)informacao e' feita na TPA

"Na TPA são os editores de serviço (e não os factos) quem, afinal de contas, faz a informação acontecer, de acordo com as suas preferências, orientações e outros critérios que, definitivamente, não constam de nenhum manual da especialidade nem são discutidos em nenhum seminário sobre desempenho profissional. A isto, com todas as letras, chama-se CENSURA!"

ii) de como o inusitado assalto a '50-cent' em pleno palco se inscreve no quadro de alta criminalidade que se vive em Luanda

"No meio do debate político que a criminalidade, inevitavelmente, alimenta, destaca-se a policia como sendo a única instituição que nesta altura está efectivamente a fazer alguma coisa de concreto para evitar o pior, com todas as falhas que se lhe possam apontar e que são mais do que muitas."

iii) da quarta edicao do almoco evocativo do 27 de Maio de 1977

"Está já em marcha este projecto de confraternização entre os sobreviventes, familiares e amigos e de homenagem à memória de todos quantos foram forçados a partir antes do tempo, se mantenha de pé. O almoço vai acontecer na segunda-feira dia 26 de Maio algures na baixa luandense. O apelo de sempre dirigido a todos quantos entendem que este encontro faz sentido, mas que por razões diversas, incluindo as politico-partidárias, não poderão estar presentes."

[Aqui]

Finalmente, em varios orgaos de imprensa podem-se encontrar ecos do Festival Internacional de Teatro e Artes a decorrer de 8 a 30 deste mes, em Luanda, para assinalar o vigesimo aniversario do grupo Elinga-Teatro:

"O grupo Elinga Teatro (do umbundo elinga significa acção, iniciativa, exercício) foi criado a 21 de Maio de 1988, sob a direccao de José Mena Abrantes. A sua existência inscreve-se, no entanto, numa linha de continuidade iniciada em 1975/76, com o grupo Tcinganje e continuidade em 1977/80 com o grupo Xilenga Teatro e em 1984/87, com o grupo de Teatro da Faculdade de Medicina de Luanda."

[JA; ANGOP; Angolense]

April 15, 2008

OS PRUBULEMA KE'STAMOS KU ELES...

Este post destina-se primordialmente a parabenizar o Salucombo Jr. pelo seu terceiro aniversario na blogosfera. Parabens Attelier dos Mangueirinhas!
E' tambem, para mim, uma oportunidade para zuelar um pouco sobre a questao da preservacao da arquitectura urbana em Luanda e em Angola em geral, que tantos debates tem gerado, na blogosfera e nao so'. As consideracoes que se seguem constituem uma versao editada de um comentario meu no Attelier dos Mangueirinhas, em resposta ao Salucombo Jr., no contexto deste post dele, de onde as fotografias aqui expostas tambem foram tomadas de emprestimo.

1. Todas as ex-potencias coloniais se envolvem, de uma forma ou de outra, na defesa dos seus patrimonios culturais no mundo e especialmente nas suas ex-colonias e isso passa normalmente pelo investimento em projectos de reconstrucao e manutencao, particularmente se essas ex-colonias tiverem passado por longos periodos de guerra. No caso de Angola, tal investimento (incluindo nao so’ financiamento, mas tambem ‘educacao cultural’ sobre esse patrimonio) seria ainda mais justificado pelo facto de a ex-potencia colonial nao ter sido alheia as razoes da guerra – bastaria, por exemplo, ter promovido e garantido um processo de descolonizacao mais atempado, responsavel e assumido e, consequentemente, menos catastrofico…

2. Nos casos em que tal se verifica, tais projectos de investimento sao, via de regra, feitos em parceria com o pais alvo e sob acordos inter-governamentais: nao teem, portanto, necessariamente a ver com “neocolonizacao”. E, afinal, o que e’ mais passivel de ser considerado “neocolonizacao”? A manutencao de um patrimonio cultural, ou o dominio de praticamente todo o sector bancario (e seus respectivos recursos humanos) e outros sectores importantes da economia de um pais? E, ja’ agora, quantas dessas novas torres de vidro nao se destinarao, porventura, directa ou indirectamente, a bancos ou outros interesses economicos portugueses? Mas, independementemente de quem tem ou nao o ‘dever e obrigacao’, ou de quem tem ‘mais ou menos dinheiro’ (ja’ agora dir-te-ei que alguns projectos desse tipo sao patrocinados e financiados por instituicoes supra-nacionais, como a UE ou a UNESCO - veja-se, por favor, o caso de Mbanza Kongo, sem duvida o mais flagrante exemplo de destruicao de um patrimonio historico-cultural, nao so' de Angola, como da humanidade!), eu falei em Portugal “assumir a lideranca” e isso pode resumir-se apenas a apresentar propostas/projectos concretos ao governo Angolano nesse sentido. Toma, por exemplo, o caso da escola portuguesa que foi instalada, por Portugal, ha’ varios anos em Luanda: qual foi o seu objectivo? Certamente nao outro que a manutencao da lingua e da cultura portuguesa – porque nao pensar-se no mesmo tipo de investimento em relacao ao patrimonio arquitectonico portugues?

3. Agora, passemos aquele que e’ talvez o aspecto mais importante dessa questao: em qualquer economia bem gerida (excepto em paises socialistas/comunistas, que Angola, malgre’ tout, nunca foi… quando muito, Angola foi ate’ ha’ 6 anos atras uma economia de guerra) ha’ uma clara delimitacao do papel do estado na economia, mediante a qual os investimentos publicos devem ser reservados aos bens publicos. E a definicao de bens publicos pode ser mais ou menos lata, mas e’ clara o suficiente: em termos gerais, e’considerado “bem publico” aquele que pode ser usufruido por qualquer membro do publico. Aqui poder-se-ha defender que a traca arquitetonica portuguesa (tal como outros bens do patrimonio historico de Angola) e’ um “bem publico” na medida em que qualquer membro do publico ao apenas poder olhar para ela estara’ a usufruir de um “bem cultural”. Ate’ ai muito bem. Mas poe-se entao a questao de saber, em termos mais estritos, se um determinado bem considerado “cultural” e’ propriedade publica ou privada? Isto e’, esta' nas maos do estado ou de um particular? E aqui as aguas do orcamento do estado teem que ser rigorosamente separadas: se e’ publica, cabe ao estado nele investir, se e’ privada, isso cabe ao particular que a possui. O papel do estado ai deve limitar-se a legislar e regulamentar os criterios da sua planificacao e manutencao;

4. Do ponto anterior segue-se que: em qualquer pais, mas mais fundamentalmente num pais com os niveis de pobreza que Angola apresenta, quais devem ser as prioridades dos gastos publicos? Nao me parece haver muito lugar para duvidas que elas devem ser direccionadas para os “bens indubitavelmente publicos”, isto e’, aqueles sem os quais nao havera membros do publico suficientes para usufruirem de “bens culturais”, sejam eles portugueses ou nao e por melhor mantidos que sejam. Falamos aqui de Saude, Alimentacao, Educacao, Sanidade e Saneamento, Transportes e Emprego, so’ para citar os mais vitais. E e’ para essas areas que as reivindicacoes do “publico em geral” sao geralmente e devem ser direccionadas, nao so’ em Angola e nao so’ em paises subdesenvolvidos, como em todo o mundo. E e’ tambem por essa razao fundamental que os governos interessados na manutencao do seu patrimonio cultural no mundo, com ou sem o apoio de instituicoes financeiras ou culturais internacionais, teem interesse em investir nesse patrimonio – porque esse investimento nao cabe estritamente ao governo do “pais herdeiro”. Ora, tais governos interessados poderao tambem ter consideraveis restricoes aos seus orcamentos publicos disponiveis para esse efeito e nesses casos recorrem as suas instituicoes privadas, sejam elas bancos ou fundacoes culturais especificamente criadas para tal. E aqui o papel dos bancos privados, por isso falei nos bancos portugueses em Angola, na aquisicao desses bens e/ou na concessao de financiamento para a sua manutencao.

Portanto, em resumo, a mensagem que te pretendia transmitir e’ que, como “nativos” que todos somos, nao nos ficaria nada mal um pouco de humildade em relacao as nossas proprias limitacoes de todo o tipo. E, tambem, que precisamos, principalmente voces da geracao mais jovem, de ter uma atitude mais proactiva/positiva, e menos reactiva/negativa, mais racional e menos emotiva, mas sobretudo mais pragmatica e menos dogmatica, em relacao a reconstrucao do nosso pais em todos os dominios – ate’ porque ja’ deviamos andar todos cansados de guerras por causa de ideologias que pouco ou nada teem a ver connosco...
Nao pretendo com isto dar uma de ‘patriota’, e muito menos ‘patrioteira’, ate’ porque tambem tenho as minhas criticas em relacao ao modelo de crescimento, incluindo a essas torres de vidro, que esta’ a ser seguido em Angola – criticas essas que fiz publicar nacional e internacionalmente.

***

P.S. - (28/04/09) - Acabo de encontrar esta noticia no Jornal Angolense:

O património histórico-cultural de Angola e a problemática da sua conservação e restauração foi o tema da comunicação apresentada quinta-feira, pelo Embaixador-delegado permanente de Angola junto da UNESCO, Almerindo Jaka Jamba, num debate organizado pela Fundação Luso-Africana para a Cultura (FLAC).

[Ler mais aqui]

April 07, 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (4)

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

O destaque das edicoes do fim de semana que passou vai para uma entrevista de Inocencia Mata, sobre a Literatura Angolana, ao Novo Jornal:

"Durante o tempo colonial descortinavam-se basicamente duas modalidades de escrita: uma que escrevia a "nação angolana" e outra que escrevia a "portugalidade" e a ideia de que Portugal ia do Minho a Timor, passando por Angola. Essa literatura colonial fazia a apologia do colonialismo e de Angola como uma região de Portugal. A outra literatura era a que dizia que Angola não era uma região de Portugal, mas sim uma nação, no sentido simbólico do termo e no sentido de uma comunidade imaginada.Actualmente, estamos numa fase não de consolidação, porque a literatura angolana, enquanto sistema, está completamente consolidada, mas numa fase de grande produtividade divergente. Assiste-se hoje, em Angola, a uma multiplicidade de géneros, de formas de escrever, de temáticas, de preocupações e de construções simbólicas, o que demonstra a maturidade da literatura."
(...)
"A literatura angolana poderá distinguir-se da literatura moçambicana, por exemplo, pelas preocupações evidentes na enunciação, pela linguagem política, pelos espaços (não apenas os espaço físicos), pela geografia e pela forma como se perspectiva a relação entre os vários agentes sociais em Angola. A diferença da literatura angolana é uma diferença inata, em termos de horizontes e em termos de expectativas."
(...)
"Há uma nova geração de escritores que aparece com novas ideias e com sangue novo. Há, porém, um handicap nesses escritores: lêem pouco e alguns são um pouco convencidos. E se há uma coisa que eu aprendi ao conversar com velhos é que nós temos que ser humildes em tudo o que fazemos. E quando digo humildade, não digo humildade perante o outro, digo humildade perante aquilo que nós próprios fazemos, no caso, que eles próprios escreveram. Os escritores mais novos escrevem hoje e já querem publicar amanhã e eu penso que isso é falta de humildade. 0 problema de muitos desses jovens é que não são humildes. Têm potencial mas não possuem ainda o domínio da técnica. "
(...)
"Não é por acaso que quando se dá o 25 de Abril de 1974 muitos poemas foram musicados. Esses poemas diziam ao povo aquilo que possivelmente as palavras dos políticos não eram capazes de dizer. Uma pessoa lê ou ouve um poema como o "Monangamba" (António Jacinto), ouve um poema como o "Adeus à hora da largada" (Agostinho Neto) e sente que para além das palavras há um universo, uma nação, uma comunidade. A literatura foi um instrumento subsidiário da luta, da guerrilha, e ajudou na libertação e na reconstrução do país. A literatura angolana antecipou inclusivamente algumas reflexões científicas e muitas das questões que hoje as ciências sociais estão a abordar, como a questão da corrupção, do neoliberatlismo, do capitalismo selvagem, do racismo e das diferenças étnicas e de classe. A literatura angolana aborda algumas destas questões desde os anos 80, o que é extraordinário e deve ser dos poucos países onde isto acontece. "
(...)
"Em todos os países que emergem de uma guerra há assuntos tabu e o 27 de Maio, em Angola, era um assunto tabu. Hoje toda a gente fala do assunto."
(...)
"Quem afirma que "uma pessoa que ache que Agostinho Neto foi um extraordinário Poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia... o mesmo se podendo dizer de António Cardoso ou de António Jacinto", é um perfeito ignorante sobre o que é a literatura. Deve achar que pode falar sobre tudo e que sabe de tudo. Na realidade, deveria era ler um pouco mais para além de informação."

[Aqui]

'GOSTO UNICO'


Com algum atraso, mas ainda em tempo util, a resposta de Jose' Eduardo Agualusa as reaccoes as suas afirmacoes, publicada a 28/03/08 no A Capital:

"Não posso dizer que tenha ficado surpreendido com algumas das reacções a uma entrevista que concedi recentemente ao Semanário Angolense. Atravessamos um tempo um pouco estranho, de transição de um regime de pensamento único para aquilo que, espero, venha a ser uma verdadeira democracia. O que diferencia uma ditadura de uma democracia é a pluralidade de ideias e de opiniões sobre qualquer assunto, e a forma como essas ideias são recebidas não apenas pelos governantes, mas pela generalidade da população.Os ditadores esforçam-se por estabelecer primeiro uma determinada ideologia política, mas raramente se detêm aqui – tentam a seguir impor a toda a gente os seus próprios gostos sobre música, literatura, artes plásticas, desporto, sexo, ou mesmo moda."

[Aqui]

***
O post-mortem do desabamento do edificio da DNIC dominou as headlines

no Semanario Angolense:


[Aqui e Aqui]

e no Angolense:


[Aqui]

March 30, 2008

DESASTRE EM LUANDA


(...)
Ontem ruiu o edificio da DNIC. Com cerca de 200 pessoas lá dentro. O piquete da policia que eram 14, safaram-se todos porque vieram para a rua assistir na primeira fila.
Os presos, como a própria palavra indica, não sairam e vieram até ao chão dentro do edificio. Dos escombros, já resgataram alguns vivos, alguns mortos e as familias aguardam ansiosas que apareçam os restantes.


(Mensagem de JLA recebida de Luanda)


Luanda - Na madrugada de 29 de Março por volta das 4 horas da manhã, o edificio sede da Direcção de Investigação Criminal, DNIC, de sete andares, foi abaixo depois de dois pilares racharem provocando a quebra de vidros. Os primeiros a aperceberem-se do facto, foram os homens do piquete, que de imediato fugiram para a estrada a solicitar ajuda. Na ocasião, o director provincial de Luanda, Vita Vemba, providenciou a montagem de um posto ambulatorio para prestação de primeiros socorros.

Até ao momento foram resgatadas 82 pessoas do local dos escombros, mas o número de vitimas ainda é incerto. Alguns presos foram transferidos para a Comarca de Viana. Os feridos para o Hospital Militar de Luanda. De recordar que a menos de seis meses a Comarca de Luanda teve uma rebelião. Uma das figuras de destaque que estava no edificio era o antigo jogador de futebol, Tony Estraga.

Levantam-se agora várias hipoteses para o acontecimento, tais como a possibilidade de atentado ou falta de manutenção do edificio.

(Mensagem de KB recebida de Luanda)

MAIS FOTOS AQUI

February 26, 2008

MULHERES… DE DOMINGO (Recidivus)*


Domingo e’, a todos os titulos, um dia especial. Tentar justificar essa evidencia e’ praticamente um “no brainer”, ou seja, e’ como tentar-se justificar porque que a chuva molha. Mas, digamos que e’ especial porque nao se trabalha, a excepcao daquelas ocupacoes – formais, como policia e bombeiros, ou informais, como ‘blogging’ – que a isso nos obrigam, ou naquelas sociedades, culturas e religioes que respeitam o “Sabath” literalmente ao Sabado. E’ tambem o dia em que, seja para uma ida a missa, ao mercado, a baixa da cidade, ao centro comercial, ou a uma visita a casa de familiares ou amigos, tentamos sempre apresentar-nos no nosso melhor – em termos de indumentaria ou comportamento. E nao ha’ ninguem melhor do que as mulheres para evidenciarem essa realidade domingueira.

Transportando essa evidencia para a vida mais quotidiana, encontro que… e’ muito dificil entender as mulheres (… nao estou sozinha nisto, sei-o bem: praticamente todos os homens, secundando Freud, disseram-no e continuam a dize-lo…). E isto muito simplesmente porque, pelo menos na vida social, elas tendem maioritariamente a comportar-se como e a vestir-se com as suas poses e vestimentas “domingueiras” que, a uma observacao mais proxima e/ou cuidada, nos revelam que nao passam disso mesmo: comportamento e vestes domingueiras… nada mais quotidiano, nada mais substantivo, nada mais profundo. Falar (de) assim, quando eu sou mulher e nunca me conheci outro genero ou inclinacao sexual, “soa mal” e e’ “politicamente incorrecto” – eu sei. Mas tambem sei que dificilmente havera’ inimigo pior de uma mulher do que outra mulher… dificilmente havera’, pelo menos em certas profissoes e niveis hierarquicos, pior colega de trabalho de uma mulher do que outra mulher. Sei tambem que nao estou sozinha nisto: ouvi-o de outras mulheres, desde ministras a empregadas domesticas, passando por escritoras, escriturarias e profissionais universitarias.

E sei-o, tambem, por experiencia propria: nao ha’ muito tempo, vi-me forcada a abandonar intempestivamente a que talvez tenha sido a melhor posicao profissional da minha vida por uma questao de principio: nao consegui encontrar espaco, ou instrumento, no meu vasto “arsenal” de defesas contra o sexismo e a discriminacao, para tolerar um ataque pornografico, completamente nao provocado (se e’ que e’ possivel “provocar-se” tal coisa…) e “out of the blue”, por parte de um colega de trabalho (por sinal, angolano)… e enquanto o perpetrador encontrava apoio entre os poderosos chefoes masculinos, eu vi-me completamente “desertada” por todas as colegas femininas, incluindo as igualmente poderosas, bem falantes, articuladas, feministas e activistas “burocratas do genero”… E estas nao eram daquelas “de trazer por casa” nao: eram precisamente das que andam pelas reunioes de alto nivel em plataformas internacionais a falar em nome das mulheres Africanas! (But then, again, in their “more African than thou” postures, I’m not African anyway and, presumably, I should have felt exhilarated, honoured and over the moon for having attracted that sort of unwanted attention… ‘cause, presumably, I should be “liberated enough” to accept pornography as a “pleasurable and normal thing”, even in the workplace, when it causes me nothing but disgust and distress…).

Anyway, antes que isto me leve ‘a tese que sempre quis escrever sobre “mulheres…”, mas que sei que nunca escreverei, porque e’ um assunto demasiado pesado para o meu arcaboico, deixem-me encurtar caminho: ja’ sabia bastante sobre a “verdadeira realidade” da “condicao feminina”, por a ter experimentado, vivido e escrito sobre (o artigo em anexo, escrito e publicado no Semanario Angolense ha’ cinco anos atras, e’ apenas disso uma amostra), mas nenhuma das minhas experiencias anteriores me tinha dito tanto sobre essa realidade como esta experiencia de ‘blogging’ nos ultimos meses… Talvez porque, sobretudo sob o anonimato ou mascaras e bandeiras de qualquer especie ou cor, e’ mais facil revelarem-se verdadeiras indumentarias, comportamentos e… identidades. Assim, este blog trouxe-me, ate’ agora, pelo menos duas experiencias ineditas: ver-me confrontada com, atacada, insultada, embaracada e coisificada publicamente por “mulheres” capazes de desferirem ataques pornograficos e violacoes, senao fisicas (e talvez apenas porque disso nao teem possibilidade…), certamente psicologicas e morais, contra outras mulheres, ‘apenas porque lhes da’ na real gana’, e “conhecer” mulheres com inexcediveis e vertiginosos niveis de arrogancia ignorante, racismo, xenofobia, elitismo, soberba e um misto de complexos de superioridade e de inferioridade, que nao sabia antes sequer possivel existirem! Certamente, tambem pude verificar, ate’ agora, excepcoes ‘a regra: pelo menos duas mulheres, so’ para mencionar as ‘bloggers’ que consistentemente se teem manifestado acima de comportamentos mesquinhos, invejas e ciumeiras irracionais, o teem demonstrado atraves das suas diversas participacoes neste blog. Mas receio bem que sejam pouco mais do que as excepcoes que confirmam a regra…

Essas experiencias ineditas, quanto mais nao seja, teem-me deixado a perguntar-me: onde e’ que andavam certas mulheres, em finais da decada de 70, principios da de 80, quando, em Luanda, tanto quanto eu tinha que marcar lugar na bicha para a carne, marcava lugar na bicha da livraria ‘Mensagem’, para poder comprar um exemplar da revista portuguesa “Mulheres” – onde tive os primeiros serios contactos com as lutas das “tres Marias”, o conceito de “Matria” da Natalia Correia (de quem, mais tarde, tive o prazer de ouvir cantar o “Summertime”, que aqui podemos ouvir tao eloquentemente na “voz” de Charlie Parker, numa casa de fados de Lisboa), ou as poesias de Sophia de Mello Breyner ou Florbela Espanca - essa geracao de Mulheres que rejeitavam liminarmente, entre outros "diminutivos", designacoes como "poetisa"? Ou quando, mesmo depois de ter conseguido assegurar uma subscricao que me poupava da bicha mensal (pelo menos teoricamente, porque meses havia em que chegava la’ e mesmo para os subscritores a revista estava “esgotada”…), me lancei, por minha conta e risco, em busca do entendimento possivel das almas de Sylvia Plath, Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar, Elsa Triolet ou Simone de Beauvoir… Ou ainda, quando, depois de todos os desencantos, descobri Noemia de Sousa, Maya Angelou, Alice Walker, Toni Morrison, Bessie Head ou Wangari Mathaai?

Onde andavam essas mulheres que nunca apreenderam o sentido de oprobio imbuido na pratica de se “fazerem ‘a vida” atraves de “lutas de galinheiro”, sem qualquer racionalidade a nao ser demonstrarem a sua “superioridade” em disputas pelo que supoeem ser e pretendem fazer passar por “ideias e conceitos”, mas que na verdade nao passam de “preconceitos reorganizados” para lhes servirem como armas de arremesso em competicoes imbecis e irracionais, em espacos virtuais, pela atencao de homens, por nenhuma outra razao objectiva senao obterem notoriedade e tentarem impor-se como “unicos seres pensantes” (normalmente por nenhuma "obvia razao" senao a cor da sua pele...) nos circulos em que se movimentam? Onde?! Em que mundo vivem essas mulheres completamente incapazes de se emanciparem dos mais retrogrados e ignorantes preconceitos e praticas que, com as suas vestes e comportamentos domingueiros, impingem, frequentemente atraves de alguns homens suficientemente “desprevenidos” para tal, sobre outras mulheres – via de regra, as mais desprotegidas economica, social e politicamente – fazendo retroceder a luta das mulheres pela igualdade de generos pelo menos um seculo? Onde?!

Nao sei, nem me interessa particularmente saber. Quanto mais nao seja porque todas essas interrogacoes tambem me deixam a perguntar-me: porque que eu nao torno a minha vida "mais facil" comportando-me da mesma maneira? Ja’ ouvi de pelo menos dois amigos meus, sem qualquer relacao entre si, esta afirmacao: “tu pensas muito…”! Nao me lembro de lhes ter dado qualquer resposta porque tal afirmacao apenas me remete a pensar mais ainda: sera’ que a minha “inocencia” em tecnicas e tacticas “tipicamente femininas” se deve ao facto de ter passado tantos anos (...num mundo em que, curiosamente, a maioria das mulheres, e em particular as que se demonstram mais afoitas e talentosas em desferirem ataques cobardes e inescrupulosos contra mulheres como eu, nao se atrevem a entrar...) a resolver complicadas equacoes econometricas, a tentar encontrar “Nash equilibria” para os mais diversos ‘conumdrums’ da historia, da cultura, da sociedade, do desenvolvimento economico ou da politica internacional, a aprimorar o meu jogo de xadrez, ou a cultivar e a desenvolver a capacidade de pensamento estrategico sobre os mais diversos desafios da condicao humana e da vida quotidiana num mundo, mais frequentemente do que nao, hostil? Nao sei. Fico-me com o Bob Marley: “What you gotta… that I don’t know! I’m trying to wonder, wonder… wonder why… wonder, wonder why you act so”!

Mulheres…

PS: No artigo em anexo, faco mencao particular 'as maes solteiras e nisso remeto-me, e aos leitores, ao que tem estado a ocupar o tempo de milhoes de leitores da J.K. Rowling, essa “fab (former) single mom”, autora de “Harry Potter”, neste domingo: o ultimo volume da serie, espectacularmente lancado aqui em Londres ha’ dois dias. Sinto-me proxima do mundo (antigo) dela por razoes muito particulares: somos contemporaneas da “cruzada do Blair contra as maes solteiras”; ela, enquanto mae solteira a viver de “benefits” quando tal “cruzada” se comecou a manifestar, comecou a escrever a serie num café na area onde eu vivo e onde me sentei pela primeira vez num café de Londres… apenas a imensa fortuna que ela acumulou na ultima decada (e a cor da pele?) nos separa.

*(First published 22/07/07)

October 05, 2007

O MEU LICEU...

D. Guiomar de Lencastre…
Produziu tanto Meninas Guiomares de Lencastres, protegidas na Sala das Professoras… Como Mulheres desprotegidas na Cerca, que o fizeram Nzinga Mbandi... .
… E talvez por isso as clarividentes alunas, que sempre tinham visto o meu nome no Quadro de Honra desde 1972, me elegeram a dada altura sua representante no Conselho Directivo
E talvez tambem por isso fiz parte do grupo de 4 alun(a)os que, entre centenas, passaram aquele ano de recuperacao em que nos impuseram exames obrigatorios (eu que estava habituada a dispensar de exames…), depois de termos – nos os que davamos a pele, o sangue, o couro, o cabelo e as ‘sokas’ de madeira a fugir dos tiros da tropa ainda colonial a tentar dispersar as nossas manifestacoes, mais infindaveis horas das nossas jovens vidas em RGAs, pela PATRIA que julgavamos se estava a construir – “desconstruido” o Geronimo Wanga… e transitei para o complementar no Mutu Ya Kevela, esse outro Liceu, a.k.a. Salvador Correia…
...Deixando para tras os entao novos tempos de miscigenacao generica num liceu ja’ ex-feminino em que a rigorosa hierarquia etaria e academica entre as alunas, antes estabelecida pelas diferentes cores do simbolo LGL nas batas brancas, entretanto caidas em desuso quais soutiens queimados nas ruas de Luanda, se comecava a desmoronar ate’ descambar na anarquia que hoje permite a certas fedelhas mal desmamadas e muito assanhadas, de quem nao me lembro ter alguma vez visto em nenhuma das nossas lutas, certas coragens, atrevimentos e descaramentos
Tais como, em vez de admitirem que chumbaram, apesar de todas as proteccoes e favoritismos das professoritas, ou talvez por isso mesmo, dizerem que “foram atrasadas um ano, para nivelar as coisas”…e que "nao se lembram de mais nada"… como convem as boas aprendizas de fiticera! Nivelar, they say! At what level?! Ainda nao viram que ate’ hoje continuam a tentar nivelar as coisas e continuam a desconseguir?!
A ele voltarei sempre como aluna… de Nzinga Mbandi!
Sobre ele, e sobre a PRO e sobre o SEDME (onde o representava), um dia escreverei de verdade … O MEU LICEU!

October 04, 2007

SOBRE O 27 DE MAIO: V. JOSE' CARRASQUINHA, "O COMISSARIO DO RISO”

Extractos de uma entrevista concedida, em Agosto de 2006, pelo legendario radialista angolano Jose’ Carrasquinha (J.C.) a revista “Figuras & Negocios” (F&N).
Entrevista de Carlos Miranda e Jose’ Lousada (Fotos)

(click na imagem para uma 'versao alargada' do texto)


F&N – Quando e’ que comecou a trabalhar e onde estudou?

J.C. – Como grande referencia em termos academicos, lembro-lhe o S. Domingos, mas andei tambem na Escola Comercial. Alias, foi a partir desta escola que eu fui para o Jornal Noticias (em 1973/74), onde tive como professor o Moutinho Pereira. Creio que ele esta’ em Portugal num movimento religioso. Mas nao e’ desses vigaristas, pois tenho-o como um elemento bom, nao so’ pelo facto de me ter ensinado. Dali fui para o jornal “O Comercio” em que fiquei uns meses por la’. Uma vez fui fazer um trabalho nas Obras Publicas e topei o Francisco Simons. Presumo que ele tenha gostado da minha actuacao durante a entrevista e como naquela ocasiao eles estavam a precisar de pretos para colorirem a Emissora Oficial de Angola e porque os outros que la’ funcionavam ja’ estavam desacreditados, entao o Simons convidou-me. Fui e fiquei ate’ que a DISA prendeu-me em 1977 e… ponto final.

F&N – Porque que lhe prenderam?

J.C. – Eles prenderam-me na sequencia dos acontecimentos do 27 de Maio. Eu creio que o senhor jornalista sabe que aquilo era prender de acordo com os rumores. Um agentezinho se ouvia… era so’ prender. Olhe, inclusive houve um individuo que foi preso so’ porque estava a rir. E como na altura alguem se lembrou de dizer que nao haveria perdao, entao esta-se a ver que aquilo era tipico de quem era humanista…

F&N – Sente-se ainda injusticado pela forma como foi preso na altura? Ate’ porque havia um programa – o “Kudibanguela” – que estaria supostamente ligado ao movimento fraccionista…

J.C. – O “Kudibanguela” nao tem nada a ver. Eu nao era do “Kudibanguela”!! Isto e’ para acalmar aqueles que nao sabem disso, mas, independentemente de ter ou nao ter nada a ver, a questao que se coloca aqui e’ a seguinte: voce perguntou se me sentia ainda injusticado. Ora, qualquer individuo ha-de sentir-se injusticado quando, pura e simplesmente, vai preso sem culpa formada e, depois, mandam-no embora sem guia de soltura!! Ate’ agora, posso ser considerado como um preso. Eu tenho que dizer isso porque nao tenho guia de soltura depois de ter estado preso durante quase dois anos.

(…)

F&N – Naquela conjuntura politica, teria alguma filiacao politico-partidaria?

J.C. – Alguns do meu estilo tinham uma coisa: eramos aquilo que se podia chamar de operacionais. Eu hoje dou-me ao luxo de dizer que faco parte daquele numero de individuos que ajudou o MPLA a ficar no poder…

F&N – Mesmo nao sendo parte integrante do MPLA? Nunca teve nenhuma filiacao partidaria?

J.C. – E’ verdade que eramos todos pros. Recordo-me que quando fomos la’ “desmontar” o Geronimo Wanga e certos comunicados da FNLA demonstravamos a tal simpatia que quer referir. Na radio, o MPLA tinha mais simpatizantes naquela altura. Alias, os pensantes naquela altura eram quase todos do MPLA. Eu nao estou aqui armado agora em intelectual revolucionario. Isso nao e’ segredo para ninguem, a influencia da radio era muito grande e acho que ninguem deve chorar por isso. A UNITA e a FNLA perderam porque justamente nao tinham esta mais-valia. A balanca estava muito desiquilibrada em termos de informacao. Entao, lembro-me que um gajo estava a vir e perguntava-te logo se falavas Lingala!! Esse tipo, a partida, ja’ estava a perder 1-0 (risos). Houve dessas coisas. Depois trouxeram os mercenarios. Olhe, o que me da’ graca e’ o seguinte: acusaram o MPLA de tambem trazer mercenarios, que foram os cubanos, mas voce viu um monte de cubanos pretos. Ninguem sabia quem era quem (risos). O Callan, O Mackenzie, o Grillo de que cor eram? Isso pesava. O MPLA e’ que jogou bem na parte que lhe tocou. Os outros perderam, paciencia…

F&N – Voce tambem perdeu? Noto que nesta parte esta’ a dar sinais de querer chorar…

J.C. – Nao, um dirigente de base a nivel nacional chora? (risos).

F&N – Volto a uma das questoes iniciais e que merece um esclarecimento definitivo, e nao e’ so’ por curiosidade que insisto. Teve ou nao teve nada a ver com o movimento “27 de Maio”?

J.C. – Houve uma refrega de horas entre quem e quem? Entre a gente do MPLA. Uns desse lado outros daquele. E porque? E’ justamente ai onde esta’ a questao. E’ bom que as pessoas saibam. A independencia foi em 1975. A ala do Dr Agostinho Neto estava a consolidar o poder, e para consolidar o poder ha’ muitas maneiras. Aquela foi uma delas…

(…)

F&N – O passado e’ o passado, mas preserva sempre alguma coisa para que tiremos varias licoes de vida. Em si, ha’ razoes suficientes para perdoar os seus detractores?

J.C. – Nao, e explico-lhe porque. Se um individuo perdoa e nao esquece, nao vale a pena estar aqui com “coros”. Depois eu vou perdoar a quem se ainda nao me deram a minha guia de soltura? A grande divergencia nesse momento e’ que o “Partido do Trabalho” nao paga o meu dinheiro. Eu agora quando falo do MPLA ja’ nao digo MPLA, digo so’ “Work Party”.

F&N - Se tivesse que pedir contas, faria directamente a quem?

J.C. - Todos os erros que o Work Party comete reflectem-se na imagem do lider. Eu, inclusive, ja' mandei uma carta ao Presidente a dizer: paguem so' a minha financa e mais nada!

F&N - O que e' que pediu na carta concretamente?

J.C. - Estou a pedir o dinheiro que me devem. Eu nao quero ser nunca outro aprendiz de gatuno como existem muitos gajos que andam por ai. Qual reforma? Se eu for para os Trapalhoes, estou reformado ou e' para ir ficar grosso? Eu explico-me melhor: O que eu quero e' o meu dinheiro correspondente aos meus salarios que nao me foram pagos durante o tempo em que estive preso e depoi