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Saturday, 9 April 2011

AO QUE (ALGUMAS) ‘BLOGGERS’ ESTAO SUJEITAS… [R]*



AMEACAS SEXUAIS ABAFAM ALGUMAS ‘BLOGGERS’*

Uma escritora freelancer que blogava sobre a industria pornografica foi ameacada com violacao sexual. Uma mae solteira que blogava sobre “os ins and outs de ser mama” foi atacada por um ciber-perseguidor furtivo com acusacoes difamatorias e ameacas de a manter sob vigilancia constante. Kathy Sierra, que obteve um grande sucesso blogando sobre o design de software capaz de tornar as pessoas felizes, tornou-se alvo de ataques anonimos online que incluiram fotos dela com uma corda ao pescoco e uma mordaca sobre a boca.


A medida que as mulheres ganham mais visibilidade na blogosfera, elas vao-se tornando alvos preferenciais de assedio sexual e ameacas. Homens tambem sao assediados e a falta de civilidade e’ uma constante na Web. Mas as mulheres, que constituem cerca de metade da comunidade online, sao particularmente visadas em termos sexualmente ameacadores de forma mais acentuada – uma tendencia que inicialmente se manifestou em chat rooms no inicio dos anos 90 e que se esta’ agora a arrastar para a blogosfera, afirmam peritos e bloggers. Um estudo de 2006 sobre chat rooms, pela Universidade de Maryland, revelou que participantes femininas recebiam 25 vezes mais mensagens sexualmente explicitas e maliciosas do que os masculinos. Um estudo de 2005, pelo Pew Internet & American Life Project, revelou que a proporcao de usuarios da Internet que participavam em grupos de conversa e discussao diminuiu de 28 porcento em 2000 para 17 porcento em 2005, exclusivamente devido ao exodo de mulheres. O estudo atribuiu essa tendencia a “sensibilidade a comportamentos intimidatorios nos chat rooms.”



Joan Walsh, editora em chefe da revista online Salon, afirma que desde que a seccao de cartas do seu site foi automatizada ha’ um ano atras, “tem sido muito dificil ignorar que as criticas a mulheres escritoras sao muito mais brutais e viciosas do que as feitas aos homens.” Arianna Huffington, cujo site Huffington Post esta’ entre os mais destacados blogs fundados por mulheres, afirma que o anonimato online permitiu que “muitos dos preconceitos escuros sobre as mulheres viessem a tona.”
Sierra, cujo recente caso atraiu atencao internacional, teve que suspender o blogging. Outras mulheres comecaram a auto-censurar-se, mudaram para foruns privados ou fecharam os comentarios nos seus blogs. Muitas usam pseudonimos genero-neutrais. Algumas simplesmente tentam aguentar-se. Mas, segundo bloggers e peritos entrevistados, o efeito de repetido assedio e’ tornar as mulheres relutantes em participar online – destruindo a promessa da Internet como um forum igualitario.
Dois factores contribuem particularmente para tal virulencia, segundo os peritos: bloggar num campo tradicionalmente dominado por homens, como a tecnologia, e atingir um certo grau de notoriedade. Ha’ um grande numero de mulheres a serem intimidadas, incluindo academicas, programadoras profissionais e outras mulheres normalmente sem receio de expressarem os seus pontos de vista.


*Extracto por mim traduzido de um relatorio publicado em Abril deste ano pelo Washington Post.

{N.B.: Se, por um lado, este artigo – de que apenas tive conhecimento nos ultimos dias, na sequencia do meu post sobre o racismo na blogosfera – me tras a “consolacao” de ficar a saber que “afinal ate’ nao estou assim tao sozinha” enquanto mulher vitima de assedio sexual e racial na blogosfera e que ha’, pelo menos no mundo civilizado, gente atenta e preocupada com essa questao, por outro lado, lamento que os estudiosos desse fenomeno ainda nao tenham “descoberto” que tambem ha’ “mulheres” envolvidas nesse tipo de ataques contra outras mulheres na blogosfera… E que um estudo que ainda esta’ por fazer e’ sobre em que medida esse nefasto fenomeno afecta particularmente as, ainda relativamente poucas, bloggers negras...}

*[First posted 07/08/07]


Posts relacionados:

Abrindo a Caixa de Pandora (I)

E a Implementacao dessa Lei?



AMEACAS SEXUAIS ABAFAM ALGUMAS ‘BLOGGERS’*

Uma escritora freelancer que blogava sobre a industria pornografica foi ameacada com violacao sexual. Uma mae solteira que blogava sobre “os ins and outs de ser mama” foi atacada por um ciber-perseguidor furtivo com acusacoes difamatorias e ameacas de a manter sob vigilancia constante. Kathy Sierra, que obteve um grande sucesso blogando sobre o design de software capaz de tornar as pessoas felizes, tornou-se alvo de ataques anonimos online que incluiram fotos dela com uma corda ao pescoco e uma mordaca sobre a boca.


A medida que as mulheres ganham mais visibilidade na blogosfera, elas vao-se tornando alvos preferenciais de assedio sexual e ameacas. Homens tambem sao assediados e a falta de civilidade e’ uma constante na Web. Mas as mulheres, que constituem cerca de metade da comunidade online, sao particularmente visadas em termos sexualmente ameacadores de forma mais acentuada – uma tendencia que inicialmente se manifestou em chat rooms no inicio dos anos 90 e que se esta’ agora a arrastar para a blogosfera, afirmam peritos e bloggers. Um estudo de 2006 sobre chat rooms, pela Universidade de Maryland, revelou que participantes femininas recebiam 25 vezes mais mensagens sexualmente explicitas e maliciosas do que os masculinos. Um estudo de 2005, pelo Pew Internet & American Life Project, revelou que a proporcao de usuarios da Internet que participavam em grupos de conversa e discussao diminuiu de 28 porcento em 2000 para 17 porcento em 2005, exclusivamente devido ao exodo de mulheres. O estudo atribuiu essa tendencia a “sensibilidade a comportamentos intimidatorios nos chat rooms.”



Joan Walsh, editora em chefe da revista online Salon, afirma que desde que a seccao de cartas do seu site foi automatizada ha’ um ano atras, “tem sido muito dificil ignorar que as criticas a mulheres escritoras sao muito mais brutais e viciosas do que as feitas aos homens.” Arianna Huffington, cujo site Huffington Post esta’ entre os mais destacados blogs fundados por mulheres, afirma que o anonimato online permitiu que “muitos dos preconceitos escuros sobre as mulheres viessem a tona.”
Sierra, cujo recente caso atraiu atencao internacional, teve que suspender o blogging. Outras mulheres comecaram a auto-censurar-se, mudaram para foruns privados ou fecharam os comentarios nos seus blogs. Muitas usam pseudonimos genero-neutrais. Algumas simplesmente tentam aguentar-se. Mas, segundo bloggers e peritos entrevistados, o efeito de repetido assedio e’ tornar as mulheres relutantes em participar online – destruindo a promessa da Internet como um forum igualitario.
Dois factores contribuem particularmente para tal virulencia, segundo os peritos: bloggar num campo tradicionalmente dominado por homens, como a tecnologia, e atingir um certo grau de notoriedade. Ha’ um grande numero de mulheres a serem intimidadas, incluindo academicas, programadoras profissionais e outras mulheres normalmente sem receio de expressarem os seus pontos de vista.


*Extracto por mim traduzido de um relatorio publicado em Abril deste ano pelo Washington Post.

{N.B.: Se, por um lado, este artigo – de que apenas tive conhecimento nos ultimos dias, na sequencia do meu post sobre o racismo na blogosfera – me tras a “consolacao” de ficar a saber que “afinal ate’ nao estou assim tao sozinha” enquanto mulher vitima de assedio sexual e racial na blogosfera e que ha’, pelo menos no mundo civilizado, gente atenta e preocupada com essa questao, por outro lado, lamento que os estudiosos desse fenomeno ainda nao tenham “descoberto” que tambem ha’ “mulheres” envolvidas nesse tipo de ataques contra outras mulheres na blogosfera… E que um estudo que ainda esta’ por fazer e’ sobre em que medida esse nefasto fenomeno afecta particularmente as, ainda relativamente poucas, bloggers negras...}

*[First posted 07/08/07]


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Abrindo a Caixa de Pandora (I)

E a Implementacao dessa Lei?

Friday, 8 April 2011

O Desespero e a Tragedia de uma Mae Solteira







No dia em que Fadua Larui, de 20 anos, foi até diante da Câmara Municipal da cidade onde morava, lançou gasolina sobre seu corpo e acendeu um isqueiro para se queimar, estava há muito tempo a lutar por uma habitação digna que lhe tinha sido negada pelo facto de ser mãe solteira.
“A minha filha não era uma suicida. Só fez isso para protestar e para defender o direito dos seus filhos”, disse à Agência Efe Fatna Ait Bontaib, mãe da jovem.
Entre quatro muros levantados com tijolos, Bontaib, rodeada pelos seus filhos e netos, afirma que Fadua, uma jovem séria, se via forçada a sair à rua para mendigar.
A sua vida reflecte o desespero que pode desencadear a pobreza, mas, sobretudo, o repúdio que ainda existe em Marrocos pelas mulheres solteiras e divorciadas.
Segundo uma pesquisa sobre prevalência da violência de género, apresentada no início do ano, uma em cada quatro marroquinas – ou seja, 2,1 milhões de mulheres – sofreram um acto de violência sexual em algum momento da sua vida. Em lugares públicos, 10,8 por cento de divorciadas e 9,2 por cento de solteiras foram violadas, relativamente a 2,2 por cento das mulheres casadas.

O destino trágico de Fadua começou a ser traçado quando, aos 15 anos, foi violada e ficou grávida do primeiro dos seus dois filhos. Consciente da vergonha que a gravidez nessas circunstâncias representaria para a sua família, optou por se mudar para a cidade de Agadir, no sudoeste do país, e tempo depois foi para Souk Sebt.
Em 2010, o Governo lançou nesta região uma campanha contra a “mussequização”, que obrigou as pessoas a saírem das casas nas quais viviam em troca de um pequeno terreno, mas não gratuito.
Os responsáveis da Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH) em Souk Sebt asseguram que o terreno que Fadua pretendia comprar lhe foi negado por ela não ter marido.

“Existe um grande problema com as mulheres solteiras em Marrocos. O número é muito elevado e são marginalizadas”, disse à Efe Hassan Ismaili, membro da AMDH.
A jovem reivindicou durante seis meses o seu direito a um terreno, mas não obteve qualquer resposta das autoridades. No dia 21 de Fevereiro, dirigiu-se de manhã à Câmara Municipal de Souk Sebt para voltar a exigir os seus direitos. A AMDH afirma que foi ela humilhada e insultada. Depois disso, Fadua nunca mais voltou para casa.
Um vídeo que circula no YouTube mostra a jovem a gritar que era vítima de uma enorme injustiça. “Não tenho ninguém. Só tenho Deus”, dizia.

[Texto daqui]


Post Relacionado:

Relendo Samora...







No dia em que Fadua Larui, de 20 anos, foi até diante da Câmara Municipal da cidade onde morava, lançou gasolina sobre seu corpo e acendeu um isqueiro para se queimar, estava há muito tempo a lutar por uma habitação digna que lhe tinha sido negada pelo facto de ser mãe solteira.
“A minha filha não era uma suicida. Só fez isso para protestar e para defender o direito dos seus filhos”, disse à Agência Efe Fatna Ait Bontaib, mãe da jovem.
Entre quatro muros levantados com tijolos, Bontaib, rodeada pelos seus filhos e netos, afirma que Fadua, uma jovem séria, se via forçada a sair à rua para mendigar.
A sua vida reflecte o desespero que pode desencadear a pobreza, mas, sobretudo, o repúdio que ainda existe em Marrocos pelas mulheres solteiras e divorciadas.
Segundo uma pesquisa sobre prevalência da violência de género, apresentada no início do ano, uma em cada quatro marroquinas – ou seja, 2,1 milhões de mulheres – sofreram um acto de violência sexual em algum momento da sua vida. Em lugares públicos, 10,8 por cento de divorciadas e 9,2 por cento de solteiras foram violadas, relativamente a 2,2 por cento das mulheres casadas.

O destino trágico de Fadua começou a ser traçado quando, aos 15 anos, foi violada e ficou grávida do primeiro dos seus dois filhos. Consciente da vergonha que a gravidez nessas circunstâncias representaria para a sua família, optou por se mudar para a cidade de Agadir, no sudoeste do país, e tempo depois foi para Souk Sebt.
Em 2010, o Governo lançou nesta região uma campanha contra a “mussequização”, que obrigou as pessoas a saírem das casas nas quais viviam em troca de um pequeno terreno, mas não gratuito.
Os responsáveis da Associação Marroquina de Direitos Humanos (AMDH) em Souk Sebt asseguram que o terreno que Fadua pretendia comprar lhe foi negado por ela não ter marido.

“Existe um grande problema com as mulheres solteiras em Marrocos. O número é muito elevado e são marginalizadas”, disse à Efe Hassan Ismaili, membro da AMDH.
A jovem reivindicou durante seis meses o seu direito a um terreno, mas não obteve qualquer resposta das autoridades. No dia 21 de Fevereiro, dirigiu-se de manhã à Câmara Municipal de Souk Sebt para voltar a exigir os seus direitos. A AMDH afirma que foi ela humilhada e insultada. Depois disso, Fadua nunca mais voltou para casa.
Um vídeo que circula no YouTube mostra a jovem a gritar que era vítima de uma enorme injustiça. “Não tenho ninguém. Só tenho Deus”, dizia.

[Texto daqui]


Post Relacionado:

Relendo Samora...

Saturday, 9 October 2010

Miliband vs. Miliband


A semana passada no UK foi marcada pelo culminar de uma renhida disputa pela lideranca do Partido Trabalhista, visando dar resposta a uma das questoes que aqui colocava em Maio ultimo, aquando da derrota deste partido nas historicas eleicoes gerais que o viram ser preterido em favor dos Conservativos (em alianca, de ultima hora e em cima do joelho, com os Liberais Democratas) depois de mais de uma decada com o controle das redeas do poder: "que futuro politico reserva(va)m os Trabalhistas a Gordon Brown"?


A resposta foi o eclipse total de Brown e a vitoria de Ed Miliband numa campanha que o opos, ao longo dos ultimos meses, a outros quatro candidatos, um dos quais, e aquele com quem acabaria por disputar a decisao final dos eleitores do seu partido, o seu irmao mais velho David, Secretario de Estado (Ministro) para os Negocios Estrangeiros no ultimo Gabinete Trabalhista, no que ficou registado como um duelo historico reminiscente de Cain e Abel...


Pure sibling rivalry ao mais alto nivel!



A disputa ficou tambem marcada pela participacao, pela primeira vez, de uma mulher negra, a Cambridge offspring Diane Abbott, notoria por ter sido igualmente a primeira mulher negra (e, acrescente-se, mae solteira) a ser eleita para o Parlamento de Westminster em 1987.


A victoria de Ed acabou por ditar a saida, por sua decisao propria, do seu irmao David da vida politica activa (ou pelo menos em posicoes de alta visibilidade).



Mas os detalhes tecnicos da campanha sao-nos, mais uma vez, trazidos (en espanol) pelo analista politico Isaac Bigio (aqui).


A semana passada no UK foi marcada pelo culminar de uma renhida disputa pela lideranca do Partido Trabalhista, visando dar resposta a uma das questoes que aqui colocava em Maio ultimo, aquando da derrota deste partido nas historicas eleicoes gerais que o viram ser preterido em favor dos Conservativos (em alianca, de ultima hora e em cima do joelho, com os Liberais Democratas) depois de mais de uma decada com o controle das redeas do poder: "que futuro politico reserva(va)m os Trabalhistas a Gordon Brown"?


A resposta foi o eclipse total de Brown e a vitoria de Ed Miliband numa campanha que o opos, ao longo dos ultimos meses, a outros quatro candidatos, um dos quais, e aquele com quem acabaria por disputar a decisao final dos eleitores do seu partido, o seu irmao mais velho David, Secretario de Estado (Ministro) para os Negocios Estrangeiros no ultimo Gabinete Trabalhista, no que ficou registado como um duelo historico reminiscente de Cain e Abel...


Pure sibling rivalry ao mais alto nivel!



A disputa ficou tambem marcada pela participacao, pela primeira vez, de uma mulher negra, a Cambridge offspring Diane Abbott, notoria por ter sido igualmente a primeira mulher negra (e, acrescente-se, mae solteira) a ser eleita para o Parlamento de Westminster em 1987.


A victoria de Ed acabou por ditar a saida, por sua decisao propria, do seu irmao David da vida politica activa (ou pelo menos em posicoes de alta visibilidade).



Mas os detalhes tecnicos da campanha sao-nos, mais uma vez, trazidos (en espanol) pelo analista politico Isaac Bigio (aqui).

Friday, 27 August 2010

Mocambique: Relendo Samora pelo pincel de Naguib (II) [Updated]






Quando camaradas solteiras ficam gravidas, consideramos isso um escandalo. O
verdadeiro escandalo e’ o nao termos sabido educar essas camaradas, nao lhes ter
feito assumir o verdadeiro sentido do amor e como a propria relacao sexual se
integra dentro do amor e dentro da vida.

Samora Machel




Decidi dedicar um post separado a essa (infeliz) tirada de Samora Machel, incluida no catalogo desta exposicao de Naguib, por um lado, porque ela destaca-se por si propria das outras, geralmente bem mais pacificas e ponderadas, citacoes nela pintadas e, por outro lado, porque se relaciona e enquadra em algumas das discussoes que, sobretudo nos ultimos tempos (e.g. aqui), a este blog me tenho visto forcada a trazer.

Porque infeliz? Porque, de facto, nao me lembro de alguma vez ter lido algo que retrate de forma tao flagrante algumas das contradicoes e perversoes de um certo discurso dito “socialista revolucionario de esquerda”… Dir-se-ia que Samora estava a falar de uma sociedade algures numa ilha paradisiaca, totalmente “abencoada por Deus”, onde o “casamento” e’ uma instituicao culturalmente endogena e dominante, onde nao se contempla a possibilidade de gravidezes involuntarias e onde os "camaradas homens" (solteiros ou casados) sao todos uns “principes perfeitos” ou “santos”!...

Mas a realidade, e ela nao e’ exclusiva da sociedade mocambicana, e’ que a instituicao “casamento” (e da citacao pode inferir-se que Samora se estaria a referir ao casamento oficial, monogamico e, possivelmente, ate’ mesmo religioso) e’ culturalmente exogena a maior parte das, senao a todas as, sociedades africanas: ele foi “trazido” pela colonizacao e manteve-se quase totalmente confinado aos segmentos populacionais (minoritarios) assimilados as culturas e religioes europeias.

Juntamente com o casamento (oficial e/ou religioso) monogamico, os europeus levaram tambem o patriarcado, com o homem como 'chefe de familia', como estrutura familiar dominante, e embora este nao fosse exogeno as sociedades africanas, nunca foi dominante em todas elas. De facto, o matriarcado e as linhagens matrilineares eram e, em grande medida, continuam a ser, dominantes em varias sociedades africanas, onde as mulheres, em particular no que toca a sua sexualidade e direitos reprodutivos, teem um estatuto completamente distinto daquele que lhes e' reservado nas sociedades patriarcais e patrilineares.[*]

Como, entao, compreender-se que um tal discurso tenha sido proferido por um lider revolucionario africano, num pais em "transformacao revolucionaria" para a "criacao do homem novo", em "combate contra a alienacao, aculturacao e obscurantismo promovidos pela religiao", em “recuperacao das suas raizes culturais” e em "resgate dos seus principios e valores morais" (e aqui ressalvo o facto de a citacao nao estar datada, tal como nao o estao as outras citacoes constantes do catalogo, pelo que nao sei se a tera’ proferido ja’ no pos-independencia, ou se ainda durante a guerrilha anti-colonial)? Pessoalmente, so’ o posso entender como uma perversao da ideologia socialista (comunista?) revolucionaria dita de esquerda… [**]


Josina Machel por Malangatana


De facto, em minha opiniao, apenas uma tal perversao pode explicar que a mesma ideologia que via o casamento como uma instituicao "burguesa", que professa(va?) a “emancipacao da mulher”, que a aceitava como “companheira de luta”, incluindo de armas na mao, qualquer que fosse a sua idade (!) - veja-se aqui a biografia da primeira esposa de Samora, Josina Machel, retratada acima por Malangatana e na foto abaixo, a direita - que a incentiva(va?) a tomar as redeas do seu proprio corpo e do seu proprio destino, a tomar as suas proprias decisoes de vida e a assumir a responsabilidade e as consequencias dos seus proprios actos, nao contemple a possibilidade de que essa mesma mulher possa ser “mae solteira” por decisao propria; ou que se tenha encontrado nessa condicao em resultado de uma desilusao amorosa posterior ao seu engravidamento; ou que possa ter engravidado em resultado de uma violacao… Em qualquer dos casos, a assumpcao plena de uma gravidez e’ (deve ser) sempre uma responsabilidade partilhada – e esta nao e’ estritamente uma questao do foro ideologico (e nem sequer do “politicamente correcto”) ou religioso: e’ uma questao dos foros humanistico e etico-moral!


Josina Machel (a direita)


No entanto, em nenhum momento Samora se refere ao "camarada homem" (casado ou solteiro) que engravidou a “camarada solteira”… E o que afirma e’ duplamente perverso: por um lado, assume o preconceito, a culpabilizacao exclusiva e a estigmatizacao social da “mae solteira” como um dado adquirido (“consideramos isso um escandalo”); por outro lado, sugere que o “assumir o verdadeiro sentido do amor e como a propria relacao sexual se integra dentro do amor e dentro da vida”[***] e’ um dado adquirido no que ao "camarada homem" diz respeito e que apenas a "camarada mulher" (... qual Eva-serpente-jezebel(a) “corruptora” de Adao no paraiso ...) precisa de “ser educada” naquele sentido… para “nao provocar escandalo”!

Mas, talvez mais perturbador do que tudo isso e' a implicacao de que aquela "camarada solteira" nao possa ter entre os seus valores, desde muito cedo na vida, o principio de que a sua auto-estima, dignificacao e valorizacao como MULHER e como SER HUMANO nao estao, nunca estiveram, nem podem estar, em nenhuma circunstancia, exclusivamente dependentes de uma alianca no seu anelar; que a sua postura perante a VIDA nao e', nao pode ser, definida e interpretada exclusivamente pela sua sexualidade - certamente nao por 'definicoes' e 'interpretacoes' dessa sexualidade confabuladas e maliciosa e torpemente forjadas pela vil devassa de terceiros e, sobretudo, terceiras, frustrado/as e recalcados em relacao a sua propria sexualidade e a sua propria vida; ou que uma gravidez fora do casamento, ou que nao resulte em casamento, nao possa ter sido resultado de um acto de Amor... [****] entre "ambos os camaradas", homem e mulher, envolvidos!

Enfim… simplesmente (dupla... triplamente) triste e lamentavel!

(Contudo, Paz a Sua Alma)



*[A legalizacao em 2005, em Mocambique, da (existente) poligamia, bem como a eliminacao do estatuto de facto do homem como 'chefe de familia', como aqui se pode constatar, e' disso apenas a (tardia?) confirmacao oficial...]


**[Infelizmente, Samora nao estava sozinho nesse tipo de postura: era, pelo menos em parte, a ela que me referia aqui, quando falava em determinados grupos de "um radicalismo (embora raramente assumido abertamente) dito “de esquerda” em termos politico-ideologicos e de ideais economicos, associado a um conservadorismo marcadamente “de direita” em termos socio-culturais"; e' tambem ela que se esconde, com o rabo de fora, por detras de certos discursos ditos "feministas de esquerda" disseminados por certas hipocritas 'donas' puritanas recalcadas, frustradas, deprimidas, depressivas e deprimentes, rejeitadas e cheias de ressaibos, inveja e ciumes, que nao nasceram mulheres, aparentemente afectas aos mesmos grupos acabados de referir, como a(s) de que aqui se fala...]


***[Para mim o significado de “assumir o verdadeiro sentido do amor e como a propria relacao sexual se integra dentro do amor e dentro da vida” pode ser encontrado, por exemplo, aqui]


****[Note-se como, curiosamente, em Ingles, uma crianca nascida fora do casamento e' designada "Love Child", i.e. "Filho/a do Amor"]





Quando camaradas solteiras ficam gravidas, consideramos isso um escandalo. O
verdadeiro escandalo e’ o nao termos sabido educar essas camaradas, nao lhes ter
feito assumir o verdadeiro sentido do amor e como a propria relacao sexual se
integra dentro do amor e dentro da vida.

Samora Machel




Decidi dedicar um post separado a essa (infeliz) tirada de Samora Machel, incluida no catalogo desta exposicao de Naguib, por um lado, porque ela destaca-se por si propria das outras, geralmente bem mais pacificas e ponderadas, citacoes nela pintadas e, por outro lado, porque se relaciona e enquadra em algumas das discussoes que, sobretudo nos ultimos tempos (e.g. aqui), a este blog me tenho visto forcada a trazer.

Porque infeliz? Porque, de facto, nao me lembro de alguma vez ter lido algo que retrate de forma tao flagrante algumas das contradicoes e perversoes de um certo discurso dito “socialista revolucionario de esquerda”… Dir-se-ia que Samora estava a falar de uma sociedade algures numa ilha paradisiaca, totalmente “abencoada por Deus”, onde o “casamento” e’ uma instituicao culturalmente endogena e dominante, onde nao se contempla a possibilidade de gravidezes involuntarias e onde os "camaradas homens" (solteiros ou casados) sao todos uns “principes perfeitos” ou “santos”!...

Mas a realidade, e ela nao e’ exclusiva da sociedade mocambicana, e’ que a instituicao “casamento” (e da citacao pode inferir-se que Samora se estaria a referir ao casamento oficial, monogamico e, possivelmente, ate’ mesmo religioso) e’ culturalmente exogena a maior parte das, senao a todas as, sociedades africanas: ele foi “trazido” pela colonizacao e manteve-se quase totalmente confinado aos segmentos populacionais (minoritarios) assimilados as culturas e religioes europeias.

Juntamente com o casamento (oficial e/ou religioso) monogamico, os europeus levaram tambem o patriarcado, com o homem como 'chefe de familia', como estrutura familiar dominante, e embora este nao fosse exogeno as sociedades africanas, nunca foi dominante em todas elas. De facto, o matriarcado e as linhagens matrilineares eram e, em grande medida, continuam a ser, dominantes em varias sociedades africanas, onde as mulheres, em particular no que toca a sua sexualidade e direitos reprodutivos, teem um estatuto completamente distinto daquele que lhes e' reservado nas sociedades patriarcais e patrilineares.[*]

Como, entao, compreender-se que um tal discurso tenha sido proferido por um lider revolucionario africano, num pais em "transformacao revolucionaria" para a "criacao do homem novo", em "combate contra a alienacao, aculturacao e obscurantismo promovidos pela religiao", em “recuperacao das suas raizes culturais” e em "resgate dos seus principios e valores morais" (e aqui ressalvo o facto de a citacao nao estar datada, tal como nao o estao as outras citacoes constantes do catalogo, pelo que nao sei se a tera’ proferido ja’ no pos-independencia, ou se ainda durante a guerrilha anti-colonial)? Pessoalmente, so’ o posso entender como uma perversao da ideologia socialista (comunista?) revolucionaria dita de esquerda… [**]


Josina Machel por Malangatana


De facto, em minha opiniao, apenas uma tal perversao pode explicar que a mesma ideologia que via o casamento como uma instituicao "burguesa", que professa(va?) a “emancipacao da mulher”, que a aceitava como “companheira de luta”, incluindo de armas na mao, qualquer que fosse a sua idade (!) - veja-se aqui a biografia da primeira esposa de Samora, Josina Machel, retratada acima por Malangatana e na foto abaixo, a direita - que a incentiva(va?) a tomar as redeas do seu proprio corpo e do seu proprio destino, a tomar as suas proprias decisoes de vida e a assumir a responsabilidade e as consequencias dos seus proprios actos, nao contemple a possibilidade de que essa mesma mulher possa ser “mae solteira” por decisao propria; ou que se tenha encontrado nessa condicao em resultado de uma desilusao amorosa posterior ao seu engravidamento; ou que possa ter engravidado em resultado de uma violacao… Em qualquer dos casos, a assumpcao plena de uma gravidez e’ (deve ser) sempre uma responsabilidade partilhada – e esta nao e’ estritamente uma questao do foro ideologico (e nem sequer do “politicamente correcto”) ou religioso: e’ uma questao dos foros humanistico e etico-moral!


Josina Machel (a direita)


No entanto, em nenhum momento Samora se refere ao "camarada homem" (casado ou solteiro) que engravidou a “camarada solteira”… E o que afirma e’ duplamente perverso: por um lado, assume o preconceito, a culpabilizacao exclusiva e a estigmatizacao social da “mae solteira” como um dado adquirido (“consideramos isso um escandalo”); por outro lado, sugere que o “assumir o verdadeiro sentido do amor e como a propria relacao sexual se integra dentro do amor e dentro da vida”[***] e’ um dado adquirido no que ao "camarada homem" diz respeito e que apenas a "camarada mulher" (... qual Eva-serpente-jezebel(a) “corruptora” de Adao no paraiso ...) precisa de “ser educada” naquele sentido… para “nao provocar escandalo”!

Mas, talvez mais perturbador do que tudo isso e' a implicacao de que aquela "camarada solteira" nao possa ter entre os seus valores, desde muito cedo na vida, o principio de que a sua auto-estima, dignificacao e valorizacao como MULHER e como SER HUMANO nao estao, nunca estiveram, nem podem estar, em nenhuma circunstancia, exclusivamente dependentes de uma alianca no seu anelar; que a sua postura perante a VIDA nao e', nao pode ser, definida e interpretada exclusivamente pela sua sexualidade - certamente nao por 'definicoes' e 'interpretacoes' dessa sexualidade confabuladas e maliciosa e torpemente forjadas pela vil devassa de terceiros e, sobretudo, terceiras, frustrado/as e recalcados em relacao a sua propria sexualidade e a sua propria vida; ou que uma gravidez fora do casamento, ou que nao resulte em casamento, nao possa ter sido resultado de um acto de Amor... [****] entre "ambos os camaradas", homem e mulher, envolvidos!

Enfim… simplesmente (dupla... triplamente) triste e lamentavel!

(Contudo, Paz a Sua Alma)



*[A legalizacao em 2005, em Mocambique, da (existente) poligamia, bem como a eliminacao do estatuto de facto do homem como 'chefe de familia', como aqui se pode constatar, e' disso apenas a (tardia?) confirmacao oficial...]


**[Infelizmente, Samora nao estava sozinho nesse tipo de postura: era, pelo menos em parte, a ela que me referia aqui, quando falava em determinados grupos de "um radicalismo (embora raramente assumido abertamente) dito “de esquerda” em termos politico-ideologicos e de ideais economicos, associado a um conservadorismo marcadamente “de direita” em termos socio-culturais"; e' tambem ela que se esconde, com o rabo de fora, por detras de certos discursos ditos "feministas de esquerda" disseminados por certas hipocritas 'donas' puritanas recalcadas, frustradas, deprimidas, depressivas e deprimentes, rejeitadas e cheias de ressaibos, inveja e ciumes, que nao nasceram mulheres, aparentemente afectas aos mesmos grupos acabados de referir, como a(s) de que aqui se fala...]


***[Para mim o significado de “assumir o verdadeiro sentido do amor e como a propria relacao sexual se integra dentro do amor e dentro da vida” pode ser encontrado, por exemplo, aqui]


****[Note-se como, curiosamente, em Ingles, uma crianca nascida fora do casamento e' designada "Love Child", i.e. "Filho/a do Amor"]

"Um Passo em Frente" (?)...





A revisão do Código da Família vai, entre outras normas, obrigar os homens a assumir a paternidade e garantirem uma pensão de sobrevivência aos filhos, anunciou em Luanda a coordenadora da secção da OMA junto aos Serviços de Apoio ao Presidente da República.

Em declarações ao Jornal de Angola, à margem da palestra sobre "O papel da família e da sociedade civil na construção de uma nova mentalidade", Florbela Rocha Araújo lamentou o facto de muitos homens continuarem a não assumir as suas responsabilidades paternais e informou que o futuro Código da Família, em fase de elaboração, vai procurar inverter esse quadro.

"O actual Código da Família foi aprovado em 1978 e até à data muita coisa mudou na sociedade angolana. Os estudos efectuados vão permitir a entrada em vigor de um novo Código da Família adequado à realidade actual", informou.

Fuga à paternidade

Sobre a fuga à paternidade, Florbela Araújo disse que uma criança sem nome normalmente é revoltada, porque logo à partida a intenção da mãe é contar a história do que se passou e as razões que a levam a criar os filhos sozinha: “é um risco criar os filhos sozinha e quando assim acontece normalmente as crianças crescem revoltadas e, nestes casos, a sociedade é que paga”. Considerou que a família, como núcleo fundamental da sociedade, deve trabalhar para a instrução dos filhos. “É importante que os pais dêem atenção aos filhos e acompanhem a sua educação. Achamos ainda pertinente que nas escolas haja aulas de moral para que as crianças e os jovens se habituem a respeitar os valores da sociedade”, apelou.


[Mais Aqui e Aqui]


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Olhares Diversos VII

O Cidadao em Angola





... "Dois Passos a Retaguarda" (!)


P.S. 1: "(...) uma criança sem nome normalmente é revoltada, porque logo à partida a intenção da mãe é contar a história do que se passou e as razões que a levam a criar os filhos sozinha: é um risco criar os filhos sozinha e quando assim acontece normalmente as crianças crescem revoltadas e, nestes casos, a sociedade é que paga”

Apenas algumas observacoes a essas afirmacoes:


- It ain't necessarily so... E' necessario que se deixe de fazer afirmacoes publicas generalizadoras com base em meras suposicoes, especulacoes e... mais uma vez, estereotipos!

- Qual e' o maior risco? Criar os filhos sozinha num ambiente saudavel, de estabilidade, paz e tranquilidade, ou com um pai (ou outro parceiro) inconstante, irresponsavel, desestabilizador material e emocionalmente, cheio de vicios e abusivo fisica e/ou psicologicamente?...

- A questao da "fuga a paternidade" nao se resume a "criancas sem nome": casos ha' em que a crianca tem e sempre teve o nome que lhe foi (e ate' repetidamente, devido a circunstancias alheias a questao) dado pelo seu pai, pelo que nao se pode falar propriamente em "fuga a paternidade"! No entanto, o facto de lhe ter dado o nome nao significa necessariamente que esse mesmo pai seja um "pai responsavel" - e isso acontece em muitos casos, "abencoados ou nao por Deus"!

- Casos ha' em que relacoes (de papel passado ou nao) de facto se desenvolveram fora daquilo que a "sociedade" tem como "norma padrao"... Casos ha' em que, apesar de algumas aparencias ou especulacoes em contrario, relacoes saudaveis existiram e, apesar da separacao e distanciamento entre os pais da crianca, se mantiveram na base da amizade, do bem-querer e do respeito mutuo...

- Casos ha' em que a mae que ficou a frente da "familia monoparental" fez tudo para evitar que os preconceitos e estigmatizacao da "sociedade" que sobre ela recaiam afectassem o filho, fosse de que forma fosse e muito menos psicologicamente, chegando ate' a pintar para ele um quadro positivo um tanto exagerado da imagem do "pai ausente", precisamente para que ele nao se sentisse "rejeitado" e se viesse a tornar um "revoltado" quando adulto...

- Casos ha' em que todo esse trabalho arduo e delicado de Amor ao longo de toda uma vida sacrificada da "mae solteira" foi literalmente estracalhado e deitado pela sarjeta abaixo sem quaisquer escrupulos pelos ciumes, inveja, odio, despeito, complexos e racismos varios e toda a sorte de sentimentos baixos e mesquinhos, seja por outras parceiras do tal "pai ausente" (se por nenhuma outra razao, pelo simples facto de a crianca ser o unico rapaz dentre os filhos que o dito cujo deixou neste mundo...) e seus familiares e amigos, seja pelos proprios "familiares e amigos", quer da "mae solteira", quer do "pai ausente" - os quais, de resto, nunca acompanharam de perto a relacao nem nunca se dignaram OUVIR a "mae solteira" sobre a questao -, seja ate' por VERDADEIROS ABUTRES supostos ou pretensos "pretendentes post-mortem" e desconhecidos de ambas as partes, liderados por kabungados a espumar da boca e - essas sim, pobres e insignificantes criaturas rejeitadas! - verdes e doentes ninfas sexualmente objectificadas e vultas racistas, ciumentas, frustradas, ociosas, superficiais, mentecaptas, atrasadas mentais, intrometidas, levianas, venais, amorais e imorais, viciadas e viciosas, porcas, vulgares, ordinarias, irresponsaveis, oportunistas e abusivas ... enfim, pela IRRESPONSABILIDADE, pelos complexos, baixo coturno, falta de estofo, ignorancia, bocalismo, imaturidade, insensibilidade, imbecilidade, superficialidade, falsidade, hipocrisia, arrivismo, intromissao abusiva, venalidade, devassa e vil oprobio de certos sectores da tal de "sociedade" (dita "de esquerda")!

Em suma, casos ha' em que tanto a crianca como a "mae solteira" (que, ademais, se tornaram mais vulneraveis do que nunca a toda a sorte de manipulacoes e abusos com a morte subita e precoce do "pai ausente" e, por isso, com a ausencia de um testamento por parte deste - que, nao e' demais lembra-lo, NUNCA FOI CASADO com ninguem! -, o qual, malgre' tout, podia ser chamado a razao, quer em relacao a crianca, quer no que tocava a "defender e a lutar pela sua dama", quando a tal fosse forcado...) ACABAM POR FICAR REFENS, POR SER VITIMAS, POR SER FEITOS BODES EXPIATORIOS E POR PAGAR PELOS MALES, TARAS, VICIOS E DOENCAS, enfim PURE EVIL (!), DA SOCIEDADE e nao o contrario!

E' ISTO QUE CRIA REVOLTA!!!



P.S. 2: Quantos filhos "sem nome" foram deixados pelo colono? Terao todas as suas maes "lhes contado a estoria"? Terao todos eles se tornado "revoltados"? Terao todos eles "feito pagar a sociedade"?!!!




ADENDA



CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DE ANGOLA

Artigo 35.º
(Família, casamento e filiação)

1. A família é o núcleo fundamental da organização da sociedade e é objecto de especial protecção do Estado, quer se funde em casamento, quer em união de facto, entre homem e mulher.
2. Todos têm o direito de livremente constituir família nos termos da Constituição e da lei.
3. O homem e a mulher são iguais no seio da família, da sociedade e do Estado, gozando dos mesmos direitos e cabendo-lhes os mesmos deveres.
4. A lei regula os requisitos e os efeitos do casamento e da união de facto, bem como os da sua dissolução.
5. Os filhos são iguais perante a lei, sendo proibida a sua discriminação e a utilização de qualquer designação discriminatória relativa à filiação.
6. A protecção dos direitos da criança, nomeadamente, a sua educação integral e harmoniosa, a protecção da sua saúde, condições de vida e ensino constituem
absoluta prioridade da família, do Estado e da sociedade.
7. O Estado, com a colaboração da família e da sociedade, promove o desenvolvimento harmonioso e integral dos jovens e adolescentes, bem como a criação de condições para a efectivação dos seus direitos políticos, económicos, sociais e culturais e estimula as organizações juvenis para a prossecução de fins económicos, culturais, artísticos, recreativos, desportivos, ambientais, científicos, educacionais, patrióticos e de intercâmbio juvenile internacional.


Artigo 80.º
(Infância)

1. A criança tem direito à atenção especial da família, da sociedade e do Estado, os quais, em estreita colaboração, devem assegurar a sua ampla protecção contra todas as formas de abandono, discriminação, opressão, exploração e exercício abusivo de autoridade, na família e nas demais instituições.
2. As políticas públicas no domínio da família, da educação e da saúde devem salvaguardar o princípio do superior interesse da criança, como forma de garantir o seu pleno desenvolvimento físico, psíquico e cultural.
3. O Estado assegura especial protecção à criança órfã, com deficiência, abandonada ou, por qualquer forma, privada de um ambiente familiar normal.
4. O Estado regula a adopção de crianças, promovendo a sua integração em ambiente familiar sadio e velando pelo seu desenvolvimento integral.
5. É proibido, nos termos da lei, o trabalho de menores em idade escolar.





A revisão do Código da Família vai, entre outras normas, obrigar os homens a assumir a paternidade e garantirem uma pensão de sobrevivência aos filhos, anunciou em Luanda a coordenadora da secção da OMA junto aos Serviços de Apoio ao Presidente da República.

Em declarações ao Jornal de Angola, à margem da palestra sobre "O papel da família e da sociedade civil na construção de uma nova mentalidade", Florbela Rocha Araújo lamentou o facto de muitos homens continuarem a não assumir as suas responsabilidades paternais e informou que o futuro Código da Família, em fase de elaboração, vai procurar inverter esse quadro.

"O actual Código da Família foi aprovado em 1978 e até à data muita coisa mudou na sociedade angolana. Os estudos efectuados vão permitir a entrada em vigor de um novo Código da Família adequado à realidade actual", informou.

Fuga à paternidade

Sobre a fuga à paternidade, Florbela Araújo disse que uma criança sem nome normalmente é revoltada, porque logo à partida a intenção da mãe é contar a história do que se passou e as razões que a levam a criar os filhos sozinha: “é um risco criar os filhos sozinha e quando assim acontece normalmente as crianças crescem revoltadas e, nestes casos, a sociedade é que paga”. Considerou que a família, como núcleo fundamental da sociedade, deve trabalhar para a instrução dos filhos. “É importante que os pais dêem atenção aos filhos e acompanhem a sua educação. Achamos ainda pertinente que nas escolas haja aulas de moral para que as crianças e os jovens se habituem a respeitar os valores da sociedade”, apelou.


[Mais Aqui e Aqui]


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Olhares Diversos VII

O Cidadao em Angola





... "Dois Passos a Retaguarda" (!)


P.S. 1: "(...) uma criança sem nome normalmente é revoltada, porque logo à partida a intenção da mãe é contar a história do que se passou e as razões que a levam a criar os filhos sozinha: é um risco criar os filhos sozinha e quando assim acontece normalmente as crianças crescem revoltadas e, nestes casos, a sociedade é que paga”

Apenas algumas observacoes a essas afirmacoes:


- It ain't necessarily so... E' necessario que se deixe de fazer afirmacoes publicas generalizadoras com base em meras suposicoes, especulacoes e... mais uma vez, estereotipos!

- Qual e' o maior risco? Criar os filhos sozinha num ambiente saudavel, de estabilidade, paz e tranquilidade, ou com um pai (ou outro parceiro) inconstante, irresponsavel, desestabilizador material e emocionalmente, cheio de vicios e abusivo fisica e/ou psicologicamente?...

- A questao da "fuga a paternidade" nao se resume a "criancas sem nome": casos ha' em que a crianca tem e sempre teve o nome que lhe foi (e ate' repetidamente, devido a circunstancias alheias a questao) dado pelo seu pai, pelo que nao se pode falar propriamente em "fuga a paternidade"! No entanto, o facto de lhe ter dado o nome nao significa necessariamente que esse mesmo pai seja um "pai responsavel" - e isso acontece em muitos casos, "abencoados ou nao por Deus"!

- Casos ha' em que relacoes (de papel passado ou nao) de facto se desenvolveram fora daquilo que a "sociedade" tem como "norma padrao"... Casos ha' em que, apesar de algumas aparencias ou especulacoes em contrario, relacoes saudaveis existiram e, apesar da separacao e distanciamento entre os pais da crianca, se mantiveram na base da amizade, do bem-querer e do respeito mutuo...

- Casos ha' em que a mae que ficou a frente da "familia monoparental" fez tudo para evitar que os preconceitos e estigmatizacao da "sociedade" que sobre ela recaiam afectassem o filho, fosse de que forma fosse e muito menos psicologicamente, chegando ate' a pintar para ele um quadro positivo um tanto exagerado da imagem do "pai ausente", precisamente para que ele nao se sentisse "rejeitado" e se viesse a tornar um "revoltado" quando adulto...

- Casos ha' em que todo esse trabalho arduo e delicado de Amor ao longo de toda uma vida sacrificada da "mae solteira" foi literalmente estracalhado e deitado pela sarjeta abaixo sem quaisquer escrupulos pelos ciumes, inveja, odio, despeito, complexos e racismos varios e toda a sorte de sentimentos baixos e mesquinhos, seja por outras parceiras do tal "pai ausente" (se por nenhuma outra razao, pelo simples facto de a crianca ser o unico rapaz dentre os filhos que o dito cujo deixou neste mundo...) e seus familiares e amigos, seja pelos proprios "familiares e amigos", quer da "mae solteira", quer do "pai ausente" - os quais, de resto, nunca acompanharam de perto a relacao nem nunca se dignaram OUVIR a "mae solteira" sobre a questao -, seja ate' por VERDADEIROS ABUTRES supostos ou pretensos "pretendentes post-mortem" e desconhecidos de ambas as partes, liderados por kabungados a espumar da boca e - essas sim, pobres e insignificantes criaturas rejeitadas! - verdes e doentes ninfas sexualmente objectificadas e vultas racistas, ciumentas, frustradas, ociosas, superficiais, mentecaptas, atrasadas mentais, intrometidas, levianas, venais, amorais e imorais, viciadas e viciosas, porcas, vulgares, ordinarias, irresponsaveis, oportunistas e abusivas ... enfim, pela IRRESPONSABILIDADE, pelos complexos, baixo coturno, falta de estofo, ignorancia, bocalismo, imaturidade, insensibilidade, imbecilidade, superficialidade, falsidade, hipocrisia, arrivismo, intromissao abusiva, venalidade, devassa e vil oprobio de certos sectores da tal de "sociedade" (dita "de esquerda")!

Em suma, casos ha' em que tanto a crianca como a "mae solteira" (que, ademais, se tornaram mais vulneraveis do que nunca a toda a sorte de manipulacoes e abusos com a morte subita e precoce do "pai ausente" e, por isso, com a ausencia de um testamento por parte deste - que, nao e' demais lembra-lo, NUNCA FOI CASADO com ninguem! -, o qual, malgre' tout, podia ser chamado a razao, quer em relacao a crianca, quer no que tocava a "defender e a lutar pela sua dama", quando a tal fosse forcado...) ACABAM POR FICAR REFENS, POR SER VITIMAS, POR SER FEITOS BODES EXPIATORIOS E POR PAGAR PELOS MALES, TARAS, VICIOS E DOENCAS, enfim PURE EVIL (!), DA SOCIEDADE e nao o contrario!

E' ISTO QUE CRIA REVOLTA!!!



P.S. 2: Quantos filhos "sem nome" foram deixados pelo colono? Terao todas as suas maes "lhes contado a estoria"? Terao todos eles se tornado "revoltados"? Terao todos eles "feito pagar a sociedade"?!!!




ADENDA



CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA DE ANGOLA

Artigo 35.º
(Família, casamento e filiação)

1. A família é o núcleo fundamental da organização da sociedade e é objecto de especial protecção do Estado, quer se funde em casamento, quer em união de facto, entre homem e mulher.
2. Todos têm o direito de livremente constituir família nos termos da Constituição e da lei.
3. O homem e a mulher são iguais no seio da família, da sociedade e do Estado, gozando dos mesmos direitos e cabendo-lhes os mesmos deveres.
4. A lei regula os requisitos e os efeitos do casamento e da união de facto, bem como os da sua dissolução.
5. Os filhos são iguais perante a lei, sendo proibida a sua discriminação e a utilização de qualquer designação discriminatória relativa à filiação.
6. A protecção dos direitos da criança, nomeadamente, a sua educação integral e harmoniosa, a protecção da sua saúde, condições de vida e ensino constituem
absoluta prioridade da família, do Estado e da sociedade.
7. O Estado, com a colaboração da família e da sociedade, promove o desenvolvimento harmonioso e integral dos jovens e adolescentes, bem como a criação de condições para a efectivação dos seus direitos políticos, económicos, sociais e culturais e estimula as organizações juvenis para a prossecução de fins económicos, culturais, artísticos, recreativos, desportivos, ambientais, científicos, educacionais, patrióticos e de intercâmbio juvenile internacional.


Artigo 80.º
(Infância)

1. A criança tem direito à atenção especial da família, da sociedade e do Estado, os quais, em estreita colaboração, devem assegurar a sua ampla protecção contra todas as formas de abandono, discriminação, opressão, exploração e exercício abusivo de autoridade, na família e nas demais instituições.
2. As políticas públicas no domínio da família, da educação e da saúde devem salvaguardar o princípio do superior interesse da criança, como forma de garantir o seu pleno desenvolvimento físico, psíquico e cultural.
3. O Estado assegura especial protecção à criança órfã, com deficiência, abandonada ou, por qualquer forma, privada de um ambiente familiar normal.
4. O Estado regula a adopção de crianças, promovendo a sua integração em ambiente familiar sadio e velando pelo seu desenvolvimento integral.
5. É proibido, nos termos da lei, o trabalho de menores em idade escolar.

Wednesday, 21 July 2010

Dinheiro, dinheiro, para que te quero?...





O titulo desta mukanda poderia bem ser, mais uma vez, "Amizade, amizade, para que te quero?"...

Hoje a amizade e familia sao manobradas pelo contexto, cantava Bonga numa cancao ja' entradota nos anos, mas que se mantem perfeitamente aplicavel a sociedade angolana dos dias de hoje. Yannick Ngombo, o Afroman, tem uma cancao sobre o "amigo" que pede emprestado dinheiro e que depois nao paga, nem quer pagar e ainda se acha afrontado quando o credor lhe cobra... Numa outra cancao, o mesmo Yannick diz: "aqui (Angola) nao vale a pena voce ficar muito simpatico, senao te apanham a pata!..."

Ao que vem isto? Um pouco a proposito de este blog ser, desde o inicio, dedicado a "deitar contas a vida" (aqui gostaria de sugerir fortemente aos interessados a leitura deste post e, muito especialmente, do "amigavel aviso a navegacao" a ele anexo) e de, ironicamente, a experiencia e as 'descobertas' que com ele adquiri me terem forcado (naquilo que referi aqui ha dias como sendo possivelmente um novo ciclo de vida) a repensar todas as minhas perspectivas de futuro e relacoes pessoais, em particular as de amizade e familia - o que tambem passa por algumas "contas de deve e haver".

Nao me proponho aqui estender-me demasiado sobre tudo isso, mas ha' pelo menos uma coisa que se me impoe dizer: sempre pautei a minha vida por assumir plenamente todas as minhas responsabilidades e por seguir, entre outras, estas tres regras de conduta fundamentais: i) nunca me relacionar com quem quer que seja meramente na base do 'status social' ou do interesse material e/ou financeiro; ii) pagar escrupulosamente, e tanto quanto possivel em tempo util, todas as minhas dividas; iii) jamais fazer alarde do que, social, material, financeira, ou de qualquer outro modo, alguem me possa dever - esta, em particular, e' para mim uma regra de ouro que pratico como se de "sigilo bancario" se tratasse e que sempre pensei fosse tambem seguida por "todo o mundo"... ledo engano o meu, como me tenho vindo a dar conta recentemente atraves, entre outras, de mencoes por parte de gente oportunista com quem nunca privei e a quem muito menos devo alguma coisa, a "cuspir nos pratos em que debiquei"!

Uma das facetas mais perturbadoras da vida de dificuldades e carencias de toda a ordem que se vivem na sociedade angolana actual e' que ja' nao ha' principios, valores ou regras de conduta nao subvertidos: tudo e' manipulavel, e em particular a amizade e a familia... e em particular as vias de acesso a 'ascensao social', ao dinheiro e aos bens materiais de toda a ordem! E a manipulacao e' feita tanto pelos orgaos e titulares do poder publico aos mais diversos niveis, quanto pelos amigos e familiares nas mais diversas circunstancias.

E os manipulados sao potencialmente todos os membros da sociedade, mas muito especialmente os mais vulneraveis por uma razao ou por outra, que se veem assim praticamente impossibilitados de viver a sua vida com a estabilidade, dignidade e integridade por que sempre pugnaram e pelas quais sempre se pautaram. Esses sao geralmente, como aqui nota Julianne Malveaux (numa referencia a sociedade americana que pode perfeitamente ser aplicada a sociedade angolana - e aqui faco uma especial chamada de atencao para os preconceitos e estereotipos por detras do facto, por vezes revoltante na forma como se manifesta, de perante uma relacao familiar ou de amizade entre pessoas de cores diferentes, a tendencia ser invariavelmente para o outsider assumir a priori que "quem deve" e' invitavelmente a de "cor mais escura"...), para quem a questao real e' economica, sobre quem tem e quem nao tem, com questoes de raca (e eu acrescentaria 'e de etnia') sempre presentes no background, "aqueles cujas vozes raramente sao ouvidas: 'pais (maes) sozinho(a)s em casa' (e.g. maes solteiras), 'criancas descartaveis' (e.g. por pais irresponsaveis e seus "amigos e familiares") e quem quer que seja cuja cor, status economico ou genero os mantenha sem qualquer poder na sociedade."

Dai a minha devocao a causa do pleno funcionamento e transparencia das instituicoes publicas (a que me refiro, por exemplo, aqui), como forma de libertar os cidadaos (e em particular as cidadas; impondo-se-me aqui uma referencia muito especial a um grupo especialmente vulneravel em qualquer sociedade: os orfaos e viuvas) de relacoes de dependencia ao nivel particular que, talvez mais do que quaisquer outras (sem contudo descurar o papel que certa imprensa tem jogado no meu caso especifico...), tendem verdadeiramente a degradar a condicao humana e a corroer a amizade, a familia e, consequentemente, a sociedade.

E sobre este tema fico-me por aqui, por enquanto, nao deixando porem de reiterar uma afirmacao que ja' antes aqui fiz:

(...) Nao sao, portanto, capazes de perceber que haja gente por esse mundo fora, que no periodo pos-independencia, nunca contou, ou nao contou durante grande parte das suas vidas, com o estado (e, portanto, com o partido da "situacao") a que eles, salvo rarissimas excepcoes, devem praticamente tudo o que sao e teem em Angola e no mundo. E muito menos que gente da minha “geracao R”, como me, myself and I (que, apesar de “menor”, “insignificante” e “rejeitada”, se orgulha de nunca ter "lambido botas" de ninguem e muito menos de alguma vez ter “debicado” em pratos de quem quer que seja e de, quanto muito, ter visto “muito boa gente” debicar no seu prato e depois ingrata, descarada, arrogante e despudoradamete cuspir nele “de cima”, apenas para depois se arrependerem amargamente…), possa “pensar pela sua propria cabeca” e ter a dignidade de expressar imparcialmente opinioes, ou posicionar-se politica e culturalmente, segundo logicas absolutamente nao partidarias ou estatais e que, quando fala em "democracia", “sociedade civil”, “direitos humanos” ou “cidadania”, e’ exactamente disso, e apenas disso, que esta’ a falar!


Post (posterior) relacionado: "A Minha Amiga"


ADENDA

Ha’ certas experiencias da minha vida sobre as quais nunca confidenciei sequer com os meus familiares e amigos mais proximos e que muito menos alguma vez me ocorreu abordar num espaco como este, ainda que a titulo informal e privado, como e’ o caso. Mas o certo e’ que, e esta e’ tambem uma das ‘descobertas’ que me veem sendo reveladas pela experiencia adquirida com este blog, eu tenho sido frequentemente vitima do meu proprio silencio sobre certas questoes. E’ o caso do episodio que a seguir relato.

[Aqui]





O titulo desta mukanda poderia bem ser, mais uma vez, "Amizade, amizade, para que te quero?"...

Hoje a amizade e familia sao manobradas pelo contexto, cantava Bonga numa cancao ja' entradota nos anos, mas que se mantem perfeitamente aplicavel a sociedade angolana dos dias de hoje. Yannick Ngombo, o Afroman, tem uma cancao sobre o "amigo" que pede emprestado dinheiro e que depois nao paga, nem quer pagar e ainda se acha afrontado quando o credor lhe cobra... Numa outra cancao, o mesmo Yannick diz: "aqui (Angola) nao vale a pena voce ficar muito simpatico, senao te apanham a pata!..."

Ao que vem isto? Um pouco a proposito de este blog ser, desde o inicio, dedicado a "deitar contas a vida" (aqui gostaria de sugerir fortemente aos interessados a leitura deste post e, muito especialmente, do "amigavel aviso a navegacao" a ele anexo) e de, ironicamente, a experiencia e as 'descobertas' que com ele adquiri me terem forcado (naquilo que referi aqui ha dias como sendo possivelmente um novo ciclo de vida) a repensar todas as minhas perspectivas de futuro e relacoes pessoais, em particular as de amizade e familia - o que tambem passa por algumas "contas de deve e haver".

Nao me proponho aqui estender-me demasiado sobre tudo isso, mas ha' pelo menos uma coisa que se me impoe dizer: sempre pautei a minha vida por assumir plenamente todas as minhas responsabilidades e por seguir, entre outras, estas tres regras de conduta fundamentais: i) nunca me relacionar com quem quer que seja meramente na base do 'status social' ou do interesse material e/ou financeiro; ii) pagar escrupulosamente, e tanto quanto possivel em tempo util, todas as minhas dividas; iii) jamais fazer alarde do que, social, material, financeira, ou de qualquer outro modo, alguem me possa dever - esta, em particular, e' para mim uma regra de ouro que pratico como se de "sigilo bancario" se tratasse e que sempre pensei fosse tambem seguida por "todo o mundo"... ledo engano o meu, como me tenho vindo a dar conta recentemente atraves, entre outras, de mencoes por parte de gente oportunista com quem nunca privei e a quem muito menos devo alguma coisa, a "cuspir nos pratos em que debiquei"!

Uma das facetas mais perturbadoras da vida de dificuldades e carencias de toda a ordem que se vivem na sociedade angolana actual e' que ja' nao ha' principios, valores ou regras de conduta nao subvertidos: tudo e' manipulavel, e em particular a amizade e a familia... e em particular as vias de acesso a 'ascensao social', ao dinheiro e aos bens materiais de toda a ordem! E a manipulacao e' feita tanto pelos orgaos e titulares do poder publico aos mais diversos niveis, quanto pelos amigos e familiares nas mais diversas circunstancias.

E os manipulados sao potencialmente todos os membros da sociedade, mas muito especialmente os mais vulneraveis por uma razao ou por outra, que se veem assim praticamente impossibilitados de viver a sua vida com a estabilidade, dignidade e integridade por que sempre pugnaram e pelas quais sempre se pautaram. Esses sao geralmente, como aqui nota Julianne Malveaux (numa referencia a sociedade americana que pode perfeitamente ser aplicada a sociedade angolana - e aqui faco uma especial chamada de atencao para os preconceitos e estereotipos por detras do facto, por vezes revoltante na forma como se manifesta, de perante uma relacao familiar ou de amizade entre pessoas de cores diferentes, a tendencia ser invariavelmente para o outsider assumir a priori que "quem deve" e' invitavelmente a de "cor mais escura"...), para quem a questao real e' economica, sobre quem tem e quem nao tem, com questoes de raca (e eu acrescentaria 'e de etnia') sempre presentes no background, "aqueles cujas vozes raramente sao ouvidas: 'pais (maes) sozinho(a)s em casa' (e.g. maes solteiras), 'criancas descartaveis' (e.g. por pais irresponsaveis e seus "amigos e familiares") e quem quer que seja cuja cor, status economico ou genero os mantenha sem qualquer poder na sociedade."

Dai a minha devocao a causa do pleno funcionamento e transparencia das instituicoes publicas (a que me refiro, por exemplo, aqui), como forma de libertar os cidadaos (e em particular as cidadas; impondo-se-me aqui uma referencia muito especial a um grupo especialmente vulneravel em qualquer sociedade: os orfaos e viuvas) de relacoes de dependencia ao nivel particular que, talvez mais do que quaisquer outras (sem contudo descurar o papel que certa imprensa tem jogado no meu caso especifico...), tendem verdadeiramente a degradar a condicao humana e a corroer a amizade, a familia e, consequentemente, a sociedade.

E sobre este tema fico-me por aqui, por enquanto, nao deixando porem de reiterar uma afirmacao que ja' antes aqui fiz:

(...) Nao sao, portanto, capazes de perceber que haja gente por esse mundo fora, que no periodo pos-independencia, nunca contou, ou nao contou durante grande parte das suas vidas, com o estado (e, portanto, com o partido da "situacao") a que eles, salvo rarissimas excepcoes, devem praticamente tudo o que sao e teem em Angola e no mundo. E muito menos que gente da minha “geracao R”, como me, myself and I (que, apesar de “menor”, “insignificante” e “rejeitada”, se orgulha de nunca ter "lambido botas" de ninguem e muito menos de alguma vez ter “debicado” em pratos de quem quer que seja e de, quanto muito, ter visto “muito boa gente” debicar no seu prato e depois ingrata, descarada, arrogante e despudoradamete cuspir nele “de cima”, apenas para depois se arrependerem amargamente…), possa “pensar pela sua propria cabeca” e ter a dignidade de expressar imparcialmente opinioes, ou posicionar-se politica e culturalmente, segundo logicas absolutamente nao partidarias ou estatais e que, quando fala em "democracia", “sociedade civil”, “direitos humanos” ou “cidadania”, e’ exactamente disso, e apenas disso, que esta’ a falar!


Post (posterior) relacionado: "A Minha Amiga"


ADENDA

Ha’ certas experiencias da minha vida sobre as quais nunca confidenciei sequer com os meus familiares e amigos mais proximos e que muito menos alguma vez me ocorreu abordar num espaco como este, ainda que a titulo informal e privado, como e’ o caso. Mas o certo e’ que, e esta e’ tambem uma das ‘descobertas’ que me veem sendo reveladas pela experiencia adquirida com este blog, eu tenho sido frequentemente vitima do meu proprio silencio sobre certas questoes. E’ o caso do episodio que a seguir relato.

[Aqui]

Thursday, 15 July 2010

"Que educacao andamos a dar aos nossos filhos (?)" [R]*



OU... "MEU CRIME DE LESA-PATRIA"...

OU, DE COMO...

Maes deste kalibre nao andam propriamente pela vida em bicos de pes em saloes de danca, ou a desfilar em passarelles de misses, pelo que nao se precisam 'elegantes'!

(o que quer que isso seja...)

*First posted 13/01/09




OU... "MEU CRIME DE LESA-PATRIA"...

OU, DE COMO...

Maes deste kalibre nao andam propriamente pela vida em bicos de pes em saloes de danca, ou a desfilar em passarelles de misses, pelo que nao se precisam 'elegantes'!

(o que quer que isso seja...)

*First posted 13/01/09


Thursday, 3 June 2010

Preconceitos...*

Preconceito 1: A mulher é vulnerável no casamento misto.

• A mulher, quando e’ vulneravel, e’-o em qualquer tipo de casamento! De facto, casos ha’ em que mulheres africanas emigradas no ocidente (nao necessariamente pobres, frageis ou incultas…) foram feitas extremamente vulneraveis (incluindo com os seus filhos…) por maridos (tambem nao necessariamente "pobres"...) do seu pais e cultura de origem e encontraram junto de homens de outra nacionalidade e cultura o amor, o respeito, a dignidade e a estabilidade (nao exclusivamente material e/ou financeira…), enfim, a felicidade a que todos os seres humanos teem direito;

• Convem notar que, pelo menos nas sociedades ocidentais, as mulheres, qualquer que seja a sua origem ou status economico-social, ganham com o casamento (oficial) direitos adquiridos perante a lei, que nem o marido, a sua familia, ou a sua cultura e/ou sociedade, podem facilmente violar, ao contrario do que se passa em muitos casos na sociedade angolana...

Preconceito 2: A causa fundamental da emigração é a pobreza.

• A causa fundamental (mas nao unica, como alias se reconhece quando se diz que “existe uma vasta gama de factores para a emigração e um deles é a pobreza”) da emigracao de Africa e dos paises do dito terceiro mundo para outros destinos podera’ ser, de facto, a pobreza. Mas ja’ o mesmo nao sera’ verdade de toda a emigracao de europeus e cidadaos de outros paises, sobretudo ocidentais, para Africa e para o dito terceiro mundo – sendo que estes tambem produzem casamentos mistos (aparentemente, excepto em Angola...);

• Quando a causa fundamental da emigracao da mulher africana nao e’ necessariamente a pobreza, nao se pode afirmar com propriedade que ela sera’ vulneravel num casamento misto. De facto, uma das maiores fontes de vulnerabilidade da mulher africana (ou da mulher de qualquer outra proveniencia) quando fora do seu pais de origem, e que pode ser causada pela pobreza, e’ a prostituicao – nao o casamento misto;

• Sera' de notar aqui que, em sociedades como a angolana, nao e' preciso muito para que uma mulher seja estigmatizada como "prostituta" ou, no minimo, "promiscua" (... e veja a sua vida toda, incluindo a profissional, completamente desgracada ...), mesmo que viva longos periodos de celibato e tenha uma formacao etico-moral-religiosa que a tenha moldado e a encaminhe em qualquer outra direccao menos aquela: basta nao ter nascido "na familia certa", nao ter uma alianca no dedo para "proteger a sua reputacao", ou ser "mae solteira" (mesmo que, e sobretudo, por opcao propria!) e/ou ter tido mais do que um (conhecido) companheiro em relacionamentos amorosos perfeitamente saudaveis (sendo que, especialmente na comunidade negra, basta que tais companheiros sejam "nao negros"!) ...

• Enquanto que, no reverso da medalha, basta uma mulher ter (ou alguma vez ter tido, ainda que apenas breve e figurativamente...) uma alianca no dedo, e mesmo que tenha (incluindo, e sobretudo, dentro do casamento...), ou tenha tido, uma conduta que, pelos mesmos (ou ainda piores, no sentido de mais estrictos) criterios acima, poderiam leva-la a ser considerada "prostituta" ou "promiscua", ela e' geralmente "respeitada" pela sociedade e tem mais chances de, em qualquer fatalidade ou outra circunstancia menos feliz, reconstruir a sua vida em paz, tranquilidade e dignidade... Alias, nao e' por acaso que muitas delas, mesmo quando se auto-consideram "emancipadas", apesar de divorciadas ha' muitos anos, mesmo que ja' tenham vivido, ou vivam, maritalmente com outros homens e destes tenham filhos, continuam a usar a tal alianca e o apelido do ex-marido - mesmo quando este tambem ja' seja marido de outra mulher - para o resto da vida para "protegerem a sua reputacao" e "garantirem o seu status social"!

Preconceito 3: A distância e a solidão estão, às vezes, na origem da união conjugal entre pessoas de culturas diferentes, o que origina a ‘cultura mista’, que causa muitos transtornos em muitas famílias.

• Unioes conjugais entre pessoas de culturas diferentes (e resultantes ‘culturas mistas’) acontecem quer nos paises de origem dessas pessoas, quer noutros paises e isso nao tem forcosamente a ver com distancia ou solidao;

• A ‘cultura mista’ esta’ longe de ser a unica origem dos “muitos transtornos causados em muitas familias”. Um exemplo a contrario pode ser a poligamia… que (especialmente quando praticada fora do seu natural contexto socio-cultural, sendo que nesse caso e' geralmente nao assumida plenamente pelo homem, especialmente quando e' casado oficialmente com uma das mulheres) causa muito mais distancia, solidao, vulnerabilidade e transtornos a mulheres em unioes conjugais dentro da mesma cultura e suas familias.

Preconceito 4: A mulher é o género mais vulnerável nos casamentos mistos e indesejados devido à sua fragilidade ou à pobreza e, quando isso acontece, a tendência é adquirir a cultura do marido.

• Apenas a mulher e’ aqui vista como “fragil e/ou pobre”;

• O que dizer, entao, dos africanos que, sobretudo no ocidente, se casam (numa proporcao de 100/1 relativamente a casamentos entre mulheres africanas e homens de outras origens) com mulheres de outras origens e adquirem a sua cultura? Serao tambem eles “frageis” e "vulneraveis", ou serao as suas parceiras necessariamente “pobres”? Ou serao todos eles "ricos"?

• E o que dizer de homens que, dentro da mesma cultura, apenas se casam com mulheres de uma certa raca ou tom de pele, ou cujas familias tenham um determinado apelido e/ou status economico-social? Enquanto que, ao mesmo tempo, alguns deles fazem questao de ostentar o nome de "outras" com quem tiveram algum relacionamento (minimo, acidental, ocasional, equivocado e inconsequente que tenha sido!), como "trofeus" sobre os quais se julgam eternamente com direitos de posse e de vida ou de morte... sendo que, caso as suas vitimas se revoltem contra tal comportamento abusivo, eles (e, quantas vezes, as suas "legitimas patroas" e respectivas familias e amigos...) nao se coibem de tudo fazer para as ostracizar socialmente e arrastar os seus nomes pela lama para o resto da vida!

• Deverao apenas os casamentos de mulheres com homens de outras culturas ser considerados “indesejaveis”?

Preconceito 5: Muitas pessoas que deixam o país de origem, quando atingem a maior idade perdem a nacionalidade ou a identidade cultural. O ensino da língua materna, que é também grande factor de preservação da cultura, é esquecido.

• E', de facto, lamentavel que isso aconteca, quando acontece (e ainda bem que aqui se fala em "pessoas" e nao apenas em "mulheres"), mas a triste realidade e' que a tendencia e' para os emigrados - mesmo por uma questao de sobrevivencia espiritual enquanto seres humanos e ate' porque algumas das sociedades em que vivem promovem e valorizam sobremaneira a diversidade cultural - terem um maior apego a sua cultura de origem do que os seus compatriotas que permanecem no seu pais e que vivem "fascinados" e "vidrados" (quando nao completamente subjugados!) a tudo o que e' estrangeiro e, especialmente, ocidental...

• E, no caso particular de Angola, a questao da falta de preservacao da identidade cultural e das linguas maternas, esta' longe de ser um atributo exclusivo dos emigrados, sendo na verdade uma consequencia da propria matriz de colonizacao a que o pais foi submetido durante seculos...

• De notar tambem que, geralmente, sao as mulheres as portadoras, preservadoras e transmissoras da sua cultura materna, pelo que ha' mais chances de os seus filhos num casamento misto serem educados, pelo menos parcialmente, nas tradicoes do pais da mae, do que quando tais filhos sao produto de um casamento de um homem africano como uma mulher de outra origem.


* [Comentarios a esta materia]


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The Burden of The Black Woman

Casamento!
Preconceito 1: A mulher é vulnerável no casamento misto.

• A mulher, quando e’ vulneravel, e’-o em qualquer tipo de casamento! De facto, casos ha’ em que mulheres africanas emigradas no ocidente (nao necessariamente pobres, frageis ou incultas…) foram feitas extremamente vulneraveis (incluindo com os seus filhos…) por maridos (tambem nao necessariamente "pobres"...) do seu pais e cultura de origem e encontraram junto de homens de outra nacionalidade e cultura o amor, o respeito, a dignidade e a estabilidade (nao exclusivamente material e/ou financeira…), enfim, a felicidade a que todos os seres humanos teem direito;

• Convem notar que, pelo menos nas sociedades ocidentais, as mulheres, qualquer que seja a sua origem ou status economico-social, ganham com o casamento (oficial) direitos adquiridos perante a lei, que nem o marido, a sua familia, ou a sua cultura e/ou sociedade, podem facilmente violar, ao contrario do que se passa em muitos casos na sociedade angolana...

Preconceito 2: A causa fundamental da emigração é a pobreza.

• A causa fundamental (mas nao unica, como alias se reconhece quando se diz que “existe uma vasta gama de factores para a emigração e um deles é a pobreza”) da emigracao de Africa e dos paises do dito terceiro mundo para outros destinos podera’ ser, de facto, a pobreza. Mas ja’ o mesmo nao sera’ verdade de toda a emigracao de europeus e cidadaos de outros paises, sobretudo ocidentais, para Africa e para o dito terceiro mundo – sendo que estes tambem produzem casamentos mistos (aparentemente, excepto em Angola...);

• Quando a causa fundamental da emigracao da mulher africana nao e’ necessariamente a pobreza, nao se pode afirmar com propriedade que ela sera’ vulneravel num casamento misto. De facto, uma das maiores fontes de vulnerabilidade da mulher africana (ou da mulher de qualquer outra proveniencia) quando fora do seu pais de origem, e que pode ser causada pela pobreza, e’ a prostituicao – nao o casamento misto;

• Sera' de notar aqui que, em sociedades como a angolana, nao e' preciso muito para que uma mulher seja estigmatizada como "prostituta" ou, no minimo, "promiscua" (... e veja a sua vida toda, incluindo a profissional, completamente desgracada ...), mesmo que viva longos periodos de celibato e tenha uma formacao etico-moral-religiosa que a tenha moldado e a encaminhe em qualquer outra direccao menos aquela: basta nao ter nascido "na familia certa", nao ter uma alianca no dedo para "proteger a sua reputacao", ou ser "mae solteira" (mesmo que, e sobretudo, por opcao propria!) e/ou ter tido mais do que um (conhecido) companheiro em relacionamentos amorosos perfeitamente saudaveis (sendo que, especialmente na comunidade negra, basta que tais companheiros sejam "nao negros"!) ...

• Enquanto que, no reverso da medalha, basta uma mulher ter (ou alguma vez ter tido, ainda que apenas breve e figurativamente...) uma alianca no dedo, e mesmo que tenha (incluindo, e sobretudo, dentro do casamento...), ou tenha tido, uma conduta que, pelos mesmos (ou ainda piores, no sentido de mais estrictos) criterios acima, poderiam leva-la a ser considerada "prostituta" ou "promiscua", ela e' geralmente "respeitada" pela sociedade e tem mais chances de, em qualquer fatalidade ou outra circunstancia menos feliz, reconstruir a sua vida em paz, tranquilidade e dignidade... Alias, nao e' por acaso que muitas delas, mesmo quando se auto-consideram "emancipadas", apesar de divorciadas ha' muitos anos, mesmo que ja' tenham vivido, ou vivam, maritalmente com outros homens e destes tenham filhos, continuam a usar a tal alianca e o apelido do ex-marido - mesmo quando este tambem ja' seja marido de outra mulher - para o resto da vida para "protegerem a sua reputacao" e "garantirem o seu status social"!

Preconceito 3: A distância e a solidão estão, às vezes, na origem da união conjugal entre pessoas de culturas diferentes, o que origina a ‘cultura mista’, que causa muitos transtornos em muitas famílias.

• Unioes conjugais entre pessoas de culturas diferentes (e resultantes ‘culturas mistas’) acontecem quer nos paises de origem dessas pessoas, quer noutros paises e isso nao tem forcosamente a ver com distancia ou solidao;

• A ‘cultura mista’ esta’ longe de ser a unica origem dos “muitos transtornos causados em muitas familias”. Um exemplo a contrario pode ser a poligamia… que (especialmente quando praticada fora do seu natural contexto socio-cultural, sendo que nesse caso e' geralmente nao assumida plenamente pelo homem, especialmente quando e' casado oficialmente com uma das mulheres) causa muito mais distancia, solidao, vulnerabilidade e transtornos a mulheres em unioes conjugais dentro da mesma cultura e suas familias.

Preconceito 4: A mulher é o género mais vulnerável nos casamentos mistos e indesejados devido à sua fragilidade ou à pobreza e, quando isso acontece, a tendência é adquirir a cultura do marido.

• Apenas a mulher e’ aqui vista como “fragil e/ou pobre”;

• O que dizer, entao, dos africanos que, sobretudo no ocidente, se casam (numa proporcao de 100/1 relativamente a casamentos entre mulheres africanas e homens de outras origens) com mulheres de outras origens e adquirem a sua cultura? Serao tambem eles “frageis” e "vulneraveis", ou serao as suas parceiras necessariamente “pobres”? Ou serao todos eles "ricos"?

• E o que dizer de homens que, dentro da mesma cultura, apenas se casam com mulheres de uma certa raca ou tom de pele, ou cujas familias tenham um determinado apelido e/ou status economico-social? Enquanto que, ao mesmo tempo, alguns deles fazem questao de ostentar o nome de "outras" com quem tiveram algum relacionamento (minimo, acidental, ocasional, equivocado e inconsequente que tenha sido!), como "trofeus" sobre os quais se julgam eternamente com direitos de posse e de vida ou de morte... sendo que, caso as suas vitimas se revoltem contra tal comportamento abusivo, eles (e, quantas vezes, as suas "legitimas patroas" e respectivas familias e amigos...) nao se coibem de tudo fazer para as ostracizar socialmente e arrastar os seus nomes pela lama para o resto da vida!

• Deverao apenas os casamentos de mulheres com homens de outras culturas ser considerados “indesejaveis”?

Preconceito 5: Muitas pessoas que deixam o país de origem, quando atingem a maior idade perdem a nacionalidade ou a identidade cultural. O ensino da língua materna, que é também grande factor de preservação da cultura, é esquecido.

• E', de facto, lamentavel que isso aconteca, quando acontece (e ainda bem que aqui se fala em "pessoas" e nao apenas em "mulheres"), mas a triste realidade e' que a tendencia e' para os emigrados - mesmo por uma questao de sobrevivencia espiritual enquanto seres humanos e ate' porque algumas das sociedades em que vivem promovem e valorizam sobremaneira a diversidade cultural - terem um maior apego a sua cultura de origem do que os seus compatriotas que permanecem no seu pais e que vivem "fascinados" e "vidrados" (quando nao completamente subjugados!) a tudo o que e' estrangeiro e, especialmente, ocidental...

• E, no caso particular de Angola, a questao da falta de preservacao da identidade cultural e das linguas maternas, esta' longe de ser um atributo exclusivo dos emigrados, sendo na verdade uma consequencia da propria matriz de colonizacao a que o pais foi submetido durante seculos...

• De notar tambem que, geralmente, sao as mulheres as portadoras, preservadoras e transmissoras da sua cultura materna, pelo que ha' mais chances de os seus filhos num casamento misto serem educados, pelo menos parcialmente, nas tradicoes do pais da mae, do que quando tais filhos sao produto de um casamento de um homem africano como uma mulher de outra origem.


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esta materia]


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The Burden of The Black Woman

Casamento!

Friday, 30 April 2010

Memorandum [de (des)Entendimento] … I


Nao, nao acabei “aquele” curso em Portugal; deixei 2 ou 3 cadeiras por completar...

Mas acontece que “aquele” meu curso era de 5 anos, prefazendo um total de mais de 25 cadeiras, sendo que nos anos seguintes ao meu “abandono” passou a ser de 4 anos e apenas cerca de 20 cadeiras. Portanto, sai dali com mais cadeiras feitas do que os licenciados posteriores. E das que fiz sai com media de 13/14 valores, tendo-as feito nos cinco anos de duracao normal do curso: i.e., tendo-o comecado em 85/86, em 90/91 eu era finalista – tanto assim que foi por se-lo que fui convidada por uma Universidade Alema para uma visita de estudo com finalistas seus aos EUA e me foi facultada a possibilidade de fazer o estagio que menciono no comentario a este post ...

Sera’ igualmente de notar, en passant, que nenhum dos estudantes angolanos do meu tempo acabou “aquele” curso, sendo que uns desistiram no segundo ou terceiro anos, tendo alguns mudado para cursos “mais faceis”...


Porem:

- nao me tivessem obrigado a ficar na direccao da uniao de estudantes assim que la’ cheguei – ao servico da qual perdi noites e fins de semana sem conta, apenas em troca de uma serie de aborrecimentos, contratempos e os mais diversos ataques pessoais (incluindo ameacas de morte!), apenas por defender principios e praticas que entendia serem correctos e fazerem sentido, nomeadamente a independencia da uniao de estudantes em relacao as estruturas juvenis do partido...

- nao me tivessem obrigado a participar noutras actividades da embaixada, sem qualquer compensacao, incluindo acompanhar o adido comercial a conferencias para lhe escrever os relatorios...

- nao me tivessem comecado a perseguir das mais diversas formas quando decidi dedicar-me exclusivamente aos meus estudos e ao meu filho...

- nao me tivessem abruptamente feito sair, sem justa causa (muito antes pelo contrario!), de uma “certa casa” em pleno inverno, deixando-me a mim e ao meu filho sem um teto durante meses, numa cidade em que era virtualmente impossivel alugar-se uma casa quando se era mulher, negra, estudante bolseira e mae solteira...

- tivessem-me alguma vez dado os balurdios, cartoes de credito e outras facilidades e mordomias que davam aos “filhos e filhas legitimos da patria”...

- nao me tivessem a partir de certa altura praticamente cortado a misera bolsa, obrigando-me a ter que recorrer a emprestimos e a trabalhar e estudar ao mesmo tempo (... talvez me devesse entao ter dedicado a prostituicao e assim ficava com “a fama e o proveito”!...) e, ocasionalmente, a alugar um dos quartos da minha casa, incluindo a um certo pos-graduando angolano para quem tambem batia a maquina e corrigia os seus trabalhos de curso, nos quais ele me pedia para incluir paginas inteiras de livros sem qualquer referencia a fonte – i.e., por forca das circunstancias, ate’ cumplice de plagios me obrigaram a ser...

- nao tivessem intensificado a perseguicao desde que fui aos EUA e depois que me meti em varias actividades civicas pela paz e a democracia em Angola, tendo inclusive a partir de certa altura me sido impedida a entrada na “nossa” embaixada em Portugal...

... E certamente me teriam facultado as necessarias paz de espirito, seguranca e estabilidade material, emocional e psicologica e poupado uma serie de situacoes de desespero e periodos de depressao que me impediam de me concentrar devidamente nos estudos – periodos que, acumulados, acabaram por culminar no completo esgotamento com que fui transportada de emergencia para Londres.... – e eu teria acabado “aquele” curso e, muito provavelmente, com uma media superior aos ditos 13/14 valores... E, em vez de ter que reciclar toda a formacao que tinha feito em Portugal, teria ocupado aquele tempo e recursos financeiros pessoais para fazer um PhD na Inglaterra.


De qualquer modo, na Inglaterra, voltei a fazer de novo, totalmente a minha custa (!), um outro curso de Economia (uma vez que nao me foi dada equivalencia as cadeiras que tinha feito em Portugal...) e um mestrado, o que tudo somado (mesmo descontando os 3 anos que fiz na UAN e os varios cursos tecnicos e estagios profissionais que fiz em Angola, Portugal, UK, Botswana e Africa do Sul – isto sem mencionar a experiencia profissional que acumulei em todos esses e outros paises) mais do que me habilita como Economista!

Serve este memorandum apenas para esclarecer algumas “duvidas” que parecem pulular algures e que por vezes me sao confidenciadas por um certo vento que passa... de quem, de resto, nao tenho quaisquer licoes a receber, e muito menos de Economia!

... o dia em que "me mestrei em imitacao"

e entrei para a "academia em que se passam falsos diplomas"...




Nao, nao acabei “aquele” curso em Portugal; deixei 2 ou 3 cadeiras por completar...

Mas acontece que “aquele” meu curso era de 5 anos, prefazendo um total de mais de 25 cadeiras, sendo que nos anos seguintes ao meu “abandono” passou a ser de 4 anos e apenas cerca de 20 cadeiras. Portanto, sai dali com mais cadeiras feitas do que os licenciados posteriores. E das que fiz sai com media de 13/14 valores, tendo-as feito nos cinco anos de duracao normal do curso: i.e., tendo-o comecado em 85/86, em 90/91 eu era finalista – tanto assim que foi por se-lo que fui convidada por uma Universidade Alema para uma visita de estudo com finalistas seus aos EUA e me foi facultada a possibilidade de fazer o estagio que menciono no comentario a
este post ...

Sera’ igualmente de notar, en passant, que nenhum dos estudantes angolanos do meu tempo acabou “aquele” curso, sendo que uns desistiram no segundo ou terceiro anos, tendo alguns mudado para cursos “mais faceis”...


Porem:

- nao me tivessem obrigado a ficar na direccao da uniao de estudantes assim que la’ cheguei – ao servico da qual perdi noites e fins de semana sem conta, apenas em troca de uma serie de aborrecimentos, contratempos e os mais diversos ataques pessoais (incluindo ameacas de morte!), apenas por defender principios e praticas que entendia serem correctos e fazerem sentido, nomeadamente a independencia da uniao de estudantes em relacao as estruturas juvenis do partido...

- nao me tivessem obrigado a participar noutras actividades da embaixada, sem qualquer compensacao, incluindo acompanhar o adido comercial a conferencias para lhe escrever os relatorios...

- nao me tivessem comecado a perseguir das mais diversas formas quando decidi dedicar-me exclusivamente aos meus estudos e ao meu filho...

- nao me tivessem abruptamente feito sair, sem justa causa (muito antes pelo contrario!), de uma “certa casa” em pleno inverno, deixando-me a mim e ao meu filho sem um teto durante meses, numa cidade em que era virtualmente impossivel alugar-se uma casa quando se era mulher, negra, estudante bolseira e mae solteira...

- tivessem-me alguma vez dado os balurdios, cartoes de credito e outras facilidades e mordomias que davam aos “filhos e filhas legitimos da patria”...

- nao me tivessem a partir de certa altura praticamente cortado a misera bolsa, obrigando-me a ter que recorrer a emprestimos e a trabalhar e estudar ao mesmo tempo (... talvez me devesse entao ter dedicado a prostituicao e assim ficava com “a fama e o proveito”!...) e, ocasionalmente, a alugar um dos quartos da minha casa, incluindo a um certo pos-graduando angolano para quem tambem batia a maquina e corrigia os seus trabalhos de curso, nos quais ele me pedia para incluir paginas inteiras de livros sem qualquer referencia a fonte – i.e., por forca das circunstancias, ate’ cumplice de plagios me obrigaram a ser...

- nao tivessem intensificado a perseguicao desde que fui aos EUA e depois que me meti em varias actividades civicas pela paz e a democracia em Angola, tendo inclusive a partir de certa altura me sido impedida a entrada na “nossa” embaixada em Portugal...

... E certamente me teriam facultado as necessarias paz de espirito, seguranca e estabilidade material, emocional e psicologica e poupado uma serie de situacoes de desespero e periodos de depressao que me impediam de me concentrar devidamente nos estudos – periodos que, acumulados, acabaram por culminar no completo esgotamento com que fui transportada de emergencia para Londres.... – e eu teria acabado “aquele” curso e, muito provavelmente, com uma media superior aos ditos 13/14 valores... E, em vez de ter que reciclar toda a formacao que tinha feito em Portugal, teria ocupado aquele tempo e recursos financeiros pessoais para fazer um PhD na Inglaterra.


De qualquer modo, na Inglaterra, voltei a fazer de novo, totalmente a minha custa (!), um outro curso de Economia (uma vez que nao me foi dada equivalencia as cadeiras que tinha feito em Portugal...) e um mestrado, o que tudo somado (mesmo descontando os 3 anos que fiz na UAN e os varios cursos tecnicos e estagios profissionais que fiz em Angola, Portugal, UK, Botswana e Africa do Sul – isto sem mencionar a experiencia profissional que acumulei em todos esses e outros paises) mais do que me habilita como Economista!

Serve este memorandum apenas para esclarecer algumas “duvidas” que parecem pulular algures e que por vezes me sao confidenciadas por um certo vento que passa... de quem, de resto, nao tenho quaisquer licoes a receber, e muito menos de Economia!

... o dia em que "me mestrei em imitacao"

e entrei para a "academia em que se passam falsos diplomas"...



Monday, 22 September 2008

'LINHA DE PASSE'


Ontem voltamos ao Odeon de Camden para ver esse filme brasileiro que se estreou aqui em Londres este fim de semana. Ja’ la’ nao ia, ou a qualquer outra sala de cinema, desde “The Last King of Scotland”. Mas, ao contrario daquela vez, nao foi necessario comprar os bilhetes com muita antecedencia e os espectadores presentes nao terao ocupado mais do que 1% da capacidade da sala.
Cada vez tenho menos paciencia para a boa meia hora, ou mais, de publicidade e ‘trailers’ antes do inicio do filme propriamente dito, mas ocupamo-la com ‘small talk’ sobre a tempestade que vai pela economia em geral e pelos mercados financeiros em particular, local e globalmente. Nao, o membro da tribo que trabalha na City de Londres, num dos maiores bancos britanicos (ainda) nao perdeu o emprego, apesar dos milhares de despedimentos que se teem verificado nas ultimas semanas no sector bancario e um pouco por toda a economia deste pais. Parece que o sistema financeiro global ainda esta’ a balancar no ‘fio da navalha’, ou na ‘linha de passe’, entre a profunda recessao e aquela coisa que os economistas bem avisados evitam pronunciar, pelo menos publicamente, porque parece ter o dom de se revelar uma ‘self-fulfilling prophecy’: a pura Depressao.
A este proposito, lembro-me que quando a crise se comecou a acentuar no ano passado, lutei aqui com o dilema de falar em “fears of a recession” ou “of a depression”, acabando por optar pela segunda por me parecer retratar melhor a realidade (sendo que na altura a maior parte dos observadores e analistas economicos hesitavam sequer falar em "recessao"). E, desde entao, a economia mundial nao tem feito outra coisa senao passar a linha entre a recessao e a depressao, que apenas nao se revela (ainda) tao profunda quanto a dos anos 30 devido ao desenvolvimento, entretanto, de mecanismos mais sofisticados de ‘salvamento’ dos sistemas financeiros e a actual globalizacao da economia, que permite, por exemplo, que investidores do Japao e do UK se aprestem rapidamente a adquirir partes do Lehman Brothers, que o FED Americano no seu papel actual de 'salva-vidas' nao pode impedir que se afundasse, entre tantos outros naufragos a atender com uma 'boia de salvacao' que avalia em cerca de USD 700 bi que parece nao saber ainda muito bem onde ir buscar... Economia global essa, onde neste momento apenas os maiores exportadores liquidos de petroleo, Angola incluida, parecem andar em bons espiritos...

Mas, entretanto, o filme comecou e... nao acabou. E’, o filme nao teve fim, nao teve ‘the end’, nao teve ‘closure’ dos varios dramas sobre os quais se deteve. Ou melhor, teve-o, mas apenas implicitamente. O que talvez o tenha tornado mais interessante, mas tambem menos satisfatorio, pelo menos do meu ponto de vista, ou apenas da minha francamente ma’ disposicao de ontem (de facto, no regresso a casa acabei por ter que admitir que talvez me esteja a tornar rapidamente uma ‘grumpy old lady’...).
Enfim, pareceu-me mais um longo episodio de telenovela do que um filme propriamente dito, com varios ‘sketches’ a volta do quotidiano de uma familia composta por mae solteira, gravida de crianca de ‘pai desconhecido’, e seus quatro filhos de pais diferentes, nos arredores de Sao Paulo. Em linhas gerais, eu diria que e’ um filme sobre a ‘linha de passagem’ entre a pobreza absoluta e a relativa, entre a necessidade e a moralidade, entre a normalidade e a marginalidade, entre o sagrado e o profano e entre os sonhos possiveis e a realidade impossivel, com o futebol e as suas linhas de passe como ‘campo de fundo’. E sem ‘soundtrack’ (ou eu e’ que nao me dei conta dele?), o que tambem o torna interessante, mas tao cinzento quanto julgo ser Sao Paulo.
E mais nao digo, para nao estragar o apetite a quem ainda nao o viu e o queira ver. Apenas que e’ realizado por Walter Salles (“Estacao Central” e “Motorcycle Diaries”) e que a sua principal protagonista, Sandra Corveloni, ganhou pelo seu papel neste filme o premio de Melhor Actriz Feminina do ultimo festival de Cannes.

Ontem voltamos ao Odeon de Camden para ver esse filme brasileiro que se estreou aqui em Londres este fim de semana. Ja’ la’ nao ia, ou a qualquer outra sala de cinema, desde “
The Last King of Scotland”. Mas, ao contrario daquela vez, nao foi necessario comprar os bilhetes com muita antecedencia e os espectadores presentes nao terao ocupado mais do que 1% da capacidade da sala.
Cada vez tenho menos paciencia para a boa meia hora, ou mais, de publicidade e ‘trailers’ antes do inicio do filme propriamente dito, mas ocupamo-la com ‘small talk’ sobre a tempestade que vai pela economia em geral e pelos mercados financeiros em particular, local e globalmente. Nao, o membro da tribo que trabalha na City de Londres, num dos maiores bancos britanicos (ainda) nao perdeu o emprego, apesar dos milhares de despedimentos que se teem verificado nas ultimas semanas no sector bancario e um pouco por toda a economia deste pais. Parece que o sistema financeiro global ainda esta’ a balancar no ‘fio da navalha’, ou na ‘linha de passe’, entre a profunda recessao e aquela coisa que os economistas bem avisados evitam pronunciar, pelo menos publicamente, porque parece ter o dom de se revelar uma ‘self-fulfilling prophecy’: a pura Depressao.
A este proposito, lembro-me que quando a crise se comecou a acentuar no ano passado, lutei aqui com o dilema de falar em “fears of a recession” ou “of a depression”, acabando por optar pela segunda por me parecer retratar melhor a realidade (sendo que na altura a maior parte dos observadores e analistas economicos hesitavam sequer falar em "recessao"). E, desde entao, a economia mundial nao tem feito outra coisa senao passar a linha entre a recessao e a depressao, que apenas nao se revela (ainda) tao profunda quanto a dos anos 30 devido ao desenvolvimento, entretanto, de mecanismos mais sofisticados de ‘salvamento’ dos sistemas financeiros e a actual globalizacao da economia, que permite, por exemplo, que investidores do Japao e do UK se aprestem rapidamente a adquirir partes do Lehman Brothers, que o FED Americano no seu papel actual de 'salva-vidas' nao pode impedir que se afundasse, entre tantos outros naufragos a atender com uma 'boia de salvacao' que avalia em cerca de USD 700 bi que parece nao saber ainda muito bem onde ir buscar... Economia global essa, onde neste momento apenas os maiores exportadores liquidos de petroleo, Angola incluida, parecem andar em bons espiritos...

Mas, entretanto, o filme comecou e... nao acabou. E’, o filme nao teve fim, nao teve ‘the end’, nao teve ‘closure’ dos varios dramas sobre os quais se deteve. Ou melhor, teve-o, mas apenas implicitamente. O que talvez o tenha tornado mais interessante, mas tambem menos satisfatorio, pelo menos do meu ponto de vista, ou apenas da minha francamente ma’ disposicao de ontem (de facto, no regresso a casa acabei por ter que admitir que talvez me esteja a tornar rapidamente uma ‘grumpy old lady’...).
Enfim, pareceu-me mais um longo episodio de telenovela do que um filme propriamente dito, com varios ‘sketches’ a volta do quotidiano de uma familia composta por mae solteira, gravida de crianca de ‘pai desconhecido’, e seus quatro filhos de pais diferentes, nos arredores de Sao Paulo. Em linhas gerais, eu diria que e’ um filme sobre a ‘linha de passagem’ entre a pobreza absoluta e a relativa, entre a necessidade e a moralidade, entre a normalidade e a marginalidade, entre o sagrado e o profano e entre os sonhos possiveis e a realidade impossivel, com o futebol e as suas linhas de passe como ‘campo de fundo’. E sem ‘soundtrack’ (ou eu e’ que nao me dei conta dele?), o que tambem o torna interessante, mas tao cinzento quanto julgo ser Sao Paulo.
E mais nao digo, para nao estragar o apetite a quem ainda nao o viu e o queira ver. Apenas que e’ realizado por Walter Salles (“Estacao Central” e “Motorcycle Diaries”) e que a sua principal protagonista, Sandra Corveloni, ganhou pelo seu papel neste filme o premio de Melhor Actriz Feminina do ultimo festival de Cannes.

Tuesday, 26 February 2008

MULHERES… DE DOMINGO (Recidivus)*





"Como Entender As Mulheres" (Primeiro Volume...)


Domingo e’, a todos os titulos, um dia especial. Tentar justificar essa evidencia e’ praticamente um “no brainer”, ou seja, e’ como tentar-se justificar porque que a chuva molha. Mas, digamos que e’ especial porque nao se trabalha, a excepcao daquelas ocupacoes – formais, como policia e bombeiros, ou informais, como ‘blogging’ – que a isso nos obrigam, ou naquelas sociedades, culturas e religioes que respeitam o “Sabath” literalmente ao Sabado. E’ tambem o dia em que, seja para uma ida a missa, ao mercado, a baixa da cidade, ao centro comercial, ou a uma visita a casa de familiares ou amigos, tentamos sempre apresentar-nos no nosso melhor – em termos de indumentaria ou comportamento. E nao ha’ ninguem melhor do que as mulheres para evidenciarem essa realidade domingueira.

Transportando essa evidencia para a vida mais quotidiana, encontro que… e’ muito dificil entender as mulheres (… nao estou sozinha nisto, sei-o bem: praticamente todos os homens, secundando Freud, disseram-no e continuam a dize-lo…). E isto muito simplesmente porque, pelo menos na vida social, elas tendem maioritariamente a comportar-se como e a vestir-se com as suas poses e vestimentas “domingueiras” que, a uma observacao mais proxima e/ou cuidada, nos revelam que nao passam disso mesmo: comportamento e vestes domingueiras… nada mais quotidiano, nada mais substantivo, nada mais profundo. Falar (de) assim, quando eu sou mulher e nunca me conheci outro genero ou inclinacao sexual, “soa mal” e e’ “politicamente incorrecto” – eu sei. Mas tambem sei que dificilmente havera’ inimigo pior de uma mulher do que outra mulher… dificilmente havera’, pelo menos em certas profissoes e niveis hierarquicos, pior colega de trabalho de uma mulher do que outra mulher. Sei tambem que nao estou sozinha nisto: ouvi-o de outras mulheres, desde ministras a empregadas domesticas, passando por escritoras, escriturarias e profissionais universitarias.

E sei-o, tambem, por experiencia propria: nao ha’ muito tempo, vi-me forcada a abandonar intempestivamente a que talvez tenha sido a melhor posicao profissional da minha vida por uma questao de principio: nao consegui encontrar espaco, ou instrumento, no meu vasto “arsenal” de defesas contra o sexismo e a discriminacao, para tolerar um ataque pornografico, completamente nao provocado (se e’ que e’ possivel “provocar-se” tal coisa…) e “out of the blue”, por parte de um colega de trabalho (por sinal, angolano)… e enquanto o perpetrador encontrava apoio entre os poderosos chefoes masculinos, eu vi-me completamente “desertada” por todas as colegas femininas, incluindo as igualmente poderosas, bem falantes, articuladas, feministas e activistas “burocratas do genero”… E estas nao eram daquelas “de trazer por casa” nao: eram precisamente das que andam pelas reunioes de alto nivel em plataformas internacionais a falar em nome das mulheres Africanas! (But then, again, in their “more African than thou” postures, I’m not African anyway and, presumably, I should have felt exhilarated, honoured and over the moon for having attracted that sort of unwanted attention… ‘cause, presumably, I should be “liberated enough” to accept pornography as a “pleasurable and normal thing”, even in the workplace, when it causes me nothing but disgust and distress…).

Anyway, antes que isto me leve ‘a tese que sempre quis escrever sobre “mulheres…”, mas que sei que nunca escreverei, porque e’ um assunto demasiado pesado para o meu arcaboico, deixem-me encurtar caminho: ja’ sabia bastante sobre a “verdadeira realidade” da “condicao feminina”, por a ter experimentado, vivido e escrito sobre (o artigo em anexo, escrito e publicado no Semanario Angolense ha’ cinco anos atras, e’ apenas disso uma amostra), mas nenhuma das minhas experiencias anteriores me tinha dito tanto sobre essa realidade como esta experiencia de ‘blogging’ nos ultimos meses… Talvez porque, sobretudo sob o anonimato ou mascaras e bandeiras de qualquer especie ou cor, e’ mais facil revelarem-se verdadeiras indumentarias, comportamentos e… identidades. Assim, este blog trouxe-me, ate’ agora, pelo menos duas experiencias ineditas: ver-me confrontada com, atacada, insultada, embaracada e coisificada publicamente por “mulheres” capazes de desferirem ataques pornograficos e violacoes, senao fisicas (e talvez apenas porque disso nao teem possibilidade…), certamente psicologicas e morais, contra outras mulheres, ‘apenas porque lhes da’ na real gana’, e “conhecer” mulheres com inexcediveis e vertiginosos niveis de arrogancia ignorante, racismo, xenofobia, elitismo, soberba e um misto de complexos de superioridade e de inferioridade, que nao sabia antes sequer possivel existirem! Certamente, tambem pude verificar, ate’ agora, excepcoes ‘a regra: pelo menos duas mulheres, so’ para mencionar as ‘bloggers’ que consistentemente se teem manifestado acima de comportamentos mesquinhos, invejas e ciumeiras irracionais, o teem demonstrado atraves das suas diversas participacoes neste blog. Mas receio bem que sejam pouco mais do que as excepcoes que confirmam a regra…

Essas experiencias ineditas, quanto mais nao seja, teem-me deixado a perguntar-me: onde e’ que andavam certas mulheres, em finais da decada de 70, principios da de 80, quando, em Luanda, tanto quanto eu tinha que marcar lugar na bicha para a carne, marcava lugar na bicha da livraria ‘Mensagem’, para poder comprar um exemplar da revista portuguesa “Mulheres” – onde tive os primeiros serios contactos com as lutas das “tres Marias”, o conceito de “Matria” da Natalia Correia (de quem, mais tarde, tive o prazer de ouvir cantar o “Summertime”, que aqui podemos ouvir tao eloquentemente na “voz” de Charlie Parker, numa casa de fados de Lisboa), ou as poesias de Sophia de Mello Breyner ou Florbela Espanca - essa geracao de Mulheres que rejeitavam liminarmente, entre outros "diminutivos", designacoes como "poetisa"? Ou quando, mesmo depois de ter conseguido assegurar uma subscricao que me poupava da bicha mensal (pelo menos teoricamente, porque meses havia em que chegava la’ e mesmo para os subscritores a revista estava “esgotada”…), me lancei, por minha conta e risco, em busca do entendimento possivel das almas de Sylvia Plath, Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar, Elsa Triolet ou Simone de Beauvoir… Ou ainda, quando, depois de todos os desencantos, descobri Noemia de Sousa, Maya Angelou, Julianne Malveaux, Alice Walker, Toni Morrison, Bessie Head ou Wangari Mathaai?

Onde andavam essas mulheres que nunca apreenderam o sentido de oprobio imbuido na pratica de se “fazerem ‘a vida” atraves de “lutas de galinheiro”, sem qualquer racionalidade a nao ser demonstrarem a sua “superioridade” em disputas pelo que supoeem ser e pretendem fazer passar por “ideias e conceitos”, mas que na verdade nao passam de “preconceitos reorganizados” para lhes servirem como armas de arremesso em competicoes imbecis e irracionais, em espacos virtuais, pela atencao de homens, por nenhuma outra razao objectiva senao obterem notoriedade e tentarem impor-se como “unicos seres pensantes” (normalmente por nenhuma "obvia razao" senao a cor da sua pele, embora tambem haja excepcoes a essa "regra"...) nos circulos em que se movimentam? Onde?! Em que mundo vivem essas mulheres completamente incapazes de se emanciparem dos mais retrogrados e ignorantes preconceitos e praticas que, com as suas vestes e comportamentos domingueiros, impingem, frequentemente atraves de alguns homens suficientemente “desprevenidos” para tal, sobre outras mulheres – via de regra, as mais desprotegidas economica, social e politicamente – fazendo retroceder a luta das mulheres pela igualdade de generos pelo menos um seculo? Onde?!

Nao sei, nem me interessa particularmente saber. Quanto mais nao seja porque todas essas interrogacoes tambem me deixam a perguntar-me: porque que eu nao torno a minha vida "mais facil" comportando-me da mesma maneira? Ja’ ouvi de pelo menos dois amigos meus, sem qualquer relacao entre si, esta afirmacao: “tu pensas muito…”! Nao me lembro de lhes ter dado qualquer resposta porque tal afirmacao apenas me remete a pensar mais ainda: sera’ que a minha “inocencia” em tecnicas e tacticas “tipicamente femininas” se deve ao facto de ter passado tantos anos (...num mundo em que, curiosamente, a maioria das mulheres, e em particular as que se demonstram mais afoitas e talentosas em desferirem ataques cobardes e inescrupulosos contra mulheres como eu, nao se atrevem a entrar...) a resolver complicadas equacoes econometricas, a tentar encontrar “Nash equilibria” para os mais diversos ‘conumdrums’ da historia, da cultura, da sociedade, do desenvolvimento economico ou da politica internacional, a aprimorar o meu jogo de xadrez, ou a cultivar e a desenvolver a capacidade de pensamento estrategico sobre os mais diversos desafios da condicao humana e da vida quotidiana num mundo, mais frequentemente do que nao, hostil? Nao sei. Fico-me com o Bob Marley: “What you gotta… that I don’t know! I’m trying to wonder, wonder… wonder why… wonder, wonder why you act so”!

Mulheres…

PS: No artigo em anexo, faco mencao particular 'as maes solteiras e nisso remeto-me, e aos leitores, ao que tem estado a ocupar o tempo de milhoes de leitores da J.K. Rowling, essa “fab (former) single mom”, autora de “Harry Potter”, neste domingo: o ultimo volume da serie, espectacularmente lancado aqui em Londres ha’ dois dias. Sinto-me proxima do mundo (antigo) dela por razoes muito particulares: somos contemporaneas da “cruzada do Blair contra as maes solteiras”; ela, enquanto mae solteira a viver de “benefits” quando tal “cruzada” se comecou a manifestar, comecou a escrever a serie num café na area onde eu vivo e onde me sentei pela primeira vez num café de Londres… apenas a imensa fortuna que ela acumulou na ultima decada (e a cor da pele?) nos separa.



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*(First published 22/07/07)




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Domingo e’, a todos os titulos, um dia especial. Tentar justificar essa evidencia e’ praticamente um “no brainer”, ou seja, e’ como tentar-se justificar porque que a chuva molha. Mas, digamos que e’ especial porque nao se trabalha, a excepcao daquelas ocupacoes – formais, como policia e bombeiros, ou informais, como ‘blogging’ – que a isso nos obrigam, ou naquelas sociedades, culturas e religioes que respeitam o “Sabath” literalmente ao Sabado. E’ tambem o dia em que, seja para uma ida a missa, ao mercado, a baixa da cidade, ao centro comercial, ou a uma visita a casa de familiares ou amigos, tentamos sempre apresentar-nos no nosso melhor – em termos de indumentaria ou comportamento. E nao ha’ ninguem melhor do que as mulheres para evidenciarem essa realidade domingueira.

Transportando essa evidencia para a vida mais quotidiana, encontro que… e’ muito dificil entender as mulheres (… nao estou sozinha nisto, sei-o bem: praticamente todos os homens, secundando Freud, disseram-no e continuam a dize-lo…). E isto muito simplesmente porque, pelo menos na vida social, elas tendem maioritariamente a comportar-se como e a vestir-se com as suas poses e vestimentas “domingueiras” que, a uma observacao mais proxima e/ou cuidada, nos revelam que nao passam disso mesmo: comportamento e vestes domingueiras… nada mais quotidiano, nada mais substantivo, nada mais profundo. Falar (de) assim, quando eu sou mulher e nunca me conheci outro genero ou inclinacao sexual, “soa mal” e e’ “politicamente incorrecto” – eu sei. Mas tambem sei que dificilmente havera’ inimigo pior de uma mulher do que outra mulher… dificilmente havera’, pelo menos em certas profissoes e niveis hierarquicos, pior colega de trabalho de uma mulher do que outra mulher. Sei tambem que nao estou sozinha nisto: ouvi-o de outras mulheres, desde ministras a empregadas domesticas, passando por escritoras, escriturarias e profissionais universitarias.

E sei-o, tambem, por experiencia propria: nao ha’ muito tempo, vi-me forcada a abandonar intempestivamente a que talvez tenha sido a melhor posicao profissional da minha vida por uma questao de principio: nao consegui encontrar espaco, ou instrumento, no meu vasto “arsenal” de defesas contra o sexismo e a discriminacao, para tolerar um ataque pornografico, completamente nao provocado (se e’ que e’ possivel “provocar-se” tal coisa…) e “out of the blue”, por parte de um colega de trabalho (por sinal, angolano)… e enquanto o perpetrador encontrava apoio entre os poderosos chefoes masculinos, eu vi-me completamente “desertada” por todas as colegas femininas, incluindo as igualmente poderosas, bem falantes, articuladas, feministas e activistas “burocratas do genero”… E estas nao eram daquelas “de trazer por casa” nao: eram precisamente das que andam pelas reunioes de alto nivel em plataformas internacionais a falar em nome das mulheres Africanas! (But then, again, in their “more African than thou” postures, I’m not African anyway and, presumably, I should have felt exhilarated, honoured and over the moon for having attracted that sort of unwanted attention… ‘cause, presumably, I should be “liberated enough” to accept pornography as a “pleasurable and normal thing”, even in the workplace, when it causes me nothing but disgust and distress…).

Anyway, antes que isto me leve ‘a tese que sempre quis escrever sobre “mulheres…”, mas que sei que nunca escreverei, porque e’ um assunto demasiado pesado para o meu arcaboico, deixem-me encurtar caminho: ja’ sabia bastante sobre a “verdadeira realidade” da “condicao feminina”, por a ter experimentado, vivido e escrito sobre (o artigo em anexo, escrito e publicado no Semanario Angolense ha’ cinco anos atras, e’ apenas disso uma amostra), mas nenhuma das minhas experiencias anteriores me tinha dito tanto sobre essa realidade como esta experiencia de ‘blogging’ nos ultimos meses… Talvez porque, sobretudo sob o anonimato ou mascaras e bandeiras de qualquer especie ou cor, e’ mais facil revelarem-se verdadeiras indumentarias, comportamentos e… identidades. Assim, este blog trouxe-me, ate’ agora, pelo menos duas experiencias ineditas: ver-me confrontada com, atacada, insultada, embaracada e coisificada publicamente por “mulheres” capazes de desferirem ataques pornograficos e violacoes, senao fisicas (e talvez apenas porque disso nao teem possibilidade…), certamente psicologicas e morais, contra outras mulheres, ‘apenas porque lhes da’ na real gana’, e “conhecer” mulheres com inexcediveis e vertiginosos niveis de arrogancia ignorante, racismo, xenofobia, elitismo, soberba e um misto de complexos de superioridade e de inferioridade, que nao sabia antes sequer possivel existirem! Certamente, tambem pude verificar, ate’ agora, excepcoes ‘a regra: pelo menos duas mulheres, so’ para mencionar as ‘bloggers’ que consistentemente se teem manifestado acima de comportamentos mesquinhos, invejas e ciumeiras irracionais, o teem demonstrado atraves das suas diversas participacoes neste blog. Mas receio bem que sejam pouco mais do que as excepcoes que confirmam a regra…

Essas experiencias ineditas, quanto mais nao seja, teem-me deixado a perguntar-me: onde e’ que andavam certas mulheres, em finais da decada de 70, principios da de 80, quando, em Luanda, tanto quanto eu tinha que marcar lugar na bicha para a carne, marcava lugar na bicha da livraria ‘Mensagem’, para poder comprar um exemplar da revista portuguesa “Mulheres” – onde tive os primeiros serios contactos com as lutas das “tres Marias”, o conceito de “Matria” da Natalia Correia (de quem, mais tarde, tive o prazer de ouvir cantar o “Summertime”, que aqui podemos ouvir tao eloquentemente na “voz” de Charlie Parker, numa casa de fados de Lisboa), ou as poesias de Sophia de Mello Breyner ou Florbela Espanca - essa geracao de Mulheres que rejeitavam liminarmente, entre outros "diminutivos", designacoes como "poetisa"? Ou quando, mesmo depois de ter conseguido assegurar uma subscricao que me poupava da bicha mensal (pelo menos teoricamente, porque meses havia em que chegava la’ e mesmo para os subscritores a revista estava “esgotada”…), me lancei, por minha conta e risco, em busca do entendimento possivel das almas de Sylvia Plath, Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar, Elsa Triolet ou Simone de Beauvoir… Ou ainda, quando, depois de todos os desencantos, descobri Noemia de Sousa, Maya Angelou, Julianne Malveaux, Alice Walker, Toni Morrison, Bessie Head ou Wangari Mathaai?

Onde andavam essas mulheres que nunca apreenderam o sentido de oprobio imbuido na pratica de se “fazerem ‘a vida” atraves de “lutas de galinheiro”, sem qualquer racionalidade a nao ser demonstrarem a sua “superioridade” em disputas pelo que supoeem ser e pretendem fazer passar por “ideias e conceitos”, mas que na verdade nao passam de “preconceitos reorganizados” para lhes servirem como armas de arremesso em competicoes imbecis e irracionais, em espacos virtuais, pela atencao de homens, por nenhuma outra razao objectiva senao obterem notoriedade e tentarem impor-se como “unicos seres pensantes” (normalmente por nenhuma "obvia razao" senao a cor da sua pele, embora tambem haja excepcoes a essa "regra"...) nos circulos em que se movimentam? Onde?! Em que mundo vivem essas mulheres completamente incapazes de se emanciparem dos mais retrogrados e ignorantes preconceitos e praticas que, com as suas vestes e comportamentos domingueiros, impingem, frequentemente atraves de alguns homens suficientemente “desprevenidos” para tal, sobre outras mulheres – via de regra, as mais desprotegidas economica, social e politicamente – fazendo retroceder a luta das mulheres pela igualdade de generos pelo menos um seculo? Onde?!

Nao sei, nem me interessa particularmente saber. Quanto mais nao seja porque todas essas interrogacoes tambem me deixam a perguntar-me: porque que eu nao torno a minha vida "mais facil" comportando-me da mesma maneira? Ja’ ouvi de pelo menos dois amigos meus, sem qualquer relacao entre si, esta afirmacao: “tu pensas muito…”! Nao me lembro de lhes ter dado qualquer resposta porque tal afirmacao apenas me remete a pensar mais ainda: sera’ que a minha “inocencia” em tecnicas e tacticas “tipicamente femininas” se deve ao facto de ter passado tantos anos (...num mundo em que, curiosamente, a maioria das mulheres, e em particular as que se demonstram mais afoitas e talentosas em desferirem ataques cobardes e inescrupulosos contra mulheres como eu, nao se atrevem a entrar...) a resolver complicadas equacoes econometricas, a tentar encontrar “Nash equilibria” para os mais diversos ‘conumdrums’ da historia, da cultura, da sociedade, do desenvolvimento economico ou da politica internacional, a aprimorar o meu jogo de xadrez, ou a cultivar e a desenvolver a capacidade de pensamento estrategico sobre os mais diversos desafios da condicao humana e da vida quotidiana num mundo, mais frequentemente do que nao, hostil? Nao sei. Fico-me com o Bob Marley: “What you gotta… that I don’t know! I’m trying to wonder, wonder… wonder why… wonder, wonder why you act so”!

Mulheres…

PS: No artigo em anexo, faco mencao particular 'as maes solteiras e nisso remeto-me, e aos leitores, ao que tem estado a ocupar o tempo de milhoes de leitores da J.K. Rowling, essa “fab (former) single mom”, autora de “Harry Potter”, neste domingo: o ultimo volume da serie, espectacularmente lancado aqui em Londres ha’ dois dias. Sinto-me proxima do mundo (antigo) dela por razoes muito particulares: somos contemporaneas da “cruzada do Blair contra as maes solteiras”; ela, enquanto mae solteira a viver de “benefits” quando tal “cruzada” se comecou a manifestar, comecou a escrever a serie num café na area onde eu vivo e onde me sentei pela primeira vez num café de Londres… apenas a imensa fortuna que ela acumulou na ultima decada (e a cor da pele?) nos separa.



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*(First published 22/07/07)