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Friday, 29 August 2008

MARIO PINTO DE ANDRADE: O REGRESSO DA MEMORIA


SOU, ASSIM, UM AFRICANO DE ANGOLA

"É justamente porque nasci em Angola, país africano em que vivi e aprendi a conhecer a realidade colonial, que afirmo e defendo a minha angolanidade. E sobretudo: ajudei e continuo a ajudar, na medida das minhas capacidades intelectuais, a fazer respeitar internacionalmente o direito do povo angolano a dispor de si próprio."


No dia em que Mário Pinto de Andrade completaria 80 anos, a Fundação Mário Soares (FMS) publicou no seu site parte do espólio do nacionalista angolano. Em Dezembro, o acervo do político e intelectual vai ser doado à Fundação Sagrada Esperança.

A recuperação do espólio demorou cerca de 10 anos a ser concluída. Em 1998, Henda e Anna Ducados, filhas de Mário Pinto de Andrade, depositaram o material na FMS, em Lisboa. Uma opção criticada, na altura, mas que Henda Ducados garante ter sido “meramente técnica”. Do conjunto entregue constava documentação escrita e fotográfica recolhida junto de personalidades da Guiné-Bissau, Cabo Verde e Moçambique e, sobretudo, na casa onde o nacionalista viveu até à sua morte. A análise dos espólios de Amílcar Cabral e de Daniel Chipenda, depositados na FMS, permitiu cruzar dados e aumentar ainda mais o acervo de Mário Pinto de Andrade.


A primeira fase da recuperação, catalogação e digitalização do material terminaria só no início deste ano. “A maior parte estava em mau estado, por ter ficado guardada durante muito tempo em caves e também devido à qualidade do papel e da tinta”, explica Henda Ducados. O espólio de Mário Pinto de Andrade foi dividido em quatro grandes grupos: Investigação (57%), Movimentos de Libertação (32%), Documentos Pessoais (6%) e Actividade Literária (5%). Entre a documentação disponível encontram-se “pérolas históricas”, como a correspondência trocada com Viriato da Cruz, Agostinho Neto e outras personalidades destacadas, todos os passaportes que utilizou (incluindo os dos tempos em que fintava a PIDE), rascunhos da Comissão Organizadora da Conferência da Organização da União Africana, que integrou, os discursos das independências do Ghana e da Guiné-Conacri, actas e minutas de conferências internacionais, e muito mais.


A dimensão humana do nacionalista angolano também tem um espaço de destaque. São muitos os diários escritos à mão que poderão dar pistas mais profundas sobre o homem por trás do político. O acervo tem ainda documentação relativa a Maurício Ferreira Gomes, Agostinho Neto, Fernando Costa Andrade e Marcelino dos Santos. Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe, bem como o Movimento Anti Colonial e a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas estão também representados.


“Este é o regresso da memória de Mário Pinto de Andrade do exílio”. É assim que Henda Ducados classifica o retorno do espólio do seu pai ao país. Admitindo que “em Angola a História não foi à procura dos seus heróis”, defende que “é preciso haver uma reconciliação com a memória e com o passado” do qual “Mário é uma figura incontornável”. E é exactamente de “preservação de memória” que Henda Ducados fala, quando analisa a importância e simbolismo do acervo documental do nacionalista: “Esta é uma herança que deve ser partilhada, é património de Angola. Divulgá-lo é reconhecer e homenagear o trabalho, não só do Mário, mas de toda uma geração que contribuiu para a independência de Angola e que abriu portas para todos nós vivermos com orgulho na nossa identidade e sem complexos de qualquer tipo”.

[Aqui]

SOU, ASSIM, UM AFRICANO DE ANGOLA

"É justamente porque nasci em Angola, país africano em que vivi e aprendi a conhecer a realidade colonial, que afirmo e defendo a minha angolanidade. E sobretudo: ajudei e continuo a ajudar, na medida das minhas capacidades intelectuais, a fazer respeitar internacionalmente o direito do povo angolano a dispor de si próprio."


No dia em que Mário Pinto de Andrade completaria 80 anos, a Fundação Mário Soares (FMS) publicou no seu site parte do espólio do nacionalista angolano. Em Dezembro, o acervo do político e intelectual vai ser doado à Fundação Sagrada Esperança.

A recuperação do espólio demorou cerca de 10 anos a ser concluída. Em 1998, Henda e Anna Ducados, filhas de Mário Pinto de Andrade, depositaram o material na FMS, em Lisboa. Uma opção criticada, na altura, mas que Henda Ducados garante ter sido “meramente técnica”. Do conjunto entregue constava documentação escrita e fotográfica recolhida junto de personalidades da Guiné-Bissau, Cabo Verde e Moçambique e, sobretudo, na casa onde o nacionalista viveu até à sua morte. A análise dos espólios de Amílcar Cabral e de Daniel Chipenda, depositados na FMS, permitiu cruzar dados e aumentar ainda mais o acervo de Mário Pinto de Andrade.


A primeira fase da recuperação, catalogação e digitalização do material terminaria só no início deste ano. “A maior parte estava em mau estado, por ter ficado guardada durante muito tempo em caves e também devido à qualidade do papel e da tinta”, explica Henda Ducados. O espólio de Mário Pinto de Andrade foi dividido em quatro grandes grupos: Investigação (57%), Movimentos de Libertação (32%), Documentos Pessoais (6%) e Actividade Literária (5%). Entre a documentação disponível encontram-se “pérolas históricas”, como a correspondência trocada com Viriato da Cruz, Agostinho Neto e outras personalidades destacadas, todos os passaportes que utilizou (incluindo os dos tempos em que fintava a PIDE), rascunhos da Comissão Organizadora da Conferência da Organização da União Africana, que integrou, os discursos das independências do Ghana e da Guiné-Conacri, actas e minutas de conferências internacionais, e muito mais.


A dimensão humana do nacionalista angolano também tem um espaço de destaque. São muitos os diários escritos à mão que poderão dar pistas mais profundas sobre o homem por trás do político. O acervo tem ainda documentação relativa a Maurício Ferreira Gomes, Agostinho Neto, Fernando Costa Andrade e Marcelino dos Santos. Guiné-Bissau, Cabo Verde, Moçambique e São Tomé e Príncipe, bem como o Movimento Anti Colonial e a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas estão também representados.


“Este é o regresso da memória de Mário Pinto de Andrade do exílio”. É assim que Henda Ducados classifica o retorno do espólio do seu pai ao país. Admitindo que “em Angola a História não foi à procura dos seus heróis”, defende que “é preciso haver uma reconciliação com a memória e com o passado” do qual “Mário é uma figura incontornável”. E é exactamente de “preservação de memória” que Henda Ducados fala, quando analisa a importância e simbolismo do acervo documental do nacionalista: “Esta é uma herança que deve ser partilhada, é património de Angola. Divulgá-lo é reconhecer e homenagear o trabalho, não só do Mário, mas de toda uma geração que contribuiu para a independência de Angola e que abriu portas para todos nós vivermos com orgulho na nossa identidade e sem complexos de qualquer tipo”.

[Aqui]

Saturday, 19 April 2008

AIME' CESAIRE (R.I.P.)

O poeta, dramaturgo e politico Aime' Cesaire, faleceu anteontem, aos 94 anos de idade, em Fort-de-France, cidade capital do seu pais natal, a Martinica, da qual foi sucessivamente eleito governador durante mais de cinco decadas.


Cesaire foi, com Senghor, um dos pais do Movimento da Negritude. Pensar em qualquer deles significa, para mim, associa-los a Mario Pinto de Andrade, que com eles participou activamente naquele movimento, como editor da Revista Presence Africaine e, enquanto estudante da Sorbonne, organizador do Primeiro Congresso Internacional de Escritores e Artistas Negros, que teve lugar naquela Universidade Parisiense, em 1956.

Tendo contado com o apoio de intelectuais de renome internacional, tais como André Gide, Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Théodore Monod, Roger Bastide, Basil Davidson, Michel Leiris, George Padmore e Pablo Picasso (que desenhou o seu poster), 'aquele Congresso seminal participaram dezenas de escritores e artistas provenientes de Africa, Americas e Caraibas, entre os quais, para alem de Mario, Cesaire e Senghor, Richard Wright, René Depestre, Cheik Anta Diop, Abdoulaye Wade e Frantz Fanon.

E', pois, a memoria do tambem ja' falecido Mario Pinto de Andrade que recorro para lembrar Cesaire, a sua poesia e o seu legado politico-cultural:

"Ao abordarmos a epoca contemporanea, surge-nos o canto mais profundo que um poeta nascido na noite colonial jamais produziu: trata-se do Cahier d’un retour au pays natal de Aime’ Cesaire. Na sua palavra poetica “bela como o oxigenio nascente”, como escreveu Andre’ Breton, reside a fonte moderna da poesia africana de combate. A partir dela, comeca a leitura verdadeiramente poetica da opressao e do universo de todos os oprimidos.

Africa
nao receies – o combate e’ novo
a torrente viva do teu sangue elabora sem descanso
uma nova estacao; a noite e’ hoje no fundo dos mares
o enorme e instavel dorso de um astro meio adormecido
prossegue o teu combate – ainda que tenhas para conjurar
[o espaco]
o espaco apenas do teu nome irritado pelas secas


Ao longo da accao de um dos primeiros movimentos politicos unitarios fundados em Africa depois da Segunda Guerra Mundial, em 1946, em Bamako (Mali) referimo-nos ao Rassemblement Democratique Africain – a poesia traz o testemunho vivo desse combate. Os poemas publicados no orgao do RDA, Le Reveil (O Despertar), elucidam as batalhas em curso e abrem horizontes ao futuro em criacao.

Esses poetas cantam uma realidade que em breve sera’ ultrapassada pela propria evolucao do combate politico. Raros sao aqueles que reencontram a inspiracao, a conviccao ou o talento necessarios para exaltar o conteudo da independencia nacional conquistada pelos seus paises. Mas entre os poetas que se revelam depois da geracao do RDA, o nome de David Diop, tragicamente desaparecido em 1960, retem a nossa atencao. Embora a sua obra esteja limitada a um so’ livro de poemas (Coups de Pilon), ela exerce ainda hoje uma profunda influencia a escala do continente.

Tomando posicao desde a primeira hora, pela reabilitacao cultural dos valores africanos, David Diop, inscreve a sua poesia no contexto do combate geral pela independencia africana. Assume-se como vitima entre as vitimas do massacre de Dimbokro na Costa do Marfim ou do campo de concentracao de Poulo Condor no Vietname. David Diop, que reune talento poetico e generosidade militante, e’, para as geracoes das 'independencias africanas', o anunciador da 'primavera que tomara’ corpo sobre os nossos passos de claridade'."

in “Antologia Tematica de Poesia Africana (2) – O Canto Armado”
(segunda edicao, 1980)
Instituto Caboverdeano do Livro
© Mario de Andrade/ Sa’ da Costa Editora

O poeta, dramaturgo e politico Aime' Cesaire, faleceu anteontem, aos 94 anos de idade, em Fort-de-France, cidade capital do seu pais natal, a Martinica, da qual foi sucessivamente eleito governador durante mais de cinco decadas.


Cesaire foi, com Senghor, um dos pais do Movimento da Negritude. Pensar em qualquer deles significa, para mim, associa-los a Mario Pinto de Andrade, que com eles participou activamente naquele movimento, como editor da Revista Presence Africaine e, enquanto estudante da Sorbonne, organizador do Primeiro Congresso Internacional de Escritores e Artistas Negros, que teve lugar naquela Universidade Parisiense, em 1956.

Tendo contado com o apoio de intelectuais de renome internacional, tais como André Gide, Jean-Paul Sartre, Albert Camus, Théodore Monod, Roger Bastide, Basil Davidson, Michel Leiris, George Padmore e Pablo Picasso (que desenhou o seu poster), 'aquele Congresso seminal participaram dezenas de escritores e artistas provenientes de Africa, Americas e Caraibas, entre os quais, para alem de Mario, Cesaire e Senghor, Richard Wright, René Depestre, Cheik Anta Diop, Abdoulaye Wade e Frantz Fanon.

E', pois, a memoria do tambem ja' falecido Mario Pinto de Andrade que recorro para lembrar Cesaire, a sua poesia e o seu legado politico-cultural:

"Ao abordarmos a epoca contemporanea, surge-nos o canto mais profundo que um poeta nascido na noite colonial jamais produziu: trata-se do Cahier d’un retour au pays natal de Aime’ Cesaire. Na sua palavra poetica “bela como o oxigenio nascente”, como escreveu Andre’ Breton, reside a fonte moderna da poesia africana de combate. A partir dela, comeca a leitura verdadeiramente poetica da opressao e do universo de todos os oprimidos.

Africa
nao receies – o combate e’ novo
a torrente viva do teu sangue elabora sem descanso
uma nova estacao; a noite e’ hoje no fundo dos mares
o enorme e instavel dorso de um astro meio adormecido
prossegue o teu combate – ainda que tenhas para conjurar
[o espaco]
o espaco apenas do teu nome irritado pelas secas


Ao longo da accao de um dos primeiros movimentos politicos unitarios fundados em Africa depois da Segunda Guerra Mundial, em 1946, em Bamako (Mali) referimo-nos ao Rassemblement Democratique Africain – a poesia traz o testemunho vivo desse combate. Os poemas publicados no orgao do RDA, Le Reveil (O Despertar), elucidam as batalhas em curso e abrem horizontes ao futuro em criacao.

Esses poetas cantam uma realidade que em breve sera’ ultrapassada pela propria evolucao do combate politico. Raros sao aqueles que reencontram a inspiracao, a conviccao ou o talento necessarios para exaltar o conteudo da independencia nacional conquistada pelos seus paises. Mas entre os poetas que se revelam depois da geracao do RDA, o nome de David Diop, tragicamente desaparecido em 1960, retem a nossa atencao. Embora a sua obra esteja limitada a um so’ livro de poemas (Coups de Pilon), ela exerce ainda hoje uma profunda influencia a escala do continente.

Tomando posicao desde a primeira hora, pela reabilitacao cultural dos valores africanos, David Diop, inscreve a sua poesia no contexto do combate geral pela independencia africana. Assume-se como vitima entre as vitimas do massacre de Dimbokro na Costa do Marfim ou do campo de concentracao de Poulo Condor no Vietname. David Diop, que reune talento poetico e generosidade militante, e’, para as geracoes das 'independencias africanas', o anunciador da 'primavera que tomara’ corpo sobre os nossos passos de claridade'."

in “Antologia Tematica de Poesia Africana (2) – O Canto Armado”
(segunda edicao, 1980)
Instituto Caboverdeano do Livro
© Mario de Andrade/ Sa’ da Costa Editora