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Wednesday, 28 March 2012

Gostei de Ler [5]



(...)

Para já eu estou cada vez mais velho, cada mais anarquista, e acredito muito pouco na fórmula partido.
Antes dizia que tinha dúvidas sobre a fórmula partido, hoje digo que acredito cada vez menos nesta fórmula. Não me parece que seja uma fórmula que avance muito. Acaba por ser sempre um aparelho que condiciona tudo o resto, um partido pode ter muitos militantes, mas há um aparelhozinho que condiciona tudo o resto. A Revolução francesa fez-se sem partidos, mas com clubes de pensadores. É claro que também era tudo anárquico, mas eu acho que devia haver possibilidades sem estar amarrado a um partido, mas estamos a tender cada vez mais para a consolidação da fórmula partido.
Eu não sei deste caso que falou do Abel Chivukuvuku, mas será interessante seguir e ver o que vai dar. Se conseguir apanhar pessoas que foram do partido A, B e C será interessante ver isso.

(...)

Hoje as pessoas dentro do MPLA exteriorizam mais facilmente ideias contrárias?

Eu acho que têm mais essa possibilidade. Duvido que o façam, mas ai há outro problema.

Qual?

Começa a tocar em interesses. E as pessoas ficam à espera, na expectativa. Criou-se a obsessão do que só o chefe pensa. E fica a impressão de que cinco milhões de pessoas não pensam, à espera que o chefe pense. É a ideia que dá. E depois o chefe diz uma frase e essa frase vira slogan que aparece em todo o lado. Só não aparece nas paredes porque agora a malta deixou de pintar as paredes.
É um certo seguidismo que se instalou, sem dúvida alguma. Mas depende das épocas. Agora é época de eleições portanto o seguidismo tem de ser muito forte, temos de estar todos unidos. Depois há maior dispersão. Isso nota-se nos comentários de algumas pessoas que mudam o discurso conforme a época política e os interesses pessoais. Sem dúvida, uma coisa que foi discutida há muitos anos no MPLA é o direito das tendências.

(...)

Em certa medida e em relação a uns tantos membros, o MPLA parece clientelista, pois eles se aproveitam do facto de serem militantes para obterem benefícios. Não falo da grande massa de militantes e simpatizantes que pouco ganham com o facto de o serem. Mas a nível de responsáveis, muitos têm negócios que só prosperam por causa da sua posição política. E ostentam as riquezas de forma pornográfica, por isso não há como enganar.

(...)

A oposição parlamentar dá-me a ideia que está apenas pelo dinheiro do Estado. É verdade que também não se dá muito espaço à oposição para dar a conhecer todas as suas ideias. Eles queixam-se muito disso, que a imprensa favorece o partido no poder, mas parece-me que com esta oposição o MPLA está tranquilo: tem mais cem anos. Portanto será interessante vermos esta experiência de um novo partido e ver se agita um bocado as águas.

(...)

O que lhe parece a “ousadia” de Lukoki durante a última reunião do Comité central onde terá levantado a questão da distribuição da riqueza nacional e a da sucessão como pontos para uma próxima reunião do CC, por sinal agendada para esta sexta-feira.

O Ambrósio Lukoki, de quem me orgulho de ser amigo, é um homem vertical, de grande coragem e frontalidade, qualidades essas que lhe têm valido problemas sérios. Ele só teve a ousadia de dizer o que mais de metade da sala pensava mas, como sempre, cala. Fora, batem-lhe nas costas a dizer, falaste bem. Lá dentro, nem o defendem dos mesmos mabecos de sempre, a tentar morder as canelas dos grandes homens.
Como é que se processará a transição de JES para um novo PR?

Esta é outra questão que devia ser pacifica, banal e que se torna um problema quase divino. O mundo acaba quando se pensa na sucessão. Deveria ser uma coisa quase banal porque as pessoas vão, deixam os cargos, vão descansar, é normal essa substituição de geração. E tem havido essa substituição de geração ao nível do MPLA, nas estruturas intermédias e mesmo ao nível do Bureau Político onde hoje há pessoas que são bastante mais novas do que aqueles que fizeram a luta de libertação. Agora, realmente esta é uma questão que acaba por se tornar complicada e quanto mais há segredos a volta disso, mais secretismo mais complicado fica.

E já é hora de se desmistificar essa questão?

Exactamente, abre-se o jogo tranquilamente. O Presidente não é eterno, ninguém é eterno, só Deus para os crentes. Nem o planeta terra é eterno. Acreditamos que tem de haver uma substituição, vamos ver quando, como e falamos sobre isso. Mas é um tabu, é um sacrilégio, mas é claro que toda a gente anda a murmurar nos cantos.

Não será por causa de algumas resistências internas?

Provavelmente haverá várias forcas a querer ganhar mais poder, representadas por pessoas, essa é uma realidade que acontece nos partidos, há lutas. Agora podem ser lutas mais abertas ou mais tranquilas.

E neste caso?

Neste caso é um tabu. E eu acho que as pessoas têm medo que AB ou C estejam a pensar qualquer coisa. Houve umas pessoas que aqui há uns anos atrás admitiam a hipótese de ser candidatos, mas isso é normal, mas as pessoas normalmente criam uma onda de indignação que percorre as fileiras porque alguém ousou dizer que pode substituir o presidente.

(...)

Quando falamos do impacto das manifestações e em face dos novos desenvolvimentos o que lhe pergunto é: Será mesmo que a visão de que os militantes despertaram pelo facto de serem muito mais contra o exíguo número de manifestantes é verdade, quando vemos as imagens da porrada a que foram alvos na sua última manifestação. Ou como explicar isso?

O MPLA de facto aparenta ter mais medo dos jovens que tentam se manifestar que dos partidos da oposição. Estes são aparelhos e como tal podem ser controlados, manobrados, enfraquecidos, etc... Já os manifestantes, mobilizados por meios mais difíceis de controlar, podem aparecer como um perigo muito maior, imprevisível. Parece absurdo um partido que diz ter cinco milhões de membros tremer perante um pequeno grupo de jovens que quer gritar a sua revolta, mas é um facto. Por outro lado, esse pequeno grupo poderá crescer por causa da resposta inadequada das autoridades. Não é aceitável que apareçam pessoas, que se declaram organizadas, atacando os manifestantes, impedindo que eles exerçam um direito constitucional, perante órgãos do Estado, impávidos e serenos. Assim não se aprofunda a democracia, antes pelo contrário, indica uma regressão que acabará por sair muito cara num futuro mais ou menos breve. Quem impede uma manifestação legítima e pacífica tem de ser processado e posto em situação de não voltar a repetir o gesto, seja quem for o seu mandante. Este filme já foi visto, demasiado parecido com os lumpens recrutados por Mussolini e Hitler para atacar os verdadeiros democratas e progressistas. Para que não seja o caso, o Estado tem de ser claro: está do lado da Constituição ou contra ela?

(...)

Como avalia as relações entre Angola e Portugal?

De um modo geral são boas. Foram más e estão melhores. Acho que há equívocos. Bastantes equívocos.

Que equívocos?

Acho que há algumas pessoas na parte angolana. Por um lado, um certo saudosismo e, por outro lado, uma espécie de revanche e em termos económicos há uma vontade de comprar coisas em Portugal fazendo por vezes péssimos negócios. Eu também vi que a Sonangol comprou coisas no Iraque e no Irão que foram um desastre, nem se fala nisso, mas temos de ter atenção porque está-se a meter dinheiro do Estado. Agora, os particulares se querem ter um castelo, isso ai é com eles. Acho que devia haver maior transparência. Que a nação fosse informada que foram compradas quotas ou empresas e que não saibamos disso só quando há uma maka lá fora. E no caso de Portugal há negócios muito escuros e muitos deles serão prejudiciais a Angola e entretanto vemos algumas pessoas que nunca gostaram de nós e que agora abraçam-nos e só não bejam na boca porque parece mal. São relações de conveniência, no discurso oficial são relações de amizade e o passado comum. Mas isso é conversa. O negócio entre os países é feito apenas na base de interesses. E não há aqui sentimentos, sentimentos há entre nós intelectuais, mas os assuntos de Estado são negócios.

(...)

4 anos depois, como avalia o mandato de Barack Obama?

Eu sou um dos que ficou muito entusiasmado por Obama antes dele ser eleito. Eu conheci o Obama em 2004 quando estive uma época nos EUA e em que ele começava a despontar no partido democrata.
Vários amigos meus chamavam-me atenção e quando ele profere aquele discurso magnifico de apresentação do John Terry então diziam que eche homo (ai está o homem!). eu torci por ele. E sempre disse que no dia seguinte à sua eleição estaria contra ele porque a partir do momento em que ele é o Presidente dos Estados Unidos faria uma política da qual não estaria de acordo.
De qualquer modo acho que foi um avanço civilizacional ele ter sido eleito, mas para uma pessoa que recebe o prémio nobel logo no primeiro ano de mandato acho que já fez guerras há mais. E ainda se está a preparar para fazer outra. Gostaria de dizê-lo isso na cara. É verdade que já havia muito prémio nobel mal atribuído, mas para quem não tinha feito nada ainda pela paz e ele recebeu logo é porque o mundo ou o comité nobel, queria que ele fizesse mais. Também é verdade que ele é muito travado nos EUA por preconceitos por uma série de governadores.

Acha que ele tem menos poderes do que Bush?

Tem porque ele está a governar sem maioria.

Mas ele só perdeu a maioria há meio do mandato?

Tinha uma ligeira maioria, mas que perdeu logo.

Será reeleito.

Acho que sim. Porque este ano a economia irá melhorar um bocadinho.

Não será por ter morto Bin Laden, Kadaffi e outros?

Não, isso é importante durante um ou dois meses, mas depois esquecese, perde-se. O que é importante nos EUA é mesmo a economia. O americano só pensa em dólares, só dólares e mais nada. É isso que temos de saber. Se a economia estiver a andar bem como está a acontecer com a diminuição do emprego, ele ganha. Por outro lado, também não tem oposição. Aquela oposição, francamente...

Pior do que a nossa?

(Risos)... Pior do que a nossa... está lá perto, mas parece que o Obama em dois debate rebenta o Romney milionário e se ele adopta aquele discurso populista do eu negro vindo de uma família media que tive de trabalhar muito ao contrário de ti que nasceste já no meio do ouro,
arruma-o...

Acha que a China conseguirá atingir o estatuto de superpotência?

Está a fazer tudo por isso. Até aumentou bastante o seu orçamento militar, que era o que faltava. Portanto, penso que sim.

Neste caso teremos um mundo bipolar?

Depende um bocado da evolução da India que é um outro país que pode fazer frente aos EUA e a China. Eu não conto mais com a União Europeia que está em declínio total. Começa a parecer-se com a União Africana, qualquer dia acaba, porque a União africana já acabou há muito tempo.
E agora, a India é uma outra potencia que está a despontar tal como o Brasil que com a Argentina podem tornar a América Latina uma zona ouvida, uma outra fonte para distribuir melhor o poder no mundo.

Faltaria apenas África.

África ainda está longe. Não há nenhum país no continente que ascenda assim, talvez uma região, o sul do continente, mais ou menos a SADC que poderá vir a ser uma potencia e isso ainda demorará muito tempo. Tem que se estabelecer o Estado nação e depois avançar-se para a integração regional e isso levará uns bons anos.

(...)

O que lhe parece esta reforma educativa?

Para lhe dizer a verdade, conheço mal e não posso entrar, com profundidade em termos técnicos. Agora, eu acho que ela vem muito tarde. Deveria ter sido feita há muito mais tempo. Eu fiz parte da equipa que concebeu o sistema que substitui o sistema colonial e ao fim de quarto anos nós reconhecíamos que havia ali coisas a mudar. Entretanto, a equipa dispersou-se e ninguém pegou no assunto estes últimos anos. Saúdo o facto de se ter feito uma reforma porque o sistema estava desfasado da realidade actual do país.

Esta é a polémica da inexistência de exames em muitas classes?

E mesmo a matéria que é dada. Os programas são demasiado leves. Dá-me a impressão. Agora não sou muito categórico porque não estudei e não sou propriamente um pedagogo. Trabalhei na educação, mas nunca fui pedagogo. Eu espero que funcione e se há coisas há mudar que seja o mais rapidamente possível do que foi anteriormente. Por exemplo, eu tenho algumas dúvidas sobre essa questão de um professor conseguir dar seis classes, que é a grande discussão que tem havido. Parece-me de mais e no sistema anterior o professor acompanhava os alunos em quatro classes e tínhamos problemas de falta de professores. Quer-se prolonger até à sexta classe, mas isso exige professores melhores preparados e, para lhe ser franco, não sei se temos. Do que oiço ultimamente, a matéria que se dá nestas seis classes corresponde ao que se dava nas quatro primeiras anteriores e aí acho que, se isso é verdade, é muito pouca exigência.

Nem condiz com aquilo que é a tendência mundial onde os estudantes ficam cada vez menos tempo no sistema de ensino, ao passo que aqui estamos a prolongar o tempo dos estudantes no sistema, com todas as consequências disso até mesmo em termos de custos?

Se isso continuar assim, duvido que o aluno, ao fim dos 12 ou 13 anos esteja preparado para entrar para a Universidade. É verdade que nunca tivemos, em Angola, em termos gerais, alunos devidamente preparados para estar na Universidade, apesar dos extraordinários. É preciso que se altere rapidamente isso, colocando rigor na base e no topo também. Bons professores devem estar na base desta pirâmide e em cima ao mesmo tempo, mas na base tem de haver rigor.

(...)

Nem sempre Luanda mas utiliza muitas vezes uma cidade que denomina “Calpe”.

Calpe é qualquer coisa que não é nada.

Ou que é Luanda?

Às vezes parece Luanda, outras vezes não. A primeira vez que eu utilizei Calpé foi em Mwana Puó que foi escrita em 1969 e eu só conheci Luanda em 1974. Tinha passado por Luanda quando fui estudar em Portugal, mas não conheci. Mas em “Parábola do Cagado Velho”, Calpe é Luanda na parte má, um tom ameaçador, os vícios, mas em “Quase fim do Mundo” terá alguma coisa, mas não está muito definido. Quando quero fugir um bocado a que se situe ponho Calpe. Não me importa nada que se caracterize do modo diferente.

[Extractos de entrevista de Pepetela ao Novo Jornal # 218 - 23/03/2012]


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Para Angola Rapidamente e em Forca

Ecos da Vitoria de Obama no SA

'It's The Economy, Stupid!'

"Segundo Um Novo Relatorio do Banco Mundial"...

Falando de Intelectualismos [II]

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Gostei de Ler (?)... [3]



(...)

Para já eu estou cada vez mais velho, cada mais anarquista, e acredito muito pouco na fórmula partido.
Antes dizia que tinha dúvidas sobre a fórmula partido, hoje digo que acredito cada vez menos nesta fórmula. Não me parece que seja uma fórmula que avance muito. Acaba por ser sempre um aparelho que condiciona tudo o resto, um partido pode ter muitos militantes, mas há um aparelhozinho que condiciona tudo o resto. A Revolução francesa fez-se sem partidos, mas com clubes de pensadores. É claro que também era tudo anárquico, mas eu acho que devia haver possibilidades sem estar amarrado a um partido, mas estamos a tender cada vez mais para a consolidação da fórmula partido.
Eu não sei deste caso que falou do Abel Chivukuvuku, mas será interessante seguir e ver o que vai dar. Se conseguir apanhar pessoas que foram do partido A, B e C será interessante ver isso.

(...)

Hoje as pessoas dentro do MPLA exteriorizam mais facilmente ideias contrárias?

Eu acho que têm mais essa possibilidade. Duvido que o façam, mas ai há outro problema.

Qual?

Começa a tocar em interesses. E as pessoas ficam à espera, na expectativa. Criou-se a obsessão do que só o chefe pensa. E fica a impressão de que cinco milhões de pessoas não pensam, à espera que o chefe pense. É a ideia que dá. E depois o chefe diz uma frase e essa frase vira slogan que aparece em todo o lado. Só não aparece nas paredes porque agora a malta deixou de pintar as paredes.
É um certo seguidismo que se instalou, sem dúvida alguma. Mas depende das épocas. Agora é época de eleições portanto o seguidismo tem de ser muito forte, temos de estar todos unidos. Depois há maior dispersão. Isso nota-se nos comentários de algumas pessoas que mudam o discurso conforme a época política e os interesses pessoais. Sem dúvida, uma coisa que foi discutida há muitos anos no MPLA é o direito das tendências.

(...)

Em certa medida e em relação a uns tantos membros, o MPLA parece clientelista, pois eles se aproveitam do facto de serem militantes para obterem benefícios. Não falo da grande massa de militantes e simpatizantes que pouco ganham com o facto de o serem. Mas a nível de responsáveis, muitos têm negócios que só prosperam por causa da sua posição política. E ostentam as riquezas de forma pornográfica, por isso não há como enganar.

(...)

A oposição parlamentar dá-me a ideia que está apenas pelo dinheiro do Estado. É verdade que também não se dá muito espaço à oposição para dar a conhecer todas as suas ideias. Eles queixam-se muito disso, que a imprensa favorece o partido no poder, mas parece-me que com esta oposição o MPLA está tranquilo: tem mais cem anos. Portanto será interessante vermos esta experiência de um novo partido e ver se agita um bocado as águas.

(...)

O que lhe parece a “ousadia” de Lukoki durante a última reunião do Comité central onde terá levantado a questão da distribuição da riqueza nacional e a da sucessão como pontos para uma próxima reunião do CC, por sinal agendada para esta sexta-feira.

O Ambrósio Lukoki, de quem me orgulho de ser amigo, é um homem vertical, de grande coragem e frontalidade, qualidades essas que lhe têm valido problemas sérios. Ele só teve a ousadia de dizer o que mais de metade da sala pensava mas, como sempre, cala. Fora, batem-lhe nas costas a dizer, falaste bem. Lá dentro, nem o defendem dos mesmos mabecos de sempre, a tentar morder as canelas dos grandes homens.
Como é que se processará a transição de JES para um novo PR?

Esta é outra questão que devia ser pacifica, banal e que se torna um problema quase divino. O mundo acaba quando se pensa na sucessão. Deveria ser uma coisa quase banal porque as pessoas vão, deixam os cargos, vão descansar, é normal essa substituição de geração. E tem havido essa substituição de geração ao nível do MPLA, nas estruturas intermédias e mesmo ao nível do Bureau Político onde hoje há pessoas que são bastante mais novas do que aqueles que fizeram a luta de libertação. Agora, realmente esta é uma questão que acaba por se tornar complicada e quanto mais há segredos a volta disso, mais secretismo mais complicado fica.

E já é hora de se desmistificar essa questão?

Exactamente, abre-se o jogo tranquilamente. O Presidente não é eterno, ninguém é eterno, só Deus para os crentes. Nem o planeta terra é eterno. Acreditamos que tem de haver uma substituição, vamos ver quando, como e falamos sobre isso. Mas é um tabu, é um sacrilégio, mas é claro que toda a gente anda a murmurar nos cantos.

Não será por causa de algumas resistências internas?

Provavelmente haverá várias forcas a querer ganhar mais poder, representadas por pessoas, essa é uma realidade que acontece nos partidos, há lutas. Agora podem ser lutas mais abertas ou mais tranquilas.

E neste caso?

Neste caso é um tabu. E eu acho que as pessoas têm medo que AB ou C estejam a pensar qualquer coisa. Houve umas pessoas que aqui há uns anos atrás admitiam a hipótese de ser candidatos, mas isso é normal, mas as pessoas normalmente criam uma onda de indignação que percorre as fileiras porque alguém ousou dizer que pode substituir o presidente.

(...)

Quando falamos do impacto das manifestações e em face dos novos desenvolvimentos o que lhe pergunto é: Será mesmo que a visão de que os militantes despertaram pelo facto de serem muito mais contra o exíguo número de manifestantes é verdade, quando vemos as imagens da porrada a que foram alvos na sua última manifestação. Ou como explicar isso?

O MPLA de facto aparenta ter mais medo dos jovens que tentam se manifestar que dos partidos da oposição. Estes são aparelhos e como tal podem ser controlados, manobrados, enfraquecidos, etc... Já os manifestantes, mobilizados por meios mais difíceis de controlar, podem aparecer como um perigo muito maior, imprevisível. Parece absurdo um partido que diz ter cinco milhões de membros tremer perante um pequeno grupo de jovens que quer gritar a sua revolta, mas é um facto. Por outro lado, esse pequeno grupo poderá crescer por causa da resposta inadequada das autoridades. Não é aceitável que apareçam pessoas, que se declaram organizadas, atacando os manifestantes, impedindo que eles exerçam um direito constitucional, perante órgãos do Estado, impávidos e serenos. Assim não se aprofunda a democracia, antes pelo contrário, indica uma regressão que acabará por sair muito cara num futuro mais ou menos breve. Quem impede uma manifestação legítima e pacífica tem de ser processado e posto em situação de não voltar a repetir o gesto, seja quem for o seu mandante. Este filme já foi visto, demasiado parecido com os lumpens recrutados por Mussolini e Hitler para atacar os verdadeiros democratas e progressistas. Para que não seja o caso, o Estado tem de ser claro: está do lado da Constituição ou contra ela?

(...)

Como avalia as relações entre Angola e Portugal?

De um modo geral são boas. Foram más e estão melhores. Acho que há equívocos. Bastantes equívocos.

Que equívocos?

Acho que há algumas pessoas na parte angolana. Por um lado, um certo saudosismo e, por outro lado, uma espécie de revanche e em termos económicos há uma vontade de comprar coisas em Portugal fazendo por vezes péssimos negócios. Eu também vi que a Sonangol comprou coisas no Iraque e no Irão que foram um desastre, nem se fala nisso, mas temos de ter atenção porque está-se a meter dinheiro do Estado. Agora, os particulares se querem ter um castelo, isso ai é com eles. Acho que devia haver maior transparência. Que a nação fosse informada que foram compradas quotas ou empresas e que não saibamos disso só quando há uma maka lá fora. E no caso de Portugal há negócios muito escuros e muitos deles serão prejudiciais a Angola e entretanto vemos algumas pessoas que nunca gostaram de nós e que agora abraçam-nos e só não bejam na boca porque parece mal. São relações de conveniência, no discurso oficial são relações de amizade e o passado comum. Mas isso é conversa. O negócio entre os países é feito apenas na base de interesses. E não há aqui sentimentos, sentimentos há entre nós intelectuais, mas os assuntos de Estado são negócios.

(...)

4 anos depois, como avalia o mandato de Barack Obama?

Eu sou um dos que ficou muito entusiasmado por Obama antes dele ser eleito. Eu conheci o Obama em 2004 quando estive uma época nos EUA e em que ele começava a despontar no partido democrata.
Vários amigos meus chamavam-me atenção e quando ele profere aquele discurso magnifico de apresentação do John Terry então diziam que eche homo (ai está o homem!). eu torci por ele. E sempre disse que no dia seguinte à sua eleição estaria contra ele porque a partir do momento em que ele é o Presidente dos Estados Unidos faria uma política da qual não estaria de acordo.
De qualquer modo acho que foi um avanço civilizacional ele ter sido eleito, mas para uma pessoa que recebe o prémio nobel logo no primeiro ano de mandato acho que já fez guerras há mais. E ainda se está a preparar para fazer outra. Gostaria de dizê-lo isso na cara. É verdade que já havia muito prémio nobel mal atribuído, mas para quem não tinha feito nada ainda pela paz e ele recebeu logo é porque o mundo ou o comité nobel, queria que ele fizesse mais. Também é verdade que ele é muito travado nos EUA por preconceitos por uma série de governadores.

Acha que ele tem menos poderes do que Bush?

Tem porque ele está a governar sem maioria.

Mas ele só perdeu a maioria há meio do mandato?

Tinha uma ligeira maioria, mas que perdeu logo.

Será reeleito.

Acho que sim. Porque este ano a economia irá melhorar um bocadinho.

Não será por ter morto Bin Laden, Kadaffi e outros?

Não, isso é importante durante um ou dois meses, mas depois esquecese, perde-se. O que é importante nos EUA é mesmo a economia. O americano só pensa em dólares, só dólares e mais nada. É isso que temos de saber. Se a economia estiver a andar bem como está a acontecer com a diminuição do emprego, ele ganha. Por outro lado, também não tem oposição. Aquela oposição, francamente...

Pior do que a nossa?

(Risos)... Pior do que a nossa... está lá perto, mas parece que o Obama em dois debate rebenta o Romney milionário e se ele adopta aquele discurso populista do eu negro vindo de uma família media que tive de trabalhar muito ao contrário de ti que nasceste já no meio do ouro,
arruma-o...

Acha que a China conseguirá atingir o estatuto de superpotência?

Está a fazer tudo por isso. Até aumentou bastante o seu orçamento militar, que era o que faltava. Portanto, penso que sim.

Neste caso teremos um mundo bipolar?

Depende um bocado da evolução da India que é um outro país que pode fazer frente aos EUA e a China. Eu não conto mais com a União Europeia que está em declínio total. Começa a parecer-se com a União Africana, qualquer dia acaba, porque a União africana já acabou há muito tempo.
E agora, a India é uma outra potencia que está a despontar tal como o Brasil que com a Argentina podem tornar a América Latina uma zona ouvida, uma outra fonte para distribuir melhor o poder no mundo.

Faltaria apenas África.

África ainda está longe. Não há nenhum país no continente que ascenda assim, talvez uma região, o sul do continente, mais ou menos a SADC que poderá vir a ser uma potencia e isso ainda demorará muito tempo. Tem que se estabelecer o Estado nação e depois avançar-se para a integração regional e isso levará uns bons anos.

(...)

O que lhe parece esta reforma educativa?

Para lhe dizer a verdade, conheço mal e não posso entrar, com profundidade em termos técnicos. Agora, eu acho que ela vem muito tarde. Deveria ter sido feita há muito mais tempo. Eu fiz parte da equipa que concebeu o sistema que substitui o sistema colonial e ao fim de quarto anos nós reconhecíamos que havia ali coisas a mudar. Entretanto, a equipa dispersou-se e ninguém pegou no assunto estes últimos anos. Saúdo o facto de se ter feito uma reforma porque o sistema estava desfasado da realidade actual do país.

Esta é a polémica da inexistência de exames em muitas classes?

E mesmo a matéria que é dada. Os programas são demasiado leves. Dá-me a impressão. Agora não sou muito categórico porque não estudei e não sou propriamente um pedagogo. Trabalhei na educação, mas nunca fui pedagogo. Eu espero que funcione e se há coisas há mudar que seja o mais rapidamente possível do que foi anteriormente. Por exemplo, eu tenho algumas dúvidas sobre essa questão de um professor conseguir dar seis classes, que é a grande discussão que tem havido. Parece-me de mais e no sistema anterior o professor acompanhava os alunos em quatro classes e tínhamos problemas de falta de professores. Quer-se prolonger até à sexta classe, mas isso exige professores melhores preparados e, para lhe ser franco, não sei se temos. Do que oiço ultimamente, a matéria que se dá nestas seis classes corresponde ao que se dava nas quatro primeiras anteriores e aí acho que, se isso é verdade, é muito pouca exigência.

Nem condiz com aquilo que é a tendência mundial onde os estudantes ficam cada vez menos tempo no sistema de ensino, ao passo que aqui estamos a prolongar o tempo dos estudantes no sistema, com todas as consequências disso até mesmo em termos de custos?

Se isso continuar assim, duvido que o aluno, ao fim dos 12 ou 13 anos esteja preparado para entrar para a Universidade. É verdade que nunca tivemos, em Angola, em termos gerais, alunos devidamente preparados para estar na Universidade, apesar dos extraordinários. É preciso que se altere rapidamente isso, colocando rigor na base e no topo também. Bons professores devem estar na base desta pirâmide e em cima ao mesmo tempo, mas na base tem de haver rigor.

(...)

Nem sempre Luanda mas utiliza muitas vezes uma cidade que denomina “Calpe”.

Calpe é qualquer coisa que não é nada.

Ou que é Luanda?

Às vezes parece Luanda, outras vezes não. A primeira vez que eu utilizei Calpé foi em Mwana Puó que foi escrita em 1969 e eu só conheci Luanda em 1974. Tinha passado por Luanda quando fui estudar em Portugal, mas não conheci. Mas em “Parábola do Cagado Velho”, Calpe é Luanda na parte má, um tom ameaçador, os vícios, mas em “Quase fim do Mundo” terá alguma coisa, mas não está muito definido. Quando quero fugir um bocado a que se situe ponho Calpe. Não me importa nada que se caracterize do modo diferente.

[Extractos de entrevista de Pepetela ao Novo Jornal # 218 - 23/03/2012]


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Tuesday, 8 November 2011

Etu Mudietu...



Julgo que a ultima vez que estive com Luandino Vieira tera' sido durante umas longinquas ferias minhas em Luanda a que aqui me referia.
Depois disso, enquanto estive em Portugal, apenas a ocasional correspondencia, directa ou por terceiros e, desde que ‘me mudei’ para a Inglaterra, apenas a distancia e o silencio (excepto pela dedicatoria deste livro, que tambem me chegou as maos por terceiros).

Agora, ha’ umas semanas, o amigo Zetho Goncalves teve a amabilidade de me enviar, por email, o rio sem margem com o qual acabou por me (re)abrir o livro dos rios do Luandino Vieira, que (me) levou a dele receber por snailmail uma prenda antecipada de Natal: o conjunto dos livros ate’ agora publicados pela sua nova ‘micro-editora’
“Nos Somos”.

Tenho assim a oportunidade (rara) de poder ler nos proximos tempos, para alem do excelente livro do Zetho, do qual faco uma breve apresentacao abaixo, os seguintes titulos recentes de autores angolanos:

MOMENTOS (1958-2011)
Arnaldo Santos

POESIA (1961-1976)
António Jacinto

NÃO SAIAS SEM MIM À RUA ESTA MANHÃ
José Luís Mendonça

AFRICALEMA
José Luís Mendonça

MARCAS DA GUERRA PERCEPÇÃO ÍNTIMA & OUTROS FONEMAS DOUTRINÁRIOS
J.A.S. Lopito Feijóo K.




Retribuir em poema a poesia que subjaz à literatura angolana da tradição oral já recolhida e trasladada para a língua portuguesa – alguma, pouquíssima dela, aqui convocada e exposta -, é a razão primacial e o fim a que se propõe e destina este
Rio sem Margem.
(da Nota do Autor)


A ÁGUA

[Tradição oral Umbundu, Angola]

Não se deixa amarrar
com um cordel,
nem se deixa apertar
com um cinto

- a água.

Dorme caminhando,
e mesmo parada, ela anda

- a água.


O SONHO

[Tradição oral Kwanyana, Angola]

Parece verdadeiro,
o sonho que sonhaste.

Branco e luzidio
como um chifre de boi

- o sonho que sonhaste.


MOTIVOS DE CONVERSA

[Tradição oral Kikongo, Angola]

O veado
sem pele
e sem cornos

- quem o viu,
que ninguém se cala
com ele?

- Quando chove,
rebentam os troncos,
cresce o capim.

No pássaro
de cabeça decepada,
mil pombas se alimentam.

O veado
sem pele
e sem cornos

- quem o viu,
que ninguém se cala
com ele?


“Em todas as formas escritas da poesia”, escreve Octavio Paz em A outra voz, “o signo gráfico está sempre em função do oral.” Ora, sendo este um livro de poemas e não um tratado académico – que utiliza na sua fractura o alfabeto latino e se destina primeiramente a um público de língua portuguesa -, entendeu-se ser mais correcto grafar como se grafou o vocábulo “Tchokwé’”, e não “Cokwé”, posto ninguém ler os vocábulos “Cutato”, “Cabinda” ou “coqueiro”, por exemplo, como “Tchutato”, “Tchabinda” ou “tchóqueiro”, respectivamente.
(da Nota Final - este extracto e' particularmente relevante para as discussoes travadas aqui e aqui ha' ja' uns anitos...)



Julgo que a ultima vez que estive com Luandino Vieira tera' sido durante umas longinquas ferias minhas em Luanda a que
aqui me referia.
Depois disso, enquanto estive em Portugal, apenas a ocasional correspondencia, directa ou por terceiros e, desde que ‘me mudei’ para a Inglaterra, apenas a distancia e o silencio (excepto pela dedicatoria deste livro, que tambem me chegou as maos por terceiros).

Agora, ha’ umas semanas, o amigo Zetho Goncalves teve a amabilidade de me enviar, por email, o rio sem margem com o qual acabou por me (re)abrir o livro dos rios do Luandino Vieira, que (me) levou a dele receber por snailmail uma prenda antecipada de Natal: o conjunto dos livros ate’ agora publicados pela sua nova ‘micro-editora’
“Nos Somos”.

Tenho assim a oportunidade (rara) de poder ler nos proximos tempos, para alem do excelente livro do Zetho, do qual faco uma breve apresentacao abaixo, os seguintes titulos recentes de autores angolanos:

MOMENTOS (1958-2011)
Arnaldo Santos

POESIA (1961-1976)
António Jacinto

NÃO SAIAS SEM MIM À RUA ESTA MANHÃ
José Luís Mendonça

AFRICALEMA
José Luís Mendonça

MARCAS DA GUERRA PERCEPÇÃO ÍNTIMA & OUTROS FONEMAS DOUTRINÁRIOS
J.A.S. Lopito Feijóo K.




Retribuir em poema a poesia que subjaz à literatura angolana da tradição oral já recolhida e trasladada para a língua portuguesa – alguma, pouquíssima dela, aqui convocada e exposta -, é a razão primacial e o fim a que se propõe e destina este
Rio sem Margem.
(da Nota do Autor)


A ÁGUA

[Tradição oral Umbundu, Angola]

Não se deixa amarrar
com um cordel,
nem se deixa apertar
com um cinto

- a água.

Dorme caminhando,
e mesmo parada, ela anda

- a água.


O SONHO

[Tradição oral Kwanyana, Angola]

Parece verdadeiro,
o sonho que sonhaste.

Branco e luzidio
como um chifre de boi

- o sonho que sonhaste.


MOTIVOS DE CONVERSA

[Tradição oral Kikongo, Angola]

O veado
sem pele
e sem cornos

- quem o viu,
que ninguém se cala
com ele?

- Quando chove,
rebentam os troncos,
cresce o capim.

No pássaro
de cabeça decepada,
mil pombas se alimentam.

O veado
sem pele
e sem cornos

- quem o viu,
que ninguém se cala
com ele?


“Em todas as formas escritas da poesia”, escreve Octavio Paz em A outra voz, “o signo gráfico está sempre em função do oral.” Ora, sendo este um livro de poemas e não um tratado académico – que utiliza na sua fractura o alfabeto latino e se destina primeiramente a um público de língua portuguesa -, entendeu-se ser mais correcto grafar como se grafou o vocábulo “Tchokwé’”, e não “Cokwé”, posto ninguém ler os vocábulos “Cutato”, “Cabinda” ou “coqueiro”, por exemplo, como “Tchutato”, “Tchabinda” ou “tchóqueiro”, respectivamente.
(da Nota Final - este extracto e' particularmente relevante para as discussoes travadas aqui e aqui ha' ja' uns anitos...)

Saturday, 17 September 2011

“Bantuismos na construção poética de Agostinho Neto”





O discurso poético de António Agostinho Neto foi largamente influenciado por uma série de “bantuísmos” como forma propositada de marcar a identidade bantu na poesia, numa sociedade colonial em que tal civilização era rejeitada.

A afirmação pertence ao historiador Simão Souinduila, consultor do Centro Internacional das Civilizações Bantu, quando comentava hoje, na União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, sobre o tema “Bantuismos na construção poética de Agostinho Neto”.

Souindoula, que é igualmente perito do Fundo da Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), considerou “muito influenciada, a poesia de Neto, no idioma materno (Kimbundo), o que levou que pouco depois da independência nacional, tomasse como algumas das suas principais decisões de cunho cultural a adopção do acordo sobre o estudo e valorização das línguas nacionais e a criação da UEA e consecutiva eleição dos corpos gerentes.

Disse que o “bantuismo” de Agostinho Neto reflectido de diversas formas, em língua materna kimbundo, representa um conjunto de vocábulos com sistema de concordância com línguas de países da África Central.

No caso específico de Angola, disse que o poeta Neto inculcava nas obras termos como “Kitanda”, “Kalunga”, “Mussunda”, “Kinaxixi”, “Ingombota” e “Kitandeira”, “cubata”, “Musekes”, entre vários outros.

Apontou como um dos exemplos de “pura influência bantu” a palavra Kitanda que, em Umbundo recebe um prefixo, chamando-se “Otchitanda”.

“Neto não estava preocupado a escrever para os timorenses e cabo-verdianos (não são bantu). A sua intenção era dar ênfase à sua civilização, por meio da poesia”, defendeu o perito da UNESCO, para quem, “se quisesse, Agostinho Neto teria feito poesia em linguagem clássica”.

Referiu ainda a introdução do “K” e “W” na escrita da moeda nacional, o Kwanza, ao contrário de “Cuanza”, como uma decisão histórico-cultural, que terá contribuído para introdução no alfabeto da língua de Camões (português), das consoantes “k”, “y” e “w”.

“Agostinho Neto deixa uma poesia platónica, de leitura legível (não obriga ao leitor recorrer ao dicionário para perceber o lê), uma obra que serviu de balizas e orientação para o nacionalismo angolano”, frisou Simão Souindoula, que reconhece a dimensão cultural e social da sua poesia como sendo provocatória para o regime da época.


[Aqui]


Post Relacionado:

No Dia do Heroi Nacional





O discurso poético de António Agostinho Neto foi largamente influenciado por uma série de “bantuísmos” como forma propositada de marcar a identidade bantu na poesia, numa sociedade colonial em que tal civilização era rejeitada.

A afirmação pertence ao historiador Simão Souinduila, consultor do Centro Internacional das Civilizações Bantu, quando comentava hoje, na União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, sobre o tema “Bantuismos na construção poética de Agostinho Neto”.

Souindoula, que é igualmente perito do Fundo da Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), considerou “muito influenciada, a poesia de Neto, no idioma materno (Kimbundo), o que levou que pouco depois da independência nacional, tomasse como algumas das suas principais decisões de cunho cultural a adopção do acordo sobre o estudo e valorização das línguas nacionais e a criação da UEA e consecutiva eleição dos corpos gerentes.

Disse que o “bantuismo” de Agostinho Neto reflectido de diversas formas, em língua materna kimbundo, representa um conjunto de vocábulos com sistema de concordância com línguas de países da África Central.

No caso específico de Angola, disse que o poeta Neto inculcava nas obras termos como “Kitanda”, “Kalunga”, “Mussunda”, “Kinaxixi”, “Ingombota” e “Kitandeira”, “cubata”, “Musekes”, entre vários outros.

Apontou como um dos exemplos de “pura influência bantu” a palavra Kitanda que, em Umbundo recebe um prefixo, chamando-se “Otchitanda”.

“Neto não estava preocupado a escrever para os timorenses e cabo-verdianos (não são bantu). A sua intenção era dar ênfase à sua civilização, por meio da poesia”, defendeu o perito da UNESCO, para quem, “se quisesse, Agostinho Neto teria feito poesia em linguagem clássica”.

Referiu ainda a introdução do “K” e “W” na escrita da moeda nacional, o Kwanza, ao contrário de “Cuanza”, como uma decisão histórico-cultural, que terá contribuído para introdução no alfabeto da língua de Camões (português), das consoantes “k”, “y” e “w”.

“Agostinho Neto deixa uma poesia platónica, de leitura legível (não obriga ao leitor recorrer ao dicionário para perceber o lê), uma obra que serviu de balizas e orientação para o nacionalismo angolano”, frisou Simão Souindoula, que reconhece a dimensão cultural e social da sua poesia como sendo provocatória para o regime da época.


[Aqui]


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No Dia do Heroi Nacional

Wednesday, 8 December 2010

... E por falar em Poetas Angolanas...



O Amor Tem Asas de Ouro «Antologia da Poesia Feminina Angolana»

Gioveth & Seomara Santos Filomena

Assumimos que a colectânea «O Amor Tem Asas de Ouro», é um projecto parcial e divulga o lado mais lírico das mulheres angolanas poetas, para que o leitor sinta essa peculiaridade de vozes com alguma felicidade e deleite.

[Clique na imagem para aceder a Antologia]



Nota: Sendo embora questionavel o facto de a uma colectanea de Poesia Feminina Angolana se ter dado o titulo de um poema de uma escritora portuguesa, aparentemente sem qualquer ligacao conhecida com Angola, Natalia Correia, nao deixa de ser notavel o facto de que essa mesma escritora tenha sido uma das que mais se destacou na "subversao feminista" de conceitos como "patria" (que rebaptizou "matria") e "poetisa" (que preteria em favor de "poeta"). Foram tambem dela estas palavras: «Oh sub-alimentados do sonho, a poesia é para se comer!»


[Post relacionado: "Como Veias Finas na Terra"]




O Amor Tem Asas de Ouro «Antologia da Poesia Feminina Angolana»

Gioveth & Seomara Santos Filomena

Assumimos que a colectânea «O Amor Tem Asas de Ouro», é um projecto parcial e divulga o lado mais lírico das mulheres angolanas poetas, para que o leitor sinta essa peculiaridade de vozes com alguma felicidade e deleite.

[Clique na imagem para aceder a Antologia]



Nota: Sendo embora questionavel o facto de a uma colectanea de Poesia Feminina Angolana se ter dado o titulo de um poema de uma escritora portuguesa, aparentemente sem qualquer ligacao conhecida com Angola, Natalia Correia, nao deixa de ser notavel o facto de que essa mesma escritora tenha sido uma das que mais se destacou na "subversao feminista" de conceitos como "patria" (que rebaptizou "matria") e "poetisa" (que preteria em favor de "poeta"). Foram tambem dela estas palavras: «Oh sub-alimentados do sonho, a poesia é para se comer!»


[Post relacionado: "Como Veias Finas na Terra"]


Tuesday, 17 August 2010

Ruy Duarte de Carvalho: Antropologia & Arte

Por ocasiao do recente passamento de Ruy Duarte de Carvalho, deixo aqui dois textos sobre a sua obra, respectivamente da poeta Ana Paula Tavares e do antropologo Miguel Vale de Almeida.



Escrever a Nação

[Sobre "A câmara, a escrita e a coisa dita...: fitas, textos e palestras", por Ana Paula Tavares - Maio, 2010]


A criação de um estado (acto jurídico) pressupõe a urdidura de uma nação (processo cultural). -- Ruy Duarte de Carvalho, Ana a Manda os filhos da rede


Vinte anos depois da publicação deste trabalho, inicialmente tese de doutoramento do 3º ciclo defendida na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em 1986 e publicada em Lisboa em 1989, dele retiramos a epígrafe como fio que conduz a uma revisita de algumas das articulações mais complexas e pedagogicamente mais conseguidas de quem “atento desde sempre às falas do lugar”[1] enuncia os princípios da inteligibilidade que podem ajudar a perceber Angola, seus actos fundacionais e a proclamação pública que os acrescenta.

O livro de que nos ocupamos agora reúne ensaios produzidos em e sobre Angola que o autor organiza por ordem cronológica do mais recente (2005) ao mais antigo (1982) dando nova ordem de leitura a textos já publicados anteriormente[2] aos quais acrescenta produção posterior resultante da sua participação em palestras, colóquios e lições.

Importa abrir um lugar ao cinema não para falar de filmes (que são muitos e variados) mas sim de toda a reflexão teórica em torna das relações entre cinema e antropologia e assim resumir o que o autor chamou de “urgências” (p. 389), a primeira: “produzir filmes, cientificamente correctos, socialmente operantes, cinematograficamente válidos e eticamente honestos” (p. 450), labor a que se propôs logo após a independência nacional ao mesmo tempo que recuperarava a jeep e de máquina de filmar nas mãos o território que cabia dentro da nação.

Desde sempre o leitor sente a noção de estranhamento relacionada com a estratégia analítica a permitir formular as razões do cinema e as suas relações com a poesia, a tradição oral, o filmador e o filmado. É a abertura do texto ao mundo circundante, fazendo uso de todo o conhecimento para construir uma gramática das inquietações e elaborar uma obra que reconhecemos impar na maneira original como ainda hoje nos interroga, ausculta e esclarece.

Assumindo desde sempre um ‘eu’ sujeito, a consciência dentro do texto, Ruy Duarte de Carvalho escreve as circunstâncias inquietantes que vê e de que é informado e que o levam a produzir “mais do que honestos relatórios” a seduzir pela escrita os eventuais consumidores dos seus textos.

[Texto integral aqui]


Antropologia e Literatura: A Proposito e por Causa de Ruy Duarte de Carvalho

[Por Miguel Vale de Almeida - Fevereiro, 2008]


(...)

Onde os antropólogos, sobretudo a partir dos anos oitenta, se concentraram, foi antes na questão da relação entre autoria e autoridade. Afinal de contas, o texto etnográfico e/ou antropológico, dá ou não conta da pluralidade de vozes no terreno, dos conflitos entre elas, reproduz ou não estruturas de autoridade e precedência não só do terreno mas também das relações entre o Ocidente e o Resto, entre a Ciência e os seus “objectos”?

Na página 27 do seu livro mais marcadamente antropológico, Ana a Manda – Os Filhos da rede (sua tese de doutoramento, defendida em 1986 e publicada em 1989), Ruy Duarte de Carvalho escreve: «Nós estamos, do ponto de vista de uma ética profissional e intelectual, do lado daqueles para quem, em relação a um trabalho como este, a noção de autor se torna ambígua desde que o texto integre a participação de outrem.»

(...)

Se a relação entre “Antropologia e Literatura” é como cutucar uma ferida (pessoal até, no caso presente, já que me vejo como amador dos contos e da ficção científica, blogger, cronista político, ensaísta popularizador e, claro, antropólogo), a verdade é que não existe Betadine epistemológico, metodológico, ético ou político que a sare. James Clifford usa como epígrafe de um dos seus textos em The Predicament of Culture versos de William Carlos Williams que aludem a como «os produtos puros enlouqueceram».

É justamente a “impureza” da obra de Ruy Duarte, o seu não privilegiar de uma autoidentificação enquanto antropólogo, a sua fidelidade à autoria literária, que nos permite – a leitores vindos da antropologia como eu – reencontrar a sanidade e assim ver com caleidoscópica clareza a complexidade dos trânsitos culturais em que vivemos. Da obra de Ruy Duarte não transparece a ferida a que aludi. Quem se assume na multiplicidade de géneros e vozes, na hibridez, e no tráfico e trânsito, transcende os próprios termos em que a questão é colocada. A autoria – despida da autoridade da hiperdefinição literária ou antropológica – é, afinal de contas, o que evita a ferida.

[Texto integral aqui]
Por ocasiao do recente passamento de Ruy Duarte de Carvalho, deixo aqui dois textos sobre a sua obra, respectivamente da poeta Ana Paula Tavares e do antropologo Miguel Vale de Almeida.



Escrever a Nação

[Sobre "A câmara, a escrita e a coisa dita...: fitas, textos e palestras", por Ana Paula Tavares - Maio, 2010]


A criação de um estado (acto jurídico) pressupõe a urdidura de uma nação (processo cultural). -- Ruy Duarte de Carvalho, Ana a Manda os filhos da rede


Vinte anos depois da publicação deste trabalho, inicialmente tese de doutoramento do 3º ciclo defendida na École des Hautes Études en Sciences Sociales, em 1986 e publicada em Lisboa em 1989, dele retiramos a epígrafe como fio que conduz a uma revisita de algumas das articulações mais complexas e pedagogicamente mais conseguidas de quem “atento desde sempre às falas do lugar”[1] enuncia os princípios da inteligibilidade que podem ajudar a perceber Angola, seus actos fundacionais e a proclamação pública que os acrescenta.

O livro de que nos ocupamos agora reúne ensaios produzidos em e sobre Angola que o autor organiza por ordem cronológica do mais recente (2005) ao mais antigo (1982) dando nova ordem de leitura a textos já publicados anteriormente[2] aos quais acrescenta produção posterior resultante da sua participação em palestras, colóquios e lições.

Importa abrir um lugar ao cinema não para falar de filmes (que são muitos e variados) mas sim de toda a reflexão teórica em torna das relações entre cinema e antropologia e assim resumir o que o autor chamou de “urgências” (p. 389), a primeira: “produzir filmes, cientificamente correctos, socialmente operantes, cinematograficamente válidos e eticamente honestos” (p. 450), labor a que se propôs logo após a independência nacional ao mesmo tempo que recuperarava a jeep e de máquina de filmar nas mãos o território que cabia dentro da nação.

Desde sempre o leitor sente a noção de estranhamento relacionada com a estratégia analítica a permitir formular as razões do cinema e as suas relações com a poesia, a tradição oral, o filmador e o filmado. É a abertura do texto ao mundo circundante, fazendo uso de todo o conhecimento para construir uma gramática das inquietações e elaborar uma obra que reconhecemos impar na maneira original como ainda hoje nos interroga, ausculta e esclarece.

Assumindo desde sempre um ‘eu’ sujeito, a consciência dentro do texto, Ruy Duarte de Carvalho escreve as circunstâncias inquietantes que vê e de que é informado e que o levam a produzir “mais do que honestos relatórios” a seduzir pela escrita os eventuais consumidores dos seus textos.

[Texto integral aqui]


Antropologia e Literatura: A Proposito e por Causa de Ruy Duarte de Carvalho

[Por Miguel Vale de Almeida - Fevereiro, 2008]


(...)

Onde os antropólogos, sobretudo a partir dos anos oitenta, se concentraram, foi antes na questão da relação entre autoria e autoridade. Afinal de contas, o texto etnográfico e/ou antropológico, dá ou não conta da pluralidade de vozes no terreno, dos conflitos entre elas, reproduz ou não estruturas de autoridade e precedência não só do terreno mas também das relações entre o Ocidente e o Resto, entre a Ciência e os seus “objectos”?

Na página 27 do seu livro mais marcadamente antropológico, Ana a Manda – Os Filhos da rede (sua tese de doutoramento, defendida em 1986 e publicada em 1989), Ruy Duarte de Carvalho escreve: «Nós estamos, do ponto de vista de uma ética profissional e intelectual, do lado daqueles para quem, em relação a um trabalho como este, a noção de autor se torna ambígua desde que o texto integre a participação de outrem.»

(...)

Se a relação entre “Antropologia e Literatura” é como cutucar uma ferida (pessoal até, no caso presente, já que me vejo como amador dos contos e da ficção científica, blogger, cronista político, ensaísta popularizador e, claro, antropólogo), a verdade é que não existe Betadine epistemológico, metodológico, ético ou político que a sare. James Clifford usa como epígrafe de um dos seus textos em The Predicament of Culture versos de William Carlos Williams que aludem a como «os produtos puros enlouqueceram».

É justamente a “impureza” da obra de Ruy Duarte, o seu não privilegiar de uma autoidentificação enquanto antropólogo, a sua fidelidade à autoria literária, que nos permite – a leitores vindos da antropologia como eu – reencontrar a sanidade e assim ver com caleidoscópica clareza a complexidade dos trânsitos culturais em que vivemos. Da obra de Ruy Duarte não transparece a ferida a que aludi. Quem se assume na multiplicidade de géneros e vozes, na hibridez, e no tráfico e trânsito, transcende os próprios termos em que a questão é colocada. A autoria – despida da autoridade da hiperdefinição literária ou antropológica – é, afinal de contas, o que evita a ferida.

[Texto integral aqui]

Monday, 17 May 2010

Memorandum [de (des)Entendimento] … III




Nunca fui membro da Brigada Jovem de Literatura (de Luanda, ou de qualquer outra cidade de Angola) e dos seus membros apenas conheci bem dois, desde os tempos do Movimento Associativo Estudantil de 1974/75 em Luanda e, mais recentemente, conheci pela primeira vez pessoalmente, e apenas por algumas breves horas, um terceiro por ocasiao de um fatidico (para mim!) evento em comemoracao do Dia de Africa em Lisboa… Ha’ ainda dois outros de quem apenas posso dizer que vi uma ou duas vezes na vida.

Mais esclareco que nunca fiz parte de nenhum orgao directivo da UEA ou de qualquer outra das suas instancias de decisao sobre os processos de seleccao, aceitacao ou rejeicao de obras para publicacao pela sua chancela.

Serve este memo apenas para, por um lado, esclarecer de uma vez por todas aquelas pessoas que ate' agora pensavam diferentemente por a isso terem sido induzidas de uma maneira ou de outra e, por outro, registar que “a minha alma anda parva” perante a verdadeira sanha assassina que alguns ex-brigadistas (e, ja’ agora, alguns elementos de outros “grupos artistico-literarios” dos anos 80 e, aparentemente, tambem alguns - 'contaminados pelo sindrome da BJL' - membros de alguns dos novos grupos de 'jovens literatos'…) e suas actuais mui letradas madrinhas dos Atlanticos norte e sul, passando ao largo de STP (as tais que nao param de perguntar "porque que todo o mundo...isto ou aquilo?!", ou “porque promover uns e nao outros?!”… quando o que fazem, munidas de seus recem-adquiridos poderes e influencias academicas, mediaticas e politicas, nao e’ senao, precisamente, a comecar por promoverem-se despudoradamente a si proprias num pais e numa sociedade que mal conhecem, “promover uns e nao outros”(!) - e aqui estou a referir-me apenas aos ex-membros da BJL no seu todo...) me venhem dedicando ao longo dos anos desde o lancamento do meu primeiro livro pela UEA (como se, com isso, eu lhes tivesse usurpado algum "lugar cativo e exclusivo" ou qualquer outra coisa...) ja' la' vao duas decadas e meia (sera' que a vossa vida parou em funcao disso em todos esses anos? ainda teem tanto assim "para provar" - pessoal, intelectual, literaria, artistica, cultural, profissional, politica ou socialmente?!) e, agora em associacao cada vez mais estreita com alguns ex-staffers da “Agencia” e outros propagandistas, especialmente desde que criei este blog…

[Ah!... Tinha-me esquecido, mais uma vez: convem-me saber sempre o que me espera!]




Nunca fui membro da Brigada Jovem de Literatura (de Luanda, ou de qualquer outra cidade de Angola) e dos seus membros apenas conheci bem dois, desde os tempos do Movimento Associativo Estudantil de 1974/75 em Luanda e, mais recentemente, conheci pela primeira vez pessoalmente, e apenas por algumas breves horas, um terceiro por ocasiao de um fatidico (para mim!) evento em comemoracao do Dia de Africa em Lisboa… Ha’ ainda dois outros de quem apenas posso dizer que vi uma ou duas vezes na vida.

Mais esclareco que nunca fiz parte de nenhum orgao directivo da UEA ou de qualquer outra das suas instancias de decisao sobre os processos de seleccao, aceitacao ou rejeicao de obras para publicacao pela sua chancela.

Serve este memo apenas para, por um lado, esclarecer de uma vez por todas aquelas pessoas que ate' agora pensavam diferentemente por a isso terem sido induzidas de uma maneira ou de outra e, por outro, registar que “a minha alma anda parva” perante a verdadeira sanha assassina que alguns ex-brigadistas (e, ja’ agora, alguns elementos de outros “grupos artistico-literarios” dos anos 80 e, aparentemente, tambem alguns - 'contaminados pelo sindrome da BJL' - membros de alguns dos novos grupos de 'jovens literatos'…) e suas actuais
mui letradas madrinhas dos Atlanticos norte e sul, passando ao largo de STP (as tais que nao param de perguntar "porque que todo o mundo...isto ou aquilo?!", ou “porque promover uns e nao outros?!”… quando o que fazem, munidas de seus recem-adquiridos poderes e influencias academicas, mediaticas e politicas, nao e’ senao, precisamente, a comecar por promoverem-se despudoradamente a si proprias num pais e numa sociedade que mal conhecem, “promover uns e nao outros”(!) - e aqui estou a referir-me apenas aos ex-membros da BJL no seu todo...) me venhem dedicando ao longo dos anos desde o lancamento do meu primeiro livro pela UEA (como se, com isso, eu lhes tivesse usurpado algum "lugar cativo e exclusivo" ou qualquer outra coisa...) ja' la' vao duas decadas e meia (sera' que a vossa vida parou em funcao disso em todos esses anos? ainda teem tanto assim "para provar" - pessoal, intelectual, literaria, artistica, cultural, profissional, politica ou socialmente?!) e, agora em associacao cada vez mais estreita com alguns ex-staffers da “Agencia” e outros propagandistas, especialmente desde que criei este blog…

[Ah!... Tinha-me esquecido, mais uma vez: convem-me saber sempre o que me espera!]

Saturday, 8 May 2010

Pepetela perante si proprio...*


[...]
Thor sabia estórias. Até mesmo as passadas bem antes de ter nascido e que permaneciam na memória colectiva do Planalto Central como momentos de grande terror, tais as célebres razias dos incomparáveis cavaleiros kuanhama, vindos muito do sul para confiscar gado e mulheres. E gostava de narrar, hábito adquirido no seu terreiro natal em que toda a vida social se passava ao fim de tarde e parte da noite à volta da fogueira, ouvindo os mais velhos e sábios relatar cenas do presente e do passado. Talvez também adivinhando futuros, quem sabe.
[...]
A acácia rubra merece um parágrafo especial e peço licença para o introduzir. A casa nova, onde então habitávamos, tinha sido construída ao lado do antigo leito do rio Corinje. O meu pai era jovem quando desviaram o leito do rio para sul, servindo assim de limite ao território. É da sua recordação os antílopes irem beber água ao Corinje e os leões e onças aproveitarem a carne tentadora. A lenda contava que ao lado do rio, teve lugar uma luta de morte entre dois heróis: um leão de juba farta e acobreada e um homem armado apenas de um punhal. Foi alguma gazela o fruto da disputa? A lenda não reteve a razão. Apenas que o combate foi demorado e terminou com a morte de ambos os adversários. Diz ainda a lenda que o sangue dos dois heróis correu para a depressão onde uma jovem acácia brotava. Alimentada por esse sangue quase sagrado, a árvore ultrapassou as irmãs em altura e deu sempre flores mais encarnadas.
[...]
Por isso é tão complicado responder à questão do como e do quando se faz um escritor. Outros saberão. Prefiro deixar que búzios sejam atirados e os leitores adivinhem ou imaginem. O importante é a delícia e alívio que se tem quando um personagem nos surpreende, se apodera da narrativa e diz, agora sou eu que comando, tu, reles escritor, remete-te ao simples papel de escriba ou oráculo, enquanto eu, o personagem, passo a ditar a ação. Sim, nesse momento há o êxtase do corredor de fundo que ultrapassa as dores, a suprema fadiga, e entra no breve paraíso em que flutua sobre nuvens adocicadas antes do colapso final. Há sempre um colapso, todos o sabemos, mas o que interessa mesmo é o facto de se correr para lá da exaustão e pressentir como poderia ser o paraíso. Tal como escrever e deixar solta a imaginação, mesmo para a mais absurda das estórias. Por muito absurda que seja, nunca ultrapassará certas realidades.


[Texto integral aqui]


*{... ou de como 'a mulemba (acacia?) continua nao explicando o sopro, o vento, tao pouco a lagrima'...}


Post relacionado:

White Negritude

[...]
Thor sabia estórias. Até mesmo as passadas bem antes de ter nascido e que permaneciam na memória colectiva do Planalto Central como momentos de grande terror, tais as célebres razias dos incomparáveis cavaleiros kuanhama, vindos muito do sul para confiscar gado e mulheres. E gostava de narrar, hábito adquirido no seu terreiro natal em que toda a vida social se passava ao fim de tarde e parte da noite à volta da fogueira, ouvindo os mais velhos e sábios relatar cenas do presente e do passado. Talvez também adivinhando futuros, quem sabe.
[...]
A acácia rubra merece um parágrafo especial e peço licença para o introduzir. A casa nova, onde então habitávamos, tinha sido construída ao lado do antigo leito do rio Corinje. O meu pai era jovem quando desviaram o leito do rio para sul, servindo assim de limite ao território. É da sua recordação os antílopes irem beber água ao Corinje e os leões e onças aproveitarem a carne tentadora. A lenda contava que ao lado do rio, teve lugar uma luta de morte entre dois heróis: um leão de juba farta e acobreada e um homem armado apenas de um punhal. Foi alguma gazela o fruto da disputa? A lenda não reteve a razão. Apenas que o combate foi demorado e terminou com a morte de ambos os adversários. Diz ainda a lenda que o sangue dos dois heróis correu para a depressão onde uma jovem acácia brotava. Alimentada por esse sangue quase sagrado, a árvore ultrapassou as irmãs em altura e deu sempre flores mais encarnadas.
[...]
Por isso é tão complicado responder à questão do como e do quando se faz um escritor. Outros saberão. Prefiro deixar que búzios sejam atirados e os leitores adivinhem ou imaginem. O importante é a delícia e alívio que se tem quando um personagem nos surpreende, se apodera da narrativa e diz, agora sou eu que comando, tu, reles escritor, remete-te ao simples papel de escriba ou oráculo, enquanto eu, o personagem, passo a ditar a ação. Sim, nesse momento há o êxtase do corredor de fundo que ultrapassa as dores, a suprema fadiga, e entra no breve paraíso em que flutua sobre nuvens adocicadas antes do colapso final. Há sempre um colapso, todos o sabemos, mas o que interessa mesmo é o facto de se correr para lá da exaustão e pressentir como poderia ser o paraíso. Tal como escrever e deixar solta a imaginação, mesmo para a mais absurda das estórias. Por muito absurda que seja, nunca ultrapassará certas realidades.


[Texto integral aqui]


*{... ou de como 'a mulemba (acacia?) continua nao explicando o sopro, o vento, tao pouco a lagrima'...}


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Thursday, 11 March 2010

Kinaxixi e seus amores

Entre a "Feira" da Maria da Fonte...

Uma mulher do Norte chegou ali. Vinha fazer uma guerra de armas de repetição e
carros de bois. Chamava-se Maria da Fonte (uma das sete, dizia-se) e montou ali
o seu kilombo. Kinaxixi meu amor falou, Kinaxixi Kiami aprendeu.
Um dia, olhou para trás e virou estátua, não de sal como a mulher da outra história (de amor, salvação, caminho de luz, fogo e cadela Minerva, a que morreu de
seus próprios partos), mas estátua de mármore, mulher e todos os membros do
kilombo mais as armas e peças de artilharia, tornados pedras no meio do
Kinaxixi, que é como quem diz no meio dos nossos corações e da cidade. Alguns
anos mais tarde, trezentas cargas de nitroglicerina transformaram o kilombo em
pedaços de pedra muito pequeninos. No chão nasceu erva de arranca pedras e chá,
outras histórias para contar.

Ana Paula Tavares, extracto
de "Kinaxixi, meu amor", in A Cabeça de Salomé - Editorial Nzila,
Luanda, 2004


...e o "Kilombo" da Nzinga Mbandi


Onde nao houve cargas de nitroglicerina - bastaram os pedacos de pedra muito pequeninos para fazerem a estatua virar sal de "mbakar" uteros e chao: nem partos de cadelas, nem gemidos de carros de bois (as armas de repeticao, essas ja' haviam sido caladas pela 'Maria do Blindado'); nem erva de arranca pedras, nem cha'... so' o vacuo, o nada e outras historias do meio do nosso coracao e da cidade para nao contar - Kinaxixi Kiami.
[Mas o olho d'agua da Kianda, esse continua la'...]


Obs.: Soube pelo amigo Augusto Nascimento, que a ela assistiu, da defesa de tese de doutoramento, no inicio desta semana em Lisboa, da Paula Tavares (de quem, ha' alguns meses, depois de muitos anos sem qualquer contacto, recebi uma bonita mensagem entitulada "Amizade", a que se seguiu uma interessante mutua "redescoberta": sobre este blog, nossas vidas, paradeiros, anseios, filhos, futuros...) - para ela os meus sinceros parabens!
Uma mulher do Norte chegou ali. Vinha fazer uma guerra de armas de repetição e
carros de bois. Chamava-se Maria da Fonte (uma das sete, dizia-se) e montou ali
o seu kilombo. Kinaxixi meu amor falou, Kinaxixi Kiami aprendeu.
Um dia, olhou para trás e virou estátua, não de sal como a mulher da outra história (de amor, salvação, caminho de luz, fogo e cadela Minerva, a que morreu de
seus próprios partos), mas estátua de mármore, mulher e todos os membros do
kilombo mais as armas e peças de artilharia, tornados pedras no meio do
Kinaxixi, que é como quem diz no meio dos nossos corações e da cidade. Alguns
anos mais tarde, trezentas cargas de nitroglicerina transformaram o kilombo em
pedaços de pedra muito pequeninos. No chão nasceu erva de arranca pedras e chá,
outras histórias para contar.

Ana Paula Tavares, extracto
de "Kinaxixi, meu amor", in A Cabeça de Salomé - Editorial Nzila,
Luanda, 2004


...e o "Kilombo" da Nzinga Mbandi


Onde nao houve cargas de nitroglicerina - bastaram os pedacos de pedra muito pequeninos para fazerem a estatua virar sal de "mbakar" uteros e chao: nem partos de cadelas, nem gemidos de carros de bois (as armas de repeticao, essas ja' haviam sido caladas pela 'Maria do Blindado'); nem erva de arranca pedras, nem cha'... so' o vacuo, o nada e outras historias do meio do nosso coracao e da cidade para nao contar - Kinaxixi Kiami.
[Mas o olho d'agua da Kianda, esse continua la'...]


Obs.: Soube pelo amigo Augusto Nascimento, que a ela assistiu, da defesa de tese de doutoramento, no inicio desta semana em Lisboa, da Paula Tavares (de quem, ha' alguns meses, depois de muitos anos sem qualquer contacto, recebi uma bonita mensagem entitulada "Amizade", a que se seguiu uma interessante mutua "redescoberta": sobre este blog, nossas vidas, paradeiros, anseios, filhos, futuros...) - para ela os meus sinceros parabens!

Tuesday, 12 January 2010

Celebrando o Legado de Alioune Diop

SIMPÓSIO INTERNACIONAL
Alioune Diop, o homem e a obra frente aos desafios contemporâneos


A celebração do centenário do nascimento de Alioune Diop, feliz coincidência, é também o quinquagésimo aniversário da independência de muitos países africanos. A Comunidade Africana da Cultura tomou a iniciativa de convidar intelectuais, mulheres e homens da cultura para um simpósio internacional sobre o tema: Alioune Diop, o homem e a obra frente aos desafios contemporâneos.

Através de uma pergunta muito aberta, o simpósio irá analisar as múltiplas dimensões do trabalho de um humanista e universalista original, um homem de diálogo, um homem comprometido e pragmático, um africano amante da liberdade que rejeitava qualquer forma de racismo. Alioune Diop era tudo isso ao mesmo tempo: um homem do seu tempo, que resumiu o significado do seu compromisso na aventura editorial da Présence Africaine: "Todos os artigos serão publicados, desde que respeitem as normas exigidas, que façam referência à África, que não traiam o nosso compromisso anti-racista, anti-colonial, nem a solidariedade com os povos colonizados." Primeiro africano a executar rigorosamente o trabalho de editor, ele gerara a eclosão de talentos que, sem a sua firmeza, teriam sido provavelmente sufocados pela implacável máquina ideológica e repressiva introduzida pelo sistema colonial.


Assim, na África e nas suas diásporas, uma produção literária e científica de qualidade pôde afirmar-se em contextos diversos e variáveis, marcados por desafios múltiplos. É por isso que, após cinquenta anos de independência, é importante reexaminar o trabalho da Presence Africaine para tirar ensinamentos para o futuro.
O centenário do nascimento do fundador da revista Présence Africaine, este instrumento único para a produção dos intelectuais da África e das suas diásporas, forjada por um homem cuja vida foi um modelo de eficiência e generosidade na promoção do seu ideal, dá-nos a oportunidade durável de reflectir sobre a atualidade da sua luta. Trata-se de uma trajectória invulgar para reler o passado, pensar o presente e imaginar um futuro.

[Mais detalhes Aqui]

Posts Relacionados:


Aime' Cesaire

Joseph Ki-Zerbo: A Quand L'Afrique

SIMPÓSIO INTERNACIONAL
Alioune Diop, o homem e a obra frente aos desafios contemporâneos


A celebração do centenário do nascimento de Alioune Diop, feliz coincidência, é também o quinquagésimo aniversário da independência de muitos países africanos. A Comunidade Africana da Cultura tomou a iniciativa de convidar intelectuais, mulheres e homens da cultura para um simpósio internacional sobre o tema: Alioune Diop, o homem e a obra frente aos desafios contemporâneos.

Através de uma pergunta muito aberta, o simpósio irá analisar as múltiplas dimensões do trabalho de um humanista e universalista original, um homem de diálogo, um homem comprometido e pragmático, um africano amante da liberdade que rejeitava qualquer forma de racismo. Alioune Diop era tudo isso ao mesmo tempo: um homem do seu tempo, que resumiu o significado do seu compromisso na aventura editorial da Présence Africaine: "Todos os artigos serão publicados, desde que respeitem as normas exigidas, que façam referência à África, que não traiam o nosso compromisso anti-racista, anti-colonial, nem a solidariedade com os povos colonizados." Primeiro africano a executar rigorosamente o trabalho de editor, ele gerara a eclosão de talentos que, sem a sua firmeza, teriam sido provavelmente sufocados pela implacável máquina ideológica e repressiva introduzida pelo sistema colonial.


Assim, na África e nas suas diásporas, uma produção literária e científica de qualidade pôde afirmar-se em contextos diversos e variáveis, marcados por desafios múltiplos. É por isso que, após cinquenta anos de independência, é importante reexaminar o trabalho da Presence Africaine para tirar ensinamentos para o futuro.
O centenário do nascimento do fundador da revista Présence Africaine, este instrumento único para a produção dos intelectuais da África e das suas diásporas, forjada por um homem cuja vida foi um modelo de eficiência e generosidade na promoção do seu ideal, dá-nos a oportunidade durável de reflectir sobre a atualidade da sua luta. Trata-se de uma trajectória invulgar para reler o passado, pensar o presente e imaginar um futuro.

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Thursday, 7 May 2009

ANGOLA/PORTUGAL: IDENTIDADES COLONIAIS EQUIVOCADAS

Assim se entitula o ultimo livro do escritor angolano Arlindo Barbeitos, recentemente editado em Paris pela L'Harmattan e sub-entitulado Historicidade das representacoes do eu e do outro.

Na sua contracapa pode ler-se
(minha traducao livre):

As relacoes entre os dois povos sao forjadas pela Escravatura, a Colonizacao e a guerra de Independencia, mas tambem pela Guerra civil angolana que se lhe seguiu, assim como pelas ideologias a elas subjacentes. Apesar das assimetrias caracteristicas deste processo multi-secular, no final, essas relacoes assemelham-se a um sistema de vasos comunicantes onde, neste caso preciso, dominadores e dominados se influenciam reciprocamente e em todos os dominios desde o seu primeiro contacto registado no seculo XVI. “A relacao com o outro e’ inscrita virtualmente na relacao consigo mesmo”, escreveu o sociologo Edgar Morin.

Mais detalhes aqui.
Assim se entitula o ultimo livro do escritor angolano Arlindo Barbeitos, recentemente editado em Paris pela L'Harmattan e sub-entitulado Historicidade das representacoes do eu e do outro.

Na sua contracapa pode ler-se
(minha traducao livre):

As relacoes entre os dois povos sao forjadas pela Escravatura, a Colonizacao e a guerra de Independencia, mas tambem pela Guerra civil angolana que se lhe seguiu, assim como pelas ideologias a elas subjacentes. Apesar das assimetrias caracteristicas deste processo multi-secular, no final, essas relacoes assemelham-se a um sistema de vasos comunicantes onde, neste caso preciso, dominadores e dominados se influenciam reciprocamente e em todos os dominios desde o seu primeiro contacto registado no seculo XVI. “A relacao com o outro e’ inscrita virtualmente na relacao consigo mesmo”, escreveu o sociologo Edgar Morin.

Mais detalhes aqui.

Sunday, 3 May 2009

REVISITANDO TARRAFAL DE SANTIAGO

PRIMEIRA ENTREVISTA DE LUANDINO VIEIRA SOBRE O TARRAFAL

(Ao jornal portugues "Publico")


“Os anos de cadeia foram muito bons para mim”


No Tarrafal, Luandino Vieira escreveu sobre o que tinha vivido antes. Agora vai escrever sobre o que aprendeu no Tarrafal. Será “uma história de Angola”.

Trinta e cinco anos depois de fechar como campo de presos políticos — a 1 de Maio de 1974 —, o Tarrafal ainda pode ser uma terra arável na cabeça dos homens que lá não perderam a vida. Portugal foi isto, fez isto, há sobreviventes e muito está por contar. Luandino não costuma fazê-lo.

Aceitou esta entrevista — feita segunda-feira, ao longo de uma manhã, no Grémio Literário, em Lisboa — antes de ir apanhar o avião para Cabo Verde, onde hoje está, com antigos camaradas de presídio, no simpósio sobre o Tarrafal que decorreu desde terça. Já de Cabo Verde, disse que terá ainda coisas a acrescentar sobre o Tarrafal, em sequência a esta entrevista.

Nascido português em Lagoa de Furadouro, Ourém, a 4 de Maio de 1935, José Vieira Mateus da Graça fez-se angolano “pela sua participação no movimento de libertação nacional” de Angola, diz sempre a badana dos seus livros. Foi preso antes da guerra colonial, em 1959. Voltou a ser preso, e condenado a 14 anos de prisão, por “actividades subversivas contra a segurança externa do Estado”, em 1961. Com dois camaradas poetas, António Jacinto e António Cardoso, andou de cadeia em cadeia, em Angola. Em 1964 foram transferidos para o Tarrafal, de onde Luandino saiu em liberdade condicional em 1972.

[Continue lendo aqui]

***

Leia tambem aqui, declaracoes do Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, durante o encerramento do Simposio Internacional Sobre o Campo de Concentracao do Tarrafal.
PRIMEIRA ENTREVISTA DE LUANDINO VIEIRA SOBRE O TARRAFAL

(Ao jornal portugues "Publico")


“Os anos de cadeia foram muito bons para mim”


No Tarrafal, Luandino Vieira escreveu sobre o que tinha vivido antes. Agora vai escrever sobre o que aprendeu no Tarrafal. Será “uma história de Angola”.

Trinta e cinco anos depois de fechar como campo de presos políticos — a 1 de Maio de 1974 —, o Tarrafal ainda pode ser uma terra arável na cabeça dos homens que lá não perderam a vida. Portugal foi isto, fez isto, há sobreviventes e muito está por contar. Luandino não costuma fazê-lo.

Aceitou esta entrevista — feita segunda-feira, ao longo de uma manhã, no Grémio Literário, em Lisboa — antes de ir apanhar o avião para Cabo Verde, onde hoje está, com antigos camaradas de presídio, no simpósio sobre o Tarrafal que decorreu desde terça. Já de Cabo Verde, disse que terá ainda coisas a acrescentar sobre o Tarrafal, em sequência a esta entrevista.

Nascido português em Lagoa de Furadouro, Ourém, a 4 de Maio de 1935, José Vieira Mateus da Graça fez-se angolano “pela sua participação no movimento de libertação nacional” de Angola, diz sempre a badana dos seus livros. Foi preso antes da guerra colonial, em 1959. Voltou a ser preso, e condenado a 14 anos de prisão, por “actividades subversivas contra a segurança externa do Estado”, em 1961. Com dois camaradas poetas, António Jacinto e António Cardoso, andou de cadeia em cadeia, em Angola. Em 1964 foram transferidos para o Tarrafal, de onde Luandino saiu em liberdade condicional em 1972.

[Continue lendo aqui]

***

Leia tambem aqui, declaracoes do Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, durante o encerramento do Simposio Internacional Sobre o Campo de Concentracao do Tarrafal.

Wednesday, 26 November 2008

FALECEU MICHEL LABAN

Com a devida venia e autorizacao da autora, transcrevo aqui uma homenagem a Michel Laban, falecido ontem em Paris:

Ilustre Professor e Investigador das Literaturas africanas de língua portuguesa tem-lhes dedicado desde os anos 70 do século passado grande parte do seu tempo, da sua pesquisa, da sua vida.
Deixou-nos uma ampla obra, só em parte publicada, dada a sua enorme modéstia.
Recordo-vos apenas os "Encontros com Escritores" de Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo-Verde e Guiné-Bissau...autênticos monumentos de História oral, imprescindíveis para se conhecer a intelectualidade destes países e a época que os produziu. Um dicionário imenso de regionalismos e de neologismos de cada um dos escritores estudados, estava em permanente progresso. Era grande preocupação do Michel poder terminar este trabalho.
Tradutor exímio e exigente de grandes escritores da língua portuguesa, colocava o seu conhecimento, o da Zé (sua esposa, falante de português) e da sua velha mãe (falante de francês) ao serviço desta exigência, conseguindo que as suas traduções fossem tão belas quanto os livros traduzidos, por mais difíceis e herméticos que eles fossem.

Perdemos um grande investigador, um professor companheiro, um camarada de ideias e um grande Amigo para os que tiveram a felicidade de com ele privar.

Luisa d'Almeida
Historiadora Angolana
Com a devida venia e autorizacao da autora, transcrevo aqui uma homenagem a Michel Laban, falecido ontem em Paris:

Ilustre Professor e Investigador das Literaturas africanas de língua portuguesa tem-lhes dedicado desde os anos 70 do século passado grande parte do seu tempo, da sua pesquisa, da sua vida.
Deixou-nos uma ampla obra, só em parte publicada, dada a sua enorme modéstia.
Recordo-vos apenas os "Encontros com Escritores" de Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Cabo-Verde e Guiné-Bissau...autênticos monumentos de História oral, imprescindíveis para se conhecer a intelectualidade destes países e a época que os produziu. Um dicionário imenso de regionalismos e de neologismos de cada um dos escritores estudados, estava em permanente progresso. Era grande preocupação do Michel poder terminar este trabalho.
Tradutor exímio e exigente de grandes escritores da língua portuguesa, colocava o seu conhecimento, o da Zé (sua esposa, falante de português) e da sua velha mãe (falante de francês) ao serviço desta exigência, conseguindo que as suas traduções fossem tão belas quanto os livros traduzidos, por mais difíceis e herméticos que eles fossem.

Perdemos um grande investigador, um professor companheiro, um camarada de ideias e um grande Amigo para os que tiveram a felicidade de com ele privar.

Luisa d'Almeida
Historiadora Angolana

Sunday, 5 October 2008

MEMORIA DE UM 'TRUMUNU LITERARIO'





Deambulando pelos arquivos do meu computador, se dei de caras com essa foto ai...

Pensei duas vezes antes de a postar aqui, mas conclui: porque nao? Afinal e' um 'documento historico' digno de nota: algures entre o fim da decada de 70 e o inicio da de 80, duas equipas de futebol (se houve mesmo trumunu e quem ganhou nao sei...), uma pela Brigada Jovem de Literatura (BJL) e outra pela Uniao dos Escritores Angolanos (UEA)!

Portanto, ai fica. Foi-me 'passada', ha' uns tempos, pelo Buca Boavida (esse que foi fundador da BJL de Luanda e o inaugurador da "geracao literaria de 80" com o seu livro de poemas "A Essa Juventude").

Dentre os que consigo reconhecer:

Pela UEA: o Mais Velho Raul David, Luandino Vieira, Manuel Rui, Pepetela, Henrique Guerra, Antonio Cardoso, Ndunduma, Carlos Pimentel

Pela BJL: árbitro, Casse', Buca, Sao Vicente, Gastão Rebelo, Luis Rita, Luis Kandjimbo, António Fonseca.

Nos tempos...


P.S.: Uma 'alma caridosa' ajudou-me com os nomes de que nao me lembrava. A eles as minhas desculpas. Mas, honestamente, eu estive quase, quase a nomear o Kandjimbo, mas nao conseguia ter a certeza (talvez porque lhe faltassem os oculos...) e o Henrique Guerra (deste nao tinha duvidas, quanto mais nao seja pela sua obra de referencia sobre a Economia e Sociedade Angolana, mas realmente bem que procurei o nome mentalmente, mas nao conseguia encontrar).






Deambulando pelos arquivos do meu computador, se dei de caras com essa foto ai...

Pensei duas vezes antes de a postar aqui, mas conclui: porque nao? Afinal e' um 'documento historico' digno de nota: algures entre o fim da decada de 70 e o inicio da de 80, duas equipas de futebol (se houve mesmo trumunu e quem ganhou nao sei...), uma pela Brigada Jovem de Literatura (BJL) e outra pela Uniao dos Escritores Angolanos (UEA)!

Portanto, ai fica. Foi-me 'passada', ha' uns tempos, pelo Buca Boavida (esse que foi fundador da BJL de Luanda e o inaugurador da "geracao literaria de 80" com o seu livro de poemas "A Essa Juventude").

Dentre os que consigo reconhecer:

Pela UEA: o Mais Velho Raul David, Luandino Vieira, Manuel Rui, Pepetela, Henrique Guerra, Antonio Cardoso, Ndunduma, Carlos Pimentel

Pela BJL: árbitro, Casse', Buca, Sao Vicente, Gastão Rebelo, Luis Rita, Luis Kandjimbo, António Fonseca.

Nos tempos...


P.S.: Uma 'alma caridosa' ajudou-me com os nomes de que nao me lembrava. A eles as minhas desculpas. Mas, honestamente, eu estive quase, quase a nomear o Kandjimbo, mas nao conseguia ter a certeza (talvez porque lhe faltassem os oculos...) e o Henrique Guerra (deste nao tinha duvidas, quanto mais nao seja pela sua obra de referencia sobre a Economia e Sociedade Angolana, mas realmente bem que procurei o nome mentalmente, mas nao conseguia encontrar).


Friday, 25 April 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (7)


Eu nao disse que o 'kibeto' ia continuar?
Na continuacao da ja' tristemente celebre Maka de 1 Jose' contra 3 Antonios, este fim de semana poderao encontrar no SA duas replicas 'a ultima replica de Agualusa...


Luis Kandjimbo, em "A TRADIÇÃO LITERÁRIA ANGOLANA E O GRAU ZERO DA MEMÓRIA DE UM ESCRITOR":


Que motivação subjaz à exaltação dos estudos clássicos de Leopold Senghor realizados na Universidade da Sorbonne, quando se esquece que, nas décadas de 40 e 50, Agostinho Neto foi dos primeiros negros angolanos a realizar os seus estudos de Medicina nas Universidades de Coimbra e de Lisboa? Ou será porque a alusão que Senghor faz à origem portuguesa do nome e à gota de sangue português representa uma virtude luso-tropical? Vê-se logo que o suposto juízo estético sobre a poesia de Agostinho Neto resvala para um registo biografista com laivos deterministas sem relevância crítica.
(...)
Afirmar que Agostinho Neto (1922-1979) foi um político que frequentou a poesia e Senghor (1906-2001) um poeta que frequentou a política é, na verdade, um trocadilho que constitui o cúmulo da bazófia. Conhecendo bem as literaturas africanas de língua francesa e inglesa, considero que semelhantes afirmações revelam a mais desbragada irresponsabilidade do acto judicativo e hermenêutico. Por isso, tenho dúvidas que quem assim pensa, conheça verdadeiramente as trajectórias biográficas dos dois escritores mencionados.
(...)
Como compreender que (JE Agualusa) venha emitir juízos estéticos depreciativos acerca de três poetas angolanos importantes, revelando pertencer a uma tradição literária universal? Como se explica que ganhe fortuna crítica em nome da tradição literária angolana cuja existência nega com frequência, tal como fez mais recentemente numa entrevista concedida ao conhecido humorista brasileiro Jô Soares?

[Aqui]


Adriano dos Santos Junior, em "O SEU A SEU DONO":

O que não estamos de acordo é com o fundamento de Agualusa, segundo o qual Leopold Senghor tenha sido um grande poeta por ter ido beber à fonte da Grécia Antiga para além das tradições africanas, ter estudado na Sorbonne, ter tido orgulho pela sua «gota de sangue português», evocada num dos seus grandes poemas transcritos por Agualusa, e ter publicado onze livros, enquanto que Agostinho Neto não poderia ser um grande poeta porque não teria ido beber à bica da Grécia antiga, não passou pela Sorbonne e não publicou assim tantos livros. Para nós Leopold Senghor e Agostinho Neto foram grandes poetas pelas suas obras, independentemente dos santuários do saber que tenha frequentado ou visitado.
Por mais que devamos incentivar os nossos literatos a produzirem muito e terem o máximo apego à Cultura quer seja clássica ou tradicional, não nos podemos esquecer que o Poeta nasce e o Erudito faz-se. Há Poetas analfabetos e Eruditos incapazes de engendrar um poema. Por outro lado, os critérios para a classificação de escritores, poetas, contistas, romancistas, etc., não têm como factor essencial a quantidade de obras publicadas nem o número de versos ou de páginas das mesmas, mas sim a sua qualidade. Existem poetas de um poema só, contistas de um conto só e romancistas de um só romance. Embora possam ser excepções, literaturas relevantes de vários povos e em diversas épocas, registam casos em que autores de uma só obra integram as mesmas galerias que as de outros mais fecundos e com todo o merecimento.
(...)
«…Talvez se justifique aqui acrescentar, para concluir, que gosto muito de escutar os versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas. Gosto deles, como centenas de milhares de angolanos, devido à arte de Rui Mingas e também porque fazem parte do meu imaginário, e isto independentemente da sua qualidade literária…», revela Agualusa. A nosso ver, a beleza e o sucesso dos versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas, que o nosso grande escritor adora escutar, não depende apenas da intervenção do genial compositor; Agualusa atribui todo mérito a Rui Mingas porque se recusa a perceber que os poemas de Agostinho Neto, por si sós, têm uma musicalidade intrínseca, «uma melodia silenciosa», como diria o poeta João Maimona referindo-se à poesia de António Jacinto. Interagindo e complementando-se, os talentos do poeta e do cancionista produziram as maravilhas que encantam até os desafectos.

[Aqui]


“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

Eu nao disse que o 'kibeto' ia continuar?
Na continuacao da ja' tristemente celebre Maka de 1 Jose' contra 3 Antonios, este fim de semana poderao encontrar no SA duas replicas 'a ultima replica de Agualusa...


Luis Kandjimbo, em "A TRADIÇÃO LITERÁRIA ANGOLANA E O GRAU ZERO DA MEMÓRIA DE UM ESCRITOR":


Que motivação subjaz à exaltação dos estudos clássicos de Leopold Senghor realizados na Universidade da Sorbonne, quando se esquece que, nas décadas de 40 e 50, Agostinho Neto foi dos primeiros negros angolanos a realizar os seus estudos de Medicina nas Universidades de Coimbra e de Lisboa? Ou será porque a alusão que Senghor faz à origem portuguesa do nome e à gota de sangue português representa uma virtude luso-tropical? Vê-se logo que o suposto juízo estético sobre a poesia de Agostinho Neto resvala para um registo biografista com laivos deterministas sem relevância crítica.
(...)
Afirmar que Agostinho Neto (1922-1979) foi um político que frequentou a poesia e Senghor (1906-2001) um poeta que frequentou a política é, na verdade, um trocadilho que constitui o cúmulo da bazófia. Conhecendo bem as literaturas africanas de língua francesa e inglesa, considero que semelhantes afirmações revelam a mais desbragada irresponsabilidade do acto judicativo e hermenêutico. Por isso, tenho dúvidas que quem assim pensa, conheça verdadeiramente as trajectórias biográficas dos dois escritores mencionados.
(...)
Como compreender que (JE Agualusa) venha emitir juízos estéticos depreciativos acerca de três poetas angolanos importantes, revelando pertencer a uma tradição literária universal? Como se explica que ganhe fortuna crítica em nome da tradição literária angolana cuja existência nega com frequência, tal como fez mais recentemente numa entrevista concedida ao conhecido humorista brasileiro Jô Soares?

[Aqui]


Adriano dos Santos Junior, em "O SEU A SEU DONO":

O que não estamos de acordo é com o fundamento de Agualusa, segundo o qual Leopold Senghor tenha sido um grande poeta por ter ido beber à fonte da Grécia Antiga para além das tradições africanas, ter estudado na Sorbonne, ter tido orgulho pela sua «gota de sangue português», evocada num dos seus grandes poemas transcritos por Agualusa, e ter publicado onze livros, enquanto que Agostinho Neto não poderia ser um grande poeta porque não teria ido beber à bica da Grécia antiga, não passou pela Sorbonne e não publicou assim tantos livros. Para nós Leopold Senghor e Agostinho Neto foram grandes poetas pelas suas obras, independentemente dos santuários do saber que tenha frequentado ou visitado.
Por mais que devamos incentivar os nossos literatos a produzirem muito e terem o máximo apego à Cultura quer seja clássica ou tradicional, não nos podemos esquecer que o Poeta nasce e o Erudito faz-se. Há Poetas analfabetos e Eruditos incapazes de engendrar um poema. Por outro lado, os critérios para a classificação de escritores, poetas, contistas, romancistas, etc., não têm como factor essencial a quantidade de obras publicadas nem o número de versos ou de páginas das mesmas, mas sim a sua qualidade. Existem poetas de um poema só, contistas de um conto só e romancistas de um só romance. Embora possam ser excepções, literaturas relevantes de vários povos e em diversas épocas, registam casos em que autores de uma só obra integram as mesmas galerias que as de outros mais fecundos e com todo o merecimento.
(...)
«…Talvez se justifique aqui acrescentar, para concluir, que gosto muito de escutar os versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas. Gosto deles, como centenas de milhares de angolanos, devido à arte de Rui Mingas e também porque fazem parte do meu imaginário, e isto independentemente da sua qualidade literária…», revela Agualusa. A nosso ver, a beleza e o sucesso dos versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas, que o nosso grande escritor adora escutar, não depende apenas da intervenção do genial compositor; Agualusa atribui todo mérito a Rui Mingas porque se recusa a perceber que os poemas de Agostinho Neto, por si sós, têm uma musicalidade intrínseca, «uma melodia silenciosa», como diria o poeta João Maimona referindo-se à poesia de António Jacinto. Interagindo e complementando-se, os talentos do poeta e do cancionista produziram as maravilhas que encantam até os desafectos.

[Aqui]


“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

Tuesday, 22 April 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (6)

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

Bom, tudo parece indicar que enquanto os apetites do aparentemente interminavel numero de replicantes as implicancias de Agualusa sobre a poesia de Neto (e de Jacinto, e de Cardoso – mas parece que a maka, chamemos-lhe a “Maka de 1 Jose' contra 3 Antonios”, tanto por parte do implicante, como dos replicantes, se restringe mesmo a poesia daquele que tera' sido eleito 'por unanimidade e aclamacao', “Poeta Maior da Nacao Angolana”…) nao estiverem completamente saciados, o ‘kibeto’ promete continuar ad-infinitum. Dos ultimos episodios, destaque vai para o que se segue:

Celso Malavoloneke despacha, do seu canto no SA, recados tanto para o implicante como para o mais inflamado dos replicantes:

RECADO I
Ao José Eduardo Agualusa, uma réplica: se por gostar desalmadamente da
poesia de Agostinho Neto não percebo rigorosamente nada de poesia, então
o senhor percebe ainda menos -se é que isso é possível - do papel essencial
da Arte e Literatura na vida dos povos

RECADO II
Ao Artur Queiroz outro recado: a poesia de Agostinho Neto não precisa de
ser defendida com linguagem de carroceiros brigando por uma picha de
cerveja barata numa taberna qualquer

RECADO III
A não ser que vocês os dois decidam fazê-lo algures em terras lusas, onde
essas baixarias parecem confundidas com democracia. Então porquê não
irem para lá e entabernarem-se, que assim deixa de ser problema nosso?
[Aqui]

Por seu lado, o implicante provocador de ‘toda a maka no museke’, para alem de uma primeira reaccao, registada aqui, disse mais de sua justica ao Novo Jornal:

Para me fazer compreender melhor, quanto ao assunto que me traz aqui, talvez seja útil comparar a obra e o trajecto de Agostinho Neto com o de outro grande nome do nacionalismo africano: Leopold Sedar Senghor. Agostinho Neto e Leopold Senghor tiveram percursos aparentemente semelhantes. Senghor foi o primeiro presidente do Senegal. Agostinho Neto foi o primeiro presidente de Angola. Ambos publicaram livros de poesia. Olhando com mais atenção, porém, começam a perceber-se as diferenças. Agostinho Neto foi um político que frequentou a poesia -por razões políticas. Senghor foi um poeta que frequentou a política - por razões poéticas.
(…)
Talvez se justifique aqui acrescentar, para concluir, que gosto muito de escutar os versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas. Gosto deles, como centenas de milhares de angolanos, devido à arte de Rui Mingas e também porque fazem parte do meu imaginário, e isto independentemente da sua qualidade literária. Quando quero ler grande poesia, então procuro outros autores. E era aqui que eu queria chegar na entrevista ao Semanário Angolense.
[Aqui]

Agora, quem, apesar de tao penosamente elaborada explicacao, continue com o apetite insaciado (eu creio ter percebido tudo, excepto uma coisa, e espero com isto nao dar mais alento a outros eventuais replicantes a espera de vez: porque que o implicante, nas suas replicas aos replicantes, continua repetidamente a referir-se ao Semanario Angolese?), talvez consiga encontrar alguma luz na ‘Teoria Geral dos Xinguilamentos’, cientificamente exposta por Mestre Paulo Mulembo no Agora:

Queremos reportar-nos ao debate que se gerou em torno da entrevista dada pelo escritor Agualusa ao Jornal Angolense, que ao exprimir numa frase a sua opinião sobre a poesia de Agostinho Neto ("Neto é um poeta medíocre"), provocou uma onda de mal estar em certos sectores, a ponto de provocar xinguilamentos ou vontades de xinguilar.
(…)
"Xingar o Kilamba faz Xinguilar", "Kidi Kidi, Kididi Kididi". O professor começa por esta bonita marcação de identidade cultural (linguística) pese embora o sincretismo da primeira expressão, onde a força da rima clássica, portanto exógena, é conseguida através da apropriação gramatical da conjugação portuguesa. Não é pecado. A interface cultural produz estes empréstimos ou apropriações em todo legitimas de ambas as partes, angolana e portuguesa. Mas é exactamente por esta primeira afirmação: Xingar o Kilamba faz Xinguilar que queremos começar, na sincera esperança de poder acalmar o xinguilamento do Professor. Elegemos esta expressão porque achamos que é sobre ela que assenta toda a estrutura profunda da reacção do Professor, objectivada no texto.
(…)
Sabemos que a FRENTE, a FpD, tem uma proposta de código de conduta social, que serviria de pauta reguladora para a coexistência saudável entre nós. Pedimos que aí seja inscrito o princípio seguinte:
"Não vale Xinguilar, quem xinguilar perde a razão".
[Aqui]

Entenderam, oh replicantes de insaciaveis apetites? Assumindo que sim, passemos entao das makas literarias as mais substantivas makas da economia. Ou, mais especificamente, as makas do piteu que esta’ cada vez mais caro a nivel global e cujos efeitos se comecam a fazer sentir de forma dramatica em varias partes do mundo (so’ para citar os casos mais mediatizados, vimos nos ultimos dias violentos confrontos no Haiti e no Egipto por nao outra razao que o aumento vertiginoso dos precos de bens alimentares basicos):

No Novo Jornal, Fernando Pacheco, equaciona a crise alimentar em termos de proposicoes concretas para uma politica agricola mais autonoma e sustentavel em Angola:

Acabada a guerra, aumentou naturalmente o interesse na produção camponesa - que erradamente continua a ser considerada de subsistência, ignorando-se que ela foi responsável pela auto suficiência alimentar de Angola em termos líquidos até 1973 - pelo papel que pode ter na redução do peso do petróleo no Produto Interno Bruto. Como durante mais de trinta anos esta questão esteve longe do centro do debate nacional - excepto quando os preços do petróleo baixaram para níveis considerados inquietantes -, não há hoje ideias claras sobre a forma de lidar com ela.
[Aqui]

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

Bom, tudo parece indicar que enquanto os apetites do aparentemente interminavel numero de replicantes as implicancias de Agualusa sobre a poesia de Neto (e de Jacinto, e de Cardoso – mas parece que a maka, chamemos-lhe a “Maka de 1 Jose' contra 3 Antonios”, tanto por parte do implicante, como dos replicantes, se restringe mesmo a poesia daquele que tera' sido eleito 'por unanimidade e aclamacao', “Poeta Maior da Nacao Angolana”…) nao estiverem completamente saciados, o ‘kibeto’ promete continuar ad-infinitum. Dos ultimos episodios, destaque vai para o que se segue:

Celso Malavoloneke despacha, do seu canto no SA, recados tanto para o implicante como para o mais inflamado dos replicantes:

RECADO I
Ao José Eduardo Agualusa, uma réplica: se por gostar desalmadamente da
poesia de Agostinho Neto não percebo rigorosamente nada de poesia, então
o senhor percebe ainda menos -se é que isso é possível - do papel essencial
da Arte e Literatura na vida dos povos

RECADO II
Ao Artur Queiroz outro recado: a poesia de Agostinho Neto não precisa de
ser defendida com linguagem de carroceiros brigando por uma picha de
cerveja barata numa taberna qualquer

RECADO III
A não ser que vocês os dois decidam fazê-lo algures em terras lusas, onde
essas baixarias parecem confundidas com democracia. Então porquê não
irem para lá e entabernarem-se, que assim deixa de ser problema nosso?
[Aqui]

Por seu lado, o implicante provocador de ‘toda a maka no museke’, para alem de uma primeira reaccao, registada aqui, disse mais de sua justica ao Novo Jornal:

Para me fazer compreender melhor, quanto ao assunto que me traz aqui, talvez seja útil comparar a obra e o trajecto de Agostinho Neto com o de outro grande nome do nacionalismo africano: Leopold Sedar Senghor. Agostinho Neto e Leopold Senghor tiveram percursos aparentemente semelhantes. Senghor foi o primeiro presidente do Senegal. Agostinho Neto foi o primeiro presidente de Angola. Ambos publicaram livros de poesia. Olhando com mais atenção, porém, começam a perceber-se as diferenças. Agostinho Neto foi um político que frequentou a poesia -por razões políticas. Senghor foi um poeta que frequentou a política - por razões poéticas.
(…)
Talvez se justifique aqui acrescentar, para concluir, que gosto muito de escutar os versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas. Gosto deles, como centenas de milhares de angolanos, devido à arte de Rui Mingas e também porque fazem parte do meu imaginário, e isto independentemente da sua qualidade literária. Quando quero ler grande poesia, então procuro outros autores. E era aqui que eu queria chegar na entrevista ao Semanário Angolense.
[Aqui]

Agora, quem, apesar de tao penosamente elaborada explicacao, continue com o apetite insaciado (eu creio ter percebido tudo, excepto uma coisa, e espero com isto nao dar mais alento a outros eventuais replicantes a espera de vez: porque que o implicante, nas suas replicas aos replicantes, continua repetidamente a referir-se ao Semanario Angolese?), talvez consiga encontrar alguma luz na ‘Teoria Geral dos Xinguilamentos’, cientificamente exposta por Mestre Paulo Mulembo no Agora:

Queremos reportar-nos ao debate que se gerou em torno da entrevista dada pelo escritor Agualusa ao Jornal Angolense, que ao exprimir numa frase a sua opinião sobre a poesia de Agostinho Neto ("Neto é um poeta medíocre"), provocou uma onda de mal estar em certos sectores, a ponto de provocar xinguilamentos ou vontades de xinguilar.
(…)
"Xingar o Kilamba faz Xinguilar", "Kidi Kidi, Kididi Kididi". O professor começa por esta bonita marcação de identidade cultural (linguística) pese embora o sincretismo da primeira expressão, onde a força da rima clássica, portanto exógena, é conseguida através da apropriação gramatical da conjugação portuguesa. Não é pecado. A interface cultural produz estes empréstimos ou apropriações em todo legitimas de ambas as partes, angolana e portuguesa. Mas é exactamente por esta primeira afirmação: Xingar o Kilamba faz Xinguilar que queremos começar, na sincera esperança de poder acalmar o xinguilamento do Professor. Elegemos esta expressão porque achamos que é sobre ela que assenta toda a estrutura profunda da reacção do Professor, objectivada no texto.
(…)
Sabemos que a FRENTE, a FpD, tem uma proposta de código de conduta social, que serviria de pauta reguladora para a coexistência saudável entre nós. Pedimos que aí seja inscrito o princípio seguinte:
"Não vale Xinguilar, quem xinguilar perde a razão".
[Aqui]

Entenderam, oh replicantes de insaciaveis apetites? Assumindo que sim, passemos entao das makas literarias as mais substantivas makas da economia. Ou, mais especificamente, as makas do piteu que esta’ cada vez mais caro a nivel global e cujos efeitos se comecam a fazer sentir de forma dramatica em varias partes do mundo (so’ para citar os casos mais mediatizados, vimos nos ultimos dias violentos confrontos no Haiti e no Egipto por nao outra razao que o aumento vertiginoso dos precos de bens alimentares basicos):

No Novo Jornal, Fernando Pacheco, equaciona a crise alimentar em termos de proposicoes concretas para uma politica agricola mais autonoma e sustentavel em Angola:

Acabada a guerra, aumentou naturalmente o interesse na produção camponesa - que erradamente continua a ser considerada de subsistência, ignorando-se que ela foi responsável pela auto suficiência alimentar de Angola em termos líquidos até 1973 - pelo papel que pode ter na redução do peso do petróleo no Produto Interno Bruto. Como durante mais de trinta anos esta questão esteve longe do centro do debate nacional - excepto quando os preços do petróleo baixaram para níveis considerados inquietantes -, não há hoje ideias claras sobre a forma de lidar com ela.
[Aqui]

Thursday, 17 April 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (5)

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

Numa longa entrevista ao jornal A Capital, o director do Semanario Angolense (SA), Graca Campos, disserta sobre a actual panaramica da imprensa privada em Angola:


[Aqui]


No Jornal Angolense, Wilson Dada (Reginaldo Silva), conduz-nos pelos intersticios da pre-campanha eleitoral ja' iniciada:

“Depois do que aconteceu com as passeatas e meetings (comícios/ bebidos/maratonas) organizados pelo MPLA no último fim-desemana um pouco por todo o país, generosamente amplificados e ampliados pela sempre fiel comunicação social estatal, pode-se dizer que oficialmente teve inicio a pré-campanha eleitoral, embora a lei eleitoral não preveja nenhum período com esta designação.”


O kulunista partilha tambem algumas recebidas 'licoes de jornalismo' com os seus leitores:

“O reino da objectividade é a informação, a notícia, a cobertura, a reportagem, a análise, assim como o reino da tomada de posição era a opinião, o comentário, o artigo, o editorial. E fundamental separar e distinguir informação de opinião, indicar as diferenças de conteúdo e forma dos géneros jornalísticos, e apresentar toda a produção jornalística ao leitor/telespectador de forma a que ele perceba imediatamente o que é a exposição da realidade e o que é o juízo de valor". [Aqui]

No SA, o linguista e tradutor Adérito Miranda introduz-nos o “Segmento Mba como música”, na sua serie sobre “Linguística Bantu a partir do Kimbundu”:

"Conhecemos o segmento Mba com dois significados, sendo um no reino animal (pessoas, animais, população), que já foi aqui tratado abundantemente, e outro na música, como se pode ver nos vocábulos acima referenciados. Na música, o Mba representa ou reproduz fonologicamente uma batida no tambor ou em qualquer outro instrumento de percussão. Façamos então uma breve análise sobre aqueles casos." [Aqui]

Ainda no SA, Luis Kandjimbo apresenta uma recensao critica da obra de Arnaldo Santos, detendo-se particularmente no seu romance “A Casa Velha das Margens”:

“O autor do romance em apreço é natural de Luanda, onde nasceu em 1935. Fez os estudos primários e secundários em Luanda. Na década de 50, integrou o chamado «grupo da Cultura». Colaborou em várias publicações periódicas luandenses, entre as quais a revista Cultura, o Jornal de Angola (da década de 60), Abc e Mensagem da Casa dos Estudantes do Império. É membro fundador da União dos Escritores Angolanos (Uea). Passou a infância e a adolescência no bairro do Kinaxixi, topónimo que ocupa um lugar privilegiado na sua produção narrativa. Aos vinte anos de idade, publicou a sua primeira colectânea de contos, intitulada Quinaxixi. Com o livro de crónicas Tempo do Munhungo, arrebatou em 1968 o Prémio Mota Veiga, um dos poucos existentes em Luanda, nas décadas de 60 e 70.

Preciosista na depuração do texto narrativo curto e avaro da economia dos seus elementos, Arnaldo Santos submete a língua portuguesa a um singular tratamento articulando formas de expressão resultantes de modelos de comunicação angolanos a correspondentes formas de conteúdo. No dizer de Jorge Macedo, ele usa «lexias-kimbundo no interior de um português de luzidia correcção». Devido a esse labor oficinal, a sua obra narrativa não conheceu variações até à década de 90, gravitando em torno da forma breve do texto narrativo, entre o conto (Kinaxixi) e a crónica (Tempo do Munhungo). O seu romance que anuncia um outro fôlego, A Boneca de Quilengues, é publicado em 1991. No panorama da ficção narrativa angolana, é uma referência incontornável.” [Aqui]
“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

Numa longa entrevista ao jornal A Capital, o director do Semanario Angolense (SA), Graca Campos, disserta sobre a actual panaramica da imprensa privada em Angola:


[Aqui]


No Jornal Angolense, Wilson Dada (Reginaldo Silva), conduz-nos pelos intersticios da pre-campanha eleitoral ja' iniciada:

“Depois do que aconteceu com as passeatas e meetings (comícios/ bebidos/maratonas) organizados pelo MPLA no último fim-desemana um pouco por todo o país, generosamente amplificados e ampliados pela sempre fiel comunicação social estatal, pode-se dizer que oficialmente teve inicio a pré-campanha eleitoral, embora a lei eleitoral não preveja nenhum período com esta designação.”


O kulunista partilha tambem algumas recebidas 'licoes de jornalismo' com os seus leitores:

“O reino da objectividade é a informação, a notícia, a cobertura, a reportagem, a análise, assim como o reino da tomada de posição era a opinião, o comentário, o artigo, o editorial. E fundamental separar e distinguir informação de opinião, indicar as diferenças de conteúdo e forma dos géneros jornalísticos, e apresentar toda a produção jornalística ao leitor/telespectador de forma a que ele perceba imediatamente o que é a exposição da realidade e o que é o juízo de valor". [Aqui]

No SA, o linguista e tradutor Adérito Miranda introduz-nos o “Segmento Mba como música”, na sua serie sobre “Linguística Bantu a partir do Kimbundu”:

"Conhecemos o segmento Mba com dois significados, sendo um no reino animal (pessoas, animais, população), que já foi aqui tratado abundantemente, e outro na música, como se pode ver nos vocábulos acima referenciados. Na música, o Mba representa ou reproduz fonologicamente uma batida no tambor ou em qualquer outro instrumento de percussão. Façamos então uma breve análise sobre aqueles casos." [Aqui]

Ainda no SA, Luis Kandjimbo apresenta uma recensao critica da obra de Arnaldo Santos, detendo-se particularmente no seu romance “A Casa Velha das Margens”:

“O autor do romance em apreço é natural de Luanda, onde nasceu em 1935. Fez os estudos primários e secundários em Luanda. Na década de 50, integrou o chamado «grupo da Cultura». Colaborou em várias publicações periódicas luandenses, entre as quais a revista Cultura, o Jornal de Angola (da década de 60), Abc e Mensagem da Casa dos Estudantes do Império. É membro fundador da União dos Escritores Angolanos (Uea). Passou a infância e a adolescência no bairro do Kinaxixi, topónimo que ocupa um lugar privilegiado na sua produção narrativa. Aos vinte anos de idade, publicou a sua primeira colectânea de contos, intitulada Quinaxixi. Com o livro de crónicas Tempo do Munhungo, arrebatou em 1968 o Prémio Mota Veiga, um dos poucos existentes em Luanda, nas décadas de 60 e 70.

Preciosista na depuração do texto narrativo curto e avaro da economia dos seus elementos, Arnaldo Santos submete a língua portuguesa a um singular tratamento articulando formas de expressão resultantes de modelos de comunicação angolanos a correspondentes formas de conteúdo. No dizer de Jorge Macedo, ele usa «lexias-kimbundo no interior de um português de luzidia correcção». Devido a esse labor oficinal, a sua obra narrativa não conheceu variações até à década de 90, gravitando em torno da forma breve do texto narrativo, entre o conto (Kinaxixi) e a crónica (Tempo do Munhungo). O seu romance que anuncia um outro fôlego, A Boneca de Quilengues, é publicado em 1991. No panorama da ficção narrativa angolana, é uma referência incontornável.” [Aqui]

Monday, 7 April 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (4)

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre


Com algum atraso, mas ainda em tempo util, a resposta de Jose' Eduardo Agualusa as reaccoes as suas afirmacoes, publicada a 28/03/08 no A Capital:

'GOSTO UNICO'

"Não posso dizer que tenha ficado surpreendido com algumas das reacções a uma entrevista que concedi recentemente ao Semanário Angolense. Atravessamos um tempo um pouco estranho, de transição de um regime de pensamento único para aquilo que, espero, venha a ser uma verdadeira democracia. O que diferencia uma ditadura de uma democracia é a pluralidade de ideias e de opiniões sobre qualquer assunto, e a forma como essas ideias são recebidas não apenas pelos governantes, mas pela generalidade da população.Os ditadores esforçam-se por estabelecer primeiro uma determinada ideologia política, mas raramente se detêm aqui – tentam a seguir impor a toda a gente os seus próprios gostos sobre música, literatura, artes plásticas, desporto, sexo, ou mesmo moda."

[Aqui]

***
O post-mortem do desabamento do edificio da DNIC dominou as headlines

no Semanario Angolense:


[Aqui e Aqui]

e no Angolense:


[Aqui]


“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre


Com algum atraso, mas ainda em tempo util, a resposta de Jose' Eduardo Agualusa as reaccoes as suas afirmacoes, publicada a 28/03/08 no A Capital:

'GOSTO UNICO'

"Não posso dizer que tenha ficado surpreendido com algumas das reacções a uma entrevista que concedi recentemente ao Semanário Angolense. Atravessamos um tempo um pouco estranho, de transição de um regime de pensamento único para aquilo que, espero, venha a ser uma verdadeira democracia. O que diferencia uma ditadura de uma democracia é a pluralidade de ideias e de opiniões sobre qualquer assunto, e a forma como essas ideias são recebidas não apenas pelos governantes, mas pela generalidade da população.Os ditadores esforçam-se por estabelecer primeiro uma determinada ideologia política, mas raramente se detêm aqui – tentam a seguir impor a toda a gente os seus próprios gostos sobre música, literatura, artes plásticas, desporto, sexo, ou mesmo moda."

[Aqui]

***
O post-mortem do desabamento do edificio da DNIC dominou as headlines

no Semanario Angolense:


[Aqui e Aqui]

e no Angolense:


[Aqui]


Wednesday, 2 April 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA - 3

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”


Manuel Alegre

***


A polemica sobre os supostamente “poetas mediocres” continuou e dos varios artigos de opiniao que sobre ela recebi, destaco os que se seguem.


Wilson Dada, introdu-la assim na sua Kuluna semanal:

“O ambiente começa a ficar escaldante. O ambiente já é de facto de pré-campanha eleitoral. Cruzam-se as entrevistas. Chocam-se os colunistas. Trocam-se os galhardetes. Ninguém quer levar desaforos para casa, pois todos já temos problemas domésticos mais do que suficientes para acrescentarmos mais um. Estamos no território livre da opinião para todos os gostos e feitios em nome do direito à diferença que é fundamental, que é constitucional. A liberdade de expressão. A liberdade de crítica política, social, cultural, religiosa e desportiva, sem a qual a democracia não faz qualquer sentido. Todas estas liberdades manifestam-se, como sempre, no grande berço da humanidade que é a acolhedora liberdade de imprensa, sem a qual o debate público indispensável ao projecto democrático não seria possível.”

***

Laurindo Vieira expressa a sua opiniao no Jornal de Angola:

“Julgo que a comparação entre Agostinho Neto com outros poetas, feita por Agualusa e retomada por Sousa Jamba é patológica. Patológica porque toda a comparação que visa denegrir uns e valorizar outros não é comparação. A comparação deve resultar de uma perspectiva diferencial, ou seja, compreender o que cada um tem de diferente em relação ao outro e de que forma estas diferenças podem ser construtoras de sentidos epistemológicos ou de outra natureza. Gosto da poesia de Agostinho Neto, de Viriato da Cruz, tal como gosto da poesia de Manuel Alegre. São todas poesias lindas, mas diferentes, porque se os sonhos são diferentes, por que razão Agostinho Neto há-de ser igual a Philipp Larkin, Ted Hughes ou José Craveirinha?”

***

Luis Kandjimbo, no Semanario Angolense (SA), insere o debate num quadro analitico mais alargado:

“O debate sobre o cânone literário em Angola emerge pela primeira vez e ganha visibilidade pública a partir de 1997, por ocasião do Encontro Internacional sobre Literatura Angolana, realizado em Luanda, quando perante os argumentos de Pires Laranjeira, que identificava a coexistência em Angola de duas lutas por um novo cânone, rotulando-me como «fundamentalista negro» devido à minha leitura fundamentada do romance Yaka de Pepetela – no qual o autor esvazia o valor de determinada categoria de personagens referenciais – apresentei uma comunicação denunciando a existência de uma ideologia oculta na «escola de estudos literários africanos em Portugal» que faz a apologia da crioulidade e de um cânone literário de «escritores mestiços» de que dependeria o prestígio da Literatura Angolana.
(…)
No entanto, Angola não se assemelha em nada àquilo a que os luso-tropicalistas consideravam como sendo «o mundo que o português criou» de que resultariam as sobreditas «ilhas crioulas». De resto, estas não existem em Angola. As polémicas desencadeadas em torno da selecção de obras constitutivas de um conjunto a que se deu o nome de «Biblioteca da Literatura Angolana» e acerca da apreciação estética da obra poética de Agostinho Neto, António Jacinto e António Cardoso traduzem bem a existência de conflitualidade de teorias, estéticas e interpretações, revelando uma certa geopolítica do conhecimento, o lugar a partir do qual cada um produz o seu discurso.”


***

O Secretario Geral da UEA, Botelho de Vasconcelos, tambem disse de sua justica em entrevista ao SA:

"Quero deixar claro que não sou apologista de uma certa crítica publicada em certos órgãos que usaram expressões nada polidas e até sugeriam que por causa dessas declarações todos nós, principalmente o João Melo e o Mena Abrantes, o considerássemos como um «homem» sarnento. Mesmo nos actos mais graves da nossa vida social, os laços de amizade devem sempre fazer florir os gestos de solidariedade, porque é nos momentos «infelizes» que devemos contar com os ombros do próximo. Num dos textos deixaram passar respostas que utilizaram a maledicência para atingirem com pedras o confrade. Por essa via viciada, teríamos que usar mais pedras porque alguns confrades gostam desse exercício de escárnio e de falta de rigor e ética quando escrevem ou comentam os títulos dos seus confrades cujas obras sempre concorrerão para o enriquecimento da nossa literatura."

***

Para fechar com chave de ouro, tambem no SA, uma noticia ainda no dominio da cultura/literatura, um tanto agridoce pelo que evoca de saudades do Tio Aires, mas mais bonita que as anteriores, como ele certamente gostaria:

"A anciã Esperança Lima Coelho, a «Panchita», como é chamada por todos, que se diz ter sido a «musa» que, ao seu tempo, inspirou o poeta Aires de Almeida Santos a escrever o seu célebre poema «Meu Amor da Rua 11», faz 80 anos na próxima terça-feira, 25, sendo por isso alvo de uma homenagem da sociedade benguelense, onde é bem-querida, pela comemoração da data."
“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”


Manuel Alegre

***


A polemica sobre os supostamente “poetas mediocres” continuou e dos varios artigos de opiniao que sobre ela recebi, destaco os que se seguem.


Wilson Dada, introdu-la assim na sua Kuluna semanal:

“O ambiente começa a ficar escaldante. O ambiente já é de facto de pré-campanha eleitoral. Cruzam-se as entrevistas. Chocam-se os colunistas. Trocam-se os galhardetes. Ninguém quer levar desaforos para casa, pois todos já temos problemas domésticos mais do que suficientes para acrescentarmos mais um. Estamos no território livre da opinião para todos os gostos e feitios em nome do direito à diferença que é fundamental, que é constitucional. A liberdade de expressão. A liberdade de crítica política, social, cultural, religiosa e desportiva, sem a qual a democracia não faz qualquer sentido. Todas estas liberdades manifestam-se, como sempre, no grande berço da humanidade que é a acolhedora liberdade de imprensa, sem a qual o debate público indispensável ao projecto democrático não seria possível.”

***

Laurindo Vieira expressa a sua opiniao no Jornal de Angola:

“Julgo que a comparação entre Agostinho Neto com outros poetas, feita por Agualusa e retomada por Sousa Jamba é patológica. Patológica porque toda a comparação que visa denegrir uns e valorizar outros não é comparação. A comparação deve resultar de uma perspectiva diferencial, ou seja, compreender o que cada um tem de diferente em relação ao outro e de que forma estas diferenças podem ser construtoras de sentidos epistemológicos ou de outra natureza. Gosto da poesia de Agostinho Neto, de Viriato da Cruz, tal como gosto da poesia de Manuel Alegre. São todas poesias lindas, mas diferentes, porque se os sonhos são diferentes, por que razão Agostinho Neto há-de ser igual a Philipp Larkin, Ted Hughes ou José Craveirinha?”

***

Luis Kandjimbo, no Semanario Angolense (SA), insere o debate num quadro analitico mais alargado:

“O debate sobre o cânone literário em Angola emerge pela primeira vez e ganha visibilidade pública a partir de 1997, por ocasião do Encontro Internacional sobre Literatura Angolana, realizado em Luanda, quando perante os argumentos de Pires Laranjeira, que identificava a coexistência em Angola de duas lutas por um novo cânone, rotulando-me como «fundamentalista negro» devido à minha leitura fundamentada do romance Yaka de Pepetela – no qual o autor esvazia o valor de determinada categoria de personagens referenciais – apresentei uma comunicação denunciando a existência de uma ideologia oculta na «escola de estudos literários africanos em Portugal» que faz a apologia da crioulidade e de um cânone literário de «escritores mestiços» de que dependeria o prestígio da Literatura Angolana.
(…)
No entanto, Angola não se assemelha em nada àquilo a que os luso-tropicalistas consideravam como sendo «o mundo que o português criou» de que resultariam as sobreditas «ilhas crioulas». De resto, estas não existem em Angola. As polémicas desencadeadas em torno da selecção de obras constitutivas de um conjunto a que se deu o nome de «Biblioteca da Literatura Angolana» e acerca da apreciação estética da obra poética de Agostinho Neto, António Jacinto e António Cardoso traduzem bem a existência de conflitualidade de teorias, estéticas e interpretações, revelando uma certa geopolítica do conhecimento, o lugar a partir do qual cada um produz o seu discurso.”


***

O Secretario Geral da UEA, Botelho de Vasconcelos, tambem disse de sua justica em entrevista ao SA:

"Quero deixar claro que não sou apologista de uma certa crítica publicada em certos órgãos que usaram expressões nada polidas e até sugeriam que por causa dessas declarações todos nós, principalmente o João Melo e o Mena Abrantes, o considerássemos como um «homem» sarnento. Mesmo nos actos mais graves da nossa vida social, os laços de amizade devem sempre fazer florir os gestos de solidariedade, porque é nos momentos «infelizes» que devemos contar com os ombros do próximo. Num dos textos deixaram passar respostas que utilizaram a maledicência para atingirem com pedras o confrade. Por essa via viciada, teríamos que usar mais pedras porque alguns confrades gostam desse exercício de escárnio e de falta de rigor e ética quando escrevem ou comentam os títulos dos seus confrades cujas obras sempre concorrerão para o enriquecimento da nossa literatura."

***

Para fechar com chave de ouro, tambem no SA, uma noticia ainda no dominio da cultura/literatura, um tanto agridoce pelo que evoca de saudades do Tio Aires, mas mais bonita que as anteriores, como ele certamente gostaria:

"A anciã Esperança Lima Coelho, a «Panchita», como é chamada por todos, que se diz ter sido a «musa» que, ao seu tempo, inspirou o poeta Aires de Almeida Santos a escrever o seu célebre poema «Meu Amor da Rua 11», faz 80 anos na próxima terça-feira, 25, sendo por isso alvo de uma homenagem da sociedade benguelense, onde é bem-querida, pela comemoração da data."