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Tuesday, 12 May 2009

AFROMAN!

«Não sou racista, sou realista»


Yannick Ngombo, o Afroman, é o «rapper» do momento em Angola. Ele foi o músico que mais gente conseguiu levar ao estádio dos Coqueiros, naquele que seria o seu primeiro grande espectáculo ao vivo, a 23 de Janeiro último. Mais de 22 mil pessoas (cerca de 30 mil segundo um repórter do Jornal de Angola) se fizeram presentes, numa noite inesquecível, para a apresentação do seu álbum de estreia, o «Mentalidade».


[Mentalidade]

Antes, foi o «culpado» do encerramento da «portaria» do cine Atlântico, à Vila Alice, devido aos tumultos que se registaram na primeira sessão de venda pública do seu disco, quando os apreciadores da sua música não olharam a meios para terem a obra nas mãos. A polícia teve de intervir e as autoridades, sob pressão dos donos das lojas situadas no cine, decidiram-se pelo encerramento dessa kitanda dos músicos, transferindo-a para o Parque da Independência, umas centenas de metros mais adiante.


[Possas]

A popularidade da sua música reside no facto de espelhar nelas as vivências que a maior parte de nós tem no dia-a-dia. Em suma, fala dos problemas do povo e o povo, em face disso, se revê nas suas canções. Yannick Ngombo é, seguramente, o último grande fenómeno de massas.


[Controla-se]

Ele é p’ra aqui chamado hoje devido a uma canção que está a «bater» pelo país, por se debruçar sobre uma questão que temos digerido mal, mas que, embora muitos queiram fingir, existe a olhos nus, com consequências negativas para a sociedade. Estamos a falar da discriminação racial, em especial aquela que se abate sobre a maioria do povo: os negros.




[Pra Que]

Com o título de «Realista», a música retrata diversas situações em que esta prática é patente, apelando para que se ponha fim a ela, sob pena de se hipotecar o futuro dos nossos filhos e netos, como quem diz, do próprio país. Curiosamente, ela não faz parte do «Mentalidade», embora já estivesse pronta na altura em que este álbum foi produzido.


[Pelo Menos Bom Dia - feat. Matias Damasio]

Porque razão é que tal aconteceu, foi o que o Semanário Angolense pretendeu, entre outras coisas, saber de Yannick Ngombo, o Afroman, a quem alguns sectores já estão a rotular de «racista». Ele diz que «racista» não é, mas simplesmente «realista».


[Vai e Vem]

Numa entrevista que concedeu ao Semanário Angolense, da qual, no entanto, nos vamos apenas ater aos envolvimentos da canção em apreço num primeiro momento, Yannick Ngombo explica as razões da não inclusão no «Mentalidade» e do seu surgimento no mercado paralelo, ou seja, nos candongueiros e noutras «discotecas-auto» ou ainda em festas ou reuniões de amigos e compadres, onde acaba por assumir um carácter com um quê de «revolucionário», devido à controversa temática nela contida.


[A Luta]

«A música foi feita em função da experiência que tive no exterior. Não há pior coisa do que ser discriminado racialmente. E isto aconteceu comigo. Quando voltei para o país, encontrei a mesma coisa: é o negro a discriminar o próprio negro e o branco a fazer a mesma coisa ou pior. Possas que horror!», justifica o autor do «1-2-3».




[1-2-3]

Yannick Ngombo diz que a música se refere a muitas «cenas de discriminação que têm acontecido cá entre nós, principalmente em relação à cor de cada um».
Segundo o homem de Maquela do Zombo, foi «a força da traição e da pirataria» que colocou a canção no ar, uma vez que estava a projectar inseri-la no seu segundo álbum. «E porque não no Mentalidade, se já estava pronta?», arriscou o jornalista, ao que Yannick Ngombo disse ter sentido necessidade de fazer uma espécie de auto-censura à canção, antes de se decidir em torná-la pública.


[Traz Azar]

«A música faz menção a cenas de discriminação. Você tem vivido esta realidade?», insistiu o jornalista. «Mano, eu não canto à toa. Tudo que canto são situações vividas e todas reais. Fui muitas vezes humilhado em discotecas, em agências bancárias, e em muitos outros sítios públicos», responde.


[Quem Fez a Mulher]

Acrescentando: «Por exemplo, uma vez, quando estive em Benguela e na Huíla, fui travado na porta de uma discoteca por ser negro. Segundo eles (os porteiros), negro em péssimas condições ou calçado de sapatilhas, não podia ter acesso. Mas, os dois brancos que vinham depois de mim, trajados quase com a mesma roupa, tiveram acesso. Isto é coisa de admirar, porque todos nós somos um só povo. Nós não devemos ter preconceito, porque se a cena continuar assim, o que poderá surgir é mais uma guerra».

[Texto do Semanario Angolense, 09/05/09 - onde podera' tambem encontrar a letra de "Realista"]


[Coisa Minima]

N.B.: Nao e' por nada, mas exemplos praticos de "Coisa Minima" podem ser encontrados aqui.

«Não sou racista, sou realista»


Yannick Ngombo, o Afroman, é o «rapper» do momento em Angola. Ele foi o músico que mais gente conseguiu levar ao estádio dos Coqueiros, naquele que seria o seu primeiro grande espectáculo ao vivo, a 23 de Janeiro último. Mais de 22 mil pessoas (cerca de 30 mil segundo um repórter do Jornal de Angola) se fizeram presentes, numa noite inesquecível, para a apresentação do seu álbum de estreia, o «Mentalidade».


[Mentalidade]

Antes, foi o «culpado» do encerramento da «portaria» do cine Atlântico, à Vila Alice, devido aos tumultos que se registaram na primeira sessão de venda pública do seu disco, quando os apreciadores da sua música não olharam a meios para terem a obra nas mãos. A polícia teve de intervir e as autoridades, sob pressão dos donos das lojas situadas no cine, decidiram-se pelo encerramento dessa kitanda dos músicos, transferindo-a para o Parque da Independência, umas centenas de metros mais adiante.


[Possas]

A popularidade da sua música reside no facto de espelhar nelas as vivências que a maior parte de nós tem no dia-a-dia. Em suma, fala dos problemas do povo e o povo, em face disso, se revê nas suas canções. Yannick Ngombo é, seguramente, o último grande fenómeno de massas.


[Controla-se]

Ele é p’ra aqui chamado hoje devido a uma canção que está a «bater» pelo país, por se debruçar sobre uma questão que temos digerido mal, mas que, embora muitos queiram fingir, existe a olhos nus, com consequências negativas para a sociedade. Estamos a falar da discriminação racial, em especial aquela que se abate sobre a maioria do povo: os negros.




[Pra Que]

Com o título de «Realista», a música retrata diversas situações em que esta prática é patente, apelando para que se ponha fim a ela, sob pena de se hipotecar o futuro dos nossos filhos e netos, como quem diz, do próprio país. Curiosamente, ela não faz parte do «Mentalidade», embora já estivesse pronta na altura em que este álbum foi produzido.


[Pelo Menos Bom Dia - feat. Matias Damasio]

Porque razão é que tal aconteceu, foi o que o Semanário Angolense pretendeu, entre outras coisas, saber de Yannick Ngombo, o Afroman, a quem alguns sectores já estão a rotular de «racista». Ele diz que «racista» não é, mas simplesmente «realista».


[Vai e Vem]

Numa entrevista que concedeu ao Semanário Angolense, da qual, no entanto, nos vamos apenas ater aos envolvimentos da canção em apreço num primeiro momento, Yannick Ngombo explica as razões da não inclusão no «Mentalidade» e do seu surgimento no mercado paralelo, ou seja, nos candongueiros e noutras «discotecas-auto» ou ainda em festas ou reuniões de amigos e compadres, onde acaba por assumir um carácter com um quê de «revolucionário», devido à controversa temática nela contida.


[A Luta]

«A música foi feita em função da experiência que tive no exterior. Não há pior coisa do que ser discriminado racialmente. E isto aconteceu comigo. Quando voltei para o país, encontrei a mesma coisa: é o negro a discriminar o próprio negro e o branco a fazer a mesma coisa ou pior. Possas que horror!», justifica o autor do «1-2-3».




[1-2-3]

Yannick Ngombo diz que a música se refere a muitas «cenas de discriminação que têm acontecido cá entre nós, principalmente em relação à cor de cada um».
Segundo o homem de Maquela do Zombo, foi «a força da traição e da pirataria» que colocou a canção no ar, uma vez que estava a projectar inseri-la no seu segundo álbum. «E porque não no Mentalidade, se já estava pronta?», arriscou o jornalista, ao que Yannick Ngombo disse ter sentido necessidade de fazer uma espécie de auto-censura à canção, antes de se decidir em torná-la pública.


[Traz Azar]

«A música faz menção a cenas de discriminação. Você tem vivido esta realidade?», insistiu o jornalista. «Mano, eu não canto à toa. Tudo que canto são situações vividas e todas reais. Fui muitas vezes humilhado em discotecas, em agências bancárias, e em muitos outros sítios públicos», responde.


[Quem Fez a Mulher]

Acrescentando: «Por exemplo, uma vez, quando estive em Benguela e na Huíla, fui travado na porta de uma discoteca por ser negro. Segundo eles (os porteiros), negro em péssimas condições ou calçado de sapatilhas, não podia ter acesso. Mas, os dois brancos que vinham depois de mim, trajados quase com a mesma roupa, tiveram acesso. Isto é coisa de admirar, porque todos nós somos um só povo. Nós não devemos ter preconceito, porque se a cena continuar assim, o que poderá surgir é mais uma guerra».

[Texto do Semanario Angolense, 09/05/09 - onde podera' tambem encontrar a letra de "Realista"]


[Coisa Minima]

N.B.: Nao e' por nada, mas exemplos praticos de "Coisa Minima" podem ser encontrados aqui.

Wednesday, 30 January 2008

ANGOLA: TEMA PARA DEBATE

Acabo de receber de Luanda, por email, o artigo abaixo e a musica de Dog Murras a que ele se refere. Apesar de assinado por Tchize’ dos Santos, filha do Presidente Eduardo dos Santos, parece nao haver certeza absoluta de que ela tera’ sido efectivamente a sua autora – o que tambem nao me e’ possivel, por agora, confirmar, uma vez que nao ha’ nele qualquer indicacao da sua publicacao em orgaos de comunicacao formais.
De qualquer modo, a abordagem que nele se faz do tema, bem como o conteudo da musica a que se refere, merecem certamente reflexao e… debate!
Vamos a isso?





Free file hosting by Ripway.com



Angola (Dog Murras)



ARTIGO DE TCHIZÉ DOS SANTOS EM RESPOSTA À´MUSICA DO DOG MURRAS

Ouvi recentemente a polémica música do cantor Dog Murras e como jornalista, não pude ficar indiferente à sua letra.

Creio que o Dog Murras canta algumas verdades, mas como figura de referência que é, não devia fomentar a desunião e a frustração que todo o povo angolano vive, no anseio por uma angola reconstruida e totalmente recuperada da guerra, onde todos os nossos filhos possam ir à escola e onde já não teremos as "diarreias" de que ele fala e que todos nós já tivemos. Mas o próprio Dog Murras há de saber que não se constroi um apaís em 5 anos, nem em 10.

Ninguém gosta de ser relembrado que vive num país com difiuldades, estradas esburacadas, paludismo e outros problemas, aos quais estão expostos TODOS os angolanos, RICOS E POBRES. Todos passamos pelos mesmos buracos e todos sofremos no mesmo trânsito no dia-a-dia, Ricos e Pobres. E todos continuamos a amar a nossa Angola, Ricos e Pobres. Temos é que trabalhar UNIDOS por uma angola melhor e por um futuro melhor para os nossos filhos, ricos ou pobres. E para esquecer as "malambas", então juntamo-nos ao fim-de semana e dançamos os Kuduros do momento que geralmente, esperamos que nos entretenham e nos façam esquecer os problemas, ao invês de nos frustrar ainda mais.

É preciso entender que os obstáculos fazem parte do percurso e que os "engraxadores", "bajuladores", os "Kotas Bosses", e outros delinquentes do colarinho branco, existem em todas as sociedades e passam por cima de outros cidadãos, ricos ou pobres. É o dia-a-dia da batalha pelo ganha pão. A discrepância social infelizmente é um mal global que temos que combater, JUNTOS, e não desunidos e odiando-nos uns aos outros e fomentando o ódio, ou criando bodes espiatórios como os emigrantes estrangeiros ou os ricos, que na sua maioria um dia também foram pobres.

O problema é que infelizmente alguns "pseudo-novos-ricos" angolanos esquecem as suas origens e querem passar por cima do seu vizinho que saiu do mesmo bairro e acham que têm direito a tudo na lei da força. Isto é que tem que acabar, pois o dinheiro e o poder não identificam um ser humano. Os seus valores sim o caracterizam, fazendo dele um bom ou mau angolano.


[Continue a ler aqui]

Dog Murras & Os Ricos
Acabo de receber de Luanda, por email, o artigo abaixo e a musica de Dog Murras a que ele se refere. Apesar de assinado por Tchize’ dos Santos, filha do Presidente Eduardo dos Santos, parece nao haver certeza absoluta de que ela tera’ sido efectivamente a sua autora – o que tambem nao me e’ possivel, por agora, confirmar, uma vez que nao ha’ nele qualquer indicacao da sua publicacao em orgaos de comunicacao formais.
De qualquer modo, a abordagem que nele se faz do tema, bem como o conteudo da musica a que se refere, merecem certamente reflexao e… debate!
Vamos a isso?





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Angola (Dog Murras)



ARTIGO DE TCHIZÉ DOS SANTOS EM RESPOSTA À´MUSICA DO DOG MURRAS

Ouvi recentemente a polémica música do cantor Dog Murras e como jornalista, não pude ficar indiferente à sua letra.

Creio que o Dog Murras canta algumas verdades, mas como figura de referência que é, não devia fomentar a desunião e a frustração que todo o povo angolano vive, no anseio por uma angola reconstruida e totalmente recuperada da guerra, onde todos os nossos filhos possam ir à escola e onde já não teremos as "diarreias" de que ele fala e que todos nós já tivemos. Mas o próprio Dog Murras há de saber que não se constroi um apaís em 5 anos, nem em 10.

Ninguém gosta de ser relembrado que vive num país com difiuldades, estradas esburacadas, paludismo e outros problemas, aos quais estão expostos TODOS os angolanos, RICOS E POBRES. Todos passamos pelos mesmos buracos e todos sofremos no mesmo trânsito no dia-a-dia, Ricos e Pobres. E todos continuamos a amar a nossa Angola, Ricos e Pobres. Temos é que trabalhar UNIDOS por uma angola melhor e por um futuro melhor para os nossos filhos, ricos ou pobres. E para esquecer as "malambas", então juntamo-nos ao fim-de semana e dançamos os Kuduros do momento que geralmente, esperamos que nos entretenham e nos façam esquecer os problemas, ao invês de nos frustrar ainda mais.

É preciso entender que os obstáculos fazem parte do percurso e que os "engraxadores", "bajuladores", os "Kotas Bosses", e outros delinquentes do colarinho branco, existem em todas as sociedades e passam por cima de outros cidadãos, ricos ou pobres. É o dia-a-dia da batalha pelo ganha pão. A discrepância social infelizmente é um mal global que temos que combater, JUNTOS, e não desunidos e odiando-nos uns aos outros e fomentando o ódio, ou criando bodes espiatórios como os emigrantes estrangeiros ou os ricos, que na sua maioria um dia também foram pobres.

O problema é que infelizmente alguns "pseudo-novos-ricos" angolanos esquecem as suas origens e querem passar por cima do seu vizinho que saiu do mesmo bairro e acham que têm direito a tudo na lei da força. Isto é que tem que acabar, pois o dinheiro e o poder não identificam um ser humano. Os seus valores sim o caracterizam, fazendo dele um bom ou mau angolano.


[Continue a ler aqui]

Dog Murras & Os Ricos

Thursday, 7 June 2007

INICIANDO COLABORACAO NO 'GLOBAL VOICES ONLINE'


Com este post, iniciei a minha colaboracao regular no Global Voices Online (GV), cobrindo a “lusosfera” Africana:

"Kitanda - Uma Porta Aberta para a 'Lusosfera' Africana

Quando desejar encontrar o seu caminho na “lusosfera” Africana, um dos melhores lugares para comecar e’ o blog “Kitanda”. O “Kitanda” tornou-se ao longo dos anos, desde o seu lancamento em 2004, uma referencia incontornavel na “lusosfera”.

Dedicado principalmente a divulgacao de poesia escrita em Portugues por autores de todos os paises lusofonos, o Kitanda tambem oferece frequentemente um olhar critico sobre acontecimentos e situacoes com impacto social e politico nesses paises e internacionalmente, tudo “embrulhado” em imagens evocativas, musica ambiente e, nao menos importante, um abrangente ‘blogroll’ da “lusosfera”.

O ‘post’ em anexo e’ apenas um exemplo do seu espirito: apresenta a musica e letra de "Luanda", do grupo luandense de ‘hiphop’ “Kalibrados”, expressando as tristezas e alegrias da capital Angolana e dos seus cidadaos. A musica e’ particularmente enriquecida pelo uso da linha melodica de uma das perolas da musica Angolana, “Monami”, pela eminente cantora, recentemente falecida, Lourdes Vandunem.”
(Ler o ‘post’ integral aqui)

***

Confesso que, embora sentindo-me honrada, nao me foi nada facil aceitar o convite que me foi feito ha’ uns meses pelo GV, por saber o quanto a tarefa nao sera’ facil. Mas, finalmente, decidi-me a aceitar o desafio, movida pelos objectivos que norteiam o GV: “agregar, preservar e amplificar a conversacao global online – iluminando lugares e pessoas que outros midia frequentemente ignoram.”

Mais especificamente, a minha funcao consistira’ em seleccionar, traduzir para o Ingles e editar ‘posts’ publicados em Portugues na “lusosfera”, sediada ou nao em Africa, com particular enfase nos ‘PALOP’. Os criterios de seleccao serao baseados nao tanto nos ‘blogs’ ou respectivos ‘bloggers’, mas nos ‘posts’ e sua relevancia para os paises em questao e os objectivos do GV.

Obviamente, nao me sera’ possivel estar sempre a par, em tempo oportuno, de todos os posts que obedecam a esses criterios na “lusosfera” Africana, pelo que desde ja’ agradeco a colaboracao de todos os ‘bloggers’ e leitores interessados em ver um particular ‘post’ publicado no GV que mo comuniquem pelo endereco electronico que poderao encontrar no ‘profile’ deste blog.

Com este post, iniciei a minha colaboracao regular no Global Voices Online (GV), cobrindo a “lusosfera” Africana:

"Kitanda - Uma Porta Aberta para a 'Lusosfera' Africana

Quando desejar encontrar o seu caminho na “lusosfera” Africana, um dos melhores lugares para comecar e’ o blog “Kitanda”. O “Kitanda” tornou-se ao longo dos anos, desde o seu lancamento em 2004, uma referencia incontornavel na “lusosfera”.

Dedicado principalmente a divulgacao de poesia escrita em Portugues por autores de todos os paises lusofonos, o Kitanda tambem oferece frequentemente um olhar critico sobre acontecimentos e situacoes com impacto social e politico nesses paises e internacionalmente, tudo “embrulhado” em imagens evocativas, musica ambiente e, nao menos importante, um abrangente ‘blogroll’ da “lusosfera”.

O ‘post’ em anexo e’ apenas um exemplo do seu espirito: apresenta a musica e letra de "Luanda", do grupo luandense de ‘hiphop’ “Kalibrados”, expressando as tristezas e alegrias da capital Angolana e dos seus cidadaos. A musica e’ particularmente enriquecida pelo uso da linha melodica de uma das perolas da musica Angolana, “Monami”, pela eminente cantora, recentemente falecida, Lourdes Vandunem.”
(Ler o ‘post’ integral aqui)

***

Confesso que, embora sentindo-me honrada, nao me foi nada facil aceitar o convite que me foi feito ha’ uns meses pelo GV, por saber o quanto a tarefa nao sera’ facil. Mas, finalmente, decidi-me a aceitar o desafio, movida pelos objectivos que norteiam o GV: “agregar, preservar e amplificar a conversacao global online – iluminando lugares e pessoas que outros midia frequentemente ignoram.”

Mais especificamente, a minha funcao consistira’ em seleccionar, traduzir para o Ingles e editar ‘posts’ publicados em Portugues na “lusosfera”, sediada ou nao em Africa, com particular enfase nos ‘PALOP’. Os criterios de seleccao serao baseados nao tanto nos ‘blogs’ ou respectivos ‘bloggers’, mas nos ‘posts’ e sua relevancia para os paises em questao e os objectivos do GV.

Obviamente, nao me sera’ possivel estar sempre a par, em tempo oportuno, de todos os posts que obedecam a esses criterios na “lusosfera” Africana, pelo que desde ja’ agradeco a colaboracao de todos os ‘bloggers’ e leitores interessados em ver um particular ‘post’ publicado no GV que mo comuniquem pelo endereco electronico que poderao encontrar no ‘profile’ deste blog.

Sunday, 15 April 2007

MAKAS NA SANZALA GLOBAL

Durante a semana que hoje termina, de tao absorvida que estive em "makas de sanzala", fui seguindo apenas de soslaio algumas das interessantes makas que se desenrolavam na sanzala global. Um pouco para "acabar de vez com a cultura", isto e', com a maka na sanzala local, deixo aqui este resumo das makas globais da semana.


I. IMUS FURORE


Don Imus, de 67 anos de idade, apresentador de um popular programa de radio da cadeia americana MSNBC, afirmou aos seus microfones que as atletas da equipa feminina de basquetebol do Colegio Rutgers (jovens negras de cerca de 19/20 anos) nao passavam de umas “nappy-headed hos”… intraduzivel, mas altamente ofensivo para as vizadas e nao so’! Porque disse ele isso? Aparentemente, por nenhuma outra razao senao porque lhe apeteceu… E tambem, ao que parece, porque se sentiu justificado pela moda de assim se tratar as jovens mulheres negras no mundo da musica rap e hip-hop (lembram-se da maka Ophra vs. 50 Cent que AQUI relatei nas primeiras semanas deste blog?).

("I got a little 50 cent in my i-pod")
Seguiu-se um furor nacional em que praticamente toda a gente que tem alguma coisa a dizer sobre sexismo e racismo nos EUA apareceu nas networks televisivas a dizer de sua justica, desde Whoopi Goldberg, a varios dirigentes do NAACP, passando pelos Revs. Jesse Jackson e Al Sharpleton. Barack Obama, por exemplo, disse: "He didn't just cross the line, he fed into some of the worst stereotypes." Por seu lado, Snoop Dogg, defendendo a sua “dama” (i.e. o rap e hip-hop), saiu-se com esta: "It's a completely different scenario, first of all, we ain't no old-a— white men that sit up on MSNBC going hard on black girls. We are rappers that have these songs coming from our minds and our souls that are relevant to what we feel. I will not let them mother—s say we in the same league." O que levou alguns analistas a considerarem se pelo menos parte da confusao de “linhas de demarcacao” nao adviria de as ofensas terem sido proferidas fora de um "contexto artistico"…

Resultado: apesar de se ter desculpado perante as ofendidas e o pais, Don Imus foi sumariamente despedido da MSNBC! ... Indeed, outros mundos!!!


II. PRESIDENTE DO BANCO MUNDIAL EM SARILHOS...


O Presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz tem estado envolvido em grandes makas nos ultimos dias por ter sido apanhado em “flagrante delito”… Bom, nao exactamente, mas o que acontece e’ que ele e’ acusado pelo seu board e staff de usar o pior tipo de favoritismo para com uma sua ex(?) namorada, Shaha Riza, funcionaria do BM, facultando-lhe uma imerecida promocao e um aumento de salario que a pos a ganhar cerca de USD 200 mil/ano, o que se diz ser mais do que a remuneracao de Condolezza Rice…

Resultado: Wolfowitz emitiu um pedido publico de desculpas, mas nao parece que as tenha ainda obtido de todos quantos pedem a sua demissao imediata, a excepcao de George Bush que e’ o seu mais firme apoiante… Por isso vai dar hoje uma conferencia de imprensa e talvez durante a proxima semana se saiba o desfecho desta maka.


III. KASPAROV: DO XADREZ A POLITICA... AO XADREZ... AND BACK!


Gary Kasparov emergiu ha poucas horas do que parecia ser uma longa obscuridade, depois de ter feito as headlines mundiais como campeao mundial de xadrez durante varios anos, como um dos mais determinados oponentes do actual presidente Russo. Enquanto escrevia este post, ele estava a ser entrevistado, numa sessao pre-gravada do programa “Hardtalk” da BBC News 24 (... uma especie de combate de boxe entre entrevistador e entrevistado, nao aconselhavel aos de tensao alta ou de espirito enfraquecido por decadas de censura stalinista...), onde explicava como pretende aplicar as suas tacticas e estrategias de xadrez para dar um xeque-mate a Putin e como, possivelmente, ainda voltara' ao top do xadrez mundial… Mas nao foi por isso que ele fez as headlines.

Kasparov foi levado para o xadrez nas ultimas horas de ontem, entre varias dezenas de outros manifestantes que, em Moscovo, protestavam, no que apelidaram a “Marcha da Dissidencia” contra o regime de Putin, na historica Praca Pushkin, nas imediacoes do Kremlin, gritando: “precisamos de uma nova Russia”! Kasparov era um dos lideres da manifestacao, como dirigente do movimento “The Other Russia” (uma coligacao que engloba um vasto espectro de participantes, desde liberais pro-ocidentais a esquerdistas radicais) que acusa Putin de estar a desmantelar a democracia no pais.

A manifestacao aconteceu poucas horas depois de Boris Berezovsky, um bilionario russo que se tem destacado na oposicao a Putin, ter afirmado ontem ao ‘Guardian’ estar a planear uma revolucao a partir do seu exilio em Londres, o que contribuiu para uma ainda maior tensao nas relacoes Londres/Moscovo desde a misteriosa (?) morte por envenenamento ha’ alguns meses de um outro opositor do regime de Putin exilado em Londres, Alexander Litvinenko.

Kasparov foi, entretanto, posto em liberdade.


IV. WILLS & KATE JA' ERAM...


Finalmente, a grande historia que eclodiu nas ultimas horas e que certamente fara’ as headlines por muito tempo ainda: “Prince William and Kate Middleton are no longer an item!” Assim surgiu ontem a noticia como um exclusivo do tabloide londrino “The Sun” que, entretanto, se difundiu por toda a imprensa mundial.
Aparentemente, depois de 4 anos de namoro e alguns meses de quase noivado, o filho de Diana e a sua namorada, apenas um pouco acima da "middle England" no sistema de classes Britanico, decidiram seguir cada um o seu caminho. Do lado dele sugere-se que as razoes terao a haver com a prioridade que decidiu dar a sua carreira militar e, do lado dela, ao intenso escrutinio dos media e a perseguicao dos papparazzi (ring any bells?)…

Durante a semana que hoje termina, de tao absorvida que estive em "makas de sanzala", fui seguindo apenas de soslaio algumas das interessantes makas que se desenrolavam na sanzala global. Um pouco para "acabar de vez com a cultura", isto e', com a maka na sanzala local, deixo aqui este resumo das makas globais da semana.


I. IMUS FURORE


Don Imus, de 67 anos de idade, apresentador de um popular programa de radio da cadeia americana MSNBC, afirmou aos seus microfones que as atletas da equipa feminina de basquetebol do Colegio Rutgers (jovens negras de cerca de 19/20 anos) nao passavam de umas “nappy-headed hos”… intraduzivel, mas altamente ofensivo para as vizadas e nao so’! Porque disse ele isso? Aparentemente, por nenhuma outra razao senao porque lhe apeteceu… E tambem, ao que parece, porque se sentiu justificado pela moda de assim se tratar as jovens mulheres negras no mundo da musica rap e hip-hop (lembram-se da maka Ophra vs. 50 Cent que AQUI relatei nas primeiras semanas deste blog?).

("I got a little 50 cent in my i-pod")
Seguiu-se um furor nacional em que praticamente toda a gente que tem alguma coisa a dizer sobre sexismo e racismo nos EUA apareceu nas networks televisivas a dizer de sua justica, desde Whoopi Goldberg, a varios dirigentes do NAACP, passando pelos Revs. Jesse Jackson e Al Sharpleton. Barack Obama, por exemplo, disse: "He didn't just cross the line, he fed into some of the worst stereotypes." Por seu lado, Snoop Dogg, defendendo a sua “dama” (i.e. o rap e hip-hop), saiu-se com esta: "It's a completely different scenario, first of all, we ain't no old-a— white men that sit up on MSNBC going hard on black girls. We are rappers that have these songs coming from our minds and our souls that are relevant to what we feel. I will not let them mother—s say we in the same league." O que levou alguns analistas a considerarem se pelo menos parte da confusao de “linhas de demarcacao” nao adviria de as ofensas terem sido proferidas fora de um "contexto artistico"…

Resultado: apesar de se ter desculpado perante as ofendidas e o pais, Don Imus foi sumariamente despedido da MSNBC! ... Indeed, outros mundos!!!


II. PRESIDENTE DO BANCO MUNDIAL EM SARILHOS...


O Presidente do Banco Mundial, Paul Wolfowitz tem estado envolvido em grandes makas nos ultimos dias por ter sido apanhado em “flagrante delito”… Bom, nao exactamente, mas o que acontece e’ que ele e’ acusado pelo seu board e staff de usar o pior tipo de favoritismo para com uma sua ex(?) namorada, Shaha Riza, funcionaria do BM, facultando-lhe uma imerecida promocao e um aumento de salario que a pos a ganhar cerca de USD 200 mil/ano, o que se diz ser mais do que a remuneracao de Condolezza Rice…

Resultado: Wolfowitz emitiu um pedido publico de desculpas, mas nao parece que as tenha ainda obtido de todos quantos pedem a sua demissao imediata, a excepcao de George Bush que e’ o seu mais firme apoiante… Por isso vai dar hoje uma conferencia de imprensa e talvez durante a proxima semana se saiba o desfecho desta maka.


III. KASPAROV: DO XADREZ A POLITICA... AO XADREZ... AND BACK!


Gary Kasparov emergiu ha poucas horas do que parecia ser uma longa obscuridade, depois de ter feito as headlines mundiais como campeao mundial de xadrez durante varios anos, como um dos mais determinados oponentes do actual presidente Russo. Enquanto escrevia este post, ele estava a ser entrevistado, numa sessao pre-gravada do programa “Hardtalk” da BBC News 24 (... uma especie de combate de boxe entre entrevistador e entrevistado, nao aconselhavel aos de tensao alta ou de espirito enfraquecido por decadas de censura stalinista...), onde explicava como pretende aplicar as suas tacticas e estrategias de xadrez para dar um xeque-mate a Putin e como, possivelmente, ainda voltara' ao top do xadrez mundial… Mas nao foi por isso que ele fez as headlines.

Kasparov foi levado para o xadrez nas ultimas horas de ontem, entre varias dezenas de outros manifestantes que, em Moscovo, protestavam, no que apelidaram a “Marcha da Dissidencia” contra o regime de Putin, na historica Praca Pushkin, nas imediacoes do Kremlin, gritando: “precisamos de uma nova Russia”! Kasparov era um dos lideres da manifestacao, como dirigente do movimento “The Other Russia” (uma coligacao que engloba um vasto espectro de participantes, desde liberais pro-ocidentais a esquerdistas radicais) que acusa Putin de estar a desmantelar a democracia no pais.

A manifestacao aconteceu poucas horas depois de Boris Berezovsky, um bilionario russo que se tem destacado na oposicao a Putin, ter afirmado ontem ao ‘Guardian’ estar a planear uma revolucao a partir do seu exilio em Londres, o que contribuiu para uma ainda maior tensao nas relacoes Londres/Moscovo desde a misteriosa (?) morte por envenenamento ha’ alguns meses de um outro opositor do regime de Putin exilado em Londres, Alexander Litvinenko.

Kasparov foi, entretanto, posto em liberdade.


IV. WILLS & KATE JA' ERAM...


Finalmente, a grande historia que eclodiu nas ultimas horas e que certamente fara’ as headlines por muito tempo ainda: “Prince William and Kate Middleton are no longer an item!” Assim surgiu ontem a noticia como um exclusivo do tabloide londrino “The Sun” que, entretanto, se difundiu por toda a imprensa mundial.
Aparentemente, depois de 4 anos de namoro e alguns meses de quase noivado, o filho de Diana e a sua namorada, apenas um pouco acima da "middle England" no sistema de classes Britanico, decidiram seguir cada um o seu caminho. Do lado dele sugere-se que as razoes terao a haver com a prioridade que decidiu dar a sua carreira militar e, do lado dela, ao intenso escrutinio dos media e a perseguicao dos papparazzi (ring any bells?)…

Friday, 22 December 2006

MAKAS NA SANZALA (I)

Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…


5. Rappers give a voice to Angola's cry for democracy
(Thursday, June 17, 2004 )

Angola, a melting-pot of African, Portuguese and foreign musical influences, abounds in locally produced pop music. Much of it is recorded non-commercially and sold by street vendors. Most of it is cheerfully apolitical. But rap music is emerging as a medium of protest. In many nations rap is viewed with suspicion by the authorities as subversive and anti-establishment. This is no different in Angola - but in this southern African country, the "subversive" message of rappers is criticism of the country's lack of democracy.
There is already a small but vocal political opposition to the government, which last week joined forces at a pro-democracy forum to press President Jose Eduardo dos Santos to call new elections. Angola also has an outspoken independent press, but newspapers are little read outside elite urban circles. The spoken word - and in particular the growing number of songs from political rappers - therefore have great power in a country where fewer than half of all adults can read. Compact discs and tapes by political rappers such as MCK and Brigadeiro 10 Pacotes (Brigadier Ten Packets) are copied privately and eagerly passed from hand to hand. MCK, an underground rapper formerly unknown outside hip-hop circles, sprang to unexpected notoriety last November.
Several of President Dos Santos's guards allegedly killed a man for singing anti-government lyrics from MCK's song, "The Technique, the Causes and the Consequences". Eyewitnesses say the enraged men beat, dragged and drowned the victim, a car-washer at Mussulo quay, at a departure point for ferries to Luanda's beaches. A criminal investigation was launched, but no charges have yet been brought against the men. "The song cost this guy his life because it reflects Angolan reality and strikes at the people in power," says the rapper. "We still have a government that doesn't allow freedom of expression."
Two years after the end of their nearly three-decade civil war, some young Angolans such as MCK (pronouncedEmcee Kappa in Portuguese) are beginning to demand greater accountability from their leaders. President Dos Santos's MPLA party rules in a government of national unity with Unita, its former guerrilla foes. The government's political opponents and Angola's foreign partners, led by the US, have been pushing the president to call elections. Pressure is also growing for greater transparency in the management of Angola's abundant oil and other resources, which could help stimulate growth in this poor country. "Each discovery of an oil well widens the gap between those who have and those who do not," MCK says. "Unfortunately, oil shines for just a few." The 23-year-old rapper - a university student of philosophy by day - declines to give his real name for fear of reprisals. He says he has received threats, and commercial stations will not play his music. He lives in Luanda's working-class Chaba neighbourhood, where open sewers run down mud alleys between a labyrinth of cramped houses.
Malaria, spread by uncollected rubbish and stagnant water, is common in Chaba, as in Luanda's other poor quarters. The son of a driver and a retired charwoman, he began singing in 1995. "I come from a family that's typically religious and self-examining," he says. "I was lucky to live with siblings who were in the habit of asking questions." By the subversive, even violent standards of much US rap and hip-hop, MCK's lyrics are mild. "We have more firearms than dolls, fewer universities than discos, and more bars than libraries," the song that sparked November's alleged murder claims.
Friends of the victim, Arsenio Sebastiao, draped another MCK lyric over his coffin: "Who speaks the truth ends up in a coffin/ What sort of democracy is this?" Brigadeiro 10 Pacotes's lyrics are more militant, alleging that Mr Dos Santos is corrupt and calling for his overthrow. A full-time rapper and inhabitant of Luanda's squalid Hojy ya Henda quarter, like MCK he sells CDs by word of mouth. "The government plays a different tune and song/ But people no longer want to dance or smile/ We are fed up with the situation," his best-known song goes. It has become an anthem of Luanda's working poor, often heard in minibus commuter taxis. Recently in Huambo, a provincial inland city, Angolans listening to a recording by the rapper on a street turned it down as a group of strangers approached.

Source: Financial Times

More articles on this and related issues can be found, among other places,
here, here and here.
Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…


5. Rappers give a voice to Angola's cry for democracy
(Thursday, June 17, 2004 )

Angola, a melting-pot of African, Portuguese and foreign musical influences, abounds in locally produced pop music. Much of it is recorded non-commercially and sold by street vendors. Most of it is cheerfully apolitical. But rap music is emerging as a medium of protest. In many nations rap is viewed with suspicion by the authorities as subversive and anti-establishment. This is no different in Angola - but in this southern African country, the "subversive" message of rappers is criticism of the country's lack of democracy.
There is already a small but vocal political opposition to the government, which last week joined forces at a pro-democracy forum to press President Jose Eduardo dos Santos to call new elections. Angola also has an outspoken independent press, but newspapers are little read outside elite urban circles. The spoken word - and in particular the growing number of songs from political rappers - therefore have great power in a country where fewer than half of all adults can read. Compact discs and tapes by political rappers such as MCK and Brigadeiro 10 Pacotes (Brigadier Ten Packets) are copied privately and eagerly passed from hand to hand. MCK, an underground rapper formerly unknown outside hip-hop circles, sprang to unexpected notoriety last November.
Several of President Dos Santos's guards allegedly killed a man for singing anti-government lyrics from MCK's song, "The Technique, the Causes and the Consequences". Eyewitnesses say the enraged men beat, dragged and drowned the victim, a car-washer at Mussulo quay, at a departure point for ferries to Luanda's beaches. A criminal investigation was launched, but no charges have yet been brought against the men. "The song cost this guy his life because it reflects Angolan reality and strikes at the people in power," says the rapper. "We still have a government that doesn't allow freedom of expression."
Two years after the end of their nearly three-decade civil war, some young Angolans such as MCK (pronouncedEmcee Kappa in Portuguese) are beginning to demand greater accountability from their leaders. President Dos Santos's MPLA party rules in a government of national unity with Unita, its former guerrilla foes. The government's political opponents and Angola's foreign partners, led by the US, have been pushing the president to call elections. Pressure is also growing for greater transparency in the management of Angola's abundant oil and other resources, which could help stimulate growth in this poor country. "Each discovery of an oil well widens the gap between those who have and those who do not," MCK says. "Unfortunately, oil shines for just a few." The 23-year-old rapper - a university student of philosophy by day - declines to give his real name for fear of reprisals. He says he has received threats, and commercial stations will not play his music. He lives in Luanda's working-class Chaba neighbourhood, where open sewers run down mud alleys between a labyrinth of cramped houses.
Malaria, spread by uncollected rubbish and stagnant water, is common in Chaba, as in Luanda's other poor quarters. The son of a driver and a retired charwoman, he began singing in 1995. "I come from a family that's typically religious and self-examining," he says. "I was lucky to live with siblings who were in the habit of asking questions." By the subversive, even violent standards of much US rap and hip-hop, MCK's lyrics are mild. "We have more firearms than dolls, fewer universities than discos, and more bars than libraries," the song that sparked November's alleged murder claims.
Friends of the victim, Arsenio Sebastiao, draped another MCK lyric over his coffin: "Who speaks the truth ends up in a coffin/ What sort of democracy is this?" Brigadeiro 10 Pacotes's lyrics are more militant, alleging that Mr Dos Santos is corrupt and calling for his overthrow. A full-time rapper and inhabitant of Luanda's squalid Hojy ya Henda quarter, like MCK he sells CDs by word of mouth. "The government plays a different tune and song/ But people no longer want to dance or smile/ We are fed up with the situation," his best-known song goes. It has become an anthem of Luanda's working poor, often heard in minibus commuter taxis. Recently in Huambo, a provincial inland city, Angolans listening to a recording by the rapper on a street turned it down as a group of strangers approached.

Source: Financial Times

More articles on this and related issues can be found, among other places,
here, here and here.

MAKAS NA SANZALA (I)

Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…
4. O facto de o artigo original do Mia Couto ter sido publicado ha dois anos atras, levou-me a ir repescar alguns artigos publicados por aquela altura, em 2004...

Angola: Quando o Silêncio do Povo Fala
Rafael Marques, 17 Janeiro 2004
(Parte II)
Frantz Fanon alertara os políticos africanos sobre a politização das massas. Não é nem pode ser através de um discurso político: "Politizar é abrir o espírito, é despertar o espírito, dar luz ao espírito". Nos musseques, onde se encontram as massas - a maioria absoluta - o silêncio do povo deixou-se estar embarrado pela miséria, tolhido pela guerra e pela repressão. A faixa 11, "Ekos de Revolta", desperta o tal espírito adormecido - balumuka. É uma análise sobre "um povo que sofre nas mãos dos governantes". Disseca a importação de disfarces ocidentais por parte da classe política que saqueia os recursos do povo e retribui com "discursos bonitinhos". "Ekos de revolta" apela aos cidadãos para que "estejam preparados/ o silêncio do povo fala/ a passividade do povo rebenta o balão". A rima resume a mensagem sobre e para o povo:

"Nós somos politicamente domesticados


Economicamente colonizados


Culturalmente estagnados


Socialmente atrasados/ (...)"

Donde provém essa consciência crítica? MCK indica a vida ao seu redor. Terminou o curso médio de Gestão e não tem acesso à universidade pública nem fundos para ingressar nas privadas. "Viver no musseque é ser herói". Miséria, insalubridade... Todavia, essa consciência é fruto de um processo de absorção das conquistas da liberdade de imprensa. O cantor tem, debaixo da cama, uma grande colecção de recortes de imprensa, onde abundam casos de corrupção, desgoverno e sei lá o quê! "Compomos as nossas letras com base no que captamos também da imprensa e da Rádio Ecclésia". Apesar da sua circulação pouco expressiva, em média total 30,000 exemplares/ semana para mais de 3,5 milhões de habitantes em Luanda, a imprensa independente tem sido o verdadeiro motor da consciência democrática que se vai impondo. Numa dinâmica espontânea e retro-alimentar, a faixa 6 do "Trincheira de Ideias", "Topikos p'ro artigo" é um tributo à imprensa independente - que a inspira - e uma paródia ao embelezamento oficial da realidade. Tem a participação do Brigadeiro Mata-Fracos, Iconoclasta, Kua Kubanza e Mil & Segundo. O tema explora, com positivismo forçado, o que mudou e o que está na mesma e vai constatando que "o salão de beleza da polícia tem novos penteados/ (...) o Parlamento, afinal, é uma comédia/ e quem pode fazer algo não liga/ (...) os jovens estão perdidos no deserto como camelos (...).

E a conversa continua no local do crime, no embarcadouro do Mussulo, onde a guarda do Senhorio, ao meio-dia e em praça pública, torturou e afogou o Cherokee. Ali onde a elite se refastela e goza os privilégios de uma Angola só para poucos. Naquele cemitério da verdade, onde o silêncio do povo é festejado com risos de escárnio. Faz parte do processo. "Os nossos corações estão arreados", lamenta um lavador de carros pela perda do colega e amigo. Em voz alta descarrega a sua raiva. "As autoridades que tinham vontade de matar, deviam apanhar o MCK e não um inocente. Querem ver-nos a viver como mudos".
MCK baixa a cara, coça os chinelos gastos pelas andanças e suspira. Não é inocente. O lavador de carros não o conhece. Este continua a falar, a dizer que não se deve tocar mais no assunto para não aborrecer os homens da presidência e da DNIC que por lá "andam a rondar". Quanto mais fala no medo menos amedrontado parece. Prefere, talvez, o discurso indirecto, manter a capa do medo. Outros lavadores juntam-se-lhe para confirmar o medo e as pressões a que estão sujeitos, enquanto desprezam o tal medo e dizem o que têm a dizer. Gostam e identificam-se com o "Sei lá o quê uáué". Talvez se sentissem honrados em saber que o MCK está no meio deles. A pesar as causas e consequências do seu exercício de cidadania.

Não faz parte dos cálculos e cenários elaborados a intromissão da música nos meandros da política. Sobretudo desse rap inventado no princípio dos anos 70 nos ghettos de Bronx, Nova Iorque, por marginais com muita imaginação, que fundiam ritmos e melodias de músicas conhecidas com poesia cáustica sobre a vida nos ghettos. Sem aproximação (…) qual será o desfecho em relação ao abismo que separa o poder, a oposição, os centros urbanos, os musseques de Luanda, os antigos combatentes, os palácios dos governadores e o resto do país?
Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…
4. O facto de o artigo original do Mia Couto ter sido publicado ha dois anos atras, levou-me a ir repescar alguns artigos publicados por aquela altura, em 2004...

Angola: Quando o Silêncio do Povo Fala
Rafael Marques, 17 Janeiro 2004
(Parte II)
Frantz Fanon alertara os políticos africanos sobre a politização das massas. Não é nem pode ser através de um discurso político: "Politizar é abrir o espírito, é despertar o espírito, dar luz ao espírito". Nos musseques, onde se encontram as massas - a maioria absoluta - o silêncio do povo deixou-se estar embarrado pela miséria, tolhido pela guerra e pela repressão. A faixa 11, "Ekos de Revolta", desperta o tal espírito adormecido - balumuka. É uma análise sobre "um povo que sofre nas mãos dos governantes". Disseca a importação de disfarces ocidentais por parte da classe política que saqueia os recursos do povo e retribui com "discursos bonitinhos". "Ekos de revolta" apela aos cidadãos para que "estejam preparados/ o silêncio do povo fala/ a passividade do povo rebenta o balão". A rima resume a mensagem sobre e para o povo:

"Nós somos politicamente domesticados


Economicamente colonizados


Culturalmente estagnados


Socialmente atrasados/ (...)"

Donde provém essa consciência crítica? MCK indica a vida ao seu redor. Terminou o curso médio de Gestão e não tem acesso à universidade pública nem fundos para ingressar nas privadas. "Viver no musseque é ser herói". Miséria, insalubridade... Todavia, essa consciência é fruto de um processo de absorção das conquistas da liberdade de imprensa. O cantor tem, debaixo da cama, uma grande colecção de recortes de imprensa, onde abundam casos de corrupção, desgoverno e sei lá o quê! "Compomos as nossas letras com base no que captamos também da imprensa e da Rádio Ecclésia". Apesar da sua circulação pouco expressiva, em média total 30,000 exemplares/ semana para mais de 3,5 milhões de habitantes em Luanda, a imprensa independente tem sido o verdadeiro motor da consciência democrática que se vai impondo. Numa dinâmica espontânea e retro-alimentar, a faixa 6 do "Trincheira de Ideias", "Topikos p'ro artigo" é um tributo à imprensa independente - que a inspira - e uma paródia ao embelezamento oficial da realidade. Tem a participação do Brigadeiro Mata-Fracos, Iconoclasta, Kua Kubanza e Mil & Segundo. O tema explora, com positivismo forçado, o que mudou e o que está na mesma e vai constatando que "o salão de beleza da polícia tem novos penteados/ (...) o Parlamento, afinal, é uma comédia/ e quem pode fazer algo não liga/ (...) os jovens estão perdidos no deserto como camelos (...).

E a conversa continua no local do crime, no embarcadouro do Mussulo, onde a guarda do Senhorio, ao meio-dia e em praça pública, torturou e afogou o Cherokee. Ali onde a elite se refastela e goza os privilégios de uma Angola só para poucos. Naquele cemitério da verdade, onde o silêncio do povo é festejado com risos de escárnio. Faz parte do processo. "Os nossos corações estão arreados", lamenta um lavador de carros pela perda do colega e amigo. Em voz alta descarrega a sua raiva. "As autoridades que tinham vontade de matar, deviam apanhar o MCK e não um inocente. Querem ver-nos a viver como mudos".
MCK baixa a cara, coça os chinelos gastos pelas andanças e suspira. Não é inocente. O lavador de carros não o conhece. Este continua a falar, a dizer que não se deve tocar mais no assunto para não aborrecer os homens da presidência e da DNIC que por lá "andam a rondar". Quanto mais fala no medo menos amedrontado parece. Prefere, talvez, o discurso indirecto, manter a capa do medo. Outros lavadores juntam-se-lhe para confirmar o medo e as pressões a que estão sujeitos, enquanto desprezam o tal medo e dizem o que têm a dizer. Gostam e identificam-se com o "Sei lá o quê uáué". Talvez se sentissem honrados em saber que o MCK está no meio deles. A pesar as causas e consequências do seu exercício de cidadania.

Não faz parte dos cálculos e cenários elaborados a intromissão da música nos meandros da política. Sobretudo desse rap inventado no princípio dos anos 70 nos ghettos de Bronx, Nova Iorque, por marginais com muita imaginação, que fundiam ritmos e melodias de músicas conhecidas com poesia cáustica sobre a vida nos ghettos. Sem aproximação (…) qual será o desfecho em relação ao abismo que separa o poder, a oposição, os centros urbanos, os musseques de Luanda, os antigos combatentes, os palácios dos governadores e o resto do país?

MAKAS NA SANZALA (I)

Voltando a "Receita para um jet-set nacional" (Angolano ou Mocambicano):
Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente
3. O facto de o artigo original do Mia Couto ter sido publicado ha dois anos atras, levou-me a ir repescar alguns artigos publicados por aquela altura, em 2004, e decidi postar aqui dois deles, um em Portugues e outro em Ingles. Aqui vai o primeiro:

Angola: Quando o Silêncio do Povo Fala
Rafael Marques, 17 Janeiro 2004

"Rap é falar em rima ao ritmo de uma batida", Kurtis Blow

(Parte I)
Pelos labirínticos becos, que retalham a encosta do Margoso, serpenteiam imparáveis cursos de águas fétidas. Por aí passam e habitam, de olfacto habituado, gerações de cidadãos, entregues ao esquecimento. É por esses caminhos, por esses musseques politicamente abandonados, que uma geração de jovens, excluídos e ressentidos, engendra uma nova revolução política, através do rap e acumuladas frustrações de uma cidadania roubada.
MCK, 22 anos, ganhou notoriedade. (...) A 26 de Novembro de 2003, Arsénio Sebastião "Cherokee", 27 anos, foi morto por cantar "A téknica, as kausas e as konsekuências" de MCK, também conhecida como o "Sei lá o quê, uáué". Por sua vez, Cherokee tornou-se num símbolo da injustiça em Angola(...). Esse facto trouxe à tona a insustentável leveza do poder. Uma ditadura de mais de um quarto de século estremece ao som improvisado da verdade. A estrofe "quem fala a verdade vai p'ro caixão", acabou por ser o único elo de entendimento entre o cantor, a vítima e os carrascos (o poder).
Ao descer por aqueles becos, a caminho da sua casa, MCK goza com o seu estatuto social sobretudo quando, às manhãs, dedica-se a acarretar água para casa, com o bidão às costas, ao ombro ou à mão conforme der mais jeito e o número de viagens. "Sou o caçula de casa e tenho de acarretar água todos os dias," conta. O seu quarto é demasiado apertado, mesmo para uma pessoa. Em tempo de chuvas as rezas ajudam a manter a casa e a fé. Nesse espaço de sobrevivência, encontram-se outros activistas do rap. Furacão e o Keyta Mayanda. Faltou o Brigadeiro 10 Pacotes, encarregue de organizar a missa do 30º dia em memória de Cherokee.
O cenário de indignação exibido nos rostos e nos cartazes que perfilam o beco do Marçal, onde o malogrado habitava, é uma demonstração de maturidade e de tomada de consciência sobre a realidade no relacionamento entre o poder e o povo.


Num país onde a solidariedade e o espírito de açambarcamento uniram-se em comunhão de bens, os rappers conseguiram, por sua iniciativa, angariar perto de mil dólares para entregar à família da vítima. Um valor incomparável à fuba e ao feijão depositados pela guarda presidencial em casa do malogrado. Mais, MCK assumiu o compromisso pela escolarização dos dois órfãos de Cherokee. Faz a venda directa dos seus discos e os magros proventos junta-os para a causa a que se propôs. Essa é a revolução. "Temos de promover uma revolução mental para corrigir o que se passou em 1975. Mudou-se o colono, mas manteve-se o sistema. Nós não somos ninguém no nosso próprio país," afirma Keyta Mayanda. "Apertaste no play e caíste numa trincheira de ideias", avisa a música introdutória do CD de MCK, com 13 faixas, com o sugestivo título de "Trincheira de Ideias". Esse álbum e outros de teor mais radical como "Conheça a verdade e a verdade te libertará", do Brigadeiro 10 Pacotes, são gravados e reproduzidos em estúdios improvisados como munições para alimentar frentes específicas.
Voluntariosos taxistas, os indispensáveis candongueiros, transportadores das massas, encontram-se entre os propagadores desse despertar de consciências, essa politização das massas. Põem a tocar, nos seus veículos cheios de passageiros, esse tipo de música contestária e censurada, cuja qualidade vale pelo conteúdo e até mesmo pela batida. "Governo toca mais uma guitarra", do Brigadeiro 10 Pacotes, é o som mais controverso e escutado nesse circuito de distribuição . É uma afronta em discurso directo contra o Soba Grande.
Voltando a "Receita para um jet-set nacional" (Angolano ou Mocambicano):
Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente
3. O facto de o artigo original do Mia Couto ter sido publicado ha dois anos atras, levou-me a ir repescar alguns artigos publicados por aquela altura, em 2004, e decidi postar aqui dois deles, um em Portugues e outro em Ingles. Aqui vai o primeiro:

Angola: Quando o Silêncio do Povo Fala
Rafael Marques, 17 Janeiro 2004

"Rap é falar em rima ao ritmo de uma batida", Kurtis Blow

(Parte I)
Pelos labirínticos becos, que retalham a encosta do Margoso, serpenteiam imparáveis cursos de águas fétidas. Por aí passam e habitam, de olfacto habituado, gerações de cidadãos, entregues ao esquecimento. É por esses caminhos, por esses musseques politicamente abandonados, que uma geração de jovens, excluídos e ressentidos, engendra uma nova revolução política, através do rap e acumuladas frustrações de uma cidadania roubada.
MCK, 22 anos, ganhou notoriedade. (...) A 26 de Novembro de 2003, Arsénio Sebastião "Cherokee", 27 anos, foi morto por cantar "A téknica, as kausas e as konsekuências" de MCK, também conhecida como o "Sei lá o quê, uáué". Por sua vez, Cherokee tornou-se num símbolo da injustiça em Angola(...). Esse facto trouxe à tona a insustentável leveza do poder. Uma ditadura de mais de um quarto de século estremece ao som improvisado da verdade. A estrofe "quem fala a verdade vai p'ro caixão", acabou por ser o único elo de entendimento entre o cantor, a vítima e os carrascos (o poder).
Ao descer por aqueles becos, a caminho da sua casa, MCK goza com o seu estatuto social sobretudo quando, às manhãs, dedica-se a acarretar água para casa, com o bidão às costas, ao ombro ou à mão conforme der mais jeito e o número de viagens. "Sou o caçula de casa e tenho de acarretar água todos os dias," conta. O seu quarto é demasiado apertado, mesmo para uma pessoa. Em tempo de chuvas as rezas ajudam a manter a casa e a fé. Nesse espaço de sobrevivência, encontram-se outros activistas do rap. Furacão e o Keyta Mayanda. Faltou o Brigadeiro 10 Pacotes, encarregue de organizar a missa do 30º dia em memória de Cherokee.
O cenário de indignação exibido nos rostos e nos cartazes que perfilam o beco do Marçal, onde o malogrado habitava, é uma demonstração de maturidade e de tomada de consciência sobre a realidade no relacionamento entre o poder e o povo.


Num país onde a solidariedade e o espírito de açambarcamento uniram-se em comunhão de bens, os rappers conseguiram, por sua iniciativa, angariar perto de mil dólares para entregar à família da vítima. Um valor incomparável à fuba e ao feijão depositados pela guarda presidencial em casa do malogrado. Mais, MCK assumiu o compromisso pela escolarização dos dois órfãos de Cherokee. Faz a venda directa dos seus discos e os magros proventos junta-os para a causa a que se propôs. Essa é a revolução. "Temos de promover uma revolução mental para corrigir o que se passou em 1975. Mudou-se o colono, mas manteve-se o sistema. Nós não somos ninguém no nosso próprio país," afirma Keyta Mayanda. "Apertaste no play e caíste numa trincheira de ideias", avisa a música introdutória do CD de MCK, com 13 faixas, com o sugestivo título de "Trincheira de Ideias". Esse álbum e outros de teor mais radical como "Conheça a verdade e a verdade te libertará", do Brigadeiro 10 Pacotes, são gravados e reproduzidos em estúdios improvisados como munições para alimentar frentes específicas.
Voluntariosos taxistas, os indispensáveis candongueiros, transportadores das massas, encontram-se entre os propagadores desse despertar de consciências, essa politização das massas. Põem a tocar, nos seus veículos cheios de passageiros, esse tipo de música contestária e censurada, cuja qualidade vale pelo conteúdo e até mesmo pela batida. "Governo toca mais uma guitarra", do Brigadeiro 10 Pacotes, é o som mais controverso e escutado nesse circuito de distribuição . É uma afronta em discurso directo contra o Soba Grande.

Tuesday, 19 December 2006

MAKAS NA SANZALA (I)


Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…

2. Ora, voltando ao nosso mundo angolano/mocambicano (e, mais geralmente, africano e mundial) o facto e’ que, pondo de parte a certamente reprovavel poluicao sonora das “emissoes generosas a partir do automovel para toda a cidade”, no texto do Mia as “hipopadas” e “rapadas” aparecem com uma carga implacavelmente negativa, nao deixando qualquer margem de tolerancia para, ou conciliacao com, o lado criativo e progressivo desse genero musical que ha muito deixou de ser uma forma de expressao exclusiva dos ‘gangsta rappers’ dos ghettos americanos, ou sequer apenas das comunidades negras, e hoje nao so’ se situa e reina firmemente no universo da musica popular a nivel global (sendo, notavelmente, a forma previligiada de veiculacao do protesto social na nossa era…) como se vai adicionando de ingredientes, temperos e sabores locais um pouco por todos os cantos da terra. Ai estao, por exemplo, o kwaito Sul-Africano e tambem os emergentes hip-hop Angolano e Mocambicano para o provar… A este proposito, descobri ontem uma ‘hip-hopista/rapper’ angolana, que da pelo nome de Adrenalina (na foto), cujo tema 'SOS', que aparentemente esta a fazer altas ondas na Africa do Sul e faz lembrar um pouco a Lauryn Hill, demonstra que vale bem a pena prestar um pouco mais de atencao a essa que e’ apenas, mais uma, quica a mais versatil, adaptavel e diversificante, das formas de expressao cultural da era moderna. Ainda nao me e' possivel tecnicamente coloca-lo aqui no blog, mas podem ouvir o 'SOS' da Adrenalina aqui.

Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…

2. Ora, voltando ao nosso mundo angolano/mocambicano (e, mais geralmente, africano e mundial) o facto e’ que, pondo de parte a certamente reprovavel poluicao sonora das “emissoes generosas a partir do automovel para toda a cidade”, no texto do Mia as “hipopadas” e “rapadas” aparecem com uma carga implacavelmente negativa, nao deixando qualquer margem de tolerancia para, ou conciliacao com, o lado criativo e progressivo desse genero musical que ha muito deixou de ser uma forma de expressao exclusiva dos ‘gangsta rappers’ dos ghettos americanos, ou sequer apenas das comunidades negras, e hoje nao so’ se situa e reina firmemente no universo da musica popular a nivel global (sendo, notavelmente, a forma previligiada de veiculacao do protesto social na nossa era…) como se vai adicionando de ingredientes, temperos e sabores locais um pouco por todos os cantos da terra. Ai estao, por exemplo, o kwaito Sul-Africano e tambem os emergentes hip-hop Angolano e Mocambicano para o provar… A este proposito, descobri ontem uma ‘hip-hopista/rapper’ angolana, que da pelo nome de Adrenalina (na foto), cujo tema 'SOS', que aparentemente esta a fazer altas ondas na Africa do Sul e faz lembrar um pouco a Lauryn Hill, demonstra que vale bem a pena prestar um pouco mais de atencao a essa que e’ apenas, mais uma, quica a mais versatil, adaptavel e diversificante, das formas de expressao cultural da era moderna. Ainda nao me e' possivel tecnicamente coloca-lo aqui no blog, mas podem ouvir o 'SOS' da Adrenalina aqui.

MAKAS NA SANZALA (I)



Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…

1. Confesso que postei aqui aquele texto do Mia Couto com “segundas intencoes” (nao más intencoes… apenas segundas). Desde que o li pela primeira vez, quando incialmente foi circulado ha cerca de 2 anos, me tem apetecido temperar as suas receitas com outros ingredientes a ver no que da’… mas, bom ou mau, espero que o prato final seja de um sabor diferente, idealmente para melhor. Tentarei “conspurcar” as receitas uma a uma e, como tenho que comecar por alguma, comecarei pelo que ele diz sobre as “rapadas” e “hipopadas” no que toca a Cultura:“(...) a única música que (o jet-setista) escuta são umas 'rapadas e hip-hopadas' que ele generosamente emite da aparelhagem do automóvel para toda a cidade.”
Pois bem, ha uma maka a correr neste momento na sanzala dos EUA entre a Oprah Winfrey e o artista de hip-hop Curtis Jackson, a.k.a. 50 Cent (entre outros, como o rapper/actor Ludacris, a.k.a. Chris Bridges). A maka resume-se ao seguinte: a Oprah critica a atitude misogena de uma certa musica hip-hop e o 50 Cent acusou-a por isso de ser uma “negra com mentalidade branca” ou, na tipificacao do cada vez mais sofisticado ‘black community lingo’, de ser uma “coconut”. Pelo meio, ambas as partes foram arregimentando adeptos das suas respectivas posicoes um pouco por todo o lado, inclusive na comunidade hip-hop. Do lado do 50 Cent houve um intelectual que se interrogou “como e’ que a Oprah se sentia na posicao de critica de um genero musical que e' essencialmente de sensibilidade negra”… Do lado da Oprah ha varias posicoes, incluindo a minha, que apesar de ja ter sido mais radical (nos tempos em que talvez me tenha parecido muito com os pais, ocidentais ou ocidentalizados um pouco por todo o mundo, dos anos 50/60 que viam no ‘rock and roll’ - que pouco mais e' do que um "derivado" do blues afro-americano - a maior ameaca ao mundo tal como o conheciam e em que o meu filho me ensinou que nao era ‘hi-p – ho-p’, como se estivesse com soluços... que se pronunciava mas sim straight ‘hipop’ e me fez interessar e, aos poucos, ir compreendendo melhor personagens, infelizmente tragicos, como o Tupac Shakur, por exemplo…), continuo a nao encontrar qualquer racionalidade na forma degradante como as mulheres sao geralmente retratadas, quer nas letras, quer nos videos desse genero musical...


Voltando a receita para um “jet-set” nacional (Angolano ou Mocambicano): Uma Segunda Leitura, Um Olhar Diferente…

1. Confesso que postei aqui aquele texto do Mia Couto com “segundas intencoes” (nao más intencoes… apenas segundas). Desde que o li pela primeira vez, quando incialmente foi circulado ha cerca de 2 anos, me tem apetecido temperar as suas receitas com outros ingredientes a ver no que da’… mas, bom ou mau, espero que o prato final seja de um sabor diferente, idealmente para melhor. Tentarei “conspurcar” as receitas uma a uma e, como tenho que comecar por alguma, comecarei pelo que ele diz sobre as “rapadas” e “hipopadas” no que toca a Cultura:“(...) a única música que (o jet-setista) escuta são umas 'rapadas e hip-hopadas' que ele generosamente emite da aparelhagem do automóvel para toda a cidade.”
Pois bem, ha uma maka a correr neste momento na sanzala dos EUA entre a Oprah Winfrey e o artista de hip-hop Curtis Jackson, a.k.a. 50 Cent (entre outros, como o rapper/actor Ludacris, a.k.a. Chris Bridges). A maka resume-se ao seguinte: a Oprah critica a atitude misogena de uma certa musica hip-hop e o 50 Cent acusou-a por isso de ser uma “negra com mentalidade branca” ou, na tipificacao do cada vez mais sofisticado ‘black community lingo’, de ser uma “coconut”. Pelo meio, ambas as partes foram arregimentando adeptos das suas respectivas posicoes um pouco por todo o lado, inclusive na comunidade hip-hop. Do lado do 50 Cent houve um intelectual que se interrogou “como e’ que a Oprah se sentia na posicao de critica de um genero musical que e' essencialmente de sensibilidade negra”… Do lado da Oprah ha varias posicoes, incluindo a minha, que apesar de ja ter sido mais radical (nos tempos em que talvez me tenha parecido muito com os pais, ocidentais ou ocidentalizados um pouco por todo o mundo, dos anos 50/60 que viam no ‘rock and roll’ - que pouco mais e' do que um "derivado" do blues afro-americano - a maior ameaca ao mundo tal como o conheciam e em que o meu filho me ensinou que nao era ‘hi-p – ho-p’, como se estivesse com soluços... que se pronunciava mas sim straight ‘hipop’ e me fez interessar e, aos poucos, ir compreendendo melhor personagens, infelizmente tragicos, como o Tupac Shakur, por exemplo…), continuo a nao encontrar qualquer racionalidade na forma degradante como as mulheres sao geralmente retratadas, quer nas letras, quer nos videos desse genero musical...