
Conosco um poeta Açoreano, que consta dos anais dos surrealistas Portugueses, o José Sebag. Escrevia-se muito bom Português, naquele tempo no Noticia. E bebia-se melhor. Tinhamos uma sede devastadora.
O José Sebag não resisitiu. Morreu cedo.
Mas vou contar uma história dele:
- O Zé Sebag para ganhar uns tostões até discursos escreveria. Lembro-me de ele ter escrito uma reportagem na linguagem do fotógrafo que cobriu o acontecimento, óptimo fotografo mas incapaz de escrever a história. Ele contou a história ao Zé Sebag e pudemos ler a reportagem como se tivesse sido escrita pelo fotógrafo. Uma pequena maravilha.
- Tinha um gancho na Revista das Pescas, dirigida pela Maria Virginia Aguiar, que lhe entregou a Página literária. A certa altura já havia 2 meses de pagamento da colaboração em atraso e o Zé andava muito nervoso, como sempre sem cheta e cheio de sede.
A Maria Virginia sempre a correr, metida nas habituais complicações. O Zé desesperado.
Ela pede ao Zé Sebag que entregue no último dia, já na tipografia, a página literária pois ela lhe pagaria na próxima semana.
E a Revista das Pescas saiu com Página literária. Em letras garrafais o Zé Sebag tinha escrito: - Página literária ----- Uma Ova.
Fez um sucesso, como se pode imaginar.
O Herberto teve a sorte de encontrar uma Angolana - a Olga que o agarrou até hoje e o mantem no seu isolamento tão profíquo.
(José Alçada, a.k.a. N'Kissi Yangue")
Sobre o Poema
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder
POESIA
BIOGRAFIA

Conosco um poeta Açoreano, que consta dos anais dos surrealistas Portugueses, o José Sebag. Escrevia-se muito bom Português, naquele tempo no Noticia. E bebia-se melhor. Tinhamos uma sede devastadora.
O José Sebag não resisitiu. Morreu cedo.
Mas vou contar uma história dele:
- O Zé Sebag para ganhar uns tostões até discursos escreveria. Lembro-me de ele ter escrito uma reportagem na linguagem do fotógrafo que cobriu o acontecimento, óptimo fotografo mas incapaz de escrever a história. Ele contou a história ao Zé Sebag e pudemos ler a reportagem como se tivesse sido escrita pelo fotógrafo. Uma pequena maravilha.
- Tinha um gancho na Revista das Pescas, dirigida pela Maria Virginia Aguiar, que lhe entregou a Página literária. A certa altura já havia 2 meses de pagamento da colaboração em atraso e o Zé andava muito nervoso, como sempre sem cheta e cheio de sede.
A Maria Virginia sempre a correr, metida nas habituais complicações. O Zé desesperado.
Ela pede ao Zé Sebag que entregue no último dia, já na tipografia, a página literária pois ela lhe pagaria na próxima semana.
E a Revista das Pescas saiu com Página literária. Em letras garrafais o Zé Sebag tinha escrito: - Página literária ----- Uma Ova.
Fez um sucesso, como se pode imaginar.
O Herberto teve a sorte de encontrar uma Angolana - a Olga que o agarrou até hoje e o mantem no seu isolamento tão profíquo.
(José Alçada, a.k.a. N'Kissi Yangue")
Sobre o Poema
Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.
Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
— a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.
E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.
— Embaixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
— E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
Herberto Helder
POESIA
BIOGRAFIA
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