A democratização das escolas não era a única preocupação. O
consumo de drogas colocava‐se na sociedade angolana, como chamou a atenção o
Movimento Jovem (MJ), de Nova Lisboa. O MJ pediu ao governo no dia 17 de Agosto
de 1974 que abolisse a lei da droga em vigor, por condenar severamente os seus utilizadores. Nesse documento, o presidente António de Oliveira Porto advogava
“sanatórios especializados” para os “irrecuperáveis” viverem “livremente”. A
proposta levantou polémica. Dias depois o MJ esclarecia que condenava “o uso e
a venda” de droga, mas a repressão devia ser dirigida aos vendedores. O MJ achava
que a droga iria afectar “um índice assustador
de viciados” e daí a necessidade de cuidados de saúde especializados, para os irrecuperáveis
receberem a droga “doseada” por médicos.
[a província de Angola, 24 de Agosto de 1974, p. 5.]
A cannabis, que
crescia espontaneamente, era fumada por alguns africanos e por alguns estudantes. A reitora do Liceu Feminino foi um dia
surpreendida com a presença de agentes da Polícia Judiciária. “(…) Apareceram para nos
multar, dizendo que tínhamos lá cannabis. Nenhuma das professoras da direcção sabia o que
era (…). Havia bastantes nos canteiros do liceu. Claro, fomos obrigadas a
arranca‐las. Isto passou‐se em 1970. A Polícia Judiciária fez‐nos uma prelecção. Explicaram‐nos
como detectar pelas pupilas, se uma jovem se drogava. Esse foi um problema angolano. (…)
Havia drogadas no liceu, casos em que tivemos de intervir, chamar os pais. Não eram
muitos, mas havia. Muitos jovens deram umas passas, mas poucos ficaram viciados (…)”
[Entrevista à Reitora do Liceu Feminino, Darcília Salgado
Zenha M. Correia]
COMENTARIO: Desconhecia esse longo historial de cultivo, uso
e abuso de drogas no ‘meu liceu’ e entre a populacao estudantil em geral, em
Luanda e nao so’.
Mas, obviamente, nao me passou despercebido (e disso dou
conta aqui) o facto de a Pro-AEESL ter ficado associada ao consumo de drogas,
mesmo se muitos estudantes, como eu, nunca sequer as tenham visto antes ou durante
o Movimento Estudantil.
Seria apenas alguns anos mais tarde que me viria a dar conta
do uso mais ou menos generalizado de drogas em Luanda, sobretudo em alguns
circulos de artistas e intelectuais, tendo tido, infelizmente, que lidar com
dois deles (este e este) com os resultados que “se conhecem”… Consegui, no
entanto, resistir a tentacao (ou, dito de outro modo, consegui gerir os apelos) de mergulhar no mundo das drogas.
Lúcio Lara, que na
juventude iniciou a sua formação política nas associações de estudantes
metropolitanos, contou décadas depois: “(…) quando a delegação que eu chefiei
chegou (…) encontrámos uma juventude agitada pra burro, como nós dizemos, uma
juventude dinâmica, altamente agitada e muito mais marxista do que nós
pensávamos, porque não tínhamos ideia semelhante e nem sequer falávamos muito
no marxismo, embora por princípio de comportamento muitos de nós fossemos
marxistas, mas não falávamos nisso nessa altura, mas quando chegámos a Luanda
até albaneses eu vim encontrar (…) os grupos extremistas eram tantos e tão
diversos, que até albaneses! (…) o MPLA passava por um movimento moderado no
meio dessa juventude, alguns dos quais foram elementos que compuseram o que se
chamou depois o fraccionismo (…)”
[Drumond Jaime e
Helder Barber, Angola: Depoimentos para a História Recente, edição dos autores,
Luanda, 1999, entrevista a Lúcio Lara pp. 52‐53. O “fraccionismo” eclodiu em
Angola com os acontecimentos de 27 de Maio de 1977]
Por outro lado, essas afirmacoes de Lucio Lara talvez permitam perceber melhor o que aqui referi:
(...)
"- Eu tinha 16 anos quando se deu o 27 de Maio. Na altura, era estudante e trabalhava part-time no MPLA, no DOM na Vila Alice e depois no DORGAN no ‘Kremlin’, tendo algum tempo depois partido para esta'aventura'.
Nunca tive, portanto, qualquer “envolvimento”, directo ou indirecto,
nos acontecimentos que rodearam aquela data fatidica, antes ou depois
dela – certamente nao fui eu quem matou Saidi Mingas - NUNCA MATEI
NINGUEM!!!...
E, ja' agora, vem a proposito esta memoria: nunca tive qualquer propensao para ser professora primaria e muito menos teorica do marxismo - mesmo porque isso pode ter o condao de atrair ameacas de morte, quando nao morte mesmo! - mas, no DOM/DORGAN eu fazia parte de um grupo de estudo do
Marxismo-Leninismo, em que eu era a mais nova por varios anos em
relacao a todos os outros participantes e que era orientado pelo Kota Lara,
e como infelizmente a memoria dele ja' nao o pode ajudar nesse sentido,
talvez algum dos outros participantes possa confirmar que ocasioes
houve em que ele me deixava responder a questoes que lhe eram colocadas e
no fim so' concordava, modestamente, com a cabeca em sinal de
aprovacao do que eu acabara de explicar... mas nao fui por isso
"promovida a teorica do marxismo", nem "perdida em 1977"!... Embora
alguns ecos daquelas "aulas" possam, sem muito esforco, ser detectados aqui, aqui, aqui... E, quanto "ao resto", especialmente as feridas ainda por sarar, a minha memoria continua a servir-me suficientemente bem... Gracas a Deus!"
(...)
Devo, no entanto, referir - porque algumas passagens do livro a isso podem induzir -, que o meu trabalho no DOM/DORGAN nao tinha nenhuma relacao com o Movimento Estudantil (mesmo porque este ja' estava, como aqui referi, praticamente auto-extinto) e, embora (como aqui e aqui mencionei) tivesse uma vertente ocasionalmente ligada as estruturas organizativas juvenis nas provincias do pais, nem mesmo ja' com a JMPLA.
A cannabis, que
crescia espontaneamente, era fumada por alguns africanos e por alguns estudantes. A reitora do Liceu Feminino foi um dia
surpreendida com a presença de agentes da Polícia Judiciária. “(…) Apareceram para nos
multar, dizendo que tínhamos lá cannabis. Nenhuma das professoras da direcção sabia o que
era (…). Havia bastantes nos canteiros do liceu. Claro, fomos obrigadas a
arranca‐las. Isto passou‐se em 1970. A Polícia Judiciária fez‐nos uma prelecção. Explicaram‐nos
como detectar pelas pupilas, se uma jovem se drogava. Esse foi um problema angolano. (…)
Havia drogadas no liceu, casos em que tivemos de intervir, chamar os pais. Não eram
muitos, mas havia. Muitos jovens deram umas passas, mas poucos ficaram viciados (…)”
[Entrevista à Reitora do Liceu Feminino, Darcília Salgado
Zenha M. Correia]
COMENTARIO: Desconhecia esse longo historial de cultivo, uso
e abuso de drogas no ‘meu liceu’ e entre a populacao estudantil em geral, em
Luanda e nao so’.
Mas, obviamente, nao me passou despercebido (e disso dou
conta aqui) o facto de a Pro-AEESL ter ficado associada ao consumo de drogas,
mesmo se muitos estudantes, como eu, nunca sequer as tenham visto antes ou durante
o Movimento Estudantil.
Seria apenas alguns anos mais tarde que me viria a dar conta
do uso mais ou menos generalizado de drogas em Luanda, sobretudo em alguns
circulos de artistas e intelectuais, tendo tido, infelizmente, que lidar com
dois deles (este e este) com os resultados que “se conhecem”… Consegui, no
entanto, resistir a tentacao (ou, dito de outro modo, consegui gerir os apelos) de mergulhar no mundo das drogas.
Lúcio Lara, que na
juventude iniciou a sua formação política nas associações de estudantes
metropolitanos, contou décadas depois: “(…) quando a delegação que eu chefiei
chegou (…) encontrámos uma juventude agitada pra burro, como nós dizemos, uma
juventude dinâmica, altamente agitada e muito mais marxista do que nós
pensávamos, porque não tínhamos ideia semelhante e nem sequer falávamos muito
no marxismo, embora por princípio de comportamento muitos de nós fossemos
marxistas, mas não falávamos nisso nessa altura, mas quando chegámos a Luanda
até albaneses eu vim encontrar (…) os grupos extremistas eram tantos e tão
diversos, que até albaneses! (…) o MPLA passava por um movimento moderado no
meio dessa juventude, alguns dos quais foram elementos que compuseram o que se
chamou depois o fraccionismo (…)”
[Drumond Jaime e
Helder Barber, Angola: Depoimentos para a História Recente, edição dos autores,
Luanda, 1999, entrevista a Lúcio Lara pp. 52‐53. O “fraccionismo” eclodiu em
Angola com os acontecimentos de 27 de Maio de 1977]
Por outro lado, essas afirmacoes de Lucio Lara talvez permitam perceber melhor o que aqui referi:
(...)
"- Eu tinha 16 anos quando se deu o 27 de Maio. Na altura, era estudante e trabalhava part-time no MPLA, no DOM na Vila Alice e depois no DORGAN no ‘Kremlin’, tendo algum tempo depois partido para esta'aventura'.
Nunca tive, portanto, qualquer “envolvimento”, directo ou indirecto,
nos acontecimentos que rodearam aquela data fatidica, antes ou depois
dela – certamente nao fui eu quem matou Saidi Mingas - NUNCA MATEI
NINGUEM!!!...
E, ja' agora, vem a proposito esta memoria: nunca tive qualquer propensao para ser professora primaria e muito menos teorica do marxismo - mesmo porque isso pode ter o condao de atrair ameacas de morte, quando nao morte mesmo! - mas, no DOM/DORGAN eu fazia parte de um grupo de estudo do
Marxismo-Leninismo, em que eu era a mais nova por varios anos em
relacao a todos os outros participantes e que era orientado pelo Kota Lara,
e como infelizmente a memoria dele ja' nao o pode ajudar nesse sentido,
talvez algum dos outros participantes possa confirmar que ocasioes
houve em que ele me deixava responder a questoes que lhe eram colocadas e
no fim so' concordava, modestamente, com a cabeca em sinal de
aprovacao do que eu acabara de explicar... mas nao fui por isso
"promovida a teorica do marxismo", nem "perdida em 1977"!... Embora
alguns ecos daquelas "aulas" possam, sem muito esforco, ser detectados aqui, aqui, aqui... E, quanto "ao resto", especialmente as feridas ainda por sarar, a minha memoria continua a servir-me suficientemente bem... Gracas a Deus!"
(...)
Devo, no entanto, referir - porque algumas passagens do livro a isso podem induzir -, que o meu trabalho no DOM/DORGAN nao tinha nenhuma relacao com o Movimento Estudantil (mesmo porque este ja' estava, como aqui referi, praticamente auto-extinto) e, embora (como aqui e aqui mencionei) tivesse uma vertente ocasionalmente ligada as estruturas organizativas juvenis nas provincias do pais, nem mesmo ja' com a JMPLA.
A minha paixão por Luanda começou em criança, na Vila Alice, um bairro que combinava burgueses com ferroviários, funcionários públicos, comerciantes, famílias tradicionais, passantes, revolucionários, artistas, mestres, e até militares que enlouqueciam nos campos de batalha. O bairro, diziam, tinha as meninas mais bonitas de Luanda. E os desportistas mais esforçados, que mais tarde brilharam no basquetebol ao serviço do clube do bairro vizinho: Vila Clotilde. Dividi a infância com as ruas do Bairro Operário, onde a minha avó me ensinou a amar a terra e a viver com os poros encostados ao chão de areia e onde fugi da primeira “berrida” da Polícia Militar. Foi ali que conheci outra Luanda, mais autêntica, menos vaidosa e, apesar de tudo, mais livre. A cidade para além da fronteira do asfalto, mas com as ruas poeirentas abertas à cultura e cada casa encerrando mistérios de combinas nacionalistas ou acolhendo amores fatais. […] E Luanda sabe a mangas madurinhas, a cajus sumarentos e a figos da índia derrubados à fisga. Luanda sabe a maresia e aos almoços de sábado debaixo da mandioqueira de um quintalão do Bairro Operário, do Marçal, do Sambizanga, do Catambor. Luanda tem tantos gostos e tantos encantos que precisava de mil páginas para descrevê-los. E de mais espaço ainda para lhe fazer a declaração de amor que merece. Esta é a cidade que sobreviveu ao rolar dos séculos e continua viva e jovem como no primeiro dia em que foi posta a primeira pedra numa casa qualquer na base do monte de S. Miguel, à vista da Ilha do Cabo e aos pés da Baía. É preciso preservar a brisa fresca que começa a soprar ao fim da tarde e envolve a cidade num manto de luar. Temos de guardar as pedras que marcam os séculos e os caminhos que os luandenses de outras eras percorreram, levando a cidade até às portas do paraíso. Temos de curar as feridas no seu corpo, provocadas pela pressão humana. É uma missão difícil mas que vai encher de orgulho todos os que a levarem a cabo.
Imaginem que os nossos partidos políticos trabalhassem sempre para conseguirem consensos, sem abandonar a luta. Imaginem que os deputados se portassem como verdadeiros representantes da Nação legitimados pelo voto popular e representantes dos que confiaram na sua mensagem política. Imaginem que alguns dos nossos investigadores e intelectuais passavam a vida à procura de soluções para os graves problemas que ainda enfrentamos. […] Imaginem que a comunicação social só dava notícias confirmadas, rigorosas, verdadeiras e jamais atentava contra a honra e o bom-nome de pessoas e instituições, em vez de fazer julgamentos na praça pública, publicar manchetes que são autênticos assassinatos de carácter. […] Imaginem que os saudosistas dos impérios coloniais um dia acordam e resolvem pedir desculpas pelo sofrimento infinito que causaram aos povos colonizados, em vez de continuarem a portar-se como capatazes, armados com o chicote da mentira, da calúnia e da infâmia. Imaginem que Angola era tratada e respeitada por certos jornalistas que montaram banca no negócio da intriga, como nós, apesar de tudo, os respeitamos, ainda que partindo do princípio de que não têm dimensão para considerarmos as suas infelizes existências.
Imaginem que os nossos partidos políticos trabalhassem sempre para conseguirem consensos, sem abandonar a luta. Imaginem que os deputados se portassem como verdadeiros representantes da Nação legitimados pelo voto popular e representantes dos que confiaram na sua mensagem política. Imaginem que alguns dos nossos investigadores e intelectuais passavam a vida à procura de soluções para os graves problemas que ainda enfrentamos. […] Imaginem que a comunicação social só dava notícias confirmadas, rigorosas, verdadeiras e jamais atentava contra a honra e o bom-nome de pessoas e instituições, em vez de fazer julgamentos na praça pública, publicar manchetes que são autênticos assassinatos de carácter. […] Imaginem que os saudosistas dos impérios coloniais um dia acordam e resolvem pedir desculpas pelo sofrimento infinito que causaram aos povos colonizados, em vez de continuarem a portar-se como capatazes, armados com o chicote da mentira, da calúnia e da infâmia. Imaginem que Angola era tratada e respeitada por certos jornalistas que montaram banca no negócio da intriga, como nós, apesar de tudo, os respeitamos, ainda que partindo do princípio de que não têm dimensão para considerarmos as suas infelizes existências.
Militantes do MPLA manifestam-se em apoio ao Presidente Jose' Eduardo dos Santos.
Domingo...
Somos jovens, membros da sociedade civil de vários estratos sociais, que dentro dos parâmetros da constituição tem vindo a exercer pressão aos líderes políticos angolanos com vista a melhoria do quadro social em que se encontra maior parte da população angolana;
Viemos por este meio, desmentir a informação que tem estado a ser publicada pelo executivo, através dos órgãos de informação segundo a qual, os manifestantes são jovens que têm estado a ser usados pelos partidos da oposição para destabilizar o país e criar um clima de guerra para derrubar o presidente da república e o MPLA. Assim sendo queremos esclarecer:
1º Estas afirmações não condizem com a realidade e são infundadas na mediada em que as manifestações, foram sempre convocadas de forma aberta, com propósitos bem claros e os seus signatários bem identificados.
2º As manifestações nunca foram convocadas com intuito de criar a desordem e a guerra no nosso belo país. Pelo contrário, notamos que a maneira como o executivo tem lidado com as manifestações é que tem provocado alguma desordem.
3º As manifestações não têm tido nenhum carácter partidário, mas sim, derivam dos graves e muitos problemas sociais que afligem a maioria do povo angolano, fruto da má governação por todos visíveis. Refira-se que no seio do movimento também existem jovens pertencentes ao MPLA.
4º Não foi e nunca será nossa intenção afrontar ou agredir as autoridades policiais. As situações ocorridas, tanto no dia 3 como no dia 8 de Setembro de 2011, foram fruto de provocações criadas pelo rapto de elementos que participavam dos actos, prisões arbitrárias bem como outros tipos de repressões que vinham sendo efectuadas pela polícia e elementos a paisana.
Aproveitamos a ocasião para anunciar a sociedade angolana e a comunidade internacional, que dados alguns transtornos alheios a nossa vontade preferimos transferir a manifestação do dia 24/09/2011 para domingo dia 25/09/2011 pelas 09H da manhã na qual marcharemos do cemitério da Santana tomando a avenida Deolinda Rodrigues e culminando no largo da independência.
Pedimos a todo povo angolano sem distinção a aderir a nossa causa que visa apelar a liberdade dos jovens que foram pesos injustamente.
Sem mais outro assunto a realçar, subscrevemo-nos com elevada estima e agradecimentos.
Militantes do MPLA manifestam-se em apoio ao Presidente Jose' Eduardo dos Santos.
Domingo...
Somos jovens, membros da sociedade civil de vários estratos sociais, que dentro dos parâmetros da constituição tem vindo a exercer pressão aos líderes políticos angolanos com vista a melhoria do quadro social em que se encontra maior parte da população angolana;
Viemos por este meio, desmentir a informação que tem estado a ser publicada pelo executivo, através dos órgãos de informação segundo a qual, os manifestantes são jovens que têm estado a ser usados pelos partidos da oposição para destabilizar o país e criar um clima de guerra para derrubar o presidente da república e o MPLA. Assim sendo queremos esclarecer:
1º Estas afirmações não condizem com a realidade e são infundadas na mediada em que as manifestações, foram sempre convocadas de forma aberta, com propósitos bem claros e os seus signatários bem identificados.
2º As manifestações nunca foram convocadas com intuito de criar a desordem e a guerra no nosso belo país. Pelo contrário, notamos que a maneira como o executivo tem lidado com as manifestações é que tem provocado alguma desordem.
3º As manifestações não têm tido nenhum carácter partidário, mas sim, derivam dos graves e muitos problemas sociais que afligem a maioria do povo angolano, fruto da má governação por todos visíveis. Refira-se que no seio do movimento também existem jovens pertencentes ao MPLA.
4º Não foi e nunca será nossa intenção afrontar ou agredir as autoridades policiais. As situações ocorridas, tanto no dia 3 como no dia 8 de Setembro de 2011, foram fruto de provocações criadas pelo rapto de elementos que participavam dos actos, prisões arbitrárias bem como outros tipos de repressões que vinham sendo efectuadas pela polícia e elementos a paisana.
Aproveitamos a ocasião para anunciar a sociedade angolana e a comunidade internacional, que dados alguns transtornos alheios a nossa vontade preferimos transferir a manifestação do dia 24/09/2011 para domingo dia 25/09/2011 pelas 09H da manhã na qual marcharemos do cemitério da Santana tomando a avenida Deolinda Rodrigues e culminando no largo da independência.
Pedimos a todo povo angolano sem distinção a aderir a nossa causa que visa apelar a liberdade dos jovens que foram pesos injustamente.
Sem mais outro assunto a realçar, subscrevemo-nos com elevada estima e agradecimentos.
On Saturday, September 3, 2011 a group of around 200 young people assembled in Luanda, Angola to protest lack of freedom and the 32-year reign of President José Eduardo dos Santos. According to witnesses, the protest ended with police beating a number of protesters. A video call to protest, uploaded on September 1, featured bold, personalized calls to protest by a number of the protest's organizers, many of whom are hiphop artists. The tagline of the video “32 anos é muito” means simply “32 years is a lot.”
Dizem eles mui oportunamente (... mais uma geracao kruxifikada?...), em nome de alguns que se diz ja' estarem a ser realojados - aqui.
Tomara eu ser 'filha legitima da patria' e parte da 'mui impoluta prata da casa' o suficiente para poder desejar que todo o esforco, energia e imaginacao dispendidos em kampanhas como esta pudessem ter sido empregues na minha causa, bem mais simples, objectiva, incisiva e meritoria:
"DEVOLVAM A MINHA CASA!"
"NAO PARTAM A MINHA CASA!"
Dizem eles mui oportunamente (... mais uma geracao kruxifikada?...), em nome de alguns que se diz ja' estarem a ser realojados - aqui.
Tomara eu ser 'filha legitima da patria' e parte da 'mui impoluta prata da casa' o suficiente para poder desejar que todo o esforco, energia e imaginacao dispendidos em kampanhas como esta pudessem ter sido empregues na minha causa, bem mais simples, objectiva, incisiva e meritoria:
[Imagens: Performance (e seu dramatico e brutal finale - ou de como "convem sabermos sempre o que nos espera"!...) de atrevido 'artista desconhecido' sobre estatua das 'heroinas desconhecidas', nas barbas do bando ! - Luanda, 2011]
[Imagens: Performance (e seu dramatico e brutal finale - ou de como "convem sabermos sempre o que nos espera"!...) de atrevido 'artista desconhecido' sobre estatua das 'heroinas desconhecidas', nas barbas do bando ! - Luanda, 2011]
Este e’ um ola’ atirado “as cegas” ‘a cortina, por vezes de fumo, por vezes de ferro, que nos vai transformando cada vez mais em “surdos-mudos” (e “cegos”?), mesmo quando usamos meios, como este, inventados supostamente para “nos aproximar e facilitar-nos a comunicacao”…
E’ um ola’ a um velho amigo que, ‘a falta de outra referencia mais recente, incluiria na minha Geracao R – uma geracao em que alguns interiorizaram de tal modo a “rejeicao” que, talvez por nao encontrarem outra saida, nela se 'perderam', enquanto outros, contra ventos, mares e calemas decidiram “rejeita-la” e passar ao largo dela para se afirmarem pessoal, cultural, social e profissionalmente como cidadaos dignos, responsaveis, validos e uteis a sociedade.
Mas creio que todos teremos passado, embora uns mais do que outros e cada um a seu modo, pelos dois lados da reaccao a tal “rejeicao”, e andamos por ai, com maior ou menor sucesso, fazendo a vida e tratando dela – menos os que ficaram pelo caminho e nos abandonaram neste mundo (como este nosso contemporaneo).
E’ um ola’ a um amigo, do que chamaria um pequeno circulo, embora nao exclusivo nem exclusivista e, em grande medida, precario e intermitente, que se manteve em contacto desde os tempos do movimento associativo estudantil de 74/75, se separou entretanto e se voltou a reencontrar, apenas brevemente em alguns casos, na primeira parte da decada de 80.
Ele era um dos poucos que me visitava regularmente sem constrangimentos no(s) meu(s) kubiko(s), quer no do predio da Novembro/Sociborda, quer no do Kinaxixi. Ficavamos a conversa um pouco sobre tudo e nada, ou jogavamos xadrez – demonstrando a nos proprios e a ‘todo o mundo’ que nisso pudesse estar interessado que e’ (sim!) possivel a Amizade e o Respeito Mutuo entre um Homem e uma Mulher sem que a sua relacao tenha forcosamente que envolver sexo e sem que por isso as suas respectivas masculinidade e feminilidade, ou mais precisamente a sua sexualidade, tenham que ser "questionadas"! … Mesmo quando “sozinhos em casa”… o que me lembra aqui, en passant, de uma outra grande amizade masculina nos mesmos moldes na minha vida, que “herdara” das amizades da minha mae, portanto de uma geracao que se separava da nossa por pelo menos uma decada: o Victor Simoes Alexandre (...que saudades…)!
Ja’ nao vejo o Matadi desde aqueles tempos, uns bons 25-30 anos, e apenas voltei a ouvir falar dele pela primeira vez brevemente quando o Buca, outro nosso contemporaneo, esteve comigo em Cape Town ha’ cerca de 5 anos e, mais recentemente, no ano passado, quando soube desta iniciativadele e de outros seus colegas aquando da tragedia do Haiti. E agora, ha’ alguns dias, atraves desta entrevista, que, para alem de noticias da minha geracao, tambem me deu outras noticias do meu pais.
Mas talvez mais do que um ola’ a um contemporaneo, trata-se de um ola’ a um tempo de angustias ‘a mistura com esperancas; um tempo de desenganos e de busca de certezas…
Este e’ um ola’ atirado “as cegas” ‘a cortina, por vezes de fumo, por vezes de ferro, que nos vai transformando cada vez mais em “surdos-mudos” (e “cegos”?), mesmo quando usamos meios, como este, inventados supostamente para “nos aproximar e facilitar-nos a comunicacao”…
E’ um ola’ a um velho amigo que, ‘a falta de outra referencia mais recente, incluiria na minha Geracao R – uma geracao em que alguns interiorizaram de tal modo a “rejeicao” que, talvez por nao encontrarem outra saida, nela se 'perderam', enquanto outros, contra ventos, mares e calemas decidiram “rejeita-la” e passar ao largo dela para se afirmarem pessoal, cultural, social e profissionalmente como cidadaos dignos, responsaveis, validos e uteis a sociedade.
Mas creio que todos teremos passado, embora uns mais do que outros e cada um a seu modo, pelos dois lados da reaccao a tal “rejeicao”, e andamos por ai, com maior ou menor sucesso, fazendo a vida e tratando dela – menos os que ficaram pelo caminho e nos abandonaram neste mundo (como este nosso contemporaneo).
E’ um ola’ a um amigo, do que chamaria um pequeno circulo, embora nao exclusivo nem exclusivista e, em grande medida, precario e intermitente, que se manteve em contacto desde os tempos do movimento associativo estudantil de 74/75, se separou entretanto e se voltou a reencontrar, apenas brevemente em alguns casos, na primeira parte da decada de 80.
Ele era um dos poucos que me visitava regularmente sem constrangimentos no(s) meu(s) kubiko(s), quer no do predio da Novembro/Sociborda, quer no do Kinaxixi. Ficavamos a conversa um pouco sobre tudo e nada, ou jogavamos xadrez – demonstrando a nos proprios e a ‘todo o mundo’ que nisso pudesse estar interessado que e’ (sim!) possivel a Amizade e o Respeito Mutuo entre um Homem e uma Mulher sem que a sua relacao tenha forcosamente que envolver sexo e sem que por isso as suas respectivas masculinidade e feminilidade, ou mais precisamente a sua sexualidade, tenham que ser "questionadas"! … Mesmo quando “sozinhos em casa”… o que me lembra aqui, en passant, de uma outra grande amizade masculina nos mesmos moldes na minha vida, que “herdara” das amizades da minha mae, portanto de uma geracao que se separava da nossa por pelo menos uma decada: o Victor Simoes Alexandre (...que saudades…)!
Ja’ nao vejo o Matadi desde aqueles tempos, uns bons 25-30 anos, e apenas voltei a ouvir falar dele pela primeira vez brevemente quando o Buca, outro nosso contemporaneo, esteve comigo em Cape Town ha’ cerca de 5 anos e, mais recentemente, no ano passado, quando soube desta iniciativadele e de outros seus colegas aquando da tragedia do Haiti. E agora, ha’ alguns dias, atraves desta entrevista, que, para alem de noticias da minha geracao, tambem me deu outras noticias do meu pais.
Mas talvez mais do que um ola’ a um contemporaneo, trata-se de um ola’ a um tempo de angustias ‘a mistura com esperancas; um tempo de desenganos e de busca de certezas…
“Apos a independencia, o Estado passou a financiar os grupos e fixou a data do Carnaval a 27 de Marco, dia do aniversario da Vitoria (em 76) das FAPLA sobre as tropas sul-africanas.” Assim reza uma historia a qual voltarei mais tarde neste post.
Mas, por agora, falemos de datas: 4 de Fevereiro, ou 15 de Marco? 2 de Marco, ou… outra data qualquer? 27 de Marco, “dia do aniversario da Vitoria (em 76) das FAPLA sobre as tropas sul-africanas”, ou 25 de Maio (em 91), dia da assinatura do acordo de retirada das forcas cubanas na sequencia da batalha do Kuito Kwanavale?
Certo, certo, e porque o 4 de Abril parece que tambem ja’ mudou para o 5 de Marco, parece que as unicas datas certas do pos-Dipanda que temos, para alem do proprio 11 de Novembro, sao o 23 de Janeiro e o 27 de Maio… Essas datas, infelizmente, por muito que se as queira enterrar na 'bruma da memoria', de certeza que nunca poderao ser mudadas (mesmo porque ha' sempre alguem pronto a lembrar-nos delas ainda que "apenas por entre os dentes, em silencio"...), para o bem ou para o mal… E isso ao contrario do Carnaval, cuja data, de ha’ uns anos a esta parte, voltou a ser mudada para o dia que tradicionalmente lhe e' reservado.
E e’ essa palavra, “tradicionalmente”, que me faz voltar ao Carnaval depois de este ano o ter ja’ assinalado aqui. E tudo porque o Carnaval deste ano me deixou muito kafusa entre as nocoes de 'tradicao' e 'modernidade'...
Entao nao e’ que o vencedor do ano passado, o Unidos de Caxinde (UC), da Associacao Cha' de Caxinde dirigida por Jacques dos Santos, este ano ficou em oitavo lugar, ou seja, a um passo de ser relegado para o segundo escalao, e decidiu, na semana que ontem terminou, nao mais voltar a competir no Carnaval de Luanda?! Mas nao, desenganem-se os que comecaram ja’ a pensar em “mau perder”: aparentemente e’ tudo so’ mesmo em nome da 'modernidade' e… do 'respeito pelas instituicoes'! Mas o 'respeito pelas instituicoes' nao implica de algum modo o respeito pela 'tradicao' e suas instituicoes? Estou mesmo kafusa!
E pode la’ haver mais modernidade do que uma Segunda Marginalnovinha em folha para inaugurar com o desfile de Carnaval, na data certa, no pos-Dipanda?
E mais kafusa ainda fico quando me dizem que e’ tudo por culpa da Delegacao Provincial da Cultura de Luanda de que aqui se fala… Mas, na altura nao os aplaudiram todos e todas (embora tenham feito vista grossa e assobiado pro lado perante certos corpos semi-nus e respectivas bundonas klassiko-kulturais sendo paradeados em publico exactamente naquela mesma altura...)? Ou estariam, em ambos os casos, so' a fingir? E o que e’ que eles fizeram ali senao proibir a "exibicao de bundas em publico"? E isso estara’ muito longe da "exibicao de mini-saias e ‘pernoes’" (... como cantava o Mestre Geraldo: oh mini-saia brinca na areia, mulher e' bessangana, mulher e' de respeito, brinca rebita...) que supostamente (tambem?) representariam a 'modernidade' do UC, em vez das damas com aquelas “saias compridas tipo varina” dos tempos do kaprandanda que “nao deixam ver nada” e os cavalheiros vestidos segundo a "estetica do pinguim" sob o sol escaldante?! Nao... estou mesmo kafusa!
Nao deixo, no entanto, de lamentar essa dramatica decisao, aparentemente in extremis , do UC. Nao necessariamente pela 'modernidade' em nome da qual se manifestam, uma vez que, como venho repetindo, estou bastante kafusa sobre o que isso possa significar no contexto do Carnaval Angolano, mas pela diversidade que, obviamente, se perde com a saida de um grupo que, pelos ecosque me vao chegando, se tornou tao proeminente no Carnaval de Luanda durante a ultima decada. E sentindo-me tao frequentemente entre os excluidos e rejeitados de toda a ordem e natureza, nao posso, em nome do conceito de cidadania e seus respectivos direitos, deixar de sentir simpatia por quem tambem assim se sinta em quaisquer circunstancias.
Porem, porque e’ (foi) Carnaval, espero que nao me levem a mal por sugerir aos membros do UC que 'sigam o leader' (a.k.a. Banda Desenhada) e vao paradear toda a sua 'modernidade' no Carnaval de Benguela… ou, ja' agora, em Portugal, onde abriram recentemente uma "delegacao"... ali e’ que talvez ninguem mesmo lhes vai levar a mal!
Entretanto...
Numa segunda abordagem, porem, talvez a principal razao de eu estar tao kafusa nao tenha bem a ver com a decisao dos UC, mas mais com o facto de eu ter pensado, como aquiexpressei, que "progresso" (ou, se se preferir, "modernidade") em termos de "semba, kizomba e kuduro", especialmente se em comparacao com outras formas de expressao desses generos, poderia (tambem e por exemplo) significar o que ouve nesse Kamusekele do Dog Murras com o Kota Bonga, utilizando sons, ritmos e o espirito do Carnaval tradicional de Luanda... E nao e' que esse mesmo Kamusekele so' me trouxe bwerere' do bwe' do bwe' de makas de sanzala aki pro mo kubiku, com ameacas de morte e tudo?!
[Kamusekele - Dog Murras, feat. Bonga]
Mas afinale parece que, tal como a decisao dos UC, nem tudo o que parece nas reaccoes e atitudes intolerantes dos "absolutamente alergicos" ao kuduro (e... aparentemente, a este blog! - como se eu o tivesse inventado ou fosse a sua maior aficcionada e propagandista e, ultimamente, tambem dos tais de melindros, kambwas e sei eu la' mais o que!...) e': porque a maka deles parece ter tudo a ver, apenas e tao so', com a letra desse Kamusekele... a qual, quanto a mim, constitui, nada mais nada menos, do que um bom exemplo de "critica social" que, paradoxal e ironicamente, alguns dos seus maiores depredadores dizem praticar, apelidando-a de "musica sem conteudo"! Mas, e mais uma vez nao me levem a mal porque de Carnaval se trata, la' diz o ditado: "quem se ofendeu, carapuca lhe serviu"!
So' que, enquanto eu aqui sou bombardeada sem apelo nem agravo com obuses no meu quintal por causa da musica dele, o Dog Murras passou este Carnaval, bem como os dos ultimos anos, na maior la' pras bandas do Brasil, abrilhantando o Carnaval da Bahia com os sons do Carnaval de Luanda, como aquise pode verificar... Ja' viram?!
Mas, voltando ao Carnaval de Luanda, uma coisa que gostei particularmente de saber foi do desfile dos kanukos, onde, segundo esta noticia, "o prémio correspondente à classe C (infantil) foi atribuído à canção “Defesa da tradição”, do grupo União Cassules dos Jovens da Cacimba, pelo carácter explícito das mensagens apelativas, aproximando o ritmo expressivo do Carnaval à tradição musical angolana, enaltecendo, desta forma, as origens sócio-culturais do Carnaval angolano."
Bom, o que eu e os ndengues do meu bairro (na altura B.O./Sao Paulo - o qual, alias, tanto quanto julgo saber, tambem foi, se e' que ja' nao e', o de Jacques dos Santos do UC acima mencionado...) nao dariamos para podermos ir tambem desfilar "oficialmente" na Marginal! ... Naqueles nossos tempos, nas vesperas do Carnaval, era um corre-corre para arranjarmos nas despensas das nossas maes 'massa estrelinha' e 'massa cotovelo', mais feijoes de varios tipos, cores e tamanhos e aquelas sementes vermelhas e castanhas que iamos coleccionando ao longo do ano quando iamos a praia da floresta da Ilha ou ao Mussulo, mais algumas missangas de varias cores que desenrascavamos no mercado de Sao Paulo para fazermos os nossos colares e pulseiras; mais saias feitas de rafia ou sacos de sarapilheira, desfiados da meia-perna para baixo e uns tops tambem do mesmo material ou de panos de cores garridas, com turbantes na cabeca a condizer e as caras pintadas das cores e geitos da nossa criatividade, com muito vermelho e branco a mistura...
Mas ali nao havia bem competicao, nem juri: ganhava o grupo que conseguisse amealhar mais kitari dos mais-velhos pelas ruas em que desfilavamos - um pouco como fazem os miudos do ocidente no seu Halloween.
Entao, escolhiamos os nossos principe e princesa e saiamos em grupos pelo bairro afora pra brinkar o nosso karnaval, a bater os nossos batukitos bem aquecidos e as nossas latas e garrafas bem pintadas e decoradas, a soprar os nossos apitos e cornetas e a dikanzar os nossos bordoes bem trabalhados e os nossos chocalhos, todos bem ritmados e animados atras do Mayado, que era o nosso maskarado 'a Tchinganji ou Mukixi:
Tam-taram-tam-tam... mayado! Tam-tam-taram-tam-tam... mayado! Pao com gin-gu-ba... mayado! Tam-tam-taram-tam-tam... mayado! Pao com gin-gu-ba... mayado! Tam-tam-taram-tam-tam... Mayado!!!
A 'Tradicao'
“O semba e’ uma adaptacao do kazukuta. O meu pai transpos os ritmos kimbundus para a viola. Tinha conhecimento das musicas portuguesas e brasileiras. Transpos muita coisa em tom menor.” - Carlitos Vieira Dias
Em Luanda e noutras cidades (Malange, Benguela) o Carnaval e’ desde o seculo XIX a festa popular por excelencia onde os africanos se mascaram de figuras portuguesas e dancam pantomimas alegoricas. Nos anos 40, nos grupos carnavalescos dos musseques, ganham forca as percussoes e a dikanza, ao lado da corneta, dos apitos e dos chocalhos. As dancas sao dizanda, varina, kabetula, cidralia, maringa, kazukuta, njimba. O carnaval foi proibido de 61 a 68.
[Na Rua de Sao Paulo - Kabokomeu]
Apos a independencia, o Estado passou a financiar os grupos e fixou a data do carnaval a 27 de Marco, dia do aniversario da vitoria (em 76) das FAPLA sobre as tropas sul-africanas. Uniao Operaria Kabokomeu foi fundado em Janeiro de 1952, por operarios do Sambizanga. Uniao Mundo da Ilha juntou em 1968 varios grupos da Ilha de Luanda. Na Rua de Sao Paulo e’ um kazukuta, danca baseada em pantomima. Amanha Vamos a Procura da Chave e’ uma varina. Se bem que gravadas em 1978, estas duas musicas sao representativas do carnaval dos anos 50-60. Mas as letras, no contexto politico do pos-independencia, expressam o apoio popular a Agostinho Neto, Presidente da Republica.
[Amanha Vamos a Procura da Chave - Uniao Mundo da Ilha]
A rebita apareceu no final do seculo XIX nos saloes de uma elite negra e mulata das cidades (Luanda, Benguela). A danca de origem europeia (quadrille ou contre danse) foi africanizada. Toca-se com concerina e dikanza. As damas sao trajadas de panos africanos, com penteados kindumba, os cavalheiros de fato, a rigor, com chapeu de coco. Os apitos e as ordens (com algumas palavras em frances) do “comandante”, dao o sinal das viragens, acompanhadas de palmas e umbigadas. O nome tradicional e’ massemba, a palavra rebita aparece mais tarde. Mestre Geraldo, grande mestre de rebita e chefe de grupos carnavalescos, introduziu percussoes dos pescadores da Ilha de Luanda, tornando-a mais popular. Mini Saia, muito celebre, e’ uma mistura de varina e massemba.
[Mini Saia - Mestre Geraldo Morgado]
[Extractos de textos de Jorge Macedo, Artur Arriscado, João Chagas, Gilberto Junior e Ariel de Bigault, in Angola 60’s – Buda Musique 1999]
Finalmente, se me e' permitido, gostaria de regressar ao meu Carnaval.
Como afirmei em algumas ocasioes (e.g. aqui), tenho por principio fundamental nao falar, menos ainda tentar explicar, (d)os meus poemas, mesmo quando confrontada, como tem sido norma desde a publicacao do meu primeiro, e ate' agora, unico livro, com a sua total deturpacao, manipulacao, ou indevida interpretacao/apropriacao - voluntaria e conscientemente ou nao. Dito isso, tenho vindo ultimamente a abrir algumas excepcoes, como foi o caso aqui, aqui, aquie aqui.
Fa-lo-ei agora tambem um pouco em relacao a esse poema em que tentei recriar a atmosfera do Carnaval.
Sempre entendi o Carnaval (em qualquer parte do mundo) como uma manifestacao de algo assim como o "festival da carne" - uma festa pagã destinada inicialmente a dar vazao a tudo (ou quase) quanto era proibido pela religiao ao longo do resto do ano (dai o "prazer 'imedido' na exorcisao das teias do armario"); uma especie de "teatro do absurdo", uma expressao de "transgressao" daquilo que vai contra a norma estabelecida, "anormal" portanto (e.g. "despir o nu e agasalhar o mal vestido" - algo expresso na exuberancia das vestes de Carnaval mesmo pelos que durante o resto do ano mal teem com que se vestir, podendo para tanto chegar a "despir o nu" -, ou "qualquer ovo que se machuca e se espalha lentamente pelo corpo", ou ainda "um aperto de maos, de costas, para dar mais prazer"). Tudo isso, porem, com um prazo limitado de que os folioes nao se lembram "senao a despedida", i.e., apenas quando e' tempo de "varrer as cinzas".
Enfim, uma festa destinada a "chocar", a provocar "choque(s)" no sistema social - e, nessa medida, ele tera' evoluido do chocar com o sistema religioso ao chocar com o sistema politico, "entre a calma do ocio - o dolce fare niente, o nao trabalhar, dos dias de Carnaval, que e' tambem um acto contra a 'norma' - e o desprezo da revolta" [contra o(s) sistema(s)].
E tudo isso para que a norma, o(s) sistema(s), enfim, os "valores e principios" estabelecidos, se possam manter (e reproduzir-se) quando tudo regressa a normalidade do resto do ano - dai a "tempestade que nunca desabara'" apesar do "vento rasteiro, sibilino": Carnaval.
Mas o tema do Carnaval foi apenas um pretexto para escrever sobre outras coisas que na altura se estavam a passar na minha vida, ao regressar a Luanda com o meu filho de Lisboa, depois de ter passado pelo Carnaval do Rio com o falecido pai dele em 1983. Mas essas sao outras historias.
“Apos a independencia, o Estado passou a financiar os grupos e fixou a data do Carnaval a 27 de Marco, dia do aniversario da Vitoria (em 76) das FAPLA sobre as tropas sul-africanas.” Assim reza uma historia a qual voltarei mais tarde neste post.
Mas, por agora, falemos de datas: 4 de Fevereiro, ou 15 de Marco? 2 de Marco, ou… outra data qualquer? 27 de Marco, “dia do aniversario da Vitoria (em 76) das FAPLA sobre as tropas sul-africanas”, ou 25 de Maio (em 91), dia da assinatura do acordo de retirada das forcas cubanas na sequencia da batalha do Kuito Kwanavale?
Certo, certo, e porque o 4 de Abril parece que tambem ja’ mudou para o 5 de Marco, parece que as unicas datas certas do pos-Dipanda que temos, para alem do proprio 11 de Novembro, sao o 23 de Janeiro e o 27 de Maio… Essas datas, infelizmente, por muito que se as queira enterrar na 'bruma da memoria', de certeza que nunca poderao ser mudadas (mesmo porque ha' sempre alguem pronto a lembrar-nos delas ainda que "apenas por entre os dentes, em silencio"...), para o bem ou para o mal… E isso ao contrario do Carnaval, cuja data, de ha’ uns anos a esta parte, voltou a ser mudada para o dia que tradicionalmente lhe e' reservado.
E e’ essa palavra, “tradicionalmente”, que me faz voltar ao Carnaval depois de este ano o ter ja’ assinalado aqui. E tudo porque o Carnaval deste ano me deixou muito kafusa entre as nocoes de 'tradicao' e 'modernidade'...
Entao nao e’ que o vencedor do ano passado, o Unidos de Caxinde (UC), da Associacao Cha' de Caxinde dirigida por Jacques dos Santos, este ano ficou em oitavo lugar, ou seja, a um passo de ser relegado para o segundo escalao, e decidiu, na semana que ontem terminou, nao mais voltar a competir no Carnaval de Luanda?! Mas nao, desenganem-se os que comecaram ja’ a pensar em “mau perder”: aparentemente e’ tudo so’ mesmo em nome da 'modernidade' e… do 'respeito pelas instituicoes'! Mas o 'respeito pelas instituicoes' nao implica de algum modo o respeito pela 'tradicao' e suas instituicoes? Estou mesmo kafusa!
E pode la’ haver mais modernidade do que uma Segunda Marginalnovinha em folha para inaugurar com o desfile de Carnaval, na data certa, no pos-Dipanda?
E mais kafusa ainda fico quando me dizem que e’ tudo por culpa da Delegacao Provincial da Cultura de Luanda de que aqui se fala… Mas, na altura nao os aplaudiram todos e todas (embora tenham feito vista grossa e assobiado pro lado perante certos corpos semi-nus e respectivas bundonas klassiko-kulturais sendo paradeados em publico exactamente naquela mesma altura...)? Ou estariam, em ambos os casos, so' a fingir? E o que e’ que eles fizeram ali senao proibir a "exibicao de bundas em publico"? E isso estara’ muito longe da "exibicao de mini-saias e ‘pernoes’" (... como cantava o Mestre Geraldo: oh mini-saia brinca na areia, mulher e' bessangana, mulher e' de respeito, brinca rebita...) que supostamente (tambem?) representariam a 'modernidade' do UC, em vez das damas com aquelas “saias compridas tipo varina” dos tempos do kaprandanda que “nao deixam ver nada” e os cavalheiros vestidos segundo a "estetica do pinguim" sob o sol escaldante?! Nao... estou mesmo kafusa!
Nao deixo, no entanto, de lamentar essa dramatica decisao, aparentemente in extremis , do UC. Nao necessariamente pela 'modernidade' em nome da qual se manifestam, uma vez que, como venho repetindo, estou bastante kafusa sobre o que isso possa significar no contexto do Carnaval Angolano, mas pela diversidade que, obviamente, se perde com a saida de um grupo que, pelos ecosque me vao chegando, se tornou tao proeminente no Carnaval de Luanda durante a ultima decada. E sentindo-me tao frequentemente entre os excluidos e rejeitados de toda a ordem e natureza, nao posso, em nome do conceito de cidadania e seus respectivos direitos, deixar de sentir simpatia por quem tambem assim se sinta em quaisquer circunstancias.
Porem, porque e’ (foi) Carnaval, espero que nao me levem a mal por sugerir aos membros do UC que 'sigam o leader' (a.k.a. Banda Desenhada) e vao paradear toda a sua 'modernidade' no Carnaval de Benguela… ou, ja' agora, em Portugal, onde abriram recentemente uma "delegacao"... ali e’ que talvez ninguem mesmo lhes vai levar a mal!
Entretanto...
Numa segunda abordagem, porem, talvez a principal razao de eu estar tao kafusa nao tenha bem a ver com a decisao dos UC, mas mais com o facto de eu ter pensado, como aquiexpressei, que "progresso" (ou, se se preferir, "modernidade") em termos de "semba, kizomba e kuduro", especialmente se em comparacao com outras formas de expressao desses generos, poderia (tambem e por exemplo) significar o que ouve nesse Kamusekele do Dog Murras com o Kota Bonga, utilizando sons, ritmos e o espirito do Carnaval tradicional de Luanda... E nao e' que esse mesmo Kamusekele so' me trouxe bwerere' do bwe' do bwe' de makas de sanzala aki pro mo kubiku, com ameacas de morte e tudo?!
[Kamusekele - Dog Murras, feat. Bonga]
Mas afinale parece que, tal como a decisao dos UC, nem tudo o que parece nas reaccoes e atitudes intolerantes dos "absolutamente alergicos" ao kuduro (e... aparentemente, a este blog! - como se eu o tivesse inventado ou fosse a sua maior aficcionada e propagandista e, ultimamente, tambem dos tais de melindros, kambwas e sei eu la' mais o que!...) e': porque a maka deles parece ter tudo a ver, apenas e tao so', com a letra desse Kamusekele... a qual, quanto a mim, constitui, nada mais nada menos, do que um bom exemplo de "critica social" que, paradoxal e ironicamente, alguns dos seus maiores depredadores dizem praticar, apelidando-a de "musica sem conteudo"! Mas, e mais uma vez nao me levem a mal porque de Carnaval se trata, la' diz o ditado: "quem se ofendeu, carapuca lhe serviu"!
So' que, enquanto eu aqui sou bombardeada sem apelo nem agravo com obuses no meu quintal por causa da musica dele, o Dog Murras passou este Carnaval, bem como os dos ultimos anos, na maior la' pras bandas do Brasil, abrilhantando o Carnaval da Bahia com os sons do Carnaval de Luanda, como aquise pode verificar... Ja' viram?!
Mas, voltando ao Carnaval de Luanda, uma coisa que gostei particularmente de saber foi do desfile dos kanukos, onde, segundo esta noticia, "o prémio correspondente à classe C (infantil) foi atribuído à canção “Defesa da tradição”, do grupo União Cassules dos Jovens da Cacimba, pelo carácter explícito das mensagens apelativas, aproximando o ritmo expressivo do Carnaval à tradição musical angolana, enaltecendo, desta forma, as origens sócio-culturais do Carnaval angolano."
Bom, o que eu e os ndengues do meu bairro (na altura B.O./Sao Paulo - o qual, alias, tanto quanto julgo saber, tambem foi, se e' que ja' nao e', o de Jacques dos Santos do UC acima mencionado...) nao dariamos para podermos ir tambem desfilar "oficialmente" na Marginal! ... Naqueles nossos tempos, nas vesperas do Carnaval, era um corre-corre para arranjarmos nas despensas das nossas maes 'massa estrelinha' e 'massa cotovelo', mais feijoes de varios tipos, cores e tamanhos e aquelas sementes vermelhas e castanhas que iamos coleccionando ao longo do ano quando iamos a praia da floresta da Ilha ou ao Mussulo, mais algumas missangas de varias cores que desenrascavamos no mercado de Sao Paulo para fazermos os nossos colares e pulseiras; mais saias feitas de rafia ou sacos de sarapilheira, desfiados da meia-perna para baixo e uns tops tambem do mesmo material ou de panos de cores garridas, com turbantes na cabeca a condizer e as caras pintadas das cores e geitos da nossa criatividade, com muito vermelho e branco a mistura...
Mas ali nao havia bem competicao, nem juri: ganhava o grupo que conseguisse amealhar mais kitari dos mais-velhos pelas ruas em que desfilavamos - um pouco como fazem os miudos do ocidente no seu Halloween.
Entao, escolhiamos os nossos principe e princesa e saiamos em grupos pelo bairro afora pra brinkar o nosso karnaval, a bater os nossos batukitos bem aquecidos e as nossas latas e garrafas bem pintadas e decoradas, a soprar os nossos apitos e cornetas e a dikanzar os nossos bordoes bem trabalhados e os nossos chocalhos, todos bem ritmados e animados atras do Mayado, que era o nosso maskarado 'a Tchinganji ou Mukixi:
Tam-taram-tam-tam... mayado! Tam-tam-taram-tam-tam... mayado! Pao com gin-gu-ba... mayado! Tam-tam-taram-tam-tam... mayado! Pao com gin-gu-ba... mayado! Tam-tam-taram-tam-tam... Mayado!!!
A 'Tradicao'
“O semba e’ uma adaptacao do kazukuta. O meu pai transpos os ritmos kimbundus para a viola. Tinha conhecimento das musicas portuguesas e brasileiras. Transpos muita coisa em tom menor.” - Carlitos Vieira Dias
Em Luanda e noutras cidades (Malange, Benguela) o Carnaval e’ desde o seculo XIX a festa popular por excelencia onde os africanos se mascaram de figuras portuguesas e dancam pantomimas alegoricas. Nos anos 40, nos grupos carnavalescos dos musseques, ganham forca as percussoes e a dikanza, ao lado da corneta, dos apitos e dos chocalhos. As dancas sao dizanda, varina, kabetula, cidralia, maringa, kazukuta, njimba. O carnaval foi proibido de 61 a 68.
[Na Rua de Sao Paulo - Kabokomeu]
Apos a independencia, o Estado passou a financiar os grupos e fixou a data do carnaval a 27 de Marco, dia do aniversario da vitoria (em 76) das FAPLA sobre as tropas sul-africanas. Uniao Operaria Kabokomeu foi fundado em Janeiro de 1952, por operarios do Sambizanga. Uniao Mundo da Ilha juntou em 1968 varios grupos da Ilha de Luanda. Na Rua de Sao Paulo e’ um kazukuta, danca baseada em pantomima. Amanha Vamos a Procura da Chave e’ uma varina. Se bem que gravadas em 1978, estas duas musicas sao representativas do carnaval dos anos 50-60. Mas as letras, no contexto politico do pos-independencia, expressam o apoio popular a Agostinho Neto, Presidente da Republica.
[Amanha Vamos a Procura da Chave - Uniao Mundo da Ilha]
A rebita apareceu no final do seculo XIX nos saloes de uma elite negra e mulata das cidades (Luanda, Benguela). A danca de origem europeia (quadrille ou contre danse) foi africanizada. Toca-se com concerina e dikanza. As damas sao trajadas de panos africanos, com penteados kindumba, os cavalheiros de fato, a rigor, com chapeu de coco. Os apitos e as ordens (com algumas palavras em frances) do “comandante”, dao o sinal das viragens, acompanhadas de palmas e umbigadas. O nome tradicional e’ massemba, a palavra rebita aparece mais tarde. Mestre Geraldo, grande mestre de rebita e chefe de grupos carnavalescos, introduziu percussoes dos pescadores da Ilha de Luanda, tornando-a mais popular. Mini Saia, muito celebre, e’ uma mistura de varina e massemba.
[Mini Saia - Mestre Geraldo Morgado]
[Extractos de textos de Jorge Macedo, Artur Arriscado, João Chagas, Gilberto Junior e Ariel de Bigault, in Angola 60’s – Buda Musique 1999]
Finalmente, se me e' permitido, gostaria de regressar ao meu Carnaval.
Como afirmei em algumas ocasioes (e.g. aqui), tenho por principio fundamental nao falar, menos ainda tentar explicar, (d)os meus poemas, mesmo quando confrontada, como tem sido norma desde a publicacao do meu primeiro, e ate' agora, unico livro, com a sua total deturpacao, manipulacao, ou indevida interpretacao/apropriacao - voluntaria e conscientemente ou nao. Dito isso, tenho vindo ultimamente a abrir algumas excepcoes, como foi o caso aqui, aqui, aquie aqui.
Fa-lo-ei agora tambem um pouco em relacao a esse poema em que tentei recriar a atmosfera do Carnaval.
Sempre entendi o Carnaval (em qualquer parte do mundo) como uma manifestacao de algo assim como o "festival da carne" - uma festa pagã destinada inicialmente a dar vazao a tudo (ou quase) quanto era proibido pela religiao ao longo do resto do ano (dai o "prazer 'imedido' na exorcisao das teias do armario"); uma especie de "teatro do absurdo", uma expressao de "transgressao" daquilo que vai contra a norma estabelecida, "anormal" portanto (e.g. "despir o nu e agasalhar o mal vestido" - algo expresso na exuberancia das vestes de Carnaval mesmo pelos que durante o resto do ano mal teem com que se vestir, podendo para tanto chegar a "despir o nu" -, ou "qualquer ovo que se machuca e se espalha lentamente pelo corpo", ou ainda "um aperto de maos, de costas, para dar mais prazer"). Tudo isso, porem, com um prazo limitado de que os folioes nao se lembram "senao a despedida", i.e., apenas quando e' tempo de "varrer as cinzas".
Enfim, uma festa destinada a "chocar", a provocar "choque(s)" no sistema social - e, nessa medida, ele tera' evoluido do chocar com o sistema religioso ao chocar com o sistema politico, "entre a calma do ocio - o dolce fare niente, o nao trabalhar, dos dias de Carnaval, que e' tambem um acto contra a 'norma' - e o desprezo da revolta" [contra o(s) sistema(s)].
E tudo isso para que a norma, o(s) sistema(s), enfim, os "valores e principios" estabelecidos, se possam manter (e reproduzir-se) quando tudo regressa a normalidade do resto do ano - dai a "tempestade que nunca desabara'" apesar do "vento rasteiro, sibilino": Carnaval.
Mas o tema do Carnaval foi apenas um pretexto para escrever sobre outras coisas que na altura se estavam a passar na minha vida, ao regressar a Luanda com o meu filho de Lisboa, depois de ter passado pelo Carnaval do Rio com o falecido pai dele em 1983. Mas essas sao outras historias.
Antes de mais desejar um feliz ano novo e que 2011 seja melhor que 2010 uma vez que não foi um ano fácil para a maioria dos Angolanos.
Caríssimos escrevo esse mail no intuito de alertar-vos de algo que acredito tratar-se de um autentico assalto(quase a mão armada) não só aos nossos bolsos mas também a nossa capacidade intelectual, de perceber o que esta certo e errado, alias eu penso que esse facto passou os limites do bom senso, que por razões das dificuldades de toda ordem ainda existentes no nosso pais, por motivos que todos nos conhecemos as vezes acabamos por fechar os olhos a certos exageros, mas acho que esta na hora de dar um BASTA!!
Esta semana depois do descanso merecido para enfrentar mais um ano nesta nossa terra querida, fui tranquilamente fazer umas compras básicas a famosa CASA DOS FRESCOS, básicas porque acredito que até os mais abastados têm alguma dificuldade em fazer compras neste estabelecimento comercial, devido ao exagero nos preços praticados.
Como ia dizendo, passava eu pela zona dos frescos e não pude deixar de constatar esse facto, todos nos gostamos de uma fruta uns mais do que outros, mas todos temos uma fruta preferida, e todos nos sabemos o quanto são importantes para a nossa dieta alimentar diária, eu por exemplo adoro Melão, e ao ver um na prateleira fui inocentemente tentar colocar no meu cesto para comprar e obviamente depois degustar junto da minha família, se não tivesse provas penso que pouca gente acreditaria, não é que o inocente MELÃO custava nada mais nada menos que a quantia de 9.803.01kzs o equivalente em dólares ao cambio oficial (105.40usd).
Amigos acreditem que por alguns minutos parei e pensei que fosse um engano, chamei a funcionaria e ela disse que realmente aquele era o preço uma vez que se tratava de fruta importada.
Agora pergunto-me, será que nós os Angolanos somos assim tão ignorantes que não sabemos o quanto pode custar um melão no estrangeiro, ou será da triste fama que temos de sermos os ricos, milionários, temos que pagar assim tão caro por um melão, talvez o melão tenha vindo em 1ª classe no avião ou se calhar até veio de jacto privado, porque só assim pode se justificar que uma fruta que em qualquer supermercado no estrangeiro por mais caro que seja, não custa mais do que 10 euros e mesmo assim estou a ser generoso, alias sabemos nós que obviamente eles vão comprar a fornecedores que vendem a grosso, portanto com preços bastantes reduzidos. Mas que taxas são essas que a nossa alfândega esta a cobrar?? Que meio de transporte e este?? Que gasosa?? Não acredito que haja justificação.
Meus compatriotas acho que devemos ter um outro tipo de atitude com essa gente que se aproveita das nossas dificuldades para criar um "El dourado" nos seus países de origem, muito sinceramente não acredito que este dinheiro, que vale esse Melão de ouro e para beneficiar os nossos filhos, ou a nossa terra que tanto precisa. Isto é um autentico roubo.
Aonde estão as autoridades, Policia Económica, Inadec, será que não existe ninguém para ajudar a por esses ladrões na linha.
Daí o meu apelo a sociedade civil para deixarmos de frequentar esse tipo de lugares acho que só assim será possível conter essa onda de aproveitadores.
Por favor amigos espero as vossas contribuições, e que façam que este mail de a volta ao mundo para verem bem o quanto custa viver na nossa terra que tanto amamos.
Abraços,
CF
Privatizada de economistas e banqueiros quem te desiquilibrou a balança?
*A Casa dos Frescos deverá responder em tribunal pelo crime de especulação depois de uma equipa de inspecção da Polícia Económica ter apurado esta quarta-feira, 13, que os preços dos melões estão acima do normal. O responsável da loja, Rui Catalo, esteve ontem no sector de inspecção da Polícia Económica, onde foi informado sobre o processo em causa.
** Entretanto, a Policia Economica ficou com um "ganda melao" em resultado da accao que (in)tentou em tribunal contra os "supostos vendedores" de banha da cobra, digo, melao de ouro...
Antes de mais desejar um feliz ano novo e que 2011 seja melhor que 2010 uma vez que não foi um ano fácil para a maioria dos Angolanos.
Caríssimos escrevo esse mail no intuito de alertar-vos de algo que acredito tratar-se de um autentico assalto(quase a mão armada) não só aos nossos bolsos mas também a nossa capacidade intelectual, de perceber o que esta certo e errado, alias eu penso que esse facto passou os limites do bom senso, que por razões das dificuldades de toda ordem ainda existentes no nosso pais, por motivos que todos nos conhecemos as vezes acabamos por fechar os olhos a certos exageros, mas acho que esta na hora de dar um BASTA!!
Esta semana depois do descanso merecido para enfrentar mais um ano nesta nossa terra querida, fui tranquilamente fazer umas compras básicas a famosa CASA DOS FRESCOS, básicas porque acredito que até os mais abastados têm alguma dificuldade em fazer compras neste estabelecimento comercial, devido ao exagero nos preços praticados.
Como ia dizendo, passava eu pela zona dos frescos e não pude deixar de constatar esse facto, todos nos gostamos de uma fruta uns mais do que outros, mas todos temos uma fruta preferida, e todos nos sabemos o quanto são importantes para a nossa dieta alimentar diária, eu por exemplo adoro Melão, e ao ver um na prateleira fui inocentemente tentar colocar no meu cesto para comprar e obviamente depois degustar junto da minha família, se não tivesse provas penso que pouca gente acreditaria, não é que o inocente MELÃO custava nada mais nada menos que a quantia de 9.803.01kzs o equivalente em dólares ao cambio oficial (105.40usd).
Amigos acreditem que por alguns minutos parei e pensei que fosse um engano, chamei a funcionaria e ela disse que realmente aquele era o preço uma vez que se tratava de fruta importada.
Agora pergunto-me, será que nós os Angolanos somos assim tão ignorantes que não sabemos o quanto pode custar um melão no estrangeiro, ou será da triste fama que temos de sermos os ricos, milionários, temos que pagar assim tão caro por um melão, talvez o melão tenha vindo em 1ª classe no avião ou se calhar até veio de jacto privado, porque só assim pode se justificar que uma fruta que em qualquer supermercado no estrangeiro por mais caro que seja, não custa mais do que 10 euros e mesmo assim estou a ser generoso, alias sabemos nós que obviamente eles vão comprar a fornecedores que vendem a grosso, portanto com preços bastantes reduzidos. Mas que taxas são essas que a nossa alfândega esta a cobrar?? Que meio de transporte e este?? Que gasosa?? Não acredito que haja justificação.
Meus compatriotas acho que devemos ter um outro tipo de atitude com essa gente que se aproveita das nossas dificuldades para criar um "El dourado" nos seus países de origem, muito sinceramente não acredito que este dinheiro, que vale esse Melão de ouro e para beneficiar os nossos filhos, ou a nossa terra que tanto precisa. Isto é um autentico roubo.
Aonde estão as autoridades, Policia Económica, Inadec, será que não existe ninguém para ajudar a por esses ladrões na linha.
Daí o meu apelo a sociedade civil para deixarmos de frequentar esse tipo de lugares acho que só assim será possível conter essa onda de aproveitadores.
Por favor amigos espero as vossas contribuições, e que façam que este mail de a volta ao mundo para verem bem o quanto custa viver na nossa terra que tanto amamos.
Abraços,
CF
Privatizada de economistas e banqueiros quem te desiquilibrou a balança?
*A Casa dos Frescos deverá responder em tribunal pelo crime de especulação depois de uma equipa de inspecção da Polícia Económica ter apurado esta quarta-feira, 13, que os preços dos melões estão acima do normal. O responsável da loja, Rui Catalo, esteve ontem no sector de inspecção da Polícia Económica, onde foi informado sobre o processo em causa.
** Entretanto, a Policia Economica ficou com um "ganda melao" em resultado da accao que (in)tentou em tribunal contra os "supostos vendedores" de banha da cobra, digo, melao de ouro...
Desta listade "figuras do ano", chamou-me particularmente a atencao, com agrado e interesse (cujas razoes podem ser encontradas aqui), esta mencao:
IMPRENSA Jornal Bêó Ritmos do coração
A Imprensa angolana já teve, ao longo da sua história, momentos de grande esplendor mas também muitos baixos. No tempo em que vivemos, a situação não é das melhores mas começam a surgir sinais de que é possível retomar o rumo de um jornalismo com rigor, isenção e responsabilidade. Por isso, saudamos o aparecimento do Jornal Bêó, projecto liderado pelo repórter Paulo Mateta. O jornalismo tem uma vertente regional que não pode ser desprezada. E o Bairro Operário, pelo que significa sob o ponto de vista cultural e histórico, merece um jornal.
Enquanto procurava o jornal, ou outras mencoes a ele na net (sem qualquer sucesso nesse aspecto), encontrei essas fotos do B.O. e arredores aqui, onde tambem encontrei a foto abaixo... que me trouxe outras recordacoes de corridas atras do "carro do fumo" em tempos mais recuados da ndenguice la' para as bandas da Vila Alice...
Desta listade "figuras do ano", chamou-me particularmente a atencao, com agrado e interesse (cujas razoes podem ser encontradas aqui), esta mencao:
IMPRENSA Jornal Bêó Ritmos do coração
A Imprensa angolana já teve, ao longo da sua história, momentos de grande esplendor mas também muitos baixos. No tempo em que vivemos, a situação não é das melhores mas começam a surgir sinais de que é possível retomar o rumo de um jornalismo com rigor, isenção e responsabilidade. Por isso, saudamos o aparecimento do Jornal Bêó, projecto liderado pelo repórter Paulo Mateta. O jornalismo tem uma vertente regional que não pode ser desprezada. E o Bairro Operário, pelo que significa sob o ponto de vista cultural e histórico, merece um jornal.
Enquanto procurava o jornal, ou outras mencoes a ele na net (sem qualquer sucesso nesse aspecto), encontrei essas fotos do B.O. e arredores aqui, onde tambem encontrei a foto abaixo... que me trouxe outras recordacoes de corridas atras do "carro do fumo" em tempos mais recuados da ndenguice la' para as bandas da Vila Alice...
It is not Where you live but How you live that matters most
Maya Angelou
Era uma vez...
Corriam os anos “de todas as certezas”, entre finais da decada de 60 e principios da de 70.
Era Luanda e moravamos entao nas, na altura brand new, urbanizacoes da Cuca – na verdade, aquilo era mais Precol do que Cuca, uma vez que a separar-nos havia apenas a linha ferrea. Tratava-se, para a epoca e para aquela zona da cidade, de um moderno complexo habitacional, construido por uma das entao maiores cooperativas habitacionais do pais, com casas suficientemente amenas e condignas, todas de dois andares e varios quartos, jardim com varanda a frente e quintal atras (... invocando um pouco a imagem da “batata no cu, batata na boca” dos casorios de entao...).
Os jardins eram o espaco de todas as competicoes entre os vizinhos (to 'keep up with the joneses', como dizem os ingleses): 'quem mantinha melhor a relva', 'quem tinha as plantas mais bonitas'... Mas o meu espaco de ser, estar e crescer era o quintal, onde cultivavamos uma horta e o meu pai exercia um dos seus maiores especialismos: fertilizar mamoeiros machos!
Outros dos seus especialismos eram ouvir religiosamente o Angola Combatente num radio antigo muito parecido com o da imagem, ler bastante (foi nos livros dele que bebi as minhas primeiras “leituras serias”), fumar cachimbo (para alem dos imprescindiveis ACs) e... escrever poesia!
Um dos seus poemas que ficou mais celebre na familia, escrito em elaborada caligrafia gotica, era dedicado a sua primeira filha, a quem tinha dado o nome Elinar(embora a tenham baptizado Elisa Bernarda, nomes, respectivamente das minhas avos materna e paterna - Elinar era a combinacao dos dois) de onde lhe vem o diminutivo Nanay com que e’ geralmente conhecida ate’ hoje. Poema esse que sempre associo a balada Fur Elise de Beethoven...
E havia os vizinhos: familias negras, brancas, mesticas, cabo-verdianas (estas, geralmente, apenas se distinguiam pelo seu crioulo - que entao se referia apenas a linguagem em que comunicavam entre si...), suponho que quase todos vivendo pela primeira vez a experiencia de partilhar as mesmas ruas e ruelas, becos e vielas, maximbombos e boleias, lojas e cantinas. Enfim, andavamos todos ali a negociar as nossas respectivas identidades e a ver se (... em portugues...) nos entendiamos...
Mas os desentendimentos eram frequentes entre “nos” e os “outros”... Os “nos”, no meu caso particular, eram todo/as com quem eu me entendia e que nao me faziam chorar, ou “perder a paciencia”! Os “outros” eram... os outros! Em particular uns miudos cabo-verdianos muito mais escuros do que nos, mas que quando perdiam em algum jogo ou se saiam mal em alguma brincadeira na rua, iam a correr para casa gritando: “mama, bim ka bie’ ke esta’ faze pretito”! ... Os “pretitos” eramos nos, alguns dos quais mais claros do que eles...
“Outros” eram tambem as miudas brancas da vizinhanca. Um grupinho delas, um belo dia, por entre chorrilhos de insultos racistas, comecou a atirar-nos pedras (... nao, nada parecido com “brincando na serra enquanto o lobo nao vem”...)! Mas nos nao batemos em retirada, nem lhes devolvemos os insultos (... nao sabiamos como – eramos um tanto "gentias", “matumbas” e "bantus" nesse aspecto ...), mas devolvemos-lhes as pedradas... ate’ que eu lhes atirei com uma que acertou em cheio no olho de uma delas!
Bom... a miuda viu estrelas, ficou sem saber de que terra era e... ia perdendo a vista! Por outras palavras, ia ficando aveugle que nem uma cegueta!
Mas o meu pai quando chegou a casa naquele dia e ouviu o relato dos “acontecimentos”, saiu calmamente com a sua caixa de enfermagem, foi pedir desculpas aos pais dela e, durante semanas, como bom enfermeiro que (tambem) era, tratou profissionalmente do olho da miuda ate’ recupera-lo completamente.[*]
Porem, educador firme que (tambem) era, mas tambem sempre cumplice com a minha “paciencia curta” para com racismos e injusticas outras, o meu pai em nenhum momento durante todo aquele episodio, ou depois dele, me dirigiu uma palavra de repreensao... [**]
Mas pergunto, agora “afectuosamente”: o que sera’ feito de ti, oh miuda?...
For many are the pleasant forms which exist in numerous sins, and incontinencies, and disgraceful passions and fleeting pleasures,
which (men) embrace until they become sober and go up to their resting place
And they will find me there, and they will live and they will not die again.
[Toni Morrison, introduction to Paradise]
***
Pai,
Aparentemente, eu matei o mulato (santo) deles. Aparentemente, eu matei o branco (alheio) deles. Aparentemente, so’ nao te matei a ti, pai. Nem matei Cristo. Mas, aparentemente, Cristo pode ressuscitar e pedir: pai afasta de mim esse calice de vinho tinto de sangue. Tu nao podes ressuscitar, pai. Nao podes afastar de mim essas pedras com que me lapidam em Madalena, nem essa lama com que tentam sujar o bom nome que me deste. Tu nao podes pai, nunca pudeste. Por isso nao tenho arrependimentos de Madalena, nem sentimentos de culpa, nem complexos de colonizado, pai… So’ revolta e uma vontade grande de ter respostas!
P.
[*] E isto lembra-me de uma vez, muitos anos depois, em que o artistafez uma feia contusao no dedo grande do pe’ e comecou a ser tratado por uma medica amiga que era vizinha dele, mas passada mais de uma semana nao se notavam nenhumas melhoras, ate’ que eu comecei a trata-lo e... em cerca de 3 dias as melhoras eram notaveis, ate’ que o dedo sarou completamente. Ele veio depois dizer-me que a medica tinha mandado perguntar qual tinha sido o “meu segredo”... Eu na altura "fiz caixinha" so' por gozo, mas revelo-o agora: anos a fio a ver o meu pai trabalhar!
[**] O que me traz a memoria um outro episodio alguns anos antes, quando ainda moravamos na Rua de Benguela [que era separada em duas pela Rua de S. Paulo: para quem viesse da Igreja do mesmo nome - onde fui baptizada e fiz a primeira comunhao e o crisma -, a nossa Rua de Benguela ficava do lado esquerdo, ou seja, no Bairro Operario, vulgo B.O. (ou seja, o SOWETO - South West Township - Luandense), e era a ultima antes da Antonio Enes que separava o B.O. do Miramar]. O meu pai trabalhava, na altura, como enfermeiro da, tambem na altura brand new, fabrica de texteis Textang num turno das 7 da manha as 3 da tarde. Entao o almoco dele era separado e colocado na mesa a sua espera. Num certo dia, o almoco era cozido de bacalhau e eu, por fome ou apenas gulodice ou vontade de comer, fui destapar o prato dele, de onde retirei apenas o ovo, comi-o e voltei a tapar o prato.
Quando o meu pai chegou e alguem lhe disse quem e’ que tinha comido o ovo dele, ele chamou-me, mandou-me sentar a mesa e ordenou-me que comesse todo o resto do prato e que bebesse ao mesmo tempo um litro de agua!
Bem, foi um verdadeiro ordeal para mim que nao tinha estomago para tudo aquilo (especialmente para as batatas enormes!) ... mas que, por entre lagrimas, comi e bebi tudo, la’ isso comi e bebi! E nao vomitei, nem nunca mais me esqueci da licao (sem qualquer outra violencia... alias, nao me lembro de alguma vez o meu pai ter levantado uma mao para me bater!) ou me atrevi a voltar a tocar no prato do pai antes de ele regressar do trabalho.... Era assim que se educavam (algumas) criancas naqueles tempos!
It is not Where you live but How you live that matters most
Maya Angelou
Era uma vez...
Corriam os anos “de todas as certezas”, entre finais da decada de 60 e principios da de 70.
Era Luanda e moravamos entao nas, na altura brand new, urbanizacoes da Cuca – na verdade, aquilo era mais Precol do que Cuca, uma vez que a separar-nos havia apenas a linha ferrea. Tratava-se, para a epoca e para aquela zona da cidade, de um moderno complexo habitacional, construido por uma das entao maiores cooperativas habitacionais do pais, com casas suficientemente amenas e condignas, todas de dois andares e varios quartos, jardim com varanda a frente e quintal atras (... invocando um pouco a imagem da “batata no cu, batata na boca” dos casorios de entao...).
Os jardins eram o espaco de todas as competicoes entre os vizinhos (to 'keep up with the joneses', como dizem os ingleses): 'quem mantinha melhor a relva', 'quem tinha as plantas mais bonitas'... Mas o meu espaco de ser, estar e crescer era o quintal, onde cultivavamos uma horta e o meu pai exercia um dos seus maiores especialismos: fertilizar mamoeiros machos!
Outros dos seus especialismos eram ouvir religiosamente o Angola Combatente num radio antigo muito parecido com o da imagem, ler bastante (foi nos livros dele que bebi as minhas primeiras “leituras serias”), fumar cachimbo (para alem dos imprescindiveis ACs) e... escrever poesia!
Um dos seus poemas que ficou mais celebre na familia, escrito em elaborada caligrafia gotica, era dedicado a sua primeira filha, a quem tinha dado o nome Elinar(embora a tenham baptizado Elisa Bernarda, nomes, respectivamente das minhas avos materna e paterna - Elinar era a combinacao dos dois) de onde lhe vem o diminutivo Nanay com que e’ geralmente conhecida ate’ hoje. Poema esse que sempre associo a balada Fur Elise de Beethoven...
E havia os vizinhos: familias negras, brancas, mesticas, cabo-verdianas (estas, geralmente, apenas se distinguiam pelo seu crioulo - que entao se referia apenas a linguagem em que comunicavam entre si...), suponho que quase todos vivendo pela primeira vez a experiencia de partilhar as mesmas ruas e ruelas, becos e vielas, maximbombos e boleias, lojas e cantinas. Enfim, andavamos todos ali a negociar as nossas respectivas identidades e a ver se (... em portugues...) nos entendiamos...
Mas os desentendimentos eram frequentes entre “nos” e os “outros”... Os “nos”, no meu caso particular, eram todo/as com quem eu me entendia e que nao me faziam chorar, ou “perder a paciencia”! Os “outros” eram... os outros! Em particular uns miudos cabo-verdianos muito mais escuros do que nos, mas que quando perdiam em algum jogo ou se saiam mal em alguma brincadeira na rua, iam a correr para casa gritando: “mama, bim ka bie’ ke esta’ faze pretito”! ... Os “pretitos” eramos nos, alguns dos quais mais claros do que eles...
“Outros” eram tambem as miudas brancas da vizinhanca. Um grupinho delas, um belo dia, por entre chorrilhos de insultos racistas, comecou a atirar-nos pedras (... nao, nada parecido com “brincando na serra enquanto o lobo nao vem”...)! Mas nos nao batemos em retirada, nem lhes devolvemos os insultos (... nao sabiamos como – eramos um tanto "gentias", “matumbas” e "bantus" nesse aspecto ...), mas devolvemos-lhes as pedradas... ate’ que eu lhes atirei com uma que acertou em cheio no olho de uma delas!
Bom... a miuda viu estrelas, ficou sem saber de que terra era e... ia perdendo a vista! Por outras palavras, ia ficando aveugle que nem uma cegueta!
Mas o meu pai quando chegou a casa naquele dia e ouviu o relato dos “acontecimentos”, saiu calmamente com a sua caixa de enfermagem, foi pedir desculpas aos pais dela e, durante semanas, como bom enfermeiro que (tambem) era, tratou profissionalmente do olho da miuda ate’ recupera-lo completamente.[*]
Porem, educador firme que (tambem) era, mas tambem sempre cumplice com a minha “paciencia curta” para com racismos e injusticas outras, o meu pai em nenhum momento durante todo aquele episodio, ou depois dele, me dirigiu uma palavra de repreensao... [**]
Mas pergunto, agora “afectuosamente”: o que sera’ feito de ti, oh miuda?...
For many are the pleasant forms which exist in numerous sins, and incontinencies, and disgraceful passions and fleeting pleasures,
which (men) embrace until they become sober and go up to their resting place
And they will find me there, and they will live and they will not die again.
[Toni Morrison, introduction to Paradise]
***
Pai,
Aparentemente, eu matei o mulato (santo) deles. Aparentemente, eu matei o branco (alheio) deles. Aparentemente, so’ nao te matei a ti, pai. Nem matei Cristo. Mas, aparentemente, Cristo pode ressuscitar e pedir: pai afasta de mim esse calice de vinho tinto de sangue. Tu nao podes ressuscitar, pai. Nao podes afastar de mim essas pedras com que me lapidam em Madalena, nem essa lama com que tentam sujar o bom nome que me deste. Tu nao podes pai, nunca pudeste. Por isso nao tenho arrependimentos de Madalena, nem sentimentos de culpa, nem complexos de colonizado, pai… So’ revolta e uma vontade grande de ter respostas!
P.
[*] E isto lembra-me de uma vez, muitos anos depois, em que o artistafez uma feia contusao no dedo grande do pe’ e comecou a ser tratado por uma medica amiga que era vizinha dele, mas passada mais de uma semana nao se notavam nenhumas melhoras, ate’ que eu comecei a trata-lo e... em cerca de 3 dias as melhoras eram notaveis, ate’ que o dedo sarou completamente. Ele veio depois dizer-me que a medica tinha mandado perguntar qual tinha sido o “meu segredo”... Eu na altura "fiz caixinha" so' por gozo, mas revelo-o agora: anos a fio a ver o meu pai trabalhar!
[**] O que me traz a memoria um outro episodio alguns anos antes, quando ainda moravamos na Rua de Benguela [que era separada em duas pela Rua de S. Paulo: para quem viesse da Igreja do mesmo nome - onde fui baptizada e fiz a primeira comunhao e o crisma -, a nossa Rua de Benguela ficava do lado esquerdo, ou seja, no Bairro Operario, vulgo B.O. (ou seja, o SOWETO - South West Township - Luandense), e era a ultima antes da Antonio Enes que separava o B.O. do Miramar]. O meu pai trabalhava, na altura, como enfermeiro da, tambem na altura brand new, fabrica de texteis Textang num turno das 7 da manha as 3 da tarde. Entao o almoco dele era separado e colocado na mesa a sua espera. Num certo dia, o almoco era cozido de bacalhau e eu, por fome ou apenas gulodice ou vontade de comer, fui destapar o prato dele, de onde retirei apenas o ovo, comi-o e voltei a tapar o prato.
Quando o meu pai chegou e alguem lhe disse quem e’ que tinha comido o ovo dele, ele chamou-me, mandou-me sentar a mesa e ordenou-me que comesse todo o resto do prato e que bebesse ao mesmo tempo um litro de agua!
Bem, foi um verdadeiro ordeal para mim que nao tinha estomago para tudo aquilo (especialmente para as batatas enormes!) ... mas que, por entre lagrimas, comi e bebi tudo, la’ isso comi e bebi! E nao vomitei, nem nunca mais me esqueci da licao (sem qualquer outra violencia... alias, nao me lembro de alguma vez o meu pai ter levantado uma mao para me bater!) ou me atrevi a voltar a tocar no prato do pai antes de ele regressar do trabalho.... Era assim que se educavam (algumas) criancas naqueles tempos!
“Aconteca o que acontecer, uma coisa e’ certa, Francisca Espirito Santo e’ a primeira mulher em Angola a ser nomeada pelo Presidente da Republica para dirigir os destinos de uma Provincia. No inicio de Fevereiro, ela foi nomeada governadora interina de Luanda, em substituicao de Job Capapinha.
Ate’ entao vice-governadora de Luanda, Francisca Espirito Santo ascende tambem pela primeira vez ao patamar alto da governacao, apos ter sido ja’ vice-Ministra da Educacao. De trato afavel e comunicativa, Francisca Espirito Santo nao esconde o peso da empreitada colocada agora sobre os seus ombros, sobretudo quando se tem em conta que Luanda e’ das provincias que mais sofre pressao, cuja governacao acusa a influencia de estar aqui instalado o poder central, onde a falta de clarificacao das regras de jogo permite atropelos de competencias. So’ assim se compreende, alias, que ate’ ao momento, em pouco mais de trinta anos de independencia, a Provincia de Luanda ja’ tenha visto passar pela cadeira do poder 15 governadores, numa media de 2 anos para cada um. Francisca Espirito Santo engorda com Luanda o seu curriculum, almofadado do ponto de vista politico com o facto de ser membro do Comite’ Central do MPLA, o Partido no poder.”
No caso concreto da ex-Governadora de Luanda tais palavras encaixam-se bem na anterior apreciação preliminar que já aqui fizémos sobre o seu desempenho, descontando todas as sobreposições, usurpações e bloqueios institucionais e orçamentais que sabemos serem mais do que muitos e que acabam por transformar a gestão da capital numa missão impossível. Ajusta-se assim na perfeição a bombástica apreciação feita por Bento Bento, segundo a qual o GPL é "um cemitério de quadros". Mas mesmo com este e outros descontos, as coisas não mudam muito de figura a favor da gestão de FES, pois o que está em causa nesta altura é a transparência, a moralização e a equidade, como sendo os pressupostos da boa governação/administração da coisa pública. (...) No caso do GPL e em nosso entender, não se trata tanto do assalto directo ao tesouro público (cabritismo). Aqui o ataque é sobretudo dirigido aos cidadãos e aos empresários/investidores (gasosa). A área do licenciamento das obras, numa cidade que voltou a crescer de forma extraordinária, tem sido a grande mina de enriquecimento ilícito de um conjunto de funcionários da base ao topo. É um ver se te avias. É até fartar, vilanagem... (...) De uma forma geral o cidadão sente no seu quotidiano que há claramente uma "privatização" do Estado angolano, sendo os governos provinciais e as administrações municipais "bons exemplos" desta dura e traiçoeira realidade. Contariando todas as nossas expectativas iniciais no que toca a moralização da administração, sentimos que durante o consulado de FES estes e outros ataques aos bolsos dos munícipes, conheceram um incremento considerável, tanto em quantidade, como em qualidade (valor monetário). A corrupção atingiu efectivamente patamares nunca antes vistos, tendo em conta os elevadíssimos montantes envolvidos nas diferentes "transacções" ocorridas na área do licenciamento das obras. Destes montantes nem um chavo foi parar às contas do Estado. (...) Definitivamente, Francisca do Espírito Santo não vai deixar muitas saudades. Ela corre o sério risco de ficar na história apenas como tendo sido a primeira mulher que governou o "planeta" Luanda. E pouco mais, se quisermos ser simpáticos...
“Aconteca o que acontecer, uma coisa e’ certa, Francisca Espirito Santo e’ a primeira mulher em Angola a ser nomeada pelo Presidente da Republica para dirigir os destinos de uma Provincia. No inicio de Fevereiro, ela foi nomeada governadora interina de Luanda, em substituicao de Job Capapinha.
Ate’ entao vice-governadora de Luanda, Francisca Espirito Santo ascende tambem pela primeira vez ao patamar alto da governacao, apos ter sido ja’ vice-Ministra da Educacao. De trato afavel e comunicativa, Francisca Espirito Santo nao esconde o peso da empreitada colocada agora sobre os seus ombros, sobretudo quando se tem em conta que Luanda e’ das provincias que mais sofre pressao, cuja governacao acusa a influencia de estar aqui instalado o poder central, onde a falta de clarificacao das regras de jogo permite atropelos de competencias. So’ assim se compreende, alias, que ate’ ao momento, em pouco mais de trinta anos de independencia, a Provincia de Luanda ja’ tenha visto passar pela cadeira do poder 15 governadores, numa media de 2 anos para cada um. Francisca Espirito Santo engorda com Luanda o seu curriculum, almofadado do ponto de vista politico com o facto de ser membro do Comite’ Central do MPLA, o Partido no poder.”
No caso concreto da ex-Governadora de Luanda tais palavras encaixam-se bem na anterior apreciação preliminar que já aqui fizémos sobre o seu desempenho, descontando todas as sobreposições, usurpações e bloqueios institucionais e orçamentais que sabemos serem mais do que muitos e que acabam por transformar a gestão da capital numa missão impossível. Ajusta-se assim na perfeição a bombástica apreciação feita por Bento Bento, segundo a qual o GPL é "um cemitério de quadros". Mas mesmo com este e outros descontos, as coisas não mudam muito de figura a favor da gestão de FES, pois o que está em causa nesta altura é a transparência, a moralização e a equidade, como sendo os pressupostos da boa governação/administração da coisa pública. (...) No caso do GPL e em nosso entender, não se trata tanto do assalto directo ao tesouro público (cabritismo). Aqui o ataque é sobretudo dirigido aos cidadãos e aos empresários/investidores (gasosa). A área do licenciamento das obras, numa cidade que voltou a crescer de forma extraordinária, tem sido a grande mina de enriquecimento ilícito de um conjunto de funcionários da base ao topo. É um ver se te avias. É até fartar, vilanagem... (...) De uma forma geral o cidadão sente no seu quotidiano que há claramente uma "privatização" do Estado angolano, sendo os governos provinciais e as administrações municipais "bons exemplos" desta dura e traiçoeira realidade. Contariando todas as nossas expectativas iniciais no que toca a moralização da administração, sentimos que durante o consulado de FES estes e outros ataques aos bolsos dos munícipes, conheceram um incremento considerável, tanto em quantidade, como em qualidade (valor monetário). A corrupção atingiu efectivamente patamares nunca antes vistos, tendo em conta os elevadíssimos montantes envolvidos nas diferentes "transacções" ocorridas na área do licenciamento das obras. Destes montantes nem um chavo foi parar às contas do Estado. (...) Definitivamente, Francisca do Espírito Santo não vai deixar muitas saudades. Ela corre o sério risco de ficar na história apenas como tendo sido a primeira mulher que governou o "planeta" Luanda. E pouco mais, se quisermos ser simpáticos...