Regresso a este album de Memorias de Ruy Mingas (2006), ja' antes aquipassado, para dele repescar algumas perolas, pelo que nelas sobrevive de semba, por entre as generosas infusoes ("expansoes/amplificacoes" do proprio semba?) de jazz, samba e outras sonoridades musicais - se se comparar (especialmente quem conheca as suas versoes originais) cada uma das outras com o Xi Amye' ou mesmo o Pe' de Maracuja', compreender-se-ha' o que pretendo dizer...
A ultima nao faz parte deste album, embora traga muito boa memoria de cancoes de roda da infancia:
# banana podre nao tem fortuna, frutata', frutata'... entra aqui, sai ali, frutata', frutata'...#,
Makezu [Viriato da Cruz]
Birin Birin [Carlos "Liceu" Vieira Dias]
Nguidifangana [Mario Antonio de Oliveira]
Xi Amye' [Ruy Mingas]
Pe' de Maracuja' [Ernesto Lara Filho]
Morro da Maianga [Mario Antonio de Oliveira]
Regresso a este album de Memorias de Ruy Mingas (2006), ja' antes aquipassado, para dele repescar algumas perolas, pelo que nelas sobrevive de semba, por entre as generosas infusoes ("expansoes/amplificacoes" do proprio semba?) de jazz, samba e outras sonoridades musicais - se se comparar (especialmente quem conheca as suas versoes originais) cada uma das outras com o Xi Amye' ou mesmo o Pe' de Maracuja', compreender-se-ha' o que pretendo dizer...
A ultima nao faz parte deste album, embora traga muito boa memoria de cancoes de roda da infancia:
# banana podre nao tem fortuna, frutata', frutata'... entra aqui, sai ali, frutata', frutata'...#,
Muitos que são nossos compatriotas, estiveram connosco nalguns momentos ou foram depois para fora estudar ou se instalaram-se lá, hoje vêm com ideias diferentes das nossas, desajustadas do momento que nós estamos a viver.
Os angolanos, nestas tarefas de reconstrução e Desenvolvimento, estão juntos e devem continuar a cimentar a unidade nacional e a compreensão, não se deixando levar por ideias de indivíduos que não conhecem a nossa história, não sabem por onde nós passamos.
Os angolanos passaram por grandes dificuldades, foram agredidos várias vezes por potências ocidentais e pequenas potênciais africanas, que puseram o país de rastos, financiaram agentes subversivos, destruíram, mataram, provocaram atrocidades em várias partes do território nacional.
Diria que o país estava quase a chegar ao fundo do poço. Estamos a reerguermo-nos pelo facto de, por causa da guerra, termos ficado mais pobres e as famílias ficaram desestruturadas.
Não é justo e honesto que algum angolano que se diga digno deste nome venha pensar em nova desestabilização, em novas perturbações para nos travar nesta senda da reconstrução e desenvolvimento."
Isto lembra-me do recentemente aqui abordado "que alguem lhes conte uma historia, umazinha so'" da autoria de alguem com o "poder real" que a posicao de membro do 'circulo restrito' dos conselheiros de JES lhe confere... e de "umazinha" estoria que ouvi na mansao de cinco empregados e outros tantos carros da "minha amiga" na ultima vez que la' estive, sobre uns "tristemente celebres" 3 dias em que Luanda esteve a "ferro e fogo" no re-eclodir do conflito que se seguiu as eleicoes de 1992: segundo a tal estoria, ficaram todos 'embarrados' em suas casas sem poderem sair a rua e o "grande trauma" que aqueles 3 dias de "guerra em Luanda" lhes causou foi terem ficado "sem nada para comer excepto umas cabecas de lagosta que tinham sobrado do ultimo jantar que tinham tido antes daqueles dias"!...
... O que, penosamente, me invocou a memoria daquele periodo duro em Luanda em que, durante cerca de 3 anos, eu e o meu filho, excepto quando podiamos recorrer a mesa ou a arca frigorifica do Tio Pepe ou do nosso amigo Victor Alexandre, raramente tinhamos outras “iguarias” para comer excepto cabecas de carapau!...
E isso num periodo em que os filhinhos de papai e de mamae, e os eternos betinhos da Vila Alice, que hoje se arrogam a suprema falta de pudor e de caracter de virem a praca publica acusar-me das coisas mais disparatadamente abominaveis e proclamar que "lhes devo tudo o que sou na vida", ou que "me conhecem e 'a minha vida privada melhor do que eu propria(!)", nem sequer se dignavam dirigir-me palavra!... Tendo continuado ao longo dos anos a manter para comigo os comportamentos que descrevo no comentario a este post e agora prosseguem fazendo muita questao de "fingir" que nao leem este blog!...
Mas, naquele periodo, aconteceu uma vez um pequeno “milagre”: um dia pedi boleia com o meu filho a um militar (por sinal mestico) do Kinaxixi para a Xicala. Ele levou-nos e, postos la’, ofereceu-se para nos ir buscar mais tarde e dar-nos de novo boleia para casa, o que aceitei. E assim foi: levou-nos para casa e ficou a saber onde moravamos, embora eu nao o tivesse convidado a entrar. No dia seguinte apareceu-me a porta, fardado como no dia anterior, com uma caixa de mantimentos: arroz, leite, oleo, sabao, etc... Fiquei sem palavras! Ele disse-me que “nao tinha nada que agradecer” e foi-se embora...
Nunca mais o vi, nao me lembro do nome dele e espero apenas que, caso nao tenha morrido ou enlouquecido numa qualquer frente de combate e caso venha a ler isto, saiba que eu nunca me esqueci!...
E como poderia?! Aqueles eram dias em que o guarda do talho do Kinaxixi onde de vez enquando ‘saia’ frangos e ovos, um dia, depois de eu ter aguentado a bicha e os empurroes durante horas, disse-me que “nao me deixava entrar se eu nao fosse para a cama com ele”!!! O mesmo tendo acontecido com o da loja da carne (nem sequer era talho...), onde uma vez por semana ia de madrugada por a minha pedra na bicha, muitas vezes para que outras pessoas passassem a minha frente e no fim acabar por voltar para casa de maos a abanar!...
Claro que nunca fui para a cama com nenhum deles (... a verdade e’ que nunca fui para a cama com homem nenhum em troca do que quer que seja e o facto e’ que nenhum homem, morto ou vivo, ate’ hoje pode dizer que me deu o que quer que seja – e muito menos dinheiro ou qualquer bem material – em troca do que quer que seja!...) e, em ambos os casos, voltei para casa com nada mais do que um misto de incontidas lagrimas de humilhacao mais "revolta e uma vontade grande ter ter respostas"!...
E, ja’ agora, porque umas memorias levam a outras, deixo aqui o registo daquele amigo que tambem nos deu algumas vezes boleia para a praia e que, no Natal de 83/84 nos convidou, a mim e ao meu filho, a passarmos a consoada em sua casa, num dos predios no cimo da Cabral Moncada, com a mulher e os filhos dele – desculpem ter-me esquecido do vosso nome, mas ao casal (por sinal mestico/branca): mais uma vez muito obrigada!
E porque se fala tanto nos "que foram para fora estudar", deixo aqui este registo sobre a minha ida para Portugal como 'pobre e insignificante' estudante bolseira do INABE, sendo que o 'criatura rejeitada' ate' vem bem a proposito, porque a verdade dos factos e' que:
A minha primeira candidatura a bolsa no ano lectivo 1983/84 foi rejeitada, tendo-me sido dito que "nao tinha sido aprovada pelo Departamento de Quadros do Partido". Encontrava-se entao a frente do INABE Francisca do Espirito Santo (FES).
Perante aquela recusa, no ano lectivo seguinte (1984/85) a minha tia pediu especialmente a Manuel Quarta Punza - que conhecia bem a minha familia e a mim em particular de quando ele tinha sido Comissario Provincial do Uige e eu tinha ficado hospedada em sua casa numa minha ida aquela provincia em missao de servico da JMPLA - ajuda para desbloquear a situacao. Este intercedeu junto de um outro responsavel do INABE (por sinal de origem Bakongo) e so' entao a minha candidatura foi aprovada.
Fui entao a Portugal em meados de 1985 na expectativa de comecar o curso naquele ano, mas posta la' confrontei-me com o facto de que, ao contrario de todos os outros bolseiros para aquele ano, nao havia qualquer 'record' da aprovacao da minha bolsa, nem na Embaixada de Angola, nem na Secretaria de Estado da Cooperacao Portuguesa... Tive entao que regressar novamente a Angola para, junto do INABE, resolver a questao e so' assim, no final daquele ano, pude comecar os meus estudos em Portugal com a tal bolsa de #50 angolares e porrada se refilares# literalmente arrancada a ferros!...
E... depois disso ainda tive que enfrentar isto!... E... agora mais isto:
(...) [*] Essa logica torna-se mais complexa ainda quando o poder politico (que aqui se confunde com o estado, ou nao estivessemos em presenca de um "partido-estado" no poder...) se julga e se comporta como "proprietario", nao so' do pais e de todos os seus recursos e riquezas, como tambem de "todo o mundo" que nasceu, cresceu ou viveu sob 'a sua bandeira' (embora se permita votar ao abandono absoluto o 'pioneiro'que pela primeira vez icou tal bandeira!...) , e muito particularmente dos "estudantes bolseiros" que, implicita e explicitamente, assume que "jamais teriam uma formacao media ou superior" nao fossem as suas (famigeradas porque discricionarias, discriminatorias, mal geridas, desencaminhadas, desviadas e, por entre doses de manipulacao, humilhacao e chantagem politica e emocional q.b., em muitos casos, pouco mais do que, a varios titulos, destrutivas!) "bolsas de estudo"... enquanto "os que ficaram" tudo fazem para os estigmatizar e discriminar relativamente a auto-proclamada e novo-enriquecida "prata da casa"!...
Uma logica que, claramente, nao ve o estado (e o partido politico que o detem/sustenta) como "pessoa de bem" para todos e nao apenas para alguns - os "da sua familia, compadrio, confianca, amizade, militancia e/ou conveniencia" - certamente nao para aquela/es que tiveram a veleidade e o "atrevimento politico" de se expressarem e manifestarem a favor da paz "quando nao deviam"!
Assim, porque o poder politico (repitamo-lo: neste caso, o estado) nao e', nem pode ser, "pai grande" para "todo o mundo", os "minions patrioteiros" que "chupam" abundantemente da sua mesa, sacos azuis, envelopes castanhos, cabazes e pactos de regime passam a criar tambem os seus proprios "sub-sistemas de patronagem", tentando a todo o custo grangear "prestigio pessoal" perante a sociedade forjando "a golpes de (Aka)martelo" relacoes manipulativas de subserviencia e dependencia material, financeira e psicologica com os "filhos ilegitimos da patria", i.e. aqueles que o estado, por razoes politicas e afins, faz questao de marginalizar e penalizar (... chegando para tanto a negar-lhes passaportes nacionais, a cercear-lhes/ sabotar-lhes oportunidades academicas e profissionais por si duramente conquistadas, a arruinar-lhes a reputacao, destruir-lhes a personalidade, assassinar-lhes o caracter e a depriva-los dos seus bens e haveres, nomeadamente casas, e da sua mais elementar dignidade humana, transformando-os assim em autenticos mendigos indigentes, enquanto lhes atiram a cara, ainda que falsamente e mesmo que o contrario seja efectivamente o verdadeiro, que "debicaram no seu prato"!), fazendo-os depois "pagar ad-eternum com juros hiper-inflacionados em mercado aberto na praca publica a hipoteca da amizade e familia manipuladas pelo contexto"! Era desse processo que falava, ha' uns tempos, aqui...
Uma realidade, alias, que, curiosamente, foi tambem assinalada nesse tipo de processos de "construcao social" em Cuba, como aquise pode constatar: "(...) Ferrer points out that this system was also designed to encourage the subservience, indebtedness and gratitude of former slaves to the rebel leaders. While it certainly had this effect, libertos also seized the revolutionary language of freedom, liberty, and justice to demand a more inclusive role in the anti-colonial struggle."
Et pourtant... "ainda ha' muitas feridas por sarar"... (o que me remete para ESTA outra historia - umazinha, umazinha so'), como por exemplo as "feridas" resultantes dos disparos das armas que FAPLA e FA(P)LA "justa e honestamente" comerciavam entre si para alimentarem a guerra, segundo "inconfidencias" vindas recentemente a publico, ou o uso de "mercenarios" de paises ocidentais e sul-africanos do "nosso lado" da guerra, por entre este tipo de denuncias por Cubanos como Carlos Moore, outras versoes da "historia" como as apresentadas aqui e aqui e o papel que nela tiveram 'firmas' como a Executive Outcomes e outros "internacionalistas" que finalmente conseguiram levar ao 'golpe de misericordia' a Jonas Savimbi... et pourtant!... Ou ainda, de como, no imediato pos-guerra (... ou mesmo ainda antes disso?...) se estabeleceram estreitas relacoes de cooperacao entre os exercitos Angolano e Sul-Africano, enquanto "pobres e insignificantes criaturas rejeitadas" como eu continuam a ser acusadas de "crimes de lesa-patria" e a ser linchadas em praca publica por terem tido o "atrevimento politico" de ir, contratados e pagos pela UE, trabalhar para a SADC com representantes de "paises inimigos" como as Mauricias e a Africa do Sul "sem autorizacao do governo de Angola"!...
Et pourtant... "ainda ha' muitas feridas por sarar"!...
Nao chegou a apropriacao dos espolhos da guerra e dos dividendos da paz: a partilha das minas de diamantes e pocos de petroleo, das terras e empresas, dos bancos e comissoes, das quintas e fazendas, das embaixadas e representacoes, dos premios e galardoes, dos conselhos de administracao e ministerios, das contas, accoes e propriedades offshore, dos yates e avioes, dos porches e lamborghinis, das praias e das clinicas, que "justa e honestamente" fizeram e continuam a fazer entre si e dos quais fazem questao de afastar "todo o mundo" que nao pertenca aos "circulos restritos" das suas familias, clas e feudos, para sarar tais "feridas"?!
"(...) Guerra que terminou há precisamente dez anos, com a morte do líder fundador da UNITA, Jonas Savimbi, cujo papel na história continua a ser motivo de discórdia entre os angolanos, embora haja uns quantos “amigos da onça” que, uma década depois, ainda venham com sentimentos paternalistas de virtualidades que só eles conseguem ver, talvez à custa da penosa situação por que passam os sistemas de segurança social dos seus países e que afectam as pensões de reforma que lhes são atribuídas, embora pouco ou nada tenham trabalhado para as justificar.
E das pedras ressurgem, quais fénix, as Marias, Joãos, Anas, Ruis e tantos outros, que apesar de escondidos pelo comprometimento na desgraça nacional, vão, sempre que podem, procurando reenquadrar a sua veia paternalista e sobranceria, como aconteceu esta semana quando tentaram , nova e ridiculamente, reduzir o conflito em Angola a uma questão étnica, pondo em cheque a paz conquistada pelos angolanos e que se tem revelado o bem mais precioso de um país que andou errante durante décadas.
(…)
Mesmo na diversidade de opiniões e na debate democrático gente dessa estirpe não é bem vinda porque só traz ao de cimo recordações que, decididamente, queremos enterrar para construirmos o país com que sonharam os nossos ancestrais, verdadeiramente livre, independente e soberano!"
(Victor Silva - Editorial do Novo Jornal # 214 - 24/02/12)
COMENTARIO: Embora 'aparentemente' esta carga de artilharia, disparada pelo director de um "projecto editorial demasiado independente", seja dirigida 'exclusivamente' a alguns portugueses em Portugal, entre os quais umas certas 'Anas' sem apelido (... onde e' que eu ja' li algo 'vagamente' parecido com isto?...), por 'qualquer razao obscura' ela reverte-me, qual "obus no meu quintal", a este "statelessness state of mind"...
"(…) Com essa expectativa a acentuar-se cada vez mais, à medida que nos formos aproximando da data das eleições, os partidos políticos arremessarão todas as armas ao seu alcance para desferir “golpes mortais” aos seus adversários. Assistiremos, desta forma, a um aumento desbragado do tom da propaganda venenosa de uns contra outros.
A campanha eleitoral será palco de críticas arrasadoras, acusações e contra-acusações. A contra informação terá aqui campo aberto para o “linchamento” de políticos que, perante uma opinião pública desprevenida, poderão ver sentenciado o fim da sua carreira. Viveremos momentos de grande ebulição política, própria das lutas partidárias em tempo de eleições.
Depois de termos participado em duas campanhas eleitorais, nada, desse ponto de vista, nos deve, no entanto, surpreender. Vergamo-nos, há vinte anos, a uma primeira campanha verdadeiramente explosiva, que acabou por descambar num “incêndio político” de proporções catastróficas."
COMENTARIO: Embora eu nao tenha, nem nunca tenha pretendido ter, qualquer "carreira politica", nao deixei por isso de ser "linchada"!...
(...)
Apenas dois exemplos de “etica ideologica” em accao:
1. Jose’ Agostinho, dirigente da JMPLA e musico dos primordios da Dipanda, cantou uma cancao com esta letra:
(…) E’ preciso fazer a guerra Para acabar com a guerra E’ bom ver disparar E disparar tambem E’ bom ver morrer E’ bom quase morrer Para melhor compreender E perceber Que e’ preciso fazer a guerra Para acabar com a guerra
(…)
2. As criancas da OPA (Organizacao dos Pioneiros Angolanos - do MPLA), com idades compreendidas entre os 5/6 e 12/13 anos, no mesmo periodo cantavam um hino que rezava assim:
(…) Eu vou morrer em Angola Com armas de guerra na mao Granada sera’ meu caixao Enterro sera’ na patrulha
(…)
- Ora, dir-se-ha’ que, em ambos os casos, se tratavam de “normais” cancoes de guerra – nada inedito, extraordinario, nem “eticamente reprovavel”: afinal, todas as guerras acabam por criar os seus proprios “cancioneiros” auto-justificativos. E, dependendo de quem justifica a guerra pos-independencia e com que pressupostos ideologicos o faz, dir-se-ha’ ate’ que a cancao de Jose’ Agostinho acabou, a posteriori, por ser “vindicada” pelo desfecho que aquela guerra teve faz agora 10 anos!...
Portanto, ate’ ai, podera’ dizer-se que, do ponto de vista ideologico, “ta’ tudo bem”!...
Mas, e’ do ponto de vista humanistico que comecam os problemas:
- Sera’, antes de mais, a guerra em si mesma, qualquer guerra, “eticamente justificavel” em todas as circunstancias? E, especialmente, quando entre "irmaos" num pais que se pretend(ia)e "Um So' Povo e Uma So' Nacao"?!
- Em ambos os casos, tratavam-se de cancoes destinadas a “condicionar psicologicamente” as criancas e os jovens para a aceitacao da e a participacao na guerra. E, sendo certo que longe estavam ainda os tempos das actuais campanhas internacionais contra o uso de “criancas soldado” em qualquer guerra, nao era a cancao da OPA contraria aos principios da Declaracao Universal dos Direitos da Crianca ja’ entao internacionalmente consagrados e desenvolvidos ao longo das decadas?
Essas apenas duas das questoes fundamentais que, numa primeira abordagem, apelam ao conceito de “etica humanistica” como moralmente superior ao de “etica ideologica”.
Mas, passada essa primeira abordagem, o terreno escorragadio em que se move a “etica ideologica”, veio a revelar-se ainda mais perturbador em ambos os casos:
- Jose’ Agostinho acabou por ser executado pouco depois da Dipanda, na orgia de “violencia revolucionaria” que se seguiu ao 27 de Maio de 1977… e aqui nao poso deixar de me “espantar”, mais uma vez, com a minha “ingenuidade” em relacao aos acontecimentos e personagens a volta daquela tragedia: so’ muito recentemente me foi confirmado que esse foi efectivamente o seu destino, porque naqueles dias disseram-nos, a alguns de nos entao militantes da Jota (... ou seria da "Mocidade Portuguesa"?...), que ele tinha morrido de “uma indigestao ou alergia causada por uns camaroes improprios para consumo que tinha comido”… e eu sempre acreditei nisso… ate’ muito recentemente!...
- Do “destino” de muitos pioneiros da OPA, e especialmente daqueles que realmente andaram de armas na mao (verdadeiras ou de pau) e muitos dos quais foram servir de "carne para canhao" nas frentes de combate, talvez o caso mais paradigmatico seja o do “menino da bandeira”, Diniz Kanhanga, aqui relatado!... Enquanto outros, como este, viriam a ser vitimados por certas "medidas artisticas de caracter profilatico (ou "pornografico"?)"!...
Enfim, em ambos os casos estamos perante facetas da historia de duas geracoes ("de idiotas"?) kruxifikadas pela "violencia revolucionaria" de uma certa "etica ideologica"...
E isso para falar apenas de dois exemplos da “etica ideologica” aplicada ao “nosso contexto”, porque poderiamos discuti-la mais alargadamente nos contextos da ideologia Nazi, ou da Stalinista, ou ainda da que (qualquer que seja a designacao que se lhe de) subjaz as mais recentes guerras do Iraque e Afeganistao… so’ para citar esses “exemplos maiores”!...
Muitos que são nossos compatriotas, estiveram connosco nalguns momentos ou foram depois para fora estudar ou se instalaram-se lá, hoje vêm com ideias diferentes das nossas, desajustadas do momento que nós estamos a viver.
Os angolanos, nestas tarefas de reconstrução e Desenvolvimento, estão juntos e devem continuar a cimentar a unidade nacional e a compreensão, não se deixando levar por ideias de indivíduos que não conhecem a nossa história, não sabem por onde nós passamos.
Os angolanos passaram por grandes dificuldades, foram agredidos várias vezes por potências ocidentais e pequenas potênciais africanas, que puseram o país de rastos, financiaram agentes subversivos, destruíram, mataram, provocaram atrocidades em várias partes do território nacional.
Diria que o país estava quase a chegar ao fundo do poço. Estamos a reerguermo-nos pelo facto de, por causa da guerra, termos ficado mais pobres e as famílias ficaram desestruturadas.
Não é justo e honesto que algum angolano que se diga digno deste nome venha pensar em nova desestabilização, em novas perturbações para nos travar nesta senda da reconstrução e desenvolvimento."
Isto lembra-me do recentemente aqui abordado "que alguem lhes conte uma historia, umazinha so'" da autoria de alguem com o "poder real" que a posicao de membro do 'circulo restrito' dos conselheiros de JES lhe confere... e de "umazinha" estoria que ouvi na mansao de cinco empregados e outros tantos carros da "minha amiga" na ultima vez que la' estive, sobre uns "tristemente celebres" 3 dias em que Luanda esteve a "ferro e fogo" no re-eclodir do conflito que se seguiu as eleicoes de 1992: segundo a tal estoria, ficaram todos 'embarrados' em suas casas sem poderem sair a rua e o "grande trauma" que aqueles 3 dias de "guerra em Luanda" lhes causou foi terem ficado "sem nada para comer excepto umas cabecas de lagosta que tinham sobrado do ultimo jantar que tinham tido antes daqueles dias"!...
... O que, penosamente, me invocou a memoria daquele periodo duro em Luanda em que, durante cerca de 3 anos, eu e o meu filho, excepto quando podiamos recorrer a mesa ou a arca frigorifica do Tio Pepe ou do nosso amigo Victor Alexandre, raramente tinhamos outras “iguarias” para comer excepto cabecas de carapau!...
E isso num periodo em que os filhinhos de papai e de mamae, e os eternos betinhos da Vila Alice, que hoje se arrogam a suprema falta de pudor e de caracter de virem a praca publica acusar-me das coisas mais disparatadamente abominaveis e proclamar que "lhes devo tudo o que sou na vida", ou que "me conhecem e 'a minha vida privada melhor do que eu propria(!)", nem sequer se dignavam dirigir-me palavra!... Tendo continuado ao longo dos anos a manter para comigo os comportamentos que descrevo no comentario a este post e agora prosseguem fazendo muita questao de "fingir" que nao leem este blog!...
Mas, naquele periodo, aconteceu uma vez um pequeno “milagre”: um dia pedi boleia com o meu filho a um militar (por sinal mestico) do Kinaxixi para a Xicala. Ele levou-nos e, postos la’, ofereceu-se para nos ir buscar mais tarde e dar-nos de novo boleia para casa, o que aceitei. E assim foi: levou-nos para casa e ficou a saber onde moravamos, embora eu nao o tivesse convidado a entrar. No dia seguinte apareceu-me a porta, fardado como no dia anterior, com uma caixa de mantimentos: arroz, leite, oleo, sabao, etc... Fiquei sem palavras! Ele disse-me que “nao tinha nada que agradecer” e foi-se embora...
Nunca mais o vi, nao me lembro do nome dele e espero apenas que, caso nao tenha morrido ou enlouquecido numa qualquer frente de combate e caso venha a ler isto, saiba que eu nunca me esqueci!...
E como poderia?! Aqueles eram dias em que o guarda do talho do Kinaxixi onde de vez enquando ‘saia’ frangos e ovos, um dia, depois de eu ter aguentado a bicha e os empurroes durante horas, disse-me que “nao me deixava entrar se eu nao fosse para a cama com ele”!!! O mesmo tendo acontecido com o da loja da carne (nem sequer era talho...), onde uma vez por semana ia de madrugada por a minha pedra na bicha, muitas vezes para que outras pessoas passassem a minha frente e no fim acabar por voltar para casa de maos a abanar!...
Claro que nunca fui para a cama com nenhum deles (... a verdade e’ que nunca fui para a cama com homem nenhum em troca do que quer que seja e o facto e’ que nenhum homem, morto ou vivo, ate’ hoje pode dizer que me deu o que quer que seja – e muito menos dinheiro ou qualquer bem material – em troca do que quer que seja!...) e, em ambos os casos, voltei para casa com nada mais do que um misto de incontidas lagrimas de humilhacao mais "revolta e uma vontade grande ter ter respostas"!...
E, ja’ agora, porque umas memorias levam a outras, deixo aqui o registo daquele amigo que tambem nos deu algumas vezes boleia para a praia e que, no Natal de 83/84 nos convidou, a mim e ao meu filho, a passarmos a consoada em sua casa, num dos predios no cimo da Cabral Moncada, com a mulher e os filhos dele – desculpem ter-me esquecido do vosso nome, mas ao casal (por sinal mestico/branca): mais uma vez muito obrigada!
E porque se fala tanto nos "que foram para fora estudar", deixo aqui este registo sobre a minha ida para Portugal como 'pobre e insignificante' estudante bolseira do INABE, sendo que o 'criatura rejeitada' ate' vem bem a proposito, porque a verdade dos factos e' que:
A minha primeira candidatura a bolsa no ano lectivo 1983/84 foi rejeitada, tendo-me sido dito que "nao tinha sido aprovada pelo Departamento de Quadros do Partido". Encontrava-se entao a frente do INABE Francisca do Espirito Santo (FES).
Perante aquela recusa, no ano lectivo seguinte (1984/85) a minha tia pediu especialmente a Manuel Quarta Punza - que conhecia bem a minha familia e a mim em particular de quando ele tinha sido Comissario Provincial do Uige e eu tinha ficado hospedada em sua casa numa minha ida aquela provincia em missao de servico da JMPLA - ajuda para desbloquear a situacao. Este intercedeu junto de um outro responsavel do INABE (por sinal de origem Bakongo) e so' entao a minha candidatura foi aprovada.
Fui entao a Portugal em meados de 1985 na expectativa de comecar o curso naquele ano, mas posta la' confrontei-me com o facto de que, ao contrario de todos os outros bolseiros para aquele ano, nao havia qualquer 'record' da aprovacao da minha bolsa, nem na Embaixada de Angola, nem na Secretaria de Estado da Cooperacao Portuguesa... Tive entao que regressar novamente a Angola para, junto do INABE, resolver a questao e so' assim, no final daquele ano, pude comecar os meus estudos em Portugal com a tal bolsa de #50 angolares e porrada se refilares# literalmente arrancada a ferros!...
E... depois disso ainda tive que enfrentar isto!... E... agora mais isto:
(...) [*] Essa logica torna-se mais complexa ainda quando o poder politico (que aqui se confunde com o estado, ou nao estivessemos em presenca de um "partido-estado" no poder...) se julga e se comporta como "proprietario", nao so' do pais e de todos os seus recursos e riquezas, como tambem de "todo o mundo" que nasceu, cresceu ou viveu sob 'a sua bandeira' (embora se permita votar ao abandono absoluto o 'pioneiro'que pela primeira vez icou tal bandeira!...) , e muito particularmente dos "estudantes bolseiros" que, implicita e explicitamente, assume que "jamais teriam uma formacao media ou superior" nao fossem as suas (famigeradas porque discricionarias, discriminatorias, mal geridas, desencaminhadas, desviadas e, por entre doses de manipulacao, humilhacao e chantagem politica e emocional q.b., em muitos casos, pouco mais do que, a varios titulos, destrutivas!) "bolsas de estudo"... enquanto "os que ficaram" tudo fazem para os estigmatizar e discriminar relativamente a auto-proclamada e novo-enriquecida "prata da casa"!...
Uma logica que, claramente, nao ve o estado (e o partido politico que o detem/sustenta) como "pessoa de bem" para todos e nao apenas para alguns - os "da sua familia, compadrio, confianca, amizade, militancia e/ou conveniencia" - certamente nao para aquela/es que tiveram a veleidade e o "atrevimento politico" de se expressarem e manifestarem a favor da paz "quando nao deviam"!
Assim, porque o poder politico (repitamo-lo: neste caso, o estado) nao e', nem pode ser, "pai grande" para "todo o mundo", os "minions patrioteiros" que "chupam" abundantemente da sua mesa, sacos azuis, envelopes castanhos, cabazes e pactos de regime passam a criar tambem os seus proprios "sub-sistemas de patronagem", tentando a todo o custo grangear "prestigio pessoal" perante a sociedade forjando "a golpes de (Aka)martelo" relacoes manipulativas de subserviencia e dependencia material, financeira e psicologica com os "filhos ilegitimos da patria", i.e. aqueles que o estado, por razoes politicas e afins, faz questao de marginalizar e penalizar (... chegando para tanto a negar-lhes passaportes nacionais, a cercear-lhes/ sabotar-lhes oportunidades academicas e profissionais por si duramente conquistadas, a arruinar-lhes a reputacao, destruir-lhes a personalidade, assassinar-lhes o caracter e a depriva-los dos seus bens e haveres, nomeadamente casas, e da sua mais elementar dignidade humana, transformando-os assim em autenticos mendigos indigentes, enquanto lhes atiram a cara, ainda que falsamente e mesmo que o contrario seja efectivamente o verdadeiro, que "debicaram no seu prato"!), fazendo-os depois "pagar ad-eternum com juros hiper-inflacionados em mercado aberto na praca publica a hipoteca da amizade e familia manipuladas pelo contexto"! Era desse processo que falava, ha' uns tempos, aqui...
Uma realidade, alias, que, curiosamente, foi tambem assinalada nesse tipo de processos de "construcao social" em Cuba, como aquise pode constatar: "(...) Ferrer points out that this system was also designed to encourage the subservience, indebtedness and gratitude of former slaves to the rebel leaders. While it certainly had this effect, libertos also seized the revolutionary language of freedom, liberty, and justice to demand a more inclusive role in the anti-colonial struggle."
Et pourtant... "ainda ha' muitas feridas por sarar"... (o que me remete para ESTA outra historia - umazinha, umazinha so'), como por exemplo as "feridas" resultantes dos disparos das armas que FAPLA e FA(P)LA "justa e honestamente" comerciavam entre si para alimentarem a guerra, segundo "inconfidencias" vindas recentemente a publico, ou o uso de "mercenarios" de paises ocidentais e sul-africanos do "nosso lado" da guerra, por entre este tipo de denuncias por Cubanos como Carlos Moore, outras versoes da "historia" como as apresentadas aqui e aqui e o papel que nela tiveram 'firmas' como a Executive Outcomes e outros "internacionalistas" que finalmente conseguiram levar ao 'golpe de misericordia' a Jonas Savimbi... et pourtant!... Ou ainda, de como, no imediato pos-guerra (... ou mesmo ainda antes disso?...) se estabeleceram estreitas relacoes de cooperacao entre os exercitos Angolano e Sul-Africano, enquanto "pobres e insignificantes criaturas rejeitadas" como eu continuam a ser acusadas de "crimes de lesa-patria" e a ser linchadas em praca publica por terem tido o "atrevimento politico" de ir, contratados e pagos pela UE, trabalhar para a SADC com representantes de "paises inimigos" como as Mauricias e a Africa do Sul "sem autorizacao do governo de Angola"!...
Et pourtant... "ainda ha' muitas feridas por sarar"!...
Nao chegou a apropriacao dos espolhos da guerra e dos dividendos da paz: a partilha das minas de diamantes e pocos de petroleo, das terras e empresas, dos bancos e comissoes, das quintas e fazendas, das embaixadas e representacoes, dos premios e galardoes, dos conselhos de administracao e ministerios, das contas, accoes e propriedades offshore, dos yates e avioes, dos porches e lamborghinis, das praias e das clinicas, que "justa e honestamente" fizeram e continuam a fazer entre si e dos quais fazem questao de afastar "todo o mundo" que nao pertenca aos "circulos restritos" das suas familias, clas e feudos, para sarar tais "feridas"?!
"(...) Guerra que terminou há precisamente dez anos, com a morte do líder fundador da UNITA, Jonas Savimbi, cujo papel na história continua a ser motivo de discórdia entre os angolanos, embora haja uns quantos “amigos da onça” que, uma década depois, ainda venham com sentimentos paternalistas de virtualidades que só eles conseguem ver, talvez à custa da penosa situação por que passam os sistemas de segurança social dos seus países e que afectam as pensões de reforma que lhes são atribuídas, embora pouco ou nada tenham trabalhado para as justificar.
E das pedras ressurgem, quais fénix, as Marias, Joãos, Anas, Ruis e tantos outros, que apesar de escondidos pelo comprometimento na desgraça nacional, vão, sempre que podem, procurando reenquadrar a sua veia paternalista e sobranceria, como aconteceu esta semana quando tentaram , nova e ridiculamente, reduzir o conflito em Angola a uma questão étnica, pondo em cheque a paz conquistada pelos angolanos e que se tem revelado o bem mais precioso de um país que andou errante durante décadas.
(…)
Mesmo na diversidade de opiniões e na debate democrático gente dessa estirpe não é bem vinda porque só traz ao de cimo recordações que, decididamente, queremos enterrar para construirmos o país com que sonharam os nossos ancestrais, verdadeiramente livre, independente e soberano!"
(Victor Silva - Editorial do Novo Jornal # 214 - 24/02/12)
COMENTARIO: Embora 'aparentemente' esta carga de artilharia, disparada pelo director de um "projecto editorial demasiado independente", seja dirigida 'exclusivamente' a alguns portugueses em Portugal, entre os quais umas certas 'Anas' sem apelido (... onde e' que eu ja' li algo 'vagamente' parecido com isto?...), por 'qualquer razao obscura' ela reverte-me, qual "obus no meu quintal", a este "statelessness state of mind"...
"(…) Com essa expectativa a acentuar-se cada vez mais, à medida que nos formos aproximando da data das eleições, os partidos políticos arremessarão todas as armas ao seu alcance para desferir “golpes mortais” aos seus adversários. Assistiremos, desta forma, a um aumento desbragado do tom da propaganda venenosa de uns contra outros.
A campanha eleitoral será palco de críticas arrasadoras, acusações e contra-acusações. A contra informação terá aqui campo aberto para o “linchamento” de políticos que, perante uma opinião pública desprevenida, poderão ver sentenciado o fim da sua carreira. Viveremos momentos de grande ebulição política, própria das lutas partidárias em tempo de eleições.
Depois de termos participado em duas campanhas eleitorais, nada, desse ponto de vista, nos deve, no entanto, surpreender. Vergamo-nos, há vinte anos, a uma primeira campanha verdadeiramente explosiva, que acabou por descambar num “incêndio político” de proporções catastróficas."
COMENTARIO: Embora eu nao tenha, nem nunca tenha pretendido ter, qualquer "carreira politica", nao deixei por isso de ser "linchada"!...
(...)
Apenas dois exemplos de “etica ideologica” em accao:
1. Jose’ Agostinho, dirigente da JMPLA e musico dos primordios da Dipanda, cantou uma cancao com esta letra:
(…) E’ preciso fazer a guerra Para acabar com a guerra E’ bom ver disparar E disparar tambem E’ bom ver morrer E’ bom quase morrer Para melhor compreender E perceber Que e’ preciso fazer a guerra Para acabar com a guerra
(…)
2. As criancas da OPA (Organizacao dos Pioneiros Angolanos - do MPLA), com idades compreendidas entre os 5/6 e 12/13 anos, no mesmo periodo cantavam um hino que rezava assim:
(…) Eu vou morrer em Angola Com armas de guerra na mao Granada sera’ meu caixao Enterro sera’ na patrulha
(…)
- Ora, dir-se-ha’ que, em ambos os casos, se tratavam de “normais” cancoes de guerra – nada inedito, extraordinario, nem “eticamente reprovavel”: afinal, todas as guerras acabam por criar os seus proprios “cancioneiros” auto-justificativos. E, dependendo de quem justifica a guerra pos-independencia e com que pressupostos ideologicos o faz, dir-se-ha’ ate’ que a cancao de Jose’ Agostinho acabou, a posteriori, por ser “vindicada” pelo desfecho que aquela guerra teve faz agora 10 anos!...
Portanto, ate’ ai, podera’ dizer-se que, do ponto de vista ideologico, “ta’ tudo bem”!...
Mas, e’ do ponto de vista humanistico que comecam os problemas:
- Sera’, antes de mais, a guerra em si mesma, qualquer guerra, “eticamente justificavel” em todas as circunstancias? E, especialmente, quando entre "irmaos" num pais que se pretend(ia)e "Um So' Povo e Uma So' Nacao"?!
- Em ambos os casos, tratavam-se de cancoes destinadas a “condicionar psicologicamente” as criancas e os jovens para a aceitacao da e a participacao na guerra. E, sendo certo que longe estavam ainda os tempos das actuais campanhas internacionais contra o uso de “criancas soldado” em qualquer guerra, nao era a cancao da OPA contraria aos principios da Declaracao Universal dos Direitos da Crianca ja’ entao internacionalmente consagrados e desenvolvidos ao longo das decadas?
Essas apenas duas das questoes fundamentais que, numa primeira abordagem, apelam ao conceito de “etica humanistica” como moralmente superior ao de “etica ideologica”.
Mas, passada essa primeira abordagem, o terreno escorragadio em que se move a “etica ideologica”, veio a revelar-se ainda mais perturbador em ambos os casos:
- Jose’ Agostinho acabou por ser executado pouco depois da Dipanda, na orgia de “violencia revolucionaria” que se seguiu ao 27 de Maio de 1977… e aqui nao poso deixar de me “espantar”, mais uma vez, com a minha “ingenuidade” em relacao aos acontecimentos e personagens a volta daquela tragedia: so’ muito recentemente me foi confirmado que esse foi efectivamente o seu destino, porque naqueles dias disseram-nos, a alguns de nos entao militantes da Jota (... ou seria da "Mocidade Portuguesa"?...), que ele tinha morrido de “uma indigestao ou alergia causada por uns camaroes improprios para consumo que tinha comido”… e eu sempre acreditei nisso… ate’ muito recentemente!...
- Do “destino” de muitos pioneiros da OPA, e especialmente daqueles que realmente andaram de armas na mao (verdadeiras ou de pau) e muitos dos quais foram servir de "carne para canhao" nas frentes de combate, talvez o caso mais paradigmatico seja o do “menino da bandeira”, Diniz Kanhanga, aqui relatado!... Enquanto outros, como este, viriam a ser vitimados por certas "medidas artisticas de caracter profilatico (ou "pornografico"?)"!...
Enfim, em ambos os casos estamos perante facetas da historia de duas geracoes ("de idiotas"?) kruxifikadas pela "violencia revolucionaria" de uma certa "etica ideologica"...
E isso para falar apenas de dois exemplos da “etica ideologica” aplicada ao “nosso contexto”, porque poderiamos discuti-la mais alargadamente nos contextos da ideologia Nazi, ou da Stalinista, ou ainda da que (qualquer que seja a designacao que se lhe de) subjaz as mais recentes guerras do Iraque e Afeganistao… so’ para citar esses “exemplos maiores”!...
"J'ai envie de parler de la rose et du rossignol, d'une belle journee et d'une belle vie... mais la vie me tient par le poignet et je tombe comme si j'avais une pierre au cou jusqu'au fond de la realite."
TERRA QUEIMADA
I.
As asas do Humbiumbi
sucumbem ao vento
leste da chana
rasgando a bandeira
da mátria adiada
sob a lama vermelha
o capim seco
ruivo
cobrindo da pele
as cicatrizes.
II.
A frente encharca-se de ouro negro
perdendo da roda dentada o equilíbrio
o livro da ideologia importada em décima mão
de Alemanha URSS China Cuba
Albânia Argélia Jugoslávia Portugal Absurdistão
e emborcada á pressa com mau vinho kimbombo
e kissângwa de ananaz fermentada com kaporroto
chouriço bacalhau e funge com todos
ingredientes importados de avulsas origens
mal digerida e expelida lentamente
com fumo de liamba axixe cocaína e heroína
do Homem Novo da Mulher Emancipada
do Poder Popular e do Socialismo Científico
da Trincheira Firme da Revolução em África
da longa noite colonial engravidada de punhais
pelos que lutaram
e emprenhada em pleno dia de pretensos afectos
pelos que ficaram
e do Projecto de Sociedade
de preconceitos racismos complexos
estigmatizações discriminações
e da eterna questão da melanina
que
a Preto e Branco
à A.C. premeia com o mais alto galardão
de Mãe do Vulturismo Kontemporâneo
e da Arrogância Ignorante em Afrika
especialista em bestialidade kulturral
e na estética dos corpos sem alma
Komandante-em-chefe da Arte Plastifikada
Diva da Pornografia Nacional
(des)organizada decadente racista
korrupta e korruptora
lésbica egocêntrica falocêntrica eurocêntrica
ninfomaníaca narcisista sadomasoquista
psicopata supremacista branca neo-nazi
bronzeando-se nas praias do dolce fare niente
por mais de uma década até que
da noite para o dia consegue renascer das cinzas
graças ao génio e às artes mágicas da K.
injectando as beiças e a peida de silicone
tentando maskarar o que tem de eskebra do kolono
e á viva força virar
mais Angolana que a Angolanidade
mais Africana que a Africanidade
mais Negra que a Negritude
e mais Autêntica que a Autenticité
desconseguindo ser economista
desnudando-se nos palcos da devassidão
patrocinados por todos os p(h)oderes
ao som de Wagner porras e merdas
e ao sabor de cocktails
de lágrimas de crocodilo
tingidas de sangue de galinha
e sumos de tomate melão e melancia
[...]
à A.S. transforma
em pobre e insignificante criatura rejeitada
saco de pancadaria real ou virtual
bode expiatório e tubo de escape
para recalcamentos inseguranças inaptidões
incapacidades complexos depressões
ressaibos parasitismos frustrações
inépcias mediocridades manipulações
e faltas de carácter e integridade de todo o mundo
enlameia o nome devassa a vida privada
lincha em praça pública
mata a poesia por entre gargalhadas na noite
pornografias masturbações
solitários orgasmos lúgubres
receitas de culinária cinismo e hipocrisia
de psikologias de kintal, psikopatias de jornal
e etnologias de kurral
tenta objectificar sexualmente
amputar o génio e a identidade
extirpar a serenidade e o sorriso
persegue como a um animal
envia feitiço e presentes envenenados pelo correio
ameaça de morte tenta enterrar viva
esmaga como a uma barata
coloca sob escuta e vigia
faz perder os sentidos
amputa a carreira acadêmica e profissional
acusa de crimes de lesa-pátria de criar e educar filho sózinha
de atrevimentos políticos de calculadora da paz
liberdade democracia e direitos humanos
e de virar conselheira técnica internacional
oblitera do tempo da memória e apaga do espaço da existência
para melhor a poder manter como seu preferido tabu
de secreto uso desuso e abuso
rouba a casa e a nacionalidade
nomeia Diva da Zunga Internacional
esmolando gazozas em dólares
apelida de estrela errada
declara inimiga pública número um
e joga para a sarjeta e indigência
dos escravos sem alforria junto com o órfão que designa
coiso de filho bastardo
à K. eclipsa
à M. brutaliza amargura e infantiliza
à N. enche a cabeça de perucas
as mãos de dinheiro
os pés de carros
a boca de podres
a barriga de reis
e verga aos algozes
à T. amarga a boca de fel
à P. vaga a face de riso
à Q. acomoda à pequenez e à poligamia
à A.M. faz a língua viperina acérbica corrosiva rancorosa
intriguista trungungueira kuribota koskuvilheira
e alcoviteira-m(aj)or
à O. turva o olhar de ciúme inveja e ódio
à I.M. anestesia e ajoelha ao altar
à M. esfuma por entre passos de ballet
e luzes de cabaret
à F.P. evapora
à A.P. marginaliza
à E. aniquila
à P.M. descarta
à A.F. etiliza
à outra A.F. aperalta e equivoca
à A.B. aliena
à M.T. amestra à bófia e faz dar bandeira
à W.L. ensandece
à P.F. afugenta
à A.N. domestica á pancada
à C.P. alucina e patenteia intriguista, caliadora
e manipuladora-em-chefe
e aos seus companheiros cega ensurdece e emudece
[...]
ao A.F. miniaturiza caricaturiza e ridiculariza
ao W.P. expulsa e transforma em caixeiro-viajante
ao J. envenena
ao T. desaparece
ao outro T. ao S. e ao L.K. chacina no 27
junto com muitos outros milhares
ao J. faz carne para canhão
entre os incontáveis batalhões perdidos
na Guerra dos 30 anos
ao M. e ao G. mais os miúdos lá do bairro
deporta para as pedreiras da Tugália
ao C. e aos seus kambas torna refractários
e refugia na arte dos afectos políticamente incorrectos
ao D. mais várias dezenas dizima
na Sexta Feira Sangrenta
ao A. especializa em vendedor ambulante
da Nação Krioula em Alemão
urdindo brandindo e esgrimindo as suas raízes mais profundas
decepadas em fronteiras perdidas entre o Norte e o Sul
ao F. elege ex-oficial da Ditadura do Proletariado
e da Sociedade sem Classes
renovado Homo Democraticus e capataz da Recolonização
de dedo em riste nariz empinado
e dono da verdade absoluta e sabedoria de todo o mundo
ao H. transveste de líder dos Komités José Estaline
em DJ de Punk Rock
ao O. e ao J. torna adictos
e a alguns dos seus correlegionários bêbados ou bufos
feios porcos e maus mal educados e pior formados
ton-tons makutes sem lei nem rei nem roque
e muito menos escrúpulos
todos de panças a rebentar pelas costuras
egos super-deficitários e soberbas hiper-inflacionadas
ao A. mata de SIDA de tantas orgias e bakanais
ao C. faz pedófilo
ao M. perde o pio e hipoteca a vida
[...]
ao Q.P. enlouquece
ao N.F. exila
ao J.M. muda o nome
ao outro J.M. embrutece
ao R.A. enriquece
ao S.V. enrudece
ao G. secretiza
ao M. vende à política meretriz
ao B.B. mostra os caminhos da duplicidade
entristece e diz feliz por um triz
ao X. falha os tiros na cabeça
a determinação o petróleo
e o fogo do D.
III.
As asas da liberdade perecem sob a catana
a pele dilacera-se a bikadas
de pássaros enfeitiçados de todas as latitudes
a chana vira o inferno na terra
enquanto a estrela encandecida
do maior kimberlito do mundo
prenhe de incertezas
incendeia a bandeira da terra queimada
de Pombeiros de Corta Mato
e Povos das Ilhas Crioulas de Além-Mar
mais de Netos e Holdens Laras e Cruzes
Nitos e Jonas Anjos e Demónios
Santos e Flores que mal se cheiram
[...]
de Dambas e Jambas
Vila Alices e Rangéis
Miramares e Sambilas
Cruzeiros e B.O.s
Maiangas e Katambores
Minas e Covas
Piscinas e Valas Comuns
Purgas e Guerras
Pogroms e Chacinas
Incensos e Napalms
Miradouros e Tundavalas
[...]
de Revoluções e Frustrações
Ilusões e Desilusões
Descolonizações e Neocolonizações
Desumanizações e Repulsões
Crimes e Ocultações
Corrupções e Co-optações
Comissões e Comichões
Milhões e Tostões
Ostentações e Privações
Presunções e Bajulações
Repressões e Intimidações
Obcessões e Negações
Fixações e Manipulações
Rejeições e Maldições
Inversões e Perversões
Predações e Depravações
Violações e Traições
Simulações e Dissimulações
Fricções e Sublimações
Crispações e Explosões
Espíritas e Escrivões
Abóboras e Melões
[...]
de Paskineiros e Novo-Jornaleiros
da Nova Angola
Copianços e Mimetismos
de banga de Avante e A Bola
trocada por Playboy
e Wall Street Journal
Censuras e Auto-Censuras
Cortinas de Fumo e de Ferro
Executivos e Executados
Vergados e Deputados
Doutores e Iletrados
Paiados e Enfeudados
Prepotências e Subserviências
Aparências e Iludências
Aparudências e Incontinências
Indulgências e Inocências
de (pseudo)ciências sem consciência
almas cobertas de indecências
mentes repletas de desinteligências
olhos vidrados de impudências
bocas cheias de maledicências
punhos cerrados de insolências
negras krioulas velhacas bezugas
com mentalidade de escravas de roça de cacau
em suas canoas furadas e caravelas desengonçadas
de Sagres Ceitas Ceutas e Vera-Cruzes
e Amélias de Lombo Ignorante e Atrevido
feitas Mães da Negritude Branca Pós-Colonial
que por se sentirem discriminadas e privadas de sexo
alegadamente por suas históricas diferenças fenotípicas
se arrogam o direito de deixar cicatrizes no cérebro
e matar lapidar e impunemente todo o mundo
[...]
Opinionistas e Embusteiros
Brigadistas e Patrulheiros
Planistas e Trapaceiros
Estridentes Patrioteiros
Hipócritas Vende Pátrias
Famigerados Oportunistas
Terroristas e Chantagistas
Fantasistas e Ilusionistas
Difamadores e Intriguistas
Mercadores e Sacristas
[...]
Regressados e Retornados
Expoliados e Expatriados
Janados e Embriagados
Komprados e Invertebrados
Minions e Kabungados
Wasalukas e Tresloucados
Wazanukas e Siderados
Tarados e Despeitados
Homenageados e Premiados
Jubilados e Engalanados
Medalhados e Agraciados
por Montros Raciais
e Taras Tribais
[...]
de Mais-Velhos á Toa
Kotas que Não Dão Nada
Idosos Imaturos
Tios Sem Juízo
Meninos de Rua e Senhores de Palácios
Zungueiras e Madames de Gabinetes
Pachecos e Roboteiros
Griffados e Esfarrapados
Falidos e Falhados
Misses e Modelos
Divas e Prima Donas
Velhotas e Velhacas
Bruacas e Catorzinhas
Ninfas e Ninfetas
Belles de Jour e Proxenetas
Porshes e Lamborghinis
Enfermos Execráveis Putos Pés-Descalcos
Porras Merdas e Berdamerdas
Violadores e Assassinas
Pedófilos e Prostitutas
Chacais e Abutres
Cobras e Hienas
Vultos e Ogros
Sagrados Monstros
Inegáveis Patifes
Lúcidos Sanguessugas
que comem tudo
e não deixam nada
[...]
de Valores e Princípios
corrompidos invertidos
e subvertidos
Imoralidades e Amoralidades
Venalidades e Leviandades
onde Cristãos e Marxistas
Padres e Feiticeiros
Fascistas e Democratas
Esquerdistas e Direitistas
Oposicionistas e Situacionistas
Novos e Velhos Ricos
Mortos e Vivos
lêem a mesma cartilha
comungam a mesma fé
pregam a mesma teoria
regem-se pela mesma praxis
e comem do mesmo tacho
moral ética e deontologia
dormem a mesma antecipada reforma.
IV.
As asas do Humbihumbi queimam-se
na fogueira das bruxas
o capim soçobra a talhes de foice
as cicatrizes reabrem-se a golpes de (Aka)martelo
a memória conspurca-se a invectivas de lama e ódio
o chão abre-se sugando o líquido das veias
sob as botas da Terra Mãe
onde
Arrogância e Ignorância
Burrice e Petulância
Complexos de Superioridade
e de Inferioridade
Inteligência e Indigência
andam de mãos dadas
Mel e Fel se mesclam nas mesmas saladas
Nzingas Mbandis e Marias da Fonte
disfarçam-se no mesmo baile de máskaras
Museus da Escravatura e de Ana Joaquina
disputam a mesma praça
Colonizados e Colonizadores erguem a mesma taça
Sagrado e Profano se confundem num mesmo abraço
Milindros e Melindres rodopiam no mesmo laço
Ballet e Kambwá trocam o mesmo passo
Kuduro e Klássika entoam o mesmo compasso
Gerações A, R, X, Y e Z disputam o mesmo pedaço
[...]
Amor e Ódio
partilham a mesma orgíaca devassa de Sodomas e Gomorras
o Vício se torna Virtude o Sexo comanda a Vida
Bairro Alto e Cidade Alta se reúnem
na mesma Comuna de Feiras de Vaidades
todos os p(h)oderes provêm dos mesmos bordéis
orgias e bakanais e se masturbam com a mesma pornografia
criada nos prostíbulos de suas pérfidas
sórdidas e torpes elocubrações
em ritos satânicos de passagem para as arcádias e minervas
de Bacos e Lesbos Édipos e Electras
Pasárgadas matando Afrodites e castrando Eros
o monstro do racismo emerge da lagoa a cada tempo
todos os sonhos viram pesadelo
a Dignidade Humana
não vale um sopro
para se ser tem que se ter
e para se ser feliz
tem que se saber calar
ou não deixar fugir demasiado
a boca para a verdade
encastelar-se na mentira
nem pensar falar de raças ou racismos
gênero etnias ou tribalismos
convém saber sempre o que nos espera
aprender a beber na maratona da paz podre
e alienar-se à volta da fogueira
da literatura de bordel
arte plastifikada música desalmada
poesia komodifikada kultura akulturada
saber manter-se na crista da onda
(re)pagar ad-eternum com juros hiper-inflacionados
em mercado aberto na praça pública
a hipoteca expirada da amizade e família
manipuladas pelo contexto e transformadas
em pratos em que se debikou
solver as (des)funcionalidades de um estado feudal
um império do mal uma mentalidade medieval
transmudar-se para as novas centralidades
de gente triste sorrindo sofrendo contente
saldar as dívidas sarar as feridas
de um povo muito especial
de barriga cheia de fome e misérias
e bwé de kilapié de uma sociedade demente
em que socialismo virou paranóia
de ascensão social e psicose de exclusão social
brandir a vida no fio da navalha
perder a alma rebentar a granada do peito
e mergulhar de borco no dilúvio do ouro negro
e do eterno luto da bandeira da (ex)Dipanda
jurar silêncio de mão esquartejada ao peito
à sua sombra esquecer o sangue vertido
nas frentes do seu rubro ruivo
e o pioneiro que a içou pela primeira vez
emprenhar de ouvido o hino
propriedade exclusiva do sicrano que o pariu
afinar o pretoguês gritar estamos sempre a subir
publicar muitos livros fazer muitos filhos
cair nas armadilhas do ignominoso adiantamento da raça
queimar fitas diplomas canudos méritos referências
cortar raízes olvidar ancestrais
ressuscitar súbitamente do longo suicídio de classe
acordar bruscamente do sonho abraçar o futuro truncado
conter a superficialidade do toque e a esterilidade do gesto
ser capaz de lidar com a precaridade do amor e a perpetuidade do mal
ignorar a espada de Dámocles gerir o projecto vencedor de morte
enterrar o espírito varrer as cinzas da alma
sustentar o peso do ser
"J'ai envie de parler de la rose et du rossignol, d'une belle journee et d'une belle vie... mais la vie me tient par le poignet et je tombe comme si j'avais une pierre au cou jusqu'au fond de la realite."
TERRA QUEIMADA
I.
As asas do Humbiumbi
sucumbem ao vento
leste da chana
rasgando a bandeira
da mátria adiada
sob a lama vermelha
o capim seco
ruivo
cobrindo da pele
as cicatrizes.
II.
A frente encharca-se de ouro negro
perdendo da roda dentada o equilíbrio
o livro da ideologia importada em décima mão
de Alemanha URSS China Cuba
Albânia Argélia Jugoslávia Portugal Absurdistão
e emborcada á pressa com mau vinho kimbombo
e kissângwa de ananaz fermentada com kaporroto
chouriço bacalhau e funge com todos
ingredientes importados de avulsas origens
mal digerida e expelida lentamente
com fumo de liamba axixe cocaína e heroína
do Homem Novo da Mulher Emancipada
do Poder Popular e do Socialismo Científico
da Trincheira Firme da Revolução em África
da longa noite colonial engravidada de punhais
pelos que lutaram
e emprenhada em pleno dia de pretensos afectos
pelos que ficaram
e do Projecto de Sociedade
de preconceitos racismos complexos
estigmatizações discriminações
e da eterna questão da melanina
que
a Preto e Branco
à A.C. premeia com o mais alto galardão
de Mãe do Vulturismo Kontemporâneo
e da Arrogância Ignorante em Afrika
especialista em bestialidade kulturral
e na estética dos corpos sem alma
Komandante-em-chefe da Arte Plastifikada
Diva da Pornografia Nacional
(des)organizada decadente racista
korrupta e korruptora
lésbica egocêntrica falocêntrica eurocêntrica
ninfomaníaca narcisista sadomasoquista
psicopata supremacista branca neo-nazi
bronzeando-se nas praias do dolce fare niente
por mais de uma década até que
da noite para o dia consegue renascer das cinzas
graças ao génio e às artes mágicas da K.
injectando as beiças e a peida de silicone
tentando maskarar o que tem de eskebra do kolono
e á viva força virar
mais Angolana que a Angolanidade
mais Africana que a Africanidade
mais Negra que a Negritude
e mais Autêntica que a Autenticité
desconseguindo ser economista
desnudando-se nos palcos da devassidão
patrocinados por todos os p(h)oderes
ao som de Wagner porras e merdas
e ao sabor de cocktails
de lágrimas de crocodilo
tingidas de sangue de galinha
e sumos de tomate melão e melancia
[...]
à A.S. transforma
em pobre e insignificante criatura rejeitada
saco de pancadaria real ou virtual
bode expiatório e tubo de escape
para recalcamentos inseguranças inaptidões
incapacidades complexos depressões
ressaibos parasitismos frustrações
inépcias mediocridades manipulações
e faltas de carácter e integridade de todo o mundo
enlameia o nome devassa a vida privada
lincha em praça pública
mata a poesia por entre gargalhadas na noite
pornografias masturbações
solitários orgasmos lúgubres
receitas de culinária cinismo e hipocrisia
de psikologias de kintal, psikopatias de jornal
e etnologias de kurral
tenta objectificar sexualmente
amputar o génio e a identidade
extirpar a serenidade e o sorriso
persegue como a um animal
envia feitiço e presentes envenenados pelo correio
ameaça de morte tenta enterrar viva
esmaga como a uma barata
coloca sob escuta e vigia
faz perder os sentidos
amputa a carreira acadêmica e profissional
acusa de crimes de lesa-pátria de criar e educar filho sózinha
de atrevimentos políticos de calculadora da paz
liberdade democracia e direitos humanos
e de virar conselheira técnica internacional
oblitera do tempo da memória e apaga do espaço da existência
para melhor a poder manter como seu preferido tabu
de secreto uso desuso e abuso
rouba a casa e a nacionalidade
nomeia Diva da Zunga Internacional
esmolando gazozas em dólares
apelida de estrela errada
declara inimiga pública número um
e joga para a sarjeta e indigência
dos escravos sem alforria junto com o órfão que designa
coiso de filho bastardo
à K. eclipsa
à M. brutaliza amargura e infantiliza
à N. enche a cabeça de perucas
as mãos de dinheiro
os pés de carros
a boca de podres
a barriga de reis
e verga aos algozes
à T. amarga a boca de fel
à P. vaga a face de riso
à Q. acomoda à pequenez e à poligamia
à A.M. faz a língua viperina acérbica corrosiva rancorosa
intriguista trungungueira kuribota koskuvilheira
e alcoviteira-m(aj)or
à O. turva o olhar de ciúme inveja e ódio
à I.M. anestesia e ajoelha ao altar
à M. esfuma por entre passos de ballet
e luzes de cabaret
à F.P. evapora
à A.P. marginaliza
à E. aniquila
à P.M. descarta
à A.F. etiliza
à outra A.F. aperalta e equivoca
à A.B. aliena
à M.T. amestra à bófia e faz dar bandeira
à W.L. ensandece
à P.F. afugenta
à A.N. domestica á pancada
à C.P. alucina e patenteia intriguista, caliadora
e manipuladora-em-chefe
e aos seus companheiros cega ensurdece e emudece
[...]
ao A.F. miniaturiza caricaturiza e ridiculariza
ao W.P. expulsa e transforma em caixeiro-viajante
ao J. envenena
ao T. desaparece
ao outro T. ao S. e ao L.K. chacina no 27
junto com muitos outros milhares
ao J. faz carne para canhão
entre os incontáveis batalhões perdidos
na Guerra dos 30 anos
ao M. e ao G. mais os miúdos lá do bairro
deporta para as pedreiras da Tugália
ao C. e aos seus kambas torna refractários
e refugia na arte dos afectos políticamente incorrectos
ao D. mais várias dezenas dizima
na Sexta Feira Sangrenta
ao A. especializa em vendedor ambulante
da Nação Krioula em Alemão
urdindo brandindo e esgrimindo as suas raízes mais profundas
decepadas em fronteiras perdidas entre o Norte e o Sul
ao F. elege ex-oficial da Ditadura do Proletariado
e da Sociedade sem Classes
renovado Homo Democraticus e capataz da Recolonização
de dedo em riste nariz empinado
e dono da verdade absoluta e sabedoria de todo o mundo
ao H. transveste de líder dos Komités José Estaline
em DJ de Punk Rock
ao O. e ao J. torna adictos
e a alguns dos seus correlegionários bêbados ou bufos
feios porcos e maus mal educados e pior formados
ton-tons makutes sem lei nem rei nem roque
e muito menos escrúpulos
todos de panças a rebentar pelas costuras
egos super-deficitários e soberbas hiper-inflacionadas
ao A. mata de SIDA de tantas orgias e bakanais
ao C. faz pedófilo
ao M. perde o pio e hipoteca a vida
[...]
ao Q.P. enlouquece
ao N.F. exila
ao J.M. muda o nome
ao outro J.M. embrutece
ao R.A. enriquece
ao S.V. enrudece
ao G. secretiza
ao M. vende à política meretriz
ao B.B. mostra os caminhos da duplicidade
entristece e diz feliz por um triz
ao X. falha os tiros na cabeça
a determinação o petróleo
e o fogo do D.
III.
As asas da liberdade perecem sob a catana
a pele dilacera-se a bikadas
de pássaros enfeitiçados de todas as latitudes
a chana vira o inferno na terra
enquanto a estrela encandecida
do maior kimberlito do mundo
prenhe de incertezas
incendeia a bandeira da terra queimada
de Pombeiros de Corta Mato
e Povos das Ilhas Crioulas de Além-Mar
mais de Netos e Holdens Laras e Cruzes
Nitos e Jonas Anjos e Demónios
Santos e Flores que mal se cheiram
[...]
de Dambas e Jambas
Vila Alices e Rangéis
Miramares e Sambilas
Cruzeiros e B.O.s
Maiangas e Katambores
Minas e Covas
Piscinas e Valas Comuns
Purgas e Guerras
Pogroms e Chacinas
Incensos e Napalms
Miradouros e Tundavalas
[...]
de Revoluções e Frustrações
Ilusões e Desilusões
Descolonizações e Neocolonizações
Desumanizações e Repulsões
Crimes e Ocultações
Corrupções e Co-optações
Comissões e Comichões
Milhões e Tostões
Ostentações e Privações
Presunções e Bajulações
Repressões e Intimidações
Obcessões e Negações
Fixações e Manipulações
Rejeições e Maldições
Inversões e Perversões
Predações e Depravações
Violações e Traições
Simulações e Dissimulações
Fricções e Sublimações
Crispações e Explosões
Espíritas e Escrivões
Abóboras e Melões
[...]
de Paskineiros e Novo-Jornaleiros
da Nova Angola
Copianços e Mimetismos
de banga de Avante e A Bola
trocada por Playboy
e Wall Street Journal
Censuras e Auto-Censuras
Cortinas de Fumo e de Ferro
Executivos e Executados
Vergados e Deputados
Doutores e Iletrados
Paiados e Enfeudados
Prepotências e Subserviências
Aparências e Iludências
Aparudências e Incontinências
Indulgências e Inocências
de (pseudo)ciências sem consciência
almas cobertas de indecências
mentes repletas de desinteligências
olhos vidrados de impudências
bocas cheias de maledicências
punhos cerrados de insolências
negras krioulas velhacas bezugas
com mentalidade de escravas de roça de cacau
em suas canoas furadas e caravelas desengonçadas
de Sagres Ceitas Ceutas e Vera-Cruzes
e Amélias de Lombo Ignorante e Atrevido
feitas Mães da Negritude Branca Pós-Colonial
que por se sentirem discriminadas e privadas de sexo
alegadamente por suas históricas diferenças fenotípicas
se arrogam o direito de deixar cicatrizes no cérebro
e matar lapidar e impunemente todo o mundo
[...]
Opinionistas e Embusteiros
Brigadistas e Patrulheiros
Planistas e Trapaceiros
Estridentes Patrioteiros
Hipócritas Vende Pátrias
Famigerados Oportunistas
Terroristas e Chantagistas
Fantasistas e Ilusionistas
Difamadores e Intriguistas
Mercadores e Sacristas
[...]
Regressados e Retornados
Expoliados e Expatriados
Janados e Embriagados
Komprados e Invertebrados
Minions e Kabungados
Wasalukas e Tresloucados
Wazanukas e Siderados
Tarados e Despeitados
Homenageados e Premiados
Jubilados e Engalanados
Medalhados e Agraciados
por Montros Raciais
e Taras Tribais
[...]
de Mais-Velhos á Toa
Kotas que Não Dão Nada
Idosos Imaturos
Tios Sem Juízo
Meninos de Rua e Senhores de Palácios
Zungueiras e Madames de Gabinetes
Pachecos e Roboteiros
Griffados e Esfarrapados
Falidos e Falhados
Misses e Modelos
Divas e Prima Donas
Velhotas e Velhacas
Bruacas e Catorzinhas
Ninfas e Ninfetas
Belles de Jour e Proxenetas
Porshes e Lamborghinis
Enfermos Execráveis Putos Pés-Descalcos
Porras Merdas e Berdamerdas
Violadores e Assassinas
Pedófilos e Prostitutas
Chacais e Abutres
Cobras e Hienas
Vultos e Ogros
Sagrados Monstros
Inegáveis Patifes
Lúcidos Sanguessugas
que comem tudo
e não deixam nada
[...]
de Valores e Princípios
corrompidos invertidos
e subvertidos
Imoralidades e Amoralidades
Venalidades e Leviandades
onde Cristãos e Marxistas
Padres e Feiticeiros
Fascistas e Democratas
Esquerdistas e Direitistas
Oposicionistas e Situacionistas
Novos e Velhos Ricos
Mortos e Vivos
lêem a mesma cartilha
comungam a mesma fé
pregam a mesma teoria
regem-se pela mesma praxis
e comem do mesmo tacho
moral ética e deontologia
dormem a mesma antecipada reforma.
IV.
As asas do Humbihumbi queimam-se
na fogueira das bruxas
o capim soçobra a talhes de foice
as cicatrizes reabrem-se a golpes de (Aka)martelo
a memória conspurca-se a invectivas de lama e ódio
o chão abre-se sugando o líquido das veias
sob as botas da Terra Mãe
onde
Arrogância e Ignorância
Burrice e Petulância
Complexos de Superioridade
e de Inferioridade
Inteligência e Indigência
andam de mãos dadas
Mel e Fel se mesclam nas mesmas saladas
Nzingas Mbandis e Marias da Fonte
disfarçam-se no mesmo baile de máskaras
Museus da Escravatura e de Ana Joaquina
disputam a mesma praça
Colonizados e Colonizadores erguem a mesma taça
Sagrado e Profano se confundem num mesmo abraço
Milindros e Melindres rodopiam no mesmo laço
Ballet e Kambwá trocam o mesmo passo
Kuduro e Klássika entoam o mesmo compasso
Gerações A, R, X, Y e Z disputam o mesmo pedaço
[...]
Amor e Ódio
partilham a mesma orgíaca devassa de Sodomas e Gomorras
o Vício se torna Virtude o Sexo comanda a Vida
Bairro Alto e Cidade Alta se reúnem
na mesma Comuna de Feiras de Vaidades
todos os p(h)oderes provêm dos mesmos bordéis
orgias e bakanais e se masturbam com a mesma pornografia
criada nos prostíbulos de suas pérfidas
sórdidas e torpes elocubrações
em ritos satânicos de passagem para as arcádias e minervas
de Bacos e Lesbos Édipos e Electras
Pasárgadas matando Afrodites e castrando Eros
o monstro do racismo emerge da lagoa a cada tempo
todos os sonhos viram pesadelo
a Dignidade Humana
não vale um sopro
para se ser tem que se ter
e para se ser feliz
tem que se saber calar
ou não deixar fugir demasiado
a boca para a verdade
encastelar-se na mentira
nem pensar falar de raças ou racismos
gênero etnias ou tribalismos
convém saber sempre o que nos espera
aprender a beber na maratona da paz podre
e alienar-se à volta da fogueira
da literatura de bordel
arte plastifikada música desalmada
poesia komodifikada kultura akulturada
saber manter-se na crista da onda
(re)pagar ad-eternum com juros hiper-inflacionados
em mercado aberto na praça pública
a hipoteca expirada da amizade e família
manipuladas pelo contexto e transformadas
em pratos em que se debikou
solver as (des)funcionalidades de um estado feudal
um império do mal uma mentalidade medieval
transmudar-se para as novas centralidades
de gente triste sorrindo sofrendo contente
saldar as dívidas sarar as feridas
de um povo muito especial
de barriga cheia de fome e misérias
e bwé de kilapié de uma sociedade demente
em que socialismo virou paranóia
de ascensão social e psicose de exclusão social
brandir a vida no fio da navalha
perder a alma rebentar a granada do peito
e mergulhar de borco no dilúvio do ouro negro
e do eterno luto da bandeira da (ex)Dipanda
jurar silêncio de mão esquartejada ao peito
à sua sombra esquecer o sangue vertido
nas frentes do seu rubro ruivo
e o pioneiro que a içou pela primeira vez
emprenhar de ouvido o hino
propriedade exclusiva do sicrano que o pariu
afinar o pretoguês gritar estamos sempre a subir
publicar muitos livros fazer muitos filhos
cair nas armadilhas do ignominoso adiantamento da raça
queimar fitas diplomas canudos méritos referências
cortar raízes olvidar ancestrais
ressuscitar súbitamente do longo suicídio de classe
acordar bruscamente do sonho abraçar o futuro truncado
conter a superficialidade do toque e a esterilidade do gesto
ser capaz de lidar com a precaridade do amor e a perpetuidade do mal
ignorar a espada de Dámocles gerir o projecto vencedor de morte
enterrar o espírito varrer as cinzas da alma
sustentar o peso do ser
"Imaginative work... is like a spider's web, attached ever so lightly perhaps, but still attached to life at all four corners.... But when the web is pulled askew, hooked up at the edge, torn in the middle, one remembers that these webs are not spun in midair by incorporeal creatures, but are the work of suffering, human beings, and are attached to the grossly material things, like health and money and the houses we live in." [Virginia Woolf]
Com Alma
dos cantos da vida parte um véu cobrindo corpos e almas
um braço se estende tentando romper o véu
conseguirá porque o véu é frágil,
talvez não consiga talvez não tenha força para romper
talvez o véu não se rompa porque o braço demora demora
a esperança é depositada apenas na alma,
se a alma existir pode-se esperar que o braço rompa o véu com a alma.
Despir o nú e agasalhar o mal vestido, como quem quer a coisa e nunca se espanta, senão à despedida.
Resta um canto suave e um prazer imedido na exorcisão das teias do armário
qualquer ovo que se machuca entre os dedos e se espalha lentamente pelo corpo, auspiciosamente, entre a calma do ócio e o desprezo da revolta, um sorriso e talvez um aperto de mãos. De costas. Para dar mais prazer.
E um vento que sopra rasteiro, sibilino uma tempestade que nunca desabará e o choque. Carnaval.
Resta um canto suave e um prazer imedido na exorcisão das teias do armário
qualquer ovo que se machuca entre os dedos e se espalha lentamente pelo corpo, auspiciosamente, entre a calma do ócio e o desprezo da revolta, um sorriso e talvez um aperto de mãos. De costas. Para dar mais prazer.
E um vento que sopra rasteiro, sibilino uma tempestade que nunca desabará e o choque. Carnaval.
Cobriste-me de espuma e traçaste para mim uma linha na bruma não sei para me defenderes de quê mas preferia que me cantasses a canção da Luna: não te negues que os chuis já só correm em estafetas testemunhadas pelos ex-casse-têtes e os cães de polícias passaram a apanha-bolas nos estádios de futebol e cada soldado tem apenas a honrosa e paternal missão de velar por um ninho de pássaros.
Mas volta aqui e poisa a mão, talvez me convença assim de que chorar já não vale um sopro e me disponha a esperar pelo dia em que me posses trazer em primeira mão a notícia do fim da CORRIDA.
Vindo do Songhäi te encontrei encantado, a água e as palmeiras dos teus olhos me entregavas. Sempre desviadas, tuas pérolas me eram destinadas, me fecundavas e abandonavas com teu suor desértico, quando em teu ardour bebeu meu sabor.
II.
Esquecer-me-ei, vou chamar-te Amor e, com as pérolas reencontradas, conquistar a areia do deserto para secar este rio que, entretanto, me corre do fundo do útero, pelos olhos.
III.
Reinvento o sonho e curvo-me para apanhar o teu retrato caído. Ao mesmo tempo, um imenso nevoeiro para lá de nós e um grito de mulher na noite, um choro de criança para além da parede, chamando para a normalidade.
No cimo do tambor continuar brincando, queria, mas não. Cantar o belo, mas as mãos, os olhos, a carne? (...) ter olhos passando tempo pelo imediato, eu passo por aqui, sempre (como não encontro o infinito) a angústia no caso que não há. Como romper, rasgar para essa lua entrar, que luz? Aonde o sol e o tempo para soltar a voz, a fórmula do amar à força de estar, quem entende? Oh, discreto riso, suave tristeza, olho molhado, olhando-se, amor fardado (falhado?) o que será dessa música sanguínea?
DESAFIO
De sangue na ponta (da) lança desafio a palavra jorrada do colo tão nosso, tranzido.
Trata-se apenas de a encontrar neste saco placentário em frase e a voz para a dizer pelo furacão em transe
cumprindo o tempo do poema parido assim em desespero quando de paz se quer alado, se desfaz como suspiro na boca ao lado.
CANTO DOS OLHOS
Olhamos para os cantos buscando um espaço anunciado tempo de sonho em espiral no percurso das veias já corroídas pelo vazio, raíz da loucura se não preenchido a tempo. É nosso o mais precário pedaço esfriado algures no lado cálido do ser fonte em cristal, onde por vezes um grito nasce espirrando vagos temores e logo perece amordaçado entre os dentes, revolta? Uma vontade grande de ter respostas ignoradas pela água se as perguntas vêm da carne, o caos se instala em cada célula ameaça desmoronar o castelo sonhado real na língua do mar, deixando-nos na palma da mão um lamento se na transparência da lágrima nenhum caminho acontece.
* O Tilito era o coordenador da JMPLA de Malange. Conheci-o aquando de uma reuniao provincial das estruturas juvenis locais, em que participei pelo DOM nacional em 1976, ou ja' 1977 - nao me lembro bem agora. Durante cerca de duas semanas partilhei com aquelas dezenas de jovens os seus entusiasmos, criticas e angustias. Lembro-me da camarata em que eles dormiam durante aqueles dias - nao me espantaria nada se alguem me viesse dizer que todos os ocupantes daquela camarata acabaram sendo vitimas do "27" de uma maneira ou de outra, entre mortos, presos e "marcados" para o resto da vida...
* O Tilito era o coordenador da JMPLA de Malange. Conheci-o aquando de uma reuniao provincial das estruturas juvenis locais, em que participei pelo DOM nacional em 1976, ou ja' 1977 - nao me lembro bem agora. Durante cerca de duas semanas partilhei com aquelas dezenas de jovens os seus entusiasmos, criticas e angustias. Lembro-me da camarata em que eles dormiam durante aqueles dias - nao me espantaria nada se alguem me viesse dizer que todos os ocupantes daquela camarata acabaram sendo vitimas do "27" de uma maneira ou de outra, entre mortos, presos e "marcados" para o resto da vida...
Já se soltou uma folha da mulembeira nosso abrigo, não a podemos repôr porque ao nosso sopro de ansiedade se desprendeu para o vento que a poisou numa lágrima de ignorância pingando sem dar por nada
eis-nos de novo sem saber porque não quebramos logo esse galho não explicando o sopro o vento tão pouco a lágrima.
Depois da tempestade restamos abertos aos pássaros bem no cimo do rio espreitando a luz mas não nos abraçamos, só a língua nos damos a beber
o regressar da folha já em lágrima ignorada por trás do sol bem no cimo do rio aguardando uma palavra da mulemba.
Rosa de há tempos quando voltaste uma rede de amor amuletos de sedução no balaio de certezas carne em festa e um certo coração,
rosa de agora que ficaste a magia esquecida entre os dedos sofrida energia detida em frasco de perfume,
quero-te rosa, mas, a esterilidade do gesto e a superficialidade do toque um fogo quase afogado encubado,
rosa, quero que voltes mas não fiques, cumpre a tua missão de nuvem carregada e dá-me a tua chuva. Apenas.
{A.S. in S.O.S.}
A Rosa era uma jovem mulher negra. E tenho para mim que o seu apelido era Bonita. Dizia-se que tinha estado em Portugal a estudar e de la’ voltado assim: feita Joana Maluca dos anos 80. Rosa Bonita e Joana Maluca, duas mulheres-simbolo do pior tipo de violencia que pode ser exercido sobre a mulher: a sua coisificacao sexual enquanto deficiente mental; Rosa Bonita e Joana Maluca, duas mulheres-testemunho do pior mal de que pode enfermar toda uma cidade, toda uma sociedade: a total indiferenca, quando nao "divertimento", com que os seus casos eram “olhados”… Enquanto a Joana Maluca “exercia o seu mister” nas ruas e bordeis do Bairro Operario dos anos 60 e 70, servindo os contingentes de tropa portuguesa que ali eram despejados em camioes, a Rosa Bonita “exercia-o” nas ruas e hoteis da Baixa Luandense, servindo os cooperantes estrangeiros do pos-independencia. Mas, se da Joana Maluca dos meus tempos de miuda eu tinha medo, fugia dela quando a via, da Rosa Bonita nao: era muito simpatica, trazia sempre um sorriso nos labios e uma flor no cabelo. Vi-a varias vezes gravida – nao sei o que foi feito dos filhos… Um dia quis ter uma conversa com ela. Uma conversa como um banho de chuva que lhe lavasse o corpo e a alma e soltasse o seu perfume original. Uma conversa que a fizesse voltar a si. Apenas.
A Rosa era uma jovem mulher negra. E tenho para mim que o seu apelido era Bonita. Dizia-se que tinha estado em Portugal a estudar e de la’ voltado assim: feita Joana Maluca dos anos 80. Rosa Bonita e Joana Maluca, duas mulheres-simbolo do pior tipo de violencia que pode ser exercido sobre a mulher: a sua coisificacao sexual enquanto deficiente mental; Rosa Bonita e Joana Maluca, duas mulheres-testemunho do pior mal de que pode enfermar toda uma cidade, toda uma sociedade: a total indiferenca, quando nao "divertimento", com que os seus casos eram “olhados”… Enquanto a Joana Maluca “exercia o seu mister” nas ruas e bordeis do Bairro Operario dos anos 60 e 70, servindo os contingentes de tropa portuguesa que ali eram despejados em camioes, a Rosa Bonita “exercia-o” nas ruas e hoteis da Baixa Luandense, servindo os cooperantes estrangeiros do pos-independencia. Mas, se da Joana Maluca dos meus tempos de miuda eu tinha medo, fugia dela quando a via, da Rosa Bonita nao: era muito simpatica, trazia sempre um sorriso nos labios e uma flor no cabelo. Vi-a varias vezes gravida – nao sei o que foi feito dos filhos… Um dia quis ter uma conversa com ela. Uma conversa como um banho de chuva que lhe lavasse o corpo e a alma e soltasse o seu perfume original. Uma conversa que a fizesse voltar a si. Apenas.
Crê-se que Deus maior artista de todos os tempos e céus criou entre outros seres os humanos [esses que vivem, morrem e são] numa simples, mas precisa mística operação de barros, sopros e ceres em dias prenhes de mistérios num ritual labor de água, sangue e pão.
E assim o terá feito por uma simples razão: que suas criações fossem entendidas tanto em prosas como em versos entre outros seres pelos evolucionistas [esses que pensam, formulam e teorizam] de todas as gerações e universos.
E assim simples e misteriosamente o são.
A.S.
Escultura de autor anonimo, obtida a beira de uma estrada poeirenta do Botswana, nas coordenadas 23°26′S 20°0′E / 23.433°S do Tropico de Capricornio: a fronteira mais a sul da zona torrida dos tropicos, e a latitude mais austral em que o sol brilha directamente sobre a cabeça ao meio dia.
Do chão ruge um leão que após comer uma estrela encontra a lua e nela se estatela em fugaz mansidão
aí desprende-se da tela a onça chorona que num salto pleno de destreza tudo transporta com leveza para a parangona.
Invocados os espíritos à sala volta a razão e a tragédia se instala conduzindo a angústia pelo labirinto em plena comunhão
dá-se então à música um reforço e a ela se volta presa ao chão a multidão que não conseguindo matar a cobra vive com ela ao pescoço e diz que tá tudo bem.
Resulta que os sonhos andam em parafuso para uso desuso e abuso novela na barriga chupa (a)o pé dos coitados
mas a música já nos desce mais às mãos nada há que nos falte tudo vem a nós o reino e a vontade se não houver desfalque
e sobretudo se não duvidarmos das nossas mãos e soubermos buscar a certeza na ponta da estrela.
[Ilustracao: Tomckokôkô (1999) - JOEL NAMBOZOUINA, Republica Centro-Africana]
EM BUSCA DE CERTEZA
Do chão ruge um leão que após comer uma estrela encontra a lua e nela se estatela em fugaz mansidão
aí desprende-se da tela a onça chorona que num salto pleno de destreza tudo transporta com leveza para a parangona.
Invocados os espíritos à sala volta a razão e a tragédia se instala conduzindo a angústia pelo labirinto em plena comunhão
dá-se então à música um reforço e a ela se volta presa ao chão a multidão que não conseguindo matar a cobra vive com ela ao pescoço e diz que tá tudo bem.
Resulta que os sonhos andam em parafuso para uso desuso e abuso novela na barriga chupa (a)o pé dos coitados
mas a música já nos desce mais às mãos nada há que nos falte tudo vem a nós o reino e a vontade se não houver desfalque
e sobretudo se não duvidarmos das nossas mãos e soubermos buscar a certeza na ponta da estrela.
SINGLE BLACK FEMALE seeks male companionship, ethnicity unimportant.
I'm a very good looking girl who LOVES to play. I love long walks in the woods, riding in your pickup truck, hunting, camping, and fishing trips, cozy winter nights relaxing by the fire. Candlelight dinners will have me eating out of your hand. I'll be at your front door when you come home from work, wearing only what nature gave me. Kiss me, and I'm all yours. Call 591-1234 and ask for Daisy.
{Over 15,000 men found themselves talking to the local Humane Society about an 8 week old Labrador Retriever. Men are so easy.}
Algures na Park Avenue mister Bull-Dog, imponente e severo, trincou a nádega do menino.
Nao era esfomeado o dog, nem assaltante o menino, o Bull apenas se enganara ao aflorar o cravo que sua ama para ele plantara ali no jardim
onde o menino, impávido e sereno, se aliviava da desinteria causada pelo leite que ao bull-dog roubara quando decidira levar vida de cão.
A.S., “S.O.S.”, Luanda - 1984
N.B.: Coloquei aqui este poema ja' depois de ter feito o post e de ele ter sido comentado, por ter a ver com o titulo do post e nao porque tenha qualquer intencao ou sentido humoristicos. Quanto muito ele pretendeu ser uma satira. O menino aqui referido e', na actual realidade social angolana, um "menino de rua". Na altura em que este poema foi escrito, o fenomeno "menino de rua" em Luanda ainda nao era a desgraca a que hoje se assiste, mas ja' existia... embora o tipo de assimetrias sociais e economicas que o provoca, associadas ou nao a guerra, fosse considerado por muitos em Angola, incluindo alguns que hoje se reclamam de "criticos do sistema", como uma caracteristica exclusiva dos "paises capitalistas ocidentais". Dai que tenha colocado a estoria "algures na Park Avenue" (que na altura ainda nao conhecia e que podera' ser a de NY ou qualquer outra, porque ha varias no mundo)... E com isto acho que iniciei a minha "carreira" como 'critica literaria' da minha propria poesia... ;-)
Men Are Easy
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{Over 15,000 men found themselves talking to the local Humane Society about an 8 week old Labrador Retriever. Men are so easy.}
Algures na Park Avenue mister Bull-Dog, imponente e severo, trincou a nádega do menino.
Nao era esfomeado o dog, nem assaltante o menino, o Bull apenas se enganara ao aflorar o cravo que sua ama para ele plantara ali no jardim
onde o menino, impávido e sereno, se aliviava da desinteria causada pelo leite que ao bull-dog roubara quando decidira levar vida de cão.
A.S., “S.O.S.”, Luanda - 1984
N.B.: Coloquei aqui este poema ja' depois de ter feito o post e de ele ter sido comentado, por ter a ver com o titulo do post e nao porque tenha qualquer intencao ou sentido humoristicos. Quanto muito ele pretendeu ser uma satira. O menino aqui referido e', na actual realidade social angolana, um "menino de rua". Na altura em que este poema foi escrito, o fenomeno "menino de rua" em Luanda ainda nao era a desgraca a que hoje se assiste, mas ja' existia... embora o tipo de assimetrias sociais e economicas que o provoca, associadas ou nao a guerra, fosse considerado por muitos em Angola, incluindo alguns que hoje se reclamam de "criticos do sistema", como uma caracteristica exclusiva dos "paises capitalistas ocidentais". Dai que tenha colocado a estoria "algures na Park Avenue" (que na altura ainda nao conhecia e que podera' ser a de NY ou qualquer outra, porque ha varias no mundo)... E com isto acho que iniciei a minha "carreira" como 'critica literaria' da minha propria poesia... ;-)