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Monday, 12 December 2011

Gostei de Ler (?)... [3] - ADENDADO




[in Novo Jornal #203, 09/12/11 - clique na imagem para ler]


… Ora aqui esta’ um artigo, escrito por alguem que julgo pertencer a “minha geracao” (... a menos que tambem ja' seja um "sexagenario"!...), sobre uma “outra geracao” que designa “uma geracao de idiotas”…

Trata-se de alguem, por sinal membro do "circulo restrito" dos conselheiros de JES, de quem nunca fui proxima (de facto, nunca o conheci pessoalmente), mas que, de ha' uns anos para ca', se tornou uma das 'neofitas amizades e afectos' de alguem que, se nao me conhece exactamente desde que nasci, ou desconhece algumas facetas e periodos do meu percurso, por varias razoes que nao venhem agora aqui ao caso, tera' lidado mais de perto comigo em determinadas fases da minha vida, ainda que apenas muito curta e superficialmente, do que a maior parte dos membros da minha (nao muito grande e menos ainda 'poderosa') familia.

Esta pequena introducao vem a proposito de, tal como vem acontecendo com varias coisas que tenho lido na imprensa e na blogosfera angolana, depois da minha primeira leitura desse artigo, me ter sentido algo perturbada e - uma vez que venho sendo alvo, por parte de gente que nem sequer me conhece, ou por gente que considerava "amiga" e alguma da qual, curiosamente, ate' progenitora dalguns dos membros dessa geracao dita de "idiotas", de uma serie de injustificados (e, aparentemente, tao "inexplicaveis" quanto "interminaveis"!) ataques pessoais “out of the blue”, especialmente desde que criei este blog - ate’ possivelmente “visada”...

Mas, numa segunda leitura, realizei que as unicas coisas nele que me poderiam porventura “atingir” seriam talvez as mencoes que faz ao “principalmente fora do pais”, as “costureiras da moda” e aos “doutores que nao acabaram o curso”... So’ que, “fora do pais” ha’ muitos angolanos, pelas mais diversas razoes, em varios paises e continentes, de varias proveniencias e geracoes e de todas as “especies e feitios”; eu nao incluiria a minha mae no grupo das “costureiras da moda” e “doutores que nao acabaram o curso” sei de muitos e certamente entre eles nao me incluo, uma vez que sempre me recusei a ser chamada de “doutora” (... para mim “doutor/a” e’ apenas, excepto nos casos em que o respectivo curso nao o requeira, quem tenha defendido com sucesso uma tese de doutoramento ou equivalente...) e, por “aquele curso” que nao acabei em Portugal (... e quanto mais nao seja por isso, se ha' alguem que vive sob, ou que impoe a alguem a "ditadura da licenciatura" esse alguem certamente nao sou eu!...) – e nunca sera’ demais repeti-lo: por circunstancias absolutamente extraordinarias, alheias a minha vontade, completamente fora do meu controlo e... todas originadas no "nosso querido pais" e provocadas, por accao ou por omissao, pelos mesmos "dedos" que hoje, em riste, me acusam de "ter fugido" do pais(!) e, interestingly enough, alguns deles entre o circulo de amigos do articulista... –, fiz, em ambientes linguisticos e culturais e em circunstancias de vida muito mais dificeis, mais cursos, de nivel mais elevado e exigente e de melhor qualidade, do que muitos dos nossos “doutores”!... E tambem nunca sera' demais repeti-lo: inteiramente 'a minha custa!

And... make no mistake: posso nao saber para onde vou, mas sei, sempre soube bem de onde venho!
E... perante o 'que sei bem que me espera em Luanda, quem me dera poder regressar ao "maqui" dos meus avos!!!

Assim, apos uma terceira leitura, embora tivesse preferido que tal nao fosse o caso, e mesmo correndo o risco de estar enganada (... ou, recorrendo ao "meu velho amigo" Popper, de poder vir a ser "falsificada"...) em qualquer dessas minhas leituras [e aqui nao posso deixar de notar, en passant, que, a meu ver, esse e’ um dos maiores perigos de um certo “jornalismo de opiniao”: dificilmente nos permite saber com exactidao, beyond any reasonable doubt, a que, ou a quem (dois dos 5 'Ws' fundamentais da investigacao jornalistica: What? - O que?; Who? - Quem?; When? - Quando?; Where? - Onde?; Why? - Porque?), o articulista se esta’ a referir em concreto – particularmente quando, como eu, o leitor se encontra fora do contexto local em que o texto e’ produzido – funcionando assim, mais frequentemente do que nao, apenas como pouco mais do que um irresponsavel "fuxico", uma predadora "kuribotice", um insidioso “mujimbo” ou, pior do que isso, como uma letal arma de arremesso, um ofensivo pau de dois bicos ou uma 'indiscriminatoria' mina anti-pessoal e ate', no limite, "anti-familiar" e "anti-social"!...], dei comigo a concordar de alguma maneira com o que afirma e, com os pes bem assentes nos meus ja’ 50 anos + 1 de vida, acrescentar-lhe-ia, tentando responder de algum modo ao seu apelo para que se tomem “medidas de caracter profilatico”, embora o faca com intencoes mais "pedagogicas" do que "profilaticas", algumas "mukandas" especialmente dirigidas a alguns membros da “geracao” em causa, qualquer que ela seja:

i) Embora, por necessaria e devida modestia, me seja dificil ‘atestar’ “o que e’ a poesia”, julgo ter minimamente uma nocao do que ela “nao e’”...
Explico-me:

- Quem se pretende “poeta”, deve ter sensibilidade suficiente (... 'sense and sensibility'...) para perceber que a poesia e’ um lugar, senao de silencio total e absoluto, certamente de “tons menores”: de disponibilidade e entrega emocional, psicologica, afectiva e espiritual, interiorizacao, introspeccao, experimentacao, burilacao, depuracao, reflexao e abstracao, enfim, de recato, contencao, contemplacao e auto-superacao:

-- a poesia nao se move pelos caminhos invios, tortuosos e lamacentos da raiva (bem ou mal contida), da inveja, do odio, do ciume, do despeito, da hipocrisia, da rivalidade, do mimetismo, do plagiarismo, da disputa, do despique, da contenda, da competicao, do regateio, da zaragata, do trungunguismo, do ressaibo, do recalcamento, do rancor, da vinganca, do revanchismo, do oportunismo, do racismo, do elitismo, ou do exclusivismo;

-- a poesia nao e’ um lugar previligiado de “mainstreams”... e’, muito mais, um lugar primacial de “undercurrents”...;

-- a poesia nao e’ o "devido lugar" da “oposicao” nem da “situacao”: e’, muito mais, o lugar da “rectidao”... (por isso falava aqui, com justificado desdem, de uns certos "poetas 'revolucionarios' e 'lucidos' da situacao", que, ademais, sempre orbitaram nos circulos do poder ao mais alto nivel como seus "conselheiros", "advisers" ou "cortesa(o)s"!...);

-- a poesia nao e’ o lugar natural do “material”... e’, muito mais, o lugar matricial do “espiritual”, do “infinito” e do “sonho”, mesmo quando mesclado com o "pesadelo"...;

-- a poesia nao se presta a comodificacao, a coisificacao, a objectificacao, a plastificacao ou ao artificialismo, nem ao espectaculo ostentatorio, imediatista, bacoco, exibicionista, mediatico, competitivo e barulhento - enfatizemos: embora essas duas figuras possam porventura coincidir em alguns (raros) casos, ser poeta (ou poetisa, como certamente preferem apesar disto...) nao significa ser "declamador/a"!

-- a poesia exige honestidade e respeito – e para tal requer auto-respeito: mesmo quando, como aqui, aqui, ou aqui, lhe da’ para responder ao "call of the wild", "perder as estribeiras" e “gritar”, “espernear” e “explodir”, em geito de hiphop, aparentemente em todas as direccoes, e fazer “tabua rasa” e “terra queimada” de todas as normas estilisticas da dita “poesia convencional”... apenas para melhor trazer "uma certa verdade nua e crua", ainda que apenas parcial e relativa, ao de cima: e' que a "poesia pura e dura" nao se da' la' muito bem com a "mentira"!... E nisso consiste um dos atributos essenciais que a devem caracterizar, a par da "integridade": a "autenticidade"!

-- a poesia e' um pouco como a "Mulher" de Vinicius de Moraes: "tem que ter qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade"!... Ao que eu acrescentaria: tem que ter ALMA!

ii) Quem se pretende "antologiador/a" ou "critico/a literario" deve adoptar como seu principio "etico-deontologico" fundamental primar pelo maximo rigor e objectividade possiveis na avaliacao das obras sobre as quais se debruca - quando tal lhe for "absolutamente impossivel" por "conflitos politico-ideologicos", "incompatibilidades pessoais e/ou de interesses", ou por qualquer outra razao, deve, moral e profissionalmente, abster-se de o fazer;

iii) Quem se pretende “promotor da literatura e do habito da leitura”, tem que, no minimo, ser capaz de demonstrar que cultiva tal habito desde muito cedo na vida – ou, caso por qualquer infortunio nao o tenha podido fazer desde a infancia, que o faz consistente e humildemente desde que lhe foi possivel comecar a cultivar tal habito (... mais vale tarde do que nunca!...), para que a certa altura possa, confidentemente:

-- discorrer com alguma congruencia e credibilidade sobre os livros, autores ou correntes literarias que mais o/a influenciaram ou marcaram na vida e, talvez mais importante do que isso, ser capaz de demonstrar os seus habitos de leitura atraves da qualidade da sua escrita (... mesmo que, como eu, ainda continue a dar alguns “pontapes” na lingua de Camoes e, ja’ agora, tambem na de Shakespeare...) – e’ que “qualidade” nem sempre significa necessariamente “perfeicao” (ou, dito de outro modo, “o optimo pode ser inimigo do bom”...), especialmene quando se “recebeu” a lingua em que se expressa em “segunda” ou “terceira” mao...

Tendo dito isso, convira’ nao perder de vista que “qualidade”, especialmente em poesia, nao se resume a “estetica formal”, mas (… e antes que me esqueca, aproveito para chamar a atencao de alguns dos ‘destinatarios’ desta mukanda para a diferenca entre ‘mas’ e ‘mais’ – que, propositadamente, nao vou aqui explicar, deixando-o como um, ha’ muito atrasado(!), “trabalho de casa”...) ‘cava mais fundo’ nos labirintos da “criacao literaria” ate' chegar 'a profundidade da “etica humanistica” (... a nao ser confundida com o estranho, suspeito, escorregadio e perigoso conceito de “etico-ideologico” recentemente introduzido no “nosso imaginario criativo” por uma certa “douta literato-cientifica e catedratica, tambem 'mae da negritude branca lusofona pos-colonial'” - ... la' dizia Chomsky: "O papel historico dos intelectuais, se olharmos tao longe quanto pudermos no passado, infelizmente tem sido o de apoiar os sistemas de poder e justificar as suas atrocidades"!) ... e aqui atrevo-me a sugerir, "sabendo bem o que me espera!", que tera' sido uma certa "etica ideologica", legitimadora de uma certa "violencia revolucionaria", que tera' permitido que "medidas de caracter profilatico" como o 27 de Maio de ma' memoria acontecessem sob a presidencia e o "olhar silencioso" de um poeta como Agostinho Neto... enquanto, a contrario, tera' sido uma certa "etica humanistica", historicamente percussora dos contemporaneos "movimentos civicos anti-totalitarios" que tera' levado um poeta como Vaclav Havel a fazer o percurso que fez!...), onde, by the way, “criar” tambem se faz, e sobretudo (!), “com os olhos molhados” ... [*]

Igualmente a nao perder de vista deve ser o entendimento de que, embora a "massificacao cultural" nao seja de todo um objectivo objeccionavel, ha' que ser-se criterioso nos meios para se a obter, porque um facto incontornavel e' que: se e' certo que, ocasionalmente, da quantidade pode brotar "cumulativamente" qualidade, the fact remains that os dois conceitos nao se equivalem... Ou, dito de outro modo, "25 poemas + 1" nao sao necessariamente "melhores" do que "25 poemas"!

Para se revelarem "socialmente uteis", a poesia, a literatura e a arte em geral, nao teem que preterir a "essencia" em favor da "efervescencia"... ou a "coerencia" em favor da "aparencia"... ou a "consciencia" em favor da "displicencia"!...

Os livros que, ao longo da Historia da Literatura - que nao inclui apenas "best sellers"... -, alcancaram "sucesso", nao o obtiveram apenas pela sua "promocao" ou "marketing" atraves de t-shirts ou pelo seu volume de vendas, nem pelos seus autores terem feito cursos de "creative writing" directamente ou pela internet... mas pela "dimensao" ("medida" nao apenas pelo numero de paginas...), "profundidade", "criatividade", "originalidade" e "relevancia" do seu "conteudo"!...


iv) Quem se pretende “porta-estandarte” da arte, deve pelo menos saber minimamente o que e’ a arte, senao num sentido estritamente academico e super-sofisticado ou elitista, pelo menos num sentido vivencial e existencial. Ou seja:

-- deve, pelo menos, procurar ter algum contacto, directo ou indirecto, com os artistas, os processos criativos e os produtos artisticos para os poder perceber e apreciar;

-- deve, pelo menos, cultivar o habito de frequentar ateliers de arte e exposicoes artisticas e ir, sempre que possivel, a museus e galerias de arte, dentro ou fora do pais, para sobre a arte poder discernir e ser capaz de a avaliar ou criticar;

-- deve tambem expor o mais possivel os seus sentidos a um leque diversificado de manifestacoes artisticas, populares e/ou eruditas, desde a musica, a danca, ao teatro e ao cinema, para melhor e mais criteriosa e conscientemente as poder fruir, recomendar, praticar, replicar ou emular;

-- e deve fazer tudo isso sem deixar de estar de olhos e "pulsoes" abertos aos estimulos da natureza, da sociedade e do mundo que o rodeia, local e globalmente;


v) Quem se pretende "critico musical", seja de que genero for, deve, no minimo, ter alguma formacao formal em musica;


vi) Quem pertenca as “novas geracoes” (sejam elas economicas, profissionais, academicas, politicas, jornalisticas, culturais, artisticas, literarias, ou outras) deve tentar, o mais possivel, nao deixar de respeitar os “mais velhos” – os que vieram antes de nos, que nos permitiram ser quem somos e nos abriram ou mostraram “um qualquer caminho”, mesmo que “nos tenha dado” para seguir outro completamente diferente...
E por "respeito" - que, em qualquer caso, quanto a mim e' apenas "devido" na exacta medida em que tais "mais velhos" se saibam fazer respeitar! - nao pretendo significar apenas "reverencia" cega e menos ainda "subserviencia" acritica (pois que tal postura seria intrinsecamente "reaccionaria" porque impeditiva da "mudanca de geracoes" e da "evolucao" - mesmo que apenas "na continuidade"...), mas sobretudo "reconhecimento":

-- no que me diz pessoalmente respeito e em relacao a minha “vida literaria”, por 'incipiente' que seja e embora ate' agora ela nao me tenha trazido muito mais do que dissabores e inimigos, nao posso deixar de estar eternamente grata a Manuel Rui Monteiro, Luandino Vieira, Costa Andrade "Ndunduma", Ruy Duarte de Carvalho e Aires de Almeida Santos, por terem “insuflado vida” (ainda que "precaria"), e alguns deles “de olhos vendados”, ao que, de outro modo, muito provavelmente nao teria passado de um “nado morto”, um “festim para vulto/as esquizofrenico/as e pornografo/as” e racistas de todas as latitudes, um “repasto para sordido/as fantasistas e lugubres pervertido/as” e invejosos de todas as especies e (baixos) coturnos, ou um livro de receitas para “kuribotices de velhotas, velhacas, bruacas e ressabiadas mulherzinhas de domingo”!...

A esses nomes gostaria de acrescentar, embora por razoes diferentes, mas relacionadas, um outro: o de Artur Pestana "Pepetela" - por um daqueles "nadas" que, em certas circunstancias, podem significar "tudo". Conto:
Uma vez, pouco depois do lancamento do meu livro, durante um jantar em casa do entao Adido Cultural da Embaixada de Portugal em Angola, Armando Marques Guedes, em que uma das convivas era a Sra. Professora, a dada altura o anfitriao referiu-se a mim como uma "intelectual", ao que a Sra. Professora imediatamente lhe retorquiu desdenhosamente: "... intelectual, intelectual... eu digo-lhe quem sao os intelectuais angolanos - um dia destes faco-lhe uma lista"!... Bom, aquilo foi, obviamente, o suficiente para me "calar" para o resto do jantar - mesmo porque aprendi de pequena que nao se deve falar enquanto se come... Mas, as tantas, como que a tentar "provar a sua tese", ela vira-se para mim e diz, com a sua irrepressivel agressividade: "Entao? Estas muito calada! Nao dizes nada porque?!"... E antes que eu lhe pudesse responder o que quer que seja, o Pepetela (a.k.a. "o mais elevado dos espiritas"), muito sensivel, serena e civilizadamente, disse-lhe algo como: "Mas sao assim mesmo os poetas, muito mais silenciosos, introspectivos e observadores do que faladores"... E so' por isso, tambem lhe fiquei eternamente grata!

E, ja' agora, essa memoria leva-me aonde tudo comecou: foi durante um convivio com um grupo de artistas brasileiros em Luanda, durante o qual me vi envolvida numa animada conversa sobre 'cultura' - ja' nao me lembro exactamente qual era o tema especifico. 'As tantas, um dos meus interlocutores diz-me isto: "Poxa, voce fala como uma professora da Sorbonne!... Voce esta' me fazendo sentir como "o po' do coco' do cavalo do bandido!" Bom, depois das inevitaveis gargalhadas, o Manuel Rui Monteiro, que eu conhecera alguns anos antes na Faculdade de Letras do Lubango e que estava sentado ao meu lado, disse-me que "queria ver o que eu escrevia"... Perguntei-lhe "como e' que ele sabia que eu escrevia", ao que ele: "escreve, escreve de certeza... va' la', mostre-me que eu quero ver". E, assim, alguns dias depois mostrei-lhe alguns dos meus poemas... e foi assim que este 'pesadelo' que estou com ele ate' hoje comecou!...

E, ja’ agora, por falar na Faculdade de Letras do Lubango, impoe-se-me a mencao de um outro nome: o de Arlindo Barbeitos, que la’ foi meu professor de Historia de Africa. Todavia, por razoes que prefiro nao pormenorizar aqui - sobretudo para que nao sejam confundidas com outras questoes que marcaram de forma polemica a sua docencia naquela faculdade e com as quais nada tive a ver -, o nosso relacionamento professor-aluna foi tudo menos “facil”, para dizer o minimo… De tal maneira que acabei sendo, efectivamente, muito mais aluna de um outro professor daquela disciplina, de origem Bakongo, a quem peco aqui as minhas sinceras desculpas por me ter esquecido do seu nome.
Porem, Barbeitos continuou sendo o regente da cadeira e responsavel por todos os testes e avaliacoes de todos os alunos, incluindo os do outro professor. Entao, apenas para abreviar a historia, no teste final ele deu-me a mais alta classificacao e como eu nao ia as aulas dele, mandou-me chamar. Quando la’ fui, ele pediu-me que me levantasse e fez-me um grande elogio perante todos os alunos, exaltando a minha “inteligencia” e o conhecimento demonstrados atraves da qualidade da minha participacao nas aulas e naquele e noutros testes que eu tinha prestado durante o ano que frequentei naquela faculdade.
Assim, onde antes so’ havia “gelo” passou a haver algum calor humano, amizade e respeito mutuo… De tal maneira que, quando alguns anos depois nos cruzamos pela primeira vez numa rua de Luanda, foi ele que me reconheceu do outro lado da rua, chamou-me e fez-me uma grande festa!
Anos mais tarde, quando ja’ me encontrava a estudar em Lisboa, recebi de uma editora italiana um postal dizendo que lhes tinha sido recomendada pelo Arlindo Barbeitos e que estavam interessados em publicar os meus poemas. Mas, infelizmente, por razoes que aqui se podem descortinar, naquela altura eu queria tudo "menos falar, ou ouvir falar, dos meus poemas", pelo que preferi nao prosseguir aquele contacto.
Mas aqui deixo os meus agradecimentos ao professor, historiador, escritor e poeta Arlindo Barbeitos, autor de "Angola, Angole, Angolema".

And last, but by no means least, o meu agradecimento a minha Professora de Portugues no Liceu Feminino de Luanda, Maria Luisa Dolbeth e Costa.


vii) Quem se considera "intelectual", deve pelo menos evidenciar algumas das caracteristicas delineadas nas definicoes aqui apresentadas.


Finalmente, mas nao menos importante:

viii) Quem se pretende “moderna, progressista e democraticamente inserido no actual mundo competitivo” em que vivemos, local e globalmente, tem que ser efectivamente capaz de “competir honestamente” em "mercado aberto" e em "pe de igualdade", seja no mercado de trabalho, seja noutras esferas da vida economica, social, politica, academica ou cultural, e de "vencer" por "merito proprio". Ou seja:

-- nao se pode, pura e simplesmente, valer do nome, da cor da pele, do dinheiro, das casas, dos carros e outros bens materiais ou imateriais, ou das portas que lhe foram abertas pelos seus pais, ou outros familiares ou amigos, numa determinada empresa ou circulo cultural, economico, politico ou social e considerar-se por isso tao ou mais “lutador”, "capaz", “merecedor”, “bem sucedido” ou “vencedor” do que outros, da sua ou de outras geracoes, que nunca beneficiaram de tais “herancas”, previlegios, facilidades, vantagens e oportunidades!...

Caso os preceitos (ou, se se preferir, “valores e principios”) acima enunciados nao sejam observados, minima ou parcialmente que seja, e aqui diria por “todas as geracoes” (!), por mais “ginwinos” e “bem intencionados” que sejam os seus esforcos e iniciativas, correrao sempre o risco de ser retratados e catalogados como “aqueles que venhem do Roque Santeiro para as escadarias da UEA apenas em busca de ascensao social” (!), como o fez numa outra ocasiao o autor do artigo que me serviu de mote a estas “mukandas”...

Eu di-lo-ia de outro modo: ainda que nao venham do "Roque Santeiro", nem estejam apenas em busca de "ascensao social" [poderao, por exemplo, vir de Viana, da Vila Alice, do Kinaxixe, do Bairro Popular, da Maianga, ou mesmo do Alvalade, da Marginal, do 'Quartier Latin' ou do Bairro Alto, para as escadarias e quintais  da permissiva e promiscua "comuna 'libertinaria' neoliberal" da Cidade Alta em busca de "proximidade ao poder" e do "menos congestionado" trafico de influencias e de "fontes de informacao" para os "novos jornais" da praca, e.g. sobre "partes da historia do MPLA", que esse lugar proporciona, ou, especialmente no caso dos "rapazes" e "raparigas" que nunca tiveram forca suficiente para pegarem numa catana ou numa enxada para sairem do conforto das ruas asfaltadas da capital e irem para o campo contribuir para a "resolucao dos problemas do povo", ou a coragem necessaria para pegarem em armas e irem para uma frente de combate defender os "seus ideais", a ilusao de que (tambem) o fizeram... - o que tambem nao e' mais do que buscar "ascensao social" ... o que quer que isso seja ...], continuarao eternamente, ou pelo menos por muito tempo, sem passar das "escadarias da UEA", mesmo que nela consigam entrar e sentar-se, sob o signo dos seus neofitos '7 egos', 'aquela mesa central com o poema "Criar" de Agostinho Neto no background!... E isto servira' especialmente aos que para la' entram com certo tipo de "declaracoes acintosas" como as aqui descritas!...

Em suma, como aqui afirmava ha’ dias, e embora ninguem se possa reclamar “perfeito”, especialmente quando as suas "medidas de caracter profilatico" (ou "pornografico"?) especialmente formuladas para "as classes mais baixas", resultam em casos como este, e muito particularmente numa “sociedade doente” como a Angolana:
e’ tudo uma questao de INTEGRIDADE MORAL, HONESTIDADE INTELECTUAL, EDUCACAO E CARACTER!




[*]

P.S.


Apenas dois exemplos de “etica ideologica” em accao:

1. Jose’ Agostinho, dirigente da JMPLA e musico dos primordios da Dipanda, cantou uma cancao com esta letra:

(…)
E’ preciso fazer a guerra
Para acabar com a guerra
E’ bom ver disparar
E disparar tambem
E’ bom ver morrer
E’ bom quase morrer
Para melhor compreender
E perceber
Que e’ preciso fazer a guerra
Para acabar com a guerra

(…)

2. As criancas da OPA (Organizacao dos Pioneiros Angolanos), com idades compreendidas entre os 5/6 e 12/13 anos, no mesmo periodo cantavam uma cancao que rezava assim:

(…)
Eu vou morrer em Angola
Com armas de guerra na mao
Granada sera’ meu caixao
Enterro sera’ na patrulha

(…)

- Ora, dir-se-ha’ que, em ambos os casos, se tratavam de “normais” cancoes de guerra – nada inedito, extraordinario, nem “eticamente reprovavel”: afinal, todas as guerras acabam por criar os seus proprios “cancioneiros” auto-justificativos. E, dependendo de quem justifica a guerra pos-independencia e com que pressupostos ideologicos o faz, dir-se-ha’ ate’ que a cancao de Jose’ Agostinho acabou, a posteriori por ser “vindicada” pelo desfecho que aquela guerra teve faz agora 10 anos!...

Portanto, ate’ ai, podera’ dizer-se que, do ponto de vista ideologico, “ta’ tudo bem”!...

Mas, e’ do ponto de vista humanistico que comecam os problemas:

- Sera’, antes de mais, a guerra, qualquer guerra, em si mesma “eticamente justificavel” em todas as circunstancias?
- Em ambos os casos, tratavam-se de cancoes destinadas a “condicionar psicologicamente” as criancas e os jovens para a aceitacao da e a participacao na guerra. E, sendo certo que longe estavam ainda os tempos das actuais campanhas internacionais contra o uso de “criancas soldado” em qualquer guerra, nao era a cancao da OPA contraria aos principios da Declaracao Universal dos Direitos da Crianca ja’ entao internacionalmente consagrados e desenvolvidos ao longo das decadas?

Essas apenas duas das questoes fundamentais que, numa primeira abordagem, apelam ao conceito de “etica humanistica” como moralmente superior ao de “etica ideologica”.

Mas, passada essa primeira abordagem, o terreno escorragadio em que se move a “etica ideologica”, veio a revelar-se ainda mais perturbador em ambos os casos:

- Jose’ Agostinho acabou por ser executado pouco depois da Dipanda, na orgia de “violencia revolucionaria” que se seguiu ao 27 de Maio de 1977… e aqui nao poso deixar de me “espantar”, mais uma vez, com a minha “ingenuidade” em relacao aos acontecimentos e personagens a volta daquela tragedia: so’ muito recentemente me foi confirmado que esse foi efectivamente o seu destino, porque naqueles dias disseram-nos, a alguns de nos entao militantes da Jota (... ou seria da "Mocidade Portuguesa"?...), que ele tinha morrido de “uma indigestao causada por uns camaroes improprios para consumo que tinha comido”… e eu sempre acreditei nisso… ate’ muito recentemente!...

- Do “destino” de muitos pioneiros da OPA, e especialmente daqueles que realmente andaram de armas na mao (verdadeiras ou de pau) e muitos dos quais foram servir de "carne para canhao" nas frentes de combate, talvez o caso mais paradigmatico seja o do “menino da bandeira”, Diniz Kanhanga, aqui relatado!... Enquanto outros, como este, viriam a ser vitimados por certas "medidas artisticas de caracter profilatico" (ou "pornografico")?!...

Enfim, em ambos os casos estamos perante facetas e simbolos da historia de duas geracoes ("de idiotas"?) kruxifikadas pela "violencia revolucionaria" de uma certa "etica ideologica"...

Enfim, em ambos os casos estamos perante facetas da historia de duas geracoes ("de idiotas"?) kruxifikadas pelas "medidas de caracter profilatico" de uma certa "etica ideologica"...

E isso para falar apenas de dois exemplos da “etica ideologica” aplicada ao “nosso contexto”, porque poderiamos discuti-la mais alargadamente nos contextos da ideologia Nazi, ou da Stalinista, ou ainda da que (qualquer que seja a designacao que se lhe de) subjaz as mais recentes guerras do Iraque e Afeganistao… so’ para citar esses “exemplos maiores”!...




ADENDA


“... que alguem lhes conte uma historia, umazinha so’…”


Pois, noblesse et sagesse oblige, conto:


“A Minha Amiga”






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[in Novo Jornal #203, 09/12/11 - clique na imagem para ler]


… Ora aqui esta’ um artigo, escrito por alguem que julgo pertencer a “minha geracao” (... a menos que tambem ja' seja um "sexagenario"!...), sobre uma “outra geracao” que designa “uma geracao de idiotas”…

Trata-se de alguem, por sinal membro do "circulo restrito" dos conselheiros de JES, de quem nunca fui proxima (de facto, nunca o conheci pessoalmente), mas que, de ha' uns anos para ca', se tornou uma das 'neofitas amizades e afectos' de alguem que, se nao me conhece exactamente desde que nasci, ou desconhece algumas facetas e periodos do meu percurso, por varias razoes que nao venhem agora aqui ao caso, tera' lidado mais de perto comigo em determinadas fases da minha vida, ainda que apenas muito curta e superficialmente, do que a maior parte dos membros da minha (nao muito grande e menos ainda 'poderosa') familia.

Esta pequena introducao vem a proposito de, tal como vem acontecendo com varias coisas que tenho lido na imprensa e na blogosfera angolana, depois da minha primeira leitura desse artigo, me ter sentido algo perturbada e - uma vez que venho sendo alvo, por parte de gente que nem sequer me conhece, ou por gente que considerava "amiga" e alguma da qual, curiosamente, ate' progenitora dalguns dos membros dessa geracao dita de "idiotas", de uma serie de injustificados (e, aparentemente, tao "inexplicaveis" quanto "interminaveis"!) ataques pessoais “out of the blue”, especialmente desde que criei este blog - ate’ possivelmente “visada”...

Mas, numa segunda leitura, realizei que as unicas coisas nele que me poderiam porventura “atingir” seriam talvez as mencoes que faz ao “principalmente fora do pais”, as “costureiras da moda” e aos “doutores que nao acabaram o curso”... So’ que, “fora do pais” ha’ muitos angolanos, pelas mais diversas razoes, em varios paises e continentes, de varias proveniencias e geracoes e de todas as “especies e feitios”; eu nao incluiria a minha mae no grupo das “costureiras da moda” e “doutores que nao acabaram o curso” sei de muitos e certamente entre eles nao me incluo, uma vez que sempre me recusei a ser chamada de “doutora” (... para mim “doutor/a” e’ apenas, excepto nos casos em que o respectivo curso nao o requeira, quem tenha defendido com sucesso uma tese de doutoramento ou equivalente...) e, por “aquele curso” que nao acabei em Portugal (... e quanto mais nao seja por isso, se ha' alguem que vive sob, ou que impoe a alguem a "ditadura da licenciatura" esse alguem certamente nao sou eu!...) – e nunca sera’ demais repeti-lo: por circunstancias absolutamente extraordinarias, alheias a minha vontade, completamente fora do meu controlo e... todas originadas no "nosso querido pais" e provocadas, por accao ou por omissao, pelos mesmos "dedos" que hoje, em riste, me acusam de "ter fugido" do pais(!) e, interestingly enough, alguns deles entre o circulo de amigos do articulista... –, fiz, em ambientes linguisticos e culturais e em circunstancias de vida muito mais dificeis, mais cursos, de nivel mais elevado e exigente e de melhor qualidade, do que muitos dos nossos “doutores”!... E tambem nunca sera' demais repeti-lo: inteiramente 'a minha custa!

And... make no mistake: posso nao saber para onde vou, mas sei, sempre soube bem de onde venho!
E... perante o 'que sei bem que me espera em Luanda, quem me dera poder regressar ao "maqui" dos meus avos!!!

Assim, apos uma terceira leitura, embora tivesse preferido que tal nao fosse o caso, e mesmo correndo o risco de estar enganada (... ou, recorrendo ao "meu velho amigo" Popper, de poder vir a ser "falsificada"...) em qualquer dessas minhas leituras [e aqui nao posso deixar de notar, en passant, que, a meu ver, esse e’ um dos maiores perigos de um certo “jornalismo de opiniao”: dificilmente nos permite saber com exactidao, beyond any reasonable doubt, a que, ou a quem (dois dos 5 'Ws' fundamentais da investigacao jornalistica: What? - O que?; Who? - Quem?; When? - Quando?; Where? - Onde?; Why? - Porque?), o articulista se esta’ a referir em concreto – particularmente quando, como eu, o leitor se encontra fora do contexto local em que o texto e’ produzido – funcionando assim, mais frequentemente do que nao, apenas como pouco mais do que um irresponsavel "fuxico", uma predadora "kuribotice", um insidioso “mujimbo” ou, pior do que isso, como uma letal arma de arremesso, um ofensivo pau de dois bicos ou uma 'indiscriminatoria' mina anti-pessoal e ate', no limite, "anti-familiar" e "anti-social"!...], dei comigo a concordar de alguma maneira com o que afirma e, com os pes bem assentes nos meus ja’ 50 anos + 1 de vida, acrescentar-lhe-ia, tentando responder de algum modo ao seu apelo para que se tomem “medidas de caracter profilatico”, embora o faca com intencoes mais "pedagogicas" do que "profilaticas", algumas "mukandas" especialmente dirigidas a alguns membros da “geracao” em causa, qualquer que ela seja:

i) Embora, por necessaria e devida modestia, me seja dificil ‘atestar’ “o que e’ a poesia”, julgo ter minimamente uma nocao do que ela “nao e’”...
Explico-me:

- Quem se pretende “poeta”, deve ter sensibilidade suficiente (... 'sense and sensibility'...) para perceber que a poesia e’ um lugar, senao de silencio total e absoluto, certamente de “tons menores”: de disponibilidade e entrega emocional, psicologica, afectiva e espiritual, interiorizacao, introspeccao, experimentacao, burilacao, depuracao, reflexao e abstracao, enfim, de recato, contencao, contemplacao e auto-superacao:

-- a poesia nao se move pelos caminhos invios, tortuosos e lamacentos da raiva (bem ou mal contida), da inveja, do odio, do ciume, do despeito, da hipocrisia, da rivalidade, do mimetismo, do plagiarismo, da disputa, do despique, da contenda, da competicao, do regateio, da zaragata, do trungunguismo, do ressaibo, do recalcamento, do rancor, da vinganca, do revanchismo, do oportunismo, do racismo, do elitismo, ou do exclusivismo;

-- a poesia nao e’ um lugar previligiado de “mainstreams”... e’, muito mais, um lugar primacial de “undercurrents”...;

-- a poesia nao e’ o "devido lugar" da “oposicao” nem da “situacao”: e’, muito mais, o lugar da “rectidao”... (por isso falava aqui, com justificado desdem, de uns certos "poetas 'revolucionarios' e 'lucidos' da situacao", que, ademais, sempre orbitaram nos circulos do poder ao mais alto nivel como seus "conselheiros", "advisers" ou "cortesa(o)s"!...);

-- a poesia nao e’ o lugar natural do “material”... e’, muito mais, o lugar matricial do “espiritual”, do “infinito” e do “sonho”, mesmo quando mesclado com o "pesadelo"...;

-- a poesia nao se presta a comodificacao, a coisificacao, a objectificacao, a plastificacao ou ao artificialismo, nem ao espectaculo ostentatorio, imediatista, bacoco, exibicionista, mediatico, competitivo e barulhento - enfatizemos: embora essas duas figuras possam porventura coincidir em alguns (raros) casos, ser poeta (ou poetisa, como certamente preferem apesar disto...) nao significa ser "declamador/a"!

-- a poesia exige honestidade e respeito – e para tal requer auto-respeito: mesmo quando, como aqui, aqui, ou aqui, lhe da’ para responder ao "call of the wild", "perder as estribeiras" e “gritar”, “espernear” e “explodir”, em geito de hiphop, aparentemente em todas as direccoes, e fazer “tabua rasa” e “terra queimada” de todas as normas estilisticas da dita “poesia convencional”... apenas para melhor trazer "uma certa verdade nua e crua", ainda que apenas parcial e relativa, ao de cima: e' que a "poesia pura e dura" nao se da' la' muito bem com a "mentira"!... E nisso consiste um dos atributos essenciais que a devem caracterizar, a par da "integridade": a "autenticidade"!

-- a poesia e' um pouco como a "Mulher" de Vinicius de Moraes: "tem que ter qualquer coisa que chora, qualquer coisa que sente saudade"!... Ao que eu acrescentaria: tem que ter ALMA!

ii) Quem se pretende "antologiador/a" ou "critico/a literario" deve adoptar como seu principio "etico-deontologico" fundamental primar pelo maximo rigor e objectividade possiveis na avaliacao das obras sobre as quais se debruca - quando tal lhe for "absolutamente impossivel" por "conflitos politico-ideologicos", "incompatibilidades pessoais e/ou de interesses", ou por qualquer outra razao, deve, moral e profissionalmente, abster-se de o fazer;

iii) Quem se pretende “promotor da literatura e do habito da leitura”, tem que, no minimo, ser capaz de demonstrar que cultiva tal habito desde muito cedo na vida – ou, caso por qualquer infortunio nao o tenha podido fazer desde a infancia, que o faz consistente e humildemente desde que lhe foi possivel comecar a cultivar tal habito (... mais vale tarde do que nunca!...), para que a certa altura possa, confidentemente:

-- discorrer com alguma congruencia e credibilidade sobre os livros, autores ou correntes literarias que mais o/a influenciaram ou marcaram na vida e, talvez mais importante do que isso, ser capaz de demonstrar os seus habitos de leitura atraves da qualidade da sua escrita (... mesmo que, como eu, ainda continue a dar alguns “pontapes” na lingua de Camoes e, ja’ agora, tambem na de Shakespeare...) – e’ que “qualidade” nem sempre significa necessariamente “perfeicao” (ou, dito de outro modo, “o optimo pode ser inimigo do bom”...), especialmene quando se “recebeu” a lingua em que se expressa em “segunda” ou “terceira” mao...

Tendo dito isso, convira’ nao perder de vista que “qualidade”, especialmente em poesia, nao se resume a “estetica formal”, mas (… e antes que me esqueca, aproveito para chamar a atencao de alguns dos ‘destinatarios’ desta mukanda para a diferenca entre ‘mas’ e ‘mais’ – que, propositadamente, nao vou aqui explicar, deixando-o como um, ha’ muito atrasado(!), “trabalho de casa”...) ‘cava mais fundo’ nos labirintos da “criacao literaria” ate' chegar 'a profundidade da “etica humanistica” (... a nao ser confundida com o estranho, suspeito, escorregadio e perigoso conceito de “etico-ideologico” recentemente introduzido no “nosso imaginario criativo” por uma certa “douta literato-cientifica e catedratica, tambem 'mae da negritude branca lusofona pos-colonial'” - ... la' dizia Chomsky: "O papel historico dos intelectuais, se olharmos tao longe quanto pudermos no passado, infelizmente tem sido o de apoiar os sistemas de poder e justificar as suas atrocidades"!) ... e aqui atrevo-me a sugerir, "sabendo bem o que me espera!", que tera' sido uma certa "etica ideologica", legitimadora de uma certa "violencia revolucionaria", que tera' permitido que "medidas de caracter profilatico" como o 27 de Maio de ma' memoria acontecessem sob a presidencia e o "olhar silencioso" de um poeta como Agostinho Neto... enquanto, a contrario, tera' sido uma certa "etica humanistica", historicamente percussora dos contemporaneos "movimentos civicos anti-totalitarios" que tera' levado um poeta como Vaclav Havel a fazer o percurso que fez!...), onde, by the way, “criar” tambem se faz, e sobretudo (!), “com os olhos molhados” ... [*]

Igualmente a nao perder de vista deve ser o entendimento de que, embora a "massificacao cultural" nao seja de todo um objectivo objeccionavel, ha' que ser-se criterioso nos meios para se a obter, porque um facto incontornavel e' que: se e' certo que, ocasionalmente, da quantidade pode brotar "cumulativamente" qualidade, the fact remains that os dois conceitos nao se equivalem... Ou, dito de outro modo, "25 poemas + 1" nao sao necessariamente "melhores" do que "25 poemas"!

Para se revelarem "socialmente uteis", a poesia, a literatura e a arte em geral, nao teem que preterir a "essencia" em favor da "efervescencia"... ou a "coerencia" em favor da "aparencia"... ou a "consciencia" em favor da "displicencia"!...

Os livros que, ao longo da Historia da Literatura - que nao inclui apenas "best sellers"... -, alcancaram "sucesso", nao o obtiveram apenas pela sua "promocao" ou "marketing" atraves de t-shirts ou pelo seu volume de vendas, nem pelos seus autores terem feito cursos de "creative writing" directamente ou pela internet... mas pela "dimensao" ("medida" nao apenas pelo numero de paginas...), "profundidade", "criatividade", "originalidade" e "relevancia" do seu "conteudo"!...


iv) Quem se pretende “porta-estandarte” da arte, deve pelo menos saber minimamente o que e’ a arte, senao num sentido estritamente academico e super-sofisticado ou elitista, pelo menos num sentido vivencial e existencial. Ou seja:

-- deve, pelo menos, procurar ter algum contacto, directo ou indirecto, com os artistas, os processos criativos e os produtos artisticos para os poder perceber e apreciar;

-- deve, pelo menos, cultivar o habito de frequentar ateliers de arte e exposicoes artisticas e ir, sempre que possivel, a museus e galerias de arte, dentro ou fora do pais, para sobre a arte poder discernir e ser capaz de a avaliar ou criticar;

-- deve tambem expor o mais possivel os seus sentidos a um leque diversificado de manifestacoes artisticas, populares e/ou eruditas, desde a musica, a danca, ao teatro e ao cinema, para melhor e mais criteriosa e conscientemente as poder fruir, recomendar, praticar, replicar ou emular;

-- e deve fazer tudo isso sem deixar de estar de olhos e "pulsoes" abertos aos estimulos da natureza, da sociedade e do mundo que o rodeia, local e globalmente;


v) Quem se pretende "critico musical", seja de que genero for, deve, no minimo, ter alguma formacao formal em musica;


vi) Quem pertenca as “novas geracoes” (sejam elas economicas, profissionais, academicas, politicas, jornalisticas, culturais, artisticas, literarias, ou outras) deve tentar, o mais possivel, nao deixar de respeitar os “mais velhos” – os que vieram antes de nos, que nos permitiram ser quem somos e nos abriram ou mostraram “um qualquer caminho”, mesmo que “nos tenha dado” para seguir outro completamente diferente...
E por "respeito" - que, em qualquer caso, quanto a mim e' apenas "devido" na exacta medida em que tais "mais velhos" se saibam fazer respeitar! - nao pretendo significar apenas "reverencia" cega e menos ainda "subserviencia" acritica (pois que tal postura seria intrinsecamente "reaccionaria" porque impeditiva da "mudanca de geracoes" e da "evolucao" - mesmo que apenas "na continuidade"...), mas sobretudo "reconhecimento":

-- no que me diz pessoalmente respeito e em relacao a minha “vida literaria”, por 'incipiente' que seja e embora ate' agora ela nao me tenha trazido muito mais do que dissabores e inimigos, nao posso deixar de estar eternamente grata a Manuel Rui Monteiro, Luandino Vieira, Costa Andrade "Ndunduma", Ruy Duarte de Carvalho e Aires de Almeida Santos, por terem “insuflado vida” (ainda que "precaria"), e alguns deles “de olhos vendados”, ao que, de outro modo, muito provavelmente nao teria passado de um “nado morto”, um “festim para vulto/as esquizofrenico/as e pornografo/as” e racistas de todas as latitudes, um “repasto para sordido/as fantasistas e lugubres pervertido/as” e invejosos de todas as especies e (baixos) coturnos, ou um livro de receitas para “kuribotices de velhotas, velhacas, bruacas e ressabiadas mulherzinhas de domingo”!...

A esses nomes gostaria de acrescentar, embora por razoes diferentes, mas relacionadas, um outro: o de Artur Pestana "Pepetela" - por um daqueles "nadas" que, em certas circunstancias, podem significar "tudo". Conto:
Uma vez, pouco depois do lancamento do meu livro, durante um jantar em casa do entao Adido Cultural da Embaixada de Portugal em Angola, Armando Marques Guedes, em que uma das convivas era a Sra. Professora, a dada altura o anfitriao referiu-se a mim como uma "intelectual", ao que a Sra. Professora imediatamente lhe retorquiu desdenhosamente: "... intelectual, intelectual... eu digo-lhe quem sao os intelectuais angolanos - um dia destes faco-lhe uma lista"!... Bom, aquilo foi, obviamente, o suficiente para me "calar" para o resto do jantar - mesmo porque aprendi de pequena que nao se deve falar enquanto se come... Mas, as tantas, como que a tentar "provar a sua tese", ela vira-se para mim e diz, com a sua irrepressivel agressividade: "Entao? Estas muito calada! Nao dizes nada porque?!"... E antes que eu lhe pudesse responder o que quer que seja, o Pepetela (a.k.a. "o mais elevado dos espiritas"), muito sensivel, serena e civilizadamente, disse-lhe algo como: "Mas sao assim mesmo os poetas, muito mais silenciosos, introspectivos e observadores do que faladores"... E so' por isso, tambem lhe fiquei eternamente grata!

E, ja' agora, essa memoria leva-me aonde tudo comecou: foi durante um convivio com um grupo de artistas brasileiros em Luanda, durante o qual me vi envolvida numa animada conversa sobre 'cultura' - ja' nao me lembro exactamente qual era o tema especifico. 'As tantas, um dos meus interlocutores diz-me isto: "Poxa, voce fala como uma professora da Sorbonne!... Voce esta' me fazendo sentir como "o po' do coco' do cavalo do bandido!" Bom, depois das inevitaveis gargalhadas, o Manuel Rui Monteiro, que eu conhecera alguns anos antes na Faculdade de Letras do Lubango e que estava sentado ao meu lado, disse-me que "queria ver o que eu escrevia"... Perguntei-lhe "como e' que ele sabia que eu escrevia", ao que ele: "escreve, escreve de certeza... va' la', mostre-me que eu quero ver". E, assim, alguns dias depois mostrei-lhe alguns dos meus poemas... e foi assim que este 'pesadelo' que estou com ele ate' hoje comecou!...

E, ja’ agora, por falar na Faculdade de Letras do Lubango, impoe-se-me a mencao de um outro nome: o de Arlindo Barbeitos, que la’ foi meu professor de Historia de Africa. Todavia, por razoes que prefiro nao pormenorizar aqui - sobretudo para que nao sejam confundidas com outras questoes que marcaram de forma polemica a sua docencia naquela faculdade e com as quais nada tive a ver -, o nosso relacionamento professor-aluna foi tudo menos “facil”, para dizer o minimo… De tal maneira que acabei sendo, efectivamente, muito mais aluna de um outro professor daquela disciplina, de origem Bakongo, a quem peco aqui as minhas sinceras desculpas por me ter esquecido do seu nome.
Porem, Barbeitos continuou sendo o regente da cadeira e responsavel por todos os testes e avaliacoes de todos os alunos, incluindo os do outro professor. Entao, apenas para abreviar a historia, no teste final ele deu-me a mais alta classificacao e como eu nao ia as aulas dele, mandou-me chamar. Quando la’ fui, ele pediu-me que me levantasse e fez-me um grande elogio perante todos os alunos, exaltando a minha “inteligencia” e o conhecimento demonstrados atraves da qualidade da minha participacao nas aulas e naquele e noutros testes que eu tinha prestado durante o ano que frequentei naquela faculdade.
Assim, onde antes so’ havia “gelo” passou a haver algum calor humano, amizade e respeito mutuo… De tal maneira que, quando alguns anos depois nos cruzamos pela primeira vez numa rua de Luanda, foi ele que me reconheceu do outro lado da rua, chamou-me e fez-me uma grande festa!
Anos mais tarde, quando ja’ me encontrava a estudar em Lisboa, recebi de uma editora italiana um postal dizendo que lhes tinha sido recomendada pelo Arlindo Barbeitos e que estavam interessados em publicar os meus poemas. Mas, infelizmente, por razoes que aqui se podem descortinar, naquela altura eu queria tudo "menos falar, ou ouvir falar, dos meus poemas", pelo que preferi nao prosseguir aquele contacto.
Mas aqui deixo os meus agradecimentos ao professor, historiador, escritor e poeta Arlindo Barbeitos, autor de "Angola, Angole, Angolema".

And last, but by no means least, o meu agradecimento a minha Professora de Portugues no Liceu Feminino de Luanda, Maria Luisa Dolbeth e Costa.


vii) Quem se considera "intelectual", deve pelo menos evidenciar algumas das caracteristicas delineadas nas definicoes aqui apresentadas.


Finalmente, mas nao menos importante:

viii) Quem se pretende “moderna, progressista e democraticamente inserido no actual mundo competitivo” em que vivemos, local e globalmente, tem que ser efectivamente capaz de “competir honestamente” em "mercado aberto" e em "pe de igualdade", seja no mercado de trabalho, seja noutras esferas da vida economica, social, politica, academica ou cultural, e de "vencer" por "merito proprio". Ou seja:

-- nao se pode, pura e simplesmente, valer do nome, da cor da pele, do dinheiro, das casas, dos carros e outros bens materiais ou imateriais, ou das portas que lhe foram abertas pelos seus pais, ou outros familiares ou amigos, numa determinada empresa ou circulo cultural, economico, politico ou social e considerar-se por isso tao ou mais “lutador”, "capaz", “merecedor”, “bem sucedido” ou “vencedor” do que outros, da sua ou de outras geracoes, que nunca beneficiaram de tais “herancas”, previlegios, facilidades, vantagens e oportunidades!...

Caso os preceitos (ou, se se preferir, “valores e principios”) acima enunciados nao sejam observados, minima ou parcialmente que seja, e aqui diria por “todas as geracoes” (!), por mais “ginwinos” e “bem intencionados” que sejam os seus esforcos e iniciativas, correrao sempre o risco de ser retratados e catalogados como “aqueles que venhem do Roque Santeiro para as escadarias da UEA apenas em busca de ascensao social” (!), como o fez numa outra ocasiao o autor do artigo que me serviu de mote a estas “mukandas”...

Eu di-lo-ia de outro modo: ainda que nao venham do "Roque Santeiro", nem estejam apenas em busca de "ascensao social" [poderao, por exemplo, vir de Viana, da Vila Alice, do Kinaxixe, do Bairro Popular, da Maianga, ou mesmo do Alvalade, da Marginal, do 'Quartier Latin' ou do Bairro Alto, para as escadarias e quintais  da permissiva e promiscua "comuna 'libertinaria' neoliberal" da Cidade Alta em busca de "proximidade ao poder" e do "menos congestionado" trafico de influencias e de "fontes de informacao" para os "novos jornais" da praca, e.g. sobre "partes da historia do MPLA", que esse lugar proporciona, ou, especialmente no caso dos "rapazes" e "raparigas" que nunca tiveram forca suficiente para pegarem numa catana ou numa enxada para sairem do conforto das ruas asfaltadas da capital e irem para o campo contribuir para a "resolucao dos problemas do povo", ou a coragem necessaria para pegarem em armas e irem para uma frente de combate defender os "seus ideais", a ilusao de que (tambem) o fizeram... - o que tambem nao e' mais do que buscar "ascensao social" ... o que quer que isso seja ...], continuarao eternamente, ou pelo menos por muito tempo, sem passar das "escadarias da UEA", mesmo que nela consigam entrar e sentar-se, sob o signo dos seus neofitos '7 egos', 'aquela mesa central com o poema "Criar" de Agostinho Neto no background!... E isto servira' especialmente aos que para la' entram com certo tipo de "declaracoes acintosas" como as aqui descritas!...

Em suma, como aqui afirmava ha’ dias, e embora ninguem se possa reclamar “perfeito”, especialmente quando as suas "medidas de caracter profilatico" (ou "pornografico"?) especialmente formuladas para "as classes mais baixas", resultam em casos como este, e muito particularmente numa “sociedade doente” como a Angolana:
e’ tudo uma questao de INTEGRIDADE MORAL, HONESTIDADE INTELECTUAL, EDUCACAO E CARACTER!




[*]

P.S.


Apenas dois exemplos de “etica ideologica” em accao:

1. Jose’ Agostinho, dirigente da JMPLA e musico dos primordios da Dipanda, cantou uma cancao com esta letra:

(…)
E’ preciso fazer a guerra
Para acabar com a guerra
E’ bom ver disparar
E disparar tambem
E’ bom ver morrer
E’ bom quase morrer
Para melhor compreender
E perceber
Que e’ preciso fazer a guerra
Para acabar com a guerra

(…)

2. As criancas da OPA (Organizacao dos Pioneiros Angolanos), com idades compreendidas entre os 5/6 e 12/13 anos, no mesmo periodo cantavam uma cancao que rezava assim:

(…)
Eu vou morrer em Angola
Com armas de guerra na mao
Granada sera’ meu caixao
Enterro sera’ na patrulha

(…)

- Ora, dir-se-ha’ que, em ambos os casos, se tratavam de “normais” cancoes de guerra – nada inedito, extraordinario, nem “eticamente reprovavel”: afinal, todas as guerras acabam por criar os seus proprios “cancioneiros” auto-justificativos. E, dependendo de quem justifica a guerra pos-independencia e com que pressupostos ideologicos o faz, dir-se-ha’ ate’ que a cancao de Jose’ Agostinho acabou, a posteriori por ser “vindicada” pelo desfecho que aquela guerra teve faz agora 10 anos!...

Portanto, ate’ ai, podera’ dizer-se que, do ponto de vista ideologico, “ta’ tudo bem”!...

Mas, e’ do ponto de vista humanistico que comecam os problemas:

- Sera’, antes de mais, a guerra, qualquer guerra, em si mesma “eticamente justificavel” em todas as circunstancias?
- Em ambos os casos, tratavam-se de cancoes destinadas a “condicionar psicologicamente” as criancas e os jovens para a aceitacao da e a participacao na guerra. E, sendo certo que longe estavam ainda os tempos das actuais campanhas internacionais contra o uso de “criancas soldado” em qualquer guerra, nao era a cancao da OPA contraria aos principios da Declaracao Universal dos Direitos da Crianca ja’ entao internacionalmente consagrados e desenvolvidos ao longo das decadas?

Essas apenas duas das questoes fundamentais que, numa primeira abordagem, apelam ao conceito de “etica humanistica” como moralmente superior ao de “etica ideologica”.

Mas, passada essa primeira abordagem, o terreno escorragadio em que se move a “etica ideologica”, veio a revelar-se ainda mais perturbador em ambos os casos:

- Jose’ Agostinho acabou por ser executado pouco depois da Dipanda, na orgia de “violencia revolucionaria” que se seguiu ao 27 de Maio de 1977… e aqui nao poso deixar de me “espantar”, mais uma vez, com a minha “ingenuidade” em relacao aos acontecimentos e personagens a volta daquela tragedia: so’ muito recentemente me foi confirmado que esse foi efectivamente o seu destino, porque naqueles dias disseram-nos, a alguns de nos entao militantes da Jota (... ou seria da "Mocidade Portuguesa"?...), que ele tinha morrido de “uma indigestao causada por uns camaroes improprios para consumo que tinha comido”… e eu sempre acreditei nisso… ate’ muito recentemente!...

- Do “destino” de muitos pioneiros da OPA, e especialmente daqueles que realmente andaram de armas na mao (verdadeiras ou de pau) e muitos dos quais foram servir de "carne para canhao" nas frentes de combate, talvez o caso mais paradigmatico seja o do “menino da bandeira”, Diniz Kanhanga, aqui relatado!... Enquanto outros, como este, viriam a ser vitimados por certas "medidas artisticas de caracter profilatico" (ou "pornografico")?!...

Enfim, em ambos os casos estamos perante facetas e simbolos da historia de duas geracoes ("de idiotas"?) kruxifikadas pela "violencia revolucionaria" de uma certa "etica ideologica"...

Enfim, em ambos os casos estamos perante facetas da historia de duas geracoes ("de idiotas"?) kruxifikadas pelas "medidas de caracter profilatico" de uma certa "etica ideologica"...

E isso para falar apenas de dois exemplos da “etica ideologica” aplicada ao “nosso contexto”, porque poderiamos discuti-la mais alargadamente nos contextos da ideologia Nazi, ou da Stalinista, ou ainda da que (qualquer que seja a designacao que se lhe de) subjaz as mais recentes guerras do Iraque e Afeganistao… so’ para citar esses “exemplos maiores”!...




ADENDA


“... que alguem lhes conte uma historia, umazinha so’…”


Pois, noblesse et sagesse oblige, conto:


“A Minha Amiga”






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Sunday, 5 June 2011

Just Poetry XLII





[…não me lembres dos traumas
nem fales de fantasmas
quando sonho com
todos os companheiros
que sinto perder na batalha
a cada tempo
...

Extracto de ‘Ralhete’ – A.S. in S.O.S.]



"J'ai envie de parler de la rose et du rossignol, d'une belle journee et d'une belle vie... mais la vie me tient par le poignet et je tombe comme si j'avais une pierre au cou jusqu'au fond de la realite."




TERRA QUEIMADA


I.

As asas do
Humbiumbi
sucumbem ao vento
leste da chana
rasgando a bandeira
da mátria adiada
sob a lama vermelha
o capim seco
ruivo
cobrindo da pele
as cicatrizes.


II.

A frente encharca-se de ouro negro
perdendo da roda dentada o equilíbrio
o livro da ideologia importada em décima mão
de Alemanha URSS China Cuba
Albânia Argélia Jugoslávia Portugal Absurdistão
e emborcada á pressa com mau vinho kimbombo
e kissângwa de ananaz fermentada com kaporroto
chouriço bacalhau e funge com todos
ingredientes importados de avulsas origens
mal digerida e expelida lentamente
com fumo de liamba axixe cocaína e heroína
do Homem Novo da Mulher Emancipada
do Poder Popular e do Socialismo Científico
da Trincheira Firme da Revolução em África
da longa noite colonial engravidada de punhais
pelos que lutaram
e emprenhada em pleno dia de pretensos afectos
pelos que ficaram
e do Projecto de Sociedade
de preconceitos racismos complexos
estigmatizações discriminações
e da eterna questão da melanina

que
a Preto e Branco

à A.C. premeia com o mais alto galardão
de Mãe do Vulturismo Kontemporâneo
e da Arrogância Ignorante em Afrika
especialista em bestialidade kulturral
e na estética dos corpos sem alma
Komandante-em-chefe da Arte Plastifikada
Diva da Pornografia Nacional
(des)organizada decadente racista
korrupta e korruptora
lésbica egocêntrica falocêntrica eurocêntrica
ninfomaníaca narcisista sadomasoquista
psicopata supremacista branca neo-nazi
bronzeando-se nas praias do dolce fare niente
por mais de uma década até que
da noite para o dia consegue renascer das cinzas
graças ao génio e às artes mágicas da K.
injectando as beiças e a peida de silicone
tentando maskarar o que tem de eskebra do kolono
e á viva força virar
mais Angolana que a Angolanidade
mais Africana que a Africanidade
mais Negra que a Negritude
e mais Autêntica que a Autenticité
desconseguindo ser economista
desnudando-se nos palcos da devassidão
patrocinados por todos os p(h)oderes
ao som de Wagner porras e merdas
e ao sabor de cocktails
de lágrimas de crocodilo
tingidas de sangue de galinha
e sumos de tomate melão e melancia

[...]

à A.S. transforma
em pobre e insignificante criatura rejeitada
saco de pancadaria real ou virtual
bode expiatório e tubo de escape
para recalcamentos inseguranças inaptidões
incapacidades complexos depressões
ressaibos parasitismos frustrações
inépcias mediocridades manipulações
e faltas de carácter e integridade de todo o mundo
enlameia o nome devassa a vida privada
lincha em praça pública
mata a poesia por entre gargalhadas na noite
pornografias masturbações
solitários orgasmos lúgubres
receitas de culinária cinismo e hipocrisia
de psikologias de kintal, psikopatias de jornal
e etnologias de kurral
tenta objectificar sexualmente
amputar o génio e a identidade
extirpar a serenidade e o sorriso
persegue como a um animal
envia feitiço e presentes envenenados pelo correio
ameaça de morte tenta enterrar viva
esmaga como a uma barata
coloca sob escuta e vigia
faz perder os sentidos
amputa a carreira acadêmica e profissional
acusa de crimes de lesa-pátria de criar e educar filho sózinha
de atrevimentos políticos de calculadora da paz
liberdade democracia e direitos humanos
e de virar conselheira técnica internacional
oblitera do tempo da memória e apaga do espaço da existência
para melhor a poder manter como seu preferido tabu
de secreto uso desuso e abuso
rouba a casa e a nacionalidade
nomeia Diva da Zunga Internacional
esmolando gazozas em dólares
apelida de estrela errada
declara inimiga pública número um
e joga para a sarjeta e indigência
dos escravos sem alforria junto com o órfão que designa
coiso de filho bastardo



à K. eclipsa
à M. brutaliza amargura e infantiliza
à N. enche a cabeça de perucas
as mãos de dinheiro
os pés de carros
a boca de podres
a barriga de reis
e verga aos algozes
à T. amarga a boca de fel
à P. vaga a face de riso
à Q. acomoda à pequenez e à poligamia
à A.M. faz a língua viperina acérbica corrosiva rancorosa
intriguista trungungueira kuribota koskuvilheira
e alcoviteira-m(aj)or
à O. turva o olhar de ciúme inveja e ódio
à I.M. anestesia e ajoelha ao altar
à M. esfuma por entre passos de ballet
e luzes de cabaret
à F.P. evapora
à A.P. marginaliza
à E. aniquila
à P.M. descarta
à A.F. etiliza
à outra A.F. aperalta e equivoca
à A.B. aliena
à M.T. amestra à bófia e faz dar bandeira
à W.L. ensandece
à P.F. afugenta
à A.N. domestica á pancada
à C.P. alucina e patenteia intriguista, caliadora
e manipuladora-em-chefe
e aos seus companheiros cega ensurdece e emudece

[...]

ao A.F. miniaturiza caricaturiza e ridiculariza
ao W.P. expulsa e transforma em caixeiro-viajante
ao J. envenena
ao T. desaparece
ao outro T. ao S. e ao L.K. chacina no 27
junto com muitos outros milhares
ao J. faz carne para canhão
entre os incontáveis batalhões perdidos
na Guerra dos 30 anos
ao M. e ao G. mais os miúdos lá do bairro
deporta para as pedreiras da Tugália
ao C. e aos seus kambas torna refractários
e refugia na arte dos afectos políticamente incorrectos
ao D. mais várias dezenas dizima
na Sexta Feira Sangrenta
ao A. especializa em vendedor ambulante
da Nação Krioula em Alemão
urdindo brandindo e esgrimindo as suas raízes mais profundas
decepadas em fronteiras perdidas entre o Norte e o Sul
ao F. elege ex-oficial da Ditadura do Proletariado
e da Sociedade sem Classes
renovado Homo Democraticus e capataz da Recolonização
de dedo em riste nariz empinado
e dono da verdade absoluta e sabedoria de todo o mundo
ao H. transveste de líder dos Komités José Estaline
em DJ de Punk Rock
ao O. e ao J. torna adictos
e a alguns dos seus correlegionários bêbados ou bufos
feios porcos e maus mal educados e pior formados
ton-tons makutes sem lei nem rei nem roque
e muito menos escrúpulos
todos de panças a rebentar pelas costuras
egos super-deficitários e soberbas hiper-inflacionadas
ao A. mata de SIDA de tantas orgias e bakanais
ao C. faz pedófilo
ao M. perde o pio e hipoteca a vida

[...]

ao Q.P. enlouquece
ao N.F. exila
ao J.M. muda o nome
ao outro J.M. embrutece
ao R.A. enriquece
ao S.V. enrudece
ao G. secretiza
ao M. vende à política meretriz
ao B.B. mostra os caminhos da duplicidade
entristece e diz feliz por um triz
ao X. falha os tiros na cabeça
a determinação o petróleo
e o fogo do D.


III.



As asas da liberdade perecem sob a catana
a pele dilacera-se a bikadas
de pássaros enfeitiçados de todas as latitudes
a chana vira o inferno na terra
enquanto a estrela encandecida
do maior kimberlito do mundo
prenhe de incertezas
incendeia a bandeira da terra queimada
de Pombeiros de Corta Mato
e Povos das Ilhas Crioulas de Além-Mar
mais de Netos e Holdens Laras e Cruzes
Nitos e Jonas Anjos e Demónios
Santos e Flores que mal se cheiram

[...]

de Dambas e Jambas
Vila Alices e Rangéis
Miramares e Sambilas
Cruzeiros e B.O.s
Maiangas e Katambores
Minas e Covas
Piscinas e Valas Comuns
Purgas e Guerras
Pogroms e Chacinas
Incensos e Napalms
Miradouros e Tundavalas

[...]

de Revoluções e Frustrações
Ilusões e Desilusões
Descolonizações e Neocolonizações
Desumanizações e Repulsões
Crimes e Ocultações
Corrupções e Co-optações
Comissões e Comichões
Milhões e Tostões
Ostentações e Privações
Presunções e Bajulações
Repressões e Intimidações
Obcessões e Negações
Fixações e Manipulações
Rejeições e Maldições
Inversões e Perversões
Predações e Depravações
Violações e Traições
Simulações e Dissimulações
Fricções e Sublimações
Crispações e Explosões
Espíritas e Escrivões
Abóboras e Melões

[...]

de Paskineiros e Novo-Jornaleiros
da Nova Angola
Copianços e Mimetismos
de banga de Avante e A Bola
trocada por Playboy
e Wall Street Journal
Censuras e Auto-Censuras
Cortinas de Fumo e de Ferro
Executivos e Executados
Vergados e Deputados
Doutores e Iletrados
Paiados e Enfeudados
Prepotências e Subserviências
Aparências e Iludências
Aparudências e Incontinências
Indulgências e Inocências
de (pseudo)ciências sem consciência
almas cobertas de indecências
mentes repletas de desinteligências
olhos vidrados de impudências
bocas cheias de maledicências
punhos cerrados de insolências
negras krioulas velhacas bezugas
com mentalidade de escravas de roça de cacau
em suas canoas furadas e caravelas desengonçadas
de Sagres Ceitas Ceutas e Vera-Cruzes
e Amélias de Lombo Ignorante e Atrevido
feitas Mães da Negritude Branca Pós-Colonial
que por se sentirem discriminadas e privadas de sexo
alegadamente por suas históricas diferenças fenotípicas
se arrogam o direito de deixar cicatrizes no cérebro
e matar lapidar e impunemente todo o mundo

[...]

Opinionistas e Embusteiros
Brigadistas e Patrulheiros
Planistas e Trapaceiros
Estridentes Patrioteiros
Hipócritas Vende Pátrias
Famigerados Oportunistas
Terroristas e Chantagistas
Fantasistas e Ilusionistas
Difamadores e Intriguistas
Mercadores e Sacristas

[...]

Regressados e Retornados
Expoliados e Expatriados
Janados e Embriagados
Komprados e Invertebrados
Minions e Kabungados
Wasalukas e Tresloucados
Wazanukas e Siderados
Tarados e Despeitados
Homenageados e Premiados
Jubilados e Engalanados
Medalhados e Agraciados
por Montros Raciais
e Taras Tribais

[...]

de Mais-Velhos á Toa
Kotas que Não Dão Nada
Idosos Imaturos
Tios Sem Juízo
Meninos de Rua e Senhores de Palácios
Zungueiras e Madames de Gabinetes
Pachecos e Roboteiros
Griffados e Esfarrapados
Falidos e Falhados
Misses e Modelos
Divas e Prima Donas
Velhotas e Velhacas
Bruacas e Catorzinhas
Ninfas e Ninfetas
Belles de Jour e Proxenetas
Porshes e Lamborghinis
Enfermos Execráveis Putos Pés-Descalcos
Porras Merdas e Berdamerdas
Violadores e Assassinas
Pedófilos e Prostitutas
Chacais e Abutres
Cobras e Hienas
Vultos e Ogros
Sagrados Monstros
Inegáveis Patifes
Lúcidos Sanguessugas
que comem tudo
e não deixam nada

[...]

de Valores e Princípios
corrompidos invertidos
e subvertidos
Imoralidades e Amoralidades
Venalidades e Leviandades
onde Cristãos e Marxistas
Padres e Feiticeiros
Fascistas e Democratas
Esquerdistas e Direitistas
Oposicionistas e Situacionistas
Novos e Velhos Ricos
Mortos e Vivos
lêem a mesma cartilha
comungam a mesma fé
pregam a mesma teoria
regem-se pela mesma praxis
e comem do mesmo tacho
moral ética e deontologia
dormem a mesma antecipada reforma.


IV.

As asas do Humbihumbi queimam-se
na fogueira das bruxas
o capim soçobra a talhes de foice
as cicatrizes reabrem-se a golpes de (Aka)martelo
a memória conspurca-se a invectivas de lama e ódio
o chão abre-se sugando o líquido das veias
sob as botas da Terra Mãe

onde

Arrogância e Ignorância
Burrice e Petulância
Complexos de Superioridade
e de Inferioridade
Inteligência e Indigência
andam de mãos dadas
Mel e Fel se mesclam nas mesmas saladas
Nzingas Mbandis e Marias da Fonte
disfarçam-se no mesmo baile de máskaras
Museus da Escravatura e de Ana Joaquina
disputam a mesma praça
Colonizados e Colonizadores erguem a mesma taça
Sagrado e Profano se confundem num mesmo abraço
Milindros e Melindres rodopiam no mesmo laço
Ballet e Kambwá trocam o mesmo passo
Kuduro e Klássika entoam o mesmo compasso
Gerações A, R, X, Y e Z disputam o mesmo pedaço

[...]

Amor e Ódio
partilham a mesma orgíaca devassa de Sodomas e Gomorras
o Vício se torna Virtude o Sexo comanda a Vida
Bairro Alto e Cidade Alta se reúnem
na mesma Comuna de Feiras de Vaidades
todos os p(h)oderes provêm dos mesmos bordéis
orgias e bakanais e se masturbam com a mesma pornografia
criada nos prostíbulos de suas pérfidas
sórdidas e torpes elocubrações
em ritos satânicos de passagem para as arcádias e minervas
de Bacos e Lesbos Édipos e Electras
Pasárgadas matando Afrodites e castrando Eros
o monstro do racismo emerge da lagoa a cada tempo
todos os sonhos viram pesadelo
a Dignidade Humana
não vale um sopro
para se ser tem que se ter

e para se ser feliz

tem que se saber calar
ou não deixar fugir demasiado
a boca para a verdade
encastelar-se na mentira
nem pensar falar de raças ou racismos
gênero etnias ou tribalismos
convém saber sempre o que nos espera
aprender a beber na maratona da paz podre
e alienar-se à volta da fogueira
da literatura de bordel
arte plastifikada música desalmada
poesia komodifikada kultura akulturada
saber manter-se na crista da onda
(re)pagar ad-eternum com juros hiper-inflacionados
em mercado aberto na praça pública
a hipoteca expirada da amizade e família
manipuladas pelo contexto e transformadas
em pratos em que se debikou
solver as (des)funcionalidades de um estado feudal
um império do mal uma mentalidade medieval
transmudar-se para as novas centralidades
de gente triste sorrindo sofrendo contente
saldar as dívidas sarar as feridas
de um povo muito especial
de barriga cheia de fome e misérias
e bwé de kilapié de uma sociedade demente
em que socialismo virou paranóia
de ascensão social e psicose de exclusão social
brandir a vida no fio da navalha
perder a alma rebentar a granada do peito
e mergulhar de borco no dilúvio do ouro negro
e do eterno luto da bandeira da (ex)Dipanda
jurar silêncio de mão esquartejada ao peito
à sua sombra esquecer o sangue vertido
nas frentes do seu rubro ruivo
e o pioneiro que a içou pela primeira vez
emprenhar de ouvido o hino
propriedade exclusiva do sicrano que o pariu
afinar o pretoguês gritar estamos sempre a subir
publicar muitos livros fazer muitos filhos
cair nas armadilhas do ignominoso adiantamento da raça
queimar fitas diplomas canudos méritos referências
cortar raízes olvidar ancestrais
ressuscitar súbitamente do longo suicídio de classe
acordar bruscamente do sonho abraçar o futuro truncado
conter a superficialidade do toque e a esterilidade do gesto
ser capaz de lidar com a precaridade do amor e a perpetuidade do mal
ignorar a espada de Dámocles gerir o projecto vencedor de morte
enterrar o espírito varrer as cinzas da alma
sustentar o peso do ser

e poder voar nas barbas do bando.

Inegáveis Patifes!

[K. 2011]






Humbi-Humbi
[Filipe Mukenga, Andre' Mingas]




Castelo de Areia

Atestar de palavras
o muro de silêncio.

Breyten Breytenbach





[…não me lembres dos traumas
nem fales de fantasmas
quando sonho com
todos os companheiros
que sinto perder na batalha
a cada tempo
...

Extracto de ‘Ralhete’ – A.S. in S.O.S.]



"J'ai envie de parler de la rose et du rossignol, d'une belle journee et d'une belle vie... mais la vie me tient par le poignet et je tombe comme si j'avais une pierre au cou jusqu'au fond de la realite."




TERRA QUEIMADA


I.

As asas do
Humbiumbi
sucumbem ao vento
leste da chana
rasgando a bandeira
da mátria adiada
sob a lama vermelha
o capim seco
ruivo
cobrindo da pele
as cicatrizes.


II.

A frente encharca-se de ouro negro
perdendo da roda dentada o equilíbrio
o livro da ideologia importada em décima mão
de Alemanha URSS China Cuba
Albânia Argélia Jugoslávia Portugal Absurdistão
e emborcada á pressa com mau vinho kimbombo
e kissângwa de ananaz fermentada com kaporroto
chouriço bacalhau e funge com todos
ingredientes importados de avulsas origens
mal digerida e expelida lentamente
com fumo de liamba axixe cocaína e heroína
do Homem Novo da Mulher Emancipada
do Poder Popular e do Socialismo Científico
da Trincheira Firme da Revolução em África
da longa noite colonial engravidada de punhais
pelos que lutaram
e emprenhada em pleno dia de pretensos afectos
pelos que ficaram
e do Projecto de Sociedade
de preconceitos racismos complexos
estigmatizações discriminações
e da eterna questão da melanina

que
a Preto e Branco

à A.C. premeia com o mais alto galardão
de Mãe do Vulturismo Kontemporâneo
e da Arrogância Ignorante em Afrika
especialista em bestialidade kulturral
e na estética dos corpos sem alma
Komandante-em-chefe da Arte Plastifikada
Diva da Pornografia Nacional
(des)organizada decadente racista
korrupta e korruptora
lésbica egocêntrica falocêntrica eurocêntrica
ninfomaníaca narcisista sadomasoquista
psicopata supremacista branca neo-nazi
bronzeando-se nas praias do dolce fare niente
por mais de uma década até que
da noite para o dia consegue renascer das cinzas
graças ao génio e às artes mágicas da K.
injectando as beiças e a peida de silicone
tentando maskarar o que tem de eskebra do kolono
e á viva força virar
mais Angolana que a Angolanidade
mais Africana que a Africanidade
mais Negra que a Negritude
e mais Autêntica que a Autenticité
desconseguindo ser economista
desnudando-se nos palcos da devassidão
patrocinados por todos os p(h)oderes
ao som de Wagner porras e merdas
e ao sabor de cocktails
de lágrimas de crocodilo
tingidas de sangue de galinha
e sumos de tomate melão e melancia

[...]

à A.S. transforma
em pobre e insignificante criatura rejeitada
saco de pancadaria real ou virtual
bode expiatório e tubo de escape
para recalcamentos inseguranças inaptidões
incapacidades complexos depressões
ressaibos parasitismos frustrações
inépcias mediocridades manipulações
e faltas de carácter e integridade de todo o mundo
enlameia o nome devassa a vida privada
lincha em praça pública
mata a poesia por entre gargalhadas na noite
pornografias masturbações
solitários orgasmos lúgubres
receitas de culinária cinismo e hipocrisia
de psikologias de kintal, psikopatias de jornal
e etnologias de kurral
tenta objectificar sexualmente
amputar o génio e a identidade
extirpar a serenidade e o sorriso
persegue como a um animal
envia feitiço e presentes envenenados pelo correio
ameaça de morte tenta enterrar viva
esmaga como a uma barata
coloca sob escuta e vigia
faz perder os sentidos
amputa a carreira acadêmica e profissional
acusa de crimes de lesa-pátria de criar e educar filho sózinha
de atrevimentos políticos de calculadora da paz
liberdade democracia e direitos humanos
e de virar conselheira técnica internacional
oblitera do tempo da memória e apaga do espaço da existência
para melhor a poder manter como seu preferido tabu
de secreto uso desuso e abuso
rouba a casa e a nacionalidade
nomeia Diva da Zunga Internacional
esmolando gazozas em dólares
apelida de estrela errada
declara inimiga pública número um
e joga para a sarjeta e indigência
dos escravos sem alforria junto com o órfão que designa
coiso de filho bastardo



à K. eclipsa
à M. brutaliza amargura e infantiliza
à N. enche a cabeça de perucas
as mãos de dinheiro
os pés de carros
a boca de podres
a barriga de reis
e verga aos algozes
à T. amarga a boca de fel
à P. vaga a face de riso
à Q. acomoda à pequenez e à poligamia
à A.M. faz a língua viperina acérbica corrosiva rancorosa
intriguista trungungueira kuribota koskuvilheira
e alcoviteira-m(aj)or
à O. turva o olhar de ciúme inveja e ódio
à I.M. anestesia e ajoelha ao altar
à M. esfuma por entre passos de ballet
e luzes de cabaret
à F.P. evapora
à A.P. marginaliza
à E. aniquila
à P.M. descarta
à A.F. etiliza
à outra A.F. aperalta e equivoca
à A.B. aliena
à M.T. amestra à bófia e faz dar bandeira
à W.L. ensandece
à P.F. afugenta
à A.N. domestica á pancada
à C.P. alucina e patenteia intriguista, caliadora
e manipuladora-em-chefe
e aos seus companheiros cega ensurdece e emudece

[...]

ao A.F. miniaturiza caricaturiza e ridiculariza
ao W.P. expulsa e transforma em caixeiro-viajante
ao J. envenena
ao T. desaparece
ao outro T. ao S. e ao L.K. chacina no 27
junto com muitos outros milhares
ao J. faz carne para canhão
entre os incontáveis batalhões perdidos
na Guerra dos 30 anos
ao M. e ao G. mais os miúdos lá do bairro
deporta para as pedreiras da Tugália
ao C. e aos seus kambas torna refractários
e refugia na arte dos afectos políticamente incorrectos
ao D. mais várias dezenas dizima
na Sexta Feira Sangrenta
ao A. especializa em vendedor ambulante
da Nação Krioula em Alemão
urdindo brandindo e esgrimindo as suas raízes mais profundas
decepadas em fronteiras perdidas entre o Norte e o Sul
ao F. elege ex-oficial da Ditadura do Proletariado
e da Sociedade sem Classes
renovado Homo Democraticus e capataz da Recolonização
de dedo em riste nariz empinado
e dono da verdade absoluta e sabedoria de todo o mundo
ao H. transveste de líder dos Komités José Estaline
em DJ de Punk Rock
ao O. e ao J. torna adictos
e a alguns dos seus correlegionários bêbados ou bufos
feios porcos e maus mal educados e pior formados
ton-tons makutes sem lei nem rei nem roque
e muito menos escrúpulos
todos de panças a rebentar pelas costuras
egos super-deficitários e soberbas hiper-inflacionadas
ao A. mata de SIDA de tantas orgias e bakanais
ao C. faz pedófilo
ao M. perde o pio e hipoteca a vida

[...]

ao Q.P. enlouquece
ao N.F. exila
ao J.M. muda o nome
ao outro J.M. embrutece
ao R.A. enriquece
ao S.V. enrudece
ao G. secretiza
ao M. vende à política meretriz
ao B.B. mostra os caminhos da duplicidade
entristece e diz feliz por um triz
ao X. falha os tiros na cabeça
a determinação o petróleo
e o fogo do D.


III.



As asas da liberdade perecem sob a catana
a pele dilacera-se a bikadas
de pássaros enfeitiçados de todas as latitudes
a chana vira o inferno na terra
enquanto a estrela encandecida
do maior kimberlito do mundo
prenhe de incertezas
incendeia a bandeira da terra queimada
de Pombeiros de Corta Mato
e Povos das Ilhas Crioulas de Além-Mar
mais de Netos e Holdens Laras e Cruzes
Nitos e Jonas Anjos e Demónios
Santos e Flores que mal se cheiram

[...]

de Dambas e Jambas
Vila Alices e Rangéis
Miramares e Sambilas
Cruzeiros e B.O.s
Maiangas e Katambores
Minas e Covas
Piscinas e Valas Comuns
Purgas e Guerras
Pogroms e Chacinas
Incensos e Napalms
Miradouros e Tundavalas

[...]

de Revoluções e Frustrações
Ilusões e Desilusões
Descolonizações e Neocolonizações
Desumanizações e Repulsões
Crimes e Ocultações
Corrupções e Co-optações
Comissões e Comichões
Milhões e Tostões
Ostentações e Privações
Presunções e Bajulações
Repressões e Intimidações
Obcessões e Negações
Fixações e Manipulações
Rejeições e Maldições
Inversões e Perversões
Predações e Depravações
Violações e Traições
Simulações e Dissimulações
Fricções e Sublimações
Crispações e Explosões
Espíritas e Escrivões
Abóboras e Melões

[...]

de Paskineiros e Novo-Jornaleiros
da Nova Angola
Copianços e Mimetismos
de banga de Avante e A Bola
trocada por Playboy
e Wall Street Journal
Censuras e Auto-Censuras
Cortinas de Fumo e de Ferro
Executivos e Executados
Vergados e Deputados
Doutores e Iletrados
Paiados e Enfeudados
Prepotências e Subserviências
Aparências e Iludências
Aparudências e Incontinências
Indulgências e Inocências
de (pseudo)ciências sem consciência
almas cobertas de indecências
mentes repletas de desinteligências
olhos vidrados de impudências
bocas cheias de maledicências
punhos cerrados de insolências
negras krioulas velhacas bezugas
com mentalidade de escravas de roça de cacau
em suas canoas furadas e caravelas desengonçadas
de Sagres Ceitas Ceutas e Vera-Cruzes
e Amélias de Lombo Ignorante e Atrevido
feitas Mães da Negritude Branca Pós-Colonial
que por se sentirem discriminadas e privadas de sexo
alegadamente por suas históricas diferenças fenotípicas
se arrogam o direito de deixar cicatrizes no cérebro
e matar lapidar e impunemente todo o mundo

[...]

Opinionistas e Embusteiros
Brigadistas e Patrulheiros
Planistas e Trapaceiros
Estridentes Patrioteiros
Hipócritas Vende Pátrias
Famigerados Oportunistas
Terroristas e Chantagistas
Fantasistas e Ilusionistas
Difamadores e Intriguistas
Mercadores e Sacristas

[...]

Regressados e Retornados
Expoliados e Expatriados
Janados e Embriagados
Komprados e Invertebrados
Minions e Kabungados
Wasalukas e Tresloucados
Wazanukas e Siderados
Tarados e Despeitados
Homenageados e Premiados
Jubilados e Engalanados
Medalhados e Agraciados
por Montros Raciais
e Taras Tribais

[...]

de Mais-Velhos á Toa
Kotas que Não Dão Nada
Idosos Imaturos
Tios Sem Juízo
Meninos de Rua e Senhores de Palácios
Zungueiras e Madames de Gabinetes
Pachecos e Roboteiros
Griffados e Esfarrapados
Falidos e Falhados
Misses e Modelos
Divas e Prima Donas
Velhotas e Velhacas
Bruacas e Catorzinhas
Ninfas e Ninfetas
Belles de Jour e Proxenetas
Porshes e Lamborghinis
Enfermos Execráveis Putos Pés-Descalcos
Porras Merdas e Berdamerdas
Violadores e Assassinas
Pedófilos e Prostitutas
Chacais e Abutres
Cobras e Hienas
Vultos e Ogros
Sagrados Monstros
Inegáveis Patifes
Lúcidos Sanguessugas
que comem tudo
e não deixam nada

[...]

de Valores e Princípios
corrompidos invertidos
e subvertidos
Imoralidades e Amoralidades
Venalidades e Leviandades
onde Cristãos e Marxistas
Padres e Feiticeiros
Fascistas e Democratas
Esquerdistas e Direitistas
Oposicionistas e Situacionistas
Novos e Velhos Ricos
Mortos e Vivos
lêem a mesma cartilha
comungam a mesma fé
pregam a mesma teoria
regem-se pela mesma praxis
e comem do mesmo tacho
moral ética e deontologia
dormem a mesma antecipada reforma.


IV.

As asas do Humbihumbi queimam-se
na fogueira das bruxas
o capim soçobra a talhes de foice
as cicatrizes reabrem-se a golpes de (Aka)martelo
a memória conspurca-se a invectivas de lama e ódio
o chão abre-se sugando o líquido das veias
sob as botas da Terra Mãe

onde

Arrogância e Ignorância
Burrice e Petulância
Complexos de Superioridade
e de Inferioridade
Inteligência e Indigência
andam de mãos dadas
Mel e Fel se mesclam nas mesmas saladas
Nzingas Mbandis e Marias da Fonte
disfarçam-se no mesmo baile de máskaras
Museus da Escravatura e de Ana Joaquina
disputam a mesma praça
Colonizados e Colonizadores erguem a mesma taça
Sagrado e Profano se confundem num mesmo abraço
Milindros e Melindres rodopiam no mesmo laço
Ballet e Kambwá trocam o mesmo passo
Kuduro e Klássika entoam o mesmo compasso
Gerações A, R, X, Y e Z disputam o mesmo pedaço

[...]

Amor e Ódio
partilham a mesma orgíaca devassa de Sodomas e Gomorras
o Vício se torna Virtude o Sexo comanda a Vida
Bairro Alto e Cidade Alta se reúnem
na mesma Comuna de Feiras de Vaidades
todos os p(h)oderes provêm dos mesmos bordéis
orgias e bakanais e se masturbam com a mesma pornografia
criada nos prostíbulos de suas pérfidas
sórdidas e torpes elocubrações
em ritos satânicos de passagem para as arcádias e minervas
de Bacos e Lesbos Édipos e Electras
Pasárgadas matando Afrodites e castrando Eros
o monstro do racismo emerge da lagoa a cada tempo
todos os sonhos viram pesadelo
a Dignidade Humana
não vale um sopro
para se ser tem que se ter

e para se ser feliz

tem que se saber calar
ou não deixar fugir demasiado
a boca para a verdade
encastelar-se na mentira
nem pensar falar de raças ou racismos
gênero etnias ou tribalismos
convém saber sempre o que nos espera
aprender a beber na maratona da paz podre
e alienar-se à volta da fogueira
da literatura de bordel
arte plastifikada música desalmada
poesia komodifikada kultura akulturada
saber manter-se na crista da onda
(re)pagar ad-eternum com juros hiper-inflacionados
em mercado aberto na praça pública
a hipoteca expirada da amizade e família
manipuladas pelo contexto e transformadas
em pratos em que se debikou
solver as (des)funcionalidades de um estado feudal
um império do mal uma mentalidade medieval
transmudar-se para as novas centralidades
de gente triste sorrindo sofrendo contente
saldar as dívidas sarar as feridas
de um povo muito especial
de barriga cheia de fome e misérias
e bwé de kilapié de uma sociedade demente
em que socialismo virou paranóia
de ascensão social e psicose de exclusão social
brandir a vida no fio da navalha
perder a alma rebentar a granada do peito
e mergulhar de borco no dilúvio do ouro negro
e do eterno luto da bandeira da (ex)Dipanda
jurar silêncio de mão esquartejada ao peito
à sua sombra esquecer o sangue vertido
nas frentes do seu rubro ruivo
e o pioneiro que a içou pela primeira vez
emprenhar de ouvido o hino
propriedade exclusiva do sicrano que o pariu
afinar o pretoguês gritar estamos sempre a subir
publicar muitos livros fazer muitos filhos
cair nas armadilhas do ignominoso adiantamento da raça
queimar fitas diplomas canudos méritos referências
cortar raízes olvidar ancestrais
ressuscitar súbitamente do longo suicídio de classe
acordar bruscamente do sonho abraçar o futuro truncado
conter a superficialidade do toque e a esterilidade do gesto
ser capaz de lidar com a precaridade do amor e a perpetuidade do mal
ignorar a espada de Dámocles gerir o projecto vencedor de morte
enterrar o espírito varrer as cinzas da alma
sustentar o peso do ser

e poder voar nas barbas do bando.

Inegáveis Patifes!

[K. 2011]






Humbi-Humbi
[Filipe Mukenga, Andre' Mingas]




Castelo de Areia

Atestar de palavras
o muro de silêncio.

Breyten Breytenbach