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Tuesday, 8 November 2011

Etu Mudietu...



Julgo que a ultima vez que estive com Luandino Vieira tera' sido durante umas longinquas ferias minhas em Luanda a que aqui me referia.
Depois disso, enquanto estive em Portugal, apenas a ocasional correspondencia, directa ou por terceiros e, desde que ‘me mudei’ para a Inglaterra, apenas a distancia e o silencio (excepto pela dedicatoria deste livro, que tambem me chegou as maos por terceiros).

Agora, ha’ umas semanas, o amigo Zetho Goncalves teve a amabilidade de me enviar, por email, o rio sem margem com o qual acabou por me (re)abrir o livro dos rios do Luandino Vieira, que (me) levou a dele receber por snailmail uma prenda antecipada de Natal: o conjunto dos livros ate’ agora publicados pela sua nova ‘micro-editora’
“Nos Somos”.

Tenho assim a oportunidade (rara) de poder ler nos proximos tempos, para alem do excelente livro do Zetho, do qual faco uma breve apresentacao abaixo, os seguintes titulos recentes de autores angolanos:

MOMENTOS (1958-2011)
Arnaldo Santos

POESIA (1961-1976)
António Jacinto

NÃO SAIAS SEM MIM À RUA ESTA MANHÃ
José Luís Mendonça

AFRICALEMA
José Luís Mendonça

MARCAS DA GUERRA PERCEPÇÃO ÍNTIMA & OUTROS FONEMAS DOUTRINÁRIOS
J.A.S. Lopito Feijóo K.




Retribuir em poema a poesia que subjaz à literatura angolana da tradição oral já recolhida e trasladada para a língua portuguesa – alguma, pouquíssima dela, aqui convocada e exposta -, é a razão primacial e o fim a que se propõe e destina este
Rio sem Margem.
(da Nota do Autor)


A ÁGUA

[Tradição oral Umbundu, Angola]

Não se deixa amarrar
com um cordel,
nem se deixa apertar
com um cinto

- a água.

Dorme caminhando,
e mesmo parada, ela anda

- a água.


O SONHO

[Tradição oral Kwanyana, Angola]

Parece verdadeiro,
o sonho que sonhaste.

Branco e luzidio
como um chifre de boi

- o sonho que sonhaste.


MOTIVOS DE CONVERSA

[Tradição oral Kikongo, Angola]

O veado
sem pele
e sem cornos

- quem o viu,
que ninguém se cala
com ele?

- Quando chove,
rebentam os troncos,
cresce o capim.

No pássaro
de cabeça decepada,
mil pombas se alimentam.

O veado
sem pele
e sem cornos

- quem o viu,
que ninguém se cala
com ele?


“Em todas as formas escritas da poesia”, escreve Octavio Paz em A outra voz, “o signo gráfico está sempre em função do oral.” Ora, sendo este um livro de poemas e não um tratado académico – que utiliza na sua fractura o alfabeto latino e se destina primeiramente a um público de língua portuguesa -, entendeu-se ser mais correcto grafar como se grafou o vocábulo “Tchokwé’”, e não “Cokwé”, posto ninguém ler os vocábulos “Cutato”, “Cabinda” ou “coqueiro”, por exemplo, como “Tchutato”, “Tchabinda” ou “tchóqueiro”, respectivamente.
(da Nota Final - este extracto e' particularmente relevante para as discussoes travadas aqui e aqui ha' ja' uns anitos...)



Julgo que a ultima vez que estive com Luandino Vieira tera' sido durante umas longinquas ferias minhas em Luanda a que
aqui me referia.
Depois disso, enquanto estive em Portugal, apenas a ocasional correspondencia, directa ou por terceiros e, desde que ‘me mudei’ para a Inglaterra, apenas a distancia e o silencio (excepto pela dedicatoria deste livro, que tambem me chegou as maos por terceiros).

Agora, ha’ umas semanas, o amigo Zetho Goncalves teve a amabilidade de me enviar, por email, o rio sem margem com o qual acabou por me (re)abrir o livro dos rios do Luandino Vieira, que (me) levou a dele receber por snailmail uma prenda antecipada de Natal: o conjunto dos livros ate’ agora publicados pela sua nova ‘micro-editora’
“Nos Somos”.

Tenho assim a oportunidade (rara) de poder ler nos proximos tempos, para alem do excelente livro do Zetho, do qual faco uma breve apresentacao abaixo, os seguintes titulos recentes de autores angolanos:

MOMENTOS (1958-2011)
Arnaldo Santos

POESIA (1961-1976)
António Jacinto

NÃO SAIAS SEM MIM À RUA ESTA MANHÃ
José Luís Mendonça

AFRICALEMA
José Luís Mendonça

MARCAS DA GUERRA PERCEPÇÃO ÍNTIMA & OUTROS FONEMAS DOUTRINÁRIOS
J.A.S. Lopito Feijóo K.




Retribuir em poema a poesia que subjaz à literatura angolana da tradição oral já recolhida e trasladada para a língua portuguesa – alguma, pouquíssima dela, aqui convocada e exposta -, é a razão primacial e o fim a que se propõe e destina este
Rio sem Margem.
(da Nota do Autor)


A ÁGUA

[Tradição oral Umbundu, Angola]

Não se deixa amarrar
com um cordel,
nem se deixa apertar
com um cinto

- a água.

Dorme caminhando,
e mesmo parada, ela anda

- a água.


O SONHO

[Tradição oral Kwanyana, Angola]

Parece verdadeiro,
o sonho que sonhaste.

Branco e luzidio
como um chifre de boi

- o sonho que sonhaste.


MOTIVOS DE CONVERSA

[Tradição oral Kikongo, Angola]

O veado
sem pele
e sem cornos

- quem o viu,
que ninguém se cala
com ele?

- Quando chove,
rebentam os troncos,
cresce o capim.

No pássaro
de cabeça decepada,
mil pombas se alimentam.

O veado
sem pele
e sem cornos

- quem o viu,
que ninguém se cala
com ele?


“Em todas as formas escritas da poesia”, escreve Octavio Paz em A outra voz, “o signo gráfico está sempre em função do oral.” Ora, sendo este um livro de poemas e não um tratado académico – que utiliza na sua fractura o alfabeto latino e se destina primeiramente a um público de língua portuguesa -, entendeu-se ser mais correcto grafar como se grafou o vocábulo “Tchokwé’”, e não “Cokwé”, posto ninguém ler os vocábulos “Cutato”, “Cabinda” ou “coqueiro”, por exemplo, como “Tchutato”, “Tchabinda” ou “tchóqueiro”, respectivamente.
(da Nota Final - este extracto e' particularmente relevante para as discussoes travadas aqui e aqui ha' ja' uns anitos...)

Thursday, 21 July 2011

(ainda) O 27 de Maio e As feridas (ainda) por sarar...





A cela (8) cadeia de S. Paulo em Luanda


"Era um dos piores lugares, para se meter um ser humano, seja qual fosse o crime que cometesse.

Era uma cela especial pelo horror que nela se vivia, onde os presos tinham que beber da mesma água da pia, onde faziam suas necessidades maiores. Por um pequeno postigo, recebiam seus alimentos cheirosos, muitas vezes embrulhados em restos de jornais ou de trapos, com salpicos de sangue, daqueles presos que eram escorraçados nos intorragatórios e de lá, seguiam para á ambulância da morte.

Numa temperatura tão húmida, enquanto uns dormiam outros ficavam de joelho para se conseguir uma resma de espaço, para cada um.

Aquela cela parecia um autentico museu de horrores, para quem, dia e noite só ouvia gemidos e gritos, de inocentes ou culpados.

Eram mulheres e homens todos no mesmo barco, sacudidos pela mesma intensidade repressiva, mas com destino e sorte diferente para cada um. Entradas e saídas de presos, para locais improvisados de interrogatórios ou de morte, era uma constante .

Apenas a dor, os gemidos e a perda de mais um consofredor, era a única luz, que iluminava aquele local, onde os dias eram igualzinhos ás noites.

Poucos resistiram os horrores, humilhações e aquelas torturas permanentes, que transformavam vidas antes pacatas, em restos humanos."


[...]


Podera' ler esse testemunho na integra aqui, onde podera' tambem encontrar a apresentacao deste video inedito sobre o 27 de Maio:






Post relacionado:

Neste 27 de Maio





A cela (8) cadeia de S. Paulo em Luanda


"Era um dos piores lugares, para se meter um ser humano, seja qual fosse o crime que cometesse.

Era uma cela especial pelo horror que nela se vivia, onde os presos tinham que beber da mesma água da pia, onde faziam suas necessidades maiores. Por um pequeno postigo, recebiam seus alimentos cheirosos, muitas vezes embrulhados em restos de jornais ou de trapos, com salpicos de sangue, daqueles presos que eram escorraçados nos intorragatórios e de lá, seguiam para á ambulância da morte.

Numa temperatura tão húmida, enquanto uns dormiam outros ficavam de joelho para se conseguir uma resma de espaço, para cada um.

Aquela cela parecia um autentico museu de horrores, para quem, dia e noite só ouvia gemidos e gritos, de inocentes ou culpados.

Eram mulheres e homens todos no mesmo barco, sacudidos pela mesma intensidade repressiva, mas com destino e sorte diferente para cada um. Entradas e saídas de presos, para locais improvisados de interrogatórios ou de morte, era uma constante .

Apenas a dor, os gemidos e a perda de mais um consofredor, era a única luz, que iluminava aquele local, onde os dias eram igualzinhos ás noites.

Poucos resistiram os horrores, humilhações e aquelas torturas permanentes, que transformavam vidas antes pacatas, em restos humanos."


[...]


Podera' ler esse testemunho na integra aqui, onde podera' tambem encontrar a apresentacao deste video inedito sobre o 27 de Maio:






Post relacionado:

Neste 27 de Maio

Wednesday, 8 September 2010

Abrindo a Caixa de Pandora (VII)

'Amizade(s) Masculina(s)'
































[P.S.: Aproveito para enderecar aqui os meus parabens ao Americo Goncalves pela merecida Homenagem que lhe foi prestada pelo Premio Maboque de Jornalismo 2010]





[P.S.: Aproveito para enderecar aqui os meus parabens ao Americo Goncalves pela merecida Homenagem que lhe foi prestada pelo Premio Maboque de Jornalismo 2010]



Sunday, 3 May 2009

REVISITANDO TARRAFAL DE SANTIAGO

PRIMEIRA ENTREVISTA DE LUANDINO VIEIRA SOBRE O TARRAFAL

(Ao jornal portugues "Publico")


“Os anos de cadeia foram muito bons para mim”


No Tarrafal, Luandino Vieira escreveu sobre o que tinha vivido antes. Agora vai escrever sobre o que aprendeu no Tarrafal. Será “uma história de Angola”.

Trinta e cinco anos depois de fechar como campo de presos políticos — a 1 de Maio de 1974 —, o Tarrafal ainda pode ser uma terra arável na cabeça dos homens que lá não perderam a vida. Portugal foi isto, fez isto, há sobreviventes e muito está por contar. Luandino não costuma fazê-lo.

Aceitou esta entrevista — feita segunda-feira, ao longo de uma manhã, no Grémio Literário, em Lisboa — antes de ir apanhar o avião para Cabo Verde, onde hoje está, com antigos camaradas de presídio, no simpósio sobre o Tarrafal que decorreu desde terça. Já de Cabo Verde, disse que terá ainda coisas a acrescentar sobre o Tarrafal, em sequência a esta entrevista.

Nascido português em Lagoa de Furadouro, Ourém, a 4 de Maio de 1935, José Vieira Mateus da Graça fez-se angolano “pela sua participação no movimento de libertação nacional” de Angola, diz sempre a badana dos seus livros. Foi preso antes da guerra colonial, em 1959. Voltou a ser preso, e condenado a 14 anos de prisão, por “actividades subversivas contra a segurança externa do Estado”, em 1961. Com dois camaradas poetas, António Jacinto e António Cardoso, andou de cadeia em cadeia, em Angola. Em 1964 foram transferidos para o Tarrafal, de onde Luandino saiu em liberdade condicional em 1972.

[Continue lendo aqui]

***

Leia tambem aqui, declaracoes do Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, durante o encerramento do Simposio Internacional Sobre o Campo de Concentracao do Tarrafal.
PRIMEIRA ENTREVISTA DE LUANDINO VIEIRA SOBRE O TARRAFAL

(Ao jornal portugues "Publico")


“Os anos de cadeia foram muito bons para mim”


No Tarrafal, Luandino Vieira escreveu sobre o que tinha vivido antes. Agora vai escrever sobre o que aprendeu no Tarrafal. Será “uma história de Angola”.

Trinta e cinco anos depois de fechar como campo de presos políticos — a 1 de Maio de 1974 —, o Tarrafal ainda pode ser uma terra arável na cabeça dos homens que lá não perderam a vida. Portugal foi isto, fez isto, há sobreviventes e muito está por contar. Luandino não costuma fazê-lo.

Aceitou esta entrevista — feita segunda-feira, ao longo de uma manhã, no Grémio Literário, em Lisboa — antes de ir apanhar o avião para Cabo Verde, onde hoje está, com antigos camaradas de presídio, no simpósio sobre o Tarrafal que decorreu desde terça. Já de Cabo Verde, disse que terá ainda coisas a acrescentar sobre o Tarrafal, em sequência a esta entrevista.

Nascido português em Lagoa de Furadouro, Ourém, a 4 de Maio de 1935, José Vieira Mateus da Graça fez-se angolano “pela sua participação no movimento de libertação nacional” de Angola, diz sempre a badana dos seus livros. Foi preso antes da guerra colonial, em 1959. Voltou a ser preso, e condenado a 14 anos de prisão, por “actividades subversivas contra a segurança externa do Estado”, em 1961. Com dois camaradas poetas, António Jacinto e António Cardoso, andou de cadeia em cadeia, em Angola. Em 1964 foram transferidos para o Tarrafal, de onde Luandino saiu em liberdade condicional em 1972.

[Continue lendo aqui]

***

Leia tambem aqui, declaracoes do Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, durante o encerramento do Simposio Internacional Sobre o Campo de Concentracao do Tarrafal.

Wednesday, 29 October 2008

ANGOLA: 2008 "NATIONAL PRIZE FOR CULTURE & THE ARTS"

This year's winners:


Literature: Luandino Vieira
Music: Paulo Flores
Filmmaking: Carlos Henriques (a posthumous award)
Dance: Grupo Kamatemba
Human & Social Sciences: Carlos Lopes
Plastic Arts: Van
Theater: Grupo Elinga Teatro

[See prize background here]
This year's winners:


Literature: Luandino Vieira
Music: Paulo Flores
Filmmaking: Carlos Henriques (a posthumous award)
Dance: Grupo Kamatemba
Human & Social Sciences: Carlos Lopes
Plastic Arts: Van
Theater: Grupo Elinga Teatro

[See prize background here]

Sunday, 5 October 2008

MEMORIA DE UM 'TRUMUNU LITERARIO'





Deambulando pelos arquivos do meu computador, se dei de caras com essa foto ai...

Pensei duas vezes antes de a postar aqui, mas conclui: porque nao? Afinal e' um 'documento historico' digno de nota: algures entre o fim da decada de 70 e o inicio da de 80, duas equipas de futebol (se houve mesmo trumunu e quem ganhou nao sei...), uma pela Brigada Jovem de Literatura (BJL) e outra pela Uniao dos Escritores Angolanos (UEA)!

Portanto, ai fica. Foi-me 'passada', ha' uns tempos, pelo Buca Boavida (esse que foi fundador da BJL de Luanda e o inaugurador da "geracao literaria de 80" com o seu livro de poemas "A Essa Juventude").

Dentre os que consigo reconhecer:

Pela UEA: o Mais Velho Raul David, Luandino Vieira, Manuel Rui, Pepetela, Henrique Guerra, Antonio Cardoso, Ndunduma, Carlos Pimentel

Pela BJL: árbitro, Casse', Buca, Sao Vicente, Gastão Rebelo, Luis Rita, Luis Kandjimbo, António Fonseca.

Nos tempos...


P.S.: Uma 'alma caridosa' ajudou-me com os nomes de que nao me lembrava. A eles as minhas desculpas. Mas, honestamente, eu estive quase, quase a nomear o Kandjimbo, mas nao conseguia ter a certeza (talvez porque lhe faltassem os oculos...) e o Henrique Guerra (deste nao tinha duvidas, quanto mais nao seja pela sua obra de referencia sobre a Economia e Sociedade Angolana, mas realmente bem que procurei o nome mentalmente, mas nao conseguia encontrar).






Deambulando pelos arquivos do meu computador, se dei de caras com essa foto ai...

Pensei duas vezes antes de a postar aqui, mas conclui: porque nao? Afinal e' um 'documento historico' digno de nota: algures entre o fim da decada de 70 e o inicio da de 80, duas equipas de futebol (se houve mesmo trumunu e quem ganhou nao sei...), uma pela Brigada Jovem de Literatura (BJL) e outra pela Uniao dos Escritores Angolanos (UEA)!

Portanto, ai fica. Foi-me 'passada', ha' uns tempos, pelo Buca Boavida (esse que foi fundador da BJL de Luanda e o inaugurador da "geracao literaria de 80" com o seu livro de poemas "A Essa Juventude").

Dentre os que consigo reconhecer:

Pela UEA: o Mais Velho Raul David, Luandino Vieira, Manuel Rui, Pepetela, Henrique Guerra, Antonio Cardoso, Ndunduma, Carlos Pimentel

Pela BJL: árbitro, Casse', Buca, Sao Vicente, Gastão Rebelo, Luis Rita, Luis Kandjimbo, António Fonseca.

Nos tempos...


P.S.: Uma 'alma caridosa' ajudou-me com os nomes de que nao me lembrava. A eles as minhas desculpas. Mas, honestamente, eu estive quase, quase a nomear o Kandjimbo, mas nao conseguia ter a certeza (talvez porque lhe faltassem os oculos...) e o Henrique Guerra (deste nao tinha duvidas, quanto mais nao seja pela sua obra de referencia sobre a Economia e Sociedade Angolana, mas realmente bem que procurei o nome mentalmente, mas nao conseguia encontrar).


Wednesday, 23 July 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (18)

Para variar um pouco o “mau habito” de so’ incluir nesta serie artigos dos semanarios (diga-se que apenas porque estes, ao contrario do nosso unico diario, nao sao livremente acessiveis online), comeco com uma noticia publicada hoje no Jornal de Angola… pelo tema e por envolver Ngozi Okonjo-Iewala, que aqui anteriormente referi (acontecimento que quem tenha lido o meu artigo "Angola, Petroleo e Economia Post-Conflito: Que Fazer?", achara' certamente interessante):

O Banco Mundial felicitou Angola pela “boa gestão macro-económica”, assim como pela estabilidade, segurança e paz alcançadas pelos angolanos.Esta felicitação foi manifestada ao princípio da tarde de ontem, em Luanda, pela directora de Gestão (vice-presidente) do Banco, a nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala, à saída de uma audiência que lhe foi concedida, no Palácio da Cidade Alta, em Luanda, pelo Primeiro-Ministro Fernando da Piedade Dias dos Santos.Durante a audiência foi abordado o reforço da cooperação entre o país e a instituição financeira.A vice-presidente do Banco Mundial disse ter vindo a Angola “para felicitar o Presidente José Eduardo dos Santos e o Primeiro-Ministro pela estabilidade, segurança e paz alcançadas no país, bem como pela boa gestão macro-económica”.

No SA, encontramos a Resenha aritmética de uma legislatura de 16 anos:

O Relatório de Actividades da Primeira Legislatura, lido na plenária que na terça-feira, 14, encerrou um ciclo parlamentar de 16 anos, considera positivo o desempenho dos órgãos da Assembleia Nacional e dos deputados, à luz de números fornecidos no dito documento. As actividades estatisticamente reportadas no documento, referente ao período entre Novembro de 1992 e o presente mês de Julho, atribuem um rol de actividades à Secretaria da Assembleia Nacional (SAN), o que constitui, entretanto, uma inferição ao trabalho do próprio Parlamento. Os números dizem que durante os 16 anos pelos quais perdurou a legislatura, a SAN produziu 179 leis e 384 resoluções, perfazendo um total de 563 actos legislativos.

Segue-se-lhe, em Eles só não prometem o céu e a terra, a primeira parte de uma serie que o mesmo semanario dedica, a partir deste numero, as propostas eleitorais dos dois maiores partidos politicos Angolanos:

Embora os dois partidos tenham feito questão de mostrar uma pontinha do seu conteúdo em actos públicos, os seus programas de governo não foram totalmente escancarados porque havia a conveniência de os preservar de «olhares indiscretos». Ou, mais concretamente, da espionagem dos adversários e concorrentes. Mesmo assim, não vá o diabo tece-las, os programas da UNITA e do MPLA ainda não andam por aí à mercê de qualquer manápula. Foi o cabo dos trabalhos para o Semanário Angolense lograr aceder a dois exemplares. Assim, a partir desta edição, o leitor já não terá de esperar pelo início da campanha propriamente dita e dos comícios que a partir daí correrão à larga para dar uma olhada às propostas dos gigantes da política angolana.

Severino Carlos apresenta uma recente comunicacao sua sobre Rigor informativo vs verdades jornalísticas:

Vivemos, actualmente, num contexto de super-informação global, cujas características principais centram-se na velocidade da difusão e circulação de informação. Trata-se de uma espécie de darwinismo no universo da comunicação, em que o melhor e mais apto é aquele que não só chega primeiro aos factos dignos de serem noticiados, como também aquele que os divulga primeiro. A lógica é ser o primeiro jornal, rádio ou canal de televisão. É proibido ser ultrapassado. Chega a ser uma tirania para todos: receptores e emissores de comunicação.
Angola não está isolada deste contexto. E, por isso, a vaga tem vindo a salpicar o nosso país. Não é um fenómeno necessariamente negativo, mas configura um quadro que, face às debilidades da envolvente político-organizativa e às condições materiais em que os jornalistas laboram, gera sérios problemas específicos de rigor informativo. Ou, melhor dizendo, problemas que imbricam com uma das regras de ouro da actividade jornalística: o pressuposto de que toda a informação, para ser entendida como tal, e não como um exercício de manipulação ou de contra-informação, deve caracterizar-se pela objectividade. O que quer dizer que tem de ser enxuta e despida da emotividade e da visão pessoal do jornalista que a veicula. Por fim, e mais importante do que tudo, tem de ser verdadeira.

No NJ, Fernando Pacheco critica alguns desenvolvimentos e posturas em relacao a politica agricola no pais, Enquanto o ferro está quente:

Tenho criticado os nossos mais conceituados economistas por também não dedicarem a devida atenção à agricultura e à produção de alimentos. Na recente apresentação do prestigiado Relatório Económico do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica o meu amigo Justino Pinto de Andrade dedicou menos de dois dos mais de trinta minutos da sua intervenção ao capítulo da agricultura, apesar de ele abordar temas pertinentes e polémicos como os biocombustíveis. Nestes momentos lembro-me de como seria importante para Angola ter economistas como o malogrado moçambicano José Negrão, que tanto contribuiu para que a agricultura do seu país tivesse crescido de forma tão contundente desde o fim da guerra.
(…)
A ausência de sentido crítico e a auto censura de jornais e de técnicos não têm permitido que a opinião pública se aperceba de alguns dos enormes erros que se estão a acontecer. Um exemplo inquietante do que estou a dizer tem a ver com a importação de gado de raça nelore do Brasil, que aparece frequentemente nas telenovelas da Globo. Subitamente surgiram em Angola empresas brasileiras a vender esse gado e tudo indica que até final deste ano as importações terão atingido cerca de cem mil cabeças, apesar dos resultados não estarem a ser animadores. Como está envolvida gente importante, não foram ouvidas as instituições competentes nem os conselhos dos técnicos mais qualificados, nem sequer respeitadas as normas mais elementares de importação de gado, como, por exemplo, a obrigatoriedade de quarentenas, como acontece em todo o mundo.

Voltando ao SA, encontramos a noticia do lancamento amanha, em Lisboa, do canal internacional da TPA:

Na próxima quinta-feira, 24, o canal internacional da Televisão Pública de Angola (TPA) será apresentado no Coliseu dos Recreios de Lisboa (Portugal), numa gala especialmente preparada para o efeito e na qual marcará presença o ministro da Comunicação Social de Angola, Manuel Rabelais. Durante a cerimónia será gravado o primeiro programa, o «Hora Quente», do humorista Pedro Zage. Artistas angolanos vão abrilhantar a gala em que se farão presentes vários dignitários portugueses, além de figuras ligadas à comunicação social de ambos os países. O «cardápio» da festa oferece os músicos Yola Araújo, Puto Lilas, Carlos Burity, Bonga, Karina Santos, Bruna Tatiana, Maya Cool e Yuri da Cunha.

Finalmente, uma entrevista de Mia Couto ao NJ:

Visitei Angola na condição de escritor e de biólogo. Em todos os casos, encontrei gente de uma afabilidade extrema, o que faz renascer a vontade de voltar sempre e sempre. Devo também dizer que, do ponto de vista literário, tenho uma espécie de dívida para com Luandino Vieira, cuja leitura me encorajou a enveredar por processos de recriação da norma portuguesa.
(…)
O Agualusa é um amigo e o que eu penso digo-lho a ele directamente.
(…)
Não vivo num país de negros mas de moçambicanos. E é muito raro que me lembrem que tenho raça. Invariavelmente, a minha condição de branco é lembrada apenas quando se reivindica o usufruto de privilégios e é necessário criar hierarquias na base da raça.
(…)
O facto de sermos africanos e de língua portuguesa coloca-nos numa condição de dupla dificuldade. É preciso entender que África continua a funcionar como uma coisa exótica e que apenas 'vende' se estiver a envergar vestes folclóricas e estereotipadas. Por outro lado, cada vez menos se fazem traduções. Por exemplo, em Inglaterra menos de 3% dos livros publicados resultam de traduções. Temos, portanto, que vencer estes dois obstáculos, e isso está a acontecer, a pouco e pouco, mas há ainda um longo caminho a percorrer.
(…)
O escritor é aquele que conhece a língua dos sonhos e, mais do que um idioma específico, usa a dimensão poética da palavra. Esse ser existe em todos nós, mesmo nos que não se crêem escritores. Adormecemos dentro de nós a capacidade de inventarmos histórias e, mais do que histórias, modos únicos de as contarmos. A oralidade que trazemos da nossa infância é tida como uma menoridade que o estado chamado de adulto deve saber ofuscar.(Capa do ultimo livro de Mia Couto, Editorial Caminho, 2008)
Para variar um pouco o “mau habito” de so’ incluir nesta serie artigos dos semanarios (diga-se que apenas porque estes, ao contrario do nosso unico diario, nao sao livremente acessiveis online), comeco com uma noticia publicada hoje no Jornal de Angola… pelo tema e por envolver Ngozi Okonjo-Iewala, que aqui anteriormente referi (acontecimento que quem tenha lido o meu artigo "Angola, Petroleo e Economia Post-Conflito: Que Fazer?", achara' certamente interessante):

O Banco Mundial felicitou Angola pela “boa gestão macro-económica”, assim como pela estabilidade, segurança e paz alcançadas pelos angolanos.Esta felicitação foi manifestada ao princípio da tarde de ontem, em Luanda, pela directora de Gestão (vice-presidente) do Banco, a nigeriana Ngozi Okonjo-Iweala, à saída de uma audiência que lhe foi concedida, no Palácio da Cidade Alta, em Luanda, pelo Primeiro-Ministro Fernando da Piedade Dias dos Santos.Durante a audiência foi abordado o reforço da cooperação entre o país e a instituição financeira.A vice-presidente do Banco Mundial disse ter vindo a Angola “para felicitar o Presidente José Eduardo dos Santos e o Primeiro-Ministro pela estabilidade, segurança e paz alcançadas no país, bem como pela boa gestão macro-económica”.

No SA, encontramos a Resenha aritmética de uma legislatura de 16 anos:

O Relatório de Actividades da Primeira Legislatura, lido na plenária que na terça-feira, 14, encerrou um ciclo parlamentar de 16 anos, considera positivo o desempenho dos órgãos da Assembleia Nacional e dos deputados, à luz de números fornecidos no dito documento. As actividades estatisticamente reportadas no documento, referente ao período entre Novembro de 1992 e o presente mês de Julho, atribuem um rol de actividades à Secretaria da Assembleia Nacional (SAN), o que constitui, entretanto, uma inferição ao trabalho do próprio Parlamento. Os números dizem que durante os 16 anos pelos quais perdurou a legislatura, a SAN produziu 179 leis e 384 resoluções, perfazendo um total de 563 actos legislativos.

Segue-se-lhe, em Eles só não prometem o céu e a terra, a primeira parte de uma serie que o mesmo semanario dedica, a partir deste numero, as propostas eleitorais dos dois maiores partidos politicos Angolanos:

Embora os dois partidos tenham feito questão de mostrar uma pontinha do seu conteúdo em actos públicos, os seus programas de governo não foram totalmente escancarados porque havia a conveniência de os preservar de «olhares indiscretos». Ou, mais concretamente, da espionagem dos adversários e concorrentes. Mesmo assim, não vá o diabo tece-las, os programas da UNITA e do MPLA ainda não andam por aí à mercê de qualquer manápula. Foi o cabo dos trabalhos para o Semanário Angolense lograr aceder a dois exemplares. Assim, a partir desta edição, o leitor já não terá de esperar pelo início da campanha propriamente dita e dos comícios que a partir daí correrão à larga para dar uma olhada às propostas dos gigantes da política angolana.

Severino Carlos apresenta uma recente comunicacao sua sobre Rigor informativo vs verdades jornalísticas:

Vivemos, actualmente, num contexto de super-informação global, cujas características principais centram-se na velocidade da difusão e circulação de informação. Trata-se de uma espécie de darwinismo no universo da comunicação, em que o melhor e mais apto é aquele que não só chega primeiro aos factos dignos de serem noticiados, como também aquele que os divulga primeiro. A lógica é ser o primeiro jornal, rádio ou canal de televisão. É proibido ser ultrapassado. Chega a ser uma tirania para todos: receptores e emissores de comunicação.
Angola não está isolada deste contexto. E, por isso, a vaga tem vindo a salpicar o nosso país. Não é um fenómeno necessariamente negativo, mas configura um quadro que, face às debilidades da envolvente político-organizativa e às condições materiais em que os jornalistas laboram, gera sérios problemas específicos de rigor informativo. Ou, melhor dizendo, problemas que imbricam com uma das regras de ouro da actividade jornalística: o pressuposto de que toda a informação, para ser entendida como tal, e não como um exercício de manipulação ou de contra-informação, deve caracterizar-se pela objectividade. O que quer dizer que tem de ser enxuta e despida da emotividade e da visão pessoal do jornalista que a veicula. Por fim, e mais importante do que tudo, tem de ser verdadeira.

No NJ, Fernando Pacheco critica alguns desenvolvimentos e posturas em relacao a politica agricola no pais, Enquanto o ferro está quente:

Tenho criticado os nossos mais conceituados economistas por também não dedicarem a devida atenção à agricultura e à produção de alimentos. Na recente apresentação do prestigiado Relatório Económico do Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica o meu amigo Justino Pinto de Andrade dedicou menos de dois dos mais de trinta minutos da sua intervenção ao capítulo da agricultura, apesar de ele abordar temas pertinentes e polémicos como os biocombustíveis. Nestes momentos lembro-me de como seria importante para Angola ter economistas como o malogrado moçambicano José Negrão, que tanto contribuiu para que a agricultura do seu país tivesse crescido de forma tão contundente desde o fim da guerra.
(…)
A ausência de sentido crítico e a auto censura de jornais e de técnicos não têm permitido que a opinião pública se aperceba de alguns dos enormes erros que se estão a acontecer. Um exemplo inquietante do que estou a dizer tem a ver com a importação de gado de raça nelore do Brasil, que aparece frequentemente nas telenovelas da Globo. Subitamente surgiram em Angola empresas brasileiras a vender esse gado e tudo indica que até final deste ano as importações terão atingido cerca de cem mil cabeças, apesar dos resultados não estarem a ser animadores. Como está envolvida gente importante, não foram ouvidas as instituições competentes nem os conselhos dos técnicos mais qualificados, nem sequer respeitadas as normas mais elementares de importação de gado, como, por exemplo, a obrigatoriedade de quarentenas, como acontece em todo o mundo.

Voltando ao SA, encontramos a noticia do lancamento amanha, em Lisboa, do canal internacional da TPA:

Na próxima quinta-feira, 24, o canal internacional da Televisão Pública de Angola (TPA) será apresentado no Coliseu dos Recreios de Lisboa (Portugal), numa gala especialmente preparada para o efeito e na qual marcará presença o ministro da Comunicação Social de Angola, Manuel Rabelais. Durante a cerimónia será gravado o primeiro programa, o «Hora Quente», do humorista Pedro Zage. Artistas angolanos vão abrilhantar a gala em que se farão presentes vários dignitários portugueses, além de figuras ligadas à comunicação social de ambos os países. O «cardápio» da festa oferece os músicos Yola Araújo, Puto Lilas, Carlos Burity, Bonga, Karina Santos, Bruna Tatiana, Maya Cool e Yuri da Cunha.

Finalmente, uma entrevista de Mia Couto ao NJ:

Visitei Angola na condição de escritor e de biólogo. Em todos os casos, encontrei gente de uma afabilidade extrema, o que faz renascer a vontade de voltar sempre e sempre. Devo também dizer que, do ponto de vista literário, tenho uma espécie de dívida para com Luandino Vieira, cuja leitura me encorajou a enveredar por processos de recriação da norma portuguesa.
(…)
O Agualusa é um amigo e o que eu penso digo-lho a ele directamente.
(…)
Não vivo num país de negros mas de moçambicanos. E é muito raro que me lembrem que tenho raça. Invariavelmente, a minha condição de branco é lembrada apenas quando se reivindica o usufruto de privilégios e é necessário criar hierarquias na base da raça.
(…)
O facto de sermos africanos e de língua portuguesa coloca-nos numa condição de dupla dificuldade. É preciso entender que África continua a funcionar como uma coisa exótica e que apenas 'vende' se estiver a envergar vestes folclóricas e estereotipadas. Por outro lado, cada vez menos se fazem traduções. Por exemplo, em Inglaterra menos de 3% dos livros publicados resultam de traduções. Temos, portanto, que vencer estes dois obstáculos, e isso está a acontecer, a pouco e pouco, mas há ainda um longo caminho a percorrer.
(…)
O escritor é aquele que conhece a língua dos sonhos e, mais do que um idioma específico, usa a dimensão poética da palavra. Esse ser existe em todos nós, mesmo nos que não se crêem escritores. Adormecemos dentro de nós a capacidade de inventarmos histórias e, mais do que histórias, modos únicos de as contarmos. A oralidade que trazemos da nossa infância é tida como uma menoridade que o estado chamado de adulto deve saber ofuscar.(Capa do ultimo livro de Mia Couto, Editorial Caminho, 2008)

Thursday, 31 January 2008

THIS MONTH LAST YEAR - 1


O mes de Janeiro do ano passado neste blog fica marcado como o mes mais ‘produtivo’ nesta minha ainda curta, mas que parece ja’ tao longa, vida de ‘blogger’: 52 ‘posts’!
Um record que se mantem ate’ hoje (e que, sinceramente, nao pretendo bater…), contrastando completamente com o ‘output’ do mes que hoje termina, com apenas 21 ‘posts’, em parte porque “me permiti” ficar sem ‘postar’ durante uma semana, o que nao me lembro de ter feito antes e que pretendo fazer mais vezes daqui para a frente.

Durante aquele mes, apresentei aqui os mais variados temas, incluindo danca e musica tradicional e urbana angolana; poetas e musicos de outras partes do mundo, com destaque para Adelia Prado e Grover Washington Jr.; a perturbadora politica nazi em relacao a ‘musica negra’; as ‘malambas’ do regresso de ‘diasporenses’ a terra mae; as makas do BB UK; o World Social Forum num Kenya ainda longe do actual descalabro; os passamentos de Mesquitela Lima e de Joseph Ki-Zerbo; textos de Mia Couto; apresentacao de livros, com destaque para “O Livro dos Rios” de Luandino Vieira e “Ignorancia” de Milan Kundera; tributos a ‘mulheres de substancia’ como Nina Simone, Wangari Maathai, Ophra Winfrey e Bessie Head; a critica a “formula Wade de combate a pobreza em Africa”; artigos historicos sobre o massacre da Baixa de Kassange; um ensaio sobre a literatura angolana; a catastrofica epoca chuvosa, por entre expulsoes e demolicoes de habitacoes, em Luanda e a preocupante degradacao do Mussulo; nao esquecendo, obviamente (como o poderia?), as inestimaveis contribuicoes de Jose’ Alcada, meu “correspondente oficial” em Angola (reportando do Lwena, Kwanza Sul e Luanda, com passagens por Hollywood, Paris e uma pitada de noz de Kabinda a mistura) que, infelizmente, teve que se ‘reformar’ destas lides bloguisticas… que saudade!

Enfim, foi um mes “cheio”, a varios titulos. Mas, se me perguntarem qual foi a “highlight” do mes, direi sem hesitacao: o encontro com dois dos melhores amigos deste blog desde entao: Sailor Girl (Atlantico e Luanda Azul) e Denudado (A Materia do Tempo)! Duas pessoas que, para mim, continuam a representar o que de melhor a blogosfera tem para oferecer, se tivermos a sorte de o encontrar: a descoberta da amizade, da solidariedade, da partilha, enfim da humanidade no seu sentido mais nobre, mesmo nos momentos mais dificeis, sobretudo nestes, e apesar das diferencas de opiniao que ocasionalmente nos possam separar.
Esses sao, quanto a mim, os valores essenciais que conferem o necessario grau de competencia comunicativa para a valorizacao de um qualquer conceito de “comunidade lusofona”, ou de qualquer outra comunidade linguistica, num mundo cada vez mais globalizado e competitivo. Porque, ao fim e ao cabo, de que serve uma lingua comum se ela por si so’ nao se demonstra capaz de facilitar a comunicacao efectiva e o respeito mutuo entre os seus utentes?
Para eles aqui fica, mais uma vez, aquele abraco!


O mes de Janeiro do ano passado neste blog fica marcado como o mes mais ‘produtivo’ nesta minha ainda curta, mas que parece ja’ tao longa, vida de ‘blogger’: 52 ‘posts’!
Um record que se mantem ate’ hoje (e que, sinceramente, nao pretendo bater…), contrastando completamente com o ‘output’ do mes que hoje termina, com apenas 21 ‘posts’, em parte porque “me permiti” ficar sem ‘postar’ durante uma semana, o que nao me lembro de ter feito antes e que pretendo fazer mais vezes daqui para a frente.

Durante aquele mes, apresentei aqui os mais variados temas, incluindo danca e musica tradicional e urbana angolana; poetas e musicos de outras partes do mundo, com destaque para Adelia Prado e Grover Washington Jr.; a perturbadora politica nazi em relacao a ‘musica negra’; as ‘malambas’ do regresso de ‘diasporenses’ a terra mae; as makas do BB UK; o World Social Forum num Kenya ainda longe do actual descalabro; os passamentos de Mesquitela Lima e de Joseph Ki-Zerbo; textos de Mia Couto; apresentacao de livros, com destaque para “O Livro dos Rios” de Luandino Vieira e “Ignorancia” de Milan Kundera; tributos a ‘mulheres de substancia’ como Nina Simone, Wangari Maathai, Ophra Winfrey e Bessie Head; a critica a “formula Wade de combate a pobreza em Africa”; artigos historicos sobre o massacre da Baixa de Kassange; um ensaio sobre a literatura angolana; a catastrofica epoca chuvosa, por entre expulsoes e demolicoes de habitacoes, em Luanda e a preocupante degradacao do Mussulo; nao esquecendo, obviamente (como o poderia?), as inestimaveis contribuicoes de Jose’ Alcada, meu “correspondente oficial” em Angola (reportando do Lwena, Kwanza Sul e Luanda, com passagens por Hollywood, Paris e uma pitada de noz de Kabinda a mistura) que, infelizmente, teve que se ‘reformar’ destas lides bloguisticas… que saudade!

Enfim, foi um mes “cheio”, a varios titulos. Mas, se me perguntarem qual foi a “highlight” do mes, direi sem hesitacao: o encontro com dois dos melhores amigos deste blog desde entao: Sailor Girl (Atlantico e Luanda Azul) e Denudado (A Materia do Tempo)! Duas pessoas que, para mim, continuam a representar o que de melhor a blogosfera tem para oferecer, se tivermos a sorte de o encontrar: a descoberta da amizade, da solidariedade, da partilha, enfim da humanidade no seu sentido mais nobre, mesmo nos momentos mais dificeis, sobretudo nestes, e apesar das diferencas de opiniao que ocasionalmente nos possam separar.
Esses sao, quanto a mim, os valores essenciais que conferem o necessario grau de competencia comunicativa para a valorizacao de um qualquer conceito de “comunidade lusofona”, ou de qualquer outra comunidade linguistica, num mundo cada vez mais globalizado e competitivo. Porque, ao fim e ao cabo, de que serve uma lingua comum se ela por si so’ nao se demonstra capaz de facilitar a comunicacao efectiva e o respeito mutuo entre os seus utentes?
Para eles aqui fica, mais uma vez, aquele abraco!

Sunday, 14 January 2007

AINDA O MIA COUTO...

"Mia Couto e O Exercício Da Humildade"

“É sempre assim que acontece na minha vida, quando percebo alguma coisa já é demasiado tarde.”

De todo modo, sua prosa de ficção hoje não é literatura de militância.


Couto: Certo. Esse foi um processo de tomada de consciência, por exemplo, que nasceu sempre em rupturas, em pequenos conflitos. Porque hoje eu tenho uma relação com essa militância já afastada, crítica, o que não quer dizer que não tenha essa militância. A dos outros mudou e a minha também, se calhar, mudou. E o primeiro livro de poesia que eu publiquei já foi numa briga, já foi numa zanga. Me irritava muito o fato de que toda poesia que falasse do eu, que falasse da intimidade fosse tida como uma poesia burguesa. E eu escrevi este primeiro livro em 1983, já como que em oposição a isto. Era uma poesia lírica e intimista, que falava do amor.

E a influência de Guimarães Rosa?


Couto: Primeiro tenho que falar de Luandino Vieira, o escritor angolano, que é o primeiro contato que eu tenho com alguém que escreve um português que é arrevesado, que está misturado com a terra. E Luandino marcou-me muito. Foi o primeiro sinal da autorização de como eu queria fazer. Eu sabia que eu queria fazer isso, mas eu precisava de uma credencial do mais velho que disse “esse caminho é abençoado”. E ele confessa que foi autorizado, também ele, por um outro, um tal João Guimarães Rosa que eu não conhecia, porque não chegavam aqui estes livros. Depois da Independência deixaram chegar livros do Brasil e é uma coisa irônica, do ponto de vista histórico.

O hino nacional de vocês está mudando exatamente agora, não é?


Couto: É. Está mudando agora. Tem uma história até muito engraçada. Em 1981, 1982, o presidente Samora, que era vivo na altura, pensou que o hino nacional não funcionava. Era um hino muito partidário. Começava por “viva, viva a Frelimo”. E ele tinha já a apreciação de que nem todos os moçambicanos seriam da Frelimo. Então, era preciso um hino que cobrisse os moçambicanos todos. Ele (Samora) colocou seis poetas e seis músicos numa casa, fechou-nos lá e disse “vocês têm que sair daqui com várias propostas de hinos feitas”. E fomos fechados numa casa aqui na Matola e aquilo era ótimo. (...) Eles (a Frelimo) vinham nos visitar para ver como era que estava sendo feito. E produzimos meia dúzia de hinos que ficaram ali e nunca mais foram aprovados. Agora, por causa do novo clima político que a partir de 1995 passou a existir, um clima de democracia aberta e multipartidarismo, passou a ser mesmo obrigatório que este país tivesse um outro hino. Pelo menos uma outra letra.

Qual a sua principal crítica ao partido?

Couto: Acho que a Frelimo passou a ter um discurso falseado, mascarado, com objetivos ainda socialistas quando eles todos já se tinham convertido em empresários de sucesso. Eu já não estou lá. Mas quando a Frelimo cantava era uma coisa que me fascinava. Lembro da primeira vez que eu vi Samora Machel, que era um deus para nós, nós endeusávamos aquele homem. Era nosso Guevara. E quando nós fomos como jornalistas ter com este homem na Tanzânia, no percurso, todos nós íamos pensando em como íamos impressionar aquele homem. Queríamos que ele gostasse de nós. E cada um pensava no que dizer: “olha, eu sei parte dos discursos dele de cor, eu sei citar coisas da Frelimo”. E quando chegamos ao pé dele, a grande impressão que eu tive é que ele era um homem de um grande magnetismo, uma pessoa que exalava esta aura, e era muito pequenino, baixinho, com uma grande energia. E a primeira pergunta que ele nos fez foi “algum de vocês sabe cantar?”. E nós não sabíamos. Como intelectuais sabíamos fazer coisas políticas etc. Esta coisa depois me fez pensar. Ele nos disse: ‘como é possível um homem que não sabe cantar, que não sabe dançar nada? Como é que vocês podem ser pessoas se não sabem cantar nem dançar? O que é que sabem fazer?” Então, nós sabíamos fazer coisas que, de fato, eram um pouco chatas, não é? Um pouco aborrecidas. E este era o grande fascínio, a Frelimo cantava.

Havia muitos brancos nesse grupo da sua geração?

Couto: Eu sempre fui um dos poucos brancos. Os brancos neste país sempre foram uma minoria que não conta.

Na época da crise mais intensa, você era discriminado? Seus pais são portugueses?

Couto: Meus pais são portugueses. O racismo colonial era contra os mulatos, e os pretos. Eu era tido como branco de segunda, porque nasci aqui. Eu não tinha acesso a certas funções no governo colonial. Meus pais eram brancos de primeira, e eu era branco de segunda. Meus filhos seriam brancos de terceira, e aquilo estava hierarquizado. Era um sistema que discriminava mais os pretos. (...) Depois da Independência, eu nunca fui objeto de racismo, nunca fui discriminado assim. No cotidiano, não sinto. Esqueço-me da minha raça. (...) Também tem uma grande força aquilo que falamos ontem, o modelo americano da ação afirmativa.

Isso tem força?

Couto: Tem força em alguns momentos. Não é uma política oficial, como é, por exemplo na África do Sul, mas tem. É usado como argumento quando é preciso.

Você concorda com essa política?

Couto: Eu, não. Eu não sei pensar essa política lá no lugar onde ela nasceu. Aparentemente ela nasce com propósitos completamente diferentes dos que estão sendo usados ou aplicados aqui. A ação afirmativa nasce para impor direitos de minorias. Aqui é usado pelo direito da maioria. O que é uma coisa estranha. Por exemplo, o rap, que é um movimento de revolta contra quem está no poder aqui tem tanta força porque mesmo os que estão no poder, sendo pretos, são brancos. Neste sentido de que as pessoas que se sentem excluídas culturalmente e para terem acesso a certa posição social têm que copiar, têm que falar português, por exemplo. Tem que abdicar de sua cultura original e isso cria um sentimento de intranqüilidade. E no fim as pessoas acham legítimo um movimento de ação afirmativa porque estão lutando contra uma coisa que é quase fantasmagórica. Um movimento de ação afirmativa aqui devia defender a mim enquanto minoria, não é?

E por que o apelido "Mia"?

Couto: Por causa dos gatos. Eu era miúdo, tinha dois ou três anos e pensava que era um gato, comia com os gatos. Meus pais tinham que me puxar para o lado e me dizer que eu não era um gato. E isto ficou. Eu, lá fora, sou sempre esperado como preto ou como mulher. Certa vez, numa delegação do Samora Machel, que foi daqui visitar Fidel Castro, eu fui o único homem na vida a quem Fidel Castro deu saias e colares e brincos, pensando que eu era mulher. Ele deu prendas a todos, e a minha caixa. Isso me diverte. Essas questões de identidade me divertem muito, quer seja do sexo, quer seja da raça. Eu não tenho raça. Minha raça sou eu mesmo.

Ler o resto aqui.

"Mia Couto e O Exercício Da Humildade"

“É sempre assim que acontece na minha vida, quando percebo alguma coisa já é demasiado tarde.”

De todo modo, sua prosa de ficção hoje não é literatura de militância.


Couto: Certo. Esse foi um processo de tomada de consciência, por exemplo, que nasceu sempre em rupturas, em pequenos conflitos. Porque hoje eu tenho uma relação com essa militância já afastada, crítica, o que não quer dizer que não tenha essa militância. A dos outros mudou e a minha também, se calhar, mudou. E o primeiro livro de poesia que eu publiquei já foi numa briga, já foi numa zanga. Me irritava muito o fato de que toda poesia que falasse do eu, que falasse da intimidade fosse tida como uma poesia burguesa. E eu escrevi este primeiro livro em 1983, já como que em oposição a isto. Era uma poesia lírica e intimista, que falava do amor.

E a influência de Guimarães Rosa?


Couto: Primeiro tenho que falar de Luandino Vieira, o escritor angolano, que é o primeiro contato que eu tenho com alguém que escreve um português que é arrevesado, que está misturado com a terra. E Luandino marcou-me muito. Foi o primeiro sinal da autorização de como eu queria fazer. Eu sabia que eu queria fazer isso, mas eu precisava de uma credencial do mais velho que disse “esse caminho é abençoado”. E ele confessa que foi autorizado, também ele, por um outro, um tal João Guimarães Rosa que eu não conhecia, porque não chegavam aqui estes livros. Depois da Independência deixaram chegar livros do Brasil e é uma coisa irônica, do ponto de vista histórico.

O hino nacional de vocês está mudando exatamente agora, não é?


Couto: É. Está mudando agora. Tem uma história até muito engraçada. Em 1981, 1982, o presidente Samora, que era vivo na altura, pensou que o hino nacional não funcionava. Era um hino muito partidário. Começava por “viva, viva a Frelimo”. E ele tinha já a apreciação de que nem todos os moçambicanos seriam da Frelimo. Então, era preciso um hino que cobrisse os moçambicanos todos. Ele (Samora) colocou seis poetas e seis músicos numa casa, fechou-nos lá e disse “vocês têm que sair daqui com várias propostas de hinos feitas”. E fomos fechados numa casa aqui na Matola e aquilo era ótimo. (...) Eles (a Frelimo) vinham nos visitar para ver como era que estava sendo feito. E produzimos meia dúzia de hinos que ficaram ali e nunca mais foram aprovados. Agora, por causa do novo clima político que a partir de 1995 passou a existir, um clima de democracia aberta e multipartidarismo, passou a ser mesmo obrigatório que este país tivesse um outro hino. Pelo menos uma outra letra.

Qual a sua principal crítica ao partido?

Couto: Acho que a Frelimo passou a ter um discurso falseado, mascarado, com objetivos ainda socialistas quando eles todos já se tinham convertido em empresários de sucesso. Eu já não estou lá. Mas quando a Frelimo cantava era uma coisa que me fascinava. Lembro da primeira vez que eu vi Samora Machel, que era um deus para nós, nós endeusávamos aquele homem. Era nosso Guevara. E quando nós fomos como jornalistas ter com este homem na Tanzânia, no percurso, todos nós íamos pensando em como íamos impressionar aquele homem. Queríamos que ele gostasse de nós. E cada um pensava no que dizer: “olha, eu sei parte dos discursos dele de cor, eu sei citar coisas da Frelimo”. E quando chegamos ao pé dele, a grande impressão que eu tive é que ele era um homem de um grande magnetismo, uma pessoa que exalava esta aura, e era muito pequenino, baixinho, com uma grande energia. E a primeira pergunta que ele nos fez foi “algum de vocês sabe cantar?”. E nós não sabíamos. Como intelectuais sabíamos fazer coisas políticas etc. Esta coisa depois me fez pensar. Ele nos disse: ‘como é possível um homem que não sabe cantar, que não sabe dançar nada? Como é que vocês podem ser pessoas se não sabem cantar nem dançar? O que é que sabem fazer?” Então, nós sabíamos fazer coisas que, de fato, eram um pouco chatas, não é? Um pouco aborrecidas. E este era o grande fascínio, a Frelimo cantava.

Havia muitos brancos nesse grupo da sua geração?

Couto: Eu sempre fui um dos poucos brancos. Os brancos neste país sempre foram uma minoria que não conta.

Na época da crise mais intensa, você era discriminado? Seus pais são portugueses?

Couto: Meus pais são portugueses. O racismo colonial era contra os mulatos, e os pretos. Eu era tido como branco de segunda, porque nasci aqui. Eu não tinha acesso a certas funções no governo colonial. Meus pais eram brancos de primeira, e eu era branco de segunda. Meus filhos seriam brancos de terceira, e aquilo estava hierarquizado. Era um sistema que discriminava mais os pretos. (...) Depois da Independência, eu nunca fui objeto de racismo, nunca fui discriminado assim. No cotidiano, não sinto. Esqueço-me da minha raça. (...) Também tem uma grande força aquilo que falamos ontem, o modelo americano da ação afirmativa.

Isso tem força?

Couto: Tem força em alguns momentos. Não é uma política oficial, como é, por exemplo na África do Sul, mas tem. É usado como argumento quando é preciso.

Você concorda com essa política?

Couto: Eu, não. Eu não sei pensar essa política lá no lugar onde ela nasceu. Aparentemente ela nasce com propósitos completamente diferentes dos que estão sendo usados ou aplicados aqui. A ação afirmativa nasce para impor direitos de minorias. Aqui é usado pelo direito da maioria. O que é uma coisa estranha. Por exemplo, o rap, que é um movimento de revolta contra quem está no poder aqui tem tanta força porque mesmo os que estão no poder, sendo pretos, são brancos. Neste sentido de que as pessoas que se sentem excluídas culturalmente e para terem acesso a certa posição social têm que copiar, têm que falar português, por exemplo. Tem que abdicar de sua cultura original e isso cria um sentimento de intranqüilidade. E no fim as pessoas acham legítimo um movimento de ação afirmativa porque estão lutando contra uma coisa que é quase fantasmagórica. Um movimento de ação afirmativa aqui devia defender a mim enquanto minoria, não é?

E por que o apelido "Mia"?

Couto: Por causa dos gatos. Eu era miúdo, tinha dois ou três anos e pensava que era um gato, comia com os gatos. Meus pais tinham que me puxar para o lado e me dizer que eu não era um gato. E isto ficou. Eu, lá fora, sou sempre esperado como preto ou como mulher. Certa vez, numa delegação do Samora Machel, que foi daqui visitar Fidel Castro, eu fui o único homem na vida a quem Fidel Castro deu saias e colares e brincos, pensando que eu era mulher. Ele deu prendas a todos, e a minha caixa. Isso me diverte. Essas questões de identidade me divertem muito, quer seja do sexo, quer seja da raça. Eu não tenho raça. Minha raça sou eu mesmo.

Ler o resto aqui.

Thursday, 4 January 2007

O LIVRO DOS RIOS

Luandino Vieira apresentou recentemente em Luanda, de onde andava ausente desde 1992, a sua mais recente obra, "O Livro dos Rios" (o primeiro volume de uma trilogia que intitulou `De Velhos Rios e Guerrilheiros`). Fê-lo no jardim da União dos Escritores Angolanos (UEA), tendo afirmado aos presentes: "É um conforto imerecido, esta vossa prova de carinho, estima e compreensão, para não dizer de misericórdia, em relação a vários pecados meus." Luandino referiu-se também, em declarações à imprensa luandense, á sua regeição, em meados deste ano, do Prémio Camões, o maior galardão literário de língua portuguesa. Assim: "As razões que invoquei na altura são as que permanecem, são razões de consciência, de ordem pessoal, não há outra razão." Na altura, houve quem o acusasse de “traição” alegando, entre outras coisas, que deveria ter recebido os 100 mil euros do prémio e doá-lo a causas nobres em Angola… Críticas ressentidas que se repetiram agora por altura do lançamento deste livro em Luanda, tendo havido quem se achasse no direito, em nome dos angolanos, de lhe cobrar explicações pela longa ausência… Em minha opinião, quaisquer que sejam as suas alegadas razões pessoais e de consciência, o Luandino continua a dar sinais de uma humildade e honestidade que nenhum outro dos escritores que foram associados a dita "comissão das lágrimas" do processo 27 de Maio foi capaz de dar, pelo menos públicamente, até agora… E creio que isso deve ser reconhecido. Se ele pede perdão pelos seus pecados, quaisquer que eles sejam, cabe aos angolanos, como bom povo que é e sempre foi, ser magnânime. O Luandino não é propriedade dos angolanos... ele soube apenas, e muito bem, fazer-se filho de Angola e, muito particularmente, de Luanda. Um filho pródigo que regressou a casa e que Luanda deve receber de braços abertos, mesmo que ele volte a partir para onde se sente melhor neste momento... quantos outros filhos de Angola nao o têm feito? Eu, por mim, dou-me por bastante honrada com a dedicatória que me endereçou: "… 'In thy orisons be all my sins remembered!' Só o velho Shakespeare me ajuda neste momento." Porque fala dos tais “pecados” a que públicamente se referiu, menciono-a aqui, onde a língua de Shakespeare não se faz rogada em conceder os seus prêstimos… Não me lembro dos “pecados”, quaisquer que eles tenham sido… Apenas digo: obrigada Luandino.


"Conheci rios. E sonhei um sonho. Peregrinando os rios deste mundo, fui dar a um sítio onde que tinha uma caverna; e me deitei junto com ela para descansar; e, logo-logo, adormeci. E no sono onde que fui, adiantei sonhar nosso rio Kwanza desenhado como era uma jibóia de três caudas... Em quimbundo, assim: Ng'anjiua nzoji, kala kiki:
Mu ku nhunga mu jingiji ja mu ngongo mumu, ngisanga kididi buala o mbonge ia puri; anga ngibokona, ngizeka. O ku kilu ku ngaii, ng'anjiua nzoji. Mu nzoji mumu ngadiangela ku tala o ngiji ietu ia Kwanza ioxindi kala moma ia mikila itatu.
Ngadimuene jingiji. Jingiji ja ukulu, akua-îta, jingiji jakalelaku. Manhinga a menha.
(...) Aditernos rios, águas de sangue."


O livro: O escritor que tão bem nos revelou as múltiplas cidades de Luanda traz‑nos um novo espaço, conduzindo‑nos pelos rios que recortam a memória de um tempo e vão desaguar numa narrativa densa, desconcertante, fabulosa. O estilhaçamento da sintaxe convencional, a presença de neologismos, a incorporação de expressões em quimbundo, a articulação entre as matrizes da tradição e as da modernidade modulam o texto que exprime o compasso desgovernado da memória, marca essencial da obra de José Luandino Vieira.
O confronto entre o dilaceramento e a noção de inteireza que define o percurso de seus melhores personagens atravessa aqui a linguagem, imprimindo‑lhe um movimento em que as elipses se alternam com o curso caudaloso das referências. A imagem da travessia que povoa o texto é senha para o mergulho nessas águas que o autor oferece em mais uma manifestação da sua excepcional capacidade de combinar invenção e resistência.
Contenção e transbordamento — o rio e suas margens — refletem‑se assim numa escrita em que se projeta a história recente de Angola, mas não só. É também de outras crises que O Livro dos Rios se ocupa, abismos da contemporaneidade e problemas que desde tempos imemoriais têm envolvido o homem e mobilizado os grandes escritores.

Rita Chaves
(Universidade de São Paulo)


O autor: José Luandino Vieira. Cidadão angolano pela sua participação no movimento de libertação nacional e contribuição no nascimento da República Popular de Angola. Infância, juventude e estudos primários e secundários em Luanda. Diversas profissões. Preso pela PIDE em 1959 (Processo dos 50). De novo preso (1961) e condenado a 14 anos de prisão e medidas de segurança. Transferido, em 1964, para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde passou 8 anos, foi libertado em 1972, em regime de residência vigiada em Lisboa. Iniciou então a publicação da sua obra, na grande maioria escrita nas diversas prisões por onde passou. Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, exerceu a função de secretário‑geral desde a sua fundação — 10‑12‑1975 — e em vários mandatos até 1992. (Editorial Nzila)


{Leia aqui uma entrevista de Luandino Vieira sobre o "Livro dos Rios"}
Luandino Vieira apresentou recentemente em Luanda, de onde andava ausente desde 1992, a sua mais recente obra, "O Livro dos Rios" (o primeiro volume de uma trilogia que intitulou `De Velhos Rios e Guerrilheiros`). Fê-lo no jardim da União dos Escritores Angolanos (UEA), tendo afirmado aos presentes: "É um conforto imerecido, esta vossa prova de carinho, estima e compreensão, para não dizer de misericórdia, em relação a vários pecados meus." Luandino referiu-se também, em declarações à imprensa luandense, á sua regeição, em meados deste ano, do Prémio Camões, o maior galardão literário de língua portuguesa. Assim: "As razões que invoquei na altura são as que permanecem, são razões de consciência, de ordem pessoal, não há outra razão." Na altura, houve quem o acusasse de “traição” alegando, entre outras coisas, que deveria ter recebido os 100 mil euros do prémio e doá-lo a causas nobres em Angola… Críticas ressentidas que se repetiram agora por altura do lançamento deste livro em Luanda, tendo havido quem se achasse no direito, em nome dos angolanos, de lhe cobrar explicações pela longa ausência… Em minha opinião, quaisquer que sejam as suas alegadas razões pessoais e de consciência, o Luandino continua a dar sinais de uma humildade e honestidade que nenhum outro dos escritores que foram associados a dita "comissão das lágrimas" do processo 27 de Maio foi capaz de dar, pelo menos públicamente, até agora… E creio que isso deve ser reconhecido. Se ele pede perdão pelos seus pecados, quaisquer que eles sejam, cabe aos angolanos, como bom povo que é e sempre foi, ser magnânime. O Luandino não é propriedade dos angolanos... ele soube apenas, e muito bem, fazer-se filho de Angola e, muito particularmente, de Luanda. Um filho pródigo que regressou a casa e que Luanda deve receber de braços abertos, mesmo que ele volte a partir para onde se sente melhor neste momento... quantos outros filhos de Angola nao o têm feito? Eu, por mim, dou-me por bastante honrada com a dedicatória que me endereçou: "… 'In thy orisons be all my sins remembered!' Só o velho Shakespeare me ajuda neste momento." Porque fala dos tais “pecados” a que públicamente se referiu, menciono-a aqui, onde a língua de Shakespeare não se faz rogada em conceder os seus prêstimos… Não me lembro dos “pecados”, quaisquer que eles tenham sido… Apenas digo: obrigada Luandino.


"Conheci rios. E sonhei um sonho. Peregrinando os rios deste mundo, fui dar a um sítio onde que tinha uma caverna; e me deitei junto com ela para descansar; e, logo-logo, adormeci. E no sono onde que fui, adiantei sonhar nosso rio Kwanza desenhado como era uma jibóia de três caudas... Em quimbundo, assim: Ng'anjiua nzoji, kala kiki:
Mu ku nhunga mu jingiji ja mu ngongo mumu, ngisanga kididi buala o mbonge ia puri; anga ngibokona, ngizeka. O ku kilu ku ngaii, ng'anjiua nzoji. Mu nzoji mumu ngadiangela ku tala o ngiji ietu ia Kwanza ioxindi kala moma ia mikila itatu.
Ngadimuene jingiji. Jingiji ja ukulu, akua-îta, jingiji jakalelaku. Manhinga a menha.
(...) Aditernos rios, águas de sangue."


O livro: O escritor que tão bem nos revelou as múltiplas cidades de Luanda traz‑nos um novo espaço, conduzindo‑nos pelos rios que recortam a memória de um tempo e vão desaguar numa narrativa densa, desconcertante, fabulosa. O estilhaçamento da sintaxe convencional, a presença de neologismos, a incorporação de expressões em quimbundo, a articulação entre as matrizes da tradição e as da modernidade modulam o texto que exprime o compasso desgovernado da memória, marca essencial da obra de José Luandino Vieira.
O confronto entre o dilaceramento e a noção de inteireza que define o percurso de seus melhores personagens atravessa aqui a linguagem, imprimindo‑lhe um movimento em que as elipses se alternam com o curso caudaloso das referências. A imagem da travessia que povoa o texto é senha para o mergulho nessas águas que o autor oferece em mais uma manifestação da sua excepcional capacidade de combinar invenção e resistência.
Contenção e transbordamento — o rio e suas margens — refletem‑se assim numa escrita em que se projeta a história recente de Angola, mas não só. É também de outras crises que O Livro dos Rios se ocupa, abismos da contemporaneidade e problemas que desde tempos imemoriais têm envolvido o homem e mobilizado os grandes escritores.

Rita Chaves
(Universidade de São Paulo)


O autor: José Luandino Vieira. Cidadão angolano pela sua participação no movimento de libertação nacional e contribuição no nascimento da República Popular de Angola. Infância, juventude e estudos primários e secundários em Luanda. Diversas profissões. Preso pela PIDE em 1959 (Processo dos 50). De novo preso (1961) e condenado a 14 anos de prisão e medidas de segurança. Transferido, em 1964, para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde passou 8 anos, foi libertado em 1972, em regime de residência vigiada em Lisboa. Iniciou então a publicação da sua obra, na grande maioria escrita nas diversas prisões por onde passou. Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, exerceu a função de secretário‑geral desde a sua fundação — 10‑12‑1975 — e em vários mandatos até 1992. (Editorial Nzila)


{Leia aqui uma entrevista de Luandino Vieira sobre o "Livro dos Rios"}