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Monday, 12 December 2011

Gostei de Ler (?)... [3] - ADENDADO




[in Novo Jornal #203, 09/12/11 - clique na imagem para ler]


… Ora aqui esta’ um artigo, escrito por alguem que julgo pertencer a “minha geracao” (... a menos que tambem ja' seja um "sexagenario"!...), sobre uma “outra geracao” que designa “uma geracao de idiotas”…

Trata-se de alguem, por sinal membro do "circulo restrito" dos conselheiros de JES, de quem nunca fui proxima (de facto, nunca o conheci pessoalmente), mas que, de ha' uns anos para ca', se tornou uma das 'neofitas amizades e afectos' de alguem que, se nao me conhece exactamente desde que nasci, ou desconhece algumas facetas e periodos do meu percurso, por varias razoes que nao venhem agora aqui ao caso, tera' lidado mais de perto comigo em determinadas fases da minha vida, ainda que apenas muito curta e superficialmente, do que a maior parte dos membros da minha (nao muito grande e menos ainda 'poderosa') familia.

Esta pequena introducao vem a proposito de, tal como vem acontecendo com varias coisas que tenho lido na imprensa e na blogosfera angolana, depois da minha primeira leitura desse artigo, me ter sentido algo perturbada e - uma vez que venho sendo alvo, por parte de gente que nem sequer me conhece, ou por gente que considerava "amiga" e alguma da qual, curiosamente, ate' progenitora dalguns dos membros dessa geracao dita de "idiotas", de uma serie de injustificados (e, aparentemente, tao "inexplicaveis" quanto "interminaveis"!) ataques pessoais “out of the blue”, especialmente desde que criei este blog - ate’ possivelmente “visada”...

Mas, numa segunda leitura, realizei que as unicas coisas nele que me poderiam porventura “atingir” seriam talvez as mencoes que faz ao “principalmente fora do pais”, as “costureiras da moda” e aos “doutores que nao acabaram o curso”... So’ que, “fora do pais” ha’ muitos angolanos, pelas mais diversas razoes, em varios paises e continentes, de varias proveniencias e geracoes e de todas as “especies e feitios”; eu nao incluiria a minha mae no grupo das “costureiras da moda” e “doutores que nao acabaram o curso” sei de muitos e certamente entre eles nao me incluo, uma vez que sempre me recusei a ser chamada de “doutora” (... para mim “doutor/a” e’ apenas, excepto nos casos em que o respectivo curso nao o requeira, quem tenha defendido com sucesso uma tese de doutoramento ou equivalente...) e, por “aquele curso” que nao acabei em Portugal (... e quanto mais nao seja por isso, se ha' alguem que vive sob, ou que impoe a alguem a "ditadura da licenciatura" esse alguem certamente nao sou eu!...) – e nunca sera’ demais repeti-lo: por circunstancias absolutamente extraordinarias, alheias a minha vontade, completamente fora do meu controlo e... todas originadas no "nosso querido pais" e provocadas, por accao ou por omissao, pelos mesmos "dedos" que hoje, em riste, me acusam de "ter fugido" do pais(!) e, interestingly enough, alguns deles entre o circulo de amigos do articulista... –, fiz, em ambientes linguisticos e culturais e em circunstancias de vida muito mais dificeis, mais cursos, de nivel mais elevado e exigente e de melhor qualidade, do que muitos dos nossos “doutores”!... E tambem nunca sera' demais repeti-lo: inteiramente 'a minha custa!

And... make no mistake: posso nao saber para onde vou, mas sei, sempre soube bem de onde venho!
E... perante o 'que sei bem que me espera em Luanda, quem me dera poder regressar ao "maqui" dos meus avos!!!

Assim, apos uma terceira leitura, embora tivesse preferido que tal nao fosse o caso, e mesmo correndo o risco de estar enganada (... ou, recorrendo ao "meu velho amigo" Popper, de poder vir a ser "falsificada"...) em qualquer dessas minhas leituras [e aqui nao posso deixar de notar, en passant, que, a meu ver, esse e’ um dos maiores perigos de um certo “jornalismo de opiniao”: dificilmente nos permite saber com exactidao, beyond any reasonable doubt, a que, ou a quem (dois dos 5 'Ws' fundamentais da investigacao jornalistica: What? - O que?; Who? - Quem?; When? - Quando?; Where? - Onde?; Why? - Porque?), o articulista se esta’ a referir em concreto – particularmente quando, como eu, o leitor se encontra fora do contexto local em que o texto e’ produzido – funcionando assim, mais frequentemente do que nao, apenas como pouco mais do que um irresponsavel "fuxico", uma predadora "kuribotice", um insidioso “mujimbo” ou, pior do que isso, como uma letal arma de arremesso, um ofensivo pau de dois bicos ou uma 'indiscriminatoria' mina anti-pessoal e ate', no limite, "anti-familiar" e "anti-social"!...], dei comigo a concordar de alguma maneira com o que afirma e, com os pes bem assentes nos meus ja’ 50 anos + 1 de vida, acrescentar-lhe-ia, tentando responder de algum modo ao seu apelo para que se tomem “medidas de caracter profilatico”, embora o faca com intencoes mais "pedagogicas" do que "profilaticas", algumas "mukandas" especialmente dirigidas a alguns membros da “geracao” em causa, qualquer que ela seja:

i) Embora, por necessaria e devida modestia, me seja dificil ‘atestar’ “o que e’ a poesia”, julgo ter minimamente uma nocao do que ela “nao e’”...
Explico-me:

- Quem se pretende “poeta”, deve ter sensibilidade suficiente (... 'sense and sensibility'...) para perceber que a poesia e’ um lugar, senao de silencio total e absoluto, certamente de “tons menores”: de disponibilidade e entrega emocional, psicologica, afectiva e espiritual, interiorizacao, introspeccao, experimentacao, burilacao, depuracao, reflexao e abstracao, enfim, de recato, contencao, contemplacao e auto-superacao:

-- a poesia nao se move pelos caminhos invios, tortuosos e lamacentos da raiva (bem ou mal contida), da inveja, do odio, do ciume, do despeito, da hipocrisia, da rivalidade, do mimetismo, do plagiarismo, da disputa, do despique, da contenda, da competicao, do regateio, da zaragata, do trungunguismo, do ressaibo, do recalcamento, do rancor, da vinganca, do revanchismo, do oportunismo, do racismo, do elitismo, ou do exclusivismo;

-- a poesia nao e’ um lugar previligiado de “mainstreams”... e’, muito mais, um lugar primacial de “undercurrents”...;

-- a poesia nao e’ o "devido lugar" da “oposicao” nem da “situacao”: e’, muito mais, o lugar da “rectidao”... (por isso falava aqui, com justificado desdem, de uns certos "poetas 'revolucionarios' e 'lucidos' da situacao", que, ademais, sempre orbitaram nos circulos do poder ao mais alto nivel como seus "conselheiros", "advisers" ou "cortesa(o)s"!...);

-- a poesia nao e’ o lugar natural do “material”... e’, muito mais, o lugar matricial do “espiritual”, do “infinito” e do “sonho”, mesmo quando mesclado com o "pesadelo"...;

-- a poesia nao se presta a comodificacao, a coisificacao, a objectificacao, a plastificacao ou ao artificialismo, nem ao espectaculo ostentatorio, imediatista, bacoco, exibicionista, mediatico, competitivo e barulhento - enfatizemos: embora essas duas figuras possam porventura coincidir em alguns (raros) casos, ser poeta (ou poetisa, como certamente preferem apesar disto...) nao significa ser "declamador/a"!

-- a poesia exige honestidade e respeito – e para tal requer auto-respeito: mesmo quando, como aqui, aqui, ou aqui, lhe da’ para responder ao "call of the wild", "perder as estribeiras" e “gritar”, “espernear” e “explodir”, em geito de hiphop, aparentemente em todas as direccoes, e fazer “tabua rasa” e “terra queimada” de todas as normas estilisticas da dita “poesia convencional”... apenas para melhor trazer "uma certa verdade nua e crua", ainda que apenas parcial e relativa, ao de cima: e' que a "poesia pura e dura" nao se da' la' muito bem com a "mentira"!... E nisso consiste um dos atributos essenciais que a devem caracterizar, a par da "integridade": a "autenticidade"!

-- a poesia e' um pouco como a "Mulher" de Vinicius de Moraes: "tem que ter qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade"!... Ao que eu acrescentaria: tem que ter ALMA!

ii) Quem se pretende "antologiador/a" ou "critico/a literario" deve adoptar como seu principio "etico-deontologico" fundamental primar pelo maximo rigor e objectividade possiveis na avaliacao das obras sobre as quais se debruca - quando tal lhe for "absolutamente impossivel" por "conflitos politico-ideologicos", "incompatibilidades pessoais e/ou de interesses", ou por qualquer outra razao, deve, moral e profissionalmente, abster-se de o fazer;

iii) Quem se pretende “promotor da literatura e do habito da leitura”, tem que, no minimo, ser capaz de demonstrar que cultiva tal habito desde muito cedo na vida – ou, caso por qualquer infortunio nao o tenha podido fazer desde a infancia, que o faz consistente e humildemente desde que lhe foi possivel comecar a cultivar tal habito (... mais vale tarde do que nunca!...), para que a certa altura possa, confidentemente:

-- discorrer com alguma congruencia e credibilidade sobre os livros, autores ou correntes literarias que mais o/a influenciaram ou marcaram na vida e, talvez mais importante do que isso, ser capaz de demonstrar os seus habitos de leitura atraves da qualidade da sua escrita (... mesmo que, como eu, ainda continue a dar alguns “pontapes” na lingua de Camoes e, ja’ agora, tambem na de Shakespeare...) – e’ que “qualidade” nem sempre significa necessariamente “perfeicao” (ou, dito de outro modo, “o optimo pode ser inimigo do bom”...), especialmene quando se “recebeu” a lingua em que se expressa em “segunda” ou “terceira” mao...

Tendo dito isso, convira’ nao perder de vista que “qualidade”, especialmente em poesia, nao se resume a “estetica formal”, mas (… e antes que me esqueca, aproveito para chamar a atencao de alguns dos ‘destinatarios’ desta mukanda para a diferenca entre ‘mas’ e ‘mais’ – que, propositadamente, nao vou aqui explicar, deixando-o como um, ha’ muito atrasado(!), “trabalho de casa”...) ‘cava mais fundo’ nos labirintos da “criacao literaria” ate' chegar 'a profundidade da “etica humanistica” (... a nao ser confundida com o estranho, suspeito, escorregadio e perigoso conceito de “etico-ideologico” recentemente introduzido no “nosso imaginario criativo” por uma certa “douta literato-cientifica e catedratica, tambem 'mae da negritude branca lusofona pos-colonial'” - ... la' dizia Chomsky: "O papel historico dos intelectuais, se olharmos tao longe quanto pudermos no passado, infelizmente tem sido o de apoiar os sistemas de poder e justificar as suas atrocidades"!) ... e aqui atrevo-me a sugerir, "sabendo bem o que me espera!", que tera' sido uma certa "etica ideologica", legitimadora de uma certa "violencia revolucionaria", que tera' permitido que "medidas de caracter profilatico" como o 27 de Maio de ma' memoria acontecessem sob a presidencia e o "olhar silencioso" de um poeta como Agostinho Neto... enquanto, a contrario, tera' sido uma certa "etica humanistica", historicamente percussora dos contemporaneos "movimentos civicos anti-totalitarios" que tera' levado um poeta como Vaclav Havel a fazer o percurso que fez!...), onde, by the way, “criar” tambem se faz, e sobretudo (!), “com os olhos molhados” ... [*]

Igualmente a nao perder de vista deve ser o entendimento de que, embora a "massificacao cultural" nao seja de todo um objectivo objeccionavel, ha' que ser-se criterioso nos meios para se a obter, porque um facto incontornavel e' que: se e' certo que, ocasionalmente, da quantidade pode brotar "cumulativamente" qualidade, the fact remains that os dois conceitos nao se equivalem... Ou, dito de outro modo, "25 poemas + 1" nao sao necessariamente "melhores" do que "25 poemas"!

Para se revelarem "socialmente uteis", a poesia, a literatura e a arte em geral, nao teem que preterir a "essencia" em favor da "efervescencia"... ou a "coerencia" em favor da "aparencia"... ou a "consciencia" em favor da "displicencia"!...

Os livros que, ao longo da Historia da Literatura - que nao inclui apenas "best sellers"... -, alcancaram "sucesso", nao o obtiveram apenas pela sua "promocao" ou "marketing" atraves de t-shirts ou pelo seu volume de vendas, nem pelos seus autores terem feito cursos de "creative writing" directamente ou pela internet... mas pela "dimensao" ("medida" nao apenas pelo numero de paginas...), "profundidade", "criatividade", "originalidade" e "relevancia" do seu "conteudo"!...


iv) Quem se pretende “porta-estandarte” da arte, deve pelo menos saber minimamente o que e’ a arte, senao num sentido estritamente academico e super-sofisticado ou elitista, pelo menos num sentido vivencial e existencial. Ou seja:

-- deve, pelo menos, procurar ter algum contacto, directo ou indirecto, com os artistas, os processos criativos e os produtos artisticos para os poder perceber e apreciar;

-- deve, pelo menos, cultivar o habito de frequentar ateliers de arte e exposicoes artisticas e ir, sempre que possivel, a museus e galerias de arte, dentro ou fora do pais, para sobre a arte poder discernir e ser capaz de a avaliar ou criticar;

-- deve tambem expor o mais possivel os seus sentidos a um leque diversificado de manifestacoes artisticas, populares e/ou eruditas, desde a musica, a danca, ao teatro e ao cinema, para melhor e mais criteriosa e conscientemente as poder fruir, recomendar, praticar, replicar ou emular;

-- e deve fazer tudo isso sem deixar de estar de olhos e "pulsoes" abertos aos estimulos da natureza, da sociedade e do mundo que o rodeia, local e globalmente;


v) Quem se pretende "critico musical", seja de que genero for, deve, no minimo, ter alguma formacao formal em musica;


vi) Quem pertenca as “novas geracoes” (sejam elas economicas, profissionais, academicas, politicas, jornalisticas, culturais, artisticas, literarias, ou outras) deve tentar, o mais possivel, nao deixar de respeitar os “mais velhos” – os que vieram antes de nos, que nos permitiram ser quem somos e nos abriram ou mostraram “um qualquer caminho”, mesmo que “nos tenha dado” para seguir outro completamente diferente...
E por "respeito" - que, em qualquer caso, quanto a mim e' apenas "devido" na exacta medida em que tais "mais velhos" se saibam fazer respeitar! - nao pretendo significar apenas "reverencia" cega e menos ainda "subserviencia" acritica (pois que tal postura seria intrinsecamente "reaccionaria" porque impeditiva da "mudanca de geracoes" e da "evolucao" - mesmo que apenas "na continuidade"...), mas sobretudo "reconhecimento":

-- no que me diz pessoalmente respeito e em relacao a minha “vida literaria”, por 'incipiente' que seja e embora ate' agora ela nao me tenha trazido muito mais do que dissabores e inimigos, nao posso deixar de estar eternamente grata a Manuel Rui Monteiro, Luandino Vieira, Costa Andrade "Ndunduma", Ruy Duarte de Carvalho e Aires de Almeida Santos, por terem “insuflado vida” (ainda que "precaria"), e alguns deles “de olhos vendados”, ao que, de outro modo, muito provavelmente nao teria passado de um “nado morto”, um “festim para vulto/as esquizofrenico/as e pornografo/as” e racistas de todas as latitudes, um “repasto para sordido/as fantasistas e lugubres pervertido/as” e invejosos de todas as especies e (baixos) coturnos, ou um livro de receitas para “kuribotices de velhotas, velhacas, bruacas e ressabiadas mulherzinhas de domingo”!...

A esses nomes gostaria de acrescentar, embora por razoes diferentes, mas relacionadas, um outro: o de Artur Pestana "Pepetela" - por um daqueles "nadas" que, em certas circunstancias, podem significar "tudo". Conto:
Uma vez, pouco depois do lancamento do meu livro, durante um jantar em casa do entao Adido Cultural da Embaixada de Portugal em Angola, Armando Marques Guedes, em que uma das convivas era a Sra. Professora, a dada altura o anfitriao referiu-se a mim como uma "intelectual", ao que a Sra. Professora imediatamente lhe retorquiu desdenhosamente: "... intelectual, intelectual... eu digo-lhe quem sao os intelectuais angolanos - um dia destes faco-lhe uma lista"!... Bom, aquilo foi, obviamente, o suficiente para me "calar" para o resto do jantar - mesmo porque aprendi de pequena que nao se deve falar enquanto se come... Mas, as tantas, como que a tentar "provar a sua tese", ela vira-se para mim e diz, com a sua irrepressivel agressividade: "Entao? Estas muito calada! Nao dizes nada porque?!"... E antes que eu lhe pudesse responder o que quer que seja, o Pepetela (a.k.a. "o mais elevado dos espiritas"), muito sensivel, serena e civilizadamente, disse-lhe algo como: "Mas sao assim mesmo os poetas, muito mais silenciosos, introspectivos e observadores do que faladores"... E so' por isso, tambem lhe fiquei eternamente grata!

E, ja' agora, essa memoria leva-me aonde tudo comecou: foi durante um convivio com um grupo de artistas brasileiros em Luanda, durante o qual me vi envolvida numa animada conversa sobre 'cultura' - ja' nao me lembro exactamente qual era o tema especifico. 'As tantas, um dos meus interlocutores diz-me isto: "Poxa, voce fala como uma professora da Sorbonne!... Voce esta' me fazendo sentir como "o po' do coco' do cavalo do bandido!" Bom, depois das inevitaveis gargalhadas, o Manuel Rui Monteiro, que eu conhecera alguns anos antes na Faculdade de Letras do Lubango e que estava sentado ao meu lado, disse-me que "queria ver o que eu escrevia"... Perguntei-lhe "como e' que ele sabia que eu escrevia", ao que ele: "escreve, escreve de certeza... va' la', mostre-me que eu quero ver". E, assim, alguns dias depois mostrei-lhe alguns dos meus poemas... e foi assim que este 'pesadelo' que estou com ele ate' hoje comecou!...

E, ja’ agora, por falar na Faculdade de Letras do Lubango, impoe-se-me a mencao de um outro nome: o de Arlindo Barbeitos, que la’ foi meu professor de Historia de Africa. Todavia, por razoes que prefiro nao pormenorizar aqui - sobretudo para que nao sejam confundidas com outras questoes que marcaram de forma polemica a sua docencia naquela faculdade e com as quais nada tive a ver -, o nosso relacionamento professor-aluna foi tudo menos “facil”, para dizer o minimo… De tal maneira que acabei sendo, efectivamente, muito mais aluna de um outro professor daquela disciplina, de origem Bakongo, a quem peco aqui as minhas sinceras desculpas por me ter esquecido do seu nome.
Porem, Barbeitos continuou sendo o regente da cadeira e responsavel por todos os testes e avaliacoes de todos os alunos, incluindo os do outro professor. Entao, apenas para abreviar a historia, no teste final ele deu-me a mais alta classificacao e como eu nao ia as aulas dele, mandou-me chamar. Quando la’ fui, ele pediu-me que me levantasse e fez-me um grande elogio perante todos os alunos, exaltando a minha “inteligencia” e o conhecimento demonstrados atraves da qualidade da minha participacao nas aulas e naquele e noutros testes que eu tinha prestado durante o ano que frequentei naquela faculdade.
Assim, onde antes so’ havia “gelo” passou a haver algum calor humano, amizade e respeito mutuo… De tal maneira que, quando alguns anos depois nos cruzamos pela primeira vez numa rua de Luanda, foi ele que me reconheceu do outro lado da rua, chamou-me e fez-me uma grande festa!
Anos mais tarde, quando ja’ me encontrava a estudar em Lisboa, recebi de uma editora italiana um postal dizendo que lhes tinha sido recomendada pelo Arlindo Barbeitos e que estavam interessados em publicar os meus poemas. Mas, infelizmente, por razoes que aqui se podem descortinar, naquela altura eu queria tudo "menos falar, ou ouvir falar, dos meus poemas", pelo que preferi nao prosseguir aquele contacto.
Mas aqui deixo os meus agradecimentos ao professor, historiador, escritor e poeta Arlindo Barbeitos, autor de "Angola, Angole, Angolema".

And last, but by no means least, o meu agradecimento a minha Professora de Portugues no Liceu Feminino de Luanda, Maria Luisa Dolbeth e Costa.


vii) Quem se considera "intelectual", deve pelo menos evidenciar algumas das caracteristicas delineadas nas definicoes aqui apresentadas.


Finalmente, mas nao menos importante:

viii) Quem se pretende “moderna, progressista e democraticamente inserido no actual mundo competitivo” em que vivemos, local e globalmente, tem que ser efectivamente capaz de “competir honestamente” em "mercado aberto" e em "pe de igualdade", seja no mercado de trabalho, seja noutras esferas da vida economica, social, politica, academica ou cultural, e de "vencer" por "merito proprio". Ou seja:

-- nao se pode, pura e simplesmente, valer do nome, da cor da pele, do dinheiro, das casas, dos carros e outros bens materiais ou imateriais, ou das portas que lhe foram abertas pelos seus pais, ou outros familiares ou amigos, numa determinada empresa ou circulo cultural, economico, politico ou social e considerar-se por isso tao ou mais “lutador”, "capaz", “merecedor”, “bem sucedido” ou “vencedor” do que outros, da sua ou de outras geracoes, que nunca beneficiaram de tais “herancas”, previlegios, facilidades, vantagens e oportunidades!...

Caso os preceitos (ou, se se preferir, “valores e principios”) acima enunciados nao sejam observados, minima ou parcialmente que seja, e aqui diria por “todas as geracoes” (!), por mais “ginwinos” e “bem intencionados” que sejam os seus esforcos e iniciativas, correrao sempre o risco de ser retratados e catalogados como “aqueles que venhem do Roque Santeiro para as escadarias da UEA apenas em busca de ascensao social” (!), como o fez numa outra ocasiao o autor do artigo que me serviu de mote a estas “mukandas”...

Eu di-lo-ia de outro modo: ainda que nao venham do "Roque Santeiro", nem estejam apenas em busca de "ascensao social" [poderao, por exemplo, vir de Viana, da Vila Alice, do Kinaxixe, do Bairro Popular, da Maianga, ou mesmo do Alvalade, da Marginal, do 'Quartier Latin' ou do Bairro Alto, para as escadarias e quintais  da permissiva e promiscua "comuna 'libertinaria' neoliberal" da Cidade Alta em busca de "proximidade ao poder" e do "menos congestionado" trafico de influencias e de "fontes de informacao" para os "novos jornais" da praca, e.g. sobre "partes da historia do MPLA", que esse lugar proporciona, ou, especialmente no caso dos "rapazes" e "raparigas" que nunca tiveram forca suficiente para pegarem numa catana ou numa enxada para sairem do conforto das ruas asfaltadas da capital e irem para o campo contribuir para a "resolucao dos problemas do povo", ou a coragem necessaria para pegarem em armas e irem para uma frente de combate defender os "seus ideais", a ilusao de que (tambem) o fizeram... - o que tambem nao e' mais do que buscar "ascensao social" ... o que quer que isso seja ...], continuarao eternamente, ou pelo menos por muito tempo, sem passar das "escadarias da UEA", mesmo que nela consigam entrar e sentar-se, sob o signo dos seus neofitos '7 egos', 'aquela mesa central com o poema "Criar" de Agostinho Neto no background!... E isto servira' especialmente aos que para la' entram com certo tipo de "declaracoes acintosas" como as aqui descritas!...

Em suma, como aqui afirmava ha’ dias, e embora ninguem se possa reclamar “perfeito”, especialmente quando as suas "medidas de caracter profilatico" (ou "pornografico"?) especialmente formuladas para "as classes mais baixas", resultam em casos como este, e muito particularmente numa “sociedade doente” como a Angolana:
e’ tudo uma questao de INTEGRIDADE MORAL, HONESTIDADE INTELECTUAL, EDUCACAO E CARACTER!




[*]

P.S.


Apenas dois exemplos de “etica ideologica” em accao:

1. Jose’ Agostinho, dirigente da JMPLA e musico dos primordios da Dipanda, cantou uma cancao com esta letra:

(…)
E’ preciso fazer a guerra
Para acabar com a guerra
E’ bom ver disparar
E disparar tambem
E’ bom ver morrer
E’ bom quase morrer
Para melhor compreender
E perceber
Que e’ preciso fazer a guerra
Para acabar com a guerra

(…)

2. As criancas da OPA (Organizacao dos Pioneiros Angolanos), com idades compreendidas entre os 5/6 e 12/13 anos, no mesmo periodo cantavam uma cancao que rezava assim:

(…)
Eu vou morrer em Angola
Com armas de guerra na mao
Granada sera’ meu caixao
Enterro sera’ na patrulha

(…)

- Ora, dir-se-ha’ que, em ambos os casos, se tratavam de “normais” cancoes de guerra – nada inedito, extraordinario, nem “eticamente reprovavel”: afinal, todas as guerras acabam por criar os seus proprios “cancioneiros” auto-justificativos. E, dependendo de quem justifica a guerra pos-independencia e com que pressupostos ideologicos o faz, dir-se-ha’ ate’ que a cancao de Jose’ Agostinho acabou, a posteriori por ser “vindicada” pelo desfecho que aquela guerra teve faz agora 10 anos!...

Portanto, ate’ ai, podera’ dizer-se que, do ponto de vista ideologico, “ta’ tudo bem”!...

Mas, e’ do ponto de vista humanistico que comecam os problemas:

- Sera’, antes de mais, a guerra, qualquer guerra, em si mesma “eticamente justificavel” em todas as circunstancias?
- Em ambos os casos, tratavam-se de cancoes destinadas a “condicionar psicologicamente” as criancas e os jovens para a aceitacao da e a participacao na guerra. E, sendo certo que longe estavam ainda os tempos das actuais campanhas internacionais contra o uso de “criancas soldado” em qualquer guerra, nao era a cancao da OPA contraria aos principios da Declaracao Universal dos Direitos da Crianca ja’ entao internacionalmente consagrados e desenvolvidos ao longo das decadas?

Essas apenas duas das questoes fundamentais que, numa primeira abordagem, apelam ao conceito de “etica humanistica” como moralmente superior ao de “etica ideologica”.

Mas, passada essa primeira abordagem, o terreno escorragadio em que se move a “etica ideologica”, veio a revelar-se ainda mais perturbador em ambos os casos:

- Jose’ Agostinho acabou por ser executado pouco depois da Dipanda, na orgia de “violencia revolucionaria” que se seguiu ao 27 de Maio de 1977… e aqui nao poso deixar de me “espantar”, mais uma vez, com a minha “ingenuidade” em relacao aos acontecimentos e personagens a volta daquela tragedia: so’ muito recentemente me foi confirmado que esse foi efectivamente o seu destino, porque naqueles dias disseram-nos, a alguns de nos entao militantes da Jota (... ou seria da "Mocidade Portuguesa"?...), que ele tinha morrido de “uma indigestao causada por uns camaroes improprios para consumo que tinha comido”… e eu sempre acreditei nisso… ate’ muito recentemente!...

- Do “destino” de muitos pioneiros da OPA, e especialmente daqueles que realmente andaram de armas na mao (verdadeiras ou de pau) e muitos dos quais foram servir de "carne para canhao" nas frentes de combate, talvez o caso mais paradigmatico seja o do “menino da bandeira”, Diniz Kanhanga, aqui relatado!... Enquanto outros, como este, viriam a ser vitimados por certas "medidas artisticas de caracter profilatico" (ou "pornografico")?!...

Enfim, em ambos os casos estamos perante facetas e simbolos da historia de duas geracoes ("de idiotas"?) kruxifikadas pela "violencia revolucionaria" de uma certa "etica ideologica"...

Enfim, em ambos os casos estamos perante facetas da historia de duas geracoes ("de idiotas"?) kruxifikadas pelas "medidas de caracter profilatico" de uma certa "etica ideologica"...

E isso para falar apenas de dois exemplos da “etica ideologica” aplicada ao “nosso contexto”, porque poderiamos discuti-la mais alargadamente nos contextos da ideologia Nazi, ou da Stalinista, ou ainda da que (qualquer que seja a designacao que se lhe de) subjaz as mais recentes guerras do Iraque e Afeganistao… so’ para citar esses “exemplos maiores”!...




ADENDA


“... que alguem lhes conte uma historia, umazinha so’…”


Pois, noblesse et sagesse oblige, conto:


“A Minha Amiga”






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[in Novo Jornal #203, 09/12/11 - clique na imagem para ler]


… Ora aqui esta’ um artigo, escrito por alguem que julgo pertencer a “minha geracao” (... a menos que tambem ja' seja um "sexagenario"!...), sobre uma “outra geracao” que designa “uma geracao de idiotas”…

Trata-se de alguem, por sinal membro do "circulo restrito" dos conselheiros de JES, de quem nunca fui proxima (de facto, nunca o conheci pessoalmente), mas que, de ha' uns anos para ca', se tornou uma das 'neofitas amizades e afectos' de alguem que, se nao me conhece exactamente desde que nasci, ou desconhece algumas facetas e periodos do meu percurso, por varias razoes que nao venhem agora aqui ao caso, tera' lidado mais de perto comigo em determinadas fases da minha vida, ainda que apenas muito curta e superficialmente, do que a maior parte dos membros da minha (nao muito grande e menos ainda 'poderosa') familia.

Esta pequena introducao vem a proposito de, tal como vem acontecendo com varias coisas que tenho lido na imprensa e na blogosfera angolana, depois da minha primeira leitura desse artigo, me ter sentido algo perturbada e - uma vez que venho sendo alvo, por parte de gente que nem sequer me conhece, ou por gente que considerava "amiga" e alguma da qual, curiosamente, ate' progenitora dalguns dos membros dessa geracao dita de "idiotas", de uma serie de injustificados (e, aparentemente, tao "inexplicaveis" quanto "interminaveis"!) ataques pessoais “out of the blue”, especialmente desde que criei este blog - ate’ possivelmente “visada”...

Mas, numa segunda leitura, realizei que as unicas coisas nele que me poderiam porventura “atingir” seriam talvez as mencoes que faz ao “principalmente fora do pais”, as “costureiras da moda” e aos “doutores que nao acabaram o curso”... So’ que, “fora do pais” ha’ muitos angolanos, pelas mais diversas razoes, em varios paises e continentes, de varias proveniencias e geracoes e de todas as “especies e feitios”; eu nao incluiria a minha mae no grupo das “costureiras da moda” e “doutores que nao acabaram o curso” sei de muitos e certamente entre eles nao me incluo, uma vez que sempre me recusei a ser chamada de “doutora” (... para mim “doutor/a” e’ apenas, excepto nos casos em que o respectivo curso nao o requeira, quem tenha defendido com sucesso uma tese de doutoramento ou equivalente...) e, por “aquele curso” que nao acabei em Portugal (... e quanto mais nao seja por isso, se ha' alguem que vive sob, ou que impoe a alguem a "ditadura da licenciatura" esse alguem certamente nao sou eu!...) – e nunca sera’ demais repeti-lo: por circunstancias absolutamente extraordinarias, alheias a minha vontade, completamente fora do meu controlo e... todas originadas no "nosso querido pais" e provocadas, por accao ou por omissao, pelos mesmos "dedos" que hoje, em riste, me acusam de "ter fugido" do pais(!) e, interestingly enough, alguns deles entre o circulo de amigos do articulista... –, fiz, em ambientes linguisticos e culturais e em circunstancias de vida muito mais dificeis, mais cursos, de nivel mais elevado e exigente e de melhor qualidade, do que muitos dos nossos “doutores”!... E tambem nunca sera' demais repeti-lo: inteiramente 'a minha custa!

And... make no mistake: posso nao saber para onde vou, mas sei, sempre soube bem de onde venho!
E... perante o 'que sei bem que me espera em Luanda, quem me dera poder regressar ao "maqui" dos meus avos!!!

Assim, apos uma terceira leitura, embora tivesse preferido que tal nao fosse o caso, e mesmo correndo o risco de estar enganada (... ou, recorrendo ao "meu velho amigo" Popper, de poder vir a ser "falsificada"...) em qualquer dessas minhas leituras [e aqui nao posso deixar de notar, en passant, que, a meu ver, esse e’ um dos maiores perigos de um certo “jornalismo de opiniao”: dificilmente nos permite saber com exactidao, beyond any reasonable doubt, a que, ou a quem (dois dos 5 'Ws' fundamentais da investigacao jornalistica: What? - O que?; Who? - Quem?; When? - Quando?; Where? - Onde?; Why? - Porque?), o articulista se esta’ a referir em concreto – particularmente quando, como eu, o leitor se encontra fora do contexto local em que o texto e’ produzido – funcionando assim, mais frequentemente do que nao, apenas como pouco mais do que um irresponsavel "fuxico", uma predadora "kuribotice", um insidioso “mujimbo” ou, pior do que isso, como uma letal arma de arremesso, um ofensivo pau de dois bicos ou uma 'indiscriminatoria' mina anti-pessoal e ate', no limite, "anti-familiar" e "anti-social"!...], dei comigo a concordar de alguma maneira com o que afirma e, com os pes bem assentes nos meus ja’ 50 anos + 1 de vida, acrescentar-lhe-ia, tentando responder de algum modo ao seu apelo para que se tomem “medidas de caracter profilatico”, embora o faca com intencoes mais "pedagogicas" do que "profilaticas", algumas "mukandas" especialmente dirigidas a alguns membros da “geracao” em causa, qualquer que ela seja:

i) Embora, por necessaria e devida modestia, me seja dificil ‘atestar’ “o que e’ a poesia”, julgo ter minimamente uma nocao do que ela “nao e’”...
Explico-me:

- Quem se pretende “poeta”, deve ter sensibilidade suficiente (... 'sense and sensibility'...) para perceber que a poesia e’ um lugar, senao de silencio total e absoluto, certamente de “tons menores”: de disponibilidade e entrega emocional, psicologica, afectiva e espiritual, interiorizacao, introspeccao, experimentacao, burilacao, depuracao, reflexao e abstracao, enfim, de recato, contencao, contemplacao e auto-superacao:

-- a poesia nao se move pelos caminhos invios, tortuosos e lamacentos da raiva (bem ou mal contida), da inveja, do odio, do ciume, do despeito, da hipocrisia, da rivalidade, do mimetismo, do plagiarismo, da disputa, do despique, da contenda, da competicao, do regateio, da zaragata, do trungunguismo, do ressaibo, do recalcamento, do rancor, da vinganca, do revanchismo, do oportunismo, do racismo, do elitismo, ou do exclusivismo;

-- a poesia nao e’ um lugar previligiado de “mainstreams”... e’, muito mais, um lugar primacial de “undercurrents”...;

-- a poesia nao e’ o "devido lugar" da “oposicao” nem da “situacao”: e’, muito mais, o lugar da “rectidao”... (por isso falava aqui, com justificado desdem, de uns certos "poetas 'revolucionarios' e 'lucidos' da situacao", que, ademais, sempre orbitaram nos circulos do poder ao mais alto nivel como seus "conselheiros", "advisers" ou "cortesa(o)s"!...);

-- a poesia nao e’ o lugar natural do “material”... e’, muito mais, o lugar matricial do “espiritual”, do “infinito” e do “sonho”, mesmo quando mesclado com o "pesadelo"...;

-- a poesia nao se presta a comodificacao, a coisificacao, a objectificacao, a plastificacao ou ao artificialismo, nem ao espectaculo ostentatorio, imediatista, bacoco, exibicionista, mediatico, competitivo e barulhento - enfatizemos: embora essas duas figuras possam porventura coincidir em alguns (raros) casos, ser poeta (ou poetisa, como certamente preferem apesar disto...) nao significa ser "declamador/a"!

-- a poesia exige honestidade e respeito – e para tal requer auto-respeito: mesmo quando, como aqui, aqui, ou aqui, lhe da’ para responder ao "call of the wild", "perder as estribeiras" e “gritar”, “espernear” e “explodir”, em geito de hiphop, aparentemente em todas as direccoes, e fazer “tabua rasa” e “terra queimada” de todas as normas estilisticas da dita “poesia convencional”... apenas para melhor trazer "uma certa verdade nua e crua", ainda que apenas parcial e relativa, ao de cima: e' que a "poesia pura e dura" nao se da' la' muito bem com a "mentira"!... E nisso consiste um dos atributos essenciais que a devem caracterizar, a par da "integridade": a "autenticidade"!

-- a poesia e' um pouco como a "Mulher" de Vinicius de Moraes: "tem que ter qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade"!... Ao que eu acrescentaria: tem que ter ALMA!

ii) Quem se pretende "antologiador/a" ou "critico/a literario" deve adoptar como seu principio "etico-deontologico" fundamental primar pelo maximo rigor e objectividade possiveis na avaliacao das obras sobre as quais se debruca - quando tal lhe for "absolutamente impossivel" por "conflitos politico-ideologicos", "incompatibilidades pessoais e/ou de interesses", ou por qualquer outra razao, deve, moral e profissionalmente, abster-se de o fazer;

iii) Quem se pretende “promotor da literatura e do habito da leitura”, tem que, no minimo, ser capaz de demonstrar que cultiva tal habito desde muito cedo na vida – ou, caso por qualquer infortunio nao o tenha podido fazer desde a infancia, que o faz consistente e humildemente desde que lhe foi possivel comecar a cultivar tal habito (... mais vale tarde do que nunca!...), para que a certa altura possa, confidentemente:

-- discorrer com alguma congruencia e credibilidade sobre os livros, autores ou correntes literarias que mais o/a influenciaram ou marcaram na vida e, talvez mais importante do que isso, ser capaz de demonstrar os seus habitos de leitura atraves da qualidade da sua escrita (... mesmo que, como eu, ainda continue a dar alguns “pontapes” na lingua de Camoes e, ja’ agora, tambem na de Shakespeare...) – e’ que “qualidade” nem sempre significa necessariamente “perfeicao” (ou, dito de outro modo, “o optimo pode ser inimigo do bom”...), especialmene quando se “recebeu” a lingua em que se expressa em “segunda” ou “terceira” mao...

Tendo dito isso, convira’ nao perder de vista que “qualidade”, especialmente em poesia, nao se resume a “estetica formal”, mas (… e antes que me esqueca, aproveito para chamar a atencao de alguns dos ‘destinatarios’ desta mukanda para a diferenca entre ‘mas’ e ‘mais’ – que, propositadamente, nao vou aqui explicar, deixando-o como um, ha’ muito atrasado(!), “trabalho de casa”...) ‘cava mais fundo’ nos labirintos da “criacao literaria” ate' chegar 'a profundidade da “etica humanistica” (... a nao ser confundida com o estranho, suspeito, escorregadio e perigoso conceito de “etico-ideologico” recentemente introduzido no “nosso imaginario criativo” por uma certa “douta literato-cientifica e catedratica, tambem 'mae da negritude branca lusofona pos-colonial'” - ... la' dizia Chomsky: "O papel historico dos intelectuais, se olharmos tao longe quanto pudermos no passado, infelizmente tem sido o de apoiar os sistemas de poder e justificar as suas atrocidades"!) ... e aqui atrevo-me a sugerir, "sabendo bem o que me espera!", que tera' sido uma certa "etica ideologica", legitimadora de uma certa "violencia revolucionaria", que tera' permitido que "medidas de caracter profilatico" como o 27 de Maio de ma' memoria acontecessem sob a presidencia e o "olhar silencioso" de um poeta como Agostinho Neto... enquanto, a contrario, tera' sido uma certa "etica humanistica", historicamente percussora dos contemporaneos "movimentos civicos anti-totalitarios" que tera' levado um poeta como Vaclav Havel a fazer o percurso que fez!...), onde, by the way, “criar” tambem se faz, e sobretudo (!), “com os olhos molhados” ... [*]

Igualmente a nao perder de vista deve ser o entendimento de que, embora a "massificacao cultural" nao seja de todo um objectivo objeccionavel, ha' que ser-se criterioso nos meios para se a obter, porque um facto incontornavel e' que: se e' certo que, ocasionalmente, da quantidade pode brotar "cumulativamente" qualidade, the fact remains that os dois conceitos nao se equivalem... Ou, dito de outro modo, "25 poemas + 1" nao sao necessariamente "melhores" do que "25 poemas"!

Para se revelarem "socialmente uteis", a poesia, a literatura e a arte em geral, nao teem que preterir a "essencia" em favor da "efervescencia"... ou a "coerencia" em favor da "aparencia"... ou a "consciencia" em favor da "displicencia"!...

Os livros que, ao longo da Historia da Literatura - que nao inclui apenas "best sellers"... -, alcancaram "sucesso", nao o obtiveram apenas pela sua "promocao" ou "marketing" atraves de t-shirts ou pelo seu volume de vendas, nem pelos seus autores terem feito cursos de "creative writing" directamente ou pela internet... mas pela "dimensao" ("medida" nao apenas pelo numero de paginas...), "profundidade", "criatividade", "originalidade" e "relevancia" do seu "conteudo"!...


iv) Quem se pretende “porta-estandarte” da arte, deve pelo menos saber minimamente o que e’ a arte, senao num sentido estritamente academico e super-sofisticado ou elitista, pelo menos num sentido vivencial e existencial. Ou seja:

-- deve, pelo menos, procurar ter algum contacto, directo ou indirecto, com os artistas, os processos criativos e os produtos artisticos para os poder perceber e apreciar;

-- deve, pelo menos, cultivar o habito de frequentar ateliers de arte e exposicoes artisticas e ir, sempre que possivel, a museus e galerias de arte, dentro ou fora do pais, para sobre a arte poder discernir e ser capaz de a avaliar ou criticar;

-- deve tambem expor o mais possivel os seus sentidos a um leque diversificado de manifestacoes artisticas, populares e/ou eruditas, desde a musica, a danca, ao teatro e ao cinema, para melhor e mais criteriosa e conscientemente as poder fruir, recomendar, praticar, replicar ou emular;

-- e deve fazer tudo isso sem deixar de estar de olhos e "pulsoes" abertos aos estimulos da natureza, da sociedade e do mundo que o rodeia, local e globalmente;


v) Quem se pretende "critico musical", seja de que genero for, deve, no minimo, ter alguma formacao formal em musica;


vi) Quem pertenca as “novas geracoes” (sejam elas economicas, profissionais, academicas, politicas, jornalisticas, culturais, artisticas, literarias, ou outras) deve tentar, o mais possivel, nao deixar de respeitar os “mais velhos” – os que vieram antes de nos, que nos permitiram ser quem somos e nos abriram ou mostraram “um qualquer caminho”, mesmo que “nos tenha dado” para seguir outro completamente diferente...
E por "respeito" - que, em qualquer caso, quanto a mim e' apenas "devido" na exacta medida em que tais "mais velhos" se saibam fazer respeitar! - nao pretendo significar apenas "reverencia" cega e menos ainda "subserviencia" acritica (pois que tal postura seria intrinsecamente "reaccionaria" porque impeditiva da "mudanca de geracoes" e da "evolucao" - mesmo que apenas "na continuidade"...), mas sobretudo "reconhecimento":

-- no que me diz pessoalmente respeito e em relacao a minha “vida literaria”, por 'incipiente' que seja e embora ate' agora ela nao me tenha trazido muito mais do que dissabores e inimigos, nao posso deixar de estar eternamente grata a Manuel Rui Monteiro, Luandino Vieira, Costa Andrade "Ndunduma", Ruy Duarte de Carvalho e Aires de Almeida Santos, por terem “insuflado vida” (ainda que "precaria"), e alguns deles “de olhos vendados”, ao que, de outro modo, muito provavelmente nao teria passado de um “nado morto”, um “festim para vulto/as esquizofrenico/as e pornografo/as” e racistas de todas as latitudes, um “repasto para sordido/as fantasistas e lugubres pervertido/as” e invejosos de todas as especies e (baixos) coturnos, ou um livro de receitas para “kuribotices de velhotas, velhacas, bruacas e ressabiadas mulherzinhas de domingo”!...

A esses nomes gostaria de acrescentar, embora por razoes diferentes, mas relacionadas, um outro: o de Artur Pestana "Pepetela" - por um daqueles "nadas" que, em certas circunstancias, podem significar "tudo". Conto:
Uma vez, pouco depois do lancamento do meu livro, durante um jantar em casa do entao Adido Cultural da Embaixada de Portugal em Angola, Armando Marques Guedes, em que uma das convivas era a Sra. Professora, a dada altura o anfitriao referiu-se a mim como uma "intelectual", ao que a Sra. Professora imediatamente lhe retorquiu desdenhosamente: "... intelectual, intelectual... eu digo-lhe quem sao os intelectuais angolanos - um dia destes faco-lhe uma lista"!... Bom, aquilo foi, obviamente, o suficiente para me "calar" para o resto do jantar - mesmo porque aprendi de pequena que nao se deve falar enquanto se come... Mas, as tantas, como que a tentar "provar a sua tese", ela vira-se para mim e diz, com a sua irrepressivel agressividade: "Entao? Estas muito calada! Nao dizes nada porque?!"... E antes que eu lhe pudesse responder o que quer que seja, o Pepetela (a.k.a. "o mais elevado dos espiritas"), muito sensivel, serena e civilizadamente, disse-lhe algo como: "Mas sao assim mesmo os poetas, muito mais silenciosos, introspectivos e observadores do que faladores"... E so' por isso, tambem lhe fiquei eternamente grata!

E, ja' agora, essa memoria leva-me aonde tudo comecou: foi durante um convivio com um grupo de artistas brasileiros em Luanda, durante o qual me vi envolvida numa animada conversa sobre 'cultura' - ja' nao me lembro exactamente qual era o tema especifico. 'As tantas, um dos meus interlocutores diz-me isto: "Poxa, voce fala como uma professora da Sorbonne!... Voce esta' me fazendo sentir como "o po' do coco' do cavalo do bandido!" Bom, depois das inevitaveis gargalhadas, o Manuel Rui Monteiro, que eu conhecera alguns anos antes na Faculdade de Letras do Lubango e que estava sentado ao meu lado, disse-me que "queria ver o que eu escrevia"... Perguntei-lhe "como e' que ele sabia que eu escrevia", ao que ele: "escreve, escreve de certeza... va' la', mostre-me que eu quero ver". E, assim, alguns dias depois mostrei-lhe alguns dos meus poemas... e foi assim que este 'pesadelo' que estou com ele ate' hoje comecou!...

E, ja’ agora, por falar na Faculdade de Letras do Lubango, impoe-se-me a mencao de um outro nome: o de Arlindo Barbeitos, que la’ foi meu professor de Historia de Africa. Todavia, por razoes que prefiro nao pormenorizar aqui - sobretudo para que nao sejam confundidas com outras questoes que marcaram de forma polemica a sua docencia naquela faculdade e com as quais nada tive a ver -, o nosso relacionamento professor-aluna foi tudo menos “facil”, para dizer o minimo… De tal maneira que acabei sendo, efectivamente, muito mais aluna de um outro professor daquela disciplina, de origem Bakongo, a quem peco aqui as minhas sinceras desculpas por me ter esquecido do seu nome.
Porem, Barbeitos continuou sendo o regente da cadeira e responsavel por todos os testes e avaliacoes de todos os alunos, incluindo os do outro professor. Entao, apenas para abreviar a historia, no teste final ele deu-me a mais alta classificacao e como eu nao ia as aulas dele, mandou-me chamar. Quando la’ fui, ele pediu-me que me levantasse e fez-me um grande elogio perante todos os alunos, exaltando a minha “inteligencia” e o conhecimento demonstrados atraves da qualidade da minha participacao nas aulas e naquele e noutros testes que eu tinha prestado durante o ano que frequentei naquela faculdade.
Assim, onde antes so’ havia “gelo” passou a haver algum calor humano, amizade e respeito mutuo… De tal maneira que, quando alguns anos depois nos cruzamos pela primeira vez numa rua de Luanda, foi ele que me reconheceu do outro lado da rua, chamou-me e fez-me uma grande festa!
Anos mais tarde, quando ja’ me encontrava a estudar em Lisboa, recebi de uma editora italiana um postal dizendo que lhes tinha sido recomendada pelo Arlindo Barbeitos e que estavam interessados em publicar os meus poemas. Mas, infelizmente, por razoes que aqui se podem descortinar, naquela altura eu queria tudo "menos falar, ou ouvir falar, dos meus poemas", pelo que preferi nao prosseguir aquele contacto.
Mas aqui deixo os meus agradecimentos ao professor, historiador, escritor e poeta Arlindo Barbeitos, autor de "Angola, Angole, Angolema".

And last, but by no means least, o meu agradecimento a minha Professora de Portugues no Liceu Feminino de Luanda, Maria Luisa Dolbeth e Costa.


vii) Quem se considera "intelectual", deve pelo menos evidenciar algumas das caracteristicas delineadas nas definicoes aqui apresentadas.


Finalmente, mas nao menos importante:

viii) Quem se pretende “moderna, progressista e democraticamente inserido no actual mundo competitivo” em que vivemos, local e globalmente, tem que ser efectivamente capaz de “competir honestamente” em "mercado aberto" e em "pe de igualdade", seja no mercado de trabalho, seja noutras esferas da vida economica, social, politica, academica ou cultural, e de "vencer" por "merito proprio". Ou seja:

-- nao se pode, pura e simplesmente, valer do nome, da cor da pele, do dinheiro, das casas, dos carros e outros bens materiais ou imateriais, ou das portas que lhe foram abertas pelos seus pais, ou outros familiares ou amigos, numa determinada empresa ou circulo cultural, economico, politico ou social e considerar-se por isso tao ou mais “lutador”, "capaz", “merecedor”, “bem sucedido” ou “vencedor” do que outros, da sua ou de outras geracoes, que nunca beneficiaram de tais “herancas”, previlegios, facilidades, vantagens e oportunidades!...

Caso os preceitos (ou, se se preferir, “valores e principios”) acima enunciados nao sejam observados, minima ou parcialmente que seja, e aqui diria por “todas as geracoes” (!), por mais “ginwinos” e “bem intencionados” que sejam os seus esforcos e iniciativas, correrao sempre o risco de ser retratados e catalogados como “aqueles que venhem do Roque Santeiro para as escadarias da UEA apenas em busca de ascensao social” (!), como o fez numa outra ocasiao o autor do artigo que me serviu de mote a estas “mukandas”...

Eu di-lo-ia de outro modo: ainda que nao venham do "Roque Santeiro", nem estejam apenas em busca de "ascensao social" [poderao, por exemplo, vir de Viana, da Vila Alice, do Kinaxixe, do Bairro Popular, da Maianga, ou mesmo do Alvalade, da Marginal, do 'Quartier Latin' ou do Bairro Alto, para as escadarias e quintais  da permissiva e promiscua "comuna 'libertinaria' neoliberal" da Cidade Alta em busca de "proximidade ao poder" e do "menos congestionado" trafico de influencias e de "fontes de informacao" para os "novos jornais" da praca, e.g. sobre "partes da historia do MPLA", que esse lugar proporciona, ou, especialmente no caso dos "rapazes" e "raparigas" que nunca tiveram forca suficiente para pegarem numa catana ou numa enxada para sairem do conforto das ruas asfaltadas da capital e irem para o campo contribuir para a "resolucao dos problemas do povo", ou a coragem necessaria para pegarem em armas e irem para uma frente de combate defender os "seus ideais", a ilusao de que (tambem) o fizeram... - o que tambem nao e' mais do que buscar "ascensao social" ... o que quer que isso seja ...], continuarao eternamente, ou pelo menos por muito tempo, sem passar das "escadarias da UEA", mesmo que nela consigam entrar e sentar-se, sob o signo dos seus neofitos '7 egos', 'aquela mesa central com o poema "Criar" de Agostinho Neto no background!... E isto servira' especialmente aos que para la' entram com certo tipo de "declaracoes acintosas" como as aqui descritas!...

Em suma, como aqui afirmava ha’ dias, e embora ninguem se possa reclamar “perfeito”, especialmente quando as suas "medidas de caracter profilatico" (ou "pornografico"?) especialmente formuladas para "as classes mais baixas", resultam em casos como este, e muito particularmente numa “sociedade doente” como a Angolana:
e’ tudo uma questao de INTEGRIDADE MORAL, HONESTIDADE INTELECTUAL, EDUCACAO E CARACTER!




[*]

P.S.


Apenas dois exemplos de “etica ideologica” em accao:

1. Jose’ Agostinho, dirigente da JMPLA e musico dos primordios da Dipanda, cantou uma cancao com esta letra:

(…)
E’ preciso fazer a guerra
Para acabar com a guerra
E’ bom ver disparar
E disparar tambem
E’ bom ver morrer
E’ bom quase morrer
Para melhor compreender
E perceber
Que e’ preciso fazer a guerra
Para acabar com a guerra

(…)

2. As criancas da OPA (Organizacao dos Pioneiros Angolanos), com idades compreendidas entre os 5/6 e 12/13 anos, no mesmo periodo cantavam uma cancao que rezava assim:

(…)
Eu vou morrer em Angola
Com armas de guerra na mao
Granada sera’ meu caixao
Enterro sera’ na patrulha

(…)

- Ora, dir-se-ha’ que, em ambos os casos, se tratavam de “normais” cancoes de guerra – nada inedito, extraordinario, nem “eticamente reprovavel”: afinal, todas as guerras acabam por criar os seus proprios “cancioneiros” auto-justificativos. E, dependendo de quem justifica a guerra pos-independencia e com que pressupostos ideologicos o faz, dir-se-ha’ ate’ que a cancao de Jose’ Agostinho acabou, a posteriori por ser “vindicada” pelo desfecho que aquela guerra teve faz agora 10 anos!...

Portanto, ate’ ai, podera’ dizer-se que, do ponto de vista ideologico, “ta’ tudo bem”!...

Mas, e’ do ponto de vista humanistico que comecam os problemas:

- Sera’, antes de mais, a guerra, qualquer guerra, em si mesma “eticamente justificavel” em todas as circunstancias?
- Em ambos os casos, tratavam-se de cancoes destinadas a “condicionar psicologicamente” as criancas e os jovens para a aceitacao da e a participacao na guerra. E, sendo certo que longe estavam ainda os tempos das actuais campanhas internacionais contra o uso de “criancas soldado” em qualquer guerra, nao era a cancao da OPA contraria aos principios da Declaracao Universal dos Direitos da Crianca ja’ entao internacionalmente consagrados e desenvolvidos ao longo das decadas?

Essas apenas duas das questoes fundamentais que, numa primeira abordagem, apelam ao conceito de “etica humanistica” como moralmente superior ao de “etica ideologica”.

Mas, passada essa primeira abordagem, o terreno escorragadio em que se move a “etica ideologica”, veio a revelar-se ainda mais perturbador em ambos os casos:

- Jose’ Agostinho acabou por ser executado pouco depois da Dipanda, na orgia de “violencia revolucionaria” que se seguiu ao 27 de Maio de 1977… e aqui nao poso deixar de me “espantar”, mais uma vez, com a minha “ingenuidade” em relacao aos acontecimentos e personagens a volta daquela tragedia: so’ muito recentemente me foi confirmado que esse foi efectivamente o seu destino, porque naqueles dias disseram-nos, a alguns de nos entao militantes da Jota (... ou seria da "Mocidade Portuguesa"?...), que ele tinha morrido de “uma indigestao causada por uns camaroes improprios para consumo que tinha comido”… e eu sempre acreditei nisso… ate’ muito recentemente!...

- Do “destino” de muitos pioneiros da OPA, e especialmente daqueles que realmente andaram de armas na mao (verdadeiras ou de pau) e muitos dos quais foram servir de "carne para canhao" nas frentes de combate, talvez o caso mais paradigmatico seja o do “menino da bandeira”, Diniz Kanhanga, aqui relatado!... Enquanto outros, como este, viriam a ser vitimados por certas "medidas artisticas de caracter profilatico" (ou "pornografico")?!...

Enfim, em ambos os casos estamos perante facetas e simbolos da historia de duas geracoes ("de idiotas"?) kruxifikadas pela "violencia revolucionaria" de uma certa "etica ideologica"...

Enfim, em ambos os casos estamos perante facetas da historia de duas geracoes ("de idiotas"?) kruxifikadas pelas "medidas de caracter profilatico" de uma certa "etica ideologica"...

E isso para falar apenas de dois exemplos da “etica ideologica” aplicada ao “nosso contexto”, porque poderiamos discuti-la mais alargadamente nos contextos da ideologia Nazi, ou da Stalinista, ou ainda da que (qualquer que seja a designacao que se lhe de) subjaz as mais recentes guerras do Iraque e Afeganistao… so’ para citar esses “exemplos maiores”!...




ADENDA


“... que alguem lhes conte uma historia, umazinha so’…”


Pois, noblesse et sagesse oblige, conto:


“A Minha Amiga”






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Monday, 4 October 2010

Nao se pode tapar o sol com a peneira…



Pores (e nasceres) do sol em Africa.

Sim, eles existem. Nas mais diversas configuracoes e declinacoes.
E sao infinitamente belos. E saborosamente degustaveis – que nem fruta de vontade.

Africa nao e’ a unica latitude do universo em que eles ocorrem. Mas e’, seguramente, aquela em que adquirem uma beleza e profundidade que outras latitudes dificilmente serao capazes de lhe conferir…

Porque e’ o unico momento que podemos fruir de costas para a “ugly Africa”… de costas para tudo e todos (de costas, para dar mais prazer) … sem termos que pagar gazoza, nem fazer kilapies.
E’ o unico momento que quem entende nao apenas da motricidade dos corpos sem alma e dos negocios privados de companhias monopolistas de danca dita contemporanea, mas tambem, e sobretudo, de poesia e da estetica da alma - e que aprendeu desde muito cedo, sem premios nem patrocinios, mais do que a ler ou escrever livros lentamente, a decifrar as suas mensagens, interpreta-las e questiona-las - e’ capaz de viver e valorizar na sua plenitude.

E’ tambem o momento que nos ensina o significado indizivel de paz, tranquilidade e liberdade e que melhor nos propicia o encontrar do valor e significado das incognitas das varias equacoes da luta contra a pobreza e o subdesenvolvimento em Africa… algo com que ninfas ociosas que chafurdam e se deleitam sadisticamente nas/com as imagens da “ugly Africa” just for the sex and the racism of it, jamais terao que se confrontar: e’ que a “ugly Africa” nao vive nos saloes de ballet classico europeu desde os oito anos de idade… e’ que os saloes de ballet classico europeu nao ensinam a analisar e a explicar, muito menos resolver, a “ugly Africa”… e’ que resolver a “ugly Africa” nao se resume a bacocas receitas de perfumes e emagrecimentos para conformar racistamente o seu corpo de gorda tosca, mas nao a de Puccini, a supremacia da evolucao anorexica e bulimica do das venus(es) brancas europeias…

E’ que a “ugly Africa” e’ negra!
[... e' uma pobre e insignificante criatura rejeitada... tem cicatrizes nos pes de andar a trabalhar patrioticamente a terra enquanto as ballerinas prima donnas andavam ociosamente nos cavalos... come funge kom todos com muito gosto... ocasionalmente ouve e danca kuduro kom xidi... e' mae solteira... tem bebe' em cima da arvore... frequentemente apenas tem x-10 para sobreviver sem dignidade... e' kitandeira e zungueira e, possivelmente, diva da zunga internacional... vai a Muxima confidenciar com a Sant'Ana, toma banho de chuva e de rio e por vezes, segundo alguns, pode "cheirar mal", cria blogs que ressuscitam do dia para a noite companhias de danca privadas de ninfas-ballerinas classicas europeias e alimentam colunas de jornais durante anos a fio, ajudando a encher bolsos de uma horda de parasitas cavilosos sem quaisquer escrupulos, imaginacao, ou outra ocupacao, e ... de tanto apanhar se habitua!]

E… nao se pode tapar o sol com a peneira!
[... suja da "ugly Africa"... mesmo se ostentada por "finas, perfumadas e elegantes" maos de ninfas brancas neo-nazis, monstruosas e put(r)ificadas ao teclado de um computador bem longe da "ugly Africa"...]

E’… os pores (e nasceres) do sol, tal como o cheiro da terra molhada depois da chuva em Africa, sao para se ver, sentir e viver… e quem nunca o fez… tem serios problemas do espirito ... por isso depende tao completamente de vulturar a "ugly Africa" e a "sua" mascara da (negra) Pwo!



*****


Mas...

Se quizerem mesmo ver a "ugly Afrika", eu tambem ja' dei!
Entre outros lugares, por exemplo, aki e, sobretudo, aki!...

E, ja' agora, se quizerem mesmo saber qual o "lugar do kuduro" neste blog, espreitem aki, aki, aki, aki, aki, aki...

E... a quem, apesar disto, disto, disto, disto e disto, continua a desconseguir de perceber a diferenca entre jornalismo e bloguismo, sugiro a leitura desta materia (nao precisa sequer de ler o artigo, basta olhar para o titulo - caso entenda Ingles)!


P.S.:

Odile & Odette

A CONFISSAO!...

J'Accuse!



Pores (e nasceres) do sol em Africa.

Sim, eles existem. Nas mais diversas configuracoes e declinacoes.
E sao infinitamente belos. E saborosamente degustaveis – que nem fruta de vontade.

Africa nao e’ a unica latitude do universo em que eles ocorrem. Mas e’, seguramente, aquela em que adquirem uma beleza e profundidade que outras latitudes dificilmente serao capazes de lhe conferir…

Porque e’ o unico momento que podemos fruir de costas para a “ugly Africa”… de costas para tudo e todos (de costas, para dar mais prazer) … sem termos que pagar gazoza, nem fazer kilapies.
E’ o unico momento que quem entende nao apenas da motricidade dos corpos sem alma e dos negocios privados de companhias monopolistas de danca dita contemporanea, mas tambem, e sobretudo, de poesia e da estetica da alma - e que aprendeu desde muito cedo, sem premios nem patrocinios, mais do que a ler ou escrever livros lentamente, a decifrar as suas mensagens, interpreta-las e questiona-las - e’ capaz de viver e valorizar na sua plenitude.

E’ tambem o momento que nos ensina o significado indizivel de paz, tranquilidade e liberdade e que melhor nos propicia o encontrar do valor e significado das incognitas das varias equacoes da luta contra a pobreza e o subdesenvolvimento em Africa… algo com que ninfas ociosas que chafurdam e se deleitam sadisticamente nas/com as imagens da “ugly Africa” just for the sex and the racism of it, jamais terao que se confrontar: e’ que a “ugly Africa” nao vive nos saloes de ballet classico europeu desde os oito anos de idade… e’ que os saloes de ballet classico europeu nao ensinam a analisar e a explicar, muito menos resolver, a “ugly Africa”… e’ que resolver a “ugly Africa” nao se resume a bacocas receitas de perfumes e emagrecimentos para conformar racistamente o seu corpo de gorda tosca, mas nao a de Puccini, a supremacia da evolucao anorexica e bulimica do das venus(es) brancas europeias…

E’ que a “ugly Africa” e’ negra!
[... e' uma pobre e insignificante criatura rejeitada... tem cicatrizes nos pes de andar a trabalhar patrioticamente a terra enquanto as ballerinas prima donnas andavam ociosamente nos cavalos... come funge kom todos com muito gosto... ocasionalmente ouve e danca kuduro kom xidi... e' mae solteira... tem bebe' em cima da arvore... frequentemente apenas tem x-10 para sobreviver sem dignidade... e' kitandeira e zungueira e, possivelmente, diva da zunga internacional... vai a Muxima confidenciar com a Sant'Ana, toma banho de chuva e de rio e por vezes, segundo alguns, pode "cheirar mal", cria blogs que ressuscitam do dia para a noite companhias de danca privadas de ninfas-ballerinas classicas europeias e alimentam colunas de jornais durante anos a fio, ajudando a encher bolsos de uma horda de parasitas cavilosos sem quaisquer escrupulos, imaginacao, ou outra ocupacao, e ... de tanto apanhar se habitua!]

E… nao se pode tapar o sol com a peneira!
[... suja da "ugly Africa"... mesmo se ostentada por "finas, perfumadas e elegantes" maos de ninfas brancas neo-nazis, monstruosas e put(r)ificadas ao teclado de um computador bem longe da "ugly Africa"...]

E’… os pores (e nasceres) do sol, tal como o cheiro da terra molhada depois da chuva em Africa, sao para se ver, sentir e viver… e quem nunca o fez… tem serios problemas do espirito ... por isso depende tao completamente de vulturar a "ugly Africa" e a "sua" mascara da (negra) Pwo!



*****


Mas...

Se quizerem mesmo ver a "ugly Afrika", eu tambem ja' dei!
Entre outros lugares, por exemplo, aki e, sobretudo, aki!...

E, ja' agora, se quizerem mesmo saber qual o "lugar do kuduro" neste blog, espreitem aki, aki, aki, aki, aki, aki...

E... a quem, apesar disto, disto, disto, disto e disto, continua a desconseguir de perceber a diferenca entre jornalismo e bloguismo, sugiro a leitura desta materia (nao precisa sequer de ler o artigo, basta olhar para o titulo - caso entenda Ingles)!


P.S.:

Odile & Odette

A CONFISSAO!...

J'Accuse!

Wednesday, 21 July 2010

Dinheiro, dinheiro, para que te quero?...





O titulo desta mukanda poderia bem ser, mais uma vez, "Amizade, amizade, para que te quero?"...

Hoje a amizade e familia sao manobradas pelo contexto, cantava Bonga numa cancao ja' entradota nos anos, mas que se mantem perfeitamente aplicavel a sociedade angolana dos dias de hoje. Yannick Ngombo, o Afroman, tem uma cancao sobre o "amigo" que pede emprestado dinheiro e que depois nao paga, nem quer pagar e ainda se acha afrontado quando o credor lhe cobra... Numa outra cancao, o mesmo Yannick diz: "aqui (Angola) nao vale a pena voce ficar muito simpatico, senao te apanham a pata!..."

Ao que vem isto? Um pouco a proposito de este blog ser, desde o inicio, dedicado a "deitar contas a vida" (aqui gostaria de sugerir fortemente aos interessados a leitura deste post e, muito especialmente, do "amigavel aviso a navegacao" a ele anexo) e de, ironicamente, a experiencia e as 'descobertas' que com ele adquiri me terem forcado (naquilo que referi aqui ha dias como sendo possivelmente um novo ciclo de vida) a repensar todas as minhas perspectivas de futuro e relacoes pessoais, em particular as de amizade e familia - o que tambem passa por algumas "contas de deve e haver".

Nao me proponho aqui estender-me demasiado sobre tudo isso, mas ha' pelo menos uma coisa que se me impoe dizer: sempre pautei a minha vida por assumir plenamente todas as minhas responsabilidades e por seguir, entre outras, estas tres regras de conduta fundamentais: i) nunca me relacionar com quem quer que seja meramente na base do 'status social' ou do interesse material e/ou financeiro; ii) pagar escrupulosamente, e tanto quanto possivel em tempo util, todas as minhas dividas; iii) jamais fazer alarde do que, social, material, financeira, ou de qualquer outro modo, alguem me possa dever - esta, em particular, e' para mim uma regra de ouro que pratico como se de "sigilo bancario" se tratasse e que sempre pensei fosse tambem seguida por "todo o mundo"... ledo engano o meu, como me tenho vindo a dar conta recentemente atraves, entre outras, de mencoes por parte de gente oportunista com quem nunca privei e a quem muito menos devo alguma coisa, a "cuspir nos pratos em que debiquei"!

Uma das facetas mais perturbadoras da vida de dificuldades e carencias de toda a ordem que se vivem na sociedade angolana actual e' que ja' nao ha' principios, valores ou regras de conduta nao subvertidos: tudo e' manipulavel, e em particular a amizade e a familia... e em particular as vias de acesso a 'ascensao social', ao dinheiro e aos bens materiais de toda a ordem! E a manipulacao e' feita tanto pelos orgaos e titulares do poder publico aos mais diversos niveis, quanto pelos amigos e familiares nas mais diversas circunstancias.

E os manipulados sao potencialmente todos os membros da sociedade, mas muito especialmente os mais vulneraveis por uma razao ou por outra, que se veem assim praticamente impossibilitados de viver a sua vida com a estabilidade, dignidade e integridade por que sempre pugnaram e pelas quais sempre se pautaram. Esses sao geralmente, como aqui nota Julianne Malveaux (numa referencia a sociedade americana que pode perfeitamente ser aplicada a sociedade angolana - e aqui faco uma especial chamada de atencao para os preconceitos e estereotipos por detras do facto, por vezes revoltante na forma como se manifesta, de perante uma relacao familiar ou de amizade entre pessoas de cores diferentes, a tendencia ser invariavelmente para o outsider assumir a priori que "quem deve" e' invitavelmente a de "cor mais escura"...), para quem a questao real e' economica, sobre quem tem e quem nao tem, com questoes de raca (e eu acrescentaria 'e de etnia') sempre presentes no background, "aqueles cujas vozes raramente sao ouvidas: 'pais (maes) sozinho(a)s em casa' (e.g. maes solteiras), 'criancas descartaveis' (e.g. por pais irresponsaveis e seus "amigos e familiares") e quem quer que seja cuja cor, status economico ou genero os mantenha sem qualquer poder na sociedade."

Dai a minha devocao a causa do pleno funcionamento e transparencia das instituicoes publicas (a que me refiro, por exemplo, aqui), como forma de libertar os cidadaos (e em particular as cidadas; impondo-se-me aqui uma referencia muito especial a um grupo especialmente vulneravel em qualquer sociedade: os orfaos e viuvas) de relacoes de dependencia ao nivel particular que, talvez mais do que quaisquer outras (sem contudo descurar o papel que certa imprensa tem jogado no meu caso especifico...), tendem verdadeiramente a degradar a condicao humana e a corroer a amizade, a familia e, consequentemente, a sociedade.

E sobre este tema fico-me por aqui, por enquanto, nao deixando porem de reiterar uma afirmacao que ja' antes aqui fiz:

(...) Nao sao, portanto, capazes de perceber que haja gente por esse mundo fora, que no periodo pos-independencia, nunca contou, ou nao contou durante grande parte das suas vidas, com o estado (e, portanto, com o partido da "situacao") a que eles, salvo rarissimas excepcoes, devem praticamente tudo o que sao e teem em Angola e no mundo. E muito menos que gente da minha “geracao R”, como me, myself and I (que, apesar de “menor”, “insignificante” e “rejeitada”, se orgulha de nunca ter "lambido botas" de ninguem e muito menos de alguma vez ter “debicado” em pratos de quem quer que seja e de, quanto muito, ter visto “muito boa gente” debicar no seu prato e depois ingrata, descarada, arrogante e despudoradamete cuspir nele “de cima”, apenas para depois se arrependerem amargamente…), possa “pensar pela sua propria cabeca” e ter a dignidade de expressar imparcialmente opinioes, ou posicionar-se politica e culturalmente, segundo logicas absolutamente nao partidarias ou estatais e que, quando fala em "democracia", “sociedade civil”, “direitos humanos” ou “cidadania”, e’ exactamente disso, e apenas disso, que esta’ a falar!


Post (posterior) relacionado: "A Minha Amiga"


ADENDA

Ha’ certas experiencias da minha vida sobre as quais nunca confidenciei sequer com os meus familiares e amigos mais proximos e que muito menos alguma vez me ocorreu abordar num espaco como este, ainda que a titulo informal e privado, como e’ o caso. Mas o certo e’ que, e esta e’ tambem uma das ‘descobertas’ que me veem sendo reveladas pela experiencia adquirida com este blog, eu tenho sido frequentemente vitima do meu proprio silencio sobre certas questoes. E’ o caso do episodio que a seguir relato.

[Aqui]





O titulo desta mukanda poderia bem ser, mais uma vez, "Amizade, amizade, para que te quero?"...

Hoje a amizade e familia sao manobradas pelo contexto, cantava Bonga numa cancao ja' entradota nos anos, mas que se mantem perfeitamente aplicavel a sociedade angolana dos dias de hoje. Yannick Ngombo, o Afroman, tem uma cancao sobre o "amigo" que pede emprestado dinheiro e que depois nao paga, nem quer pagar e ainda se acha afrontado quando o credor lhe cobra... Numa outra cancao, o mesmo Yannick diz: "aqui (Angola) nao vale a pena voce ficar muito simpatico, senao te apanham a pata!..."

Ao que vem isto? Um pouco a proposito de este blog ser, desde o inicio, dedicado a "deitar contas a vida" (aqui gostaria de sugerir fortemente aos interessados a leitura deste post e, muito especialmente, do "amigavel aviso a navegacao" a ele anexo) e de, ironicamente, a experiencia e as 'descobertas' que com ele adquiri me terem forcado (naquilo que referi aqui ha dias como sendo possivelmente um novo ciclo de vida) a repensar todas as minhas perspectivas de futuro e relacoes pessoais, em particular as de amizade e familia - o que tambem passa por algumas "contas de deve e haver".

Nao me proponho aqui estender-me demasiado sobre tudo isso, mas ha' pelo menos uma coisa que se me impoe dizer: sempre pautei a minha vida por assumir plenamente todas as minhas responsabilidades e por seguir, entre outras, estas tres regras de conduta fundamentais: i) nunca me relacionar com quem quer que seja meramente na base do 'status social' ou do interesse material e/ou financeiro; ii) pagar escrupulosamente, e tanto quanto possivel em tempo util, todas as minhas dividas; iii) jamais fazer alarde do que, social, material, financeira, ou de qualquer outro modo, alguem me possa dever - esta, em particular, e' para mim uma regra de ouro que pratico como se de "sigilo bancario" se tratasse e que sempre pensei fosse tambem seguida por "todo o mundo"... ledo engano o meu, como me tenho vindo a dar conta recentemente atraves, entre outras, de mencoes por parte de gente oportunista com quem nunca privei e a quem muito menos devo alguma coisa, a "cuspir nos pratos em que debiquei"!

Uma das facetas mais perturbadoras da vida de dificuldades e carencias de toda a ordem que se vivem na sociedade angolana actual e' que ja' nao ha' principios, valores ou regras de conduta nao subvertidos: tudo e' manipulavel, e em particular a amizade e a familia... e em particular as vias de acesso a 'ascensao social', ao dinheiro e aos bens materiais de toda a ordem! E a manipulacao e' feita tanto pelos orgaos e titulares do poder publico aos mais diversos niveis, quanto pelos amigos e familiares nas mais diversas circunstancias.

E os manipulados sao potencialmente todos os membros da sociedade, mas muito especialmente os mais vulneraveis por uma razao ou por outra, que se veem assim praticamente impossibilitados de viver a sua vida com a estabilidade, dignidade e integridade por que sempre pugnaram e pelas quais sempre se pautaram. Esses sao geralmente, como aqui nota Julianne Malveaux (numa referencia a sociedade americana que pode perfeitamente ser aplicada a sociedade angolana - e aqui faco uma especial chamada de atencao para os preconceitos e estereotipos por detras do facto, por vezes revoltante na forma como se manifesta, de perante uma relacao familiar ou de amizade entre pessoas de cores diferentes, a tendencia ser invariavelmente para o outsider assumir a priori que "quem deve" e' invitavelmente a de "cor mais escura"...), para quem a questao real e' economica, sobre quem tem e quem nao tem, com questoes de raca (e eu acrescentaria 'e de etnia') sempre presentes no background, "aqueles cujas vozes raramente sao ouvidas: 'pais (maes) sozinho(a)s em casa' (e.g. maes solteiras), 'criancas descartaveis' (e.g. por pais irresponsaveis e seus "amigos e familiares") e quem quer que seja cuja cor, status economico ou genero os mantenha sem qualquer poder na sociedade."

Dai a minha devocao a causa do pleno funcionamento e transparencia das instituicoes publicas (a que me refiro, por exemplo, aqui), como forma de libertar os cidadaos (e em particular as cidadas; impondo-se-me aqui uma referencia muito especial a um grupo especialmente vulneravel em qualquer sociedade: os orfaos e viuvas) de relacoes de dependencia ao nivel particular que, talvez mais do que quaisquer outras (sem contudo descurar o papel que certa imprensa tem jogado no meu caso especifico...), tendem verdadeiramente a degradar a condicao humana e a corroer a amizade, a familia e, consequentemente, a sociedade.

E sobre este tema fico-me por aqui, por enquanto, nao deixando porem de reiterar uma afirmacao que ja' antes aqui fiz:

(...) Nao sao, portanto, capazes de perceber que haja gente por esse mundo fora, que no periodo pos-independencia, nunca contou, ou nao contou durante grande parte das suas vidas, com o estado (e, portanto, com o partido da "situacao") a que eles, salvo rarissimas excepcoes, devem praticamente tudo o que sao e teem em Angola e no mundo. E muito menos que gente da minha “geracao R”, como me, myself and I (que, apesar de “menor”, “insignificante” e “rejeitada”, se orgulha de nunca ter "lambido botas" de ninguem e muito menos de alguma vez ter “debicado” em pratos de quem quer que seja e de, quanto muito, ter visto “muito boa gente” debicar no seu prato e depois ingrata, descarada, arrogante e despudoradamete cuspir nele “de cima”, apenas para depois se arrependerem amargamente…), possa “pensar pela sua propria cabeca” e ter a dignidade de expressar imparcialmente opinioes, ou posicionar-se politica e culturalmente, segundo logicas absolutamente nao partidarias ou estatais e que, quando fala em "democracia", “sociedade civil”, “direitos humanos” ou “cidadania”, e’ exactamente disso, e apenas disso, que esta’ a falar!


Post (posterior) relacionado: "A Minha Amiga"


ADENDA

Ha’ certas experiencias da minha vida sobre as quais nunca confidenciei sequer com os meus familiares e amigos mais proximos e que muito menos alguma vez me ocorreu abordar num espaco como este, ainda que a titulo informal e privado, como e’ o caso. Mas o certo e’ que, e esta e’ tambem uma das ‘descobertas’ que me veem sendo reveladas pela experiencia adquirida com este blog, eu tenho sido frequentemente vitima do meu proprio silencio sobre certas questoes. E’ o caso do episodio que a seguir relato.

[Aqui]

Thursday, 15 July 2010

Personagens (IX)

'A Matilha'

ou

"A Quadrilha dos Nos, os bravos do pelotao de herois que ficamos (... tendo embora quase todos, a conta do estado angolano, propriedades, financas e esquemas de saude 'la' fora', ou vivendo nos exilios dourados a sombra das 'nossas embaixadas', enquanto os verdadeiros herois desapareciam ou eram mutilados em combate, ou "sobreviviam" nas ngundas da stateless diaspora...) "


ou

"O Movimento dos Novissimos e Exclusivissimos Donos de Angola e da Angolanidade"

...

Eh pa'!...


[auto-censurado]





LOOK: o meu mundo e' MUITO MAIOR que o piquinininho, mediocre, neo-colonial, xenofobo, esquizofrenico, autofagico, patrioteiro, exclusivista, segregacionista e racista "circulo restrito" que misogina, venal, pornografica, masturbatoria e embriagadamente desenham a volta do vosso umbigo, yah?!

NAO VOS TENHO RESPEITO NENHUM!


"I've learned that people will forget what you said, people will forget what you did, but people will never forget how you made them feel."
(Maya Angelou)


'A Matilha'

ou

"A Quadrilha dos Nos, os bravos do pelotao de herois que ficamos (... tendo embora quase todos, a conta do estado angolano, propriedades, financas e esquemas de saude 'la' fora', ou vivendo nos exilios dourados a sombra das 'nossas embaixadas', enquanto os verdadeiros herois desapareciam ou eram mutilados em combate, ou "sobreviviam" nas ngundas da stateless diaspora...) "


ou

"O Movimento dos Novissimos e Exclusivissimos Donos de Angola e da Angolanidade"

...

Eh pa'!...


[auto-censurado]





LOOK: o meu mundo e' MUITO MAIOR que o piquinininho, mediocre, neo-colonial, xenofobo, esquizofrenico, autofagico, patrioteiro, exclusivista, segregacionista e racista "circulo restrito" que misogina, venal, pornografica, masturbatoria e embriagadamente desenham a volta do vosso umbigo, yah?!

NAO VOS TENHO RESPEITO NENHUM!


"I've learned that people will forget what you said, people will forget what you did, but people will never forget how you made them feel."
(Maya Angelou)


Saturday, 28 November 2009

“ RESTITUIÇÕES BANTU, VERSÕES ESCANDINAVAS “ (R)*

A PROPÓSITO DA EXPOSIÇÃO (NA GALERIA CELAMAR - ILHA DE LUANDA) DE "SONA, DESENHOS NA AREIA & ESCULTURA DE KIANA"

Por Simão SOUINDOULA
Historiador e Crítico de Arte Angolano

A presente exposição é organizada na sequência das pesquisas que resultaram na publicação da obra “ Sona, Desenhos na areia “ de Unni Skogen e Sonja Skaug e do concurso de artes plásticas, organizado em 2005, do qual derivou um magnífico calendário para 2006; tendo o conjunto desses programas beneficiado do apoio da empresa petrolífera Norueguesa Hydro, por ocasião da celebração do seu centenário. Ela reagrupa, num duo feminino inesperado, as obras de uma das autoras do livro, a Escandinava Skaug e uma das laureadas do concurso, a Bantu Kiana.

Essas duas mãos hábeis recriam, naturalmente, uma e outra, as tradições Angolanas através da geométrica expressão dos famosos pictogramas do nordeste de Angola e exploram igualmente outros temas ligados a natureza, sob outras escritas plásticas.

Este encontro, ilustração do são diálogo que deve ser estabelecido entre as culturas do mundo, é, portanto, caracterizado por uma dupla complementaridade, temática, mas também, técnica. Com efeito, a artista vinda do norte da Europa propõe os seus desenhos e pinturas sobre porcelana enquanto Kiana apresenta as suas surpreendentes esculturas em cimento branco, usando como única tela de fundo as ricas tradições culturais Angolanas.

Reunidas na ilha das sereias, verdadeiras Deusas protectoras da terra dos Axiluanda, cidade das corajosas “kitandeiras “, das pacientes “ kinguilas “ e das tenazes “ zungueiras “, as obras desses dois talentos, provindos de espaços geográficamente tão distantes, contribuirão, sem dúvida, para uma evolução não marginal e identificável da arte contemporânea Angolana e para o reforço, neste domínio, da promoção do conceito de género.

(Os meus agradecimentos a Simão Souindoula por me ter enviado este texto sobre um exemplo tão eloquente de genuína partilha cultural e uma das últimas edições do 'Tantã Cultural', de onde a fotografia foi retirada)


*[First posted 03/03/07]


Post Relacionado:

"Sona, Desenhos na Areia"

"Claude Levi-Strauss Revisitado"

A PROPÓSITO DA EXPOSIÇÃO (NA GALERIA CELAMAR - ILHA DE LUANDA) DE "SONA, DESENHOS NA AREIA & ESCULTURA DE KIANA"

Por Simão SOUINDOULA
Historiador e Crítico de Arte Angolano

A presente exposição é organizada na sequência das pesquisas que resultaram na publicação da obra “ Sona, Desenhos na areia “ de Unni Skogen e Sonja Skaug e do concurso de artes plásticas, organizado em 2005, do qual derivou um magnífico calendário para 2006; tendo o conjunto desses programas beneficiado do apoio da empresa petrolífera Norueguesa Hydro, por ocasião da celebração do seu centenário. Ela reagrupa, num duo feminino inesperado, as obras de uma das autoras do livro, a Escandinava Skaug e uma das laureadas do concurso, a Bantu Kiana.

Essas duas mãos hábeis recriam, naturalmente, uma e outra, as tradições Angolanas através da geométrica expressão dos famosos pictogramas do nordeste de Angola e exploram igualmente outros temas ligados a natureza, sob outras escritas plásticas.

Este encontro, ilustração do são diálogo que deve ser estabelecido entre as culturas do mundo, é, portanto, caracterizado por uma dupla complementaridade, temática, mas também, técnica. Com efeito, a artista vinda do norte da Europa propõe os seus desenhos e pinturas sobre porcelana enquanto Kiana apresenta as suas surpreendentes esculturas em cimento branco, usando como única tela de fundo as ricas tradições culturais Angolanas.

Reunidas na ilha das sereias, verdadeiras Deusas protectoras da terra dos Axiluanda, cidade das corajosas “kitandeiras “, das pacientes “ kinguilas “ e das tenazes “ zungueiras “, as obras desses dois talentos, provindos de espaços geográficamente tão distantes, contribuirão, sem dúvida, para uma evolução não marginal e identificável da arte contemporânea Angolana e para o reforço, neste domínio, da promoção do conceito de género.

(Os meus agradecimentos a Simão Souindoula por me ter enviado este texto sobre um exemplo tão eloquente de genuína partilha cultural e uma das últimas edições do 'Tantã Cultural', de onde a fotografia foi retirada)


*[First posted 03/03/07]


Post Relacionado:

"Sona, Desenhos na Areia"

"Claude Levi-Strauss Revisitado"

Thursday, 3 July 2008

NOVA MUKANDA DO "ILUSTRE"

Meu Kamba Kinito;

Já deves estar a me falar mal né? Epá sabes como é a vida aqui está a ficar apertada, e os kumbús cada vez mais coxito. Agora fui mas arranjar uma 2ª dama, uma miúda boa ali do BO e que está a dar cabo da minha cabeça, e do meu bolso (é toda hora dinheiro para pagar Universidade, Escola de Condução, e saldo para o telefone e outros mambos e quê).
Mano a nossa Luanda aqui continua na mesma, só que agora deixou de ser a cidade da Kianda passou a ser “ Noanda” a cidade que não anda! Há umas semanas atrás aqui na zona da Boavista um camião contentorizado avariou e aquilo é que foi um caos, nenhum carro passava, um autêntico engarrafamento. Naquele dia era mesmo “ Angola em Movimento”, uma autêntica maratona todo mundo a apear.

É meu mano a Engarrafobia (horror aos engarrafamentos) uma doença que já esta a tomar conta de Luanda. Longas filas de carros, estradas esburacadas, ruas fechadas tudo mal. S. Tomas que manda nos Transportes no ajuda só uê, kota HC das Obras Públicas deixa ainda um pouco de lado as obras privadas e se preocupa também com as obras públicas, deixa também de rodeios e dos Rodeos e resolve só as makas das estradas meu! Tia Xica de Luanda, você que está com a bola toda, que arrancaste com toda a força (ou é só força do inicio, ou é por causa das eleições), resolve os mambos e pelos menos nos promete: Estradas novas em Setembro.
Por causa destas porcarias dos engarrafamentos, os candengues lá do bairro já chamam o tio Zé Domingos de: “ Man Mbaia”. É porque o kota anda a cortar caminho para fugir os engarrafamentos, por as estradas principais (as chamadas primárias, pois aqui há as secundárias, terciárias e etc.) andam todas congestionadas e ele tem de estar a fugir deles e entrar pelos becos, levando-o a fazer o movimento típico dos taxistas: A Mbaia. Por isso agora nome dele virou Man Mbaia.

Então Kinito até na igreja o engarrafamento é também motivo para te sacar kumbú. Então no outro dia o pastor de uma igreja de nome Universal – Única e Verdadeira Salvação, ou também Unidos Vamos te Enganar e Roubar o teu Salário. Começou já o culto assim (É então angolano mas está a falar tipo é brasileiro, porque lhe disseram que o sotaque brasileiro é melhor quando se trata de enganar o povo):

- «Meu irmão, você que mora ali no Benfica, você que enfrenta engarrafamento todo o dia, você que não tem Jesus na sua vida. Hoje eu tenho uma palavra para você: Jesus vai lhe mostrar o caminho, vai lhe abrir as estradas e acabar com o engarrafamento na sua vida.
Porque esse engarrafamento meu irmão é coisa do Demónio! É o Demónio que não quer que você chegue cedo ao serviço, é o Demónio que provoca o engarrafamento para lhe atrasar a sua vida. Por isso está amarrado o engarrafamento na sua vida! Meu irmão, não pense que o engarrafamento que você enfrenta todo o dia é culpa do Governo, não! Ele é obra do Demónio. Por isso o Pastor Jonas vai impor as mãos, e vocês vão fechar os olhos e depois você vai contribuir com o seu dinheirinho para a campanha de combate ao engarrafamento».

Já viste Kinito, hoje já engarrafamento é coisa do Demónio? Não é mas culpa do Governo, das estradas esburacadas, dos taxistas e etc..? Aqui mesmo ganhar dinheiro é fácil porra pá.

Agora mudando de assunto, me perguntaste como ficou então o inquérito sobre a derrocada da DNIC? Tens razão desde o dia 29 de Março que o prédio desabou e até agora nada né? Já está quase a fazer 90 dias. Olha os candengues aqui da banda até já se anteciparam aos inspectores e apresentaram 3 propostas para o resultado dos inquéritos:

1ª Proposta (apresentada pelo dengue Netinho Kiolho) cujo resultado é: DNIC – Devíamos Necessariamente Incriminar o Cerqueira.
2ª Proposta (apresentada pelo dengue Kito Bebucho) cujo resultado é: DNIC – Dom Ngongo Ignora Cidadãos
3º Proposta (apresentada pela Minga do Tio Manuel) cujo resultado é: DNIC – Deixa o Ngongo Inventar Conversas.

Mas a proposta mesmo que ganhou todos os mambos foi a apresentada pelo Zezito Nguimbola, e que reuniu consenso quanto ao resultado final deste inquérito cujo resultados andaram no segredo dos Deuses:

DNIC – Detectamos Negligência e Incompetência Crónica.

Meu Kamba Kinito;

Já deves estar a me falar mal né? Epá sabes como é a vida aqui está a ficar apertada, e os kumbús cada vez mais coxito. Agora fui mas arranjar uma 2ª dama, uma miúda boa ali do BO e que está a dar cabo da minha cabeça, e do meu bolso (é toda hora dinheiro para pagar Universidade, Escola de Condução, e saldo para o telefone e outros mambos e quê).
Mano a nossa Luanda aqui continua na mesma, só que agora deixou de ser a cidade da Kianda passou a ser “ Noanda” a cidade que não anda! Há umas semanas atrás aqui na zona da Boavista um camião contentorizado avariou e aquilo é que foi um caos, nenhum carro passava, um autêntico engarrafamento. Naquele dia era mesmo “ Angola em Movimento”, uma autêntica maratona todo mundo a apear.

É meu mano a Engarrafobia (horror aos engarrafamentos) uma doença que já esta a tomar conta de Luanda. Longas filas de carros, estradas esburacadas, ruas fechadas tudo mal. S. Tomas que manda nos Transportes no ajuda só uê, kota HC das Obras Públicas deixa ainda um pouco de lado as obras privadas e se preocupa também com as obras públicas, deixa também de rodeios e dos Rodeos e resolve só as makas das estradas meu! Tia Xica de Luanda, você que está com a bola toda, que arrancaste com toda a força (ou é só força do inicio, ou é por causa das eleições), resolve os mambos e pelos menos nos promete: Estradas novas em Setembro.
Por causa destas porcarias dos engarrafamentos, os candengues lá do bairro já chamam o tio Zé Domingos de: “ Man Mbaia”. É porque o kota anda a cortar caminho para fugir os engarrafamentos, por as estradas principais (as chamadas primárias, pois aqui há as secundárias, terciárias e etc.) andam todas congestionadas e ele tem de estar a fugir deles e entrar pelos becos, levando-o a fazer o movimento típico dos taxistas: A Mbaia. Por isso agora nome dele virou Man Mbaia.

Então Kinito até na igreja o engarrafamento é também motivo para te sacar kumbú. Então no outro dia o pastor de uma igreja de nome Universal – Única e Verdadeira Salvação, ou também Unidos Vamos te Enganar e Roubar o teu Salário. Começou já o culto assim (É então angolano mas está a falar tipo é brasileiro, porque lhe disseram que o sotaque brasileiro é melhor quando se trata de enganar o povo):

- «Meu irmão, você que mora ali no Benfica, você que enfrenta engarrafamento todo o dia, você que não tem Jesus na sua vida. Hoje eu tenho uma palavra para você: Jesus vai lhe mostrar o caminho, vai lhe abrir as estradas e acabar com o engarrafamento na sua vida.
Porque esse engarrafamento meu irmão é coisa do Demónio! É o Demónio que não quer que você chegue cedo ao serviço, é o Demónio que provoca o engarrafamento para lhe atrasar a sua vida. Por isso está amarrado o engarrafamento na sua vida! Meu irmão, não pense que o engarrafamento que você enfrenta todo o dia é culpa do Governo, não! Ele é obra do Demónio. Por isso o Pastor Jonas vai impor as mãos, e vocês vão fechar os olhos e depois você vai contribuir com o seu dinheirinho para a campanha de combate ao engarrafamento».

Já viste Kinito, hoje já engarrafamento é coisa do Demónio? Não é mas culpa do Governo, das estradas esburacadas, dos taxistas e etc..? Aqui mesmo ganhar dinheiro é fácil porra pá.

Agora mudando de assunto, me perguntaste como ficou então o inquérito sobre a derrocada da DNIC? Tens razão desde o dia 29 de Março que o prédio desabou e até agora nada né? Já está quase a fazer 90 dias. Olha os candengues aqui da banda até já se anteciparam aos inspectores e apresentaram 3 propostas para o resultado dos inquéritos:

1ª Proposta (apresentada pelo dengue Netinho Kiolho) cujo resultado é: DNIC – Devíamos Necessariamente Incriminar o Cerqueira.
2ª Proposta (apresentada pelo dengue Kito Bebucho) cujo resultado é: DNIC – Dom Ngongo Ignora Cidadãos
3º Proposta (apresentada pela Minga do Tio Manuel) cujo resultado é: DNIC – Deixa o Ngongo Inventar Conversas.

Mas a proposta mesmo que ganhou todos os mambos foi a apresentada pelo Zezito Nguimbola, e que reuniu consenso quanto ao resultado final deste inquérito cujo resultados andaram no segredo dos Deuses:

DNIC – Detectamos Negligência e Incompetência Crónica.

Tuesday, 28 August 2007

"Significancias Lusosfericas" et Luanda's (G)Litterati's Top Fives



"SIGNIFICANCIAS LUSOSFERICAS"


"...Combater a pobreza?! Que mal e' que a pobreza fez a alguem para ser combatida?..." (MRM)

"...Eu e' que devia ser beneficiado pela 'accao afirmativa' porque sou parte da minoria..." (MC)

"...Compram arte africana, o que quer que isso seja..." (JEA)

"...O povo nao sabe o que e' bom..." (ACGM)




LUANDA'S (G)LITTERATI TOP-5 PET HATES

1. Substituicao das estatuas das Marias da Fonte e do Blindado pela da Rainha Nzinga (por esta alegadamente nao ter passado de uma "escravocrata" negra)

2. Transformacao do "Palacio/Casa de Escravos de D. Ana Joaquina" (que efectivamente nao passou de uma escravocrata mestica)

3. Registo da raca nos B.I.

4. Qualquer mencao a palavra "identidade"

5. "Complexos de colonizado" - o que quer que isso seja

***

SAME (G)LITTERATI TOP-5 MUCH LOVES

1. Portugal (?)

2. Lusofonia (?)

3. Um certo Brasil (que exclui os seus Movimentos Negros reivindicativos)

4. Uma certa Africa do Sul, em particular Cape Town (que nao inclui as suas Townships)

5. "Pretos descomplexados" - o que quer que isso seja

***

SAME (G)LITTERATI TOP-5 INDIFFERENCES

1. Racismo praticado nos Bancos e outras empresas instaladas em Angola

2. Todas as causas da sociedade civil que nao constem dos seus top-5 pet hates

3. Qualquer abordagem do fenomeno corrupcao que nao se limite a ridicularizacao dos "sinais exteriores de riqueza" dos seus alvos criteriosamente seleccionados

4. A Diaspora Angolana pos-independencia em geral

5. Africa e os Africanos em geral

***

SAME (G)LITTERATI TOP-5 INCOGNITAS

1. Qualquer abordagem socio-economica da relacao raca/classe social

2. Qualquer conceito de "identidade cultural" (incluindo a que os une a volta das mesmas causas)

3. O mundo pos-Guerra Fria

4. Comunidade Negra Norte-Americana (de facto, todas e quaisquer Comunidades Negras)

5. "Pretas complexa(da)s" - o que quer que isso seja

***

GLITTERING CONCLUSION:

Not All That Glitters Is Gold...



"SIGNIFICANCIAS LUSOSFERICAS"


"...Combater a pobreza?! Que mal e' que a pobreza fez a alguem para ser combatida?..." (MRM)

"...Eu e' que devia ser beneficiado pela 'accao afirmativa' porque sou parte da minoria..." (MC)

"...Compram arte africana, o que quer que isso seja..." (JEA)

"...O povo nao sabe o que e' bom..." (ACGM)




LUANDA'S (G)LITTERATI TOP-5 PET HATES

1. Substituicao das estatuas das Marias da Fonte e do Blindado pela da Rainha Nzinga (por esta alegadamente nao ter passado de uma "escravocrata" negra)

2. Transformacao do "Palacio/Casa de Escravos de D. Ana Joaquina" (que efectivamente nao passou de uma escravocrata mestica)

3. Registo da raca nos B.I.

4. Qualquer mencao a palavra "identidade"

5. "Complexos de colonizado" - o que quer que isso seja

***

SAME (G)LITTERATI TOP-5 MUCH LOVES

1. Portugal (?)

2. Lusofonia (?)

3. Um certo Brasil (que exclui os seus Movimentos Negros reivindicativos)

4. Uma certa Africa do Sul, em particular Cape Town (que nao inclui as suas Townships)

5. "Pretos descomplexados" - o que quer que isso seja

***

SAME (G)LITTERATI TOP-5 INDIFFERENCES

1. Racismo praticado nos Bancos e outras empresas instaladas em Angola

2. Todas as causas da sociedade civil que nao constem dos seus top-5 pet hates

3. Qualquer abordagem do fenomeno corrupcao que nao se limite a ridicularizacao dos "sinais exteriores de riqueza" dos seus alvos criteriosamente seleccionados

4. A Diaspora Angolana pos-independencia em geral

5. Africa e os Africanos em geral

***

SAME (G)LITTERATI TOP-5 INCOGNITAS

1. Qualquer abordagem socio-economica da relacao raca/classe social

2. Qualquer conceito de "identidade cultural" (incluindo a que os une a volta das mesmas causas)

3. O mundo pos-Guerra Fria

4. Comunidade Negra Norte-Americana (de facto, todas e quaisquer Comunidades Negras)

5. "Pretas complexa(da)s" - o que quer que isso seja

***

GLITTERING CONCLUSION:

Not All That Glitters Is Gold...

Saturday, 16 June 2007

RECEITA PARA ULTRAPASSAR OS DOMINGOS


Como água dormida de véspera, aqui vos deixo esta receita para amanhã:

“Desce manso à cidade, na hora em que a noite indecisa se embrulha do terceiro pano e de joelhos compõe a cabeleira, retira do rosto os restos de luz e se recolhe tensa das horas por resolver. Não te deixes tentar pelas mãos de cacimbo que, de tão frescas, te poderão recolher, de novo, para o sítio dos sonhos onde as rosas de verdade nos podem explodir no peito.

A noite é enorme e hesita sempre na hora de partir. Os nossos fantasmas, lentos como cobras domésticas, gostam de se plantar – exactamente nesse momento – à beira da nossa condição frágil, rindo e à espera. Toda a gente sabe da sua paciência experimentada. Por isso acorda. Sacode a esteira e enrola-a devagarinho.

(…)

Desce, então, à cidade antes de toda a gente, porque esse é o unico momento em que Luanda se entrega à preguiça e te devolve o rosto, sem pintura, calcinado pelo tempo e ainda assim tão belo, na sua pobreza exposta maltratada pelo sol e pela fome, onde o erosinado casario se estende (a essa hora não parece sofrer de séculos de desorientação e amargura), ainda fechado ao dia, mas já desperto pelo choro de medo das canções de mar e de peixe com que as velhas preparam o caldo do pequeno-almoço. Atenção, estas nunca dormem, parecem ter escapado já à sua condição de dormir e acordar. Esperam, debruçadas na noite, envoltas num longo pano de musgo e capim e entregam aos outros (gente descuidada como tu e como eu) os sonhos que já não são capazes de sonhar.

A nossa cidade anda perdida de si mesma e não é só velhice, é antes um esquecimento que se instalou e a trata mal. Deixou de ser o espaço circular e protector de areia vermelha e súbitas lagoas. A propósito, evita, quando desceres, o Kinaxixi. Não se trata de um problema de sereias, esses seres nem machos nem fêmeas que o habitaram outrora. O problema tem a ver com pássaros que fugiram quase todos e foram inventar silêncio para outros cantos do mundo. Os que ficaram estão enredados nos limos do tempo e fabricam ninhos de seiva, na esperança de não morrerem. Não têm tempo para ti.

Por isso desce e procura as palmeiras. (…) Terás assim que visitar a ilha. Procura os antigos caminhos da água onde ainda podes ver barcos a dormir e demoradas redes postas em descanso por cima da areia. Descobre as marcas dos pés da noite e segue pelas rotas de seda para veres aonde te conduzem. Não digo já, para ser surpresa, e porque língua de coração não se escreve: é oral e perfeita.

(…)

Depois, e de alma lavada, podes voltar para casa. Mistura três colheres de sopa de café arábica (se ainda te sobrou algum do Amboim) com uma de robusta (pode ser de São Tomé) e deita na cafeteira da avó, onde deve já estar a ferver uma água dormida de pelo menos um dia. Acende uma vela branca e bebe até ao fim o café perfumado. Usa uma caneca de esmalte.

Talvez consigas então fechar os olhos, e já não digo dormir, mas entregar-te ao descanso. Os anjos, por essa hora, estão longe e deixaram acesas lamparinas de óleo de palma a marcar os caminhos. A sombra da palmeira maior velará por ti, enquanto deixa fermentar os seus pesados frutos.

É a essa hora que a cidade acorda, quando as mulheres inventam a água e um redemoinho de criancas se espalha respirando fundo a seiva da cidade. Todo o domingo passará por ti sem que o pressintas enquanto, na pá de zinco, alecrim, eucalipto, açucar mascavado e as horas se vão consumir suavemente.”

Extractos de “Receita para ultrapassar os domingos”, in A Cabeça de Salomé (2004), de Ana Paula Tavares.

Ler poema seleccionado de 'Manual para Amantes Desesperados' aqui.


Como água dormida de véspera, aqui vos deixo esta receita para amanhã:

“Desce manso à cidade, na hora em que a noite indecisa se embrulha do terceiro pano e de joelhos compõe a cabeleira, retira do rosto os restos de luz e se recolhe tensa das horas por resolver. Não te deixes tentar pelas mãos de cacimbo que, de tão frescas, te poderão recolher, de novo, para o sítio dos sonhos onde as rosas de verdade nos podem explodir no peito.

A noite é enorme e hesita sempre na hora de partir. Os nossos fantasmas, lentos como cobras domésticas, gostam de se plantar – exactamente nesse momento – à beira da nossa condição frágil, rindo e à espera. Toda a gente sabe da sua paciência experimentada. Por isso acorda. Sacode a esteira e enrola-a devagarinho.

(…)

Desce, então, à cidade antes de toda a gente, porque esse é o unico momento em que Luanda se entrega à preguiça e te devolve o rosto, sem pintura, calcinado pelo tempo e ainda assim tão belo, na sua pobreza exposta maltratada pelo sol e pela fome, onde o erosinado casario se estende (a essa hora não parece sofrer de séculos de desorientação e amargura), ainda fechado ao dia, mas já desperto pelo choro de medo das canções de mar e de peixe com que as velhas preparam o caldo do pequeno-almoço. Atenção, estas nunca dormem, parecem ter escapado já à sua condição de dormir e acordar. Esperam, debruçadas na noite, envoltas num longo pano de musgo e capim e entregam aos outros (gente descuidada como tu e como eu) os sonhos que já não são capazes de sonhar.

A nossa cidade anda perdida de si mesma e não é só velhice, é antes um esquecimento que se instalou e a trata mal. Deixou de ser o espaço circular e protector de areia vermelha e súbitas lagoas. A propósito, evita, quando desceres, o Kinaxixi. Não se trata de um problema de sereias, esses seres nem machos nem fêmeas que o habitaram outrora. O problema tem a ver com pássaros que fugiram quase todos e foram inventar silêncio para outros cantos do mundo. Os que ficaram estão enredados nos limos do tempo e fabricam ninhos de seiva, na esperança de não morrerem. Não têm tempo para ti.

Por isso desce e procura as palmeiras. (…) Terás assim que visitar a ilha. Procura os antigos caminhos da água onde ainda podes ver barcos a dormir e demoradas redes postas em descanso por cima da areia. Descobre as marcas dos pés da noite e segue pelas rotas de seda para veres aonde te conduzem. Não digo já, para ser surpresa, e porque língua de coração não se escreve: é oral e perfeita.

(…)

Depois, e de alma lavada, podes voltar para casa. Mistura três colheres de sopa de café arábica (se ainda te sobrou algum do Amboim) com uma de robusta (pode ser de São Tomé) e deita na cafeteira da avó, onde deve já estar a ferver uma água dormida de pelo menos um dia. Acende uma vela branca e bebe até ao fim o café perfumado. Usa uma caneca de esmalte.

Talvez consigas então fechar os olhos, e já não digo dormir, mas entregar-te ao descanso. Os anjos, por essa hora, estão longe e deixaram acesas lamparinas de óleo de palma a marcar os caminhos. A sombra da palmeira maior velará por ti, enquanto deixa fermentar os seus pesados frutos.

É a essa hora que a cidade acorda, quando as mulheres inventam a água e um redemoinho de criancas se espalha respirando fundo a seiva da cidade. Todo o domingo passará por ti sem que o pressintas enquanto, na pá de zinco, alecrim, eucalipto, açucar mascavado e as horas se vão consumir suavemente.”

Extractos de “Receita para ultrapassar os domingos”, in A Cabeça de Salomé (2004), de Ana Paula Tavares.

Ler poema seleccionado de 'Manual para Amantes Desesperados' aqui.

Monday, 5 March 2007

MARIA HELENA


Da minha querida amiga e "mae adoptiva" Maria Helena Boavida, por quem tenho um grande carinho, admiracao e respeito, recebi ontem o novo link para a sua pagina na Net (Xiboa).
Devo notar que esta foi a primeira website de uma senhora Angolana de que tive conhecimento, ja la' vao alguns anitos. Entretanto ela esteve paralizada por algum tempo, mas foi reactivada recentemente e a Maria Helena vem-na actualizando aos poucos.
Reparei que tem coisas novas... Obrigada Maria Helena!

[Eu e a Maria Helena]

Da minha querida amiga e "mae adoptiva" Maria Helena Boavida, por quem tenho um grande carinho, admiracao e respeito, recebi ontem o novo link para a sua pagina na Net (Xiboa).
Devo notar que esta foi a primeira website de uma senhora Angolana de que tive conhecimento, ja la' vao alguns anitos. Entretanto ela esteve paralizada por algum tempo, mas foi reactivada recentemente e a Maria Helena vem-na actualizando aos poucos.
Reparei que tem coisas novas... Obrigada Maria Helena!

[Eu e a Maria Helena]

Saturday, 3 March 2007

“ RESTITUIÇÕES BANTU, VERSÕES ESCANDINAVAS “

A PROPÓSITO DA EXPOSIÇÃO (NA GALERIA CELAMAR - ILHA DE LUANDA) DE "SONA, DESENHOS NA AREIA & ESCULTURA DE KIANA"

Por Simão SOUINDOULA
Historiador e Crítico de Arte Angolano

A presente exposição é organizada na sequência das pesquisas que resultaram na publicação da obra “ Sona, Desenhos na areia “ de Unni Skogen e Sonja Skaug e do concurso de artes plásticas, organizado em 2005, do qual derivou um magnífico calendário para 2006; tendo o conjunto desses programas beneficiado do apoio da empresa petrolífera Norueguesa Hydro, por ocasião da celebração do seu centenário. Ela reagrupa, num duo feminino inesperado, as obras de uma das autoras do livro, a Escandinava Skaug e uma das laureadas do concurso, a Bantu Kiana.

Essas duas mãos hábeis recriam, naturalmente, uma e outra, as tradições Angolanas através da geométrica expressão dos famosos pictogramas do nordeste de Angola e exploram igualmente outros temas ligados a natureza, sob outras escritas plásticas.

Este encontro, ilustração do são diálogo que deve ser estabelecido entre as culturas do mundo, é, portanto, caracterizado por uma dupla complementaridade, temática, mas também, técnica. Com efeito, a artista vinda do norte da Europa propõe os seus desenhos e pinturas sobre porcelana enquanto Kiana apresenta as suas surpreendentes esculturas em cimento branco, usando como única tela de fundo as ricas tradições culturais Angolanas.

Reunidas na ilha das sereias, verdadeiras Deusas protectoras da terra dos Axiluanda, cidade das corajosas “kitandeiras “, das pacientes “ kinguilas “ e das tenazes “ zungueiras “, as obras desses dois talentos, provindos de espaços geográficamente tão distantes, contribuirão, sem dúvida, para uma evolução não marginal e identificável da arte contemporânea Angolana e para o reforço, neste domínio, da promoção do conceito de género.

(Os meus agradecimentos a Simão Souindoula por me ter enviado este texto sobre um exemplo tão eloquente de genuína partilha cultural e uma das últimas edições do 'Tantã Cultural', de onde a fotografia foi retirada)


***

Post Relacionado:

"Sona, Desenhos na Areia"


A PROPÓSITO DA EXPOSIÇÃO (NA GALERIA CELAMAR - ILHA DE LUANDA) DE "SONA, DESENHOS NA AREIA & ESCULTURA DE KIANA"

Por Simão SOUINDOULA
Historiador e Crítico de Arte Angolano

A presente exposição é organizada na sequência das pesquisas que resultaram na publicação da obra “ Sona, Desenhos na areia “ de Unni Skogen e Sonja Skaug e do concurso de artes plásticas, organizado em 2005, do qual derivou um magnífico calendário para 2006; tendo o conjunto desses programas beneficiado do apoio da empresa petrolífera Norueguesa Hydro, por ocasião da celebração do seu centenário. Ela reagrupa, num duo feminino inesperado, as obras de uma das autoras do livro, a Escandinava Skaug e uma das laureadas do concurso, a Bantu Kiana.

Essas duas mãos hábeis recriam, naturalmente, uma e outra, as tradições Angolanas através da geométrica expressão dos famosos pictogramas do nordeste de Angola e exploram igualmente outros temas ligados a natureza, sob outras escritas plásticas.

Este encontro, ilustração do são diálogo que deve ser estabelecido entre as culturas do mundo, é, portanto, caracterizado por uma dupla complementaridade, temática, mas também, técnica. Com efeito, a artista vinda do norte da Europa propõe os seus desenhos e pinturas sobre porcelana enquanto Kiana apresenta as suas surpreendentes esculturas em cimento branco, usando como única tela de fundo as ricas tradições culturais Angolanas.

Reunidas na ilha das sereias, verdadeiras Deusas protectoras da terra dos Axiluanda, cidade das corajosas “kitandeiras “, das pacientes “ kinguilas “ e das tenazes “ zungueiras “, as obras desses dois talentos, provindos de espaços geográficamente tão distantes, contribuirão, sem dúvida, para uma evolução não marginal e identificável da arte contemporânea Angolana e para o reforço, neste domínio, da promoção do conceito de género.

(Os meus agradecimentos a Simão Souindoula por me ter enviado este texto sobre um exemplo tão eloquente de genuína partilha cultural e uma das últimas edições do 'Tantã Cultural', de onde a fotografia foi retirada)


***

Post Relacionado:

"Sona, Desenhos na Areia"


Monday, 5 February 2007

TRAÇOS DE HERBERTO HELDER EM LUANDA

Nos anos 70 o Herberto vivia em Luanda e trabalhava na revista Noticia, trazido pelo João Fernandes, director e autor da crónica semanal "Chuva e Bom Tempo". Eu próprio, na época tinha uma crónica semanal, "A Descoberta da Ilha", título tirado de um poema do Brasileiro Jorge de Lima.
Conosco um poeta Açoreano, que consta dos anais dos surrealistas Portugueses, o José Sebag. Escrevia-se muito bom Português, naquele tempo no Noticia. E bebia-se melhor. Tinhamos uma sede devastadora.
O José Sebag não resisitiu. Morreu cedo.


Mas vou contar uma história dele:

- O Zé Sebag para ganhar uns tostões até discursos escreveria. Lembro-me de ele ter escrito uma reportagem na linguagem do fotógrafo que cobriu o acontecimento, óptimo fotografo mas incapaz de escrever a história. Ele contou a história ao Zé Sebag e pudemos ler a reportagem como se tivesse sido escrita pelo fotógrafo. Uma pequena maravilha.

- Tinha um gancho na Revista das Pescas, dirigida pela Maria Virginia Aguiar, que lhe entregou a Página literária. A certa altura já havia 2 meses de pagamento da colaboração em atraso e o Zé andava muito nervoso, como sempre sem cheta e cheio de sede.
A Maria Virginia sempre a correr, metida nas habituais complicações. O Zé desesperado.
Ela pede ao Zé Sebag que entregue no último dia, já na tipografia, a página literária pois ela lhe pagaria na próxima semana.

E a Revista das Pescas saiu com Página literária. Em letras garrafais o Zé Sebag tinha escrito: - Página literária ----- Uma Ova.
Fez um sucesso, como se pode imaginar.

O Herberto teve a sorte de encontrar uma Angolana - a Olga que o agarrou até hoje e o mantem no seu isolamento tão profíquo.

(José Alçada, a.k.a. N'Kissi Yangue")

Sobre o Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

POESIA
BIOGRAFIA
Nos anos 70 o Herberto vivia em Luanda e trabalhava na revista Noticia, trazido pelo João Fernandes, director e autor da crónica semanal "Chuva e Bom Tempo". Eu próprio, na época tinha uma crónica semanal, "A Descoberta da Ilha", título tirado de um poema do Brasileiro Jorge de Lima.
Conosco um poeta Açoreano, que consta dos anais dos surrealistas Portugueses, o José Sebag. Escrevia-se muito bom Português, naquele tempo no Noticia. E bebia-se melhor. Tinhamos uma sede devastadora.
O José Sebag não resisitiu. Morreu cedo.


Mas vou contar uma história dele:

- O Zé Sebag para ganhar uns tostões até discursos escreveria. Lembro-me de ele ter escrito uma reportagem na linguagem do fotógrafo que cobriu o acontecimento, óptimo fotografo mas incapaz de escrever a história. Ele contou a história ao Zé Sebag e pudemos ler a reportagem como se tivesse sido escrita pelo fotógrafo. Uma pequena maravilha.

- Tinha um gancho na Revista das Pescas, dirigida pela Maria Virginia Aguiar, que lhe entregou a Página literária. A certa altura já havia 2 meses de pagamento da colaboração em atraso e o Zé andava muito nervoso, como sempre sem cheta e cheio de sede.
A Maria Virginia sempre a correr, metida nas habituais complicações. O Zé desesperado.
Ela pede ao Zé Sebag que entregue no último dia, já na tipografia, a página literária pois ela lhe pagaria na próxima semana.

E a Revista das Pescas saiu com Página literária. Em letras garrafais o Zé Sebag tinha escrito: - Página literária ----- Uma Ova.
Fez um sucesso, como se pode imaginar.

O Herberto teve a sorte de encontrar uma Angolana - a Olga que o agarrou até hoje e o mantem no seu isolamento tão profíquo.

(José Alçada, a.k.a. N'Kissi Yangue")

Sobre o Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.

Herberto Helder

POESIA
BIOGRAFIA

Friday, 2 February 2007

DÉTOURS DE MONDES

Podem ser vistas belíssimas esculturas dos Bakongo e de outras etnias angolanas no blogue Détours de Mondes, mais concretamente nos posts publicados em Novembro e Dezembro. Aquele blogue é um must.

Hoje, um "ciberamigo" recomendou-me um site na Internet que tem imensa música de Angola, Moçambique, Portugal, Argentina, Brasil, Cabo Verde, etc. etc. É um site de um galego, ao que parece, pois todo ele está escrito em galego. Confira e ouça neste endereço, que vale mesmo a pena.

(Amável contribuição de Denudado - Obrigada!)

Picture: Tshokwe Mask, from 'Détours de Mondes'.

Podem ser vistas belíssimas esculturas dos Bakongo e de outras etnias angolanas no blogue Détours de Mondes, mais concretamente nos posts publicados em Novembro e Dezembro. Aquele blogue é um must.

Hoje, um "ciberamigo" recomendou-me um site na Internet que tem imensa música de Angola, Moçambique, Portugal, Argentina, Brasil, Cabo Verde, etc. etc. É um site de um galego, ao que parece, pois todo ele está escrito em galego. Confira e ouça neste endereço, que vale mesmo a pena.

(Amável contribuição de Denudado - Obrigada!)

Picture: Tshokwe Mask, from 'Détours de Mondes'.

Tuesday, 23 January 2007

E' CHUVA!


Pessoa amiga escreveu-me isto hoje: "(...) Tem chovido imenso. Nem imaginas os estragos materiais e humanos que a chuvada fez ontem em Luanda. Foram seis horas de chuva intensa. A cidade está um caos.... a população está a passar mal, casas inundadas, os morros a desabarem, o paludismo a matar...enfim..."

Foto tirada daqui.

Ver imagens mais descritivas na KITANDA e no Ne-Kongo.org

Pessoa amiga escreveu-me isto hoje: "(...) Tem chovido imenso. Nem imaginas os estragos materiais e humanos que a chuvada fez ontem em Luanda. Foram seis horas de chuva intensa. A cidade está um caos.... a população está a passar mal, casas inundadas, os morros a desabarem, o paludismo a matar...enfim..."

Foto tirada daqui.

Ver imagens mais descritivas na KITANDA e no Ne-Kongo.org

Friday, 1 December 2006

Didn't give up yet!
You never fail until you stop trying....


Isto esta muito dificil.... mas...... la chegarei!



Isto esta muito dificil.... mas...... la chegarei!


Thursday, 30 November 2006

In the beginning...

Hi, this is my first posting in my brand new blog...