Monday, 19 December 2011
Monday, 3 October 2011
Memoria de Morabezza (II)

Regresso brevemente a esta memoria para marcar o recente passamento fisico de Aristides Pereira, primeiro Presidente de Cabo Verde.
Lembro-me de naquele simposio me ter sido dada a honra de fazer a primeira alocucao pelos participantes a seguir 'a cerimonia solene de abertura e de, depois da emocional saudacao que recebi de Mario Pinto de Andrade, Aristides Pereira, perto de quem estava sentada, tambem me ter dirigido algumas palavras de morabezza.

Nao se tratando este apontamento estritamente de um obituario, essa memoria traz consigo a de um outro protagonista da luta anti-colonial, tambem falecido ha’ relativamente pouco tempo: Luis Cabral – irmao de Amilcar Cabral e primeiro presidente da Guine’ Bissau. Conheci-o, e a sua familia, num ambiente mais informal, atravez da Lourdes e do seu marido Carlos Rubio, de quem era amigo e vizinho em Lisboa.
Aos dois ex-estadistas, ambos co-fundadores do PAIGC com Amilcar Cabral, ligava o laco fraternal que, durante algum tempo, uniu a Guine’ Bissau e Cabo Verde sob a mesma bandeira.
Paz 'as suas Almas.
[Mindjeres di Pano Preto - Jose' Carlos Swarts]

Regresso brevemente a esta memoria para marcar o recente passamento fisico de Aristides Pereira, primeiro Presidente de Cabo Verde.
Lembro-me de naquele simposio me ter sido dada a honra de fazer a primeira alocucao pelos participantes a seguir 'a cerimonia solene de abertura e de, depois da emocional saudacao que recebi de Mario Pinto de Andrade, Aristides Pereira, perto de quem estava sentada, tambem me ter dirigido algumas palavras de morabezza.

Nao se tratando este apontamento estritamente de um obituario, essa memoria traz consigo a de um outro protagonista da luta anti-colonial, tambem falecido ha’ relativamente pouco tempo: Luis Cabral – irmao de Amilcar Cabral e primeiro presidente da Guine’ Bissau. Conheci-o, e a sua familia, num ambiente mais informal, atravez da Lourdes e do seu marido Carlos Rubio, de quem era amigo e vizinho em Lisboa.
Aos dois ex-estadistas, ambos co-fundadores do PAIGC com Amilcar Cabral, ligava o laco fraternal que, durante algum tempo, uniu a Guine’ Bissau e Cabo Verde sob a mesma bandeira.
Paz 'as suas Almas.
[Mindjeres di Pano Preto - Jose' Carlos Swarts]
Saturday, 17 April 2010
Afinale?

"Eu sempre achei que Cabo Verde não deveria ter sido independente, não assisti à independência de Cabo Verde por isso mesmo", disse, no colóquio "Vozes da Revolução: Guerra Colonial e Descolonização", no Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE).
Na opinião do antigo Chefe de Estado, Cabo Verde "teria muito a ganhar" caso se tivesse mantido parte do território nacional.
"Eu pensava que Cabo Verde não é propriamente África porque Cabo Verde é um arquipélago do norte do Atlântico e que há uma relação que deveria ter sido mais explorada entre os três arquipélagos existentes que são Europa, ou seja, Açores, Madeira, depois Canárias e podia ser Cabo Verde", argumentou.
Nas viagens que realizou como membro do Governo após a revolução de Abril de 1974, Mário Soares disse ter contactado muitos cabo-verdianos, nomeadamente nos Estados Unidos "onde havia uma colónia muito poderosa e rica", que "não queriam de maneira nenhuma a independência de Cabo Verde".
Admitindo que "era muito difícil" que o caminho seguido não tivesse sido a independência, Mário Soares explicou que não explicitou "no momento exacto" o seu pensamento sobre o assunto porque interrompeu a sua participação directa no processo que conduziu à independência - "nessa altura em já estava fora do combate", disse.
[Informacao daqui]

"Eu sempre achei que Cabo Verde não deveria ter sido independente, não assisti à independência de Cabo Verde por isso mesmo", disse, no colóquio "Vozes da Revolução: Guerra Colonial e Descolonização", no Instituto Superior das Ciências do Trabalho e da Empresa (ISCTE).
Na opinião do antigo Chefe de Estado, Cabo Verde "teria muito a ganhar" caso se tivesse mantido parte do território nacional.
"Eu pensava que Cabo Verde não é propriamente África porque Cabo Verde é um arquipélago do norte do Atlântico e que há uma relação que deveria ter sido mais explorada entre os três arquipélagos existentes que são Europa, ou seja, Açores, Madeira, depois Canárias e podia ser Cabo Verde", argumentou.
Nas viagens que realizou como membro do Governo após a revolução de Abril de 1974, Mário Soares disse ter contactado muitos cabo-verdianos, nomeadamente nos Estados Unidos "onde havia uma colónia muito poderosa e rica", que "não queriam de maneira nenhuma a independência de Cabo Verde".
Admitindo que "era muito difícil" que o caminho seguido não tivesse sido a independência, Mário Soares explicou que não explicitou "no momento exacto" o seu pensamento sobre o assunto porque interrompeu a sua participação directa no processo que conduziu à independência - "nessa altura em já estava fora do combate", disse.
[Informacao daqui]
Saturday, 6 March 2010
Contract: Portugal's Exploitative Labor Practices in Africa

world premier of Contract by Cape Verdean filmmaker Guenny K. Pires.
Contract is a documentary film that tells the story of thousands of
Cape Verdean contract workers who traveled to the Portuguese colony of
Sao Tome and Principe to work in the 19th and 20th Centuries. Cape
Verdeans, and workers from Portugal's other African colonies, were
forced or coerced into contracts obligating them to work on coffee and
cacao plantations on the islands of Sao Tome and Principe. After
decades of brutally hard labor, contract workers were often forced to
stay in Sao Tome and Principe, unable to secure passage home.
Many of the Cape Verdean contract workers featured in the film still
hold on to memories of home. Filmmaker Guenny Pires blends the stories
of Cape Verdean families affected by the contract labor system with
interviews with experts to tell this little known chapter in Africa's
history. The Cape Verdeans interviewed, including Pires' own uncle,
share that after decades in Sao Tome and Principe, many have
maintained their spiritual ties to their home. After marriages,
children, and new lives established in Sao Tome and Principe, many of
the Cape Verdean contract workers shown in the film expressed a strong
desire to return home.
At the heart of Contract is the family story of the filmmaker himself.
The film documents his journey to reunite his family after his uncle
left for Sao Tome and Principe decades earlier. The emotional journey
of Guenny Pires' family was the most salient aspect of the film. Pires
re-tells his uncle's departure for Sao Tome and Principe and the
eventual loss of contact between his uncle and his family. Pires'
speaks with various relatives and narrates the impact losing his uncle
had on the family. This deeply emotional journal to reunite the family
is one of the film's strengths.

Other aspects of the film are at times disjointed and difficult to
follow. The film often jumps from personal story to historical
documentary without warning. In addition, some of the experts
interviewed for the film gave information that was culturally
inaccurate and factually unclear. Portugal's colonial policies in
Africa have been researched by several scholars, scholars who could
have provided the insight needed to put the film in proper context.*
The film will likely inspire viewers to want to learn more about
Portugal's policy of bringing workers from its other African colonies
to Sao Tome and Principe. Portugal, one of the last European countries
to leave Africa did so in 1975, with no regard for the thousands of
workers stranded in Sao Tome and Principe. The film provided a great
opportunity to clearly outline the experiences of Cape Verdeans and
other Lusophone Africans in Sao Tome and Principe, but fell a bit
short of this.
This is one of Guenny Pires' first films and his passion for the fate
and lives of the Cape Verdeans in Sao Tome and Principe is clear. The
story of Pires' family is compelling and emotional. While Contract was
premiered at PAFF, Pires says that the film is a work in progress. The
film, even with issues of clarity and continuity, is one of the only
documentaries to deal with the exploitative experiences of contract
workers in Sao Tome and Principe.
[By Msia Kibona Clark @ AllAfrica.com]

world premier of Contract by Cape Verdean filmmaker Guenny K. Pires.
Contract is a documentary film that tells the story of thousands of
Cape Verdean contract workers who traveled to the Portuguese colony of
Sao Tome and Principe to work in the 19th and 20th Centuries. Cape
Verdeans, and workers from Portugal's other African colonies, were
forced or coerced into contracts obligating them to work on coffee and
cacao plantations on the islands of Sao Tome and Principe. After
decades of brutally hard labor, contract workers were often forced to
stay in Sao Tome and Principe, unable to secure passage home.
Many of the Cape Verdean contract workers featured in the film still
hold on to memories of home. Filmmaker Guenny Pires blends the stories
of Cape Verdean families affected by the contract labor system with
interviews with experts to tell this little known chapter in Africa's
history. The Cape Verdeans interviewed, including Pires' own uncle,
share that after decades in Sao Tome and Principe, many have
maintained their spiritual ties to their home. After marriages,
children, and new lives established in Sao Tome and Principe, many of
the Cape Verdean contract workers shown in the film expressed a strong
desire to return home.
At the heart of Contract is the family story of the filmmaker himself.
The film documents his journey to reunite his family after his uncle
left for Sao Tome and Principe decades earlier. The emotional journey
of Guenny Pires' family was the most salient aspect of the film. Pires
re-tells his uncle's departure for Sao Tome and Principe and the
eventual loss of contact between his uncle and his family. Pires'
speaks with various relatives and narrates the impact losing his uncle
had on the family. This deeply emotional journal to reunite the family
is one of the film's strengths.

Other aspects of the film are at times disjointed and difficult to
follow. The film often jumps from personal story to historical
documentary without warning. In addition, some of the experts
interviewed for the film gave information that was culturally
inaccurate and factually unclear. Portugal's colonial policies in
Africa have been researched by several scholars, scholars who could
have provided the insight needed to put the film in proper context.*
The film will likely inspire viewers to want to learn more about
Portugal's policy of bringing workers from its other African colonies
to Sao Tome and Principe. Portugal, one of the last European countries
to leave Africa did so in 1975, with no regard for the thousands of
workers stranded in Sao Tome and Principe. The film provided a great
opportunity to clearly outline the experiences of Cape Verdeans and
other Lusophone Africans in Sao Tome and Principe, but fell a bit
short of this.
This is one of Guenny Pires' first films and his passion for the fate
and lives of the Cape Verdeans in Sao Tome and Principe is clear. The
story of Pires' family is compelling and emotional. While Contract was
premiered at PAFF, Pires says that the film is a work in progress. The
film, even with issues of clarity and continuity, is one of the only
documentaries to deal with the exploitative experiences of contract
workers in Sao Tome and Principe.
[By Msia Kibona Clark @ AllAfrica.com]
Sunday, 3 May 2009
REVISITANDO TARRAFAL DE SANTIAGO
PRIMEIRA ENTREVISTA DE LUANDINO VIEIRA SOBRE O TARRAFAL(Ao jornal portugues "Publico")
“Os anos de cadeia foram muito bons para mim”
No Tarrafal, Luandino Vieira escreveu sobre o que tinha vivido antes. Agora vai escrever sobre o que aprendeu no Tarrafal. Será “uma história de Angola”.
Trinta e cinco anos depois de fechar como campo de presos políticos — a 1 de Maio de 1974 —, o Tarrafal ainda pode ser uma terra arável na cabeça dos homens que lá não perderam a vida. Portugal foi isto, fez isto, há sobreviventes e muito está por contar. Luandino não costuma fazê-lo.
Aceitou esta entrevista — feita segunda-feira, ao longo de uma manhã, no Grémio Literário, em Lisboa — antes de ir apanhar o avião para Cabo Verde, onde hoje está, com antigos camaradas de presídio, no simpósio sobre o Tarrafal que decorreu desde terça. Já de Cabo Verde, disse que terá ainda coisas a acrescentar sobre o Tarrafal, em sequência a esta entrevista.
Nascido português em Lagoa de Furadouro, Ourém, a 4 de Maio de 1935, José Vieira Mateus da Graça fez-se angolano “pela sua participação no movimento de libertação nacional” de Angola, diz sempre a badana dos seus livros. Foi preso antes da guerra colonial, em 1959. Voltou a ser preso, e condenado a 14 anos de prisão, por “actividades subversivas contra a segurança externa do Estado”, em 1961. Com dois camaradas poetas, António Jacinto e António Cardoso, andou de cadeia em cadeia, em Angola. Em 1964 foram transferidos para o Tarrafal, de onde Luandino saiu em liberdade condicional em 1972.
[Continue lendo aqui]
***
Leia tambem aqui, declaracoes do Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, durante o encerramento do Simposio Internacional Sobre o Campo de Concentracao do Tarrafal.
PRIMEIRA ENTREVISTA DE LUANDINO VIEIRA SOBRE O TARRAFAL(Ao jornal portugues "Publico")
“Os anos de cadeia foram muito bons para mim”
No Tarrafal, Luandino Vieira escreveu sobre o que tinha vivido antes. Agora vai escrever sobre o que aprendeu no Tarrafal. Será “uma história de Angola”.
Trinta e cinco anos depois de fechar como campo de presos políticos — a 1 de Maio de 1974 —, o Tarrafal ainda pode ser uma terra arável na cabeça dos homens que lá não perderam a vida. Portugal foi isto, fez isto, há sobreviventes e muito está por contar. Luandino não costuma fazê-lo.
Aceitou esta entrevista — feita segunda-feira, ao longo de uma manhã, no Grémio Literário, em Lisboa — antes de ir apanhar o avião para Cabo Verde, onde hoje está, com antigos camaradas de presídio, no simpósio sobre o Tarrafal que decorreu desde terça. Já de Cabo Verde, disse que terá ainda coisas a acrescentar sobre o Tarrafal, em sequência a esta entrevista.
Nascido português em Lagoa de Furadouro, Ourém, a 4 de Maio de 1935, José Vieira Mateus da Graça fez-se angolano “pela sua participação no movimento de libertação nacional” de Angola, diz sempre a badana dos seus livros. Foi preso antes da guerra colonial, em 1959. Voltou a ser preso, e condenado a 14 anos de prisão, por “actividades subversivas contra a segurança externa do Estado”, em 1961. Com dois camaradas poetas, António Jacinto e António Cardoso, andou de cadeia em cadeia, em Angola. Em 1964 foram transferidos para o Tarrafal, de onde Luandino saiu em liberdade condicional em 1972.
[Continue lendo aqui]
***
Leia tambem aqui, declaracoes do Presidente de Cabo Verde, Pedro Pires, durante o encerramento do Simposio Internacional Sobre o Campo de Concentracao do Tarrafal.
Saturday, 26 July 2008
BE MY GUEST! (III - AUGUSTO NASCIMENTO)
Trata-se de um autor, Augusto Nascimento, que graciosamente se prestou a fazer uma apresentacao do seu ultimo livro especialmente para este blog.
Por Augusto Nascimento
1. Este livro reconstitui uma história de cabo-verdianos no arquipélago de São Tomé e Príncipe nos derradeiros decénios do colonialismo, uma das questões mais politizadas no processo de consciencialização de uma identidade cabo-verdiana.
Vidas de S. Tomé segundo vozes de Soncente baseia-se numa recolha de testemunhos daqueles que, mais ou menos forçados a passar pela experiência da pior migração, não se escusaram a partilhar as suas memórias sobre a sua parte na aventura do povo cabo-verdiano.
2. No capítulo I, tece-se uma visão da vida na cidade do Mindelo e das circunstâncias económicas, sociais e administrativas que empurraram muitos cabo-verdianos para a pior migração. Referem-se, concretamente, as memórias da partida dos primeiros grupos, o seu impacto na vida da cidade e, ainda, o processo de lenta consciencialização política favorecida por essa migração.
No capítulo II, focam-se as circunstâncias vividas pelos cabo-verdianos enquanto contratados – condição pela qual muitos pretextaram terem optado livremente ainda que para safar a vida – a começar pelos constrangimentos da viagem. Foca-se, em especial, a memória do impacto da chegada a São Tomé e à dura rotina das roças. A pior migração revelar-se-ia aviltante para a auto-imagem dos cabo-verdianos.
No capítulo III, aprofundam-se as condições de vida nas roças. De igual modo, presta-se atenção aos processos de inserção social de cabo-verdianos, alguns dos quais foram oscilando entre o ir ficando e o regresso. Alguns lograram sair da tutela das roças e procurar uma vida mais independente no exíguo mundo urbano de São Tomé. Uns chegaram a ensaiar a criação de núcleos de associativismo cabo-verdiano.
No capítulo IV, seguimos um percurso individual significativo da procura de pequenos ganhos e de saídas possíveis no mundo fechado das roças onde, supostamente, não havia espaço para escolhas pessoais. Este percurso é explicado em função quer de uma arrogada idiossincrasia cabo-verdiana, quer de um contexto político propício a alguma distensão social nas roças, logicamente mais favorável aos serviçais.
A migração para o arquipélago foi usada enquanto motivo de agravo contra o colonialismo. Sem embargo da politização deste trecho da história dos cabo-verdianos, essa pior migração tende a ser esquecida por quantos se viram nela envolvidos, tal o processo explanado no capítulo V.
O cotejo desta obra com outros estudos, designadamente os fundados nas memórias de cabo-verdianos que permaneceram por São Tomé e Príncipe, permitirá perceber o conteúdo situacional e relacional, não apenas das memórias, quanto também das avaliações políticas e históricas da trajectória de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe.
3. Nos anos recentes, a situação dos cabo-verdianos que se quedaram por São Tomé e Príncipe tem despertado atenção em Cabo Verde. A partir da noção de Cabo Verde como uma nação diaspórica, as autoridades cabo-verdianas vêm tentando envolver toda a comunidade cabo-verdiana num movimento de solidariedade para com os concidadãos – designadamente os mais idosos, com décadas de permanência em São Tomé e Príncipe – que vivem em circunstâncias difíceis neste arquipélago.
Neste livro, recuperam-se memórias que poderão ajudar ao estabelecimento de elos entre cabo-verdianos de diferentes partes do mundo, assim como entre cabo-verdianos, são-tomenses e, ainda, portugueses.
Trata-se de um autor, Augusto Nascimento, que graciosamente se prestou a fazer uma apresentacao do seu ultimo livro especialmente para este blog.
Por Augusto Nascimento
1. Este livro reconstitui uma história de cabo-verdianos no arquipélago de São Tomé e Príncipe nos derradeiros decénios do colonialismo, uma das questões mais politizadas no processo de consciencialização de uma identidade cabo-verdiana.
Vidas de S. Tomé segundo vozes de Soncente baseia-se numa recolha de testemunhos daqueles que, mais ou menos forçados a passar pela experiência da pior migração, não se escusaram a partilhar as suas memórias sobre a sua parte na aventura do povo cabo-verdiano.
2. No capítulo I, tece-se uma visão da vida na cidade do Mindelo e das circunstâncias económicas, sociais e administrativas que empurraram muitos cabo-verdianos para a pior migração. Referem-se, concretamente, as memórias da partida dos primeiros grupos, o seu impacto na vida da cidade e, ainda, o processo de lenta consciencialização política favorecida por essa migração.
No capítulo II, focam-se as circunstâncias vividas pelos cabo-verdianos enquanto contratados – condição pela qual muitos pretextaram terem optado livremente ainda que para safar a vida – a começar pelos constrangimentos da viagem. Foca-se, em especial, a memória do impacto da chegada a São Tomé e à dura rotina das roças. A pior migração revelar-se-ia aviltante para a auto-imagem dos cabo-verdianos.
No capítulo III, aprofundam-se as condições de vida nas roças. De igual modo, presta-se atenção aos processos de inserção social de cabo-verdianos, alguns dos quais foram oscilando entre o ir ficando e o regresso. Alguns lograram sair da tutela das roças e procurar uma vida mais independente no exíguo mundo urbano de São Tomé. Uns chegaram a ensaiar a criação de núcleos de associativismo cabo-verdiano.
No capítulo IV, seguimos um percurso individual significativo da procura de pequenos ganhos e de saídas possíveis no mundo fechado das roças onde, supostamente, não havia espaço para escolhas pessoais. Este percurso é explicado em função quer de uma arrogada idiossincrasia cabo-verdiana, quer de um contexto político propício a alguma distensão social nas roças, logicamente mais favorável aos serviçais.
A migração para o arquipélago foi usada enquanto motivo de agravo contra o colonialismo. Sem embargo da politização deste trecho da história dos cabo-verdianos, essa pior migração tende a ser esquecida por quantos se viram nela envolvidos, tal o processo explanado no capítulo V.
O cotejo desta obra com outros estudos, designadamente os fundados nas memórias de cabo-verdianos que permaneceram por São Tomé e Príncipe, permitirá perceber o conteúdo situacional e relacional, não apenas das memórias, quanto também das avaliações políticas e históricas da trajectória de Cabo Verde e de São Tomé e Príncipe.
3. Nos anos recentes, a situação dos cabo-verdianos que se quedaram por São Tomé e Príncipe tem despertado atenção em Cabo Verde. A partir da noção de Cabo Verde como uma nação diaspórica, as autoridades cabo-verdianas vêm tentando envolver toda a comunidade cabo-verdiana num movimento de solidariedade para com os concidadãos – designadamente os mais idosos, com décadas de permanência em São Tomé e Príncipe – que vivem em circunstâncias difíceis neste arquipélago.
Neste livro, recuperam-se memórias que poderão ajudar ao estabelecimento de elos entre cabo-verdianos de diferentes partes do mundo, assim como entre cabo-verdianos, são-tomenses e, ainda, portugueses.
Wednesday, 31 October 2007
NOVA BIOGRAFIA DE AMILCAR CABRAL
Friday, 9 February 2007
RECENT & FORTHCOMING PUBLICATIONS ON LUSOPHONE AFRICA
Assis Malaquias, "Angola : how to lose a guerrilla war," in _African guerrillas: raging against the machine_, ed. by Morten Bøås and Kevin C. Dunn (Boulder, Colo.: Lynne Rienner, 2007)
Todd Howland, "Case study: the United Nations human rights field operation in Angola," in _The human rights field operation: law, theory and practice_ ,ed. Michael O'Flaherty (Aldershot, England; Burlington, VT: Ashgate, 2007)
Sandra Roque and Alex Shankland, "Participation, mutation and political transition: new democratic spaces in peri-urban Angola," in _Spaces for change?: the politics of citizen participation in new democratic arenas_, ed. Andrea Cornwall and Vera Schattan P. Coelho (London: Zed Books, 2007)
Sean Sutton, Tim Page, and Lou McGrath, _Angola: a journey through change_ (Stockport: Dewi Lewis, 2007) [photographs, on landmines with an introduction by Heather Mills]
Adebayo Oyebade, _Culture and customs of Angola_ (Westport, Conn.: Greenwood Press, 2007)
CABO-VERDE
Richard Lobban and Paul Khalil Saucier, _Historical dictionary of the Republic of Cape Verde_, 4th ed. (Lanham, Md. : Scarecrow Press, 2007)
Tobias Green, "Masters of Difference: Creolization and the Jewish Presence in Cabo Verde, 1497-1672", PhD Dissertation from the University of Birmingham, UK; 2 vols. Passed its viva on December 6th 2006; official year for the dissertation will be 2007.
GUINE-BISSAU
Lorenzo I. Bordonaro, "Living at the Margins. Youth and Modernity in the Bijagó Islands (Guinea-Bissau)", Ph.D. diss., ISCTE, Lisbon, 2007.
Elisabete Azevedo and Lia Nijzink, "Semi-presidentialism in Guinea-Bissau: the lesser of two evils?" in _Semi-presidentialism outside Europe_ ed. Robert Elgie and Sophia Moestrup (New York: Routledge, 2007)
Michelle C. Johnson, "Making mandinga or making Muslims?: debating female circumcision, ethnicity, and Islam in Guinea-Bissau and Portugal," in _Transcultural bodies: female genital cutting in global context, ed. Ylva Hernlund and Bettina Shell-Duncan (New Brunswick, N.J. : Rutgers University Press, 2007)
Boubacar-Sid Barry, _Conflict, livelihoods, and poverty in Guinea-Bissau_ (Washington, D.C. : The World Bank, 2007)
Brian Michael King, "Guinea-Bissau: "pull-and-tug" toward internet diffusion," in _Negotiating the net in Africa: the politics of internet diffusion_, ed. Ernest J Wilson, III. and Kelvin R Wong (Boulder, Colo.: Lynne Rienner, 2007)
MOZAMBIQUE
Carrie Manning, "Semi-presidentialism and the preservation of ambiguity in post-war Mozambique," in _Semi-presidentialism outside Europe_ ed. Robert Elgie and Sophia Moestrup (New York: Routledge, 2007)
Hilary Owen, _Mother Africa, Father Marx: women's writing of Mozambique, 1948-2002_ (Lewisburg [Pa.] : Bucknell University Press, 2007)
Jessica Schafer, _Soldiers at Peace: Veterans and Society after the Civil War in Mozambique_ (New York, NY : Palgrave Macmillan, 2007)
George O. Ndege, _Culture and customs of Mozambique_ (Westport, Conn.: Greenwood Press, 2007)
Paolo De Renzio and Joseph Hanlon, "Contested Sovereignty in Mozambique: The Dilemmas of Aid Dependence," (2007)
Joseph Hanlon and Sean Fox, "Identifying Fraud in Democratic Elections: a case study of the 2004 presidential election in Mozambique," (2007)
Chapman, Rachel R. "Chikotsa - Secrets, Silence, and Hiding: Social Risk and Reproductive Vulnerability in Center Mozambique," Medical Anthropology Quarterly 20, no. 4: 487-515 (2006)
Helene Maria Kyed, "The Politics of Policing: Recapturing "Zones of Confusion" in Rural Post-War Mozambique," in _The Security-Development Nexus: Expressions of Sovereignty and Securitization in Southern Africa,_ edited by Lars Buur , Steffen Jensen , Finn Stepputat (Uppsala: Stylus, 2007)
OTHER
Marcus Power, "War veterans, disability, and post-colonial citizenship in Angola and Mozambique," in _War, citizenship, territory_, ed. Deborah Cowen; Emily Gilbert (New York : Routledge, 2007)
Rachel B. DeMotts, "Democratic Environments? Conservation and Development across Southern African Borders" [South Africa and Mozambique], Ph.D. diss., University of Wisconsin, Madison (2006)
Helena Cobban, "Amnesty after atrocity?: healing nations after genocide and war crimes_ (Boulder: Paradigm, 2007) [compares Rwanda, South Africa, and Mozambique]
Lorenzo Macagno, _Outros Muçulmanos - Islão e narrativas coloniais_ (Lisboa: ISC, 2006)
Compiled by Kathleen Sheldon(UCLA/ H-Net Discussion List on Portuguese-speaking African Countries)
Illustration: "Encyclopedia of Pleasure" (Ghada Amer, Egypt)
Tuesday, 16 January 2007
MEMORIA DE MORABEZZA
Chega-me a noticia do falecimento do Etnologo, Antropologo, Escritor e Professor Caboverdiano, Mesquitela Lima. A sua obra continuara a ser uma referencia importante para o conhecimento sistematizado da etnologia e antropologia cultural Africanas, em particular das culturas do Leste de Angola. Conheci-o em 1988, no Mindelo, durante o primeiro Simposio Internacional sobre o “Movimento Claridoso”, em celebracao dos 50 anos da Revista Claridade e da geracao literaria de Baltazar Lopes. La tive tambem o grande privilegio de conhecer e privar com o saudoso Mario Pinto de Andrade -- um convivio sao e imensamente enriquecedor que transportamos para Lisboa -- e de ouvir, pela primeira vez, Cesaria Evora. Aquele simposio foi a minha grande introducao aos maiores nomes das culturas e literaturas das ex-colonias portuguesas, representantes de geracoes tao diversas como a de Yolanda Morazzo e a de Leao Lopes, passando pela de Corsino Fortes.
Leao Lopes, que na altura desenvolvia, com um grupo de jovens da nova geracao criativa, alguns dos mais interessantes projectos artisticos e literarios em Sao Vicente, como as revistas Ponto & Virgula e Sopinha de Letras e um attelier comunitario de producao de artesanato. Foi tambem Leao Lopes quem levou alguns dos participantes do simposio ao teatro, para assistir ao “Beijo da Mulher Aranha”. Lembro-me de me ter sentado lado a lado com Mesquitela Lima (por iniciativa dele, que morabezzamente foi dizendo que fazia questao de se sentar ao lado da sua "compatriota angolana"...) e, enquanto esperavamos que a peca comecasse -- o que levou tempo consideravel, tendo a representacao acabado por ser anulada e adiada para um outro dia devido a um “blank” do actor principal -- entretivemos uma interessante conversa sobre cultura e etnologia, a que talvez volte um dia.
Mas, dentre as varias memorias que recolhi durante aqueles dias, a que jamais se apagara’ e’ a da imensa morabezza que permeava todas as relacoes, encontros, conversas, mesmo as mais controversas… incluindo a forma como Gabriel Mariano se referia sempre aos antropologos como “antropofagos”, o que parecia divertir imenso Mesquitela Lima. Com morabezza: paz a sua alma!
Ilustracao: "Ngaji" (Foto de Mesquitela Lima)
Chega-me a noticia do falecimento do Etnologo, Antropologo, Escritor e Professor Caboverdiano, Mesquitela Lima. A sua obra continuara a ser uma referencia importante para o conhecimento sistematizado da etnologia e antropologia cultural Africanas, em particular das culturas do Leste de Angola. Conheci-o em 1988, no Mindelo, durante o primeiro Simposio Internacional sobre o “Movimento Claridoso”, em celebracao dos 50 anos da Revista Claridade e da geracao literaria de Baltazar Lopes. La tive tambem o grande privilegio de conhecer e privar com o saudoso Mario Pinto de Andrade -- um convivio sao e imensamente enriquecedor que transportamos para Lisboa -- e de ouvir, pela primeira vez, Cesaria Evora. Aquele simposio foi a minha grande introducao aos maiores nomes das culturas e literaturas das ex-colonias portuguesas, representantes de geracoes tao diversas como a de Yolanda Morazzo e a de Leao Lopes, passando pela de Corsino Fortes.
Leao Lopes, que na altura desenvolvia, com um grupo de jovens da nova geracao criativa, alguns dos mais interessantes projectos artisticos e literarios em Sao Vicente, como as revistas Ponto & Virgula e Sopinha de Letras e um attelier comunitario de producao de artesanato. Foi tambem Leao Lopes quem levou alguns dos participantes do simposio ao teatro, para assistir ao “Beijo da Mulher Aranha”. Lembro-me de me ter sentado lado a lado com Mesquitela Lima (por iniciativa dele, que morabezzamente foi dizendo que fazia questao de se sentar ao lado da sua "compatriota angolana"...) e, enquanto esperavamos que a peca comecasse -- o que levou tempo consideravel, tendo a representacao acabado por ser anulada e adiada para um outro dia devido a um “blank” do actor principal -- entretivemos uma interessante conversa sobre cultura e etnologia, a que talvez volte um dia.
Mas, dentre as varias memorias que recolhi durante aqueles dias, a que jamais se apagara’ e’ a da imensa morabezza que permeava todas as relacoes, encontros, conversas, mesmo as mais controversas… incluindo a forma como Gabriel Mariano se referia sempre aos antropologos como “antropofagos”, o que parecia divertir imenso Mesquitela Lima. Com morabezza: paz a sua alma!
Ilustracao: "Ngaji" (Foto de Mesquitela Lima)












