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Tuesday, 4 October 2011

Yinka Shonibare's 'Odile and Odette'



The film, with choreography by Kim Brandstrup features two ballerinas, one black one white, who explore the Swan Lake roles of Odile and Odette through a baroque mirror emphasizing the interplay between reality and reflection, conscious and unconscious. With the dancers wearing classical tutus made of African textiles Shonibare's film challenges assumptions about representation by playfully blurring the boundaries between stereotypically Western ideas about 'high' art and traditional categorisations of 'African art.'
[here]

We see each dancer emulating the other’s movements and expressions, although the emphasis here is on the African dancer who is enacting a careful and studied imitation of the highly valued, and European-produced, ballet art form.
[here]

Shonibare's interpretation extends the theme of blackness and whiteness in his juxtaposition of the two dancers and calls into question the Western binary opposition in which negative or "dark" forces are polarized against positive, "light" ones.
Odile and Odette, Shonibare's second film work to date, was commissioned by London's Royal Opera and Ballet. The artist has noted, with some irony, that his film features one ballerina drawn from the Royal Ballet (the white dancer) and an independent dancer sourced by the company because it did not have a black ballerina in its corps.

[here]



[Full lenght film: 14 minutes, 28 seconds]


Speaking of the work at a recent lecture at Goldsmiths College Shonibare explained the ballerina represents “the epitome of ‘civilized sensibilities’.” Accompanying the film was a sculpture of a ballerina of ambivalent race perched atop a black cloud: “a ballerina balanced on a black mushroom cloud of war and destruction.” Irony, again, is writ large. Civilization creates beautiful things, beautiful art in particular, but at what cost?
[here]




Gostaria de dedicar, com amizade, este post ‘a Marinela.
A Marinela foi minha colega no Liceu e era (ainda e’?) a unica bailarina classica negra Angolana que conheco. Foi ela que, na primeira metade da decada de 90, em Lisboa, me levou 'a companhia de danca que aqui mencionava, onde pratiquei o que entao se chamava “danca jazz” (ainda se chama?). As aulas que frequentei eram para amadores, mas o “warm-up”, baseado em exercicios 'tailor-made' para bailarinos classicos, era feito em conjunto com os profissionais da companhia, entre os quais a Marinela se incluia. Eramos entao, eu e ela, as unicas negras no grupo.

A companhia era dirigida por uma coreografa Franco-Argelina coadjuvada por um ex-bailarino classico Russo, que tinha tido o desaire de ter fracturado um joelho e assim ficado incapacitado de dancar profissionalmente. Ela tinha sempre um ar muito frio e distante e a unica vez que se dirigiu a mim foi para dizer, como se estivesse a dirigir-se a outra pessoa: "vejo ai muita emocao e sensualidade, mas muito pouca tecnica!" ...como se eu nao fosse, assumidamente, apenas uma amadora... Ja' ele, muito mais relaxado e divertido, estava sempre muito atento a minha “postura” (nao apenas fisica) nas aulas e explicava porque ao resto do grupo: “ela ri-se de si propria em frente ao espelho, mostrando-se consciente das suas falhas, mas depois de se rir fica muito seria e corrige a sua postura e os seus passos”…

Mas, era da Marinela que me apetecia falar… que e’ feito de ti Marinela?


[Post (nao) relacionado: Sobras]


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[
here]

We see each dancer emulating the other’s movements and expressions, although the emphasis here is on the African dancer who is enacting a careful and studied imitation of the highly valued, and European-produced, ballet art form.
[here]

Shonibare's interpretation extends the theme of blackness and whiteness in his juxtaposition of the two dancers and calls into question the Western binary opposition in which negative or "dark" forces are polarized against positive, "light" ones.
Odile and Odette, Shonibare's second film work to date, was commissioned by London's Royal Opera and Ballet. The artist has noted, with some irony, that his film features one ballerina drawn from the Royal Ballet (the white dancer) and an independent dancer sourced by the company because it did not have a black ballerina in its corps.

[here]



[Full lenght film: 14 minutes, 28 seconds]


Speaking of the work at a recent lecture at Goldsmiths College Shonibare explained the ballerina represents “the epitome of ‘civilized sensibilities’.” Accompanying the film was a sculpture of a ballerina of ambivalent race perched atop a black cloud: “a ballerina balanced on a black mushroom cloud of war and destruction.” Irony, again, is writ large. Civilization creates beautiful things, beautiful art in particular, but at what cost?
[here]




Gostaria de dedicar, com amizade, este post ‘a Marinela.
A Marinela foi minha colega no Liceu e era (ainda e’?) a unica bailarina classica negra Angolana que conheco. Foi ela que, na primeira metade da decada de 90, em Lisboa, me levou 'a companhia de danca que aqui mencionava, onde pratiquei o que entao se chamava “danca jazz” (ainda se chama?). As aulas que frequentei eram para amadores, mas o “warm-up”, baseado em exercicios 'tailor-made' para bailarinos classicos, era feito em conjunto com os profissionais da companhia, entre os quais a Marinela se incluia. Eramos entao, eu e ela, as unicas negras no grupo.

A companhia era dirigida por uma coreografa Franco-Argelina coadjuvada por um ex-bailarino classico Russo, que tinha tido o desaire de ter fracturado um joelho e assim ficado incapacitado de dancar profissionalmente. Ela tinha sempre um ar muito frio e distante e a unica vez que se dirigiu a mim foi para dizer, como se estivesse a dirigir-se a outra pessoa: "vejo ai muita emocao e sensualidade, mas muito pouca tecnica!" ...como se eu nao fosse, assumidamente, apenas uma amadora... Ja' ele, muito mais relaxado e divertido, estava sempre muito atento a minha “postura” (nao apenas fisica) nas aulas e explicava porque ao resto do grupo: “ela ri-se de si propria em frente ao espelho, mostrando-se consciente das suas falhas, mas depois de se rir fica muito seria e corrige a sua postura e os seus passos”…

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Sunday, 3 July 2011

Vania Gala "Chegando 'a Terra"






"Coming Ashore"

Sonia Boyce
Dance of Belém, 2011 Instalação video
Credits:
Dancer - Vania Gala
Soundtrack - DJ Johnny
Camera - Ines Amado; Sandro Resende; Zze (surname?)
Producers - Paul Goodwin; Bruno Malveira
Director - Sonia Boyce
Special thanks to: Ines Amado; Paul Goodwin; P28
Dance of Belem - a Sonia Boyce project (2011)

Inês Amado
Facing the Other -- There and Now, 2011 Instalação video e som

Curadoria de Paul Goodwin




O projecto CONTENTORES, criado pela P28, apresenta Coming Ashore (Chegando a Terra), um projecto composto por duas instalações de Inês Amado e de Sonia Boyce.

Com curadoria de Paul Goodwin (TATE Britain), esta exposição centra-se na poética do espaço relacionada com a herança histórica de Belém, enquanto ponto de partida para as viagens, trocas comerciais e conquistas imperiais do tempo dos Descobrimentos. Inês Amado, artista e investigadora, interessa-se sobretudo pelos processos de diálogo que existem nos trabalhos colaborativos. Sonia Boyce, artista que integra a colecção da TATE, por ter alcançado proeminência como pintora nos anos de 1980, tem vindo a mostrar uma preocupação com a inclusão social e as diferenças culturais.

Será realizado ainda um debate presidido pelo curador Paul Goodwin, no dia 7 de Agosto, às 18h30, na Sala de Leitura do Centro Cultural de Belém.

Detalhes/Debate

Postcolonial Melancholia and the Poetics of Space

July 7 2011 CCB, Lisbon

18.30 - 21.00

Speakers: Paul Goodwin (Curator of Coming Ashore; chair), Ines Amado, Sonia Boyce (artists in Coming Ashore),Vania Gala, Monica de Miranda (invited artists) Jose Fernandes Dias (curator, Director of Africa.cont) Lucia Marques (Curator and President of Xerem Cultural Association)

Horários
Abertura ao público:
Todos os dias 10:00 -- 19:00

O projecto CONTENTORES, desenvolvido pela P28 e apoiado pela Liscont, é apresentado, na sua segunda edição, em parceria com o Museu Colecção Berardo, o Centro Cultural de Belém e a Câmara Municipal de Lisboa, entre os meses de Abril e Outubro de 2011.


[Mais detalhes aqui e aqui]






"Coming Ashore"

Sonia Boyce
Dance of Belém, 2011 Instalação video
Credits:
Dancer - Vania Gala
Soundtrack - DJ Johnny
Camera - Ines Amado; Sandro Resende; Zze (surname?)
Producers - Paul Goodwin; Bruno Malveira
Director - Sonia Boyce
Special thanks to: Ines Amado; Paul Goodwin; P28
Dance of Belem - a Sonia Boyce project (2011)

Inês Amado
Facing the Other -- There and Now, 2011 Instalação video e som

Curadoria de Paul Goodwin




O projecto CONTENTORES, criado pela P28, apresenta Coming Ashore (Chegando a Terra), um projecto composto por duas instalações de Inês Amado e de Sonia Boyce.

Com curadoria de Paul Goodwin (TATE Britain), esta exposição centra-se na poética do espaço relacionada com a herança histórica de Belém, enquanto ponto de partida para as viagens, trocas comerciais e conquistas imperiais do tempo dos Descobrimentos. Inês Amado, artista e investigadora, interessa-se sobretudo pelos processos de diálogo que existem nos trabalhos colaborativos. Sonia Boyce, artista que integra a colecção da TATE, por ter alcançado proeminência como pintora nos anos de 1980, tem vindo a mostrar uma preocupação com a inclusão social e as diferenças culturais.

Será realizado ainda um debate presidido pelo curador Paul Goodwin, no dia 7 de Agosto, às 18h30, na Sala de Leitura do Centro Cultural de Belém.

Detalhes/Debate

Postcolonial Melancholia and the Poetics of Space

July 7 2011 CCB, Lisbon

18.30 - 21.00

Speakers: Paul Goodwin (Curator of Coming Ashore; chair), Ines Amado, Sonia Boyce (artists in Coming Ashore),Vania Gala, Monica de Miranda (invited artists) Jose Fernandes Dias (curator, Director of Africa.cont) Lucia Marques (Curator and President of Xerem Cultural Association)

Horários
Abertura ao público:
Todos os dias 10:00 -- 19:00

O projecto CONTENTORES, desenvolvido pela P28 e apoiado pela Liscont, é apresentado, na sua segunda edição, em parceria com o Museu Colecção Berardo, o Centro Cultural de Belém e a Câmara Municipal de Lisboa, entre os meses de Abril e Outubro de 2011.


[Mais detalhes aqui e aqui]

Saturday, 4 June 2011

O "Testamento" de uma recept(ad)ora do "Mais Alto Galardao do Estado Angolano"!







... OU UMA DEFINICAO LAPIDAR DE VULTURISMO E APROPRIACAO!

... OU A 'NEOFITA IDEOLOGIA DOS PRETENSOS AFECTOS' NO SEU ESTADO MAIS PURO, DURO, NU E CRU!

... OU O IRRESISTIVEL Charme (in)Discreto dos (Pretensos) Afectos Pos-Coloniais

... OU OS 'VALORES E PRINCIPIOS ETICOS, MORAIS E CIVICOS' NA SARJETA!

... OU QUANDO A ESTETICA SE TORNA A ANTITESE DA ETICA!

... OU O EPITOMO DA DESONESTIDADE INTELECTUAL!

... OU A CONFISSAO LUGUBRE, MORBIDA, DESCARADA E DESABRIDA DE UMA DIVA DA PORNOGRAFIA E VULTA TARADA PSICOPATA ASSASSINA!!!






[... Prefiro deixar as questoes culturais de parte nesta discussao, porque ai entao e' que vamos encontrar verdadeiramente as maiores falacias do tal "projecto de sociedade"... - A.S., AQUI...]






TESTAMENTO


… quero dançar, dançar sempre até me evaporar, até os meus pés e a minha alma se rasgarem em fragmentos que se espalharão pela terra de todas as vidas que vivi, de todas as vidas que pisei, de todas as vidas que construí e destruí. De todas as vidas que sonhei e nem conheci.

Que o céu me arranque os olhos castanhos e os faça azuis de mar e cinzentos de tempestade. Que os ogros me levem o coração inscrito de sinuosas cicatrizes. E que tu me guardes a pele transparente e inofensiva e dela faças uma janela para coar o sol. O meu sol.

E que a raiva do meu corpo, te deite brutalmente sobre a areia de uma praia qualquer, onde te arrancarei a roupa e os complexos, onde te amputarei o génio [*] e a identidade [**], onde te extirparei a serenidade e o sorriso, para te possuir, selvagem, extinguindo-me na vontade de te engolir para sempre.

Na intensidade de um orgasmo lúgubre, conseguirei então o que desejo, afinal, e que há de mais belo em ti:

a tua alma pura e frágil!..



[Ana Clara Guerra Marques - "Premio Nacional de Cultura e Artes" de Angola - a.k.a. "A Diva das Kostas Largas (Nuas) do P(h)oder" e do "Sadomasokismo Nacional" - publicado no seu blog a 06 de Marco de 2008 , mas de que so' ontem me apercebi...]




"We cannot trample upon the humanity of others without devaluing our own. The Igbo, always practical, put it concretely in their proverb Onye ji onye n'ani ji onwe ya: "He who will hold another down in the mud must stay in the mud to keep him down."
[Chinua Achebe]

Ou, alternativamente, em Portugues: Yanick Ngombo, a.k.a. Afroman, membro da etnia Bakongo (tal como os Igbo, igualmente com um sentido bastante pratico das coisas mundanas, para que lhes sobre tempo suficiente para as coisas do espirito, como a metafisica ou a filosofia), diz numa das suas cancoes algo como isto: "... e' como o porco que arrasta o javali para uma luta na lama: os dois vao se sujar, mas o porco gosta porque assim ganha fama!







[*] E por falar em “genio”, lembro-me deste episodio: um dia, em Lisboa, vinha eu a sair da Embaixada de Angola e o Adriano Botelho de Vasconcelos, entao seu Adido Cultural e em anos mais recentes Secretario Geral da UEA, a entrar. Vinha ele de saber do ‘feedback’ que o meu entao recem-lancado livro tinha tido junto de alguns escritores e intelectuais portugueses e com um entusiasmo incontido atirou-me: “A Republica criou um genio”!!!
E eu, sempre muito ‘encolhida’ e 'dismissiva' em relacao a minha poesia e a 'endeusamentos' em geral, atirei-lhe de imediato com um dos meus ‘tipicos baldes de agua fria’: “nao, desculpa, nem eu sou um ‘genio’, nem a republica me criou”!
Bom, creio que aquela minha reaccao nao lhe tera’ caido la’ muito bem e nao voltamos a falar do assunto…
Mas continuamos, mui intuitivamente, a ‘riscar o chao’ de alguns saloes por la’, sempre que se nos oferecesse a (rara) ocasiao. E’ que… O Botelho Dança!

[**] E por falar em "amputar e extirpar a identidade", valera' certamente a pena reler "A Fuga, ou O Insondavel Misterio da Nacionalidade Surripiada": Parte I e Parte II.





ADENDA


QUE NOJO!!!



O monstro do racismo emergindo da lagoa!...



[imagem daqui]


Ou


"The Face of Ugly Africa"!!!





...Se isso e' uma "mulher" e, ainda por cima, "africana"... entao a minha Afrika e as minhas manas Mulheres Africanas estao definitivamente perdidas!!!

...E quem agora diz PORRRRAAAAA!!!... sou eu!





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Com Alma

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[... Prefiro deixar as questoes culturais de parte nesta discussao, porque ai entao e' que vamos encontrar verdadeiramente as maiores falacias do tal "projecto de sociedade"... - A.S., AQUI...]






TESTAMENTO


… quero dançar, dançar sempre até me evaporar, até os meus pés e a minha alma se rasgarem em fragmentos que se espalharão pela terra de todas as vidas que vivi, de todas as vidas que pisei, de todas as vidas que construí e destruí. De todas as vidas que sonhei e nem conheci.

Que o céu me arranque os olhos castanhos e os faça azuis de mar e cinzentos de tempestade. Que os ogros me levem o coração inscrito de sinuosas cicatrizes. E que tu me guardes a pele transparente e inofensiva e dela faças uma janela para coar o sol. O meu sol.

E que a raiva do meu corpo, te deite brutalmente sobre a areia de uma praia qualquer, onde te arrancarei a roupa e os complexos, onde te amputarei o génio [*] e a identidade [**], onde te extirparei a serenidade e o sorriso, para te possuir, selvagem, extinguindo-me na vontade de te engolir para sempre.

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a tua alma pura e frágil!..



[Ana Clara Guerra Marques - "Premio Nacional de Cultura e Artes" de Angola - a.k.a. "A Diva das Kostas Largas (Nuas) do P(h)oder" e do "Sadomasokismo Nacional" - publicado no seu blog a 06 de Marco de 2008 , mas de que so' ontem me apercebi...]




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[Chinua Achebe]

Ou, alternativamente, em Portugues: Yanick Ngombo, a.k.a. Afroman, membro da etnia Bakongo (tal como os Igbo, igualmente com um sentido bastante pratico das coisas mundanas, para que lhes sobre tempo suficiente para as coisas do espirito, como a metafisica ou a filosofia), diz numa das suas cancoes algo como isto: "... e' como o porco que arrasta o javali para uma luta na lama: os dois vao se sujar, mas o porco gosta porque assim ganha fama!







[*] E por falar em “genio”, lembro-me deste episodio: um dia, em Lisboa, vinha eu a sair da Embaixada de Angola e o Adriano Botelho de Vasconcelos, entao seu Adido Cultural e em anos mais recentes Secretario Geral da UEA, a entrar. Vinha ele de saber do ‘feedback’ que o meu entao recem-lancado livro tinha tido junto de alguns escritores e intelectuais portugueses e com um entusiasmo incontido atirou-me: “A Republica criou um genio”!!!
E eu, sempre muito ‘encolhida’ e 'dismissiva' em relacao a minha poesia e a 'endeusamentos' em geral, atirei-lhe de imediato com um dos meus ‘tipicos baldes de agua fria’: “nao, desculpa, nem eu sou um ‘genio’, nem a republica me criou”!
Bom, creio que aquela minha reaccao nao lhe tera’ caido la’ muito bem e nao voltamos a falar do assunto…
Mas continuamos, mui intuitivamente, a ‘riscar o chao’ de alguns saloes por la’, sempre que se nos oferecesse a (rara) ocasiao. E’ que… O Botelho Dança!

[**] E por falar em "amputar e extirpar a identidade", valera' certamente a pena reler "A Fuga, ou O Insondavel Misterio da Nacionalidade Surripiada": Parte I e Parte II.





ADENDA


QUE NOJO!!!



O monstro do racismo emergindo da lagoa!...



[imagem daqui]


Ou


"The Face of Ugly Africa"!!!





...Se isso e' uma "mulher" e, ainda por cima, "africana"... entao a minha Afrika e as minhas manas Mulheres Africanas estao definitivamente perdidas!!!

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Thursday, 3 February 2011

Imperial Leather: Sexo, Raca, Genero e Poder




Continuando um pouco na senda da exploracao das relacoes de poder entre raca, genero e sexualidade, em contextos coloniais e post-coloniais (recentemente abordadas aqui e aqui), uma breve apresentacao da traducao para portugues, quinze anos depois da sua primeira edicao em ingles (... no seculo passado...), da obra Imperial Leather: Race, Gender, and Sexuality in the Colonial Context (Routledge, 1995), de Anne McClintock (Simone de Beauvoir Professor of English and Women’s and Gender Studies at UW-Madison).

O titulo em portugues, Couro Imperial: Raça, gênero e sexualidade no embate colonial (Unicamp, Brasil, 2010), apesar de traducao literalmente correcta (embora do subtitulo ja' nao se possa dizer o mesmo perante a traducao de context para embate...), infelizmente nao captura totalmente o seu sentido mais profundo em ingles (dir-se-ia que se trata aqui de um caso de lost in translation) – Imperial Leather e’ o nome de uma conhecida marca britanica de cosmeticos (especialmente sabonete) da epoca Victoriana que se continua a produzir e a comercializar ate’ hoje.



Ora, uma vertente fundamental desta obra (alias, retratada na imagem da sua capa e perspicazmente comentada aqui) e', num contexto em que a cor de pele escura e' associada a sujidade, a 'historia sexual e social da higiene corporal' (ou 'falta dela') e o 'papel civilizador do sabonete' (com um enfoque especial na sua publicidade - para uma breve historia em imagens da representacao de negros em publicidade no UK, ver aqui), aos quais a autora dedica explicitamente dois capitulos, o que da’ o titulo ao livro e um outro entitulado “Soft-Soaping Empire: Commodity Racism and Imperial Advertising.”


[Uma nota que nao posso deixar de fazer aqui, foi o quanto me impressionou, numa das sessoes de historia por literatura oral que a minha avo materna me transmitiu, ela mencionar como, nos relatos sobre os primeiros encontros com 'os brancos (portugueses)', estes "cheiravam muito mal"!... O que pode ser atribuido tanto as diferencas de percepcao sensorial do estranho ('o outro'), fenotipicas ou culturais, como ao facto de tais 'brancos' chegarem ao contacto com os 'negros' (... os hoje malfadados "indigenas", "autoctones", ou "genuinos"...) depois de longas viagens em caravelas sem condicoes aceitaveis de higiene e salubridade (sendo que o seu pais de origem 'a epoca tambem nao era particularmente conhecido pelos "mais elevados standards" sanitarios...) e, uma vez desembarcados, fazerem por vezes longas viagens por zonas nao habitadas ate' chegarem ao contacto directo com os ditos "autoctones"...]


Uma outra dimensao que esta obra coloca, sem remissao, na consciencia de todos quantos a isso se possam prestar, e' a dos direitos reprodutivos da mulher e o seu controlo do proprio corpo: e.g. deixando, de momento, de parte a (falsa?) questao do sacrossanto matrimonio, "quantas 'crias' tem uma 'femea' que parir para poder ser considerada uma 'senhora respeitavel' pela 'sociedade', ou seja, pelos 'homens respeitaveis'" e, correlativa mas cinicamente, "terao tais 'crias' que ser forcosamente do mesmo 'macho'"?

[Clique nas imagens para as ampliar]



Associada aquela dimensao, ha' uma outra abordagem que este livro nos permite: o processo de transferencia, numa sociedade escravocrato-colonial, dos deveres maternais da mulher branca para a escrava/ama-seca negra - o que nos remete, na era 'post-colonial' ou 'post-moderna', para questoes como as afloradas aqui ou aqui...

[imagem daqui]

... Ou, mais recentemente, para o decadente, deprimente, aviltante, degradante e revoltante "espectaculo contemporaneo" de uma filha da 'ex-burguesia colonial' (?), ninfa branca racista supremacista de extrema direita, retardada, ridicula, quase cinquentona, mae solteira de uma unica(?!) filha mulata (va-se la' saber de quem...), nos seus doentios, obscenos, amorais e imorais jogos de seducao de homens negros (...ou quase...), movida, na sua patologica (i)logica do p(h)oder, apenas por inveja, odio, ciume, possessividade e lascivia (veja-se, a este proposito, o seu perfil aqui...), tentando perversa, intrusiva e abusivamente impor/transferir os seus 'desejos frustrados/reprimidos de procriacao em serie' (deste tipo...) para a mulher que ela fantasia ser sua escrava: a negra!


Ou, a falta de melhor, ou mais excitante fantasia, dada a sua mais do que evidente falta de qualquer resquicio de respeitabilidade ou caracter, tentando transforma-la naquilo que ela realmente e': 'lesbica', 'homosexual' ou 'homem em corpo de mulher' (ou sera' 'mulher em corpo de homem' - afinal para que serve a mulher (especialmente a negra) senao para parir?!)...


Patetice... So'?!


[imagem daqui]

Para terminar, destaco da obra (parcialmente reproduzida no 'inserto' abaixo), que em termos metodologicos recorre fundamentalmente a psicanalise, a seguinte passagem:


"A vasta e fraturada arquitetura do imperialismo era eivada de gênero e atravessada pelo fato de que os homens brancos faziam e executavam as leis e políticas de seu próprio interesse. Ainda assim, os privilégios de raça com frequência colocavam as mulheres brancas em posição de poder - ainda que emprestado - não só sobre as mulheres colonizadas, mas também sobre os homens colonizados. Como tais, as mulheres brancas não eram as infelizes passantes do império, mas as cúmplices ambíguas, tanto como colonizadoras quanto como colonizadas, privilegiadas e restringidas, fossem passivas ou ativas."





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O titulo em portugues, Couro Imperial: Raça, gênero e sexualidade no embate colonial (Unicamp, Brasil, 2010), apesar de traducao literalmente correcta (embora do subtitulo ja' nao se possa dizer o mesmo perante a traducao de context para embate...), infelizmente nao captura totalmente o seu sentido mais profundo em ingles (dir-se-ia que se trata aqui de um caso de lost in translation) – Imperial Leather e’ o nome de uma conhecida marca britanica de cosmeticos (especialmente sabonete) da epoca Victoriana que se continua a produzir e a comercializar ate’ hoje.



Ora, uma vertente fundamental desta obra (alias, retratada na imagem da sua capa e perspicazmente comentada aqui) e', num contexto em que a cor de pele escura e' associada a sujidade, a 'historia sexual e social da higiene corporal' (ou 'falta dela') e o 'papel civilizador do sabonete' (com um enfoque especial na sua publicidade - para uma breve historia em imagens da representacao de negros em publicidade no UK, ver aqui), aos quais a autora dedica explicitamente dois capitulos, o que da’ o titulo ao livro e um outro entitulado “Soft-Soaping Empire: Commodity Racism and Imperial Advertising.”


[Uma nota que nao posso deixar de fazer aqui, foi o quanto me impressionou, numa das sessoes de historia por literatura oral que a minha avo materna me transmitiu, ela mencionar como, nos relatos sobre os primeiros encontros com 'os brancos (portugueses)', estes "cheiravam muito mal"!... O que pode ser atribuido tanto as diferencas de percepcao sensorial do estranho ('o outro'), fenotipicas ou culturais, como ao facto de tais 'brancos' chegarem ao contacto com os 'negros' (... os hoje malfadados "indigenas", "autoctones", ou "genuinos"...) depois de longas viagens em caravelas sem condicoes aceitaveis de higiene e salubridade (sendo que o seu pais de origem 'a epoca tambem nao era particularmente conhecido pelos "mais elevados standards" sanitarios...) e, uma vez desembarcados, fazerem por vezes longas viagens por zonas nao habitadas ate' chegarem ao contacto directo com os ditos "autoctones"...]


Uma outra dimensao que esta obra coloca, sem remissao, na consciencia de todos quantos a isso se possam prestar, e' a dos direitos reprodutivos da mulher e o seu controlo do proprio corpo: e.g. deixando, de momento, de parte a (falsa?) questao do sacrossanto matrimonio, "quantas 'crias' tem uma 'femea' que parir para poder ser considerada uma 'senhora respeitavel' pela 'sociedade', ou seja, pelos 'homens respeitaveis'" e, correlativa mas cinicamente, "terao tais 'crias' que ser forcosamente do mesmo 'macho'"?

[Clique nas imagens para as ampliar]



Associada aquela dimensao, ha' uma outra abordagem que este livro nos permite: o processo de transferencia, numa sociedade escravocrato-colonial, dos deveres maternais da mulher branca para a escrava/ama-seca negra - o que nos remete, na era 'post-colonial' ou 'post-moderna', para questoes como as afloradas aqui ou aqui...

[imagem daqui]

... Ou, mais recentemente, para o decadente, deprimente, aviltante, degradante e revoltante "espectaculo contemporaneo" de uma filha da 'ex-burguesia colonial' (?), ninfa branca racista supremacista de extrema direita, retardada, ridicula, quase cinquentona, mae solteira de uma unica(?!) filha mulata (va-se la' saber de quem...), nos seus doentios, obscenos, amorais e imorais jogos de seducao de homens negros (...ou quase...), movida, na sua patologica (i)logica do p(h)oder, apenas por inveja, odio, ciume, possessividade e lascivia (veja-se, a este proposito, o seu perfil aqui...), tentando perversa, intrusiva e abusivamente impor/transferir os seus 'desejos frustrados/reprimidos de procriacao em serie' (deste tipo...) para a mulher que ela fantasia ser sua escrava: a negra!


Ou, a falta de melhor, ou mais excitante fantasia, dada a sua mais do que evidente falta de qualquer resquicio de respeitabilidade ou caracter, tentando transforma-la naquilo que ela realmente e': 'lesbica', 'homosexual' ou 'homem em corpo de mulher' (ou sera' 'mulher em corpo de homem' - afinal para que serve a mulher (especialmente a negra) senao para parir?!)...


Patetice... So'?!


[imagem daqui]

Para terminar, destaco da obra (parcialmente reproduzida no 'inserto' abaixo), que em termos metodologicos recorre fundamentalmente a psicanalise, a seguinte passagem:


"A vasta e fraturada arquitetura do imperialismo era eivada de gênero e atravessada pelo fato de que os homens brancos faziam e executavam as leis e políticas de seu próprio interesse. Ainda assim, os privilégios de raça com frequência colocavam as mulheres brancas em posição de poder - ainda que emprestado - não só sobre as mulheres colonizadas, mas também sobre os homens colonizados. Como tais, as mulheres brancas não eram as infelizes passantes do império, mas as cúmplices ambíguas, tanto como colonizadoras quanto como colonizadas, privilegiadas e restringidas, fossem passivas ou ativas."





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Friday, 28 January 2011

Portugal’s Colonial Complex ...

... From Colonial Lusotropicalism to Postcolonial Lusophony


[Miguel Vale de Almeida]


Lusotropicalism was the invention of a Brazilian author, Gilberto Freyre. Although he is widely known as the author of Casa Grande e Senzala (The Masters and the Slaves, in the English translation), he did not explicitly use the concept in that major work of his, written in the 1930s. The underlying notions – that the Portuguese, due to historical and cultural reasons had an inclination towards adaptation and miscegenation – were there, but the term was not branded until the 1950s in books that he wrote on the aftermath of his journeys throughout the Portuguese colonial empire.

It is therefore significant to note that we are dealing with a theory that has a complex colonial and postcolonial history: a Brazilian author, involved in the intellectual struggles about the representations of the national identity of his country (independent since the 19th century) proposes an historical interpretation of Brazil’s formation in which the Portuguese play a major role; he is then invited to visit the Portuguese colonies in Africa and India and, by means of comparison and analogy between Brazil and Africa, he develops the notion of Lusotropicalism as a special kind of inclination or capacity for miscegenation that the Portuguese were supposed to have; this interpretation is then used by the Portuguese colonial regime to legitimize its claims in Africa against growing anticolonial pressure as of the late 1950s and until the demise of the colonial and dictatorial regime in the early 1970s.

[...]

Portugal had no economic, military or demographic power – after the demise of the first and second empires, respectively in India and the East in the 16th and 17th centuries, and in Brazil in the 17th and 18th centuries – to effectively occupy its historical territories in Africa. It was not until Salazar’s regime that an actual colonial enterprise in Africa was set up (that is, a colonial regime, with proper institutions and knowledge systems). Portugal lived under a dictatorship from 1926 to 1974 and throughout this period the African colonies were to occupy a major and central role not only in the economy but also in the official representations of national identity. How was this done?

[...]

That is probably why the effective occupation of the African colonies, which took place as of the 1940s and 1950s was done on the basis of different “Constitutions” – i.e., sets of rules for politically administering the populations, based on specific representations of difference and sameness. One the one hand, some territories were classified as not quite colonies. Cape Verde and India were seen as products of an on-going miscegenation, for different reasons. Cape Verde was the outcome of a mix between Portuguese colonials and slaves from the African mainland imported to a deserted archipelago. And India was seen as a civilization in its own right, a civilization that had met another, that of European Christianity.

Cape Verdean culture was classified as regional, not as colonial, and its population – its elites – had special rights, one of which was their recruitment as colonial middlemen in the African mainland. Other colonies, like Angola and Mozambique, were clearly seen as African and there a different “constitution” was established. With an economy based on forced labor, people were divided into three legal categories: citizens, i.e. the Portuguese; indigenous or native; and “assimilated”. The assimilated were indigenous people who had to undergo a probation period and exams in order to prove that they were Christian, that they dressed in European fashion, that they were monogamous, and that they spoke Portuguese (bear this in mind). They never amounted to more than 1% of the colonial population.

[...]

It was at that juncture that, in the 1950s, Freyre was invited by the Minister of the Overseas to visit and write on the colonies. His ideas were already being received and discussed in the stifling intellectual circles of Lisbon. They fitted nicely with the vague humanistic perspectives of the traditional Left, but they fit even more nicely with the regime’s growing strategy toward presenting the Portuguese empire as a multiracial and multi-continental nation.

[...]

Both the Portuguese state and the population had their representations challenged by the flux of migrants that started in the late 1980s and is still going on. These were initially (and still are) from ex-colonies in Africa and then from Brazil and Eastern European countries. The immigration of Africans faced the Portuguese with their own representations of colonial miscegenation, tolerance and exceptionalism.

This resulted in a cognitive tension that social scientists have identified in studies on blatant and covert racism: statements on the non-racist character of Portuguese society are hegemonic and are usually justified with the example of Portuguese expansion and colonialism as exceptionally tolerant, in what could be labeled as a form of popular lusotropicalism (and an evidence of how hegemonic that discourse became); but they are confronted with the social exclusion of immigrants, their geographical ascription to the worse neighborhoods, the exploitation of their labor and the difficulties they face when applying for citizenship or to access rights of all sorts.

[...]

This I call postlusotropicalism, playing with the similarity with the notion of post
colonialism, as the study of colonial continuations in the present. That is also why one cannot just denounce the colonial in the postcolonial. One should also acknowledge that, for better or worse, the colonial experience did create a common world of reference for many people. What we should do is work on this basic statement and set out to identify the intricate relations between power and emancipation, violence and pleasure in which such a forced commonality became a lived commonality.

It is as if we were all still caught in Freyre’s erotically charged vignette (because terrifying and pleasurable) describing sexual relations between a Portuguese male slave owner and his female black slave in 16th century Northeastern Brazil. This image still haunts us today, with its contradictions of power and intimacy, connecting the ambiguities of Lusotropicalism with those of Lusophony. That is why I have used the expression “Complex” in the title: both in the sense of “intricate” or “complicated”, and in the psychoanalytical sense.


[Extracts from here]


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[
Miguel Vale de Almeida]


Lusotropicalism was the invention of a Brazilian author, Gilberto Freyre. Although he is widely known as the author of Casa Grande e Senzala (The Masters and the Slaves, in the English translation), he did not explicitly use the concept in that major work of his, written in the 1930s. The underlying notions – that the Portuguese, due to historical and cultural reasons had an inclination towards adaptation and miscegenation – were there, but the term was not branded until the 1950s in books that he wrote on the aftermath of his journeys throughout the Portuguese colonial empire.

It is therefore significant to note that we are dealing with a theory that has a complex colonial and postcolonial history: a Brazilian author, involved in the intellectual struggles about the representations of the national identity of his country (independent since the 19th century) proposes an historical interpretation of Brazil’s formation in which the Portuguese play a major role; he is then invited to visit the Portuguese colonies in Africa and India and, by means of comparison and analogy between Brazil and Africa, he develops the notion of Lusotropicalism as a special kind of inclination or capacity for miscegenation that the Portuguese were supposed to have; this interpretation is then used by the Portuguese colonial regime to legitimize its claims in Africa against growing anticolonial pressure as of the late 1950s and until the demise of the colonial and dictatorial regime in the early 1970s.

[...]

Portugal had no economic, military or demographic power – after the demise of the first and second empires, respectively in India and the East in the 16th and 17th centuries, and in Brazil in the 17th and 18th centuries – to effectively occupy its historical territories in Africa. It was not until Salazar’s regime that an actual colonial enterprise in Africa was set up (that is, a colonial regime, with proper institutions and knowledge systems). Portugal lived under a dictatorship from 1926 to 1974 and throughout this period the African colonies were to occupy a major and central role not only in the economy but also in the official representations of national identity. How was this done?

[...]

That is probably why the effective occupation of the African colonies, which took place as of the 1940s and 1950s was done on the basis of different “Constitutions” – i.e., sets of rules for politically administering the populations, based on specific representations of difference and sameness. One the one hand, some territories were classified as not quite colonies. Cape Verde and India were seen as products of an on-going miscegenation, for different reasons. Cape Verde was the outcome of a mix between Portuguese colonials and slaves from the African mainland imported to a deserted archipelago. And India was seen as a civilization in its own right, a civilization that had met another, that of European Christianity.

Cape Verdean culture was classified as regional, not as colonial, and its population – its elites – had special rights, one of which was their recruitment as colonial middlemen in the African mainland. Other colonies, like Angola and Mozambique, were clearly seen as African and there a different “constitution” was established. With an economy based on forced labor, people were divided into three legal categories: citizens, i.e. the Portuguese; indigenous or native; and “assimilated”. The assimilated were indigenous people who had to undergo a probation period and exams in order to prove that they were Christian, that they dressed in European fashion, that they were monogamous, and that they spoke Portuguese (bear this in mind). They never amounted to more than 1% of the colonial population.

[...]

It was at that juncture that, in the 1950s, Freyre was invited by the Minister of the Overseas to visit and write on the colonies. His ideas were already being received and discussed in the stifling intellectual circles of Lisbon. They fitted nicely with the vague humanistic perspectives of the traditional Left, but they fit even more nicely with the regime’s growing strategy toward presenting the Portuguese empire as a multiracial and multi-continental nation.

[...]

Both the Portuguese state and the population had their representations challenged by the flux of migrants that started in the late 1980s and is still going on. These were initially (and still are) from ex-colonies in Africa and then from Brazil and Eastern European countries. The immigration of Africans faced the Portuguese with their own representations of colonial miscegenation, tolerance and exceptionalism.

This resulted in a cognitive tension that social scientists have identified in studies on blatant and covert racism: statements on the non-racist character of Portuguese society are hegemonic and are usually justified with the example of Portuguese expansion and colonialism as exceptionally tolerant, in what could be labeled as a form of popular lusotropicalism (and an evidence of how hegemonic that discourse became); but they are confronted with the social exclusion of immigrants, their geographical ascription to the worse neighborhoods, the exploitation of their labor and the difficulties they face when applying for citizenship or to access rights of all sorts.

[...]

This I call postlusotropicalism, playing with the similarity with the notion of post
colonialism, as the study of colonial continuations in the present. That is also why one cannot just denounce the colonial in the postcolonial. One should also acknowledge that, for better or worse, the colonial experience did create a common world of reference for many people. What we should do is work on this basic statement and set out to identify the intricate relations between power and emancipation, violence and pleasure in which such a forced commonality became a lived commonality.

It is as if we were all still caught in Freyre’s erotically charged vignette (because terrifying and pleasurable) describing sexual relations between a Portuguese male slave owner and his female black slave in 16th century Northeastern Brazil. This image still haunts us today, with its contradictions of power and intimacy, connecting the ambiguities of Lusotropicalism with those of Lusophony. That is why I have used the expression “Complex” in the title: both in the sense of “intricate” or “complicated”, and in the psychoanalytical sense.


[Extracts from here]


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Saturday, 22 January 2011

JUST POETRY (V) [R]* [Actualizado]



PARA ANGOLA, RAPIDAMENTE E EM FORÇA

Peço ao vento por graçola
notícias do meu país
e o vento diz: «Vai para Angola».
(É o que o vento me diz.)
«Tem juízo, vai para Angola,
isto aqui está por um triz.»

Vamos todos para Angola
desde o Malanje ao Namibe
aproveitar por esmola
o crescimento do PIB.

Vem tu também, anda, anda,
escolhe uma profissão:
agora os preto é quem manda,
os preto é nosso patrão.

Leva a família na frente,
mulher, filhos, pai e mãe,
e se ainda couber mais gente
traz outro amigo também.

Vamos todos sem demora,
uns à solta, outros à trela,
vamos invadir Angola
do Moxico até Benguela.

Vamos de avião, navio,
canoa, bote ou jangada,
isto aqui está por um fio,
vai ser uma debandada.

Vamos todos para Angola,
destino de emigração,
vamos todos para Angola,
atrás do Diogo Cão.


[Poema daqui /// Ecos do original aqui]



*[Postado inicialmente a 06/05/09 - "repostado" hoje devido aos ultimos comentarios a ele feitos]







Em referencia aos comentarios feitos a este post nos ultimos dias, permitam-me, como “ser humano genuino” – tal como o sao (ou foram) os retratados, brancos e negros, nesta materia –, alinhar aqui algumas breves notas para esta que me parece ser, manifestamente, uma discussao de, entre e sobre portugueses, “genuinos” ou nao.

Tres vectores fundamentais confluem de forma problematica e frequentemente conflituosa para esta questao: a Historia, a Cultura e a Economia:


1. Historia – Portugal colonizou partes do actual territorio de Angola durante cerca de 5 seculos. Foi uma colonizacao, como todas, nao pacificamente aceite pela esmagadora maioria dos seus subditos, mesmo quando todas as aparencias pudessem sugerir o contrario. Por isso houve guerras de resistencia ao longo dos seculos, por isso houve uma guerra anti-colonial durante mais de uma decada, por isso houve a independencia – todos, factos historicos incontestaveis e irreversiveis: nao ficcao cientifica.

Poderia o processo de “descolonizacao” ter sido menos traumatico para ambos os lados? Questao ainda nao resolvida e que, pelo menos nos termos em que o debate (nao) tem vindo a ser conduzido, parece jamais vir a se-lo, pelo que sobre ela limitar-me-ei a sugerir que “o que aconteceu, esta’ acontecido” e “o que nao tem remedio, remediado esta’”, ou ainda, "de nada serve chorar sobre o leite derramado"... sendo certo que, qualquer que seja a evolucao, ou resolucao, dessa questao, a chamada “recolonizacao” nao me parece ser a resposta mais adequada para ela, certamente nao nos termos em que tem vindo a ser advogada.


2. Cultura – Uma parte, diga-se que minoritaria, dos angolanos foi assimilada, voluntaria ou involuntariamente, a cultura e lingua portuguesas. Mas, precisamente por ser minoritaria, embora contemporaneamente “poderosa”, “elitizante” e “socio-economicamente dominante”, ela nao detem de facto os “fios condutores” da totalidade da vida cultural, social e humana do pais Angola. Ha’ outros “fios condutores” no tecido que (con)forma o pais real, enfim outras sensibilidades que, embora tentem (e, de algum modo, consigam em alguns casos) negociar entre si e acomodar-se umas as outras em nome do um “um so' povo, uma so' nacao”, continuam (e, diga-se, legitimamente) a ansiar pela sua “validacao”, ou, dito de outro modo, pela legitimacao das suas respectivas “identidades e etnicidades” proprias como parte de um todo diverso, mas que se pretende harmonioso, depois de uma guerra fratricida de cerca de tres decadas, que teve em grande medida na sua base tais anseios e reivindicacoes (veja-se, por exemplo, o caso das Lundas aqui e aqui, ou o de Cabinda, aqui). Trata-se de facto real, indesmentivel, incontornavel e insofismavel, nao de mito, nem de ficcao literaria!

E sobre isso, ha’ ja’ varios anos, em Portugal, lembro-me de ter escrito e publicado algo em que me detinha sobre a manifesta dificuldade que os portugueses em geral demonstram em compreender cabalmente essa realidade, possivelmente por Portugal ser um pais cerca de 14 vezes menor do que Angola em tamanho e nao se apresentar tao diverso etnica, linguistica e culturalmente como esta. E esse e’ tambem um facto, embora os portugueses na Europa, ou em qualquer outra parte do mundo, se comportem geralmente como extremamente ciosos da sua propria “identidade” ou, se se preferir, da sua “genuinidade”: abrem as suas proprias lojas, bares, cafes e restaurantes com produtos alimentares e musica exclusivamente portugueses e frequentados quase exclusivamente por portugueses, falam exclusivamente portugues entre si, estabelecem as suas proprias igrejas com servicos exclusivamente em portugues, promovem as suas proprias e exclusivas actividades comunitarias e sociais com base na sua cultura nacional, chegam a formar verdadeiros ghetos em algumas zonas das cidades, onde tudo o que se ve, cheira e ouve e' portugues... ou seja, nascem, crescem, vivem, socializam-se, reproduzem-se e morrem como qualquer outro “grupo etnico” nesses paises (algo que, embora de forma “conglomerada” com as comunidades ditas hispanicas ou latinas no Reino Unido, se deixa bem patente aqui ).

Porque entao, tanta dificuldade e resistencia em compreender-se e aceitar-se (como, de resto, resulta evidente quer dos ataques sistematicos de que tenho sido abertamente alvo neste blog - seja directamente aqui por "desconhecidos", seja indirectamente noutros blogs bem identificados na lusosfera -, quer das campanhas que, de forma mais ou menos velada e insidiosa me teem sido dirigidas a partir de Angola, sobretudo, mas nao apenas, atraves de uma “certa imprensa” controlada por grupos financeiros portugueses, ou seus associados...) que os angolanos, ou pelo menos (grandes!) segmentos deles, o facam, ou pretendam fazer, de forma civica e democratica no seu proprio pais?

E, nesse particular, parece-me que eu me encontro neste momento muito mais na posicao dos emigrantes portugueses de ontem e de hoje que se diz serem e terem sido vitimas do chauvinismo, escarnio e oprobrio dos seus compatriotas “que ficaram”, do que na dos ditos “angolanos genuinos” que se diz “entenderem ter recebido Angola como heranca dos seus ancestrais”...


3. Economia – Angola tem vindo, de ha’ uns anos a esta parte, a apresentar niveis “espectaculares” de crescimento economico – facto. Portugal encontra-se neste momento a apresentar niveis, igualmente “espectaculares”, de recessao economica – facto. Sera’ natural que um numero cada vez maior de portugueses busquem oportunidades economicas noutras paragens e, em especial, em Angola, sua antiga “joia da coroa” – facto. O que ja’ nao sera’ tao natural, nem tao factual assim, e’ que se tente transformar tudo isso num caso de “atraccao fatal” entre os dois paises... Desde logo porque nao ha’ nada nos principios fundamentais da economia, seja ela de mercado ou nao - e muito menos nos de uma economia globalizada e competitiva como a que “estamos com ela” quer queiramos e gostemos quer nao -, que o fundamente.

O facto e’ que, qualquer que seja o modelo economico adoptado, “crescimento do PIB” nao significa ipso facto “desenvolvimento economico” e a sistematica marginalizacao, quando nao total exclusao da maioria dos angolanos dos beneficios desse crescimento economico - e ate’ mesmo da sua participacao/contribuicao para ele, em particular por parte de alguns que, como eu, se viram forcados a permanecer no exterior por varias circunstancias adversas originadas no pais (... e provocadas por angolanos!...) e que sao ostensivamente hostilizados por alguns sectores proteccionistas de uma certa auto-designada “prata da casa”... -, devido a um inexistente ou deficiente investimento no stock de capital humano nacional e a sua absorcao e integracao sistematica num processo consistente de desenvolvimento economico-social e cultural endogeno, sustentado e sustentavel, apenas tende a elevar os “muros de resistencia” ao crescente numero de estrangeiros (portugueses ou nao) aportando presentemente as costas angolanas e, em muitos casos, sem qualquer controlo... e isso, no longo prazo, nao e’ bom para ninguem, “genuinos” ou nao – facto.

A realidade e’ que a actual politica de imigracao de Angola e’ explicita e ostensivamente enviezada contra os africanos que tentam entrar pelas suas fronteiras terrestres (como os cartoons, adaptados daqui, com que ilustro este texto o explicitam), nao contra os portugueses: estes, como todas as estatisticas o revelam, nao so’ teem ido para Angola e “em forca” nos ultimos anos sem grandes empecilhos, como e’ em Portugal que os angolanos endinheirados fazem o grosso dos seus gastos de consumo e investimentos publicos e privados.

[E abro aqui um parentesis para sugerir o seguinte: imagine-se que apenas uma infima fraccao dos verdadeiros "balurdios" de dinheiro publico usados pela Sonangol em investimentos em Portugal, fosse aplicada no financiamento de investimentos produtivos trabalho-intensivos que criassem emprego nas regioes fronteiricas, tanto em Angola, como nos paises vizinhos. Nao seriam tais investimentos muito mais recomendaveis, louvaveis e ate' rentaveis sob todos os pontos de vista - desde logo, porque teriam o condao de funcionar como um "travao" aos fluxos migratorios por razoes economicas nessas areas e contribuiriam para o tao propalado "desenvolvimento e independencia economica do continente", para alem de funcionarem como um mecanismo de poupanca dos recursos materiais e financeiros actualmente empregues no patrulhamento das fronteiras e controlo/contencao/repressao dos emigrantes africanos pretendendo entrar em Angola e, em ultima analise, contribuirem de forma substantiva, permanente e duravel para a prosperidade, paz e seguranca regional... - especialmente neste momento em que Angola assume, mais uma vez, a presidencia da SADC?!]

E na base de tudo isso esta’ uma ideia de “desenvolvimento” que tem no periodo colonial o seu “modelo”. Acontece que os niveis de “desenvolvimento” atingidos sob tal “modelo” tinham por base um regime politico-ideologico que nao me parece ser o mais adaptavel, certamente nao o mais adequado, quer 'a Angola, quer ao Portugal, quer ao Mundo de hoje. Modelo esse, alias, que foi de forma magistral e visionaria descrito e denunciado por Viriato da Cruz nos termos em que aqui parcialmente destaquei...

Todas essas questoes, abordei-as, de forma mais ‘academica’, recentemente aqui , e de forma mais ‘prosaica’, ha’ ja’ algum tempo, aqui - onde, note-se, dos posicionamentos de Pepetela, a par dos de outros membros da inteligentzia angolana, ou luso-angolana, que sobre essas questoes se teem pronunciado publicamente nos ultimos tempos, resulta evidente que a corrente onda dominante nao e’ adversa 'a ‘recolonizacao’ de Angola pelos portugueses, como, de resto aqui se pode constatar ad nauseum: bem pelo contrario!

E nao deixa de ser interessante notar a este proposito que essa mesma inteligentzia conta entre as suas fileiras com alguns dos que nao so' dizem ter participado na "luta contra o colonialismo" (e desse estatuto de "antigos combatentes" muita gala fazem e amplos beneficios vitalicios, pessoais e familiares, colhem...), como se destacaram entre os mais radicais no desmantelamento e "transformacao revolucionaria" do tal "patamar tecno-juridico-administrativo que Angola ja' teve", em nome da criacao, desenvolvimento e reproducao do dito "homem novo"... a comecar pelo sistema de ensino! ... E quem naquela altura se lhes opusesse, ainda que passivamente, era apelidado de "contra-revolucionario", "pequeno burgues", "lacaio do colonialismo", "agente do imperialismo", etc. etc. etc. ... Nao deixo, porem, de lhes gabar a "coerencia": foram tao radicais em relacao 'a "descolonizacao" como o sao agora em relacao 'a "recolonizacao" (enfim, em quaisquer circunstancias "iguais a si proprios"!) ... o que talvez nao seja de todo estranho ao facto de certas neofitas formacoes politicas ultra-minoritarias precisarem desesperadamente de alargar a sua base eleitoral de apoio...

E, aqui, convira' distinguir-se claramente "recolonizacao" sem qualquer qualificacao, planificacao ou priorizacao (o que, alias, o poema aqui em questao, revela: "escolhe uma profissao"...), de "cooperacao" (economica, tecnico-cientifica e profissional) - esta existe, e sempre existiu desde a independencia, com Portugal e com outros paises, e se os portugueses podem contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola com a "vantagem comparativa" da sua lingua e cultura devido a historia que liga os dois paises, pois eles sao e sempre foram bem vindos (idos) naquelas areas e sectores onde realmente tal "vantagem comparativa" possa ser transformada em "valor acrescentado" para ambas as partes. Mas que nao se perca de vista, por via da chamada "neofita ideologia dos (pretensos) afectos", que Portugal nao e' o unico pais que pode contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola.

Veja-se, a esse respeito, o caso de Mocambique que, desde a sua independencia, aderiu 'a Commonwealth, adoptou o Ingles praticamente como sua segunda lingua oficial e tem um leque bastante diversificado de parceiros de cooperacao economica internacional, sem que por isso tenha impedido Portugal, ou os portugueses, de la' viverem, regressarem, ou trabalharem...

Enfim, em geito de conclusao, parece-me ser avisado que tanto angolanos (“genuinos” ou nao), como portugueses (tambem “genuinos” ou nao), bem como todos os nacionais de outros paises, ajam neste momento historico particularmente critico da vida de Angola tao racionalmente quanto possivel face aos factos e realidades, nao aos mitos e ficcoes, em presenca.

Tudo o resto nao passara’ de um pernicioso e patetico “display de emoti(c)ons” com mais do que previsiveis consequencias nefastas para todas as partes – a Historia de Angola revela-o a saciedade!

Tenho dito.





P.S.: Acrescentaria apenas as seguintes notas a margem:

i. A proposito de "fechamentos sociais e economicos" ou, se se preferir, mecanismos de exclusao social, tradicionais em Angola, esta citacao de David Sogge: "Colonial and post-colonial elites showed no interest in creating an ‘open access order’ based on citizenship for all and competitive markets. A path was laid down around a weak but autocratic colonial state dependent on outside powers. Mediocre institutions and underskilled people were additional legacies. Angolan nationalist movements, their leaders imbued with norms of a ‘limited access order’, and habituated to the use of armed force, had no ready alternatives when they assumed power.";


ii. Em relacao a todas essas questoes, mas em particular a suposta "dificuldade de entendimento e aceitacao" por parte da generalidade dos portugueses da diversidade etnico-linguistica de Angola, seria recomendavel uma exploracao da area da Historia Moderna designada Subaltern Studies;


iii. Sobre os movimentos trans-fronteiricos entre Angola e o Congo (Zaire) em epocas mais recuadas, com a devida venia, esta detalhada descricao por Fernando Ribeiro:

Nos troços de fronteira entre Angola e o Zaire em que não houvesse obstáculos naturais, não existia qualquer vedação ou outra barreira que impedisse a comunicação entre ambos os lados. A fronteira estava apenas assinalada por marcos de pedra em forma de grossos obeliscos, com 2 metros de altura ou pouco mais, que mostravam o escudo da monarquia portuguesa, esculpido em baixo relevo, no lado virado para Angola, o da monarquia belga no lado virado para o Zaire e o ano de 1895 gravado por cima de cada um dos escudos. Os marcos fronteiriços estavam colocados a uma distância de cerca de 40 quilómetros uns dos outros, talvez, e estavam milimetricamente alinhados uns pelos outros, numa linha reta espantosamente rigorosa.

Como, nos troços onde não havia obstáculos naturais, a fronteira estava desimpedida, ela era atravessada por caminhos de pé posto, que todos os dias eram percorridos por pessoas que passavam "a salto" de Angola para o Zaire e vice-versa. O movimento de pessoas ao longo destes carreiros era bastante intenso. Angolanos (refugiados ou não) e zairenses circulavam de um lado para o outro ao longo do dia, em função, sobretudo, das feiras mensais e mercados rurais que de ambos os lados se iam realizando. Levavam os produtos das suas lavras (campos), a fim de os vender onde fossem mais caros, e traziam as mercadorias de que necessitavam, compradas onde elas fossem mais baratas. É evidente que os contrabandistas (havia bastantes) também faziam um uso intensivo destes caminhos transfronteiriços.

Assim que o sol nascia, nas zonas onde houvesse uma sanzala do lado de Angola que ficasse próxima da fronteira e estivesse dotada de uma escola, os caminhos referidos eram percorridos por crianças, vindas do Zaire para Angola, que vinham frequentar as aulas. Estas crianças percorriam a pé vários quilómetros a caminho da escola e eram as primeiras pessoas que atravessavam a fronteira logo pela manhãzinha.

Estas crianças eram filhas de angolanos refugiados no Zaire. Os seus encarregados de educação faziam questão em que elas frequentassem uma escola angolana, porque queriam que elas não se esquecessem das suas raízes, apesar de já terem nascido no exílio, se sentissem orgulhosas de Angola e soubessem falar, ler e escrever em português.



[aqui, onde, ja' agora, tambem se pode ver esta descricao de Kinshasa e ouvir um pouco da musica do magistral Franco]






PARA ANGOLA, RAPIDAMENTE E EM FORÇA

Peço ao vento por graçola
notícias do meu país
e o vento diz: «Vai para Angola».
(É o que o vento me diz.)
«Tem juízo, vai para Angola,
isto aqui está por um triz.»

Vamos todos para Angola
desde o Malanje ao Namibe
aproveitar por esmola
o crescimento do PIB.

Vem tu também, anda, anda,
escolhe uma profissão:
agora os preto é quem manda,
os preto é nosso patrão.

Leva a família na frente,
mulher, filhos, pai e mãe,
e se ainda couber mais gente
traz outro amigo também.

Vamos todos sem demora,
uns à solta, outros à trela,
vamos invadir Angola
do Moxico até Benguela.

Vamos de avião, navio,
canoa, bote ou jangada,
isto aqui está por um fio,
vai ser uma debandada.

Vamos todos para Angola,
destino de emigração,
vamos todos para Angola,
atrás do Diogo Cão.


[Poema daqui /// Ecos do original aqui]



*[Postado inicialmente a 06/05/09 - "repostado" hoje devido aos ultimos comentarios a ele feitos]







Em referencia aos comentarios feitos a este post nos ultimos dias, permitam-me, como “ser humano genuino” – tal como o sao (ou foram) os retratados, brancos e negros, nesta materia –, alinhar aqui algumas breves notas para esta que me parece ser, manifestamente, uma discussao de, entre e sobre portugueses, “genuinos” ou nao.

Tres vectores fundamentais confluem de forma problematica e frequentemente conflituosa para esta questao: a Historia, a Cultura e a Economia:


1. Historia – Portugal colonizou partes do actual territorio de Angola durante cerca de 5 seculos. Foi uma colonizacao, como todas, nao pacificamente aceite pela esmagadora maioria dos seus subditos, mesmo quando todas as aparencias pudessem sugerir o contrario. Por isso houve guerras de resistencia ao longo dos seculos, por isso houve uma guerra anti-colonial durante mais de uma decada, por isso houve a independencia – todos, factos historicos incontestaveis e irreversiveis: nao ficcao cientifica.

Poderia o processo de “descolonizacao” ter sido menos traumatico para ambos os lados? Questao ainda nao resolvida e que, pelo menos nos termos em que o debate (nao) tem vindo a ser conduzido, parece jamais vir a se-lo, pelo que sobre ela limitar-me-ei a sugerir que “o que aconteceu, esta’ acontecido” e “o que nao tem remedio, remediado esta’”, ou ainda, "de nada serve chorar sobre o leite derramado"... sendo certo que, qualquer que seja a evolucao, ou resolucao, dessa questao, a chamada “recolonizacao” nao me parece ser a resposta mais adequada para ela, certamente nao nos termos em que tem vindo a ser advogada.


2. Cultura – Uma parte, diga-se que minoritaria, dos angolanos foi assimilada, voluntaria ou involuntariamente, a cultura e lingua portuguesas. Mas, precisamente por ser minoritaria, embora contemporaneamente “poderosa”, “elitizante” e “socio-economicamente dominante”, ela nao detem de facto os “fios condutores” da totalidade da vida cultural, social e humana do pais Angola. Ha’ outros “fios condutores” no tecido que (con)forma o pais real, enfim outras sensibilidades que, embora tentem (e, de algum modo, consigam em alguns casos) negociar entre si e acomodar-se umas as outras em nome do um “um so' povo, uma so' nacao”, continuam (e, diga-se, legitimamente) a ansiar pela sua “validacao”, ou, dito de outro modo, pela legitimacao das suas respectivas “identidades e etnicidades” proprias como parte de um todo diverso, mas que se pretende harmonioso, depois de uma guerra fratricida de cerca de tres decadas, que teve em grande medida na sua base tais anseios e reivindicacoes (veja-se, por exemplo, o caso das Lundas aqui e aqui, ou o de Cabinda, aqui). Trata-se de facto real, indesmentivel, incontornavel e insofismavel, nao de mito, nem de ficcao literaria!

E sobre isso, ha’ ja’ varios anos, em Portugal, lembro-me de ter escrito e publicado algo em que me detinha sobre a manifesta dificuldade que os portugueses em geral demonstram em compreender cabalmente essa realidade, possivelmente por Portugal ser um pais cerca de 14 vezes menor do que Angola em tamanho e nao se apresentar tao diverso etnica, linguistica e culturalmente como esta. E esse e’ tambem um facto, embora os portugueses na Europa, ou em qualquer outra parte do mundo, se comportem geralmente como extremamente ciosos da sua propria “identidade” ou, se se preferir, da sua “genuinidade”: abrem as suas proprias lojas, bares, cafes e restaurantes com produtos alimentares e musica exclusivamente portugueses e frequentados quase exclusivamente por portugueses, falam exclusivamente portugues entre si, estabelecem as suas proprias igrejas com servicos exclusivamente em portugues, promovem as suas proprias e exclusivas actividades comunitarias e sociais com base na sua cultura nacional, chegam a formar verdadeiros ghetos em algumas zonas das cidades, onde tudo o que se ve, cheira e ouve e' portugues... ou seja, nascem, crescem, vivem, socializam-se, reproduzem-se e morrem como qualquer outro “grupo etnico” nesses paises (algo que, embora de forma “conglomerada” com as comunidades ditas hispanicas ou latinas no Reino Unido, se deixa bem patente aqui ).

Porque entao, tanta dificuldade e resistencia em compreender-se e aceitar-se (como, de resto, resulta evidente quer dos ataques sistematicos de que tenho sido abertamente alvo neste blog - seja directamente aqui por "desconhecidos", seja indirectamente noutros blogs bem identificados na lusosfera -, quer das campanhas que, de forma mais ou menos velada e insidiosa me teem sido dirigidas a partir de Angola, sobretudo, mas nao apenas, atraves de uma “certa imprensa” controlada por grupos financeiros portugueses, ou seus associados...) que os angolanos, ou pelo menos (grandes!) segmentos deles, o facam, ou pretendam fazer, de forma civica e democratica no seu proprio pais?

E, nesse particular, parece-me que eu me encontro neste momento muito mais na posicao dos emigrantes portugueses de ontem e de hoje que se diz serem e terem sido vitimas do chauvinismo, escarnio e oprobrio dos seus compatriotas “que ficaram”, do que na dos ditos “angolanos genuinos” que se diz “entenderem ter recebido Angola como heranca dos seus ancestrais”...


3. Economia – Angola tem vindo, de ha’ uns anos a esta parte, a apresentar niveis “espectaculares” de crescimento economico – facto. Portugal encontra-se neste momento a apresentar niveis, igualmente “espectaculares”, de recessao economica – facto. Sera’ natural que um numero cada vez maior de portugueses busquem oportunidades economicas noutras paragens e, em especial, em Angola, sua antiga “joia da coroa” – facto. O que ja’ nao sera’ tao natural, nem tao factual assim, e’ que se tente transformar tudo isso num caso de “atraccao fatal” entre os dois paises... Desde logo porque nao ha’ nada nos principios fundamentais da economia, seja ela de mercado ou nao - e muito menos nos de uma economia globalizada e competitiva como a que “estamos com ela” quer queiramos e gostemos quer nao -, que o fundamente.

O facto e’ que, qualquer que seja o modelo economico adoptado, “crescimento do PIB” nao significa ipso facto “desenvolvimento economico” e a sistematica marginalizacao, quando nao total exclusao da maioria dos angolanos dos beneficios desse crescimento economico - e ate’ mesmo da sua participacao/contribuicao para ele, em particular por parte de alguns que, como eu, se viram forcados a permanecer no exterior por varias circunstancias adversas originadas no pais (... e provocadas por angolanos!...) e que sao ostensivamente hostilizados por alguns sectores proteccionistas de uma certa auto-designada “prata da casa”... -, devido a um inexistente ou deficiente investimento no stock de capital humano nacional e a sua absorcao e integracao sistematica num processo consistente de desenvolvimento economico-social e cultural endogeno, sustentado e sustentavel, apenas tende a elevar os “muros de resistencia” ao crescente numero de estrangeiros (portugueses ou nao) aportando presentemente as costas angolanas e, em muitos casos, sem qualquer controlo... e isso, no longo prazo, nao e’ bom para ninguem, “genuinos” ou nao – facto.

A realidade e’ que a actual politica de imigracao de Angola e’ explicita e ostensivamente enviezada contra os africanos que tentam entrar pelas suas fronteiras terrestres (como os cartoons, adaptados daqui, com que ilustro este texto o explicitam), nao contra os portugueses: estes, como todas as estatisticas o revelam, nao so’ teem ido para Angola e “em forca” nos ultimos anos sem grandes empecilhos, como e’ em Portugal que os angolanos endinheirados fazem o grosso dos seus gastos de consumo e investimentos publicos e privados.

[E abro aqui um parentesis para sugerir o seguinte: imagine-se que apenas uma infima fraccao dos verdadeiros "balurdios" de dinheiro publico usados pela Sonangol em investimentos em Portugal, fosse aplicada no financiamento de investimentos produtivos trabalho-intensivos que criassem emprego nas regioes fronteiricas, tanto em Angola, como nos paises vizinhos. Nao seriam tais investimentos muito mais recomendaveis, louvaveis e ate' rentaveis sob todos os pontos de vista - desde logo, porque teriam o condao de funcionar como um "travao" aos fluxos migratorios por razoes economicas nessas areas e contribuiriam para o tao propalado "desenvolvimento e independencia economica do continente", para alem de funcionarem como um mecanismo de poupanca dos recursos materiais e financeiros actualmente empregues no patrulhamento das fronteiras e controlo/contencao/repressao dos emigrantes africanos pretendendo entrar em Angola e, em ultima analise, contribuirem de forma substantiva, permanente e duravel para a prosperidade, paz e seguranca regional... - especialmente neste momento em que Angola assume, mais uma vez, a presidencia da SADC?!]

E na base de tudo isso esta’ uma ideia de “desenvolvimento” que tem no periodo colonial o seu “modelo”. Acontece que os niveis de “desenvolvimento” atingidos sob tal “modelo” tinham por base um regime politico-ideologico que nao me parece ser o mais adaptavel, certamente nao o mais adequado, quer 'a Angola, quer ao Portugal, quer ao Mundo de hoje. Modelo esse, alias, que foi de forma magistral e visionaria descrito e denunciado por Viriato da Cruz nos termos em que aqui parcialmente destaquei...

Todas essas questoes, abordei-as, de forma mais ‘academica’, recentemente aqui , e de forma mais ‘prosaica’, ha’ ja’ algum tempo, aqui - onde, note-se, dos posicionamentos de Pepetela, a par dos de outros membros da inteligentzia angolana, ou luso-angolana, que sobre essas questoes se teem pronunciado publicamente nos ultimos tempos, resulta evidente que a corrente onda dominante nao e’ adversa 'a ‘recolonizacao’ de Angola pelos portugueses, como, de resto aqui se pode constatar ad nauseum: bem pelo contrario!

E nao deixa de ser interessante notar a este proposito que essa mesma inteligentzia conta entre as suas fileiras com alguns dos que nao so' dizem ter participado na "luta contra o colonialismo" (e desse estatuto de "antigos combatentes" muita gala fazem e amplos beneficios vitalicios, pessoais e familiares, colhem...), como se destacaram entre os mais radicais no desmantelamento e "transformacao revolucionaria" do tal "patamar tecno-juridico-administrativo que Angola ja' teve", em nome da criacao, desenvolvimento e reproducao do dito "homem novo"... a comecar pelo sistema de ensino! ... E quem naquela altura se lhes opusesse, ainda que passivamente, era apelidado de "contra-revolucionario", "pequeno burgues", "lacaio do colonialismo", "agente do imperialismo", etc. etc. etc. ... Nao deixo, porem, de lhes gabar a "coerencia": foram tao radicais em relacao 'a "descolonizacao" como o sao agora em relacao 'a "recolonizacao" (enfim, em quaisquer circunstancias "iguais a si proprios"!) ... o que talvez nao seja de todo estranho ao facto de certas neofitas formacoes politicas ultra-minoritarias precisarem desesperadamente de alargar a sua base eleitoral de apoio...

E, aqui, convira' distinguir-se claramente "recolonizacao" sem qualquer qualificacao, planificacao ou priorizacao (o que, alias, o poema aqui em questao, revela: "escolhe uma profissao"...), de "cooperacao" (economica, tecnico-cientifica e profissional) - esta existe, e sempre existiu desde a independencia, com Portugal e com outros paises, e se os portugueses podem contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola com a "vantagem comparativa" da sua lingua e cultura devido a historia que liga os dois paises, pois eles sao e sempre foram bem vindos (idos) naquelas areas e sectores onde realmente tal "vantagem comparativa" possa ser transformada em "valor acrescentado" para ambas as partes. Mas que nao se perca de vista, por via da chamada "neofita ideologia dos (pretensos) afectos", que Portugal nao e' o unico pais que pode contribuir para o processo de desenvolvimento de Angola.

Veja-se, a esse respeito, o caso de Mocambique que, desde a sua independencia, aderiu 'a Commonwealth, adoptou o Ingles praticamente como sua segunda lingua oficial e tem um leque bastante diversificado de parceiros de cooperacao economica internacional, sem que por isso tenha impedido Portugal, ou os portugueses, de la' viverem, regressarem, ou trabalharem...

Enfim, em geito de conclusao, parece-me ser avisado que tanto angolanos (“genuinos” ou nao), como portugueses (tambem “genuinos” ou nao), bem como todos os nacionais de outros paises, ajam neste momento historico particularmente critico da vida de Angola tao racionalmente quanto possivel face aos factos e realidades, nao aos mitos e ficcoes, em presenca.

Tudo o resto nao passara’ de um pernicioso e patetico “display de emoti(c)ons” com mais do que previsiveis consequencias nefastas para todas as partes – a Historia de Angola revela-o a saciedade!

Tenho dito.





P.S.: Acrescentaria apenas as seguintes notas a margem:

i. A proposito de "fechamentos sociais e economicos" ou, se se preferir, mecanismos de exclusao social, tradicionais em Angola, esta citacao de David Sogge: "Colonial and post-colonial elites showed no interest in creating an ‘open access order’ based on citizenship for all and competitive markets. A path was laid down around a weak but autocratic colonial state dependent on outside powers. Mediocre institutions and underskilled people were additional legacies. Angolan nationalist movements, their leaders imbued with norms of a ‘limited access order’, and habituated to the use of armed force, had no ready alternatives when they assumed power.";


ii. Em relacao a todas essas questoes, mas em particular a suposta "dificuldade de entendimento e aceitacao" por parte da generalidade dos portugueses da diversidade etnico-linguistica de Angola, seria recomendavel uma exploracao da area da Historia Moderna designada Subaltern Studies;


iii. Sobre os movimentos trans-fronteiricos entre Angola e o Congo (Zaire) em epocas mais recuadas, com a devida venia, esta detalhada descricao por Fernando Ribeiro:

Nos troços de fronteira entre Angola e o Zaire em que não houvesse obstáculos naturais, não existia qualquer vedação ou outra barreira que impedisse a comunicação entre ambos os lados. A fronteira estava apenas assinalada por marcos de pedra em forma de grossos obeliscos, com 2 metros de altura ou pouco mais, que mostravam o escudo da monarquia portuguesa, esculpido em baixo relevo, no lado virado para Angola, o da monarquia belga no lado virado para o Zaire e o ano de 1895 gravado por cima de cada um dos escudos. Os marcos fronteiriços estavam colocados a uma distância de cerca de 40 quilómetros uns dos outros, talvez, e estavam milimetricamente alinhados uns pelos outros, numa linha reta espantosamente rigorosa.

Como, nos troços onde não havia obstáculos naturais, a fronteira estava desimpedida, ela era atravessada por caminhos de pé posto, que todos os dias eram percorridos por pessoas que passavam "a salto" de Angola para o Zaire e vice-versa. O movimento de pessoas ao longo destes carreiros era bastante intenso. Angolanos (refugiados ou não) e zairenses circulavam de um lado para o outro ao longo do dia, em função, sobretudo, das feiras mensais e mercados rurais que de ambos os lados se iam realizando. Levavam os produtos das suas lavras (campos), a fim de os vender onde fossem mais caros, e traziam as mercadorias de que necessitavam, compradas onde elas fossem mais baratas. É evidente que os contrabandistas (havia bastantes) também faziam um uso intensivo destes caminhos transfronteiriços.

Assim que o sol nascia, nas zonas onde houvesse uma sanzala do lado de Angola que ficasse próxima da fronteira e estivesse dotada de uma escola, os caminhos referidos eram percorridos por crianças, vindas do Zaire para Angola, que vinham frequentar as aulas. Estas crianças percorriam a pé vários quilómetros a caminho da escola e eram as primeiras pessoas que atravessavam a fronteira logo pela manhãzinha.

Estas crianças eram filhas de angolanos refugiados no Zaire. Os seus encarregados de educação faziam questão em que elas frequentassem uma escola angolana, porque queriam que elas não se esquecessem das suas raízes, apesar de já terem nascido no exílio, se sentissem orgulhosas de Angola e soubessem falar, ler e escrever em português.



[aqui, onde, ja' agora, tambem se pode ver esta descricao de Kinshasa e ouvir um pouco da musica do magistral Franco]




Thursday, 4 March 2010

1960-2010: “The Year of Africa” 50 Years On (III)


Depois da viagem no tempo entre "a razao da nossa luta" e "o estado da nossa nacao", regresso a esta serie para uma viagem no espaco que me e’ sugerida por este texto de Ismael Mateus.

Ele transportou-me, ainda que por caminhos um tanto invios, de volta a este apontamento sobre Basquiat – esse que tambem, por seus proprios caminhos invios, nos diz algo sobre o Haiti…
Nao que o perfil e trajectoria dos personagens mencionados por Mateus (os “arlindos”, como lhes chama)* tenham alguma coisa a ver com a vida e obra de Basquiat – embora me ocorra um personagem Angolano, por sinal da minha geracao e, felizmente, ainda vivo, que se lhe assemelha bastante, apesar de se dedicar a outras artes… - e, nao obstante um dos "arlindos" mencionados ja' aqui ter sido apelidado "O Execravel Puto Pe' Descalco", os seus nada teem em comum com os artisticamente descalcos pes de Basquiat!

Tal como o que me levou a Basquiat naquele apontamento nao foi exactamente o proprio, tambem neste caso sao outras as linhas que a ele me transportam: nomeadamente, aquela percepcao de "misplaced identities" (identidades deslocadas, ou fora do seu "espaco de pertenca natural") e esses “seis graus de separacao” (que podem bem ser entre um cadeirao de chefe num novo arranha-ceus envidracado e um luando num velho quintal de terra batida, ou entre a cidade do asfalto e o musseke dos becos), mais a ideia, que se impoe como uma perene espada de Damocles sobre a precaridade de certas “conquistas”, de se estar sempre sujeito a ser-se, de subito, retornado ao lugar de onde se proveio ("go back to where you came from"), associada ao imperativo de, como convem a pobres e insignificantes criaturas, “saber-se sempre o que nos espera!”… Ao que alguns “intelectuais”, mui pomposa e vacuamente, chamariam “involucoes”, "declinacoes", ou "reconversoes" pos-coloniais de uma (ja’ longinqua?) “revolucao” anti-colonial…

Ah!... isso e o 'meu celebre' Basquiat “1960” que, tal como alguns postais ilustrativos da sua obra que comprei em New York no que parecem ser ja’ tempos longinquos, continua sumido num qualquer dos 'trunks' das minhas deambulacoes espaciais dos ultimos anos… mas do qual ontem finalmente (!) consegui encontrar uma imagem aqui – por estranha coincidencia (?) ilustrando (ad infinitum) precisamente um texto que na altura obtive de outras fontes e a que me referi naquele apontamento de ha’ 3 anos!

Et voila, c’est ca la vie au village, avec du bon fufu (funge) et du poisson grille' aromatise' que la grand-mere a prepare', como diria o nosso eterno Manu Dibango – esse que, entre muita outra boa musica criou e tocou Abidjan City, cidade que seria tambem a unica em Africa a ser visitada por Basquiat (embora a influencia do nosso continente na sua obra se revele muito mais vasta, chegando a incluir o Kongo e os seus Nkisi, como pode ser constatado aqui , o que nao sera' de todo uma ocorrencia "out of this world" se atendermos ao facto, aqui notado pelo academico Isaac Bigio, de a populacao do Haiti ser predominantemente descendente de escravos Africanos originarios da regiao Kongo-Niger...) – o que me leva a musica e a esse “You Were There”, ja’ antes bastante tocado neste blog e que aqui volta para nos (re)lembrar de "Marco Mulher" e de como “we're brought into this world” (…talvez em 1960, esse ano seminal para mim, para Basquiat e para a Africa pos-colonial…) e de como “we grow up and get taught the difference between right and wrong” e depois “we grow old and choose for ourselves what’s right and what’s wrong in our own lives”…


You Were There
(Nontuthuzelo Pouane with Marcus Wyatt)


*Entretanto, soube que Arlindo Isabel ja’ se encontra a frente de uma nova editora, a Mayamba...
Um "arlindo" sortudo?

Depois da viagem no tempo entre "a razao da nossa luta" e "o estado da nossa nacao", regresso a esta serie para uma viagem no espaco que me e’ sugerida por este texto de Ismael Mateus.

Ele transportou-me, ainda que por caminhos um tanto invios, de volta a este apontamento sobre Basquiat – esse que tambem, por seus proprios caminhos invios, nos diz algo sobre o Haiti…
Nao que o perfil e trajectoria dos personagens mencionados por Mateus (os “arlindos”, como lhes chama)* tenham alguma coisa a ver com a vida e obra de Basquiat – embora me ocorra um personagem Angolano, por sinal da minha geracao e, felizmente, ainda vivo, que se lhe assemelha bastante, apesar de se dedicar a outras artes… - e, nao obstante um dos "arlindos" mencionados ja' aqui ter sido apelidado "O Execravel Puto Pe' Descalco", os seus nada teem em comum com os artisticamente descalcos pes de Basquiat!

Tal como o que me levou a Basquiat naquele apontamento nao foi exactamente o proprio, tambem neste caso sao outras as linhas que a ele me transportam: nomeadamente, aquela percepcao de "misplaced identities" (identidades deslocadas, ou fora do seu "espaco de pertenca natural") e esses “seis graus de separacao” (que podem bem ser entre um cadeirao de chefe num novo arranha-ceus envidracado e um luando num velho quintal de terra batida, ou entre a cidade do asfalto e o musseke dos becos), mais a ideia, que se impoe como uma perene espada de Damocles sobre a precaridade de certas “conquistas”, de se estar sempre sujeito a ser-se, de subito, retornado ao lugar de onde se proveio ("go back to where you came from"), associada ao imperativo de, como convem a pobres e insignificantes criaturas, “saber-se sempre o que nos espera!”… Ao que alguns “intelectuais”, mui pomposa e vacuamente, chamariam “involucoes”, "declinacoes", ou "reconversoes" pos-coloniais de uma (ja’ longinqua?) “revolucao” anti-colonial…

Ah!... isso e o 'meu celebre' Basquiat “1960” que, tal como alguns postais ilustrativos da sua obra que comprei em New York no que parecem ser ja’ tempos longinquos, continua sumido num qualquer dos 'trunks' das minhas deambulacoes espaciais dos ultimos anos… mas do qual ontem finalmente (!) consegui encontrar uma imagem aqui – por estranha coincidencia (?) ilustrando (ad infinitum) precisamente um texto que na altura obtive de outras fontes e a que me referi naquele apontamento de ha’ 3 anos!

Et voila, c’est ca la vie au village, avec du bon fufu (funge) et du poisson grille' aromatise' que la grand-mere a prepare', como diria o nosso eterno Manu Dibango – esse que, entre muita outra boa musica criou e tocou Abidjan City, cidade que seria tambem a unica em Africa a ser visitada por Basquiat (embora a influencia do nosso continente na sua obra se revele muito mais vasta, chegando a incluir o Kongo e os seus Nkisi, como pode ser constatado aqui , o que nao sera' de todo uma ocorrencia "out of this world" se atendermos ao facto, aqui notado pelo academico Isaac Bigio, de a populacao do Haiti ser predominantemente descendente de escravos Africanos originarios da regiao Kongo-Niger...) – o que me leva a musica e a esse “You Were There”, ja’ antes bastante tocado neste blog e que aqui volta para nos (re)lembrar de "Marco Mulher" e de como “we're brought into this world” (…talvez em 1960, esse ano seminal para mim, para Basquiat e para a Africa pos-colonial…) e de como “we grow up and get taught the difference between right and wrong” e depois “we grow old and choose for ourselves what’s right and what’s wrong in our own lives”…


You Were There
(Nontuthuzelo Pouane with Marcus Wyatt)


*Entretanto, soube que Arlindo Isabel ja’ se encontra a frente de uma nova editora, a Mayamba...
Um "arlindo" sortudo?

Thursday, 18 June 2009

OLHARES DIVERSOS (V)

AINDA SOBRE O 'JUNE 16, 1976'

Por ocasiao da passagem de mais um aniversario do massacre de Soweto - perpetrado pelas forcas policiais do regime do apartheid sobre criancas, adolescentes e jovens estudantes negros sul-africanos que se manifestavam contra a obrigatoriedade do ensino do Afrikaans, e a exclusao do Ingles e disciplinas estruturantes como as Ciencias Naturais e a Matematica, nos seus curriculos escolares -, agora celebrado como o 'Dia da Juventude' na Africa do Sul e tambem como 'Dia da Crianca Africana' no resto do continente, recebi ontem uma referencia a este artigo, com esta nota:

"(não sei bem quando é que nós, em Angola, "começámos a degenerar...", mas acho que estas questões se aplicam igualmente, tão bem, a qualquer um dos nossos países...talvez fosse um bom exercício tentarmos encontrar respostas para o nosso caso? - xxxx)"


O artigo (que esta' em Ingles, mas acredito que os leitores exclusivos de Portugues poderao 'apanhar' o seu sentido geral atraves deste post) sugeriu-me os seguintes comentarios:

"The perversion of economic growth and its fruits begins when we attempt to make up for the scarcity of public goods by producing more private ones, and to find in private consumption a barren solace for social frustration."

1. O crescimento economico e’ geralmente definido como o resultado da taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Os seus frutos sao, por conseguinte, os rendimentos, tanto do sector publico como do privado, dele auferidos. Portanto, para o crescimento economico concorre tambem o sector privado, dai decorrendo que a producao de bens privados nao e’ necessariamente uma “perversao do crescimento economico”. A haver “perversao”, ela decorrera’ das politicas distributivas e redistributivas do PIB adoptadas pelo governo, que poderao ou nao, dependendo das preferencias e escolhas dos cidadaos, que sao ditadas sobretudo por factores culturais, conduzir a “to find in private consumption a barren solace for social frustration” por alguns individuos ou sectores da sociedade;

2. Ha’ no ‘statement’ uma flagrante confusao entre “bens publicos” e “servicos publicos”. Os bens publicos, por definicao, nao podem, ou nao devem, ser privatizados, ao passo que os servicos publicos o podem ser. A privatizacao de certos servicos publicos, ou seus sub-sectores, tem-se revelado, em muitos casos, socialmente benefica, particularmente la’ onde o estado tem uma limitada capacidade de os prover com eficiencia. O beneficio social desse tipo de privatizacao e’ tanto maior quanto mais ele for feito sob sub-contratacao com o estado, o qual passa a agir apenas como “distribuidor” desses servicos ao publico para o seu consumo privado, gratuitamente ou a precos subsidiados. Ele pode tambem ter, em varios casos, efeitos redistributivos positivos, tanto para provedores como para consumidores, nos sectores mais carenciados da sociedade, particularmente quando tais servicos podem ser prestados por populares normalmente afectos ao sector informal (e.g., descontando a ‘nuisance’ que eles podem ser nas estradas, “candongueiros” prestando servicos de transporte publico);

3. “The scarcity of public goods (ou melhor dito, de 'public services')” em paises como a Africa do Sul e Angola resulta, nao necessaria ou exclusivamente do crescimento economico ou da privatizacao mas – entre outros factores, como o crescimento demografico e a sangria de quadros pelas mais diversas razoes (particularmente, e coincidindo com o agravamento da pandemia do SIDA, do sector de saude publica da Africa do Sul, especialmente para paises como a Australia e o UK) – do crescimento da demanda por servicos publicos que no tempo do apartheid e do colonialismo, respectivamente, eram restritos apenas a uma minoria. A concessao, como um direito constitucional universal, de um acesso generalizado aos servicos publicos sob os novos regimes (que no caso de Angola se torna mais dramatico com as restricoes impostas pela inicial estatizacao da economia e com a concentracao das populacoes na capital devido a guerra), sem um correspondente aumento da capacidade de oferta por parte do estado e’ que cria a tal escassez. Ora, o que tem que se saber e’ se o crescimento economico da Africa do Sul post-apartheid foi suficiente para criar tal capacidade e a mesma questao se poe em relacao a Angola do pos-guerra, ou, se se preferir, do pos-independencia;

4. Qualquer que seja a resposta a essas questoes, ha’ que ter em conta que quem privatiza determinados servicos, que de outro modo estariam exclusivamente na esfera do sector publico, na Africa do Sul, nao e’ apenas o estado mas tambem, e sobretudo, os investidores privados, nacionais ou estrangeiros, por sua propria iniciativa empresarial, como alias ja’ se verificava antes do fim do apartheid. O mesmo se passa agora em Angola (ressalvando o facto, obviamente condenavel, de alguns provedores de servicos privados o fazerem fraudulentamente a custa de fundos publicos obtidos ilicitamente, ou de ‘benesses’ varias do estado… mas essa e’, quanto a mim, uma questao a ser analisada sob outros parametros analiticos). E quem recorre a esses servicos privados e‘ quem pode, ou quem quer, como em todo o lado. Mas isso nao significa necessariamente, como o autor implica, que os servicos privados sejam sempre superiores aos prestados pelo sector publico e ha’ bastantes exemplos disso em toda a parte e em varios sectores, desde a saude a comunicacao social, passando pela educacao;

5. Quanto a pergunta “If you had a choice, would you like your mother to be treated in a public or private hospital?” e todas as que se lhe seguem, julgo que elas devem ser ponderadas a luz do ponto anterior. Mas a questao fundamental aqui, do ponto de vista redistributivo, nao e’ “if you had a choice”, mas a quem e’ que e’ dada essa escolha nos nossos paises e porque? E aqui estou a pensar particularmente no caso de Angola, porque no caso da Africa do Sul, teem essa escolha os que a podem pagar com o rendimento do seu trabalho, ou de contribuicoes pessoais para fundos de provisao de saude a titulo privado, ou atraves de outros esquemas de seguranca social. No caso de Angola, sei apenas que para a esmagadora maioria dos cidadaos (parcial ou completamente excluidos) tal escolha nao e’ sequer uma possibilidade…

6. Agora, a percepcao de “degeneracao” na Africa do Sul parte claramente de um pressuposto ideologico que o autor nao explicita, e e’ pena que nao o faca, embora se o depreenda do sentido geral do discurso. Em particular, seria importante que ele demonstrasse que os indicadores sociais para a maioria da populacao na era post-apartheid sao piores que os da era anterior. Nao e’ isso, no entanto, o que as estatisticas teem demonstrado, tanto quanto e’ do meu conhecimento (veja-se, por exemplo o relatorio que aqui postei ha' algum tempo). Pode-se argumentar que eles poderiam ser melhores do que teem sido, nao fosse a pandemia do SIDA, as alegadas ma’ governacao, corrupcao e factores correlatos, ou os efeitos da actual crise economica global? Concerteza! Mas dai a falar-se em “degeneracao”, vai alguma distancia… particularmente se se tiverem em conta dois “bens publicos” fundamentais e inestimaveis produzidos pelo fim do apartheid: a Liberdade e a Democracia (e, no caso de Angola, a conquista da Paz). E por essa e todas as razoes apontadas nos pontos anteriores, do meu ponto de vista, embora o autor disso pareca nao se aperceber, o seu e’ precisamente um dos tipos de discurso que podem ser eficazmente usados (e estao precisamente a ser usados neste momento - embora por elementos de diferentes espectros sociais, economicos, culturais, politicos e/ou ideologicos - tanto em Angola como na Africa do Sul...) por “populist leaders, threatening to recommence the destructive pendular swing between economic populism and economic orthodoxy”, num ambiente de crescente exclusao social…

7. Finalmente, quanto a questao central: “Where were you and what did you do when (Angola) began to degenerate?”

Eu (que, alegadamente - ou, mais precisamente, segundo uma significantissima menina-bem "mais angolana do que a Angolanidade" -, "fugi de Angola em 1975 por nao aguentar a Dipanda pela qual ela lutou"...) estava nos laranjais do Mazozo, depois de ter passado pelos canaviais do Bom Jesus, numa celebre “campanha de producao estudantil”, corria precisamente o ano de 1976. Passei fome e humilhacoes com os meus colegas de acampamento (muitas vezes, para arranjarmos qualquer coisa para comer tinhamos que fazer, a pe, os oito kilometros ate’ e de Catete), mas nao deixei de ir ao campo trabalhar todos os dias. Vim de la’ com uma infeccao nos pes e nas pernas, provocada pelas picadas dos miruis e pelo contacto directo com a terra, sem qualquer tratamento por nao o haver disponivel, que me deixou cicatrizes para o resto da vida (... esses mesmos pes que hoje servem de motivo de xacota nos blogs das mesmas significancias acima referidas...).

Contudo, nao foi isso que me desalentou e me fez pensar naquele episodio como o principio da “degeneracao”: o que o fez foi que, tanto no meu acampamento como pelo que tive noticias de outros, nao se viu qualquer filho ou filha de “mwata” nos campos durante aquela campanha (onde estariam? Sei apenas que muitos se encontravam 'nos cavalos' e nas praias de Luanda, ou de ferias na Europa, isto quando nao andavam efectivamente foragidos da Dipanda...). Isso constituiu uma “degeneracao” tambem no sentido em que eramos todos da mesma “geracao”, dos mesmos estabelecimentos de ensino em Luanda e estavamos todos, pelo menos no discurso vigente, imbuidos do “mesmo espirito”… E la’ dizia Fanon, como o autor sublinha: "We who are citizens of the under-developed countries, we ought to seek every occasion for contact with the rural masses … We ought never to lose contact with the people [who have] battled for [their] independence and for the concrete betterment of [their] existence" – o que alias sempre fiz na minha vida, uma vez que uma parte significativa, com intervalos pelo meio, da primeira metade da minha vida ate hoje foi passada em zonas rurais, com aqueles a quem devo o que sou hoje e que tambem contribuiram, cada um a seu modo, para a nossa independencia e o melhoramento das nossas vidas: os meus pais e avos, restante familia alargada e comunidades locais.

Mas, pior do que o que me aconteceu naquele acampamento, foi que durante os meses que andei em tratamento, ja' em Luanda, com as pernas e pes enfaixados, nao recebi uma visita, ou um telefonema sequer, dos “meus camaradas” que tinham ficado na capital a organizar aquele que foi, afinal, um tremendo “falhanco logistico”, a perguntar como e’ que eu estava e se precisava de alguma coisa... Esse foi, aos meus olhos, o primeiro sinal de que algo se estava a “degenerar” em Angola. “What did I do?” Continuei com a minha vida – sempre a enfrentar mais e mais sinais de “degeneracao” economica, social, cultural e moral na sociedade angolana, ate’ hoje. E todos eles aconteceram, ou comecaram a acontecer, muito antes dos adventos do “neoliberalismo”, da “privatizacao” e do “crescimento economico” no pais…
AINDA SOBRE O 'JUNE 16, 1976'

Por ocasiao da passagem de mais um aniversario do massacre de Soweto - perpetrado pelas forcas policiais do regime do apartheid sobre criancas, adolescentes e jovens estudantes negros sul-africanos que se manifestavam contra a obrigatoriedade do ensino do Afrikaans, e a exclusao do Ingles e disciplinas estruturantes como as Ciencias Naturais e a Matematica, nos seus curriculos escolares -, agora celebrado como o 'Dia da Juventude' na Africa do Sul e tambem como 'Dia da Crianca Africana' no resto do continente, recebi ontem uma referencia a este artigo, com esta nota:

"(não sei bem quando é que nós, em Angola, "começámos a degenerar...", mas acho que estas questões se aplicam igualmente, tão bem, a qualquer um dos nossos países...talvez fosse um bom exercício tentarmos encontrar respostas para o nosso caso? - xxxx)"


O artigo (que esta' em Ingles, mas acredito que os leitores exclusivos de Portugues poderao 'apanhar' o seu sentido geral atraves deste post) sugeriu-me os seguintes comentarios:

"The perversion of economic growth and its fruits begins when we attempt to make up for the scarcity of public goods by producing more private ones, and to find in private consumption a barren solace for social frustration."

1. O crescimento economico e’ geralmente definido como o resultado da taxa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). Os seus frutos sao, por conseguinte, os rendimentos, tanto do sector publico como do privado, dele auferidos. Portanto, para o crescimento economico concorre tambem o sector privado, dai decorrendo que a producao de bens privados nao e’ necessariamente uma “perversao do crescimento economico”. A haver “perversao”, ela decorrera’ das politicas distributivas e redistributivas do PIB adoptadas pelo governo, que poderao ou nao, dependendo das preferencias e escolhas dos cidadaos, que sao ditadas sobretudo por factores culturais, conduzir a “to find in private consumption a barren solace for social frustration” por alguns individuos ou sectores da sociedade;

2. Ha’ no ‘statement’ uma flagrante confusao entre “bens publicos” e “servicos publicos”. Os bens publicos, por definicao, nao podem, ou nao devem, ser privatizados, ao passo que os servicos publicos o podem ser. A privatizacao de certos servicos publicos, ou seus sub-sectores, tem-se revelado, em muitos casos, socialmente benefica, particularmente la’ onde o estado tem uma limitada capacidade de os prover com eficiencia. O beneficio social desse tipo de privatizacao e’ tanto maior quanto mais ele for feito sob sub-contratacao com o estado, o qual passa a agir apenas como “distribuidor” desses servicos ao publico para o seu consumo privado, gratuitamente ou a precos subsidiados. Ele pode tambem ter, em varios casos, efeitos redistributivos positivos, tanto para provedores como para consumidores, nos sectores mais carenciados da sociedade, particularmente quando tais servicos podem ser prestados por populares normalmente afectos ao sector informal (e.g., descontando a ‘nuisance’ que eles podem ser nas estradas, “candongueiros” prestando servicos de transporte publico);

3. “The scarcity of public goods (ou melhor dito, de 'public services')” em paises como a Africa do Sul e Angola resulta, nao necessaria ou exclusivamente do crescimento economico ou da privatizacao mas – entre outros factores, como o crescimento demografico e a sangria de quadros pelas mais diversas razoes (particularmente, e coincidindo com o agravamento da pandemia do SIDA, do sector de saude publica da Africa do Sul, especialmente para paises como a Australia e o UK) – do crescimento da demanda por servicos publicos que no tempo do apartheid e do colonialismo, respectivamente, eram restritos apenas a uma minoria. A concessao, como um direito constitucional universal, de um acesso generalizado aos servicos publicos sob os novos regimes (que no caso de Angola se torna mais dramatico com as restricoes impostas pela inicial estatizacao da economia e com a concentracao das populacoes na capital devido a guerra), sem um correspondente aumento da capacidade de oferta por parte do estado e’ que cria a tal escassez. Ora, o que tem que se saber e’ se o crescimento economico da Africa do Sul post-apartheid foi suficiente para criar tal capacidade e a mesma questao se poe em relacao a Angola do pos-guerra, ou, se se preferir, do pos-independencia;

4. Qualquer que seja a resposta a essas questoes, ha’ que ter em conta que quem privatiza determinados servicos, que de outro modo estariam exclusivamente na esfera do sector publico, na Africa do Sul, nao e’ apenas o estado mas tambem, e sobretudo, os investidores privados, nacionais ou estrangeiros, por sua propria iniciativa empresarial, como alias ja’ se verificava antes do fim do apartheid. O mesmo se passa agora em Angola (ressalvando o facto, obviamente condenavel, de alguns provedores de servicos privados o fazerem fraudulentamente a custa de fundos publicos obtidos ilicitamente, ou de ‘benesses’ varias do estado… mas essa e’, quanto a mim, uma questao a ser analisada sob outros parametros analiticos). E quem recorre a esses servicos privados e‘ quem pode, ou quem quer, como em todo o lado. Mas isso nao significa necessariamente, como o autor implica, que os servicos privados sejam sempre superiores aos prestados pelo sector publico e ha’ bastantes exemplos disso em toda a parte e em varios sectores, desde a saude a comunicacao social, passando pela educacao;

5. Quanto a pergunta “If you had a choice, would you like your mother to be treated in a public or private hospital?” e todas as que se lhe seguem, julgo que elas devem ser ponderadas a luz do ponto anterior. Mas a questao fundamental aqui, do ponto de vista redistributivo, nao e’ “if you had a choice”, mas a quem e’ que e’ dada essa escolha nos nossos paises e porque? E aqui estou a pensar particularmente no caso de Angola, porque no caso da Africa do Sul, teem essa escolha os que a podem pagar com o rendimento do seu trabalho, ou de contribuicoes pessoais para fundos de provisao de saude a titulo privado, ou atraves de outros esquemas de seguranca social. No caso de Angola, sei apenas que para a esmagadora maioria dos cidadaos (parcial ou completamente excluidos) tal escolha nao e’ sequer uma possibilidade…

6. Agora, a percepcao de “degeneracao” na Africa do Sul parte claramente de um pressuposto ideologico que o autor nao explicita, e e’ pena que nao o faca, embora se o depreenda do sentido geral do discurso. Em particular, seria importante que ele demonstrasse que os indicadores sociais para a maioria da populacao na era post-apartheid sao piores que os da era anterior. Nao e’ isso, no entanto, o que as estatisticas teem demonstrado, tanto quanto e’ do meu conhecimento (veja-se, por exemplo o relatorio que aqui postei ha' algum tempo). Pode-se argumentar que eles poderiam ser melhores do que teem sido, nao fosse a pandemia do SIDA, as alegadas ma’ governacao, corrupcao e factores correlatos, ou os efeitos da actual crise economica global? Concerteza! Mas dai a falar-se em “degeneracao”, vai alguma distancia… particularmente se se tiverem em conta dois “bens publicos” fundamentais e inestimaveis produzidos pelo fim do apartheid: a Liberdade e a Democracia (e, no caso de Angola, a conquista da Paz). E por essa e todas as razoes apontadas nos pontos anteriores, do meu ponto de vista, embora o autor disso pareca nao se aperceber, o seu e’ precisamente um dos tipos de discurso que podem ser eficazmente usados (e estao precisamente a ser usados neste momento - embora por elementos de diferentes espectros sociais, economicos, culturais, politicos e/ou ideologicos - tanto em Angola como na Africa do Sul...) por “populist leaders, threatening to recommence the destructive pendular swing between economic populism and economic orthodoxy”, num ambiente de crescente exclusao social…

7. Finalmente, quanto a questao central: “Where were you and what did you do when (Angola) began to degenerate?”

Eu (que, alegadamente - ou, mais precisamente, segundo uma significantissima menina-bem "mais angolana do que a Angolanidade" -, "fugi de Angola em 1975 por nao aguentar a Dipanda pela qual ela lutou"...) estava nos laranjais do Mazozo, depois de ter passado pelos canaviais do Bom Jesus, numa celebre “campanha de producao estudantil”, corria precisamente o ano de 1976. Passei fome e humilhacoes com os meus colegas de acampamento (muitas vezes, para arranjarmos qualquer coisa para comer tinhamos que fazer, a pe, os oito kilometros ate’ e de Catete), mas nao deixei de ir ao campo trabalhar todos os dias. Vim de la’ com uma infeccao nos pes e nas pernas, provocada pelas picadas dos miruis e pelo contacto directo com a terra, sem qualquer tratamento por nao o haver disponivel, que me deixou cicatrizes para o resto da vida (... esses mesmos pes que hoje servem de motivo de xacota nos blogs das mesmas significancias acima referidas...).

Contudo, nao foi isso que me desalentou e me fez pensar naquele episodio como o principio da “degeneracao”: o que o fez foi que, tanto no meu acampamento como pelo que tive noticias de outros, nao se viu qualquer filho ou filha de “mwata” nos campos durante aquela campanha (onde estariam? Sei apenas que muitos se encontravam 'nos cavalos' e nas praias de Luanda, ou de ferias na Europa, isto quando nao andavam efectivamente foragidos da Dipanda...). Isso constituiu uma “degeneracao” tambem no sentido em que eramos todos da mesma “geracao”, dos mesmos estabelecimentos de ensino em Luanda e estavamos todos, pelo menos no discurso vigente, imbuidos do “mesmo espirito”… E la’ dizia Fanon, como o autor sublinha: "We who are citizens of the under-developed countries, we ought to seek every occasion for contact with the rural masses … We ought never to lose contact with the people [who have] battled for [their] independence and for the concrete betterment of [their] existence" – o que alias sempre fiz na minha vida, uma vez que uma parte significativa, com intervalos pelo meio, da primeira metade da minha vida ate hoje foi passada em zonas rurais, com aqueles a quem devo o que sou hoje e que tambem contribuiram, cada um a seu modo, para a nossa independencia e o melhoramento das nossas vidas: os meus pais e avos, restante familia alargada e comunidades locais.

Mas, pior do que o que me aconteceu naquele acampamento, foi que durante os meses que andei em tratamento, ja' em Luanda, com as pernas e pes enfaixados, nao recebi uma visita, ou um telefonema sequer, dos “meus camaradas” que tinham ficado na capital a organizar aquele que foi, afinal, um tremendo “falhanco logistico”, a perguntar como e’ que eu estava e se precisava de alguma coisa... Esse foi, aos meus olhos, o primeiro sinal de que algo se estava a “degenerar” em Angola. “What did I do?” Continuei com a minha vida – sempre a enfrentar mais e mais sinais de “degeneracao” economica, social, cultural e moral na sociedade angolana, ate’ hoje. E todos eles aconteceram, ou comecaram a acontecer, muito antes dos adventos do “neoliberalismo”, da “privatizacao” e do “crescimento economico” no pais…

Wednesday, 10 June 2009

KADA UM E’ KUMO KADA KUAL, E KADA KUAL E’…

... KUMO ENVIDENTEMENTE!

Le-se aqui, entre outros ‘preciosismos’ de um "distinto compatriota" (embora seja pouco provavel que ele me considere sua compatriota, mas adiante…), [cujo BI angolano contera' os seguintes elementos: negro, angolano, nascido e criado em Portugal (um pais onde o racismo e’ supostamente apenas ‘imaginario’) ate' 1975, filho de um cabindense embarcadico e de uma caboverdiana e, tanto quanto julgo saber, (va-se la’ saber por forca de que ‘diferencas reais ou imaginarias’, mas admitamos que tambem apenas acidentalmente) casado com uma mulher branca (ou, apressemo-nos a dize-lo, ‘sem raca’, porque isso e’, evidentemente, ‘coisa real ou imaginaria’)]*, a proposito da questao da mencao da raca no BI em Angola, isto: “Ora, o racismo é precisamente entendido como sendo ‘a valorização generalizada e definitiva de diferenças reais ou imaginárias em proveito do acusador e em detrimento da vítima a fim de justificar uma agressão ou um privilégio’ [MEMMI (1993): 72].”

Pois eu ca’ pergunto aos meus reais e imaginarios botoes: “serao tais ‘diferencas reais ou imaginarias’ responsaveis pela barragem a entrada, em certos locais de Luanda e outras capitais provinciais (discotecas, restaurantes, hoteis e mesmo empresas), de determinados grupos de cidadaos nacionais com base na cor da sua pele? (agressao)”; “terao sido tais ‘diferencas reais ou imaginarias’ que fizeram com que, so’ para dar um pequeno exemplo, durante a minha recente estada em Luanda, tendo eu marcado pessoalmente por telefone uma entrevista com o PCA de uma determinada empresa (digamos apenas que ‘de raca nao negra’), o qual conheco de longa data – ele deveria, portanto, estar a minha espera – alguem (tambem ‘de raca nao negra’), nao obstante saber desse facto, manifestasse uma aflitiva preocupacao de que eu pudesse ser “barrada” na recepcao da tal empresa, coisa que nem sequer em algum momento me tinha passado pela cabeca?... nao que eu estivesse exactamente vestida, ou geralmente apresentada, como uma mendiga ou criminosa…(agressao)”; “serao tambem as mesmas ‘diferencas reais ou imaginarias’ que determinam a composicao racial dos empregados (constituida maioritariamente, senao exclusivamente, por individuos digamos que ‘de raca nao negra’) em grande parte das empresas e, mais particularmente, nas bancarias e petroliferas baseadas em Angola (veja-se, por exemplo, esta noticia)? (privilegio)”; “serao ainda tais ‘diferencas reais ou imaginarias’ que fazem com que a agenda dos autores das mais estridentes “homilias” ditas “anti-racistas” no pais contenham pouco mais do que apenas um “single issue”: a mencao da raca no BI – nao se vendo o seu empenho, ainda que pretenso, em quaisquer outras causas anti-racistas que afectam, contemporanea ou historicamente, directa ou indirectamente, real ou imaginariamente, a que seria suposto ser a ‘nossa consciencia colectiva’ enquanto seres humanos (valorização generalizada e definitiva de diferenças reais ou imaginárias – supostamente induzidas pela mencao da raca no BI e efectivamente institucionalizadas pela presuncao da falta generalizada e definitiva de capacidade, educacao, competencia, profissionalismo, etica, moral, cultura, e mesmo ‘elegancia’, dos ‘de raca negra’ (comprovando que, efectivamente, “é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”) – em proveito do acusador e em detrimento da vítima a fim de justificar uma agressão ou um privilégio)?”

E os meus botoes, reais e imaginarios, respondem-me zombateiramente: “e’ pedido a alguem o BI a entrada de discotecas e outros locais de lazer?”; “em que base e’ que o tal ‘alguem de raca nao negra’ previu que pudesses ser barrada a entrada da tal empresa onde tinhas entrevista previamente marcada com o teu conhecido PCA?”; “a admissao de empregados nas tais empresas que referes e’ determinada exclusivamente pelo que o seu BI contem?”; “e nao te lembras dos actos ostensivamente discriminatorios e de exclusao social praticados contra a generalidade dos ‘compatriotas de raca negra’ e sem ‘nomes sonantes’ no BI, que eram publicamente apelidados de “lixo de Angola”, no tempo em que o nosso doutor exercia funcoes na ‘nossa embaixada’ em Portugal – um tempo em que a raca nao constava dos nossos BIs – ao mesmo tempo que o 'nosso' embaixador naquele pais, no auge das manifestacoes da opiniao publica contra os actos de racismo praticados contra os negros la' residentes, afirmava publicamente 'nao acreditar que houvesse racismo em Portugal', quando naquelas circunstancias poderia diplomaticamente remeter-se apenas ao silencio?“; “frankamente, nao ves ke essa e’ uma falsa kestao com os termos completamente invertidos pelo acusador, e beneficiador do status quo, em detrimento da vitima?”…

Bom, tendo eu vivido e trabalhado nos ultimos anos predominantemente em dois paises:

- Um, a Inglaterra, no qual nao existe BI e a maioria dos cidadaos se opoem resolutamente a sua adopcao, mas onde, no entanto, a mencao, ainda que nao obrigatoria e a titulo confidencial, da raca, da etnicidade e do genero em determinados formularios de acesso (que nao preclude, de modo nenhum, a competicao) a oportunidades, seja de emprego ou servicos publicos de educacao, saude e habitacao, se tem revelado um efectivo, embora ainda nao perfeito, instrumento de monitorizacao e implementacao das existentes politicas de igualdade de direitos e oportunidades entre todos os cidadaos legitimos, independentemente da sua origem ou qualquer outro factor discriminante;

- Outro, a Africa do Sul post-apartheid, cognominado "a nacao arco-iris” em celebracao da sua diversidade etnico-cultural e racial, onde existe BI e neste e’ indicada a raca dos individuos (embora apenas por codigos numericos), sem que, no entanto, essa se tenha constituido numa “questao de maior”, se e’ que alguma vez foi sequer uma questao, entre os diversos grupos, maioritarios ou minoritarios, que coabitam nesta sociedade – a “questao de maior” para as minorias aqui tem sido a “accao afirmativa” a favor da maioria (a qual, no entanto, se tem revelado “discriminatoria e excludente” mais no seu imaginario do que na realidade social; tal como, alias, as “manias de perseguicao” das minorias racicas angolanas se teem revelado na pratica…), mas mesmo essa questao eles aqui teem enderecado de forma racional atraves, inclusive, de partidos politicos que a elegeram como seu “single issue”...

… Envidentemente ke vejo ke, em Angola, essa e’ uma falsa kestao!

Acontece, porem, que, ao contrario do que se passa na Inglaterra e na Africa do Sul, as minorias racicas em Angola, o que se deve tambem em alguma medida a precaridade do sistema democratico no pais, ainda estao longe de um grau de emancipacao cultural e politica que lhes permita, de moto proprio, assumirem-se descomplexadamente como tal e lutarem democraticamente pelo que consideram ser “seus direitos” – parece que a (ex)FpD e’ o primeiro partido politico no pais a encaminhar-se claramente nessa direccao, embora nao o tenha (ainda) assumido abertamente –, preferindo, em geral, viver a sombra de uma bananeira utopica, pretensamente plantada no pais pelo “homem novo que veio da mata, o qual tera’ erradicado a catanada a discriminacao racial contra a maioria dos nacionais e que so’ essa coisa da raca no BI veio trazer de volta”, muito provavelmente porque tal sombra esconde a realidade nua e crua: o tapete vermelho de privilegios sociais que nunca lhes foi retirado de debaixo dos pes desde o fim “oficial” do colonialismo... sob pena de quem sequer "se atrevesse a sonhar" com tal possibilidade ser "sumariamente executado", real ou virtualmente!

E, antes que os meus botoes voltem a zombar de mim, devo esclarecer o seguinte: nao faco a menor ideia de quais foram os fundamentos da inclusao da raca no BI em Angola e, para mim, para todos os efeitos praticos, efectivos e reais, isso sempre foi completamente irrelevante. Mais esclareco que considero que tal inclusao nao e’ em si mesma um acto necessariamente discriminatorio, uma vez que trata de forma igual os principais ‘grupos racicos’ existentes no pais (note-se que falo em ‘grupos racicos’, tal como eles sao geralmente entendidos em Angola, nao em ‘grupos etnicos’, o que permite que algumas minorias consideradas marginalizadas, como os Khoisan ou os albinos de ‘raca negra’ sejam integrados naqueles) e, se quisermos ‘parabolizar’ ainda mais a questao, poderiamos ate’ dizer que ela constitui a assumpcao e instituicao da tal “diversidade cultural numa sociedade pluriracial e multietnica, assumindo e respeitando as diferencas”, que o autor aparentemente pretende defender.

Discriminatorio e excludente seria se apenas a um ou a outro grupo fosse imposto tal quesito. Mas, mais importante do que isso, o factor operativo na pratica do racismo nao e’ a simples alusao a ‘raca’, mas o que os individuos fazem da dita – qualquer que seja a definicao, ou negacao, que se lhe atribua. Dito de outro modo, a mencao da raca no BI apenas tem um efeito discriminatorio se na sociedade em que ele e’ usado estiverem em actuacao, sem qualquer escrutinio politico ou social pelos cidadaos, factores objectivos e subjectivos que permitam a discriminacao e intolerancia racial e a exclusao social nelas baseada (essa a principal razao, por exemplo, da oposicao dos Britanicos a sua introducao naquele pais, por ter sido proposta pelo governo no post-Setembro 11, no contexto da "guerra contra o terrorismo"...) – e toda a evidencia indica que tais factores nao so’ existem na sociedade angolana, como operam predominantemente em desfavor da maioria negra.

Ora, o que alguns paises do mundo actual, e em particular os que acima menciono, compreenderam a custa de muitas lutas anti-racistas durante decadas, e’ que nao e’ apenas um documento que substancia o status economico, social, etnico, racial ou cultural do seu titular e que incluir ou nao a raca no BI, o qual, ademais, contem a foto do titular, nao e’ mais do que uma redundancia (no caso da inclusao) ou operacao cosmetica (no caso da omissao ou remocao). O que esses paises adquiriram como ‘consciencia colectiva’ atraves de tais lutas, foi que o racismo e’ muito mais do que “skin-deep”, isto e’, e’ um fenomeno psicologico, socio-cultural e historico muito mais profundo e complexo do que apenas a designacao da cor da pele dos individuos, o qual apenas politicas anti-discriminatorias eficazmente monitorizadas podem contrariar de forma efectiva, sendo que tal monitorizacao podera’ eventualmente implicar a mencao da raca em alguns documentos, se tal for considerado, de forma responsavel, socialmente util e pertinente num determinado contexto historico e demografico, desde que o sistema politico vigente contenha mecanismos impeditivos de que tal mencao seja usada em detrimento de quem quer que seja – o que idealmente deveria ser o caso em Angola, a menos que tenhamos que admitir que estamos efectivamente perante “um estado racista”. E enquanto tais politicas forem totalmente inexistentes, ou puramente ignoradas em Angola, e’-me, envidentemente, kompletamente indiferente ke o elemento ‘raca’ seja, ou nao, retirado do BI.

Mas, mais importante do que tudo isso, para mim o racismo, tal como todas as outras formas de discriminacao, nao e’, nunca foi, uma questao teorica – e’ uma questao pratica, uma realidade vivida frente aos nossos olhos, com efeitos imediatos e inter-geracionais e que, consequentemente, exige medidas praticas, nao teoricas, para a sua erradicacao. E cada vez mais me convenco de que apenas quem o tenha, real e efectivamente, sofrido na pele e na alma, vendo a sua vida quotidiana e perspectivas futuras completamente por ele afectadas, e o tenha honestamente decidido enfrentar – e nao escamotear como quem tenta tapar o sol com a peneira ou com uma mascara a fim de perpetuar os privilegios para o usufruto dos quais julga ter nascido, assim agredindo insensivelmente da forma mais violenta e atroz as verdadeiras vitimas das piores formas de racismo, discriminacao e exclusao social –, e’ capaz de o compreender na sua totalidade e profundidade e contra ele eficaz, descomplexada e construtivamente lutar, a bem das geracoes futuras.


*Tenho perfeita nocao de que, com isto, estou, mais uma vez, a entrar de cabeca num territorio minadissimo e que so’ me tem trazido dissabores pessoais desde que me vi forcada, por variadissimas razoes, a entrar no “debate racial” em Angola (que, quanto a mim, nao tem sido sequer um “debate” digno desse nome, ficando-se invariavelmente pelo arremessar de armas mais ou menos legitimadas pelo poder do estado – aqui entendido como o executor das vontades, preferencias e interesses da maioria economica, social e cultural, que nao coincide necessariamente com a maioria racial – contra quem “se atreva” a questionar o discurso ideologico-propagandistico, subsidiario de um certo lusotropicalismo, instituido para la’ dos respectivos BIs). Neste caso, de forma ainda mais ‘kamikaze’ do que o habitual, por mencionar particularidades pessoais do autor cujo texto aqui discuto… Valer-me-ha’ de alguma coisa dizer que tal mencao e’ tao legitima e pertinente quanto a que ele faz das origens de Crummell ou do por ele malfadado (e, atrevo-me a dizer, mal percebido) Panafricanismo? Muito provavelmente nao, mas, ainda assim (e mesmo guardando entre os meus botoes reais o 'aviso' contido na frase "(...) sou animal político o bastante para reconhecer, que há lugares em que a verdade prejudica mais do que ajuda”...), disponho-me a incorrer em todos os riscos inerentes a este meu (mais um!) atrevimento…
... KUMO ENVIDENTEMENTE!

Le-se aqui, entre outros ‘preciosismos’ de um "distinto compatriota" (embora seja pouco provavel que ele me considere sua compatriota, mas adiante…), [cujo BI angolano contera' os seguintes elementos: negro, angolano, nascido e criado em Portugal (um pais onde o racismo e’ supostamente apenas ‘imaginario’) ate' 1975, filho de um cabindense embarcadico e de uma caboverdiana e, tanto quanto julgo saber, (va-se la’ saber por forca de que ‘diferencas reais ou imaginarias’, mas admitamos que tambem apenas acidentalmente) casado com uma mulher branca (ou, apressemo-nos a dize-lo, ‘sem raca’, porque isso e’, evidentemente, ‘coisa real ou imaginaria’)]*, a proposito da questao da mencao da raca no BI em Angola, isto: “Ora, o racismo é precisamente entendido como sendo ‘a valorização generalizada e definitiva de diferenças reais ou imaginárias em proveito do acusador e em detrimento da vítima a fim de justificar uma agressão ou um privilégio’ [MEMMI (1993): 72].”

Pois eu ca’ pergunto aos meus reais e imaginarios botoes: “serao tais ‘diferencas reais ou imaginarias’ responsaveis pela barragem a entrada, em certos locais de Luanda e outras capitais provinciais (discotecas, restaurantes, hoteis e mesmo empresas), de determinados grupos de cidadaos nacionais com base na cor da sua pele? (agressao)”; “terao sido tais ‘diferencas reais ou imaginarias’ que fizeram com que, so’ para dar um pequeno exemplo, durante a minha recente estada em Luanda, tendo eu marcado pessoalmente por telefone uma entrevista com o PCA de uma determinada empresa (digamos apenas que ‘de raca nao negra’), o qual conheco de longa data – ele deveria, portanto, estar a minha espera – alguem (tambem ‘de raca nao negra’), nao obstante saber desse facto, manifestasse uma aflitiva preocupacao de que eu pudesse ser “barrada” na recepcao da tal empresa, coisa que nem sequer em algum momento me tinha passado pela cabeca?... nao que eu estivesse exactamente vestida, ou geralmente apresentada, como uma mendiga ou criminosa…(agressao)”; “serao tambem as mesmas ‘diferencas reais ou imaginarias’ que determinam a composicao racial dos empregados (constituida maioritariamente, senao exclusivamente, por individuos digamos que ‘de raca nao negra’) em grande parte das empresas e, mais particularmente, nas bancarias e petroliferas baseadas em Angola (veja-se, por exemplo, esta noticia)? (privilegio)”; “serao ainda tais ‘diferencas reais ou imaginarias’ que fazem com que a agenda dos autores das mais estridentes “homilias” ditas “anti-racistas” no pais contenham pouco mais do que apenas um “single issue”: a mencao da raca no BI – nao se vendo o seu empenho, ainda que pretenso, em quaisquer outras causas anti-racistas que afectam, contemporanea ou historicamente, directa ou indirectamente, real ou imaginariamente, a que seria suposto ser a ‘nossa consciencia colectiva’ enquanto seres humanos (valorização generalizada e definitiva de diferenças reais ou imaginárias – supostamente induzidas pela mencao da raca no BI e efectivamente institucionalizadas pela presuncao da falta generalizada e definitiva de capacidade, educacao, competencia, profissionalismo, etica, moral, cultura, e mesmo ‘elegancia’, dos ‘de raca negra’ (comprovando que, efectivamente, “é mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”) – em proveito do acusador e em detrimento da vítima a fim de justificar uma agressão ou um privilégio)?”

E os meus botoes, reais e imaginarios, respondem-me zombateiramente: “e’ pedido a alguem o BI a entrada de discotecas e outros locais de lazer?”; “em que base e’ que o tal ‘alguem de raca nao negra’ previu que pudesses ser barrada a entrada da tal empresa onde tinhas entrevista previamente marcada com o teu conhecido PCA?”; “a admissao de empregados nas tais empresas que referes e’ determinada exclusivamente pelo que o seu BI contem?”; “e nao te lembras dos actos ostensivamente discriminatorios e de exclusao social praticados contra a generalidade dos ‘compatriotas de raca negra’ e sem ‘nomes sonantes’ no BI, que eram publicamente apelidados de “lixo de Angola”, no tempo em que o nosso doutor exercia funcoes na ‘nossa embaixada’ em Portugal – um tempo em que a raca nao constava dos nossos BIs – ao mesmo tempo que o 'nosso' embaixador naquele pais, no auge das manifestacoes da opiniao publica contra os actos de racismo praticados contra os negros la' residentes, afirmava publicamente 'nao acreditar que houvesse racismo em Portugal', quando naquelas circunstancias poderia diplomaticamente remeter-se apenas ao silencio?“; “frankamente, nao ves ke essa e’ uma falsa kestao com os termos completamente invertidos pelo acusador, e beneficiador do status quo, em detrimento da vitima?”…

Bom, tendo eu vivido e trabalhado nos ultimos anos predominantemente em dois paises:

- Um, a Inglaterra, no qual nao existe BI e a maioria dos cidadaos se opoem resolutamente a sua adopcao, mas onde, no entanto, a mencao, ainda que nao obrigatoria e a titulo confidencial, da raca, da etnicidade e do genero em determinados formularios de acesso (que nao preclude, de modo nenhum, a competicao) a oportunidades, seja de emprego ou servicos publicos de educacao, saude e habitacao, se tem revelado um efectivo, embora ainda nao perfeito, instrumento de monitorizacao e implementacao das existentes politicas de igualdade de direitos e oportunidades entre todos os cidadaos legitimos, independentemente da sua origem ou qualquer outro factor discriminante;

- Outro, a Africa do Sul post-apartheid, cognominado "a nacao arco-iris” em celebracao da sua diversidade etnico-cultural e racial, onde existe BI e neste e’ indicada a raca dos individuos (embora apenas por codigos numericos), sem que, no entanto, essa se tenha constituido numa “questao de maior”, se e’ que alguma vez foi sequer uma questao, entre os diversos grupos, maioritarios ou minoritarios, que coabitam nesta sociedade – a “questao de maior” para as minorias aqui tem sido a “accao afirmativa” a favor da maioria (a qual, no entanto, se tem revelado “discriminatoria e excludente” mais no seu imaginario do que na realidade social; tal como, alias, as “manias de perseguicao” das minorias racicas angolanas se teem revelado na pratica…), mas mesmo essa questao eles aqui teem enderecado de forma racional atraves, inclusive, de partidos politicos que a elegeram como seu “single issue”...

… Envidentemente ke vejo ke, em Angola, essa e’ uma falsa kestao!

Acontece, porem, que, ao contrario do que se passa na Inglaterra e na Africa do Sul, as minorias racicas em Angola, o que se deve tambem em alguma medida a precaridade do sistema democratico no pais, ainda estao longe de um grau de emancipacao cultural e politica que lhes permita, de moto proprio, assumirem-se descomplexadamente como tal e lutarem democraticamente pelo que consideram ser “seus direitos” – parece que a (ex)FpD e’ o primeiro partido politico no pais a encaminhar-se claramente nessa direccao, embora nao o tenha (ainda) assumido abertamente –, preferindo, em geral, viver a sombra de uma bananeira utopica, pretensamente plantada no pais pelo “homem novo que veio da mata, o qual tera’ erradicado a catanada a discriminacao racial contra a maioria dos nacionais e que so’ essa coisa da raca no BI veio trazer de volta”, muito provavelmente porque tal sombra esconde a realidade nua e crua: o tapete vermelho de privilegios sociais que nunca lhes foi retirado de debaixo dos pes desde o fim “oficial” do colonialismo... sob pena de quem sequer "se atrevesse a sonhar" com tal possibilidade ser "sumariamente executado", real ou virtualmente!

E, antes que os meus botoes voltem a zombar de mim, devo esclarecer o seguinte: nao faco a menor ideia de quais foram os fundamentos da inclusao da raca no BI em Angola e, para mim, para todos os efeitos praticos, efectivos e reais, isso sempre foi completamente irrelevante. Mais esclareco que considero que tal inclusao nao e’ em si mesma um acto necessariamente discriminatorio, uma vez que trata de forma igual os principais ‘grupos racicos’ existentes no pais (note-se que falo em ‘grupos racicos’, tal como eles sao geralmente entendidos em Angola, nao em ‘grupos etnicos’, o que permite que algumas minorias consideradas marginalizadas, como os Khoisan ou os albinos de ‘raca negra’ sejam integrados naqueles) e, se quisermos ‘parabolizar’ ainda mais a questao, poderiamos ate’ dizer que ela constitui a assumpcao e instituicao da tal “diversidade cultural numa sociedade pluriracial e multietnica, assumindo e respeitando as diferencas”, que o autor aparentemente pretende defender.

Discriminatorio e excludente seria se apenas a um ou a outro grupo fosse imposto tal quesito. Mas, mais importante do que isso, o factor operativo na pratica do racismo nao e’ a simples alusao a ‘raca’, mas o que os individuos fazem da dita – qualquer que seja a definicao, ou negacao, que se lhe atribua. Dito de outro modo, a mencao da raca no BI apenas tem um efeito discriminatorio se na sociedade em que ele e’ usado estiverem em actuacao, sem qualquer escrutinio politico ou social pelos cidadaos, factores objectivos e subjectivos que permitam a discriminacao e intolerancia racial e a exclusao social nelas baseada (essa a principal razao, por exemplo, da oposicao dos Britanicos a sua introducao naquele pais, por ter sido proposta pelo governo no post-Setembro 11, no contexto da "guerra contra o terrorismo"...) – e toda a evidencia indica que tais factores nao so’ existem na sociedade angolana, como operam predominantemente em desfavor da maioria negra.

Ora, o que alguns paises do mundo actual, e em particular os que acima menciono, compreenderam a custa de muitas lutas anti-racistas durante decadas, e’ que nao e’ apenas um documento que substancia o status economico, social, etnico, racial ou cultural do seu titular e que incluir ou nao a raca no BI, o qual, ademais, contem a foto do titular, nao e’ mais do que uma redundancia (no caso da inclusao) ou operacao cosmetica (no caso da omissao ou remocao). O que esses paises adquiriram como ‘consciencia colectiva’ atraves de tais lutas, foi que o racismo e’ muito mais do que “skin-deep”, isto e’, e’ um fenomeno psicologico, socio-cultural e historico muito mais profundo e complexo do que apenas a designacao da cor da pele dos individuos, o qual apenas politicas anti-discriminatorias eficazmente monitorizadas podem contrariar de forma efectiva, sendo que tal monitorizacao podera’ eventualmente implicar a mencao da raca em alguns documentos, se tal for considerado, de forma responsavel, socialmente util e pertinente num determinado contexto historico e demografico, desde que o sistema politico vigente contenha mecanismos impeditivos de que tal mencao seja usada em detrimento de quem quer que seja – o que idealmente deveria ser o caso em Angola, a menos que tenhamos que admitir que estamos efectivamente perante “um estado racista”. E enquanto tais politicas forem totalmente inexistentes, ou puramente ignoradas em Angola, e’-me, envidentemente, kompletamente indiferente ke o elemento ‘raca’ seja, ou nao, retirado do BI.

Mas, mais importante do que tudo isso, para mim o racismo, tal como todas as outras formas de discriminacao, nao e’, nunca foi, uma questao teorica – e’ uma questao pratica, uma realidade vivida frente aos nossos olhos, com efeitos imediatos e inter-geracionais e que, consequentemente, exige medidas praticas, nao teoricas, para a sua erradicacao. E cada vez mais me convenco de que apenas quem o tenha, real e efectivamente, sofrido na pele e na alma, vendo a sua vida quotidiana e perspectivas futuras completamente por ele afectadas, e o tenha honestamente decidido enfrentar – e nao escamotear como quem tenta tapar o sol com a peneira ou com uma mascara a fim de perpetuar os privilegios para o usufruto dos quais julga ter nascido, assim agredindo insensivelmente da forma mais violenta e atroz as verdadeiras vitimas das piores formas de racismo, discriminacao e exclusao social –, e’ capaz de o compreender na sua totalidade e profundidade e contra ele eficaz, descomplexada e construtivamente lutar, a bem das geracoes futuras.


*Tenho perfeita nocao de que, com isto, estou, mais uma vez, a entrar de cabeca num territorio minadissimo e que so’ me tem trazido dissabores pessoais desde que me vi forcada, por variadissimas razoes, a entrar no “debate racial” em Angola (que, quanto a mim, nao tem sido sequer um “debate” digno desse nome, ficando-se invariavelmente pelo arremessar de armas mais ou menos legitimadas pelo poder do estado – aqui entendido como o executor das vontades, preferencias e interesses da maioria economica, social e cultural, que nao coincide necessariamente com a maioria racial – contra quem “se atreva” a questionar o discurso ideologico-propagandistico, subsidiario de um certo lusotropicalismo, instituido para la’ dos respectivos BIs). Neste caso, de forma ainda mais ‘kamikaze’ do que o habitual, por mencionar particularidades pessoais do autor cujo texto aqui discuto… Valer-me-ha’ de alguma coisa dizer que tal mencao e’ tao legitima e pertinente quanto a que ele faz das origens de Crummell ou do por ele malfadado (e, atrevo-me a dizer, mal percebido) Panafricanismo? Muito provavelmente nao, mas, ainda assim (e mesmo guardando entre os meus botoes reais o 'aviso' contido na frase "(...) sou animal político o bastante para reconhecer, que há lugares em que a verdade prejudica mais do que ajuda”...), disponho-me a incorrer em todos os riscos inerentes a este meu (mais um!) atrevimento…