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Thursday, 2 December 2010

Just Poetry (XXXIII)

Portugal Colonial

Nada te devo
nem o sítio
onde nasci

nem a morte
que depois comi
nem a vida

repartida
p'los cães
nem a notícia

curta
a dizer-te
que morri

nada te devo
Portugal
colonial

cicatriz
doutra pele
apertada



O Sol Nasce A Oriente

(de um quadro de Malangatana)

Povo, de ti canto o movimento
teu nome, canção feita de fronteiras
lua nova, javite ou lança
tua hora, quissange em trança

Do longo longe do tempo
arde minha flecha, meu lamento
minha bandeira de outro vento
aurora urdida nos lábios de Zumbi

De ti guardo o gesto
as conversas leves das árvores
a fala sabia das aves
o dialeto novo do silêncio
e as pedras, as palavras do medo
os olhos falantes da mata
quando a onça posta a sua arte
nos fita, guardada em sua mágoa.

De ti amo a denuncia felina
das tuas mãos quebradas ao presente
a dança prometida do sol
nascer um dia a Oriente



Amêndoa de Mombaça

Por ti
colhi o luar
na cabaça

comi o retrato
na vidraça
feri

o gargalo
na taça
bebi

onde bebe
a caça
por ti

por tua
amêndoa de
Mombaça



Blues

Tua voz desliza como um pássaro aberto na lâmina do dia
ilha que se levanta e voa a partir do Sol
lamento gritado da floresta por sua gazela perdida
choro grande do vento nas montanhas
ao nascimento de um escravo mais na história do vale

Tua voz vem de dentro da cidade
de todas as ruas bairros e leitos da cidade onde houver
um calor de pernas
contar o silêncio das horas guardadas a soco no sarilho
dos ventres
com um jazzman a assobiar na escuridão dos pares
a memória ácida do chicote
nos porões do Mundo



Nas Barbas Do Bando

E quem
nesta roda
riscou no peito
a ave
inviolável?

Qual de vós
apostou a morte
e perdeu?
Qual de vos
inegáveis patifes

navalhas encantadas
traçou no areal
a mais bela aventura
nas barbas
do bando?



Dedicatória

Teus dedos
vadios
colhendo flores
na renda
dos meus

recordarei de
pois quando
noutros dedos
tocava
os teus



Que outro nome

Que rio se pode
abrir na língua acesa
para o capim crepitando
baixo. Que palavra
por ele nasce e corre a lua
e outra lua sem que regresse
ao corpo. Que outro nome
te demos
vestida e no escuro desposada. Liberdade.
Que tempo de
ocultar o nome sabíamos
perder e nem de moscardo zumbias: Ngola
nosso pouco maruvo eras
no terreiro anunciada. Liberdade.
Quem das copas pronuncia
os teus lábios na terra? Nzambi
neles tivesse
mordiscado leve. Liberdade.


[Poemas Seleccionados de David Mestre]
Portugal Colonial

Nada te devo
nem o sítio
onde nasci

nem a morte
que depois comi
nem a vida

repartida
p'los cães
nem a notícia

curta
a dizer-te
que morri

nada te devo
Portugal
colonial

cicatriz
doutra pele
apertada



O Sol Nasce A Oriente

(de um quadro de Malangatana)

Povo, de ti canto o movimento
teu nome, canção feita de fronteiras
lua nova, javite ou lança
tua hora, quissange em trança

Do longo longe do tempo
arde minha flecha, meu lamento
minha bandeira de outro vento
aurora urdida nos lábios de Zumbi

De ti guardo o gesto
as conversas leves das árvores
a fala sabia das aves
o dialeto novo do silêncio
e as pedras, as palavras do medo
os olhos falantes da mata
quando a onça posta a sua arte
nos fita, guardada em sua mágoa.

De ti amo a denuncia felina
das tuas mãos quebradas ao presente
a dança prometida do sol
nascer um dia a Oriente



Amêndoa de Mombaça

Por ti
colhi o luar
na cabaça

comi o retrato
na vidraça
feri

o gargalo
na taça
bebi

onde bebe
a caça
por ti

por tua
amêndoa de
Mombaça



Blues

Tua voz desliza como um pássaro aberto na lâmina do dia
ilha que se levanta e voa a partir do Sol
lamento gritado da floresta por sua gazela perdida
choro grande do vento nas montanhas
ao nascimento de um escravo mais na história do vale

Tua voz vem de dentro da cidade
de todas as ruas bairros e leitos da cidade onde houver
um calor de pernas
contar o silêncio das horas guardadas a soco no sarilho
dos ventres
com um jazzman a assobiar na escuridão dos pares
a memória ácida do chicote
nos porões do Mundo



Nas Barbas Do Bando

E quem
nesta roda
riscou no peito
a ave
inviolável?

Qual de vós
apostou a morte
e perdeu?
Qual de vos
inegáveis patifes

navalhas encantadas
traçou no areal
a mais bela aventura
nas barbas
do bando?



Dedicatória

Teus dedos
vadios
colhendo flores
na renda
dos meus

recordarei de
pois quando
noutros dedos
tocava
os teus



Que outro nome

Que rio se pode
abrir na língua acesa
para o capim crepitando
baixo. Que palavra
por ele nasce e corre a lua
e outra lua sem que regresse
ao corpo. Que outro nome
te demos
vestida e no escuro desposada. Liberdade.
Que tempo de
ocultar o nome sabíamos
perder e nem de moscardo zumbias: Ngola
nosso pouco maruvo eras
no terreiro anunciada. Liberdade.
Quem das copas pronuncia
os teus lábios na terra? Nzambi
neles tivesse
mordiscado leve. Liberdade.


[Poemas Seleccionados de David Mestre]

Saturday, 7 August 2010

ARIA by GROVER WASHINGTON, JR [R]*



*[Retomo hoje este post - first published 11/01/07 - por duas razoes: i) me parecer apropriado numa altura em que a musica, nas suas mais diversas vertentes, parece estar na ordem do dia em alguns circulos blogosfericos e jornalisticos (em particular depois da mais recente edicao do Luanda International Jazz Festival); ii) ja' me ser possivel colocar aqui as faixas do album originalmente mencionadas.]



“I started as a classical musician, and this album is something I’ve wanted to make for years. In many ways, I feel I’ve now come full circle in my music.”
- Grover Washington, Jr. -



Este e’ um daqueles albums que, para mim, tem a caracteristica particular de apelar tanto pelo seu conteudo, como pelas circunstancias da sua publicacao em 2000, pouco depois do falecimento subito e precoce de Grover Washington, Jr. em Dezembro de 1999, aos 56 anos de idade. Por isso trago-o aqui ao Spirited Sounds.

Grover, que recebeu a sua primeira licao de saxofone do seu pai, definia a sua musica como “pequenas estorias sem palavras”. Mas, para mim, nunca antes deste Aria tinha tal definicao sido tao bem expressa na sua carreira musical (que contou entre os seus pontos altos com uma celebre ‘jam session’ com o ex-Presidente Bill Clinton e alguns dos maiores nomes do Jazz como Herbie Hancock e Wynton Marsalis).

O album e’ composto totalmente de arias de algumas das mais conhecidas obras do reportorio operatico, mas sem a sua oratoria: precisamente, pequenas estorias sem palavras… Confesso que nunca fui uma particular apreciadora do genero operatico (talvez pelas mesmas razoes porque nunca fui uma particular apreciadora dos consagrados musicais londrinos...) e que foram sempre as arias que funcionaram como o “canto da sereia” para me atrair a qualquer opera – a este proposito, lembro-me de em 1991 ter ido, no que foi a minha primeira e unica ida a opera, ao New York Metropolitan Opera (onde, como se nao bastasse ser praticamente a unica negra, tive o "descaramento" de ir de jeans…) assistir a “La Traviatta”, tendo saido de la' menos entusiasmada do que era suposto …



Pois este album (do qual infelizmente nao posso colocar aqui nenhuma das peças... o que tambem tem o seu lado positivo porque podemos ouvir, em sua substituicao, algumas das arias incluidas no album nas suas versoes cantadas) tem a particularidade de funcionar perfeitamente para mim: abre precisamente com o perfeito canto da sereia, uma das minhas arias preferidas, ‘Je Crois Entendre Encore’, do “Les Pecheurs de Perles” de Bizet. Aprendi a cantar de cor essa aria (uma das duas que sei cantar de cor; a outra e’ a popular ‘Nesum Dorma’ de Puccini) ha varios anos, ouvindo e acompanhando a versao, em Italiano, do Ney Matogrosso no seu album “Pescador de Perolas” (1986) …



[Je Crois Entendre Encore - from Bizet's The Pearlfishers]


Depois, ha' uma em particular que, em qualquer circunstancia, nao posso contornar, just for the sheer pleasure of listening to it, esta:


[E Lucevan Le Stelle - from Puccini's Tosca]


Mas ha outra razao que me faz trazer Aria a este espaco: a relacao, algo polemica, entre o dito “Jazz” e a dita “Musica Classica”. A questao e’ sempre: onde, quando e como se separam as aguas entre os dois, para alem dos evidentes “marcadores” da improvisacao no primeiro e da rigorosa codificacao no segundo? Nao sei se alguem ja conseguiu dar uma resposta convincente a essa questao (vide, por exemplo, o que disse Nina Simone sobre o assunto…), mas, como dizem os Ingleses, “the proof is in the pudding”!


[My Man's Gone Now - from Gershwin's Porgy & Bess]

E o 'pudding' podem ser varias das obras do Miles ou, mais obviamente ainda, muitas das dos manos Wynton e Branford Marsalis… Anyway, oucamos como soam duas das arias da opera 'Porgy and Bess' nas suas versoes "jazzisticas" (a comecar por uma interpretacao do Grover nao incluida em Aria - a que vem incluida e' o My Man's Gone Now. A versao cantada do I Loves You Porgy pela Nina tambem pode ser ouvida atraves do link acima) e depois vejamos o que teem a dizer os experts:


“As Grover Washington, Jr. sees it, the lines between jazz soloist and opera singer are not as clear-cut as one might imagine. Opera is a musical genre that depends on narration, and Grover views his role as soloist -- be it here, or on one of his many celebrated jazz recordings -- as an impassioned narrator. In both cases, Grover says, "You're just trying to tell a story."


[Pourquoi Me Reveiller? - from Massenet's Werther]

Consider the case of Werther, an opera by Massenet, based on a novel by Goethe. Werther is the quintessential Romantic hero, and nowhere in the opera does Massenet come closer to Goethe's Romantic ideal than in "Pourquoi me reveiller?" ("Why do you wake me?"), an aria full of foreboding and sorrow. In Grover's hands, and supported by Robert Freedman's fine and spacious arrangement, the blues within the aria are revealed.


[O Mio Babbino Caro - from Puccini's Gianni Schicchi]

Grover is the ideal narrator for the stories on Aria. Performing here on soprano, alto, tenor and baritone saxophones, Grover draws upon his artistry as a melodist to capture the emotion and spirit of a dozen of opera's most beautiful arias, from Puccini's "O mio babbino caro" (Gianni Schicchi) to Delibes' "Flower Duet" (Lakme), all with a sensibility that is very much of our day.


[Flower Duet - from Delibes' Lakme']

And yet Aria is not simply a crossing over, any more than Miles Davis' and Gil Evans' exploration of Gershwin's Porgy and Bess was simply a cooled-up version of the opera. In Aria, Grover Washington, Jr. takes the rich breadth of feeling inherent in twelve extraordinary tunes, not so much translating them into the jazz idiom as revealing them for what they are -- gorgeous, transcendent melodies that speak as clearly through the bell of a saxophone as through the human voice.” (Jackson Braider)

“Grover's brilliant career had its foundation in the fusion of genres. Along with his inimitable sound and style, his music was most celebrated for its signature synthesis of jazz and rhythm & blues. Aria marked a fusion of another kind for Grover, one both new and natural to him, and one he was eager to share. Sadly, it was the last album he was to make, completed just four months to the day before his untimely death.


[Vissi d'Arte - from Puccini's Tosca]

While the album may strike many listeners as an unexpected departure, it in fact completes a circle which began when Grover first studied music -- classical music -- at Buffalo's Wurlitzer School of Music. Classical music remained his first love. (…) Genres aside, Grover's music was always essentially about one thing -- heart. It was the (un)common denominator that defined his life's work. Puccini's magnificent soprano aria from his opera Tosca begins, "Vissi d'arte, vissi d'amore" ("I lived for art, I lived for love"). Grover Washington, Jr. did just that.” (Laraine Perri)



*[Retomo hoje este post - first published 11/01/07 - por duas razoes: i) me parecer apropriado numa altura em que a musica, nas suas mais diversas vertentes, parece estar na ordem do dia em alguns circulos blogosfericos e jornalisticos (em particular depois da mais recente edicao do Luanda International Jazz Festival); ii) ja' me ser possivel colocar aqui as faixas do album originalmente mencionadas.]



“I started as a classical musician, and this album is something I’ve wanted to make for years. In many ways, I feel I’ve now come full circle in my music.”
- Grover Washington, Jr. -



Este e’ um daqueles albums que, para mim, tem a caracteristica particular de apelar tanto pelo seu conteudo, como pelas circunstancias da sua publicacao em 2000, pouco depois do falecimento subito e precoce de Grover Washington, Jr. em Dezembro de 1999, aos 56 anos de idade. Por isso trago-o aqui ao Spirited Sounds.

Grover, que recebeu a sua primeira licao de saxofone do seu pai, definia a sua musica como “pequenas estorias sem palavras”. Mas, para mim, nunca antes deste Aria tinha tal definicao sido tao bem expressa na sua carreira musical (que contou entre os seus pontos altos com uma celebre ‘jam session’ com o ex-Presidente Bill Clinton e alguns dos maiores nomes do Jazz como Herbie Hancock e Wynton Marsalis).

O album e’ composto totalmente de arias de algumas das mais conhecidas obras do reportorio operatico, mas sem a sua oratoria: precisamente, pequenas estorias sem palavras… Confesso que nunca fui uma particular apreciadora do genero operatico (talvez pelas mesmas razoes porque nunca fui uma particular apreciadora dos consagrados musicais londrinos...) e que foram sempre as arias que funcionaram como o “canto da sereia” para me atrair a qualquer opera – a este proposito, lembro-me de em 1991 ter ido, no que foi a minha primeira e unica ida a opera, ao New York Metropolitan Opera (onde, como se nao bastasse ser praticamente a unica negra, tive o "descaramento" de ir de jeans…) assistir a “La Traviatta”, tendo saido de la' menos entusiasmada do que era suposto …



Pois este album (do qual infelizmente nao posso colocar aqui nenhuma das peças... o que tambem tem o seu lado positivo porque podemos ouvir, em sua substituicao, algumas das arias incluidas no album nas suas versoes cantadas) tem a particularidade de funcionar perfeitamente para mim: abre precisamente com o perfeito canto da sereia, uma das minhas arias preferidas, ‘Je Crois Entendre Encore’, do “Les Pecheurs de Perles” de Bizet. Aprendi a cantar de cor essa aria (uma das duas que sei cantar de cor; a outra e’ a popular ‘Nesum Dorma’ de Puccini) ha varios anos, ouvindo e acompanhando a versao, em Italiano, do Ney Matogrosso no seu album “Pescador de Perolas” (1986) …



[Je Crois Entendre Encore - from Bizet's The Pearlfishers]


Depois, ha' uma em particular que, em qualquer circunstancia, nao posso contornar, just for the sheer pleasure of listening to it, esta:


[E Lucevan Le Stelle - from Puccini's Tosca]


Mas ha outra razao que me faz trazer Aria a este espaco: a relacao, algo polemica, entre o dito “Jazz” e a dita “Musica Classica”. A questao e’ sempre: onde, quando e como se separam as aguas entre os dois, para alem dos evidentes “marcadores” da improvisacao no primeiro e da rigorosa codificacao no segundo? Nao sei se alguem ja conseguiu dar uma resposta convincente a essa questao (vide, por exemplo, o que disse Nina Simone sobre o assunto…), mas, como dizem os Ingleses, “the proof is in the pudding”!


[My Man's Gone Now - from Gershwin's Porgy & Bess]

E o 'pudding' podem ser varias das obras do Miles ou, mais obviamente ainda, muitas das dos manos Wynton e Branford Marsalis… Anyway, oucamos como soam duas das arias da opera 'Porgy and Bess' nas suas versoes "jazzisticas" (a comecar por uma interpretacao do Grover nao incluida em Aria - a que vem incluida e' o My Man's Gone Now. A versao cantada do I Loves You Porgy pela Nina tambem pode ser ouvida atraves do link acima) e depois vejamos o que teem a dizer os experts:


“As Grover Washington, Jr. sees it, the lines between jazz soloist and opera singer are not as clear-cut as one might imagine. Opera is a musical genre that depends on narration, and Grover views his role as soloist -- be it here, or on one of his many celebrated jazz recordings -- as an impassioned narrator. In both cases, Grover says, "You're just trying to tell a story."


[Pourquoi Me Reveiller? - from Massenet's Werther]

Consider the case of Werther, an opera by Massenet, based on a novel by Goethe. Werther is the quintessential Romantic hero, and nowhere in the opera does Massenet come closer to Goethe's Romantic ideal than in "Pourquoi me reveiller?" ("Why do you wake me?"), an aria full of foreboding and sorrow. In Grover's hands, and supported by Robert Freedman's fine and spacious arrangement, the blues within the aria are revealed.


[O Mio Babbino Caro - from Puccini's Gianni Schicchi]

Grover is the ideal narrator for the stories on Aria. Performing here on soprano, alto, tenor and baritone saxophones, Grover draws upon his artistry as a melodist to capture the emotion and spirit of a dozen of opera's most beautiful arias, from Puccini's "O mio babbino caro" (Gianni Schicchi) to Delibes' "Flower Duet" (Lakme), all with a sensibility that is very much of our day.


[Flower Duet - from Delibes' Lakme']

And yet Aria is not simply a crossing over, any more than Miles Davis' and Gil Evans' exploration of Gershwin's Porgy and Bess was simply a cooled-up version of the opera. In Aria, Grover Washington, Jr. takes the rich breadth of feeling inherent in twelve extraordinary tunes, not so much translating them into the jazz idiom as revealing them for what they are -- gorgeous, transcendent melodies that speak as clearly through the bell of a saxophone as through the human voice.” (Jackson Braider)

“Grover's brilliant career had its foundation in the fusion of genres. Along with his inimitable sound and style, his music was most celebrated for its signature synthesis of jazz and rhythm & blues. Aria marked a fusion of another kind for Grover, one both new and natural to him, and one he was eager to share. Sadly, it was the last album he was to make, completed just four months to the day before his untimely death.


[Vissi d'Arte - from Puccini's Tosca]

While the album may strike many listeners as an unexpected departure, it in fact completes a circle which began when Grover first studied music -- classical music -- at Buffalo's Wurlitzer School of Music. Classical music remained his first love. (…) Genres aside, Grover's music was always essentially about one thing -- heart. It was the (un)common denominator that defined his life's work. Puccini's magnificent soprano aria from his opera Tosca begins, "Vissi d'arte, vissi d'amore" ("I lived for art, I lived for love"). Grover Washington, Jr. did just that.” (Laraine Perri)

Saturday, 16 June 2007

RECEITA PARA ULTRAPASSAR OS DOMINGOS


Como água dormida de véspera, aqui vos deixo esta receita para amanhã:

“Desce manso à cidade, na hora em que a noite indecisa se embrulha do terceiro pano e de joelhos compõe a cabeleira, retira do rosto os restos de luz e se recolhe tensa das horas por resolver. Não te deixes tentar pelas mãos de cacimbo que, de tão frescas, te poderão recolher, de novo, para o sítio dos sonhos onde as rosas de verdade nos podem explodir no peito.

A noite é enorme e hesita sempre na hora de partir. Os nossos fantasmas, lentos como cobras domésticas, gostam de se plantar – exactamente nesse momento – à beira da nossa condição frágil, rindo e à espera. Toda a gente sabe da sua paciência experimentada. Por isso acorda. Sacode a esteira e enrola-a devagarinho.

(…)

Desce, então, à cidade antes de toda a gente, porque esse é o unico momento em que Luanda se entrega à preguiça e te devolve o rosto, sem pintura, calcinado pelo tempo e ainda assim tão belo, na sua pobreza exposta maltratada pelo sol e pela fome, onde o erosinado casario se estende (a essa hora não parece sofrer de séculos de desorientação e amargura), ainda fechado ao dia, mas já desperto pelo choro de medo das canções de mar e de peixe com que as velhas preparam o caldo do pequeno-almoço. Atenção, estas nunca dormem, parecem ter escapado já à sua condição de dormir e acordar. Esperam, debruçadas na noite, envoltas num longo pano de musgo e capim e entregam aos outros (gente descuidada como tu e como eu) os sonhos que já não são capazes de sonhar.

A nossa cidade anda perdida de si mesma e não é só velhice, é antes um esquecimento que se instalou e a trata mal. Deixou de ser o espaço circular e protector de areia vermelha e súbitas lagoas. A propósito, evita, quando desceres, o Kinaxixi. Não se trata de um problema de sereias, esses seres nem machos nem fêmeas que o habitaram outrora. O problema tem a ver com pássaros que fugiram quase todos e foram inventar silêncio para outros cantos do mundo. Os que ficaram estão enredados nos limos do tempo e fabricam ninhos de seiva, na esperança de não morrerem. Não têm tempo para ti.

Por isso desce e procura as palmeiras. (…) Terás assim que visitar a ilha. Procura os antigos caminhos da água onde ainda podes ver barcos a dormir e demoradas redes postas em descanso por cima da areia. Descobre as marcas dos pés da noite e segue pelas rotas de seda para veres aonde te conduzem. Não digo já, para ser surpresa, e porque língua de coração não se escreve: é oral e perfeita.

(…)

Depois, e de alma lavada, podes voltar para casa. Mistura três colheres de sopa de café arábica (se ainda te sobrou algum do Amboim) com uma de robusta (pode ser de São Tomé) e deita na cafeteira da avó, onde deve já estar a ferver uma água dormida de pelo menos um dia. Acende uma vela branca e bebe até ao fim o café perfumado. Usa uma caneca de esmalte.

Talvez consigas então fechar os olhos, e já não digo dormir, mas entregar-te ao descanso. Os anjos, por essa hora, estão longe e deixaram acesas lamparinas de óleo de palma a marcar os caminhos. A sombra da palmeira maior velará por ti, enquanto deixa fermentar os seus pesados frutos.

É a essa hora que a cidade acorda, quando as mulheres inventam a água e um redemoinho de criancas se espalha respirando fundo a seiva da cidade. Todo o domingo passará por ti sem que o pressintas enquanto, na pá de zinco, alecrim, eucalipto, açucar mascavado e as horas se vão consumir suavemente.”

Extractos de “Receita para ultrapassar os domingos”, in A Cabeça de Salomé (2004), de Ana Paula Tavares.

Ler poema seleccionado de 'Manual para Amantes Desesperados' aqui.


Como água dormida de véspera, aqui vos deixo esta receita para amanhã:

“Desce manso à cidade, na hora em que a noite indecisa se embrulha do terceiro pano e de joelhos compõe a cabeleira, retira do rosto os restos de luz e se recolhe tensa das horas por resolver. Não te deixes tentar pelas mãos de cacimbo que, de tão frescas, te poderão recolher, de novo, para o sítio dos sonhos onde as rosas de verdade nos podem explodir no peito.

A noite é enorme e hesita sempre na hora de partir. Os nossos fantasmas, lentos como cobras domésticas, gostam de se plantar – exactamente nesse momento – à beira da nossa condição frágil, rindo e à espera. Toda a gente sabe da sua paciência experimentada. Por isso acorda. Sacode a esteira e enrola-a devagarinho.

(…)

Desce, então, à cidade antes de toda a gente, porque esse é o unico momento em que Luanda se entrega à preguiça e te devolve o rosto, sem pintura, calcinado pelo tempo e ainda assim tão belo, na sua pobreza exposta maltratada pelo sol e pela fome, onde o erosinado casario se estende (a essa hora não parece sofrer de séculos de desorientação e amargura), ainda fechado ao dia, mas já desperto pelo choro de medo das canções de mar e de peixe com que as velhas preparam o caldo do pequeno-almoço. Atenção, estas nunca dormem, parecem ter escapado já à sua condição de dormir e acordar. Esperam, debruçadas na noite, envoltas num longo pano de musgo e capim e entregam aos outros (gente descuidada como tu e como eu) os sonhos que já não são capazes de sonhar.

A nossa cidade anda perdida de si mesma e não é só velhice, é antes um esquecimento que se instalou e a trata mal. Deixou de ser o espaço circular e protector de areia vermelha e súbitas lagoas. A propósito, evita, quando desceres, o Kinaxixi. Não se trata de um problema de sereias, esses seres nem machos nem fêmeas que o habitaram outrora. O problema tem a ver com pássaros que fugiram quase todos e foram inventar silêncio para outros cantos do mundo. Os que ficaram estão enredados nos limos do tempo e fabricam ninhos de seiva, na esperança de não morrerem. Não têm tempo para ti.

Por isso desce e procura as palmeiras. (…) Terás assim que visitar a ilha. Procura os antigos caminhos da água onde ainda podes ver barcos a dormir e demoradas redes postas em descanso por cima da areia. Descobre as marcas dos pés da noite e segue pelas rotas de seda para veres aonde te conduzem. Não digo já, para ser surpresa, e porque língua de coração não se escreve: é oral e perfeita.

(…)

Depois, e de alma lavada, podes voltar para casa. Mistura três colheres de sopa de café arábica (se ainda te sobrou algum do Amboim) com uma de robusta (pode ser de São Tomé) e deita na cafeteira da avó, onde deve já estar a ferver uma água dormida de pelo menos um dia. Acende uma vela branca e bebe até ao fim o café perfumado. Usa uma caneca de esmalte.

Talvez consigas então fechar os olhos, e já não digo dormir, mas entregar-te ao descanso. Os anjos, por essa hora, estão longe e deixaram acesas lamparinas de óleo de palma a marcar os caminhos. A sombra da palmeira maior velará por ti, enquanto deixa fermentar os seus pesados frutos.

É a essa hora que a cidade acorda, quando as mulheres inventam a água e um redemoinho de criancas se espalha respirando fundo a seiva da cidade. Todo o domingo passará por ti sem que o pressintas enquanto, na pá de zinco, alecrim, eucalipto, açucar mascavado e as horas se vão consumir suavemente.”

Extractos de “Receita para ultrapassar os domingos”, in A Cabeça de Salomé (2004), de Ana Paula Tavares.

Ler poema seleccionado de 'Manual para Amantes Desesperados' aqui.

Thursday, 18 January 2007

ALL BLUES...

WHEN ALL BLUES UNDER THE SKY LEAVE US NOTHING BUT THE BLUES...


All Blues, Blue in Green & Indigo
(Miles Davis)


Em saudacao ao Luanda Azul - Luanda Blues...



... e ao Atlantico Azul - Paixao pelo Mar



El Mar Y Tu
By Andrea Bocelli



(NB: Encontre os links ao Luanda Blues... e ao Atlantico Azul... nos 'Caminhos do Rio')
WHEN ALL BLUES UNDER THE SKY LEAVE US NOTHING BUT THE BLUES...


All Blues, Blue in Green & Indigo
(Miles Davis)


Em saudacao ao Luanda Azul - Luanda Blues...



... e ao Atlantico Azul - Paixao pelo Mar



El Mar Y Tu
By Andrea Bocelli



(NB: Encontre os links ao Luanda Blues... e ao Atlantico Azul... nos 'Caminhos do Rio')

Monday, 18 December 2006

TUNISIA BLUES

II. Azure in White + Blue in Green = Kind of Blue
or All Blues...



... Acabei por mudar de hotel a meio da minha estadia. Troquei o imponente Corinthia Khamsa com as suas 5 estrelas, higiene e servico pouco recomendaveis pelo bastante mais aprazivel, limpo e simpatico Phebus, tambem em Gammarth, com as suas 4 estrelas e um quarto com uma soberba vista total para o mar...


All Blues (Miles Davis)

... Na verdade, depois daquela inicial "sneak preview" das anunciadas "pristine beaches" ao redor do hotel, acabei por descobrir que num troco de cerca de 3/4 km da praia era tudo pouco mais do que desolacao, degradacao, falta de manutencao e montes de bosta de camelo na areia, apesar do azure do mar mais do que compensar tudo isso...


Blue In Green (Miles Davis)

... Nao fossem as minhas digressoes por Khartago (Patrimonio Cultural Mundial, onde visitei ruinas Punicas, Romanas e Bizantinas suficientes para o resto da minha vida...), Sidi Bou Said (uma verdadeira rapsodia em azul e branco...) e o meu primeiro passeio de camelo (alias, duas dromedarias muito refilonas, mas obedientes, chamadas respectivamente Shakira e Aisha...), teria saido da Tunisia com uma pessima impressao daquele que e', afinal, um dos mais belos e culturalmente ricos paises que ja visitei.
II. Azure in White + Blue in Green = Kind of Blue
or All Blues...



... Acabei por mudar de hotel a meio da minha estadia. Troquei o imponente Corinthia Khamsa com as suas 5 estrelas, higiene e servico pouco recomendaveis pelo bastante mais aprazivel, limpo e simpatico Phebus, tambem em Gammarth, com as suas 4 estrelas e um quarto com uma soberba vista total para o mar...


All Blues (Miles Davis)

... Na verdade, depois daquela inicial "sneak preview" das anunciadas "pristine beaches" ao redor do hotel, acabei por descobrir que num troco de cerca de 3/4 km da praia era tudo pouco mais do que desolacao, degradacao, falta de manutencao e montes de bosta de camelo na areia, apesar do azure do mar mais do que compensar tudo isso...


Blue In Green (Miles Davis)

... Nao fossem as minhas digressoes por Khartago (Patrimonio Cultural Mundial, onde visitei ruinas Punicas, Romanas e Bizantinas suficientes para o resto da minha vida...), Sidi Bou Said (uma verdadeira rapsodia em azul e branco...) e o meu primeiro passeio de camelo (alias, duas dromedarias muito refilonas, mas obedientes, chamadas respectivamente Shakira e Aisha...), teria saido da Tunisia com uma pessima impressao daquele que e', afinal, um dos mais belos e culturalmente ricos paises que ja visitei.

Friday, 8 December 2006

A NIGHT IN TUNISIA...


I. Thé à la menthe…


I arrived in this country for the very first time yesterday night. So, I’ve spent my first night in Tunisia…
I’m not sure that I experienced all the things that Dizzy Gillespie tried to convey in his “Night in Tunisia”, but a relaxed night at the Corinthia Khamsa Hotel where, from the balcony of my room (after a day of the most ghastly weather in London and Paris…) I could enjoy a brilliant starred and bright mooned sky, complemented with a lamb couscous et un thé à la menthe (… well this one only in my unfulfilled wishes, because when I asked for it they said that they only had english tea… which to me would be something like a ‘mint tea’ only without the mint, so I declined it) might have made up for it!

I came for a week, which is to be half work and half pleasure… the work part is to last until Monday, so only after that I’ll be able to fully enjoy Gammarth, where I’m staying and is described in some tourism literature as “Gorgeous Gammarth: poised at the apex of awe-inspiring Carthage and pristine beaches, Gammarth is the perfect starting point at which to explore Tunisia and its myriad attractions that include quaint villages, colourful souks, holy shrines and Roman amphitheatres. With its warm, azure waters and upscale yet laid-back sensibility, you might be tempted to make Gammarth your only destination this trip and in trips to come.” … Well, I’m already gagging for it all!


In fact, today I had a sneak preview of the said warm, azure waters and pristine beaches when I went for a short walk around only to discover that this hotel is actually located by the beach, in fact it has its own beach, which, perhaps because it’s low season, was completely deserted, in spite of the gorgeous sun it made all day today! I hadn’t realised that, because I didn’t know anything about the place beforehand and couldn’t really see much of it yesterday night… a truly breathtaking view!



P.S. 1: I’m taking notice of all the emails from those of you who have taken the time to respond to my message relating to the last post here. Thanks a lot you bunch! I’ll respond as soon as I get some more free time in my hands but, in the meantime, if you don’t terribly mind, could you be so kind as to post your comments directly here in the blog? You can sign in as anonymous if you don’t feel like identifying yourselves, ça va?
Salut et à la prochaine! … Aujourd’hui j’ai eut le plaisir d’enjoyer non seulement un, mais deux (… à ce moment) vrais thés à la menthe tunisiens!!

P.S. 2 : Jà repararam que estou a escrever com acentos, embora esse ùltimo e este também nao sejam os correctos, porque aparentemente nao se usam em Frances, assim como nao se usam tis? Pois é… mas tentem, depois de anos e anos a usar teclados sem acentos, escrever num com caracteres latinos e arabes, para além dos normais… cada tecla tem quatro caracteres e é um verdadeiro quebra cabeças descobrir como é que se consegue usar cada um deles… um verdadeiro caso de 8 ou 80 !!!

I. Thé à la menthe…


I arrived in this country for the very first time yesterday night. So, I’ve spent my first night in Tunisia…
I’m not sure that I experienced all the things that Dizzy Gillespie tried to convey in his “Night in Tunisia”, but a relaxed night at the Corinthia Khamsa Hotel where, from the balcony of my room (after a day of the most ghastly weather in London and Paris…) I could enjoy a brilliant starred and bright mooned sky, complemented with a lamb couscous et un thé à la menthe (… well this one only in my unfulfilled wishes, because when I asked for it they said that they only had english tea… which to me would be something like a ‘mint tea’ only without the mint, so I declined it) might have made up for it!

I came for a week, which is to be half work and half pleasure… the work part is to last until Monday, so only after that I’ll be able to fully enjoy Gammarth, where I’m staying and is described in some tourism literature as “Gorgeous Gammarth: poised at the apex of awe-inspiring Carthage and pristine beaches, Gammarth is the perfect starting point at which to explore Tunisia and its myriad attractions that include quaint villages, colourful souks, holy shrines and Roman amphitheatres. With its warm, azure waters and upscale yet laid-back sensibility, you might be tempted to make Gammarth your only destination this trip and in trips to come.” … Well, I’m already gagging for it all!


In fact, today I had a sneak preview of the said warm, azure waters and pristine beaches when I went for a short walk around only to discover that this hotel is actually located by the beach, in fact it has its own beach, which, perhaps because it’s low season, was completely deserted, in spite of the gorgeous sun it made all day today! I hadn’t realised that, because I didn’t know anything about the place beforehand and couldn’t really see much of it yesterday night… a truly breathtaking view!



P.S. 1: I’m taking notice of all the emails from those of you who have taken the time to respond to my message relating to the last post here. Thanks a lot you bunch! I’ll respond as soon as I get some more free time in my hands but, in the meantime, if you don’t terribly mind, could you be so kind as to post your comments directly here in the blog? You can sign in as anonymous if you don’t feel like identifying yourselves, ça va?
Salut et à la prochaine! … Aujourd’hui j’ai eut le plaisir d’enjoyer non seulement un, mais deux (… à ce moment) vrais thés à la menthe tunisiens!!

P.S. 2 : Jà repararam que estou a escrever com acentos, embora esse ùltimo e este também nao sejam os correctos, porque aparentemente nao se usam em Frances, assim como nao se usam tis? Pois é… mas tentem, depois de anos e anos a usar teclados sem acentos, escrever num com caracteres latinos e arabes, para além dos normais… cada tecla tem quatro caracteres e é um verdadeiro quebra cabeças descobrir como é que se consegue usar cada um deles… um verdadeiro caso de 8 ou 80 !!!