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Monday, 1 August 2011

"Uma 'duplicidade' sem nome"...



"Nos meios denominados cultos, com acesso ao saber, se nota isso claramente; há doutos, mestres, especialistas e professores extremamente arrogantes. Aqui, a mesma funciona como um divisor social, algo que está dizendo: “eu sei mais do que você, portanto, sou superior à você”. Premissa discutível, conclusão sem sentido. A arrogância é uma doença social, endêmica, com o apetite de um divisor territorial. “Não me incomode”, diria o pretencioso insolente, “minha graduação e meu conhecimento são superiores, são maiores que os seus.” Argumento de fantoche, pura desinteligência cognitiva e social a retroalimentar um sistema de castas e de tristes e duvidosas exclusividades que insuflam egos e fomentam distanciamentos de todo indesejáveis.

Contrário da solidariedade, contrário da aprendizagem, a arrogância se subsume a ela própria. Assim, de tal maneira e por isso a arrogância não é privativa da ignorância, mas pode ser localizada entre aqueles que, por circunstâncias variadas, tiveram maior acesso e oportunidades dentro de uma sociedade pautada pela aparência e pela hipocrisia.

Ignorância, burrice e arrogância são três infelicitações que mais não fazem do que interferir negativamente no processo de aprendizagem, no relacionamento social e no acesso aos meios de cultura.

Admitamos: somos todos um pouco burros, um pouco ignorantes, um pouco arrogantes. Mas tem gente que é bem mais. Não nos coformemos, contudo; embora a pós-modernidade pregue em tudo o individualismo, resistamos e banquemos La Passionaria. O mundo, de modo geral, agradece."


... "?Contrario O Seria Ou"


"A onda em si mesma não me parece grave; grave afigura-se-me o apoio de sectores que deveriam ter algum cuidado e o paternalismo com que a onda tem sido acarinhada e promovida a patamares preocupantes. As pessoas sem memória são como navegadores sem bússola. Trata-se das piores maldições que existem. Em 1974, 1975 e 1976, para silenciar um grupo de intelectuais descontentes, um esforçado mas modesto professor primário foi promovido a Teórico do Marxismo, mas deixar-nos-ia em 1977. Ainda hoje existem entre nós feridas por cicatrizar."

Jeronimo Belo
(in Novo Jornal, sobre a "actual onda de Kuduro")







"Poetry is unreliable

Poetry will always jump the fence

just when you think poets are behind you

they show up somewhere off the beaten path

absent without leave, beckoning for you

to take your boots off and listen to the birds"


[Kalamu ya Salaam]




Posts Relacionados:


Ainda Sobre Aquele Meu Curso em Portugal

Falando de Intelectualismos

Falando de Geracoes

Em Terra de Cegos

Ordem no Circo Musical da Banda

On Women's Month Dee Dee Sings Lady Day

(ainda) o 27 de Maio e as Feridas (ainda) Por Sarar

A Confissao

Bonga Par Lui-Meme

3rd Luanda International Jazz Festival

"A (radio)(bio)logi(c)a de uma (outra) Kampanha"...

Terra Queimada



"Nos meios denominados cultos, com acesso ao saber, se nota isso claramente; há doutos, mestres, especialistas e professores extremamente arrogantes. Aqui, a mesma funciona como um divisor social, algo que está dizendo: “eu sei mais do que você, portanto, sou superior à você”. Premissa discutível, conclusão sem sentido. A arrogância é uma doença social, endêmica, com o apetite de um divisor territorial. “Não me incomode”, diria o pretencioso insolente, “minha graduação e meu conhecimento são superiores, são maiores que os seus.” Argumento de fantoche, pura desinteligência cognitiva e social a retroalimentar um sistema de castas e de tristes e duvidosas exclusividades que insuflam egos e fomentam distanciamentos de todo indesejáveis.

Contrário da solidariedade, contrário da aprendizagem, a arrogância se subsume a ela própria. Assim, de tal maneira e por isso a arrogância não é privativa da ignorância, mas pode ser localizada entre aqueles que, por circunstâncias variadas, tiveram maior acesso e oportunidades dentro de uma sociedade pautada pela aparência e pela hipocrisia.

Ignorância, burrice e arrogância são três infelicitações que mais não fazem do que interferir negativamente no processo de aprendizagem, no relacionamento social e no acesso aos meios de cultura.

Admitamos: somos todos um pouco burros, um pouco ignorantes, um pouco arrogantes. Mas tem gente que é bem mais. Não nos coformemos, contudo; embora a pós-modernidade pregue em tudo o individualismo, resistamos e banquemos La Passionaria. O mundo, de modo geral, agradece."


...
"?Contrario O Seria Ou"


"A onda em si mesma não me parece grave; grave afigura-se-me o apoio de sectores que deveriam ter algum cuidado e o paternalismo com que a onda tem sido acarinhada e promovida a patamares preocupantes. As pessoas sem memória são como navegadores sem bússola. Trata-se das piores maldições que existem. Em 1974, 1975 e 1976, para silenciar um grupo de intelectuais descontentes, um esforçado mas modesto professor primário foi promovido a Teórico do Marxismo, mas deixar-nos-ia em 1977. Ainda hoje existem entre nós feridas por cicatrizar."

Jeronimo Belo
(in Novo Jornal, sobre a "actual onda de Kuduro")







"Poetry is unreliable

Poetry will always jump the fence

just when you think poets are behind you

they show up somewhere off the beaten path

absent without leave, beckoning for you

to take your boots off and listen to the birds"


[Kalamu ya Salaam]




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Falando de Intelectualismos

Falando de Geracoes

Em Terra de Cegos

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On Women's Month Dee Dee Sings Lady Day

(ainda) o 27 de Maio e as Feridas (ainda) Por Sarar

A Confissao

Bonga Par Lui-Meme

3rd Luanda International Jazz Festival

"A (radio)(bio)logi(c)a de uma (outra) Kampanha"...

Terra Queimada

Thursday, 21 July 2011

(ainda) O 27 de Maio e As feridas (ainda) por sarar...





A cela (8) cadeia de S. Paulo em Luanda


"Era um dos piores lugares, para se meter um ser humano, seja qual fosse o crime que cometesse.

Era uma cela especial pelo horror que nela se vivia, onde os presos tinham que beber da mesma água da pia, onde faziam suas necessidades maiores. Por um pequeno postigo, recebiam seus alimentos cheirosos, muitas vezes embrulhados em restos de jornais ou de trapos, com salpicos de sangue, daqueles presos que eram escorraçados nos intorragatórios e de lá, seguiam para á ambulância da morte.

Numa temperatura tão húmida, enquanto uns dormiam outros ficavam de joelho para se conseguir uma resma de espaço, para cada um.

Aquela cela parecia um autentico museu de horrores, para quem, dia e noite só ouvia gemidos e gritos, de inocentes ou culpados.

Eram mulheres e homens todos no mesmo barco, sacudidos pela mesma intensidade repressiva, mas com destino e sorte diferente para cada um. Entradas e saídas de presos, para locais improvisados de interrogatórios ou de morte, era uma constante .

Apenas a dor, os gemidos e a perda de mais um consofredor, era a única luz, que iluminava aquele local, onde os dias eram igualzinhos ás noites.

Poucos resistiram os horrores, humilhações e aquelas torturas permanentes, que transformavam vidas antes pacatas, em restos humanos."


[...]


Podera' ler esse testemunho na integra aqui, onde podera' tambem encontrar a apresentacao deste video inedito sobre o 27 de Maio:






Post relacionado:

Neste 27 de Maio





A cela (8) cadeia de S. Paulo em Luanda


"Era um dos piores lugares, para se meter um ser humano, seja qual fosse o crime que cometesse.

Era uma cela especial pelo horror que nela se vivia, onde os presos tinham que beber da mesma água da pia, onde faziam suas necessidades maiores. Por um pequeno postigo, recebiam seus alimentos cheirosos, muitas vezes embrulhados em restos de jornais ou de trapos, com salpicos de sangue, daqueles presos que eram escorraçados nos intorragatórios e de lá, seguiam para á ambulância da morte.

Numa temperatura tão húmida, enquanto uns dormiam outros ficavam de joelho para se conseguir uma resma de espaço, para cada um.

Aquela cela parecia um autentico museu de horrores, para quem, dia e noite só ouvia gemidos e gritos, de inocentes ou culpados.

Eram mulheres e homens todos no mesmo barco, sacudidos pela mesma intensidade repressiva, mas com destino e sorte diferente para cada um. Entradas e saídas de presos, para locais improvisados de interrogatórios ou de morte, era uma constante .

Apenas a dor, os gemidos e a perda de mais um consofredor, era a única luz, que iluminava aquele local, onde os dias eram igualzinhos ás noites.

Poucos resistiram os horrores, humilhações e aquelas torturas permanentes, que transformavam vidas antes pacatas, em restos humanos."


[...]


Podera' ler esse testemunho na integra aqui, onde podera' tambem encontrar a apresentacao deste video inedito sobre o 27 de Maio:






Post relacionado:

Neste 27 de Maio

Friday, 27 May 2011

Neste 27 de Maio...







Neste 27 de Maio, cabe-me apenas referenciar aqui as instancias de 'ameacas de morte' - abertas ou veladas, directas ou indirectas -, de que tenho sido alvo desde a criacao deste blog, por questoes relacionadas com aquela data fatidica, com a qual nada tive a ver, a nao ser a minha proximidade pessoal e/ou familiar com pessoas mais ou menos directamente com ela envolvidas:


1 - aqui

2 - aqui

3 - aqui

4 - aqui

5 - aqui

6 - aqui

7 - aqui

8 - aqui

9 - aqui

10 - aqui

11 - aqui

12 - aqui

13 - aqui

14 - aqui

15 - aqui

16 - aqui


[...]








Neste 27 de Maio, cabe-me apenas referenciar aqui as instancias de 'ameacas de morte' - abertas ou veladas, directas ou indirectas -, de que tenho sido alvo desde a criacao deste blog, por questoes relacionadas com aquela data fatidica, com a qual nada tive a ver, a nao ser a minha proximidade pessoal e/ou familiar com pessoas mais ou menos directamente com ela envolvidas:


1 - aqui

2 - aqui

3 - aqui

4 - aqui

5 - aqui

6 - aqui

7 - aqui

8 - aqui

9 - aqui

10 - aqui

11 - aqui

12 - aqui

13 - aqui

14 - aqui

15 - aqui

16 - aqui


[...]


Saturday, 4 December 2010

O "nosso Pravda" (e) a(s) contas com (d)a Justica...

O presidente russo, Dimitri Medvedev, vai lançar uma campanha de
“desestalinização” da Rússia, lembrando a população dos crimes cometidos pelo
ditador soviético Josef Estaline.
O papel de Estaline na história russa é o tema de uma reunião, em Janeiro, entre Medvedev e membros do Conselho de Direitos Humanos do Kremlin, indicaram alguns convidados da reunião, citados pelo jornal económico “Vedomosti”.
O Conselho elaborou um projecto de programa federal que tem como objectivo homenagear as milhões de vítimas da repressão estalinista.
O projecto inclui a abertura completa dos arquivos soviéticos, operações de procura de pessoas mortas nos campos e a instalação de novos monumentos para lembrar as vítimas.
O Conselho de Direitos Humanos também pede a Medvedev que “faça uma abordagem política e jurídica dos crimes do totalitarismo”.
A era Estaline caracterizou-se na Rússia por um regime de terror e pela execução ou o envio de milhões de pessoas para os gulags. A Câmara Baixa do Parlamento russo (Duma) aprovou, na sexta-feira, uma declaração que reconhece como “uma tragédia” ordenada por Staline o massacre de milhares de oficiais polacos, em 1940, em Katyn.
A atitude em relação ao ex-ditador é ambígua na Rússia, onde ele é percebido cada vez mais como um tirano. Alguns, no entanto, ainda o vêem como herói da vitória sobre os nazis na Segunda Guerra Mundial.


[Aqui]



... Nao sera' altura de a "nossa Duma" seguir o exemplo e comecar a abrir totalmente o "processo do 27 de Maio"?

E, ja' agora, de alguns grupos dos famigerados tempos de "todos os PRECs", em particular os que se designavam "Comites Jose' Estaline", comecarem a "explicar-se melhor"? ...

Parece!
O presidente russo, Dimitri Medvedev, vai lançar uma campanha de
“desestalinização” da Rússia, lembrando a população dos crimes cometidos pelo
ditador soviético Josef Estaline.
O papel de Estaline na história russa é o tema de uma reunião, em Janeiro, entre Medvedev e membros do Conselho de Direitos Humanos do Kremlin, indicaram alguns convidados da reunião, citados pelo jornal económico “Vedomosti”.
O Conselho elaborou um projecto de programa federal que tem como objectivo homenagear as milhões de vítimas da repressão estalinista.
O projecto inclui a abertura completa dos arquivos soviéticos, operações de procura de pessoas mortas nos campos e a instalação de novos monumentos para lembrar as vítimas.
O Conselho de Direitos Humanos também pede a Medvedev que “faça uma abordagem política e jurídica dos crimes do totalitarismo”.
A era Estaline caracterizou-se na Rússia por um regime de terror e pela execução ou o envio de milhões de pessoas para os gulags. A Câmara Baixa do Parlamento russo (Duma) aprovou, na sexta-feira, uma declaração que reconhece como “uma tragédia” ordenada por Staline o massacre de milhares de oficiais polacos, em 1940, em Katyn.
A atitude em relação ao ex-ditador é ambígua na Rússia, onde ele é percebido cada vez mais como um tirano. Alguns, no entanto, ainda o vêem como herói da vitória sobre os nazis na Segunda Guerra Mundial.


[
Aqui]



... Nao sera' altura de a "nossa Duma" seguir o exemplo e comecar a abrir totalmente o "processo do 27 de Maio"?

E, ja' agora, de alguns grupos dos famigerados tempos de "todos os PRECs", em particular os que se designavam "Comites Jose' Estaline", comecarem a "explicar-se melhor"? ...

Parece!

Saturday, 29 May 2010

Noticias do meu pais

O Kudibanguela, a partir do momento em que deixou de servir os interesses do MPLA, foi extinto. O Presidente Neto, que havia «assinado por baixo» quando a ideia de criação do programa lhe foi apresentada, não teve de decretar a sua extinção: convidou a equipa para um jantar, no decurso do qual anunciou que, a partir daquele dia… não mais kudibanguela. Ele disse para nós, nesse jantar, cito: «…camaradas, convém ao MPLA que o Kudibanguela não mais vá para o ar…»
(...)
Da equipa do Kudibanguela faziam parte: Manuel Neto (MBala), coordenador e na altura DG da RNA; Adelino Santos (Betinho); Costa Benjamim NGalangandja; Emanuel Costa (Manino); Rui Malaquias (Ngila); Colosso; Evaristo Rocha; Ricardina Rocha (Didina). Na Rádio Nacional fomos assessorados na sonoplastia pelo Fernando Neves, o Artur Arriscado e o Óscar Gourgel, que em momento algum foram tidos como membros da equipa. Do Kudibanguela mesmo restamos quatro para contar a história.

Emanuel de Jesus Conceição Costa «Manino»
(in Semanario Angolense, edicao #369, pp. 7-9)



Manuel Bernardo Neto (MBala) - meu cunhado (marido da minha irma mais velha, que tambem viria a ser presa do 27 de Maio durante cerca de dois anos). Com ele aprendi a jogar xadrez (ele tinha-o aprendido quando esteve preso pela Pide em S. Nicolau no periodo colonial, tendo sido libertado na sequencia do 25 de Abril). Vi-o pela ultima vez no domingo anterior ao 27/05/77, durante um almoco de familia em casa da minha mae, que terminara numa acesa discussao politico-ideologica entre ele e um outro meu cunhado, o Waldemar Parreira, o Dumas, [ligado a OCA - Organizacao Comunista de Angola - e que tambem viria a ser preso durante varios meses na cadeia de Sao Paulo (...onde, ja' depois de regressada do Lubango, fui algumas vezes com a mulher dele, a minha outra irma, a artista plastica Maria Teresa Santana, a.k.a. Mawete vo Teka-Sala, a Tekas, ajuda-la a levar-lhe o farnel - com um volume de Herminios mandados pelo Tirso pelo meio - a que so' a partir de determinada altura alguns prisioneiros passaram a ter direito uma vez por semana, ou de 15 em 15 dias... enquanto aguardavamos a nossa vez de sermos chamadas pela seguranca - que passava tudo a pente fino antes de autorizar a entrada do que quer que fosse la' para dentro - por entre o verdadeiro arraial de fraternidades familiares que ali se reunia em frente a cadeia, eu via como alguns prisioneiros se acotovelavam em algumas celas de onde se podia ver por sobre os muros, para verem quem ali estava, quem tinha vindo... tentava ansiosamente reconhece-los, mas as grades e a distancia nao o permitiam... despedia-me com um adeus, retribuido nao sei por quem - ate' hoje...) e depois expulso para Portugal] ... Esta e' a primeira vez que vejo o nome do MBala mencionado em qualquer relato sobre o 27 de Maio (ressalvando aqui que ainda nao li todos os que ate' agora foram publicados).

[Paz A Sua Alma]



E por falar da minha irma mais velha (tambem mencionada aqui), a (tambem) economista Maria Elisa Santana, a Nanay, foi ela que, com o MBala, trouxe ao mundo o autor deste livro. Foram dela tambem as palavras que se seguem, publicadas ha' 3 anos no espaco de comentarios a este post.



Forca Ana Koluki!

Acho que estas a encaminhar o assunto super bem, contudo depois de checkar o blog em quest~ao, ja ha uns dias e mesmo agora, nao posso deixar de sentir uma raiva enorme pelo facto de a situacao social/cultural/historica/economica do pais estar de tal modo distorcida que intrusos e usurpadores como e' claramente o caso dessa criatura ou aberracao da natureza, se possam arrogar nao so a intrometer-se e banalizar assuntos ta~o profundamente nossos e sagrados, como e' o caso 27Maio,"fraccionismo" , a tragedia Nacional,que roubou a Nacao Angolana de mais de 40 mil jovens (estimativas da Amnistia Internacional), numero que pessoalmente nao disputo, porque so' eu e mais duas pessoas proximas em 1991 compilamos de entre os nossos conhecimentos pessoais uma lista de mais de 200 nomes isso foi para uma entrevista que eu dei nesse ano para essa organizacao AI, se considerarmos que esses jovens na sua grande maioria eram justamente os que mais activamente e abertamente continuavam a bater-se pela independencia de Angola no seu sentido mais amplo, jovens esses que incondicionalmente se dedicaram e profundamente acreditaram no MPLA e seu Lider A.Neto, que de facto foram a pedra angular para o MPLA ascender ao poder nas condico~es em que o fez, porque sem eles, sua determinacao e dedicacao combinada com inexperiencia+ingenuidade de que so' jovens sao capazes(celulas urbanas e gerrilha da primeira regi~ao), nem com dez vezes mais apoio da esquerda Portuguesa Rosas ou Gagos Coutinhos, O Sr. "M" , face a sua desarticulacao interna e campanha militar UNITA/FNLA e atitude de nao reconciliacao, nao teria a menor chance!

O facto 'e que o MPLA com este, "fracionismo" que de facto so, fracionismo 'e um anocronismo endemico do grande "M", o 27 de Maio foi apenas o mais visivel, porque conseguiu nao deixar uma unica familia Angolana, nem mesmo a familia do presidende Neto, de facto foi uma das mais proficuas, com pelo menos 3 viti'mas, todas as familias Angolanas com ligacoes urbanas foram afectadas = perca de familiar, amigo ou conhecido morto=desaparecido, preso ou desempregado (lembrar que o Estado era o unico empregador em 1977) consumou de facto em grande medida o "Wipe off" de uma geracao. Os anacronismos do grande "M" com os seus efeitos de devastacao no tecido politico, social e cultural do Pais, nao fica por ai, continua com a desafectacao dos jovens DISAS utilisados, que na sua maioria sucumbiram ou estao mentalmente desarticulados, do exodo de jovens para as pedreiras portuguesas, ngundas Britanicas e so' NGana Zambi sabe para que paises mais, o talento angolano de todos tamanhos e graus porque o facto e' que Angola independente produz mais emigrantes que Angola colonisada e em contra-partida nutre e acolhe aberracoes como a criatura em causa, que enquanto, paga a peso de ouro com os recursos petroliferos do Pais, dos Angolanos certamente deve apreciar deleitada enquanto acessa a internet,como so' ela sabe e pode... com ar condicionado ligado, jantar de 5 estrelas feito pelo cozinheiro Mavunga casa limpa pela servente Massanga... ao longe ela deve ver da janela do quarto dela e achar muito romantico o bambolear das labaredas, feitas de lenha de pau preto, rosa ou ferro, que sao a unica fonte de energia possivel para cozinhar a unica refeicao do dia da familia do Mavunga e a melhor oportunidade de escolarizacao da filha da Massanga, que passou dia na Lavra, porque o programa da FESA ainda nao chegou ate a sanzala dela para construir uma escola ou coisa alguma, e entao pode ver o rosto da avo dela Mbembo, iluminado pelas labaredas, chorar os contos de antigamente de quando Angola era colonia...que devem provocar na miuda Ufolo um desejo de conhecer tal "maravilha".
Enquanto isso a Internauta do Malongo certamente que se cruza nos corredores da petrolifera com o engenheiro NVunda, que ha 5 mais anos esta a tentar construir uma casa de blocos no Jacare, que
deve ser casado com a Dra Luegi, formada em Cuba e continua desempregada, porque ainda na~o conseguiu fundos suficientes para abrir a propria clinica nem foi aceite em nenhuma das parcerias de saude privada, porque nao e de nenhuma das "familias".

Acho que a minha raiva diminuiu, mas algem tem de repor a
legalidade, a dignidade, o nacionalismo, recuperar a Historia a Nacao para os
Angolanos e nao deixar brecha nem clima para Desgracas abjectas como a criatura em causa possam nem mesmo conjecturar, que quando lhes e dada a oportunidade de trabalhar/viver nababescamente em Angola tenham qualquer outro assunto com Angola ou Angolanos, para alem de prestar o servico para o qual sao pagos anyway....

I did flag the thing, but did not get the sense that it is
effective!”

O Kudibanguela, a partir do momento em que deixou de servir os interesses do MPLA, foi extinto. O Presidente Neto, que havia «assinado por baixo» quando a ideia de criação do programa lhe foi apresentada, não teve de decretar a sua extinção: convidou a equipa para um jantar, no decurso do qual anunciou que, a partir daquele dia… não mais kudibanguela. Ele disse para nós, nesse jantar, cito: «…camaradas, convém ao MPLA que o Kudibanguela não mais vá para o ar…»
(...)
Da equipa do Kudibanguela faziam parte: Manuel Neto (MBala), coordenador e na altura DG da RNA; Adelino Santos (Betinho); Costa Benjamim NGalangandja; Emanuel Costa (Manino); Rui Malaquias (Ngila); Colosso; Evaristo Rocha; Ricardina Rocha (Didina). Na Rádio Nacional fomos assessorados na sonoplastia pelo Fernando Neves, o Artur Arriscado e o Óscar Gourgel, que em momento algum foram tidos como membros da equipa. Do Kudibanguela mesmo restamos quatro para contar a história.

Emanuel de Jesus Conceição Costa «Manino»
(in Semanario Angolense, edicao #369, pp. 7-9)



Manuel Bernardo Neto (MBala) - meu cunhado (marido da minha irma mais velha, que tambem viria a ser presa do 27 de Maio durante cerca de dois anos). Com ele aprendi a jogar xadrez (ele tinha-o aprendido quando esteve preso pela Pide em S. Nicolau no periodo colonial, tendo sido libertado na sequencia do 25 de Abril). Vi-o pela ultima vez no domingo anterior ao 27/05/77, durante um almoco de familia em casa da minha mae, que terminara numa acesa discussao politico-ideologica entre ele e um outro meu cunhado, o Waldemar Parreira, o Dumas, [ligado a OCA - Organizacao Comunista de Angola - e que tambem viria a ser preso durante varios meses na cadeia de Sao Paulo (...onde, ja' depois de regressada
do Lubango, fui algumas vezes com a mulher dele, a minha outra irma, a artista plastica Maria Teresa Santana, a.k.a. Mawete vo Teka-Sala, a Tekas, ajuda-la a levar-lhe o farnel - com um volume de Herminios mandados pelo Tirso pelo meio - a que so' a partir de determinada altura alguns prisioneiros passaram a ter direito uma vez por semana, ou de 15 em 15 dias... enquanto aguardavamos a nossa vez de sermos chamadas pela seguranca - que passava tudo a pente fino antes de autorizar a entrada do que quer que fosse la' para dentro - por entre o verdadeiro arraial de fraternidades familiares que ali se reunia em frente a cadeia, eu via como alguns prisioneiros se acotovelavam em algumas celas de onde se podia ver por sobre os muros, para verem quem ali estava, quem tinha vindo... tentava ansiosamente reconhece-los, mas as grades e a distancia nao o permitiam... despedia-me com um adeus, retribuido nao sei por quem - ate' hoje...) e depois expulso para Portugal] ... Esta e' a primeira vez que vejo o nome do MBala mencionado em qualquer relato sobre o 27 de Maio (ressalvando aqui que ainda nao li todos os que ate' agora foram publicados).

[Paz A Sua Alma]



E por falar da minha irma mais velha (tambem mencionada aqui), a (tambem) economista Maria Elisa Santana, a Nanay, foi ela que, com o MBala, trouxe ao mundo o autor deste livro. Foram dela tambem as palavras que se seguem, publicadas ha' 3 anos no espaco de comentarios a este post.



Forca Ana Koluki!

Acho que estas a encaminhar o assunto super bem, contudo depois de checkar o blog em quest~ao, ja ha uns dias e mesmo agora, nao posso deixar de sentir uma raiva enorme pelo facto de a situacao social/cultural/historica/economica do pais estar de tal modo distorcida que intrusos e usurpadores como e' claramente o caso dessa criatura ou aberracao da natureza, se possam arrogar nao so a intrometer-se e banalizar assuntos ta~o profundamente nossos e sagrados, como e' o caso 27Maio,"fraccionismo" , a tragedia Nacional,que roubou a Nacao Angolana de mais de 40 mil jovens (estimativas da Amnistia Internacional), numero que pessoalmente nao disputo, porque so' eu e mais duas pessoas proximas em 1991 compilamos de entre os nossos conhecimentos pessoais uma lista de mais de 200 nomes isso foi para uma entrevista que eu dei nesse ano para essa organizacao AI, se considerarmos que esses jovens na sua grande maioria eram justamente os que mais activamente e abertamente continuavam a bater-se pela independencia de Angola no seu sentido mais amplo, jovens esses que incondicionalmente se dedicaram e profundamente acreditaram no MPLA e seu Lider A.Neto, que de facto foram a pedra angular para o MPLA ascender ao poder nas condico~es em que o fez, porque sem eles, sua determinacao e dedicacao combinada com inexperiencia+ingenuidade de que so' jovens sao capazes(celulas urbanas e gerrilha da primeira regi~ao), nem com dez vezes mais apoio da esquerda Portuguesa Rosas ou Gagos Coutinhos, O Sr. "M" , face a sua desarticulacao interna e campanha militar UNITA/FNLA e atitude de nao reconciliacao, nao teria a menor chance!

O facto 'e que o MPLA com este, "fracionismo" que de facto so, fracionismo 'e um anocronismo endemico do grande "M", o 27 de Maio foi apenas o mais visivel, porque conseguiu nao deixar uma unica familia Angolana, nem mesmo a familia do presidende Neto, de facto foi uma das mais proficuas, com pelo menos 3 viti'mas, todas as familias Angolanas com ligacoes urbanas foram afectadas = perca de familiar, amigo ou conhecido morto=desaparecido, preso ou desempregado (lembrar que o Estado era o unico empregador em 1977) consumou de facto em grande medida o "Wipe off" de uma geracao. Os anacronismos do grande "M" com os seus efeitos de devastacao no tecido politico, social e cultural do Pais, nao fica por ai, continua com a desafectacao dos jovens DISAS utilisados, que na sua maioria sucumbiram ou estao mentalmente desarticulados, do exodo de jovens para as pedreiras portuguesas, ngundas Britanicas e so' NGana Zambi sabe para que paises mais, o talento angolano de todos tamanhos e graus porque o facto e' que Angola independente produz mais emigrantes que Angola colonisada e em contra-partida nutre e acolhe aberracoes como a criatura em causa, que enquanto, paga a peso de ouro com os recursos petroliferos do Pais, dos Angolanos certamente deve apreciar deleitada enquanto acessa a internet,como so' ela sabe e pode... com ar condicionado ligado, jantar de 5 estrelas feito pelo cozinheiro Mavunga casa limpa pela servente Massanga... ao longe ela deve ver da janela do quarto dela e achar muito romantico o bambolear das labaredas, feitas de lenha de pau preto, rosa ou ferro, que sao a unica fonte de energia possivel para cozinhar a unica refeicao do dia da familia do Mavunga e a melhor oportunidade de escolarizacao da filha da Massanga, que passou dia na Lavra, porque o programa da FESA ainda nao chegou ate a sanzala dela para construir uma escola ou coisa alguma, e entao pode ver o rosto da avo dela Mbembo, iluminado pelas labaredas, chorar os contos de antigamente de quando Angola era colonia...que devem provocar na miuda Ufolo um desejo de conhecer tal "maravilha".
Enquanto isso a Internauta do Malongo certamente que se cruza nos corredores da petrolifera com o engenheiro NVunda, que ha 5 mais anos esta a tentar construir uma casa de blocos no Jacare, que
deve ser casado com a Dra Luegi, formada em Cuba e continua desempregada, porque ainda na~o conseguiu fundos suficientes para abrir a propria clinica nem foi aceite em nenhuma das parcerias de saude privada, porque nao e de nenhuma das "familias".

Acho que a minha raiva diminuiu, mas algem tem de repor a
legalidade, a dignidade, o nacionalismo, recuperar a Historia a Nacao para os
Angolanos e nao deixar brecha nem clima para Desgracas abjectas como a criatura em causa possam nem mesmo conjecturar, que quando lhes e dada a oportunidade de trabalhar/viver nababescamente em Angola tenham qualquer outro assunto com Angola ou Angolanos, para alem de prestar o servico para o qual sao pagos anyway....

I did flag the thing, but did not get the sense that it is
effective!”

Thursday, 27 May 2010

A Cidade Crispada


Foi alguns meses depois do 27 de Maio de 1977.
Estava em fuga - de militancias, do continuo bater no ferro quente do camartelo da demolicao pessoal, familiar e social; de Luanda e seus kifumbis, kazumbis e kalundus.
Ia em busca de um sol que distendesse o meu estado de crispacao e iluminasse o caminho desconhecido que decidira encetar - numa cidade desconhecida e de totais desconhecidos para mim.
O pretexto era estudar para um curso que so' ali era leccionado.
Ah, e queria muito conhecer de perto e ao vivo as misticas Mumuilas e seus segredos, seus cabelos e oleos de mompeke.
Mas encontrei uma cidade desconhecida e pessoas desconhecidas talvez em maior estado de crispacao do que o meu - ou ter-se-ia a minha crispacao atenuado assim que la' cheguei?

Era assim o Lubango quando em seu nevoeiro crispado desembarquei pela primeira vez.


{Continue lendo aqui}

Foi alguns meses depois do 27 de Maio de 1977.
Estava em fuga - de militancias, do continuo bater no ferro quente do camartelo da demolicao pessoal, familiar e social; de Luanda e seus kifumbis, kazumbis e kalundus.
Ia em busca de um sol que distendesse o meu estado de crispacao e iluminasse o caminho desconhecido que decidira encetar - numa cidade desconhecida e de totais desconhecidos para mim.
O pretexto era estudar para um curso que so' ali era leccionado.
Ah, e queria muito conhecer de perto e ao vivo as misticas Mumuilas e seus segredos, seus cabelos e oleos de mompeke.
Mas encontrei uma cidade desconhecida e pessoas desconhecidas talvez em maior estado de crispacao do que o meu - ou ter-se-ia a minha crispacao atenuado assim que la' cheguei?

Era assim o Lubango quando em seu nevoeiro crispado desembarquei pela primeira vez.


{Continue lendo aqui}

Saturday, 8 May 2010

Pepetela perante si proprio...*


[...]
Thor sabia estórias. Até mesmo as passadas bem antes de ter nascido e que permaneciam na memória colectiva do Planalto Central como momentos de grande terror, tais as célebres razias dos incomparáveis cavaleiros kuanhama, vindos muito do sul para confiscar gado e mulheres. E gostava de narrar, hábito adquirido no seu terreiro natal em que toda a vida social se passava ao fim de tarde e parte da noite à volta da fogueira, ouvindo os mais velhos e sábios relatar cenas do presente e do passado. Talvez também adivinhando futuros, quem sabe.
[...]
A acácia rubra merece um parágrafo especial e peço licença para o introduzir. A casa nova, onde então habitávamos, tinha sido construída ao lado do antigo leito do rio Corinje. O meu pai era jovem quando desviaram o leito do rio para sul, servindo assim de limite ao território. É da sua recordação os antílopes irem beber água ao Corinje e os leões e onças aproveitarem a carne tentadora. A lenda contava que ao lado do rio, teve lugar uma luta de morte entre dois heróis: um leão de juba farta e acobreada e um homem armado apenas de um punhal. Foi alguma gazela o fruto da disputa? A lenda não reteve a razão. Apenas que o combate foi demorado e terminou com a morte de ambos os adversários. Diz ainda a lenda que o sangue dos dois heróis correu para a depressão onde uma jovem acácia brotava. Alimentada por esse sangue quase sagrado, a árvore ultrapassou as irmãs em altura e deu sempre flores mais encarnadas.
[...]
Por isso é tão complicado responder à questão do como e do quando se faz um escritor. Outros saberão. Prefiro deixar que búzios sejam atirados e os leitores adivinhem ou imaginem. O importante é a delícia e alívio que se tem quando um personagem nos surpreende, se apodera da narrativa e diz, agora sou eu que comando, tu, reles escritor, remete-te ao simples papel de escriba ou oráculo, enquanto eu, o personagem, passo a ditar a ação. Sim, nesse momento há o êxtase do corredor de fundo que ultrapassa as dores, a suprema fadiga, e entra no breve paraíso em que flutua sobre nuvens adocicadas antes do colapso final. Há sempre um colapso, todos o sabemos, mas o que interessa mesmo é o facto de se correr para lá da exaustão e pressentir como poderia ser o paraíso. Tal como escrever e deixar solta a imaginação, mesmo para a mais absurda das estórias. Por muito absurda que seja, nunca ultrapassará certas realidades.


[Texto integral aqui]


*{... ou de como 'a mulemba (acacia?) continua nao explicando o sopro, o vento, tao pouco a lagrima'...}


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White Negritude

[...]
Thor sabia estórias. Até mesmo as passadas bem antes de ter nascido e que permaneciam na memória colectiva do Planalto Central como momentos de grande terror, tais as célebres razias dos incomparáveis cavaleiros kuanhama, vindos muito do sul para confiscar gado e mulheres. E gostava de narrar, hábito adquirido no seu terreiro natal em que toda a vida social se passava ao fim de tarde e parte da noite à volta da fogueira, ouvindo os mais velhos e sábios relatar cenas do presente e do passado. Talvez também adivinhando futuros, quem sabe.
[...]
A acácia rubra merece um parágrafo especial e peço licença para o introduzir. A casa nova, onde então habitávamos, tinha sido construída ao lado do antigo leito do rio Corinje. O meu pai era jovem quando desviaram o leito do rio para sul, servindo assim de limite ao território. É da sua recordação os antílopes irem beber água ao Corinje e os leões e onças aproveitarem a carne tentadora. A lenda contava que ao lado do rio, teve lugar uma luta de morte entre dois heróis: um leão de juba farta e acobreada e um homem armado apenas de um punhal. Foi alguma gazela o fruto da disputa? A lenda não reteve a razão. Apenas que o combate foi demorado e terminou com a morte de ambos os adversários. Diz ainda a lenda que o sangue dos dois heróis correu para a depressão onde uma jovem acácia brotava. Alimentada por esse sangue quase sagrado, a árvore ultrapassou as irmãs em altura e deu sempre flores mais encarnadas.
[...]
Por isso é tão complicado responder à questão do como e do quando se faz um escritor. Outros saberão. Prefiro deixar que búzios sejam atirados e os leitores adivinhem ou imaginem. O importante é a delícia e alívio que se tem quando um personagem nos surpreende, se apodera da narrativa e diz, agora sou eu que comando, tu, reles escritor, remete-te ao simples papel de escriba ou oráculo, enquanto eu, o personagem, passo a ditar a ação. Sim, nesse momento há o êxtase do corredor de fundo que ultrapassa as dores, a suprema fadiga, e entra no breve paraíso em que flutua sobre nuvens adocicadas antes do colapso final. Há sempre um colapso, todos o sabemos, mas o que interessa mesmo é o facto de se correr para lá da exaustão e pressentir como poderia ser o paraíso. Tal como escrever e deixar solta a imaginação, mesmo para a mais absurda das estórias. Por muito absurda que seja, nunca ultrapassará certas realidades.


[Texto integral aqui]


*{... ou de como 'a mulemba (acacia?) continua nao explicando o sopro, o vento, tao pouco a lagrima'...}


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White Negritude

Wednesday, 27 May 2009

NOVO LIVRO SOBRE O 27 DE MAIO

"O MEU TESTEMUNHO- a purga do 27 de Maio de 1977 e
as suas consequências trágicas" de JOSÉ ADÃO FRAGOSO

Sunday, 1 June 2008

EM MAIO: A MUSICA DOS “3 REIS” REVISITADA

Artur Nunes, David Ze’ e Urbano de Castro. Foram apelidados “Os 3 Reis Magos da Cancao Angolana”. Desapareceram, para sempre, em Maio de 1977.
A musica deles ficou.
Para sempre.

ARTUR NUNES

Nasceu em 1950, de pai Norte-Americano e de mae Angolana, tendo comecado a cantar em finais de 60. O seu gosto pelo canto surge nos kombas, rituais funebres onde as velhas entoam canticos dolentes. Belina, Kizua Ki Nguifua, Tia, foram cancoes de grande sucesso, que expressam a dor e a saudade. A forma impar de interpretar os “Cantares da Alma” valeu-lhe o apelido de “O Espiritual”. Entre 1972 e 1976, gravou 12 singles e tambem dois temas na colectanea Rebita 75.(*)





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Belina




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Kizua Ki Nguifua




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Tia

DAVID ZE'
Nasceu em 1944 numa familia vocacionada para o canto. Os seus pais eram coristas da Igreja Metodista e os cantores Dilangue e Gaby Moy sao seus irmaos. E’ considerado como um dos maiores compositores. O quotidiano inspira as suas cancoes. Temas como Rumba Zakutine expressam a satira social.(*)





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Mama Kudile




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Rumba Zakutine




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Mona Ku Jimbe Manheno

URBANO DE CASTRO
Conhecido nos suburbios de Luanda como “brigao de respeito”, tornou-se rapidamente um dos grandes artistas dos palcos luandenses. Gravou primeiro para a etiqueta Ngoma e em seguida para Fadiang, um total de 27 singles e mais 4 temas inseridos no LP Rebita 75. A sua linha musical comporta uma grande variedade de generos, com influencias latino-americanas, como em Rosa Maria e sobretudo sembas cadenciados como Semba Lekalo.(*)





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Nvula




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Semba Lekalo




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Rosa Maria


Maio. Tempo de revisitacao do 27. Em silencio, primeiro. Durante as duas primeiras decadas que se seguiram aquele dia prenhe de mudez. Clandestinamente. Menos silenciosamente depois.





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Kamba Dia Me - Nanutu (Original de David Ze')

Cada vez menos silenciosamente agora. A musica ficou. A nova geracao de musicos e poetas a revisitam, a releiem, a reeditam, a retocam. Todos a revivemos. Todos os libertamos.
Eles estao vivos.
Algures na nossa memoria colectiva.






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Belina - Paulo Flores (Original de Artur Nunes)

Para sempre.

(*) Dados biograficos por Jorge Macedo, Artur Arriscado, João Chagas, Gilberto Junior e Ariel de Bigault, in Angola 70’s (Buda Musique 1999)
Artur Nunes, David Ze’ e Urbano de Castro. Foram apelidados “Os 3 Reis Magos da Cancao Angolana”. Desapareceram, para sempre, em Maio de 1977.
A musica deles ficou.
Para sempre.

ARTUR NUNES

Nasceu em 1950, de pai Norte-Americano e de mae Angolana, tendo comecado a cantar em finais de 60. O seu gosto pelo canto surge nos kombas, rituais funebres onde as velhas entoam canticos dolentes. Belina, Kizua Ki Nguifua, Tia, foram cancoes de grande sucesso, que expressam a dor e a saudade. A forma impar de interpretar os “Cantares da Alma” valeu-lhe o apelido de “O Espiritual”. Entre 1972 e 1976, gravou 12 singles e tambem dois temas na colectanea Rebita 75.(*)





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Belina




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Kizua Ki Nguifua




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Tia

DAVID ZE'
Nasceu em 1944 numa familia vocacionada para o canto. Os seus pais eram coristas da Igreja Metodista e os cantores Dilangue e Gaby Moy sao seus irmaos. E’ considerado como um dos maiores compositores. O quotidiano inspira as suas cancoes. Temas como Rumba Zakutine expressam a satira social.(*)





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Mama Kudile




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Rumba Zakutine




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Mona Ku Jimbe Manheno

URBANO DE CASTRO
Conhecido nos suburbios de Luanda como “brigao de respeito”, tornou-se rapidamente um dos grandes artistas dos palcos luandenses. Gravou primeiro para a etiqueta Ngoma e em seguida para Fadiang, um total de 27 singles e mais 4 temas inseridos no LP Rebita 75. A sua linha musical comporta uma grande variedade de generos, com influencias latino-americanas, como em Rosa Maria e sobretudo sembas cadenciados como Semba Lekalo.(*)





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Rosa Maria


Maio. Tempo de revisitacao do 27. Em silencio, primeiro. Durante as duas primeiras decadas que se seguiram aquele dia prenhe de mudez. Clandestinamente. Menos silenciosamente depois.





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Kamba Dia Me - Nanutu (Original de David Ze')

Cada vez menos silenciosamente agora. A musica ficou. A nova geracao de musicos e poetas a revisitam, a releiem, a reeditam, a retocam. Todos a revivemos. Todos os libertamos.
Eles estao vivos.
Algures na nossa memoria colectiva.






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Belina - Paulo Flores (Original de Artur Nunes)

Para sempre.

(*) Dados biograficos por Jorge Macedo, Artur Arriscado, João Chagas, Gilberto Junior e Ariel de Bigault, in Angola 70’s (Buda Musique 1999)

Friday, 15 February 2008

MARIA, DALILA & A PURGA

Apenas nos ultimos dias tive oportunidade de ler a polemica entrevista que Maria Eugenia Neto, viuva de Agostinho Neto, concedeu recentemente ao semanario Expresso. Algumas das suas afirmacoes naquela entrevista levaram a investigadora Dalila Cabrita Mateus, autora do livro “A Purga” sobre o 27 de Maio de 1977 em Angola, a mover-lhe uma accao judicial: “Apresentei uma queixa-crime ontem à noite (quinta-feira à noite) no DIAP (Departamento de Investigação e Acção Penal) porque me senti difamada”, disse à Agência Lusa Dalila Cabrita Mateus. “Senti-me ofendida porque (Maria Eugénia Silva Neto) chamou-me mentirosa e desonesta. É o meu nome e o meu trabalho que está em causa”, sublinhou.”
(Mais detalhes aqui)

Entretanto, sem comentarios adicionais (a nao ser para notar o lamentavel erro do Expresso, que legenda uma fotografia de Nito Alves com estes dizeres: “Nito Alves, o lider da ‘Revolta Activa’…”), aqui ficam algumas passagens da entrevista em causa:

Ainda e’ portuguesa?
Sou, nao quis mudar de nacionalidade.

Tem dupla nacionalidade?
Sim, ofereceram-me a nacionalidade (angolana).

Tem passaporte portugues?
Tenho.

No bilhete de identidade de Angola vem mencionada a raca. Concorda?
Ha’ pessoas que ficam muito ofendidas, mas nao sei se isso e’ uma ofensa.

Quando entra em Portugal qual e’ que usa?
Uso sempre o angolano, e’ mais facil. O meu passaporte e’ diplomatico.

A senhora e’ militante do MPLA?
Sou mais que militante.

Mas nunca se inscreveu!
Sou uma militante acerrima, mas sem estar inscrita.

Havia casais mistos em Lisboa?
Eram rarissimos.

E em Luanda?
Tambem havia poucos.

Pensava fazer algum curso?
Nao houve hipotese, quis sempre estar ao pe’ dele. Sentia-me insegura, nunca tinha saido debaixo da saia da minha mae.


Como foi a chegada a Luanda?
Uma apoteose. Muito bonito. Um mar de gente no aeroporto.

Ultrapassou as vossas expectativas?
Sim. Pelo menos as dele.

Isso foi muito obra do MPLA do interior.
Sim, ele nunca deixou a 1a. Regiao nas maos de ninguem. Ele tinha um grande orgulho nos “meninos” da sua 1a. Regiao. E’ por essa razao que isso do Nito Alves e’ um grande drama historico.

O MPLA sofreu algumas convulsoes: Chipenda, a Revolta Activa…
Embora essa palavra ja’ nao se use, isso tudo e’ obra do imperialismo, porque nao interessava que Agostinho Neto chegasse la’ forte, e que ficasse a frente, so’, daquele pais. Estupidos! Ele era o homem da paz, da concordia e da amizade entre os povos, nao sei porque tinham medo.

Os Pinto de Andrade eram instrumentalizados pelo imperialismo?
Acho que sim. Quando fizeram a Revolta Activa, tiveram contactos com petroliferas e tudo! Nao sou eu que o digo, sao alguns deles que o dizem – inclusive o Belli-Bello.

Conheceu o Nito Alves, claro…
Nao o conheci profundamente. Nunca tive contactos pessoais.

Mas o Presidente tinha.
Sim, ele era do Bureau Politico.

Tinha sido da confianca pessoal de Neto.
Foi so’ no Congresso (de Lusaka, em 1974) que o conheceu.

E representou o MPLA no Congresso do Partido Comunista da Uniao Sovietica, em 1976.
Foi a asneira que ele fez.

Asneira porque?
Porque mostrou o que era: um canalha! O Presidente confiou nele, deu-lhe prestigio por ter sido resistente da 1a Regiao. Chegou la’ e disse aos Sovieticos: agora sou eu!

Isso deu forca ao Nito Alves?
Claro. Os sovieticos, em lugar de porem o retrato do Presidente Neto no congresso. puseram o do Nito Alves. Compraram-no logo.

Conhecia o Jose’ Vandunem?
Nao conheci.

E a ex-militante do PCP Sita Valles?
Nao, o senhor conheceu-os a todos, nao?

Nao, mas tenho procurado ler alguma coisa sobre o assunto.
O problema e’ que a maior parte das coisas que se le sao mentiras. Mesmo o primeiro livro do Iko Carreira. Ele diz que encontraram 200 culpados e que foram ao Presidente Neto, que homologou as listas – mas que estas desapareceram. Perguntei ao Iko onde estava o documento do Presidente a dizer que ninguem liquida ninguem sem a minha assinatura – e ele baixou a cabeca. Passou esse documento quando comecou a saber dos disparates que andavam a fazer.

Mas o seu marido tinha ido a televisao dizer que nao haveria perdao…
Nao! Essa e’ a frase em que os malandros pegam. Ele disse: eles mataram. Eles, eram os cabecilhas! Quem matou nao tinha sido a juventude.

Isso nao e’ nada claro no discurso televisivo.
Nao e’ claro para quem nao quiser. Eles mataram. Os miudos nao tinham morto. Eles, eram os cabecilhas, que nao teem perdao. Muitas maozinhas estiveram interessadas em fazer confusao.

O seu marido referia-se apenas aos cabecilhas?
Claro. Claro.

Mas isso nao foi entendido assim.
Porque nao quiseram entender. Quando foi da morte do Nito Alves, quiseram que ele assinasse – nao sei se assinou. Estava tao revoltado que me disse: “Aos miudos, que eram quase todos recuperaveis, mataram sem a minha assinatura; este que e’ culpado, querem que assine.” O Armenio Ferreira disse-me que ele nao assinou, foram 15 generais que assinaram.

Sabe que a Sita Valles estava gravida quando foi presa?
Nao quero entrar nesses pormenores. Nao estava dentro disso, nem fui eu que mandei fazer atrocidades… Mas olhe que nunca ninguem perguntou: e se eles tivessem ganho? O que nao teriam feito? Se, logo de inicio, mataram seis (os melhores e mais fieis ao Presidente Neto e os queimaram no Roque Santeiro), imagine o que nao iriam fazer. Nos tinhamos sido todos limpos!

Uma coisa e’ o Nito Alves, outra coisa sao os 30 mil mortos!
Isso e’ mentira. Essa senhora e’ desonesta, e’ mentirosa (referencia a Dalila Mateus, co-autora do livro “Purga em Angola”).

Entao quantas pessoas morreram?
No sei, nao estava dentro de nada. Mas isso e’ mentira.

Ja’ passaram 30 anos e ainda nao se sabe quantos foram os mortos!
Estou-lhe a dizer que nao sei. Nao estava dentro desses assuntos. Nem o meu marido devia estar, porque isso era uma coisa militar.

Conheceu Jonas Savimbi?
Nao muito bem.

Acha que foi mau para Angola?
Acha que foi bom?

Nao sei, estou a perguntar-lhe…
Acho que foi um criminoso terrivel. O meu marido, num discurso em Cabinda (em 1978, salvo erro), decretou o perdao para toda a gente: fraccionistas, Revolta Activa, todos. Inaugurou entao uma era de paz. Mas aqui em Portugal, durante estes anos todos, estao sempre a repisar no mesmo assunto. Nao falam nos crimes que se cometeram na Guine’, em que se cortou o Ansumane Mane’ aos bocados… Angola esta’ sempre na berlinda. E com um odio, de nao estar la’, ou de nao usufruir das riquezas. E’ uma coisa impressionante. E agora surge o livro dessa senhora… Ja’ no outro (“A Luta Pela Independencia”), tive uma discussao, porque nao deu a realidade dos pais fundadores… Li o outro, deste nem quero saber!

Ha’ democracia em Angola?
Olhe, o que eu acho e’ que quando havia partido unico as pessoas falavam muito mais do que hoje. De tal maneira eles tinham liberdade que ate’ montaram um golpe de Estado – e nas calmas…

Porque que o seu marido morreu na URSS?
Ele nao queria ir. Mas nao quero falar nisso.

Nao tinha confianca?
Nao devia ter.

Poderia ser bem tratado em Luanda?
Nao. Estava para la’ ir uma medica inglesa, mas nao chegou a tempo.

Quais eram as alternativas?
Ha’ tantas alternativas no mundo! E Angola tinha dinheiro, pagava!

Quem decidiu que iria para a URSS?
Foi o medico dele – e concerteza o partido tambem esteve de acordo. Mas nao sei, sao coisas em que nao meti o nariz.

O medico dele era…
… na altura era o dr. Eduardo dos Santos.

A senhora acompanhou-o ate’ Moscovo?
Mas nao adiantou nada – nao fui para a sala de operacoes e mesmo que fosse nao percebia nada.

Tem alguma reserva ou desconfianca?
Nao posso dizer nada, mas o que sei e’ que, nesta epoca, uma pessoa nao acordar de uma operacao e’ um bocado esquisito…

Foi operado concretamente a que?
Eles dizem que foi ao pancreas. Se foi ou nao…

Diz-se que tinha uma cirrose ja’ adiantada.
Sei la’ se e’ verdade!



Diz-se tambem que bebia muito.
Isso e’mentira! Isso e’ o que dizem. Como nao tinham mais nada em que pegar…

Mas olhe que e’ comum dizerem isso. Mesmo dento do MPLA…
Eu sei que e’. Mas e’ mentira. Eles sao terriveis. Nunca vi o meu marido bebado. Nem eu, nem os meus filhos. E como e’ que uma pessoa bebada podia ter tanto trabalho, preocupacoes e tomar aquelas decisoes tremendas? Os politicos sao assim. Quando ele bebia uisque, bebia um bocadinho e o copo cheio de agua.

Foi o seu unico amor?
Foi. Era um homem com um caracter tao nobre, tao humano, com um sentido de justica tal, que me penetrou profundamente. Tudo aquilo que ha’ de melhor em mim e’ tocado pela profundidade daquela poesia. Um homem daqueles, que escreve a Sagrada Esperanca, nao pode ser um criminoso. E eu nao estaria aqui a apoiar um criminoso. Se aconteceu essa desgraca, isso nao foi ele. Ha’ uma frase que ele disse no Palacio: “Aqui onde me puseram, onde nem ouco a chuva.” Isso, em termos africanos, quer dizer muito.
Ele queria sair, mas estava amarrado.
Apenas nos ultimos dias tive oportunidade de ler a polemica entrevista que Maria Eugenia Neto, viuva de Agostinho Neto, concedeu recentemente ao semanario Expresso. Algumas das suas afirmacoes naquela entrevista levaram a investigadora Dalila Cabrita Mateus, autora do livro “A Purga” sobre o 27 de Maio de 1977 em Angola, a mover-lhe uma accao judicial: “Apresentei uma queixa-crime ontem à noite (quinta-feira à noite) no DIAP (Departamento de Investigação e Acção Penal) porque me senti difamada”, disse à Agência Lusa Dalila Cabrita Mateus. “Senti-me ofendida porque (Maria Eugénia Silva Neto) chamou-me mentirosa e desonesta. É o meu nome e o meu trabalho que está em causa”, sublinhou.”
(Mais detalhes aqui)

Entretanto, sem comentarios adicionais (a nao ser para notar o lamentavel erro do Expresso, que legenda uma fotografia de Nito Alves com estes dizeres: “Nito Alves, o lider da ‘Revolta Activa’…”), aqui ficam algumas passagens da entrevista em causa:

Ainda e’ portuguesa?
Sou, nao quis mudar de nacionalidade.

Tem dupla nacionalidade?
Sim, ofereceram-me a nacionalidade (angolana).

Tem passaporte portugues?
Tenho.

No bilhete de identidade de Angola vem mencionada a raca. Concorda?
Ha’ pessoas que ficam muito ofendidas, mas nao sei se isso e’ uma ofensa.

Quando entra em Portugal qual e’ que usa?
Uso sempre o angolano, e’ mais facil. O meu passaporte e’ diplomatico.

A senhora e’ militante do MPLA?
Sou mais que militante.

Mas nunca se inscreveu!
Sou uma militante acerrima, mas sem estar inscrita.

Havia casais mistos em Lisboa?
Eram rarissimos.

E em Luanda?
Tambem havia poucos.

Pensava fazer algum curso?
Nao houve hipotese, quis sempre estar ao pe’ dele. Sentia-me insegura, nunca tinha saido debaixo da saia da minha mae.


Como foi a chegada a Luanda?
Uma apoteose. Muito bonito. Um mar de gente no aeroporto.

Ultrapassou as vossas expectativas?
Sim. Pelo menos as dele.

Isso foi muito obra do MPLA do interior.
Sim, ele nunca deixou a 1a. Regiao nas maos de ninguem. Ele tinha um grande orgulho nos “meninos” da sua 1a. Regiao. E’ por essa razao que isso do Nito Alves e’ um grande drama historico.

O MPLA sofreu algumas convulsoes: Chipenda, a Revolta Activa…
Embora essa palavra ja’ nao se use, isso tudo e’ obra do imperialismo, porque nao interessava que Agostinho Neto chegasse la’ forte, e que ficasse a frente, so’, daquele pais. Estupidos! Ele era o homem da paz, da concordia e da amizade entre os povos, nao sei porque tinham medo.

Os Pinto de Andrade eram instrumentalizados pelo imperialismo?
Acho que sim. Quando fizeram a Revolta Activa, tiveram contactos com petroliferas e tudo! Nao sou eu que o digo, sao alguns deles que o dizem – inclusive o Belli-Bello.

Conheceu o Nito Alves, claro…
Nao o conheci profundamente. Nunca tive contactos pessoais.

Mas o Presidente tinha.
Sim, ele era do Bureau Politico.

Tinha sido da confianca pessoal de Neto.
Foi so’ no Congresso (de Lusaka, em 1974) que o conheceu.

E representou o MPLA no Congresso do Partido Comunista da Uniao Sovietica, em 1976.
Foi a asneira que ele fez.

Asneira porque?
Porque mostrou o que era: um canalha! O Presidente confiou nele, deu-lhe prestigio por ter sido resistente da 1a Regiao. Chegou la’ e disse aos Sovieticos: agora sou eu!

Isso deu forca ao Nito Alves?
Claro. Os sovieticos, em lugar de porem o retrato do Presidente Neto no congresso. puseram o do Nito Alves. Compraram-no logo.

Conhecia o Jose’ Vandunem?
Nao conheci.

E a ex-militante do PCP Sita Valles?
Nao, o senhor conheceu-os a todos, nao?

Nao, mas tenho procurado ler alguma coisa sobre o assunto.
O problema e’ que a maior parte das coisas que se le sao mentiras. Mesmo o primeiro livro do Iko Carreira. Ele diz que encontraram 200 culpados e que foram ao Presidente Neto, que homologou as listas – mas que estas desapareceram. Perguntei ao Iko onde estava o documento do Presidente a dizer que ninguem liquida ninguem sem a minha assinatura – e ele baixou a cabeca. Passou esse documento quando comecou a saber dos disparates que andavam a fazer.

Mas o seu marido tinha ido a televisao dizer que nao haveria perdao…
Nao! Essa e’ a frase em que os malandros pegam. Ele disse: eles mataram. Eles, eram os cabecilhas! Quem matou nao tinha sido a juventude.

Isso nao e’ nada claro no discurso televisivo.
Nao e’ claro para quem nao quiser. Eles mataram. Os miudos nao tinham morto. Eles, eram os cabecilhas, que nao teem perdao. Muitas maozinhas estiveram interessadas em fazer confusao.

O seu marido referia-se apenas aos cabecilhas?
Claro. Claro.

Mas isso nao foi entendido assim.
Porque nao quiseram entender. Quando foi da morte do Nito Alves, quiseram que ele assinasse – nao sei se assinou. Estava tao revoltado que me disse: “Aos miudos, que eram quase todos recuperaveis, mataram sem a minha assinatura; este que e’ culpado, querem que assine.” O Armenio Ferreira disse-me que ele nao assinou, foram 15 generais que assinaram.

Sabe que a Sita Valles estava gravida quando foi presa?
Nao quero entrar nesses pormenores. Nao estava dentro disso, nem fui eu que mandei fazer atrocidades… Mas olhe que nunca ninguem perguntou: e se eles tivessem ganho? O que nao teriam feito? Se, logo de inicio, mataram seis (os melhores e mais fieis ao Presidente Neto e os queimaram no Roque Santeiro), imagine o que nao iriam fazer. Nos tinhamos sido todos limpos!

Uma coisa e’ o Nito Alves, outra coisa sao os 30 mil mortos!
Isso e’ mentira. Essa senhora e’ desonesta, e’ mentirosa (referencia a Dalila Mateus, co-autora do livro “Purga em Angola”).

Entao quantas pessoas morreram?
No sei, nao estava dentro de nada. Mas isso e’ mentira.

Ja’ passaram 30 anos e ainda nao se sabe quantos foram os mortos!
Estou-lhe a dizer que nao sei. Nao estava dentro desses assuntos. Nem o meu marido devia estar, porque isso era uma coisa militar.

Conheceu Jonas Savimbi?
Nao muito bem.

Acha que foi mau para Angola?
Acha que foi bom?

Nao sei, estou a perguntar-lhe…
Acho que foi um criminoso terrivel. O meu marido, num discurso em Cabinda (em 1978, salvo erro), decretou o perdao para toda a gente: fraccionistas, Revolta Activa, todos. Inaugurou entao uma era de paz. Mas aqui em Portugal, durante estes anos todos, estao sempre a repisar no mesmo assunto. Nao falam nos crimes que se cometeram na Guine’, em que se cortou o Ansumane Mane’ aos bocados… Angola esta’ sempre na berlinda. E com um odio, de nao estar la’, ou de nao usufruir das riquezas. E’ uma coisa impressionante. E agora surge o livro dessa senhora… Ja’ no outro (“A Luta Pela Independencia”), tive uma discussao, porque nao deu a realidade dos pais fundadores… Li o outro, deste nem quero saber!

Ha’ democracia em Angola?
Olhe, o que eu acho e’ que quando havia partido unico as pessoas falavam muito mais do que hoje. De tal maneira eles tinham liberdade que ate’ montaram um golpe de Estado – e nas calmas…

Porque que o seu marido morreu na URSS?
Ele nao queria ir. Mas nao quero falar nisso.

Nao tinha confianca?
Nao devia ter.

Poderia ser bem tratado em Luanda?
Nao. Estava para la’ ir uma medica inglesa, mas nao chegou a tempo.

Quais eram as alternativas?
Ha’ tantas alternativas no mundo! E Angola tinha dinheiro, pagava!

Quem decidiu que iria para a URSS?
Foi o medico dele – e concerteza o partido tambem esteve de acordo. Mas nao sei, sao coisas em que nao meti o nariz.

O medico dele era…
… na altura era o dr. Eduardo dos Santos.

A senhora acompanhou-o ate’ Moscovo?
Mas nao adiantou nada – nao fui para a sala de operacoes e mesmo que fosse nao percebia nada.

Tem alguma reserva ou desconfianca?
Nao posso dizer nada, mas o que sei e’ que, nesta epoca, uma pessoa nao acordar de uma operacao e’ um bocado esquisito…

Foi operado concretamente a que?
Eles dizem que foi ao pancreas. Se foi ou nao…

Diz-se que tinha uma cirrose ja’ adiantada.
Sei la’ se e’ verdade!



Diz-se tambem que bebia muito.
Isso e’mentira! Isso e’ o que dizem. Como nao tinham mais nada em que pegar…

Mas olhe que e’ comum dizerem isso. Mesmo dento do MPLA…
Eu sei que e’. Mas e’ mentira. Eles sao terriveis. Nunca vi o meu marido bebado. Nem eu, nem os meus filhos. E como e’ que uma pessoa bebada podia ter tanto trabalho, preocupacoes e tomar aquelas decisoes tremendas? Os politicos sao assim. Quando ele bebia uisque, bebia um bocadinho e o copo cheio de agua.

Foi o seu unico amor?
Foi. Era um homem com um caracter tao nobre, tao humano, com um sentido de justica tal, que me penetrou profundamente. Tudo aquilo que ha’ de melhor em mim e’ tocado pela profundidade daquela poesia. Um homem daqueles, que escreve a Sagrada Esperanca, nao pode ser um criminoso. E eu nao estaria aqui a apoiar um criminoso. Se aconteceu essa desgraca, isso nao foi ele. Ha’ uma frase que ele disse no Palacio: “Aqui onde me puseram, onde nem ouco a chuva.” Isso, em termos africanos, quer dizer muito.
Ele queria sair, mas estava amarrado.

Thursday, 4 October 2007

SOBRE O 27 DE MAIO: V. JOSE' CARRASQUINHA, "O COMISSARIO DO RISO”

Extractos de uma entrevista concedida, em Agosto de 2006, pelo legendario radialista angolano Jose’ Carrasquinha (J.C.) a revista “Figuras & Negocios” (F&N).
Entrevista de Carlos Miranda e Jose’ Lousada (Fotos)

(click na imagem para uma 'versao alargada' do texto)


F&N – Quando e’ que comecou a trabalhar e onde estudou?

J.C. – Como grande referencia em termos academicos, lembro-lhe o S. Domingos, mas andei tambem na Escola Comercial. Alias, foi a partir desta escola que eu fui para o Jornal Noticias (em 1973/74), onde tive como professor o Moutinho Pereira. Creio que ele esta’ em Portugal num movimento religioso. Mas nao e’ desses vigaristas, pois tenho-o como um elemento bom, nao so’ pelo facto de me ter ensinado. Dali fui para o jornal “O Comercio” em que fiquei uns meses por la’. Uma vez fui fazer um trabalho nas Obras Publicas e topei o Francisco Simons. Presumo que ele tenha gostado da minha actuacao durante a entrevista e como naquela ocasiao eles estavam a precisar de pretos para colorirem a Emissora Oficial de Angola e porque os outros que la’ funcionavam ja’ estavam desacreditados, entao o Simons convidou-me. Fui e fiquei ate’ que a DISA prendeu-me em 1977 e… ponto final.

F&N – Porque que lhe prenderam?

J.C. – Eles prenderam-me na sequencia dos acontecimentos do 27 de Maio. Eu creio que o senhor jornalista sabe que aquilo era prender de acordo com os rumores. Um agentezinho se ouvia… era so’ prender. Olhe, inclusive houve um individuo que foi preso so’ porque estava a rir. E como na altura alguem se lembrou de dizer que nao haveria perdao, entao esta-se a ver que aquilo era tipico de quem era humanista…

F&N – Sente-se ainda injusticado pela forma como foi preso na altura? Ate’ porque havia um programa – o “Kudibanguela” – que estaria supostamente ligado ao movimento fraccionista…

J.C. – O “Kudibanguela” nao tem nada a ver. Eu nao era do “Kudibanguela”!! Isto e’ para acalmar aqueles que nao sabem disso, mas, independentemente de ter ou nao ter nada a ver, a questao que se coloca aqui e’ a seguinte: voce perguntou se me sentia ainda injusticado. Ora, qualquer individuo ha-de sentir-se injusticado quando, pura e simplesmente, vai preso sem culpa formada e, depois, mandam-no embora sem guia de soltura!! Ate’ agora, posso ser considerado como um preso. Eu tenho que dizer isso porque nao tenho guia de soltura depois de ter estado preso durante quase dois anos.

(…)

F&N – Naquela conjuntura politica, teria alguma filiacao politico-partidaria?

J.C. – Alguns do meu estilo tinham uma coisa: eramos aquilo que se podia chamar de operacionais. Eu hoje dou-me ao luxo de dizer que faco parte daquele numero de individuos que ajudou o MPLA a ficar no poder…

F&N – Mesmo nao sendo parte integrante do MPLA? Nunca teve nenhuma filiacao partidaria?

J.C. – E’ verdade que eramos todos pros. Recordo-me que quando fomos la’ “desmontar” o Geronimo Wanga e certos comunicados da FNLA demonstravamos a tal simpatia que quer referir. Na radio, o MPLA tinha mais simpatizantes naquela altura. Alias, os pensantes naquela altura eram quase todos do MPLA. Eu nao estou aqui armado agora em intelectual revolucionario. Isso nao e’ segredo para ninguem, a influencia da radio era muito grande e acho que ninguem deve chorar por isso. A UNITA e a FNLA perderam porque justamente nao tinham esta mais-valia. A balanca estava muito desiquilibrada em termos de informacao. Entao, lembro-me que um gajo estava a vir e perguntava-te logo se falavas Lingala!! Esse tipo, a partida, ja’ estava a perder 1-0 (risos). Houve dessas coisas. Depois trouxeram os mercenarios. Olhe, o que me da’ graca e’ o seguinte: acusaram o MPLA de tambem trazer mercenarios, que foram os cubanos, mas voce viu um monte de cubanos pretos. Ninguem sabia quem era quem (risos). O Callan, O Mackenzie, o Grillo de que cor eram? Isso pesava. O MPLA e’ que jogou bem na parte que lhe tocou. Os outros perderam, paciencia…

F&N – Voce tambem perdeu? Noto que nesta parte esta’ a dar sinais de querer chorar…

J.C. – Nao, um dirigente de base a nivel nacional chora? (risos).

F&N – Volto a uma das questoes iniciais e que merece um esclarecimento definitivo, e nao e’ so’ por curiosidade que insisto. Teve ou nao teve nada a ver com o movimento “27 de Maio”?

J.C. – Houve uma refrega de horas entre quem e quem? Entre a gente do MPLA. Uns desse lado outros daquele. E porque? E’ justamente ai onde esta’ a questao. E’ bom que as pessoas saibam. A independencia foi em 1975. A ala do Dr Agostinho Neto estava a consolidar o poder, e para consolidar o poder ha’ muitas maneiras. Aquela foi uma delas…

(…)

F&N – O passado e’ o passado, mas preserva sempre alguma coisa para que tiremos varias licoes de vida. Em si, ha’ razoes suficientes para perdoar os seus detractores?

J.C. – Nao, e explico-lhe porque. Se um individuo perdoa e nao esquece, nao vale a pena estar aqui com “coros”. Depois eu vou perdoar a quem se ainda nao me deram a minha guia de soltura? A grande divergencia nesse momento e’ que o “Partido do Trabalho” nao paga o meu dinheiro. Eu agora quando falo do MPLA ja’ nao digo MPLA, digo so’ “Work Party”.

F&N - Se tivesse que pedir contas, faria directamente a quem?

J.C. - Todos os erros que o Work Party comete reflectem-se na imagem do lider. Eu, inclusive, ja' mandei uma carta ao Presidente a dizer: paguem so' a minha financa e mais nada!

F&N - O que e' que pediu na carta concretamente?

J.C. - Estou a pedir o dinheiro que me devem. Eu nao quero ser nunca outro aprendiz de gatuno como existem muitos gajos que andam por ai. Qual reforma? Se eu for para os Trapalhoes, estou reformado ou e' para ir ficar grosso? Eu explico-me melhor: O que eu quero e' o meu dinheiro correspondente aos meus salarios que nao me foram pagos durante o tempo em que estive preso e depois de ter estado na cadeia. Eu neste momento estou em liberdade condicional, porque nao tenho guia de soltura.

(…)

F&N – Voce sabe que existem varias pessoas que estiveram em semelhantes condicoes e que exercem agora importantes cargos publicos, inclusive no Governo? Como e’ que ve isso?

J.C. – Eu tenho amigos que estiveram presos comigo e que estao no Governo. E eu quando tenho que falar mal deles tem sido cara-a-cara. Eu acho que cada um entorta a sua vida como e quando quiser. E’ esta a minha filosofia…

(…)

F&N – Quer comentar a gestao governativa do seu bairro, em primeiro lugar, e depois do proprio pais nos tempos que correm?

J.C. – Em relacao ao municipio do Sambizanga, so’ tenho a dizer que enquanto o Reis (administrador municipal) nao tiver dinheiro, nao conseguira’ fazer as coisas. Aqui, o administrador nao tem autonomia financeira, e isso desiquilibra. E ele tem muita vontade de fazer e bem as coisas. E nao e’ por ter nascido aqui neste bairro. Voce pensa que eu nao posso governar o Kuando Kubango. Vou la’ e a vontade, porque o importante e’ saber o que se vai fazer e com que meios. Agora se voce vai la’ so’ para roubar, as coisas nao funcionam.
A nivel mais alto, eu acho que fizeram bem pedir emprestado o dinheiro dos chineses, mas eu penso que ha’ uma questao que desconfio que nao discutiram devidamente. Nao gosto nada desta historia de assinarem contratos com chineses que venham para aqui cavar buracos, quando nos temos um monte de “bacangus” aqui sem emprego. Este e’ um dos aspectos. Agora, ha’ outros aspectos que dizem respeito a distribuicao das riquezas. O governo nao pode dar mais essa empreitada de fornecer alimentos aos chineses ao Antonio que ja’ tem uma base que fornece a empresas x e y. E sempre ao Antonio. Nao pode.

(…)

F&N – O que e’ que acha da actuacao de Jose’ Eduardo dos Santos, que, curiosamente, nasceu no municipio do Sambizanga?

J.C. – E’ o Presidente do pais. Uma vez estava a falar mal dele por causa da sua guarda. Ha’ ai alguem no sistema de seguranca do nosso Presidente que por vezes tambem abusa da santa paciencia. Eu tenho a certeza que se o Man Ze’ lhe apetecer vir a Lusaka (Sambizanga) pode vir ele proprio a conduzir, ele e a sua oira. Ele vem e ninguem lhe toca. Voces que gostam de escrever bonito, as vezes dizem que e’ excesso de zelo. Nao e’ nada disso, e’ excesso de graxa. Voce parece que nem pode se mexer e o kota ainda esta’ la’ na EDEL. Ainda nao chegou aqui no Sarrabulho Corporation e ja’ estas aqui de sentido. Aqui, o Man Ze’ pode vir a vontade. Se quiser dormir numa das casas aqui ao lado, que nao tem ar condicionado, pode vir e ninguem vai lhe ligar. A unica guerra que ele vai ter aqui e’ so’ com os mosquitos. Se existe alguma coisa que pode lhe deixar um pouco embaracado e’ a camisa e sabe porque? Dantes, quando iamos assistir aos jogos de futebol, aos nossos idolos a gente ia atras deles para puxar a camisola. Ora, e’ o que vai acontecer com ele. Quando vier aqui, quem vai lhe puxar a camisola nao sou eu, o Zusi Diangana ou outro gajo adulto, sao os miudos.

F&N – Do microfone para a culinaria tambem e’ necessario muita lata, boas maos e gostos…

J.C. – Um individuo desmoralizado e’ um homem morto. E’ por isso que os brancos estao a nos ganhar 1-0. Eles fazem os planos a longo prazo. Eu tambem procuro seguir essa tendencia. Perante o quadro geral de hostilidades que existia, em 1979, quando sai da cadeia, era necessario direccionar-me e escolher o meu caminho. Nao era so’ por mim, era tambem pelos miudos. Eu tive que me adaptar e o negocio que estava na moda eram os bares. Da’ para dizer que ganhei na lotaria este bar, porque um “lacerda” disse que o pais “estava esdruxulo” e que iria fugir; comprei o bar dele a preco de banana.
Quando o bar ja’ nao der, vou mudar. O camaleao e’ um gajo que se da’ bem comigo (risos).

Extractos de uma entrevista concedida, em Agosto de 2006, pelo legendario radialista angolano Jose’ Carrasquinha (J.C.) a revista “Figuras & Negocios” (F&N).
Entrevista de Carlos Miranda e Jose’ Lousada (Fotos)

(click na imagem para uma 'versao alargada' do texto)


F&N – Quando e’ que comecou a trabalhar e onde estudou?

J.C. – Como grande referencia em termos academicos, lembro-lhe o S. Domingos, mas andei tambem na Escola Comercial. Alias, foi a partir desta escola que eu fui para o Jornal Noticias (em 1973/74), onde tive como professor o Moutinho Pereira. Creio que ele esta’ em Portugal num movimento religioso. Mas nao e’ desses vigaristas, pois tenho-o como um elemento bom, nao so’ pelo facto de me ter ensinado. Dali fui para o jornal “O Comercio” em que fiquei uns meses por la’. Uma vez fui fazer um trabalho nas Obras Publicas e topei o Francisco Simons. Presumo que ele tenha gostado da minha actuacao durante a entrevista e como naquela ocasiao eles estavam a precisar de pretos para colorirem a Emissora Oficial de Angola e porque os outros que la’ funcionavam ja’ estavam desacreditados, entao o Simons convidou-me. Fui e fiquei ate’ que a DISA prendeu-me em 1977 e… ponto final.

F&N – Porque que lhe prenderam?

J.C. – Eles prenderam-me na sequencia dos acontecimentos do 27 de Maio. Eu creio que o senhor jornalista sabe que aquilo era prender de acordo com os rumores. Um agentezinho se ouvia… era so’ prender. Olhe, inclusive houve um individuo que foi preso so’ porque estava a rir. E como na altura alguem se lembrou de dizer que nao haveria perdao, entao esta-se a ver que aquilo era tipico de quem era humanista…

F&N – Sente-se ainda injusticado pela forma como foi preso na altura? Ate’ porque havia um programa – o “Kudibanguela” – que estaria supostamente ligado ao movimento fraccionista…

J.C. – O “Kudibanguela” nao tem nada a ver. Eu nao era do “Kudibanguela”!! Isto e’ para acalmar aqueles que nao sabem disso, mas, independentemente de ter ou nao ter nada a ver, a questao que se coloca aqui e’ a seguinte: voce perguntou se me sentia ainda injusticado. Ora, qualquer individuo ha-de sentir-se injusticado quando, pura e simplesmente, vai preso sem culpa formada e, depois, mandam-no embora sem guia de soltura!! Ate’ agora, posso ser considerado como um preso. Eu tenho que dizer isso porque nao tenho guia de soltura depois de ter estado preso durante quase dois anos.

(…)

F&N – Naquela conjuntura politica, teria alguma filiacao politico-partidaria?

J.C. – Alguns do meu estilo tinham uma coisa: eramos aquilo que se podia chamar de operacionais. Eu hoje dou-me ao luxo de dizer que faco parte daquele numero de individuos que ajudou o MPLA a ficar no poder…

F&N – Mesmo nao sendo parte integrante do MPLA? Nunca teve nenhuma filiacao partidaria?

J.C. – E’ verdade que eramos todos pros. Recordo-me que quando fomos la’ “desmontar” o Geronimo Wanga e certos comunicados da FNLA demonstravamos a tal simpatia que quer referir. Na radio, o MPLA tinha mais simpatizantes naquela altura. Alias, os pensantes naquela altura eram quase todos do MPLA. Eu nao estou aqui armado agora em intelectual revolucionario. Isso nao e’ segredo para ninguem, a influencia da radio era muito grande e acho que ninguem deve chorar por isso. A UNITA e a FNLA perderam porque justamente nao tinham esta mais-valia. A balanca estava muito desiquilibrada em termos de informacao. Entao, lembro-me que um gajo estava a vir e perguntava-te logo se falavas Lingala!! Esse tipo, a partida, ja’ estava a perder 1-0 (risos). Houve dessas coisas. Depois trouxeram os mercenarios. Olhe, o que me da’ graca e’ o seguinte: acusaram o MPLA de tambem trazer mercenarios, que foram os cubanos, mas voce viu um monte de cubanos pretos. Ninguem sabia quem era quem (risos). O Callan, O Mackenzie, o Grillo de que cor eram? Isso pesava. O MPLA e’ que jogou bem na parte que lhe tocou. Os outros perderam, paciencia…

F&N – Voce tambem perdeu? Noto que nesta parte esta’ a dar sinais de querer chorar…

J.C. – Nao, um dirigente de base a nivel nacional chora? (risos).

F&N – Volto a uma das questoes iniciais e que merece um esclarecimento definitivo, e nao e’ so’ por curiosidade que insisto. Teve ou nao teve nada a ver com o movimento “27 de Maio”?

J.C. – Houve uma refrega de horas entre quem e quem? Entre a gente do MPLA. Uns desse lado outros daquele. E porque? E’ justamente ai onde esta’ a questao. E’ bom que as pessoas saibam. A independencia foi em 1975. A ala do Dr Agostinho Neto estava a consolidar o poder, e para consolidar o poder ha’ muitas maneiras. Aquela foi uma delas…

(…)

F&N – O passado e’ o passado, mas preserva sempre alguma coisa para que tiremos varias licoes de vida. Em si, ha’ razoes suficientes para perdoar os seus detractores?

J.C. – Nao, e explico-lhe porque. Se um individuo perdoa e nao esquece, nao vale a pena estar aqui com “coros”. Depois eu vou perdoar a quem se ainda nao me deram a minha guia de soltura? A grande divergencia nesse momento e’ que o “Partido do Trabalho” nao paga o meu dinheiro. Eu agora quando falo do MPLA ja’ nao digo MPLA, digo so’ “Work Party”.

F&N - Se tivesse que pedir contas, faria directamente a quem?

J.C. - Todos os erros que o Work Party comete reflectem-se na imagem do lider. Eu, inclusive, ja' mandei uma carta ao Presidente a dizer: paguem so' a minha financa e mais nada!

F&N - O que e' que pediu na carta concretamente?

J.C. - Estou a pedir o dinheiro que me devem. Eu nao quero ser nunca outro aprendiz de gatuno como existem muitos gajos que andam por ai. Qual reforma? Se eu for para os Trapalhoes, estou reformado ou e' para ir ficar grosso? Eu explico-me melhor: O que eu quero e' o meu dinheiro correspondente aos meus salarios que nao me foram pagos durante o tempo em que estive preso e depois de ter estado na cadeia. Eu neste momento estou em liberdade condicional, porque nao tenho guia de soltura.

(…)

F&N – Voce sabe que existem varias pessoas que estiveram em semelhantes condicoes e que exercem agora importantes cargos publicos, inclusive no Governo? Como e’ que ve isso?

J.C. – Eu tenho amigos que estiveram presos comigo e que estao no Governo. E eu quando tenho que falar mal deles tem sido cara-a-cara. Eu acho que cada um entorta a sua vida como e quando quiser. E’ esta a minha filosofia…

(…)

F&N – Quer comentar a gestao governativa do seu bairro, em primeiro lugar, e depois do proprio pais nos tempos que correm?

J.C. – Em relacao ao municipio do Sambizanga, so’ tenho a dizer que enquanto o Reis (administrador municipal) nao tiver dinheiro, nao conseguira’ fazer as coisas. Aqui, o administrador nao tem autonomia financeira, e isso desiquilibra. E ele tem muita vontade de fazer e bem as coisas. E nao e’ por ter nascido aqui neste bairro. Voce pensa que eu nao posso governar o Kuando Kubango. Vou la’ e a vontade, porque o importante e’ saber o que se vai fazer e com que meios. Agora se voce vai la’ so’ para roubar, as coisas nao funcionam.
A nivel mais alto, eu acho que fizeram bem pedir emprestado o dinheiro dos chineses, mas eu penso que ha’ uma questao que desconfio que nao discutiram devidamente. Nao gosto nada desta historia de assinarem contratos com chineses que venham para aqui cavar buracos, quando nos temos um monte de “bacangus” aqui sem emprego. Este e’ um dos aspectos. Agora, ha’ outros aspectos que dizem respeito a distribuicao das riquezas. O governo nao pode dar mais essa empreitada de fornecer alimentos aos chineses ao Antonio que ja’ tem uma base que fornece a empresas x e y. E sempre ao Antonio. Nao pode.

(…)

F&N – O que e’ que acha da actuacao de Jose’ Eduardo dos Santos, que, curiosamente, nasceu no municipio do Sambizanga?

J.C. – E’ o Presidente do pais. Uma vez estava a falar mal dele por causa da sua guarda. Ha’ ai alguem no sistema de seguranca do nosso Presidente que por vezes tambem abusa da santa paciencia. Eu tenho a certeza que se o Man Ze’ lhe apetecer vir a Lusaka (Sambizanga) pode vir ele proprio a conduzir, ele e a sua oira. Ele vem e ninguem lhe toca. Voces que gostam de escrever bonito, as vezes dizem que e’ excesso de zelo. Nao e’ nada disso, e’ excesso de graxa. Voce parece que nem pode se mexer e o kota ainda esta’ la’ na EDEL. Ainda nao chegou aqui no Sarrabulho Corporation e ja’ estas aqui de sentido. Aqui, o Man Ze’ pode vir a vontade. Se quiser dormir numa das casas aqui ao lado, que nao tem ar condicionado, pode vir e ninguem vai lhe ligar. A unica guerra que ele vai ter aqui e’ so’ com os mosquitos. Se existe alguma coisa que pode lhe deixar um pouco embaracado e’ a camisa e sabe porque? Dantes, quando iamos assistir aos jogos de futebol, aos nossos idolos a gente ia atras deles para puxar a camisola. Ora, e’ o que vai acontecer com ele. Quando vier aqui, quem vai lhe puxar a camisola nao sou eu, o Zusi Diangana ou outro gajo adulto, sao os miudos.

F&N – Do microfone para a culinaria tambem e’ necessario muita lata, boas maos e gostos…

J.C. – Um individuo desmoralizado e’ um homem morto. E’ por isso que os brancos estao a nos ganhar 1-0. Eles fazem os planos a longo prazo. Eu tambem procuro seguir essa tendencia. Perante o quadro geral de hostilidades que existia, em 1979, quando sai da cadeia, era necessario direccionar-me e escolher o meu caminho. Nao era so’ por mim, era tambem pelos miudos. Eu tive que me adaptar e o negocio que estava na moda eram os bares. Da’ para dizer que ganhei na lotaria este bar, porque um “lacerda” disse que o pais “estava esdruxulo” e que iria fugir; comprei o bar dele a preco de banana.
Quando o bar ja’ nao der, vou mudar. O camaleao e’ um gajo que se da’ bem comigo (risos).

Monday, 1 October 2007

SOBRE O "27 DE MAIO": IV. A "COMISSAO DAS LAGRIMAS"

Extractos do capitulo sobre a chamada "Comissao das Lagrimas" do livro "Purga em Angola", publicado no passado fim de semana pelo Semanario Expresso (facsimile aqui).




Extractos do capitulo sobre a chamada "Comissao das Lagrimas" do livro "Purga em Angola", publicado no passado fim de semana pelo Semanario Expresso (facsimile aqui).




Tuesday, 18 September 2007

SOBRE O "27 DE MAIO": III. NOVO LIVRO



"Purga em Angola", por Dalila Cabrita Mateus e Alvaro Mateus, a ser lancado no proximo dia 27/09/07, as 18:30, na Sociedade de Geografia de Lisboa. Apresentacao por Jose Pedro Castanheira (Expresso).
(Leia mais AQUI)


"Purga em Angola", por Dalila Cabrita Mateus e Alvaro Mateus, a ser lancado no proximo dia 27/09/07, as 18:30, na Sociedade de Geografia de Lisboa. Apresentacao por Jose Pedro Castanheira (Expresso).
(Leia mais AQUI)

Sunday, 27 May 2007

ABOUT THE "MAY 27": I. 30 YEARS ON

Today is the 30th anniversary of May 27, 1977, a date which conveys what are arguably the deepest wounds in the Angolan soul. It marks the brutal repression of a “movement”, mainly by high-level militants of the ruling party MPLA, the so-called “fraccionistas”, allegedly intent on overthrowing the then President, A. Neto, and his entourage from power. Neto then pronounced a famous sentence: “Nao Havera’ Perdao” (“There Will Be No Pardon!”).

In the ensuing months and for several years afterwards, thousands of Angolans from all social, racial and cultural backgrounds (although some more targeted and victimised than others) were either eliminated, imprisoned or confined to “Campos de Re-educacao” (“Re-education Camps”), in some cases in the same camps where they, or their fathers and/or other family members, had been imprisoned by the colonialists, without any formal judicial process.

Personally, not having been involved directly or indirectly in either side of the events, I had, nevertheless, as with millions of other Angolans, family members, friends, colleagues and aquaintances eliminated or otherwise victimised by the purge. The total number of dead is estimated at at least 30.000, which is ten times more than the number of Pinochet's victims... Just imagine 1.000 dead each year since that date...
To this day there are parents, wives, offspring, relatives and friends of the disappeared in psychologically suspended grief for not knowing why, when, where and what happened to their loved ones.
Countries such as South Africa have instituted mechanisms like the Truth and Reconciliation Commission to address this sort of issues. Yet, Angola is still hung on its inability to face head-on its darkest traumas, thus unable to rationally heal, or at least try to, its deepest wounds on behalf of its future as a Nation.

(Pictures from here)

(Click nas imagens para ler artigos)

Today is the 30th anniversary of May 27, 1977, a date which conveys what are arguably the deepest wounds in the Angolan soul. It marks the brutal repression of a “movement”, mainly by high-level militants of the ruling party MPLA, the so-called “fraccionistas”, allegedly intent on overthrowing the then President, A. Neto, and his entourage from power. Neto then pronounced a famous sentence: “Nao Havera’ Perdao” (“There Will Be No Pardon!”).

In the ensuing months and for several years afterwards, thousands of Angolans from all social, racial and cultural backgrounds (although some more targeted and victimised than others) were either eliminated, imprisoned or confined to “Campos de Re-educacao” (“Re-education Camps”), in some cases in the same camps where they, or their fathers and/or other family members, had been imprisoned by the colonialists, without any formal judicial process.

Personally, not having been involved directly or indirectly in either side of the events, I had, nevertheless, as with millions of other Angolans, family members, friends, colleagues and aquaintances eliminated or otherwise victimised by the purge. The total number of dead is estimated at at least 30.000, which is ten times more than the number of Pinochet's victims... Just imagine 1.000 dead each year since that date...
To this day there are parents, wives, offspring, relatives and friends of the disappeared in psychologically suspended grief for not knowing why, when, where and what happened to their loved ones.
Countries such as South Africa have instituted mechanisms like the Truth and Reconciliation Commission to address this sort of issues. Yet, Angola is still hung on its inability to face head-on its darkest traumas, thus unable to rationally heal, or at least try to, its deepest wounds on behalf of its future as a Nation.

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