Showing posts with label PAULA TAVARES. Show all posts
Showing posts with label PAULA TAVARES. Show all posts

Monday, 6 December 2010

Como veias finas na terra [Updated]




Novo livro de uma das poetisas mais reconhecidas de Angola. Os referentes temáticos são africanos, mas são tratados de uma forma universal e intimista, através de uma escrita delicada, depurada, imagética.


Assim publicitam os seus editores este novo livro de Ana Paula Tavares, a ser lancado amanha em Lisboa.

Trata-se de mais uma obra de uma Mulher serena, culta e madura, com personalidade e identidade proprias bem vincadas, que, recentemente, depois de longos anos sem nos vermos e sem termos tido qualquer contacto, por razoes alheias a vontade de ambas, muito profunda e agradavelmente me surpreendeu com uma mensagem por e-mail, a que se seguiu (como aqui ha' tempos referi de passagem) o retomar de uma Amizade que, malgre' tout, nunca se perdeu pelas vias finas na terra.

Aqui deixo, em sua homenagem e com a devida venia, um registo de algumas das palavras que me dirigiu nessa correspondencia:




Querida Ana,
Há muito que queria escrever-te, lembrar uma amizade antiga e
saudar-te pelo magnifico blog. Bem hajas por tão apurado trabalho e um abraço da
Ana paula tavares.
(...)
Vida de muitas voltas que terás que escrever
para os nossos filhos e para memória futura. a nossa terra tem uma tal
vitalidade que as coisas do Antigamente na vida tendem a esquecer-se depressa.
(...)
Mas acho que não andas longe da história e a tua formação será
contributo de primeira água.
(...)
Quanto a ti uma economista que gosta
e sabe a história é mais importante que o historiador preso nos seus papéis.
Acredita. Quanto à escrita entendo as tuas preocupações e sei que vai chegar o
momento. Ser contra a corrente é ser escritor a sério, é saber quando se fala e
quando se reune no silêncio a ciência certa da escrita. Um abraço da Ana paula



Enfim, como diria o Mais Velho Raul David, e eu subscreveria, "uma Mulher muito educada e que sabe estar"!


Bem Hajas, Ana Paula Tavares, porque, a seres "unica", es de facto a unica Mulher que respeito o suficiente para nao deixar de estimar e desejar todo o sucesso do mundo, mesmo quando, ocasionalmente, a natural divergencia de opinioes sobre questoes pontuais entre duas pessoas naturalmente diferentes e com trajectorias diferentes, mas com um "chao comum", nos parecem distanciar...
Ou quando quem nunca connosco partilhou esse "chao comum", por longinquo que agora possa parecer, nos tenta a todo o custo distanciar e "enclausurar-te" em seus, ainda que apenas psicopaticamente imaginarios, "circulos restritos", como aconteceu quando (... numa "estorieta infantil" que hoje, infelizmente, mais uma vez se repete...) me vi compelida a tecer este comentario (que sei que sabes bem que, em circunstancias normais, nao faria - certamente nao da forma, ou no local, em que o fiz...), muito anterior a correspondencia que hoje aqui decidi "ecoar" a bem, como referes, de uma memoria futura para os nossos filhos que seja, acima de tudo e de todos, verdadeira e saudavel.


Um abraco (sempre) amigo da (outra) Ana Paula.


[Mais detalhes sobre o lancamento do livro aqui]




ADENDA


No seguimento da minha resposta ao "Poeta Amigo", abaixo, decidi tecer aqui as seguintes observacoes adicionais:


Devo dizer que sempre aceitei TODO o tipo de criticas razoaveis ao meu trabalho, embora em alguns casos mais "duvidosos", como dizem os ingleses, “with a pinch of salt”... Isso porque, em primeiro lugar, nunca fui “auto-convencida” em relacao a minha poesia ao ponto de ignorar, ou mesmo deixar de solicitar, a opiniao de outros sobre ela e, em segundo lugar, porque, pelo menos ate’ muito recentemente, sempre me permiti ser “ingenua” o suficiente para acreditar que alguem que se de ao trabalho de ditar “sentencas lapidares” sobre algo sempre tao pessoal e delicado como a poesia, teria sensibilidade e sagacidade suficientes para nao se deixar cair no flagrante delito do ataque pessoal!

Mas a verdade e’ que, se a minha entrada na blogosfera teve algum merito, ele foi o de me abrir completa e definitivamente os olhos para o quao baixo certas pessoas sao capazes de descer, frequentemente movidas apenas pelo despeito e o ressaibo, ou pela inveja, o ciume e o odio, quando nao apenas pelo racismo puro e duro!... Ou, tao so’, para se “vingarem e ressarcirem” da sua incapacidade de defenderem coerente, congruente, racional e inteligentemente as 'suas ideias e posicionamentos' em debates abertos comigo sobre outras questoes (o tal de "convem sabermos sempre o que nos espera"!) ... E so’ tenho pena que muito desse “trash” acabe por passar por “critica construtiva e honesta”... Muita pena mesmo!

Mas, chegada a este estagio da minha vida, ja’ nao e’ por mim, nem pela minha poesia, que sinto pena, mas apenas por quem produz tal “trash” e por quem eventualmente o consuma... Ja’ para nao mencionar as outras poetas angolanas (...continuo a preferir “ignorar” aqui, em nome do conceito de “genero”, o masculino/feminino que continua a ter outra/os a tratar as mulheres que escrevem poesia como “poetisas”...) aparentemente “esquecidas” no meio de tudo isso.

Diria apenas que, quaisquer que sejam as “driving forces” por detras dos nossos respectivos processos criativos e por diversos que sejam os nossos “outputs” literarios, tanto qualitativa como quantitativamente, e quaisquer que tenham sido as motivacoes de quem decidiu publicar os nossos primeiros livros simultaneamente [*], creio ser certo e seguro que nem eu, nem a Paula Tavares, decidimos comecar (ou continuar, ou nao) a escrever para emular (certamente nao para “hostilizar” ou “eclipsar”) a outra e muito menos para que a nossa poesia fosse usada como "arma de arremesso" por outra(o)s em guerras intestinas, quentes ou frias, com motivacoes racicas que nada teem a ver com poesia (algo que, de resto, deixei aqui bem claro!) ... e mesmo que eu tambem tivesse publicado tanto quanto, ou mesmo mais do que ela, haveria sempre “gostos e desgostos para todos os gostos” em relacao a poesia de uma e de outra... e isto pressupondo um ambiente literario, cultural, social e politico circundante “sadio, calmo e tranquilo” e nao aquele que constitui o nosso “chao comum”, como aqui se pode constatar!

Anyway, creio nao valer a pena dizer muito mais sobre tudo isso, excepto talvez uma breve nota sobre a “credibilidade da critica literaria”: nos extractos que acima tomei a liberdade de transcrever, a Paula Tavares fala em “ciencia certa da escrita” – um conceito certamente nao pacifico (!), mas que aceito provisoriamente.

Pois bem, em toda a ciencia, o criterio de validacao de qualquer “veredicto” e’ estabelecido pela objectividade e racionalidade dos seus fundamentos, os quais nao podem, em nenhuma circunstancia, ser baseados apenas em criterios de subjectividade pessoal (como a afectividade ou a amizade - e, a este proposito, recordo uma conhecida doutorada em letras/ critica literaria (?) que, numa cronica publicada no SA, se declarou abertamente suspeita por, juntamente com outra proeminente sua congenere brasileira, ser "amiga da Paula Tavares"...), preferencias esteticas individuais (como a cor da pele), ou conviccoes politico-ideologicas ou religiosas e muito menos em comparacoes e ilacoes aleatorias e arbitrarias completamente abstraidas do contexto especifico e das condicoes concretas em que a "ciencia" (neste caso a "escrita") se produz, condicoes essas em que se incluem factores historicos, sociais, culturais, psicologicos e etico-morais, entre outros (como os, mais obvios, "marcadores (etno)linguisticos e/ou geograficos") ...

Assim, o estabelecimento de qualquer veredicto sobre o que, ou quem, e’ “unico”, pressupoe a existencia, ou o estabelecimento, de um padrao, ou canone, igualmente “unico”, extremamente dificil (senao impossivel!) de estabelecer “cientificamente” em literatura e muito mais ainda em poesia... - uma questao, alias, amplamente evidenciada por este kibeto.

Mas, talvez mais determinante dalguns desses "veredictos" (e aqui refiro-me apenas aqueles que podem com propriedade reclamar alguma “objectividade e isencao” e, consequentemente, alguma "credibilidade"...) e’ que, como aqui recentemente observei, o “mundo lusofono” e’, sempre foi desde Camoes, um “mundo de poetas” (veja-se, por exemplo, o sucesso que fazem os blogs de poesia na lusosfera...), em que a ciencia sempre foi “subalternizada” relativamente a literatura, e em particular a poesia, e a pratica simultanea de ambas vista como "antagonica" (...mas, veja-se a este proposito o caso de Fernando Pessoa...), sendo, em particular, disciplinas/profissoes como a economia vistas geralmente como "frias e calculistas" ou "insensiveis e a-sociais" (algo reflectido de algum modo, embora nao explicitamente, aqui e aqui) ... Mas, sobre isso, lembro-me de, ha’ ja’ varios anos, ainda em Lisboa, ter concedido uma entrevista a uma jornalista/escritora brasileira em que lhe dizia algo como isto: “Os poetas (ou pelo menos alguns) teem o sonho de mudar o mundo para melhor, os economistas (ou pelo menos alguns) tambem (e o espirito do velho Marx por ai ainda paira para o provar) ... apenas com uma diferenca: estes podem faze-lo por outros (quica mais eficazes...) meios e metodos!”

E isso sem qualquer demerito para os poetas em geral, e menos ainda para a regularidade, a proficuidade e a qualidade da producao poetica da Paula Tavares – sobre a qual, devo aqui enfatizar, nunca teci qualquer comentario menos abonatorio: a referencia a “divergencias de opiniao” que faco acima prende-se a algumas questoes pontuais emanentes de algumas das suas cronicas - duas para ser mais precisa - sobre as quais comentei noutros posts aqui neste blog. O unico comentario um tanto “mais problematico” que fiz, e foi apenas a um dos seus poemas e, acrescente-se, “forcadamente”, foi ao seu uso da “sua mascara da Pwo”, mas o contexto em que o fiz revela claramente que nao o fiz por razoes estritamente poeticas, mas por razoes mais amplamente historicas e socio-culturais - as quais podem ser identificadas aqui...

Tendo dito tudo isso, resta-me apenas pedir, mais uma vez, desculpas a Ana Paula Tavares por ter assim “violado a nossa correspondencia”, que preferiria ter mantido, como deveria, privada – mas... como soi dizer-se, “para grandes males, grandes remedios!”





[*] Torna-se meu dever registar aqui que ouvi diversas vezes, por diversas pessoas e de diversas formas, que "eu so' fui 'promovida' para a UEA (... o tal "porque promover uns e nao outros?"...) e o meu livro publicado simultaneamente, numa especie de "accao afirmativa", para 'cobrir' o lancamento da Paula Tavares pela mesma UEA e 'precaver' as previsiveis acusacoes de racismo com que na altura aquela instituicao vivia cercada... Certo ou errado, o facto e' que, infelizmente, madames como esta e, mais recentemente, esta e estas, apenas teem corroborado essa versao... Mas, tambem sera' de notar que a mensagem de um dos postais, incluido aqui, que recebi de quem foi responsavel por tal lancamento simultaneo, Luandino Vieira, talvez possa sugerir algo diferente...


Uma outra nota digna de registo e' a seguinte: havia uma pessoa amiga a quem eu por vezes dava a ler os meus poemas e a reaccao dela era, quase sempre, zombar deles... ate' que no dia em que o Luandino me deu a ler os pareceres do painel que ele tinha consultado para avaliacao eu lhe contei do que tinha escrito Ndunduma ("... depois de Alda Lara, eis que surge Ana Santana...") e a reaccao imediata daquela pessoa foi: "nao... depois de Alda Lara e' a Paula Tavares"! E isso sem que ela conhecesse bem pessoalmente a Paula Tavares ou a sua poesia e muito antes de os nossos livros terem sido publicados...





ADENDA 2

Veem certamente a proposito as seguintes palavras de Paula Tavares, de que apenas tive conhecimento depois da publicacao deste post:

P- É normalmente apontada como a referência da poesia contemporânea angolana no feminino. O que significa isso, na verdade?

R - Não, não é verdade. Isso seria de uma injustiça extrema para com Ana de Santana, Liza Castel e Maria Alexandre Dáskalos, para só citar três nomes de criadoras intensas, originais no universo da poesia angolana. O número de títulos publicados não invalida outras contribuições de grande qualidade. Procuro um lugar no universo da poesia angolana, porque é de Angola a minha fala. Não sou muito dada a concursos, lugares cimeiros, comendas.

[Aqui]







Novo livro de uma das poetisas mais reconhecidas de Angola. Os referentes temáticos são africanos, mas são tratados de uma forma universal e intimista, através de uma escrita delicada, depurada, imagética.


Assim publicitam os seus editores este novo livro de Ana Paula Tavares, a ser lancado amanha em Lisboa.

Trata-se de mais uma obra de uma Mulher serena, culta e madura, com personalidade e identidade proprias bem vincadas, que, recentemente, depois de longos anos sem nos vermos e sem termos tido qualquer contacto, por razoes alheias a vontade de ambas, muito profunda e agradavelmente me surpreendeu com uma mensagem por e-mail, a que se seguiu (como aqui ha' tempos referi de passagem) o retomar de uma Amizade que, malgre' tout, nunca se perdeu pelas vias finas na terra.

Aqui deixo, em sua homenagem e com a devida venia, um registo de algumas das palavras que me dirigiu nessa correspondencia:




Querida Ana,
Há muito que queria escrever-te, lembrar uma amizade antiga e
saudar-te pelo magnifico blog. Bem hajas por tão apurado trabalho e um abraço da
Ana paula tavares.
(...)
Vida de muitas voltas que terás que escrever
para os nossos filhos e para memória futura. a nossa terra tem uma tal
vitalidade que as coisas do Antigamente na vida tendem a esquecer-se depressa.
(...)
Mas acho que não andas longe da história e a tua formação será
contributo de primeira água.
(...)
Quanto a ti uma economista que gosta
e sabe a história é mais importante que o historiador preso nos seus papéis.
Acredita. Quanto à escrita entendo as tuas preocupações e sei que vai chegar o
momento. Ser contra a corrente é ser escritor a sério, é saber quando se fala e
quando se reune no silêncio a ciência certa da escrita. Um abraço da Ana paula



Enfim, como diria o Mais Velho Raul David, e eu subscreveria, "uma Mulher muito educada e que sabe estar"!


Bem Hajas, Ana Paula Tavares, porque, a seres "unica", es de facto a unica Mulher que respeito o suficiente para nao deixar de estimar e desejar todo o sucesso do mundo, mesmo quando, ocasionalmente, a natural divergencia de opinioes sobre questoes pontuais entre duas pessoas naturalmente diferentes e com trajectorias diferentes, mas com um "chao comum", nos parecem distanciar...
Ou quando quem nunca connosco partilhou esse "chao comum", por longinquo que agora possa parecer, nos tenta a todo o custo distanciar e "enclausurar-te" em seus, ainda que apenas psicopaticamente imaginarios, "circulos restritos", como aconteceu quando (... numa "estorieta infantil" que hoje, infelizmente, mais uma vez se repete...) me vi compelida a tecer este comentario (que sei que sabes bem que, em circunstancias normais, nao faria - certamente nao da forma, ou no local, em que o fiz...), muito anterior a correspondencia que hoje aqui decidi "ecoar" a bem, como referes, de uma memoria futura para os nossos filhos que seja, acima de tudo e de todos, verdadeira e saudavel.


Um abraco (sempre) amigo da (outra) Ana Paula.


[Mais detalhes sobre o lancamento do livro aqui]




ADENDA


No seguimento da minha resposta ao "Poeta Amigo", abaixo, decidi tecer aqui as seguintes observacoes adicionais:


Devo dizer que sempre aceitei TODO o tipo de criticas razoaveis ao meu trabalho, embora em alguns casos mais "duvidosos", como dizem os ingleses, “with a pinch of salt”... Isso porque, em primeiro lugar, nunca fui “auto-convencida” em relacao a minha poesia ao ponto de ignorar, ou mesmo deixar de solicitar, a opiniao de outros sobre ela e, em segundo lugar, porque, pelo menos ate’ muito recentemente, sempre me permiti ser “ingenua” o suficiente para acreditar que alguem que se de ao trabalho de ditar “sentencas lapidares” sobre algo sempre tao pessoal e delicado como a poesia, teria sensibilidade e sagacidade suficientes para nao se deixar cair no flagrante delito do ataque pessoal!

Mas a verdade e’ que, se a minha entrada na blogosfera teve algum merito, ele foi o de me abrir completa e definitivamente os olhos para o quao baixo certas pessoas sao capazes de descer, frequentemente movidas apenas pelo despeito e o ressaibo, ou pela inveja, o ciume e o odio, quando nao apenas pelo racismo puro e duro!... Ou, tao so’, para se “vingarem e ressarcirem” da sua incapacidade de defenderem coerente, congruente, racional e inteligentemente as 'suas ideias e posicionamentos' em debates abertos comigo sobre outras questoes (o tal de "convem sabermos sempre o que nos espera"!) ... E so’ tenho pena que muito desse “trash” acabe por passar por “critica construtiva e honesta”... Muita pena mesmo!

Mas, chegada a este estagio da minha vida, ja’ nao e’ por mim, nem pela minha poesia, que sinto pena, mas apenas por quem produz tal “trash” e por quem eventualmente o consuma... Ja’ para nao mencionar as outras poetas angolanas (...continuo a preferir “ignorar” aqui, em nome do conceito de “genero”, o masculino/feminino que continua a ter outra/os a tratar as mulheres que escrevem poesia como “poetisas”...) aparentemente “esquecidas” no meio de tudo isso.

Diria apenas que, quaisquer que sejam as “driving forces” por detras dos nossos respectivos processos criativos e por diversos que sejam os nossos “outputs” literarios, tanto qualitativa como quantitativamente, e quaisquer que tenham sido as motivacoes de quem decidiu publicar os nossos primeiros livros simultaneamente [*], creio ser certo e seguro que nem eu, nem a Paula Tavares, decidimos comecar (ou continuar, ou nao) a escrever para emular (certamente nao para “hostilizar” ou “eclipsar”) a outra e muito menos para que a nossa poesia fosse usada como "arma de arremesso" por outra(o)s em guerras intestinas, quentes ou frias, com motivacoes racicas que nada teem a ver com poesia (algo que, de resto, deixei aqui bem claro!) ... e mesmo que eu tambem tivesse publicado tanto quanto, ou mesmo mais do que ela, haveria sempre “gostos e desgostos para todos os gostos” em relacao a poesia de uma e de outra... e isto pressupondo um ambiente literario, cultural, social e politico circundante “sadio, calmo e tranquilo” e nao aquele que constitui o nosso “chao comum”, como aqui se pode constatar!

Anyway, creio nao valer a pena dizer muito mais sobre tudo isso, excepto talvez uma breve nota sobre a “credibilidade da critica literaria”: nos extractos que acima tomei a liberdade de transcrever, a Paula Tavares fala em “ciencia certa da escrita” – um conceito certamente nao pacifico (!), mas que aceito provisoriamente.

Pois bem, em toda a ciencia, o criterio de validacao de qualquer “veredicto” e’ estabelecido pela objectividade e racionalidade dos seus fundamentos, os quais nao podem, em nenhuma circunstancia, ser baseados apenas em criterios de subjectividade pessoal (como a afectividade ou a amizade - e, a este proposito, recordo uma conhecida doutorada em letras/ critica literaria (?) que, numa cronica publicada no SA, se declarou abertamente suspeita por, juntamente com outra proeminente sua congenere brasileira, ser "amiga da Paula Tavares"...), preferencias esteticas individuais (como a cor da pele), ou conviccoes politico-ideologicas ou religiosas e muito menos em comparacoes e ilacoes aleatorias e arbitrarias completamente abstraidas do contexto especifico e das condicoes concretas em que a "ciencia" (neste caso a "escrita") se produz, condicoes essas em que se incluem factores historicos, sociais, culturais, psicologicos e etico-morais, entre outros (como os, mais obvios, "marcadores (etno)linguisticos e/ou geograficos") ...

Assim, o estabelecimento de qualquer veredicto sobre o que, ou quem, e’ “unico”, pressupoe a existencia, ou o estabelecimento, de um padrao, ou canone, igualmente “unico”, extremamente dificil (senao impossivel!) de estabelecer “cientificamente” em literatura e muito mais ainda em poesia... - uma questao, alias, amplamente evidenciada por este kibeto.

Mas, talvez mais determinante dalguns desses "veredictos" (e aqui refiro-me apenas aqueles que podem com propriedade reclamar alguma “objectividade e isencao” e, consequentemente, alguma "credibilidade"...) e’ que, como aqui recentemente observei, o “mundo lusofono” e’, sempre foi desde Camoes, um “mundo de poetas” (veja-se, por exemplo, o sucesso que fazem os blogs de poesia na lusosfera...), em que a ciencia sempre foi “subalternizada” relativamente a literatura, e em particular a poesia, e a pratica simultanea de ambas vista como "antagonica" (...mas, veja-se a este proposito o caso de Fernando Pessoa...), sendo, em particular, disciplinas/profissoes como a economia vistas geralmente como "frias e calculistas" ou "insensiveis e a-sociais" (algo reflectido de algum modo, embora nao explicitamente, aqui e aqui) ... Mas, sobre isso, lembro-me de, ha’ ja’ varios anos, ainda em Lisboa, ter concedido uma entrevista a uma jornalista/escritora brasileira em que lhe dizia algo como isto: “Os poetas (ou pelo menos alguns) teem o sonho de mudar o mundo para melhor, os economistas (ou pelo menos alguns) tambem (e o espirito do velho Marx por ai ainda paira para o provar) ... apenas com uma diferenca: estes podem faze-lo por outros (quica mais eficazes...) meios e metodos!”

E isso sem qualquer demerito para os poetas em geral, e menos ainda para a regularidade, a proficuidade e a qualidade da producao poetica da Paula Tavares – sobre a qual, devo aqui enfatizar, nunca teci qualquer comentario menos abonatorio: a referencia a “divergencias de opiniao” que faco acima prende-se a algumas questoes pontuais emanentes de algumas das suas cronicas - duas para ser mais precisa - sobre as quais comentei noutros posts aqui neste blog. O unico comentario um tanto “mais problematico” que fiz, e foi apenas a um dos seus poemas e, acrescente-se, “forcadamente”, foi ao seu uso da “sua mascara da Pwo”, mas o contexto em que o fiz revela claramente que nao o fiz por razoes estritamente poeticas, mas por razoes mais amplamente historicas e socio-culturais - as quais podem ser identificadas aqui...

Tendo dito tudo isso, resta-me apenas pedir, mais uma vez, desculpas a Ana Paula Tavares por ter assim “violado a nossa correspondencia”, que preferiria ter mantido, como deveria, privada – mas... como soi dizer-se, “para grandes males, grandes remedios!”





[*] Torna-se meu dever registar aqui que ouvi diversas vezes, por diversas pessoas e de diversas formas, que "eu so' fui 'promovida' para a UEA (... o tal "porque promover uns e nao outros?"...) e o meu livro publicado simultaneamente, numa especie de "accao afirmativa", para 'cobrir' o lancamento da Paula Tavares pela mesma UEA e 'precaver' as previsiveis acusacoes de racismo com que na altura aquela instituicao vivia cercada... Certo ou errado, o facto e' que, infelizmente, madames como esta e, mais recentemente, esta e estas, apenas teem corroborado essa versao... Mas, tambem sera' de notar que a mensagem de um dos postais, incluido aqui, que recebi de quem foi responsavel por tal lancamento simultaneo, Luandino Vieira, talvez possa sugerir algo diferente...


Uma outra nota digna de registo e' a seguinte: havia uma pessoa amiga a quem eu por vezes dava a ler os meus poemas e a reaccao dela era, quase sempre, zombar deles... ate' que no dia em que o Luandino me deu a ler os pareceres do painel que ele tinha consultado para avaliacao eu lhe contei do que tinha escrito Ndunduma ("... depois de Alda Lara, eis que surge Ana Santana...") e a reaccao imediata daquela pessoa foi: "nao... depois de Alda Lara e' a Paula Tavares"! E isso sem que ela conhecesse bem pessoalmente a Paula Tavares ou a sua poesia e muito antes de os nossos livros terem sido publicados...





ADENDA 2

Veem certamente a proposito as seguintes palavras de Paula Tavares, de que apenas tive conhecimento depois da publicacao deste post:

P- É normalmente apontada como a referência da poesia contemporânea angolana no feminino. O que significa isso, na verdade?

R - Não, não é verdade. Isso seria de uma injustiça extrema para com Ana de Santana, Liza Castel e Maria Alexandre Dáskalos, para só citar três nomes de criadoras intensas, originais no universo da poesia angolana. O número de títulos publicados não invalida outras contribuições de grande qualidade. Procuro um lugar no universo da poesia angolana, porque é de Angola a minha fala. Não sou muito dada a concursos, lugares cimeiros, comendas.

[Aqui]




Tuesday, 9 November 2010

"Conferencia Internacional sobre Cultura Cokwe" ... [R]*




E, fundamentalmente, tenta compreender que uma coisa é o domínio técnico das formas de expressão cultural de um particular grupo etno-linguístico, que fazes bem em tentar incorporar na tua dança, outra coisa é tentares apropriar-te da identidade do teu objecto de estudo… porque é isso que, consciente ou inconscientemente andas a tentar fazer. Será isso éticamente aceitável? Culturalmente legítimo? Intelectualmente honesto?[K. - aqui]


Ninguém pode tudo na vida. E também ninguém sabe tudo, mas podemos fazer muito quando há solidariedade, interacção e entreajuda e, sobretudo, quando a pessoa em questão se sente entre os seus.
[JES -
aqui]

... Ou "o estado angolano tentando justificar (defender?) o seu 'mais alto galardao'"? ...

AQUI


E, ja' agora, outro take sobre a "Historia, Kultura (e Identidade) Tchokwe'"...

AKI





OU AINDA...


COMO FABRICAR UM MONSTRO 'POS-COLONIAL'...


{Ou, provavelmente, "O Charme (in)Discreto da ex-Burguesia Colonial" - lembram-se do filme do Bunuel?...}


1. Pegue-se numa lourinha da media-alta burguesia colonial. Coloque-se-a, aos oito anos de idade, na academia local de ballet classico, como e' de 'bom gosto e bom tom' fazer-se com as 'meninas bem' das sociedades coloniais, para que elas "nao fiquem atras" das suas congeneres da metropole.

2. Aproveite-se a debandada dos colonos por altura da independencia e coloque-se a lourinha, aos quinze anos de idade, como directora da mesma academia, onde ela, por falta de competicao, challenges, e muito menos criticas, de colegas ou professore/as mais velho/as e mais experientes, nao so' nao aprimora a sua formacao basica, tanto tecnica como conceptual, cultural, espiritual e etica, moral ou humanistica, nem sedimenta quaisquer valores ou principios e menos ainda qualquer sensibilidade ou maturidade socio-politica, como comeca a desenvolver todos os tiques ditatorias de "prima doninha" e "vaquinha sagrada", ate' que... um grupo de "ingratos" emite um abaixo-assinado acusando-a de "praticas social e racialmente discriminatorias".

3. Nao tardara' muito e a loura, guiada pelos "mais elevados espiritas pos-coloniais", decide trocar as sapatilhas de ballet classico pela mascara da Mwana P(h)wo... e o resto... e' 'historia'!

4. Ou seja, a blonde bombshell decide criar uma privada 'companhia de danca contemporanea' a partir das cinzas da publica academia em que fez das suas a seu bel prazer, companhia essa que, va-se la' saber como e/ou porque, viria a ficar "falecida" durante cerca de 10 anos, ate' que... a loura e' confrontada com o primeiro challenge da sua dolce vitta sob a forma de alguns serios questionamentos por parte de uma "pobre e insignificante criatura", contra a qual por isso move uma sordida campanha em alianca com outros tantos sordidos personagens, mas gracas a qual e ao blog dessa mesma criatura consegue "reunir forcas" - nao sem usar, mais uma vez, a muleta dos seus paternus guias - para sair do seu letargico longo dolce fare niente e la' consegue fazer renascer das cinzas, qual Fenix, a tal companhia que apenas 'inclui' black men e para a qual obtem de mao beijada um volume de patrocinios inaudito no pais...

5. Depois e' so' ve-la tornar-se, do dia para a noite, "monstro sagrado da danca patrimonial nacional" (palmas por favor !), portadora do "mais alto galardao do estado pos-colonial" e (calem-se todos porra!!!), "mae da danca contemporanea em Africa", "coreografa-em-chefe do CAN", "unico verdadeiro icone da danca em Angola, unico membro do Conselho Mundial da Danca e unico item que nao merece ser abortado e muito menos suicidado em grande estilo ou esquartejado a catanada" e "mais angolana do que a angolanidade"!!!

6. Mas nao e' tudo: a loura, tendo sido sempre uma estudante mediocre e sem nunca ter completado o ensino medio formal, entra por portas travessas para a universidade local onde desconsegue de fazer o curso atraves do qual pretendia obter creditos de "ser pensante" (e' que isto de ser bailarina classica europeia, apenas porque os pais assim o quizeram e puderam e ainda por cima loura, tem as suas coisas...).

7. Vai dai, abala para uma qualquer universidade na ex-metropole onde se torna "mestre" e "doutoranda" em qualquer coisa ligada a motricidade humana, mas que tambem lhe permite vir a reclamar (desastradamente, diga-se de passagem...) creditos como "coreografa", "antropologa" "historiadora", "economista" e "critica literaria"!

8. E o monstro fica pronto quando, depois de ter dito e feito todas as patetices, ordinarices, ignorancias e mentiras descaradas aqui registadas, comeca arrogantemente a auto-designar-se "Dra." sem o ser, a auto-proclamar-se "grande especialista da cultura cokwe" e a mandar bocas destas: "(...) a dança não é instintiva, não é apenas recreativa, mas é uma área do saber tão académica e tão rigorosa como qualquer outra..."! [O facto e' que, mesmo que tal statement possa ser de algum modo "substanciado" numa qualquer versao talvez do dominio do "fantastico" (... e, ainda assim, quanto muito, apenas no 'circulo restrito' da "danca classica europeia"... e com "muitas aspas" e reticencias...), ela sera' a ultima pessoa a poder demonstra-lo convincentemente, dado o seu background e a sua prestacao nos registos acima mencionados e linkados...]


E MAIS!!! PERMITE-SE PUBLICAR "TESTAMENTOS" COMO ESTE:


TESTAMENTO


… quero dançar, dançar sempre até me evaporar, até os meus pés e a minha alma se rasgarem em fragmentos que se espalharão pela terra de todas as vidas que vivi, de todas as vidas que pisei, de todas as vidas que construí e destruí. De todas as vidas que sonhei e nem conheci.

Que o céu me arranque os olhos castanhos e os faça azuis de mar e cinzentos de tempestade. Que os ogros me levem o coração inscrito de sinuosas cicatrizes. E que tu me guardes a pele transparente e inofensiva e dela faças uma janela para coar o sol. O meu sol.

E que a raiva do meu corpo, te deite brutalmente sobre a areia de uma praia qualquer, onde te arrancarei a roupa e os complexos, onde te amputarei o génio e a identidade, onde te extirparei a serenidade e o sorriso, para te possuir, selvagem, extinguindo-me na vontade de te engolir para sempre.

Na intensidade de um orgasmo lúgubre, conseguirei então o que desejo, afinal, e que há de mais belo em ti:

a tua alma pura e frágil!..



[AQUI]


E PRONTO, COM SEXO, VENALIDADE E DECADENCIA q.b. A MISTURA - mais o "apoio incondicional" do regime e estruturas governamentais (nomeadamente o Ministerio da Cultura para o qual diz trabalhar ha' 33 anos...) "contra" os quais de vez em quando "manda umas bocas" para ingles ver e ouvir e para "conquistar a oposicao e, em particular, os intelectuais activistas do social" - AI' TEEM O PERFEITO MONSTRO 'POS-COLONIAL'... ABSOLUTAMENTE IRRESISTIVEL... ENJOY!



P.S.: Apenas algumas breves 'observacoes empiricas' (atrevidas) a esta materia:
i) A "interessante conversa sobre cultura e etnologia" com Mesquitela Lima a que me referia nesta memoria de morabezza, comecou num momento em que ele me atirou (morabezzamente) com este statement: "nos conhecemos melhor as vossas culturas do que voces proprios"!...

ii) Num pais como Angola, composto por um mosaico cultural que conta com pelo menos 10 grupos etnicos e respectivos sistemas e sub-sistemas etno-linguisticos e culturais, como explicar (compreender) o "lugar central" e ate' "matricial" que, aparentemente, nele e' atribuido a cultura Cokwe (Tchokwe)? Para o leigo, porem atento observador de cultural trends, como eu, ele tem pelo menos duas vertentes (hipoteses) explicativas fundamentais:

1. [Infrastrutura] - Os recursos financeiros e materiais que a toda poderosa Diamang (um verdadeiro "estado dentro do estado" no periodo colonial/ pre-economia petrolifera) pode dispender na investigacao, inventariacao, recolha, documentacao e arquivo daquela cultura nas suas varias vertentes - foi o que tornou possivel o estabelecimento, sob a direccao de Mesquitela Lima, do dedicado Museu do Dundo, que nao encontra replica na atencao (nao) dispensada as culturas de outros grupos etnicos do pais e a obra de Marie Louise Bastin ;

2. [Superstrutura] - A "gesta da Nacao Crioula", como fulcro cultural e intelectual do (ideologico) "projecto de engenharia social" para a criacao do "homem novo" que o MPLA vem (utopicamente) implementando, com maior ou menor sucesso, desde a independencia (replicando, em grande medida, a gesta cultural do "Portugal Imperial do Minho a Timor", com sede no eixo Sagres-Lisboa/Porto, na "Angola Pos-Colonial de Cabinda ao Cunene", com sede no eixo Dundo (Kabebe?) -Loanda/Benguela...). Projecto esse em que, ademais, no plano politico, os conceitos de Angolanidade, Cidadania e Patriotismo continuam a ser ideologicamente confundidos com a filiacao, adesao, ou comunhao de ideais, principios, programas e praticas ao/com o ate' recentemente unico e ate' agora partido maioritario - processo esse facilitado pela "acoplacao" e "acantonamento" dos outros dois maiores partidos tradicionais a forcas estrangeiras, nomeadamente aos "carcamanos sul-africanos" a Sul e aos "neo-authenticites apostolos de Mobutu" a Norte (... como se cubanos e sovieticos, entre outros, incluindo portugueses e chineses, nao fossem estrangeiros...):

- Essa gesta (utopica) tem a sua genese em Mwanapwo, os seus caboucos em Yaka , o seu apogeu em Lueji, o Nascimento de um Imperio e o seu extase na Gloriosa Familia, de Pepetela - 'o mais elevado dos espiritas', passando, embora um tanto ao largo e com outros referentes socio-culturais e geograficos (e.g. Luanda 'Ilha' Crioula de Mario Antonio), pela Nacao Crioula de Agualusa. Trata-se aqui de ficcao literaria, bem entendido, mas uma ficcao literaria que, neste contexto, "faz (pretende fazer?) as vezes" (ideologicamente) da Historia, da Sociologia, da Demografia, da Etnologia e da Antropologia - em suma, das Ciencias Sociais e Humanas...

- E esses vultos literarios, sao seguidos por um circulo restrito de poetas como Ana Paula Tavares [que, interessantemente, no seu A Cabeca de Salome', dedica uma cronica a Marie Louise Bastin, com um curioso "sincero pedido de perdao" (assumidamente por ter chegado tarde a taca do vinho lunda), que, pelo menos a mim, teve o condao de evocar a um certo nivel o statement de Mesquitela Lima acima referido... sendo que no mesmo livro, a autora (re?) cria uma fantastica carta de Dona Ana Joaquina - a escravocrata mestica - ao Muatianvua Noeji - senhor de todas as Lundas - em que estabelece uma ponte povoada de sonhos e pesadelos de escravos e pombeiros entre o palacio da primeira em Loanda - a cidade branca - e a mussumba do segundo em Kabebe - a cidade ideia...], bailarinas classicas europeias como Ana Clara Guerra Marques (a.k.a. P(h)wo, de Mwanapwo... "mera coincidencia"?!) e, entre outros, alguns artistas plasticos e musicos (embora estes apenas pontualmente e a titulo de curiosidade, ou apenas na intencao declarada) como Paulo Flores ou Tirso Amaral (e, certamente nao por acaso, excepto no caso deste, ja' falecido, os ultimos todos galardoados nos ultimos anos com o Premio Nacional de Cultura e Artes)...

E' a "Nacao Crioula" (Krioula? - ou, nas suas versoes mais hodiernas, a "(neofita) ideologia dos (pretensos) afectos" ou a "cultura africana contemporanea", ou pelo menos parte dela - onde o termo bantu passou a ser o insulto preferido de alguns e em que todos os caminhos parecem inevitavelmente ir dar a recolonizacao...) urdindo, fundindo, forjando, brandindo e esgrimindo, sob o olhar silencioso de Neto, em bom Portugues de Camoes (Kamoes?), ao sabor de bom vinho do Porto e ao som de Wagner, assepticamente, as suas "raizes mais profundas"! SARAVA'!!!

Is there more to it than just that, really?!
I wonder...


[Se Mesquitela Lima estivesse vivo, talvez me pudesse esclarecer melhor essas questoes e, muito especialmente, porque que o meu Kongo Blues e' considerado "tara tribal" e esse tipo de conferencias e respectivos produtos e sub-produtos culturais nao o e'... ]



*[First posted 02/10/10]




Ninguém pode tudo na vida. E também ninguém sabe tudo, mas podemos fazer muito quando há solidariedade, interacção e entreajuda e, sobretudo, quando a pessoa em questão se sente entre os seus.
[JES -
aqui]

... Ou "o estado angolano tentando justificar (defender?) o seu 'mais alto galardao'"? ...

AQUI


E, ja' agora, outro take sobre a "Historia, Kultura (e Identidade) Tchokwe'"...

AKI





OU AINDA...


COMO FABRICAR UM MONSTRO 'POS-COLONIAL'...


{Ou, provavelmente, "O Charme (in)Discreto da ex-Burguesia Colonial" - lembram-se do filme do Bunuel?...}


1. Pegue-se numa lourinha da media-alta burguesia colonial. Coloque-se-a, aos oito anos de idade, na academia local de ballet classico, como e' de 'bom gosto e bom tom' fazer-se com as 'meninas bem' das sociedades coloniais, para que elas "nao fiquem atras" das suas congeneres da metropole.

2. Aproveite-se a debandada dos colonos por altura da independencia e coloque-se a lourinha, aos quinze anos de idade, como directora da mesma academia, onde ela, por falta de competicao, challenges, e muito menos criticas, de colegas ou professore/as mais velho/as e mais experientes, nao so' nao aprimora a sua formacao basica, tanto tecnica como conceptual, cultural, espiritual e etica, moral ou humanistica, nem sedimenta quaisquer valores ou principios e menos ainda qualquer sensibilidade ou maturidade socio-politica, como comeca a desenvolver todos os tiques ditatorias de "prima doninha" e "vaquinha sagrada", ate' que... um grupo de "ingratos" emite um abaixo-assinado acusando-a de "praticas social e racialmente discriminatorias".

3. Nao tardara' muito e a loura, guiada pelos "mais elevados espiritas pos-coloniais", decide trocar as sapatilhas de ballet classico pela mascara da Mwana P(h)wo... e o resto... e' 'historia'!

4. Ou seja, a blonde bombshell decide criar uma privada 'companhia de danca contemporanea' a partir das cinzas da publica academia em que fez das suas a seu bel prazer, companhia essa que, va-se la' saber como e/ou porque, viria a ficar "falecida" durante cerca de 10 anos, ate' que... a loura e' confrontada com o primeiro challenge da sua dolce vitta sob a forma de alguns serios questionamentos por parte de uma "pobre e insignificante criatura", contra a qual por isso move uma sordida campanha em alianca com outros tantos sordidos personagens, mas gracas a qual e ao blog dessa mesma criatura consegue "reunir forcas" - nao sem usar, mais uma vez, a muleta dos seus paternus guias - para sair do seu letargico longo dolce fare niente e la' consegue fazer renascer das cinzas, qual Fenix, a tal companhia que apenas 'inclui' black men e para a qual obtem de mao beijada um volume de patrocinios inaudito no pais...

5. Depois e' so' ve-la tornar-se, do dia para a noite, "monstro sagrado da danca patrimonial nacional" (palmas por favor !), portadora do "mais alto galardao do estado pos-colonial" e (calem-se todos porra!!!), "mae da danca contemporanea em Africa", "coreografa-em-chefe do CAN", "unico verdadeiro icone da danca em Angola, unico membro do Conselho Mundial da Danca e unico item que nao merece ser abortado e muito menos suicidado em grande estilo ou esquartejado a catanada" e "mais angolana do que a angolanidade"!!!

6. Mas nao e' tudo: a loura, tendo sido sempre uma estudante mediocre e sem nunca ter completado o ensino medio formal, entra por portas travessas para a universidade local onde desconsegue de fazer o curso atraves do qual pretendia obter creditos de "ser pensante" (e' que isto de ser bailarina classica europeia, apenas porque os pais assim o quizeram e puderam e ainda por cima loura, tem as suas coisas...).

7. Vai dai, abala para uma qualquer universidade na ex-metropole onde se torna "mestre" e "doutoranda" em qualquer coisa ligada a motricidade humana, mas que tambem lhe permite vir a reclamar (desastradamente, diga-se de passagem...) creditos como "coreografa", "antropologa" "historiadora", "economista" e "critica literaria"!

8. E o monstro fica pronto quando, depois de ter dito e feito todas as patetices, ordinarices, ignorancias e mentiras descaradas aqui registadas, comeca arrogantemente a auto-designar-se "Dra." sem o ser, a auto-proclamar-se "grande especialista da cultura cokwe" e a mandar bocas destas: "(...) a dança não é instintiva, não é apenas recreativa, mas é uma área do saber tão académica e tão rigorosa como qualquer outra..."! [O facto e' que, mesmo que tal statement possa ser de algum modo "substanciado" numa qualquer versao talvez do dominio do "fantastico" (... e, ainda assim, quanto muito, apenas no 'circulo restrito' da "danca classica europeia"... e com "muitas aspas" e reticencias...), ela sera' a ultima pessoa a poder demonstra-lo convincentemente, dado o seu background e a sua prestacao nos registos acima mencionados e linkados...]


E MAIS!!! PERMITE-SE PUBLICAR "TESTAMENTOS" COMO ESTE:


TESTAMENTO


… quero dançar, dançar sempre até me evaporar, até os meus pés e a minha alma se rasgarem em fragmentos que se espalharão pela terra de todas as vidas que vivi, de todas as vidas que pisei, de todas as vidas que construí e destruí. De todas as vidas que sonhei e nem conheci.

Que o céu me arranque os olhos castanhos e os faça azuis de mar e cinzentos de tempestade. Que os ogros me levem o coração inscrito de sinuosas cicatrizes. E que tu me guardes a pele transparente e inofensiva e dela faças uma janela para coar o sol. O meu sol.

E que a raiva do meu corpo, te deite brutalmente sobre a areia de uma praia qualquer, onde te arrancarei a roupa e os complexos, onde te amputarei o génio e a identidade, onde te extirparei a serenidade e o sorriso, para te possuir, selvagem, extinguindo-me na vontade de te engolir para sempre.

Na intensidade de um orgasmo lúgubre, conseguirei então o que desejo, afinal, e que há de mais belo em ti:

a tua alma pura e frágil!..



[AQUI]


E PRONTO, COM SEXO, VENALIDADE E DECADENCIA q.b. A MISTURA - mais o "apoio incondicional" do regime e estruturas governamentais (nomeadamente o Ministerio da Cultura para o qual diz trabalhar ha' 33 anos...) "contra" os quais de vez em quando "manda umas bocas" para ingles ver e ouvir e para "conquistar a oposicao e, em particular, os intelectuais activistas do social" - AI' TEEM O PERFEITO MONSTRO 'POS-COLONIAL'... ABSOLUTAMENTE IRRESISTIVEL... ENJOY!



P.S.: Apenas algumas breves 'observacoes empiricas' (atrevidas) a esta materia:
i) A "interessante conversa sobre cultura e etnologia" com Mesquitela Lima a que me referia nesta memoria de morabezza, comecou num momento em que ele me atirou (morabezzamente) com este statement: "nos conhecemos melhor as vossas culturas do que voces proprios"!...

ii) Num pais como Angola, composto por um mosaico cultural que conta com pelo menos 10 grupos etnicos e respectivos sistemas e sub-sistemas etno-linguisticos e culturais, como explicar (compreender) o "lugar central" e ate' "matricial" que, aparentemente, nele e' atribuido a cultura Cokwe (Tchokwe)? Para o leigo, porem atento observador de cultural trends, como eu, ele tem pelo menos duas vertentes (hipoteses) explicativas fundamentais:

1. [Infrastrutura] - Os recursos financeiros e materiais que a toda poderosa Diamang (um verdadeiro "estado dentro do estado" no periodo colonial/ pre-economia petrolifera) pode dispender na investigacao, inventariacao, recolha, documentacao e arquivo daquela cultura nas suas varias vertentes - foi o que tornou possivel o estabelecimento, sob a direccao de Mesquitela Lima, do dedicado Museu do Dundo, que nao encontra replica na atencao (nao) dispensada as culturas de outros grupos etnicos do pais e a obra de Marie Louise Bastin ;

2. [Superstrutura] - A "gesta da Nacao Crioula", como fulcro cultural e intelectual do (ideologico) "projecto de engenharia social" para a criacao do "homem novo" que o MPLA vem (utopicamente) implementando, com maior ou menor sucesso, desde a independencia (replicando, em grande medida, a gesta cultural do "Portugal Imperial do Minho a Timor", com sede no eixo Sagres-Lisboa/Porto, na "Angola Pos-Colonial de Cabinda ao Cunene", com sede no eixo Dundo (Kabebe?) -Loanda/Benguela...). Projecto esse em que, ademais, no plano politico, os conceitos de Angolanidade, Cidadania e Patriotismo continuam a ser ideologicamente confundidos com a filiacao, adesao, ou comunhao de ideais, principios, programas e praticas ao/com o ate' recentemente unico e ate' agora partido maioritario - processo esse facilitado pela "acoplacao" e "acantonamento" dos outros dois maiores partidos tradicionais a forcas estrangeiras, nomeadamente aos "carcamanos sul-africanos" a Sul e aos "neo-authenticites apostolos de Mobutu" a Norte (... como se cubanos e sovieticos, entre outros, incluindo portugueses e chineses, nao fossem estrangeiros...):

- Essa gesta (utopica) tem a sua genese em Mwanapwo, os seus caboucos em Yaka , o seu apogeu em Lueji, o Nascimento de um Imperio e o seu extase na Gloriosa Familia, de Pepetela - 'o mais elevado dos espiritas', passando, embora um tanto ao largo e com outros referentes socio-culturais e geograficos (e.g. Luanda 'Ilha' Crioula de Mario Antonio), pela Nacao Crioula de Agualusa. Trata-se aqui de ficcao literaria, bem entendido, mas uma ficcao literaria que, neste contexto, "faz (pretende fazer?) as vezes" (ideologicamente) da Historia, da Sociologia, da Demografia, da Etnologia e da Antropologia - em suma, das Ciencias Sociais e Humanas...

- E esses vultos literarios, sao seguidos por um circulo restrito de poetas como Ana Paula Tavares [que, interessantemente, no seu A Cabeca de Salome', dedica uma cronica a Marie Louise Bastin, com um curioso "sincero pedido de perdao" (assumidamente por ter chegado tarde a taca do vinho lunda), que, pelo menos a mim, teve o condao de evocar a um certo nivel o statement de Mesquitela Lima acima referido... sendo que no mesmo livro, a autora (re?) cria uma fantastica carta de Dona Ana Joaquina - a escravocrata mestica - ao Muatianvua Noeji - senhor de todas as Lundas - em que estabelece uma ponte povoada de sonhos e pesadelos de escravos e pombeiros entre o palacio da primeira em Loanda - a cidade branca - e a mussumba do segundo em Kabebe - a cidade ideia...], bailarinas classicas europeias como Ana Clara Guerra Marques (a.k.a. P(h)wo, de Mwanapwo... "mera coincidencia"?!) e, entre outros, alguns artistas plasticos e musicos (embora estes apenas pontualmente e a titulo de curiosidade, ou apenas na intencao declarada) como Paulo Flores ou Tirso Amaral (e, certamente nao por acaso, excepto no caso deste, ja' falecido, os ultimos todos galardoados nos ultimos anos com o Premio Nacional de Cultura e Artes)...

E' a "Nacao Crioula" (Krioula? - ou, nas suas versoes mais hodiernas, a "(neofita) ideologia dos (pretensos) afectos" ou a "cultura africana contemporanea", ou pelo menos parte dela - onde o termo bantu passou a ser o insulto preferido de alguns e em que todos os caminhos parecem inevitavelmente ir dar a recolonizacao...) urdindo, fundindo, forjando, brandindo e esgrimindo, sob o olhar silencioso de Neto, em bom Portugues de Camoes (Kamoes?), ao sabor de bom vinho do Porto e ao som de Wagner, assepticamente, as suas "raizes mais profundas"! SARAVA'!!!

Is there more to it than just that, really?!
I wonder...


[Se Mesquitela Lima estivesse vivo, talvez me pudesse esclarecer melhor essas questoes e, muito especialmente, porque que o meu Kongo Blues e' considerado "tara tribal" e esse tipo de conferencias e respectivos produtos e sub-produtos culturais nao o e'... ]



*[First posted 02/10/10]


Thursday, 19 August 2010

Mais uma vez: Revisitando Questoes de Genero



… Ou de 'Direitos' vs. 'Conquistas'!*



Respect Your Mom! – le-se no cartaz em foco nestas imagens...


... Mas… nao e’ o direito a ser-se respeitada pelo/as seus/suas filho/as um direito naturalmente adquirido por qualquer mae?! Porque entao a necessidade (convenhamos que in extremis e um tanto caricaturalmente neste caso) de se conquistar esse direito atraves de manifestacoes de rua?

A minha mae, que, malgre tout, em grande medida julgo merecer o titulo - com tudo o que ele comporta de positivo e de negativo - de feministe avant la lettre (e… nao, apesar de usar oculos, ela nao teve que ler o “Segundo Sexo” da De Beauvoir para o ser… e’ que… para o bem ou para o mal, a minha mae nasceu Mulher… e tanto ela como os seus 'deuses', cuidaram de que toda a sua progenitura nascesse nessa condicao… algo que alguem designou “condicao feminina”…), em certa ocasiao, fez reverberar por muito tempo em nossa casa esta curta, mas incisiva, conjugacao de palavras: "direitos adquiridos"! Tinha-as proferido repetidamente enquanto, andando compassadamente para a frente e para tras, calcava com uns certos sapatos de salto alto [... por sinal, os mesmos que eu calçara para uma homenagem conjunta da UEA e da UNAP, na sede desta em Luanda, a Agostinho Neto, em que eu e a Paula Tavares fomos "encarregues" de ler dois dos seus poemas - eu apresentei (nao, nao "declamei" porque nao tenho o menor geito para tal arte), se estou bem lembrada (e nao me lembro mesmo de qual foi o que ficou a cargo da Paula Tavares), o poema Criar; ... por sinal, ainda os mesmos que eu calçara na sessao solene de abertura do primeiro congresso do "Movimento da Claridade", em 1988, no Mindelo, Cabo Verde, onde, a seguir a minha breve e humilde intervencao, Mario Pinto de Andrade - aquele que havia, a seu tempo, frequentado alguns dos mesmos circulos de Sartre e Simone de Beauvoir - levantou-se do seu lugar e veio apertar-me a mao e dar-me um abraco, como o unico Angolano presente para alem de mim, num gesto saudado comovidamente pela assistencia, que incluia o entao Presidente de Cabo Verde, Aristides Pereira...] o chao de uma reparticao publica em Portugal que lhe tentara negar alguns de tais direitos enquanto funcionaria publica durante muitos anos…


A Constituicao dos EUA (tomada apenas a titulo de exemplo, porque outras constituicoes, proclamacoes, convencoes, resolucoes, declaracoes, acordos, protocolos e decisoes em todo o mundo, tanto a nivel nacional como internacional, poderiam aqui ser usados com o mesmo efeito…) proclama ha’ mais de dois seculos a “igualdade de direitos entre todos os seus cidadaos”, na base do principio de que “todos os homens nascem iguais” (… e nao, nao diz nada sobre se esses “homens” incluem ou nao as “mulheres”, nem se estas foram ou nao "feitas a partir da costela de Adao"…). Mais proclama tal Constituicao o direito a vida como um “direito inalienavel de todos os homens” (… va’ la’, entendamo-lo complacentemente como querendo significar “(seres) humanos”…). E esses direitos fundamentais sao complementados por varios outros na sua Bill of Rights (ou "Carta de Direitos"... e ja' que passamos por 'Adao e Eva', convem notar-se que a Bill of Rights e' integrada pelos primeiros 10 Amendments a Constituicao, que e' como quem diz pelos seus "10 Mandamentos".

- No entanto, ao longo dos seculos desde a sua adopcao, tais proclamacoes nao impediram os EUA de continuarem a aplicar a pena de morte em alguns dos seus estados, ou de fazerem e promoverem guerras dentro e fora das suas fronteiras, violando assim, entre outros, o direito a vida

- No entanto, mais de um seculo depois de tais proclamacoes, as mulheres brancas continuavam a lutar pela conquista do seu direito ao voto

- No entanto, ao longo dos mais de dois seculos que se seguiram a tais proclamacoes, os negros nos EUA continuaram a ter que lutar pelo seu direito a liberdade, contra a escravidao, o espancamento, o linchamento, ou o segregacionismo e pela conquista dos seus direitos civicos e politicos, incluindo o direito ao voto, entretanto ja' conquistado pelas mulheres brancas…

- No entanto, quase tres seculos depois de tais proclamacoes, as mulheres negras (...‘pobres e insignificantes, verdes e doentes criaturas rejeitadas, vomitos que se deveriam suicidar em grande estilo ou serem esquartejadas a catanada’ que, ademais, ‘nao nasceram mulheres e ainda nao sabem, porque nao leram De Beauvoir, como se fazer mulheres, pelo que lhes convem saberem sempre o que lhes espera'?...) continuam a ter, na sua esmagadora maioria, um estatuto familiar, social e economico inferior ao da esmagadora maioria das mulheres brancas… E tais mulheres negras continuam (e nao so’ nos EUA…) a ter que lutar de varias formas pela conquista do direito a igualdade (ou, no minimo, equidade ou paridade) de estatuto e tratamento nao so’ em relacao aos homens de todas as racas (e nao… nao necessaria, nem exclusivamente, atraves de “quotas” ou de qualquer outro tipo do que alguem designou “discriminacao positiva” - como alias ja' o afirmei repetidamente em varios lugares como, por exemplo, nos comentarios a este e a este posts), como tambem em relacao as mulheres brancas (yes, not all women are "the niggers of the world"!)…

- No entanto, quase tres seculos depois de tais proclamacoes, mulheres de todas as racas, em todo o mundo, continuam a lutar pelo direito a igualdade de oportunidades em todas as esferas da vida social e por salarios e direitos laborais iguais aos dos homens…



Ora, porque tudo isso?

Simplesmente porque nunca existiu coisa alguma no mundo chamada “direito natural”… Todos os “direitos” em sociedade teem que ser “conquistados”! E mesmo depois de conquistados teem que ser transformados em direitos de facto e nao apenas de jure – dai que se tenha que falar em “direitos e garantias” e, logo de seguida, em "implementacao" dessas garantias…

So’ nao o percebe quem sempre teve “direitos dados de bandeja” – geralmente por via do p(h)oder que lhes e’ conferido, seja pela raca, cor de pele, casta, credo, etnia ou genero, seja pelo seu estatuto social, economico ou politico –, que, muito leviana e ligeiramente, diga-se, tomam como “direitos naturais” de “todo o mundo”…

Mas… talvez se perceba numa certa Africa (e num certo mundo) ainda!



Posts Relacionados:


Breves Notas Sobre o "Significado Racial" da Vitoria de Obama

Human Rights: Looking Beyond The Declaration(s)

The Burden of The Black Woman

Mulheres a Preto e Branco

Sex, Lies & Stereotypes

Bocas Intelectualoides

Mulheres de Domingo

Poder no Feminino

A Orgia


*[A proposito desta boutade - ou, talvez melhor dito, desta blonde joke (mais uma!) que li num certo tugurio de patetices alegres: "Igualdade por direito e não conquistada!"]

Respect Your Mom! – le-se no cartaz em foco nestas imagens...


... Mas… nao e’ o direito a ser-se respeitada pelo/as seus/suas filho/as um direito naturalmente adquirido por qualquer mae?! Porque entao a necessidade (convenhamos que in extremis e um tanto caricaturalmente neste caso) de se conquistar esse direito atraves de manifestacoes de rua?

A minha mae, que, malgre tout, em grande medida julgo merecer o titulo - com tudo o que ele comporta de positivo e de negativo - de feministe avant la lettre (e… nao, apesar de usar oculos, ela nao teve que ler o “Segundo Sexo” da De Beauvoir para o ser… e’ que… para o bem ou para o mal, a minha mae nasceu Mulher… e tanto ela como os seus 'deuses', cuidaram de que toda a sua progenitura nascesse nessa condicao… algo que alguem designou “condicao feminina”…), em certa ocasiao, fez reverberar por muito tempo em nossa casa esta curta, mas incisiva, conjugacao de palavras: "direitos adquiridos"! Tinha-as proferido repetidamente enquanto, andando compassadamente para a frente e para tras, calcava com uns certos sapatos de salto alto [... por sinal, os mesmos que eu calçara para uma homenagem conjunta da UEA e da UNAP, na sede desta em Luanda, a Agostinho Neto, em que eu e a Paula Tavares fomos "encarregues" de ler dois dos seus poemas - eu apresentei (nao, nao "declamei" porque nao tenho o menor geito para tal arte), se estou bem lembrada (e nao me lembro mesmo de qual foi o que ficou a cargo da Paula Tavares), o poema Criar; ... por sinal, ainda os mesmos que eu calçara na sessao solene de abertura do primeiro congresso do "Movimento da Claridade", em 1988, no Mindelo, Cabo Verde, onde, a seguir a minha breve e humilde intervencao, Mario Pinto de Andrade - aquele que havia, a seu tempo, frequentado alguns dos mesmos circulos de Sartre e Simone de Beauvoir - levantou-se do seu lugar e veio apertar-me a mao e dar-me um abraco, como o unico Angolano presente para alem de mim, num gesto saudado comovidamente pela assistencia, que incluia o entao Presidente de Cabo Verde, Aristides Pereira...] o chao de uma reparticao publica em Portugal que lhe tentara negar alguns de tais direitos enquanto funcionaria publica durante muitos anos…


A Constituicao dos EUA (tomada apenas a titulo de exemplo, porque outras constituicoes, proclamacoes, convencoes, resolucoes, declaracoes, acordos, protocolos e decisoes em todo o mundo, tanto a nivel nacional como internacional, poderiam aqui ser usados com o mesmo efeito…) proclama ha’ mais de dois seculos a “igualdade de direitos entre todos os seus cidadaos”, na base do principio de que “todos os homens nascem iguais” (… e nao, nao diz nada sobre se esses “homens” incluem ou nao as “mulheres”, nem se estas foram ou nao "feitas a partir da costela de Adao"…). Mais proclama tal Constituicao o direito a vida como um “direito inalienavel de todos os homens” (… va’ la’, entendamo-lo complacentemente como querendo significar “(seres) humanos”…). E esses direitos fundamentais sao complementados por varios outros na sua Bill of Rights (ou "Carta de Direitos"... e ja' que passamos por 'Adao e Eva', convem notar-se que a Bill of Rights e' integrada pelos primeiros 10 Amendments a Constituicao, que e' como quem diz pelos seus "10 Mandamentos".

- No entanto, ao longo dos seculos desde a sua adopcao, tais proclamacoes nao impediram os EUA de continuarem a aplicar a pena de morte em alguns dos seus estados, ou de fazerem e promoverem guerras dentro e fora das suas fronteiras, violando assim, entre outros, o direito a vida

- No entanto, mais de um seculo depois de tais proclamacoes, as mulheres brancas continuavam a lutar pela conquista do seu direito ao voto

- No entanto, ao longo dos mais de dois seculos que se seguiram a tais proclamacoes, os negros nos EUA continuaram a ter que lutar pelo seu direito a liberdade, contra a escravidao, o espancamento, o linchamento, ou o segregacionismo e pela conquista dos seus direitos civicos e politicos, incluindo o direito ao voto, entretanto ja' conquistado pelas mulheres brancas…

- No entanto, quase tres seculos depois de tais proclamacoes, as mulheres negras (...‘pobres e insignificantes, verdes e doentes criaturas rejeitadas, vomitos que se deveriam suicidar em grande estilo ou serem esquartejadas a catanada’ que, ademais, ‘nao nasceram mulheres e ainda nao sabem, porque nao leram De Beauvoir, como se fazer mulheres, pelo que lhes convem saberem sempre o que lhes espera'?...) continuam a ter, na sua esmagadora maioria, um estatuto familiar, social e economico inferior ao da esmagadora maioria das mulheres brancas… E tais mulheres negras continuam (e nao so’ nos EUA…) a ter que lutar de varias formas pela conquista do direito a igualdade (ou, no minimo, equidade ou paridade) de estatuto e tratamento nao so’ em relacao aos homens de todas as racas (e nao… nao necessaria, nem exclusivamente, atraves de “quotas” ou de qualquer outro tipo do que alguem designou “discriminacao positiva” - como alias ja' o afirmei repetidamente em varios lugares como, por exemplo, nos comentarios a este e a este posts), como tambem em relacao as mulheres brancas (yes, not all women are "the niggers of the world"!)…

- No entanto, quase tres seculos depois de tais proclamacoes, mulheres de todas as racas, em todo o mundo, continuam a lutar pelo direito a igualdade de oportunidades em todas as esferas da vida social e por salarios e direitos laborais iguais aos dos homens…



Ora, porque tudo isso?

Simplesmente porque nunca existiu coisa alguma no mundo chamada “direito natural”… Todos os “direitos” em sociedade teem que ser “conquistados”! E mesmo depois de conquistados teem que ser transformados em direitos de facto e nao apenas de jure – dai que se tenha que falar em “direitos e garantias” e, logo de seguida, em "implementacao" dessas garantias…

So’ nao o percebe quem sempre teve “direitos dados de bandeja” – geralmente por via do p(h)oder que lhes e’ conferido, seja pela raca, cor de pele, casta, credo, etnia ou genero, seja pelo seu estatuto social, economico ou politico –, que, muito leviana e ligeiramente, diga-se, tomam como “direitos naturais” de “todo o mundo”…

Mas… talvez se perceba numa certa Africa (e num certo mundo) ainda!



Posts Relacionados:


Breves Notas Sobre o "Significado Racial" da Vitoria de Obama

Human Rights: Looking Beyond The Declaration(s)

The Burden of The Black Woman

Mulheres a Preto e Branco

Sex, Lies & Stereotypes

Bocas Intelectualoides

Mulheres de Domingo

Poder no Feminino

A Orgia


*[A proposito desta boutade - ou, talvez melhor dito, desta blonde joke (mais uma!) que li num certo tugurio de patetices alegres: "Igualdade por direito e não conquistada!"]

Thursday, 11 March 2010

Kinaxixi e seus amores

Entre a "Feira" da Maria da Fonte...

Uma mulher do Norte chegou ali. Vinha fazer uma guerra de armas de repetição e
carros de bois. Chamava-se Maria da Fonte (uma das sete, dizia-se) e montou ali
o seu kilombo. Kinaxixi meu amor falou, Kinaxixi Kiami aprendeu.
Um dia, olhou para trás e virou estátua, não de sal como a mulher da outra história (de amor, salvação, caminho de luz, fogo e cadela Minerva, a que morreu de
seus próprios partos), mas estátua de mármore, mulher e todos os membros do
kilombo mais as armas e peças de artilharia, tornados pedras no meio do
Kinaxixi, que é como quem diz no meio dos nossos corações e da cidade. Alguns
anos mais tarde, trezentas cargas de nitroglicerina transformaram o kilombo em
pedaços de pedra muito pequeninos. No chão nasceu erva de arranca pedras e chá,
outras histórias para contar.

Ana Paula Tavares, extracto
de "Kinaxixi, meu amor", in A Cabeça de Salomé - Editorial Nzila,
Luanda, 2004


...e o "Kilombo" da Nzinga Mbandi


Onde nao houve cargas de nitroglicerina - bastaram os pedacos de pedra muito pequeninos para fazerem a estatua virar sal de "mbakar" uteros e chao: nem partos de cadelas, nem gemidos de carros de bois (as armas de repeticao, essas ja' haviam sido caladas pela 'Maria do Blindado'); nem erva de arranca pedras, nem cha'... so' o vacuo, o nada e outras historias do meio do nosso coracao e da cidade para nao contar - Kinaxixi Kiami.
[Mas o olho d'agua da Kianda, esse continua la'...]


Obs.: Soube pelo amigo Augusto Nascimento, que a ela assistiu, da defesa de tese de doutoramento, no inicio desta semana em Lisboa, da Paula Tavares (de quem, ha' alguns meses, depois de muitos anos sem qualquer contacto, recebi uma bonita mensagem entitulada "Amizade", a que se seguiu uma interessante mutua "redescoberta": sobre este blog, nossas vidas, paradeiros, anseios, filhos, futuros...) - para ela os meus sinceros parabens!
Uma mulher do Norte chegou ali. Vinha fazer uma guerra de armas de repetição e
carros de bois. Chamava-se Maria da Fonte (uma das sete, dizia-se) e montou ali
o seu kilombo. Kinaxixi meu amor falou, Kinaxixi Kiami aprendeu.
Um dia, olhou para trás e virou estátua, não de sal como a mulher da outra história (de amor, salvação, caminho de luz, fogo e cadela Minerva, a que morreu de
seus próprios partos), mas estátua de mármore, mulher e todos os membros do
kilombo mais as armas e peças de artilharia, tornados pedras no meio do
Kinaxixi, que é como quem diz no meio dos nossos corações e da cidade. Alguns
anos mais tarde, trezentas cargas de nitroglicerina transformaram o kilombo em
pedaços de pedra muito pequeninos. No chão nasceu erva de arranca pedras e chá,
outras histórias para contar.

Ana Paula Tavares, extracto
de "Kinaxixi, meu amor", in A Cabeça de Salomé - Editorial Nzila,
Luanda, 2004


...e o "Kilombo" da Nzinga Mbandi


Onde nao houve cargas de nitroglicerina - bastaram os pedacos de pedra muito pequeninos para fazerem a estatua virar sal de "mbakar" uteros e chao: nem partos de cadelas, nem gemidos de carros de bois (as armas de repeticao, essas ja' haviam sido caladas pela 'Maria do Blindado'); nem erva de arranca pedras, nem cha'... so' o vacuo, o nada e outras historias do meio do nosso coracao e da cidade para nao contar - Kinaxixi Kiami.
[Mas o olho d'agua da Kianda, esse continua la'...]


Obs.: Soube pelo amigo Augusto Nascimento, que a ela assistiu, da defesa de tese de doutoramento, no inicio desta semana em Lisboa, da Paula Tavares (de quem, ha' alguns meses, depois de muitos anos sem qualquer contacto, recebi uma bonita mensagem entitulada "Amizade", a que se seguiu uma interessante mutua "redescoberta": sobre este blog, nossas vidas, paradeiros, anseios, filhos, futuros...) - para ela os meus sinceros parabens!

Saturday, 11 April 2009

ANA PAULA TAVARES: POESIA & HISTORIA


Na área da cultura, quem eram as pessoas que estavam a produzir?

Fazendo o paralelo com a literatura, foi o período das Brigadas.

Jovens da Literatura?

A União e Escritores Angolanos foi criada logo a seguir à independência, e lançou o apelo aos jovens para homenagearem o poeta maior, com elegias em torno da figura de Agostinho Neto. Isso foi o mote, mas depois sentiram quase a obrigação de se reunirem, de produzir folhinhas, jornais, publicações. E surgiram as Brigadas Jovens da Literatura. Sobretudo em Luanda, mas as do Huambo, Benguela e Lubango também publicaram coisas interessantes.

O que acha desse tipo de literature programática, que serve fins políticos?

Talvez na altura não houvesse como não passar por isso, era necessário. Mas alguns jovens começaram a publicar por eles próprios ou criaram projectos, como o Luandanje.

Chegou a escrever esse tipo de poemas na altura?

Não, fiquei caladinha. Mas eu sempre escrevi, desde pequenina, até para resolver os meus próprios medos. Pensava-me uma pessoa muito mais velha do que era, e achava que estava a fazer coisas tão importantes como alfabetizar, os inventários culturais, andar de jipe para trás e para a frente, que a escrita ia para a gaveta. No entanto, com 30 e poucos anos disse: “ou publico agora ou já não publico”. Então apresentei um projecto de Caderno ao Luandino Vieira e à UEA, que tinha um conjunto de escritores consagrados, que analisavam estes jovens pretendentes a escritores. Aquilo fugia um pouco à norma, mas tiveram a sensibilidade de publicar. Chamava-se “Ritos de Passagem” e causou alguma polémica.

Que tipo de polémica?

Fui acusada de ter falta de homem, ressabiada, pornógrafa. Mas teve um certo eco. Nessa altura, surge uma data de gente a publicar que já não tinha a ver com o tipo de poesia de que falávamos, como a Ana Santana, João Maimona, José Luís Mendonça.

Surge o projecto Archote, um jornal que pretendia divulgar ficção e ensaio, onde estalou uma polémica entre Nelson Pestana Bonavena, Luís Kandjimbo e Carlos Pacheco em torno do primeiro poeta que publicou no século XIX (que era benguelense). Resultaram ensaios muito bons e essa dinâmica despoletou esta veia ensaística neles, apesar de terem seguido caminhos tão diferentes.

Nessa altura, pessoas como Ruy Duarte e David Mestre publicavam poesia e ensaio, respectivamente, sobre cinema e literatura. O Ruy Duarte começara o seu trabalho sobre os Muxiluanda da ilha, que daria origem a “Ana a manda”. Arnaldo Santos também publicava ensaios. Uma coisa fundamental era o suplemento cultural de Domingo no Jornal de Angola. Foi ali que muita gente publicou pela primeira vez. E também as revistas Mensagem e Novembro, além da actividade cultural que começou nos anos 80. que era “Maka à 4ª feira” na UEA, onde se discutiam ideias e trabalhos.

E havia interesse pelo que se passava culturalmente noutras partes do mundo? Quais eram as principais referências? Calculo que latino-americanas...

Mergulhou-se noutras literaturas que passaram a circular. Cuba passa a ser uma referência fundamental. Tenho uma pena da má interpretação desta possibilidade de encontro de cubanos e angolanos, um equívoco ainda não resolvido, pois podia ter sido potenciador para as duas partes.

[Aqui]


{E, ja' agora, podera' ler algo parcialmente relacionado com esta entrevista aqui , aqui, aqui e aqui}

Na área da cultura, quem eram as pessoas que estavam a produzir?

Fazendo o paralelo com a literatura, foi o período das Brigadas.

Jovens da Literatura?

A União e Escritores Angolanos foi criada logo a seguir à independência, e lançou o apelo aos jovens para homenagearem o poeta maior, com elegias em torno da figura de Agostinho Neto. Isso foi o mote, mas depois sentiram quase a obrigação de se reunirem, de produzir folhinhas, jornais, publicações. E surgiram as Brigadas Jovens da Literatura. Sobretudo em Luanda, mas as do Huambo, Benguela e Lubango também publicaram coisas interessantes.

O que acha desse tipo de literature programática, que serve fins políticos?

Talvez na altura não houvesse como não passar por isso, era necessário. Mas alguns jovens começaram a publicar por eles próprios ou criaram projectos, como o Luandanje.

Chegou a escrever esse tipo de poemas na altura?

Não, fiquei caladinha. Mas eu sempre escrevi, desde pequenina, até para resolver os meus próprios medos. Pensava-me uma pessoa muito mais velha do que era, e achava que estava a fazer coisas tão importantes como alfabetizar, os inventários culturais, andar de jipe para trás e para a frente, que a escrita ia para a gaveta. No entanto, com 30 e poucos anos disse: “ou publico agora ou já não publico”. Então apresentei um projecto de Caderno ao Luandino Vieira e à UEA, que tinha um conjunto de escritores consagrados, que analisavam estes jovens pretendentes a escritores. Aquilo fugia um pouco à norma, mas tiveram a sensibilidade de publicar. Chamava-se “Ritos de Passagem” e causou alguma polémica.

Que tipo de polémica?

Fui acusada de ter falta de homem, ressabiada, pornógrafa. Mas teve um certo eco. Nessa altura, surge uma data de gente a publicar que já não tinha a ver com o tipo de poesia de que falávamos, como a Ana Santana, João Maimona, José Luís Mendonça.

Surge o projecto Archote, um jornal que pretendia divulgar ficção e ensaio, onde estalou uma polémica entre Nelson Pestana Bonavena, Luís Kandjimbo e Carlos Pacheco em torno do primeiro poeta que publicou no século XIX (que era benguelense). Resultaram ensaios muito bons e essa dinâmica despoletou esta veia ensaística neles, apesar de terem seguido caminhos tão diferentes.

Nessa altura, pessoas como Ruy Duarte e David Mestre publicavam poesia e ensaio, respectivamente, sobre cinema e literatura. O Ruy Duarte começara o seu trabalho sobre os Muxiluanda da ilha, que daria origem a “Ana a manda”. Arnaldo Santos também publicava ensaios. Uma coisa fundamental era o suplemento cultural de Domingo no Jornal de Angola. Foi ali que muita gente publicou pela primeira vez. E também as revistas Mensagem e Novembro, além da actividade cultural que começou nos anos 80. que era “Maka à 4ª feira” na UEA, onde se discutiam ideias e trabalhos.

E havia interesse pelo que se passava culturalmente noutras partes do mundo? Quais eram as principais referências? Calculo que latino-americanas...

Mergulhou-se noutras literaturas que passaram a circular. Cuba passa a ser uma referência fundamental. Tenho uma pena da má interpretação desta possibilidade de encontro de cubanos e angolanos, um equívoco ainda não resolvido, pois podia ter sido potenciador para as duas partes.

[Aqui]


{E, ja' agora, podera' ler algo parcialmente relacionado com esta entrevista aqui , aqui, aqui e aqui}

Saturday, 16 August 2008

NOTA EN PASSANT

Acabo de descobrir, nao exactamente por acaso, mas quase, que o livro de Paula Tavares "A Cabeca de Salome'", (do qual pouco mais tive ate' agora oportunidade de ler do que este texto que aqui publiquei quando o recebi, juntamente com o "Manual Para Amantes Desesperados", com simpaticas dedicatorias da autora, no ano passado) e' composto por um conjunto de cronicas por ela publicadas no Publico entre 1999 e 2002... Ou seja, pelo menos durante os ultimos seis meses desse periodo, houve, sem que eu o soubesse ate' agora, a coincidencia de eu tambem ter publicado uma serie de cronicas no Semanario Angolense... Agora comeco a perceber (melhor?) algumas coisas... e a ter uma maior nocao do quanto de facto tenho estado afastada do mundo lusofono...
Mas, este e' apenas um apontamento para notar um acontecimento digno de nota.
Acabo de descobrir, nao exactamente por acaso, mas quase, que o livro de Paula Tavares "A Cabeca de Salome'", (do qual pouco mais tive ate' agora oportunidade de ler do que este texto que aqui publiquei quando o recebi, juntamente com o "Manual Para Amantes Desesperados", com simpaticas dedicatorias da autora, no ano passado) e' composto por um conjunto de cronicas por ela publicadas no Publico entre 1999 e 2002... Ou seja, pelo menos durante os ultimos seis meses desse periodo, houve, sem que eu o soubesse ate' agora, a coincidencia de eu tambem ter publicado uma serie de cronicas no Semanario Angolense... Agora comeco a perceber (melhor?) algumas coisas... e a ter uma maior nocao do quanto de facto tenho estado afastada do mundo lusofono...
Mas, este e' apenas um apontamento para notar um acontecimento digno de nota.

Saturday, 3 November 2007

ANGOLA: 2007 "NATIONAL PRIZE FOR CULTURE & THE ARTS"

The Angolan “National Prize for Culture and the Arts” is awarded each year in the fields of Visual Arts, Music, Dance, Cinema and Audiovisuals, Literature, Theater and Research in the Human and Social Sciences. Created in 2000 by the Ministry of Culture, the award, whose monetary value is USD 35 thousand, aims at promoting artistic creativity and quality and scientific research in the country as well as to celebrate the national cultural and linguistic diversity.

According to the public and only daily angolan newspaper, Jornal de Angola, during this year’s announcement, Culture Minister Boaventura Cardoso said “this prize, like any other, always generates contestation or heated discussions. However, what is important to retain is that its objective is to award those who were considered the best in their respective fields by each year’s juri.”



This year’s awardees, announced a few days ago, were:

Cinema and Audiovisuals: The TPA (Public Television) show “Conversas de Quintal”
Dance: Group “Bismas das Acacias”, from the Benguela province
Literature: Poet Ana Paula Tavares for “Manual para Amantes Desesperados”
Music: Singer and composer Elias Dya Kimuezo for his lifelong work
Visual Arts: Painter and sculptor Rui de Matos (posthumously)
Research in the Human and Social Sciences: Antonio Costa for his investigation on the relationship between the Portuguese and Bantu languages
Theater: Group “Horizonte Njinga Mbande”

Personally, while congratulating the winners, I look forward to a time when privately-sponsored awards of this kind will come along to promote an even greater quality and diversity (specially political) in each of the currently considered, and possibly other, categories.

The Angolan “National Prize for Culture and the Arts” is awarded each year in the fields of Visual Arts, Music, Dance, Cinema and Audiovisuals, Literature, Theater and Research in the Human and Social Sciences. Created in 2000 by the Ministry of Culture, the award, whose monetary value is USD 35 thousand, aims at promoting artistic creativity and quality and scientific research in the country as well as to celebrate the national cultural and linguistic diversity.

According to the public and only daily angolan newspaper, Jornal de Angola, during this year’s announcement, Culture Minister Boaventura Cardoso said “this prize, like any other, always generates contestation or heated discussions. However, what is important to retain is that its objective is to award those who were considered the best in their respective fields by each year’s juri.”



This year’s awardees, announced a few days ago, were:

Cinema and Audiovisuals: The TPA (Public Television) show “Conversas de Quintal”
Dance: Group “Bismas das Acacias”, from the Benguela province
Literature: Poet Ana Paula Tavares for “Manual para Amantes Desesperados”
Music: Singer and composer Elias Dya Kimuezo for his lifelong work
Visual Arts: Painter and sculptor Rui de Matos (posthumously)
Research in the Human and Social Sciences: Antonio Costa for his investigation on the relationship between the Portuguese and Bantu languages
Theater: Group “Horizonte Njinga Mbande”

Personally, while congratulating the winners, I look forward to a time when privately-sponsored awards of this kind will come along to promote an even greater quality and diversity (specially political) in each of the currently considered, and possibly other, categories.

Saturday, 16 June 2007

RECEITA PARA ULTRAPASSAR OS DOMINGOS


Como água dormida de véspera, aqui vos deixo esta receita para amanhã:

“Desce manso à cidade, na hora em que a noite indecisa se embrulha do terceiro pano e de joelhos compõe a cabeleira, retira do rosto os restos de luz e se recolhe tensa das horas por resolver. Não te deixes tentar pelas mãos de cacimbo que, de tão frescas, te poderão recolher, de novo, para o sítio dos sonhos onde as rosas de verdade nos podem explodir no peito.

A noite é enorme e hesita sempre na hora de partir. Os nossos fantasmas, lentos como cobras domésticas, gostam de se plantar – exactamente nesse momento – à beira da nossa condição frágil, rindo e à espera. Toda a gente sabe da sua paciência experimentada. Por isso acorda. Sacode a esteira e enrola-a devagarinho.

(…)

Desce, então, à cidade antes de toda a gente, porque esse é o unico momento em que Luanda se entrega à preguiça e te devolve o rosto, sem pintura, calcinado pelo tempo e ainda assim tão belo, na sua pobreza exposta maltratada pelo sol e pela fome, onde o erosinado casario se estende (a essa hora não parece sofrer de séculos de desorientação e amargura), ainda fechado ao dia, mas já desperto pelo choro de medo das canções de mar e de peixe com que as velhas preparam o caldo do pequeno-almoço. Atenção, estas nunca dormem, parecem ter escapado já à sua condição de dormir e acordar. Esperam, debruçadas na noite, envoltas num longo pano de musgo e capim e entregam aos outros (gente descuidada como tu e como eu) os sonhos que já não são capazes de sonhar.

A nossa cidade anda perdida de si mesma e não é só velhice, é antes um esquecimento que se instalou e a trata mal. Deixou de ser o espaço circular e protector de areia vermelha e súbitas lagoas. A propósito, evita, quando desceres, o Kinaxixi. Não se trata de um problema de sereias, esses seres nem machos nem fêmeas que o habitaram outrora. O problema tem a ver com pássaros que fugiram quase todos e foram inventar silêncio para outros cantos do mundo. Os que ficaram estão enredados nos limos do tempo e fabricam ninhos de seiva, na esperança de não morrerem. Não têm tempo para ti.

Por isso desce e procura as palmeiras. (…) Terás assim que visitar a ilha. Procura os antigos caminhos da água onde ainda podes ver barcos a dormir e demoradas redes postas em descanso por cima da areia. Descobre as marcas dos pés da noite e segue pelas rotas de seda para veres aonde te conduzem. Não digo já, para ser surpresa, e porque língua de coração não se escreve: é oral e perfeita.

(…)

Depois, e de alma lavada, podes voltar para casa. Mistura três colheres de sopa de café arábica (se ainda te sobrou algum do Amboim) com uma de robusta (pode ser de São Tomé) e deita na cafeteira da avó, onde deve já estar a ferver uma água dormida de pelo menos um dia. Acende uma vela branca e bebe até ao fim o café perfumado. Usa uma caneca de esmalte.

Talvez consigas então fechar os olhos, e já não digo dormir, mas entregar-te ao descanso. Os anjos, por essa hora, estão longe e deixaram acesas lamparinas de óleo de palma a marcar os caminhos. A sombra da palmeira maior velará por ti, enquanto deixa fermentar os seus pesados frutos.

É a essa hora que a cidade acorda, quando as mulheres inventam a água e um redemoinho de criancas se espalha respirando fundo a seiva da cidade. Todo o domingo passará por ti sem que o pressintas enquanto, na pá de zinco, alecrim, eucalipto, açucar mascavado e as horas se vão consumir suavemente.”

Extractos de “Receita para ultrapassar os domingos”, in A Cabeça de Salomé (2004), de Ana Paula Tavares.

Ler poema seleccionado de 'Manual para Amantes Desesperados' aqui.


Como água dormida de véspera, aqui vos deixo esta receita para amanhã:

“Desce manso à cidade, na hora em que a noite indecisa se embrulha do terceiro pano e de joelhos compõe a cabeleira, retira do rosto os restos de luz e se recolhe tensa das horas por resolver. Não te deixes tentar pelas mãos de cacimbo que, de tão frescas, te poderão recolher, de novo, para o sítio dos sonhos onde as rosas de verdade nos podem explodir no peito.

A noite é enorme e hesita sempre na hora de partir. Os nossos fantasmas, lentos como cobras domésticas, gostam de se plantar – exactamente nesse momento – à beira da nossa condição frágil, rindo e à espera. Toda a gente sabe da sua paciência experimentada. Por isso acorda. Sacode a esteira e enrola-a devagarinho.

(…)

Desce, então, à cidade antes de toda a gente, porque esse é o unico momento em que Luanda se entrega à preguiça e te devolve o rosto, sem pintura, calcinado pelo tempo e ainda assim tão belo, na sua pobreza exposta maltratada pelo sol e pela fome, onde o erosinado casario se estende (a essa hora não parece sofrer de séculos de desorientação e amargura), ainda fechado ao dia, mas já desperto pelo choro de medo das canções de mar e de peixe com que as velhas preparam o caldo do pequeno-almoço. Atenção, estas nunca dormem, parecem ter escapado já à sua condição de dormir e acordar. Esperam, debruçadas na noite, envoltas num longo pano de musgo e capim e entregam aos outros (gente descuidada como tu e como eu) os sonhos que já não são capazes de sonhar.

A nossa cidade anda perdida de si mesma e não é só velhice, é antes um esquecimento que se instalou e a trata mal. Deixou de ser o espaço circular e protector de areia vermelha e súbitas lagoas. A propósito, evita, quando desceres, o Kinaxixi. Não se trata de um problema de sereias, esses seres nem machos nem fêmeas que o habitaram outrora. O problema tem a ver com pássaros que fugiram quase todos e foram inventar silêncio para outros cantos do mundo. Os que ficaram estão enredados nos limos do tempo e fabricam ninhos de seiva, na esperança de não morrerem. Não têm tempo para ti.

Por isso desce e procura as palmeiras. (…) Terás assim que visitar a ilha. Procura os antigos caminhos da água onde ainda podes ver barcos a dormir e demoradas redes postas em descanso por cima da areia. Descobre as marcas dos pés da noite e segue pelas rotas de seda para veres aonde te conduzem. Não digo já, para ser surpresa, e porque língua de coração não se escreve: é oral e perfeita.

(…)

Depois, e de alma lavada, podes voltar para casa. Mistura três colheres de sopa de café arábica (se ainda te sobrou algum do Amboim) com uma de robusta (pode ser de São Tomé) e deita na cafeteira da avó, onde deve já estar a ferver uma água dormida de pelo menos um dia. Acende uma vela branca e bebe até ao fim o café perfumado. Usa uma caneca de esmalte.

Talvez consigas então fechar os olhos, e já não digo dormir, mas entregar-te ao descanso. Os anjos, por essa hora, estão longe e deixaram acesas lamparinas de óleo de palma a marcar os caminhos. A sombra da palmeira maior velará por ti, enquanto deixa fermentar os seus pesados frutos.

É a essa hora que a cidade acorda, quando as mulheres inventam a água e um redemoinho de criancas se espalha respirando fundo a seiva da cidade. Todo o domingo passará por ti sem que o pressintas enquanto, na pá de zinco, alecrim, eucalipto, açucar mascavado e as horas se vão consumir suavemente.”

Extractos de “Receita para ultrapassar os domingos”, in A Cabeça de Salomé (2004), de Ana Paula Tavares.

Ler poema seleccionado de 'Manual para Amantes Desesperados' aqui.