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Monday, 17 October 2011

De Volta 'a Muxima…





Tem sido deveras interessante – por vezes perturbador, por vezes revoltante, por vezes amargo, por vezes divertido, mas sempre interessante – esta coisa de observar algumas das minhas ideias, em alguns casos “apropriadas” por outros “autores”, noutros “confirmadas” e “reiteradas” por outras fontes e, noutros casos ainda, “aplicadas” ou “desenvolvidas” noutros contextos.

Do primeiro tipo de casos referiria como exemplo apenas este, dentre varios outros, do segundo este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, ou este , e do terceiro poderia referir outra serie deles, mas assinalarei aqui apenas o que me faz regressar hoje a Muxima depois de de la’ ainda mal ter regressado…


[... Eh um facto que existe uma aparente falta de amor, respeito mutuo e sentido de auto-preservacao como raca entre as comunidades negras – os Caucasianos, Indianos, Chineses, Japoneses, etc., para o bem ou para o mal, raramente permitem que a miscigenacao racial corroa os pilares das suas etnias e culturas, isto eh, as suas familias. Dai, em grande medida, a base solida de estabilidade social e economica dos seus paises e continentes… Por contraste, um grande numero de negros, quer em Africa, quer noutros continentes, devido ao baixo estatuto social e humilhacoes sub-humanas a que foram submetidos desde a escravatura, parece terem perdido para sempre a sua auto-estima e respeito pelas suas maes e ancestrais...]


Trata-se da “aplicacao” e “desenvolvimento” das questoes que levantei neste meu comentario de ha' 6 anos aos/nos contextos americano e britanico, para so’ citar os que me sao mais proximos. Depois da polemica suscitada ha' 3 anos pelas declaracoes de Obama aqui comentadas, desta vez as mesmas questoes sao levantadas a volta da recente publicacao deste livro, por Ralph Richard Banks (na foto abaixo com a sua familia), professor da prestigiada Universidade de Stanford, que advoga que “dada a falta de homens negros elegiveis no ‘mercado de casamento’ para a maioria das mulheres negras, e especialmente as mais bem sucedidas academica e/ou profissionalmente, estas devem tentar casar-se e constituir familia com homens de outras racas” (questao que tambem abordei em algum detalhe aqui). Banks vem dando 'conselhos' as mulheres negras como estes: “Don't marry down. Marry out”… “Black women shouldn’t continue to be held hostage to the failings of black men”... “Stop settling for less than you deserve. Forget race loyalty.” --- “Nao se casem abaixo (do vosso nivel). Casem-se fora (da nossa comunidade)”… “As mulheres negras nao devem continuar refens das falhas do homem negro”… “Deixem de se contentar com menos do que voces merecem. Esquecam a lealdade racial.”


[E, dizia eu: "...Eh preciso que lhes saibamos demonstrar que talvez os homens sejam escassos sim, mas se nao nos dedicam, casadas ou solteiras, o amor e respeito que merecemos, nao sao nenhum “bem” nas nossas vidas!"...]




Trata-se de um debate que, sobretudo nas ultimas duas decadas, se vem tornando perene e ate’, em certa medida, ja’ “institucionalizado”, no mundo anglofono (vindo aqui a proposito mencionar tambem o caso sul-africano)[*]. E embora tambem aqui ele seja alvo de algumas tentativas de “abafamento” ou de o “varrer para debaixo do tapete”, nao tenho noticia de que alguma mulher negra que nele se tenha envolvido, ou que o tenha protagonizado (como, por exemplo, a autora da materia de que aqui fiz eco ha’ algum tempo e que acabou merecendo ampla difusao e entusiastico debate atraves da CNN...) tenha sido alvo de quaisquer campanhas de linchamento publico como as que tenho sido sujeita no mundo lusofono a partir do “meu pais” e nao so'! [**]

[Auto-Censurado]

E' que, como dizia o outro "gindungo no olho do angolano e' refresco, ne'?! Bem feito!"... Sarava'!...

E porque o essencial esta’ dito, deixo aqui apenas o convite: queiram por favor ler este artigo no The Economist... Obrigada!

[... Ah! Talvez reste dizer que toda essa estoria nao ficara' totalmente bem contada enquanto nao se fizer o link entre a comodificacao e objectificacao sexual de que as mulheres negras teem sido vitimas ao longo dos seculos desde a escravatura e o colonialismo - como exposto, entre outros posts neste blog, aqui e aqui - e a sua sub-representacao e estigmatizacao social - como exposto, tambem entre varios outros posts neste blog, aqui e aqui...]




[... Em Angola o problema torna-se mais grave porquanto o tecido da nossa sociedade e a demografia do pais foram severamente danificados pelos muitos anos de guerra (durante os quais foram as mulheres que aguentaram todas ‘as barras’ na retaguarda e ate nas frentes de combate) e ha de facto uma grande escassez de homens disponiveis. Mas, minhas irmas, tambem nao caiam na armadilha de pensar que com mais estudos ou um bom emprego vai ser mais facil… Esta demonstrado em todo o mundo que as possibilidades de casamento e um lar feliz para uma mulher, diminuem na razao directa do seu sucesso academico e/ou professional… Isto porque encontrar um homem que nao se sinta intimidado por uma mulher realizada e que por isso nao tente humilha-la, sabota-la e diminui-la de varias maneiras, eh como achar uma agulha no palheiro! Vejam, por exemplo, os casos da Ophra Winfrey, a mulher mais rica da America e talvez do mundo, a parte a Rainha da Inglaterra… ou da Condoleeza Rice que eh, independentemente de questoes politico-ideologicas, a mulher mais bem sucedida profissionalmente no mundo: a primeira vive “amancebada” ha anos com um homem que nao se resolve a casar com ela; a segunda nunca casou nem se lhe conhece qualquer relacionamento amoroso estavel… Enquanto que outras, como a Whoopi Goldberg e um numero cada vez maior de negras realizadas academica e/ou profissionalmente no ocidente, simplesmente decidiram “juntar os seus trapinhos”, de papel passado ou nao, com brancos que muito as querem, amam, respeitam e valorizam...]


[*] No caso britanico em particular, lembro-me de ainda recentemente, durante o obito desta minha prima, ter assistido a um acalorado debate entre um homem negro angolano que falava do livro que esta(va) a escrever sobre “os direitos naturais dos homens” e um grupo de mulheres negras angolanas, interessantemente todas de geracoes mais novas do que a minha, que, com argumentos ousados e bem sustentados, pouco menos que o “deitaram por terra”… o que nao deixou de me provocar alguma surpresa perante a apatia, conformismo ou resignacao, quando nao hostilidade, com que geralmente me deparo por parte das mulheres angolanas, sobretudo as da minha propria geracao ou de geracoes mais velhas, sobre este tipo de questoes - o que, mais uma vez, me remete para o que aqui me referia "quanto ao que a palavra esperanca pode significar em Angola"...

Pois os argumentos do nosso brother baseavam-se essencialmente na sua conviccao de que existe uma “ordem natural das coisas” que concede aos homens, e especialmente aos africanos, uma serie de direitos que nao assitem 'a mulher, como por exemplo o “direito a poligamia”… Bom, falou-se um pouco de tudo o que 'a "natureza da sexualidade" de homens e mulheres, africanos ou nao, diz respeito, incluindo as questoes do patriarcado vs. matriarcado ou poligamia vs. poliandria, como aqui e aqui a elas ha' algum tempo me referi.

De minha parte, contei-lhes a estoria de uma mesa redonda a que assisti ha’ mais de 10 anos numa enorme sala a abarrotar de gente, no Africa Centre de Londres, moderada, entre outros 'role models' da comunidade negra no UK, por Dotun Adebayo, especialmente dedicada ao relacionamento entre homens e mulheres negros, em que a questao central era “o que se passa na nossa comunidade negra que nos impede de termos relacionamentos saos e duradouros, incluindo o casamento?”

Uma das explicacoes dadas por um dos presentes foi que “as jovens da nossa comunidade negra fazem filhos muito cedo e ficam maes solteiras e por isso nos preferimos casar e formar os nossos lares com as brancas daqui que nao teem filhos tao cedo.” Em resposta a essa ideia peregrina de que uma mulher jovem mae solteira “fica estragada para sempre” (ou, para usar a terminologia ordinaria de... quem mais?, “poluta”), que esta' na base da sua estigmatizacao social, levantou-se uma das presentes dizendo: “I am not married and have two kids but I am not damaged goods!”

Depois de lhes ter contado isso, uma das participantes no nosso mais pequeno debate, por sinal uma das minhas irmas mais novas, a Wanda, rematou: “pois, e nunca se lembram de questionar os rapazes com quem essas raparigas fazem os filhos!”

E o debate prosseguiu noite fora e pelos dias que se seguiram, enquanto durou o obito…




[**] Ocorre-me aqui apenas o caso de Alice Walker, que, com o seu livro adaptado para o cinema, A Cor Purpura, tera’ sido a primeira a provocar reaccoes hostis por parte de alguns segmentos da comunidade negra americana por alegadamente nele ter “deturpado” a imagem do homem negro!...

E embora tenha perfeita nocao de que no meu caso os ataques concertados de que tenho sido alvo se devem a uma serie de factores interligados motivados por alguns dos meus posicionamentos e opinioes, e muito particularmente as afirmacoes que fiz nos comentarios aqui (... em que falo de um certo tipo de 'bandeirantes' mwangoles que posteriormente decidiram vingar-se tentando imputar-me todo o tipo de "bandeiras" sujas de lama!...) e aqui, o facto e’ que no caso dela nao tenho noticia de que esse tipo de reaccoes tenha degenerado em tentativas de assassinio de caracter, desumanizacao e destruicao da sua reputacao pessoal, familiar, academica, literaria, intelectual e profissional, ou a sua desestruturacao psicologica, emocional, moral e espiritual, e menos ainda em ameacas de violacao sexual e de morte, abertas ou veladas!...


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Do primeiro tipo de casos referiria como exemplo apenas este, dentre varios outros, do segundo este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, este, ou este , e do terceiro poderia referir outra serie deles, mas assinalarei aqui apenas o que me faz regressar hoje a Muxima depois de de la’ ainda mal ter regressado…


[... Eh um facto que existe uma aparente falta de amor, respeito mutuo e sentido de auto-preservacao como raca entre as comunidades negras – os Caucasianos, Indianos, Chineses, Japoneses, etc., para o bem ou para o mal, raramente permitem que a miscigenacao racial corroa os pilares das suas etnias e culturas, isto eh, as suas familias. Dai, em grande medida, a base solida de estabilidade social e economica dos seus paises e continentes… Por contraste, um grande numero de negros, quer em Africa, quer noutros continentes, devido ao baixo estatuto social e humilhacoes sub-humanas a que foram submetidos desde a escravatura, parece terem perdido para sempre a sua auto-estima e respeito pelas suas maes e ancestrais...]


Trata-se da “aplicacao” e “desenvolvimento” das questoes que levantei neste meu comentario de ha' 6 anos aos/nos contextos americano e britanico, para so’ citar os que me sao mais proximos. Depois da polemica suscitada ha' 3 anos pelas declaracoes de Obama aqui comentadas, desta vez as mesmas questoes sao levantadas a volta da recente publicacao deste livro, por Ralph Richard Banks (na foto abaixo com a sua familia), professor da prestigiada Universidade de Stanford, que advoga que “dada a falta de homens negros elegiveis no ‘mercado de casamento’ para a maioria das mulheres negras, e especialmente as mais bem sucedidas academica e/ou profissionalmente, estas devem tentar casar-se e constituir familia com homens de outras racas” (questao que tambem abordei em algum detalhe aqui). Banks vem dando 'conselhos' as mulheres negras como estes: “Don't marry down. Marry out”… “Black women shouldn’t continue to be held hostage to the failings of black men”... “Stop settling for less than you deserve. Forget race loyalty.” --- “Nao se casem abaixo (do vosso nivel). Casem-se fora (da nossa comunidade)”… “As mulheres negras nao devem continuar refens das falhas do homem negro”… “Deixem de se contentar com menos do que voces merecem. Esquecam a lealdade racial.”


[E, dizia eu: "...Eh preciso que lhes saibamos demonstrar que talvez os homens sejam escassos sim, mas se nao nos dedicam, casadas ou solteiras, o amor e respeito que merecemos, nao sao nenhum “bem” nas nossas vidas!"...]




Trata-se de um debate que, sobretudo nas ultimas duas decadas, se vem tornando perene e ate’, em certa medida, ja’ “institucionalizado”, no mundo anglofono (vindo aqui a proposito mencionar tambem o caso sul-africano)[*]. E embora tambem aqui ele seja alvo de algumas tentativas de “abafamento” ou de o “varrer para debaixo do tapete”, nao tenho noticia de que alguma mulher negra que nele se tenha envolvido, ou que o tenha protagonizado (como, por exemplo, a autora da materia de que aqui fiz eco ha’ algum tempo e que acabou merecendo ampla difusao e entusiastico debate atraves da CNN...) tenha sido alvo de quaisquer campanhas de linchamento publico como as que tenho sido sujeita no mundo lusofono a partir do “meu pais” e nao so'! [**]

[Auto-Censurado]

E' que, como dizia o outro "gindungo no olho do angolano e' refresco, ne'?! Bem feito!"... Sarava'!...

E porque o essencial esta’ dito, deixo aqui apenas o convite: queiram por favor ler este artigo no The Economist... Obrigada!

[... Ah! Talvez reste dizer que toda essa estoria nao ficara' totalmente bem contada enquanto nao se fizer o link entre a comodificacao e objectificacao sexual de que as mulheres negras teem sido vitimas ao longo dos seculos desde a escravatura e o colonialismo - como exposto, entre outros posts neste blog, aqui e aqui - e a sua sub-representacao e estigmatizacao social - como exposto, tambem entre varios outros posts neste blog, aqui e aqui...]




[... Em Angola o problema torna-se mais grave porquanto o tecido da nossa sociedade e a demografia do pais foram severamente danificados pelos muitos anos de guerra (durante os quais foram as mulheres que aguentaram todas ‘as barras’ na retaguarda e ate nas frentes de combate) e ha de facto uma grande escassez de homens disponiveis. Mas, minhas irmas, tambem nao caiam na armadilha de pensar que com mais estudos ou um bom emprego vai ser mais facil… Esta demonstrado em todo o mundo que as possibilidades de casamento e um lar feliz para uma mulher, diminuem na razao directa do seu sucesso academico e/ou professional… Isto porque encontrar um homem que nao se sinta intimidado por uma mulher realizada e que por isso nao tente humilha-la, sabota-la e diminui-la de varias maneiras, eh como achar uma agulha no palheiro! Vejam, por exemplo, os casos da Ophra Winfrey, a mulher mais rica da America e talvez do mundo, a parte a Rainha da Inglaterra… ou da Condoleeza Rice que eh, independentemente de questoes politico-ideologicas, a mulher mais bem sucedida profissionalmente no mundo: a primeira vive “amancebada” ha anos com um homem que nao se resolve a casar com ela; a segunda nunca casou nem se lhe conhece qualquer relacionamento amoroso estavel… Enquanto que outras, como a Whoopi Goldberg e um numero cada vez maior de negras realizadas academica e/ou profissionalmente no ocidente, simplesmente decidiram “juntar os seus trapinhos”, de papel passado ou nao, com brancos que muito as querem, amam, respeitam e valorizam...]


[*] No caso britanico em particular, lembro-me de ainda recentemente, durante o obito desta minha prima, ter assistido a um acalorado debate entre um homem negro angolano que falava do livro que esta(va) a escrever sobre “os direitos naturais dos homens” e um grupo de mulheres negras angolanas, interessantemente todas de geracoes mais novas do que a minha, que, com argumentos ousados e bem sustentados, pouco menos que o “deitaram por terra”… o que nao deixou de me provocar alguma surpresa perante a apatia, conformismo ou resignacao, quando nao hostilidade, com que geralmente me deparo por parte das mulheres angolanas, sobretudo as da minha propria geracao ou de geracoes mais velhas, sobre este tipo de questoes - o que, mais uma vez, me remete para o que aqui me referia "quanto ao que a palavra esperanca pode significar em Angola"...

Pois os argumentos do nosso brother baseavam-se essencialmente na sua conviccao de que existe uma “ordem natural das coisas” que concede aos homens, e especialmente aos africanos, uma serie de direitos que nao assitem 'a mulher, como por exemplo o “direito a poligamia”… Bom, falou-se um pouco de tudo o que 'a "natureza da sexualidade" de homens e mulheres, africanos ou nao, diz respeito, incluindo as questoes do patriarcado vs. matriarcado ou poligamia vs. poliandria, como aqui e aqui a elas ha' algum tempo me referi.

De minha parte, contei-lhes a estoria de uma mesa redonda a que assisti ha’ mais de 10 anos numa enorme sala a abarrotar de gente, no Africa Centre de Londres, moderada, entre outros 'role models' da comunidade negra no UK, por Dotun Adebayo, especialmente dedicada ao relacionamento entre homens e mulheres negros, em que a questao central era “o que se passa na nossa comunidade negra que nos impede de termos relacionamentos saos e duradouros, incluindo o casamento?”

Uma das explicacoes dadas por um dos presentes foi que “as jovens da nossa comunidade negra fazem filhos muito cedo e ficam maes solteiras e por isso nos preferimos casar e formar os nossos lares com as brancas daqui que nao teem filhos tao cedo.” Em resposta a essa ideia peregrina de que uma mulher jovem mae solteira “fica estragada para sempre” (ou, para usar a terminologia ordinaria de... quem mais?, “poluta”), que esta' na base da sua estigmatizacao social, levantou-se uma das presentes dizendo: “I am not married and have two kids but I am not damaged goods!”

Depois de lhes ter contado isso, uma das participantes no nosso mais pequeno debate, por sinal uma das minhas irmas mais novas, a Wanda, rematou: “pois, e nunca se lembram de questionar os rapazes com quem essas raparigas fazem os filhos!”

E o debate prosseguiu noite fora e pelos dias que se seguiram, enquanto durou o obito…




[**] Ocorre-me aqui apenas o caso de Alice Walker, que, com o seu livro adaptado para o cinema, A Cor Purpura, tera’ sido a primeira a provocar reaccoes hostis por parte de alguns segmentos da comunidade negra americana por alegadamente nele ter “deturpado” a imagem do homem negro!...

E embora tenha perfeita nocao de que no meu caso os ataques concertados de que tenho sido alvo se devem a uma serie de factores interligados motivados por alguns dos meus posicionamentos e opinioes, e muito particularmente as afirmacoes que fiz nos comentarios aqui (... em que falo de um certo tipo de 'bandeirantes' mwangoles que posteriormente decidiram vingar-se tentando imputar-me todo o tipo de "bandeiras" sujas de lama!...) e aqui, o facto e’ que no caso dela nao tenho noticia de que esse tipo de reaccoes tenha degenerado em tentativas de assassinio de caracter, desumanizacao e destruicao da sua reputacao pessoal, familiar, academica, literaria, intelectual e profissional, ou a sua desestruturacao psicologica, emocional, moral e espiritual, e menos ainda em ameacas de violacao sexual e de morte, abertas ou veladas!...


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Wednesday, 2 February 2011

Furiously Dancing with Alice Walker





Alice Walker is beloved for her ability to speak her own truth in ways that speak for and about countless others. Here she confronts personal and collective challenges in words that dance, sing, and heal. As Shiloh McCloud describes in her foreword, Walker's poems contain “the death of loved ones and the birth of new ideas, the sorrow of rejection and the deliciousness of love, the sweetness of home, familial abandonment, and what it means to belong to the greater world family.”

As Walker writes in her preface, the “empty” half of a glass holds “a rainbow that could exist only in the vacant space.” Musing on the role of dance, which gives this collection its title, she writes, “though we have encountered our share of grief and troubles on this earth, we can still hold the line of beauty, form, and beat. No small accomplishment in a world as challenging as this one.”


{Yet... she didn't go to 'classical ballet' school... or... precisely because of that!}



[More here]


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E Por Falar em Cinema





Alice Walker is beloved for her ability to speak her own truth in ways that speak for and about countless others. Here she confronts personal and collective challenges in words that dance, sing, and heal. As Shiloh McCloud describes in her foreword, Walker's poems contain “the death of loved ones and the birth of new ideas, the sorrow of rejection and the deliciousness of love, the sweetness of home, familial abandonment, and what it means to belong to the greater world family.”

As Walker writes in her preface, the “empty” half of a glass holds “a rainbow that could exist only in the vacant space.” Musing on the role of dance, which gives this collection its title, she writes, “though we have encountered our share of grief and troubles on this earth, we can still hold the line of beauty, form, and beat. No small accomplishment in a world as challenging as this one.”


{Yet... she didn't go to 'classical ballet' school... or... precisely because of that!}



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E Por Falar em Cinema

Thursday, 2 December 2010

E POR FALAR EM CINEMA...




Numa altura em que o recem-criado Festival Internacional de Cinema (FIC) de Luanda se parece estar a sedimentar, veem-me a memoria os tempos (finais da decada de 70 e boa parte da de 80) em que Luanda se podia orgulhar de poder ver algum do melhor cinema do mundo.

Era-nos trazido pela Cinemateca la' da banda que regularmente apresentava ciclos de cinema (frances, alemao, espanhol, russo, italiano, enfim, um pouco de todo o mundo), com algumas sessoes precedidas ou seguidas de apresentacoes e discussao, sendo que alguns dos filmes tambem eram passados na TPA.

Pudemos assim tomar contacto com as tematicas, os realizadores e actores (nao que estes estivessem la’ fisicamente presentes, como agora parece ja’ vir acontecendo um pouco mais nesse tipo de eventos em Luanda...) que fizeram epoca, tanto na altura como em decadas passadas. Nomes como Bunuel, Wenders, Coppola, Polanski, Truffaut, Godard, entre muitos outros, enchiam-nos os olhos e as mentes de "outros mundos" e da vida “la’ fora” (... dois filmes que, por varias razoes, me marcaram particularmente naquela altura foram “Ana e as Suas Irmas”, de Woody Allen e “As Lagrimas Amargas de Petra Von Kant”, de Rainer Fassbinder).

Havia tambem regular e substantiva critica de cinema nas paginas do Vida e Cultura do “nosso Pravda” – claro que, em grande medida, era de teor ideologico, visando “guiar/condicionar” a “visao/opiniao” do espectador, mas a maravilha da setima arte e’ que a podemos ver sem qualquer “intermediacao” entre os nossos olhos e o screen, descontando a eventual censura previa, como e’ obvio...

E tudo se passava sem quaisquer fanfarras ou jamborees “inaugurais”... Talvez por isso, nunca vi nas sessoes daqueles ciclos de cinema certa(o)s “suma(o)s pontifices” que agora do FIC apenas nos dao conta da “vanity fair” que, a conta dele, protagonizam e que nada tem a ver com cinema...

O mesmo se poderia dizer, por exemplo, das “Makas a Quarta-Feira” na UEA naquela altura: eram abertas a tutti quanti, digo, a todo o mundo (eu so’ nao ia quando absolutamente impedida de o fazer, e isso muito antes de publicar o meu livro ou de fazer parte da UEA... e, ja' agora, isso sem qualquer relacao com um certo poeta errante, que tambem nunca me aconteceu ver na UEA...), mas nunca la’ vi tais “pontifices” (entre os quais se incluem neofitas vultas e intelectualoides a prova de bala e espinafre, kabungados, minions, epigonos e afins...). Por isso nunca a(o)s conheci! Por onde andariam? Nos “cavalos”? No lo creo, porque tanto os filmes como as makas eram a noite...

Anyway, este pretendia-se apenas um breve comentario a (des)proposito.



Mas, ja’ agora, sera’ de notar que tal como os habitos de leitura se devem criar desde cedo para se manterem e desenvolverem naturalmente ao longo da vida, o mesmo se passa com o (bom) cinema e, ja’ agora, com a (boa) musica.

No entanto, ficando-me apenas pelo cinema, levei o habito para Lisboa, onde, sempre que podia, ia ver pelo menos um filme por semana e fui tambem, ocasionalmente, a alguns ciclos de cinema especialisados. E isto lembra-me da forma como algumas pessoas (por sinal nao negras) minhas amigas viram “A Cor Purpura” do Spielberg (com base na obra de Alice Walker e onde se destacaram Whoopi Goldberg e Oprah Winfrey): uma, que ja’ o tinha visto, aconselhou-me a levar “muitos lencos de papel” porque me “ia fartar de chorar”; outro, anos mais tarde, tentando “adivinhar” qual o filme que mais me tinha marcado/emocionado na vida, saiu-se “perfeitamente seguro” com esta: “A Cor Purpura”!


Bom, lamentei ter que desiludi-los porque, embora "A Cor Purpura" me tenha certamente emocionado e marcado bastante, o filme que realmente me fez chorar “baba e ranho” (... e me apanhou sem lencos de papel...) foi um filme relativamente obscuro que vi num dos ciclos de cinema de Lisboa, sobre a vida da escultora francesa Camille Claudel, irma do poeta Paul Claudel, e o seu relacionamento com o igualmente escultor (mas considerado um “monstro sagrado” relativamente a ela, que dir-se-ia passar, na mente de alguns, como uma “pobre e insignificante criatura rejeitada”) August Rodin ...

Porque?... Vejam-se os processos de negacao, supressao e apagamento a que aqui me referi...

Soube mais tarde que Isabelle Adjani (nomeada, tal como Whoopi Goldberg pelo seu papel em "A Cor Purpura", para o Oscar de Melhor Actriz e premiada com varios outros premios internacionais de cinema por aquele papel) ficou de tal modo afectada pela encarnacao e representacao da personagem de Camille, que teve que ser submetida a tratamento psicoterapico...

E um dos efeitos colaterais que esses dois filmes me deixaram foi que, durante muito tempo, por "mais bonzinho", ou "melhor", que fosse o papel que visse o Gerard Depardieu ou o Danny Glover desempenhar, eu pura e simplesmente nao os conseguia "chupar", mas... ja' passou.

E' assim (tambem) no (bom) cinema.





Numa altura em que o recem-criado Festival Internacional de Cinema (FIC) de Luanda se parece estar a sedimentar, veem-me a memoria os tempos (finais da decada de 70 e boa parte da de 80) em que Luanda se podia orgulhar de poder ver algum do melhor cinema do mundo.

Era-nos trazido pela Cinemateca la' da banda que regularmente apresentava ciclos de cinema (frances, alemao, espanhol, russo, italiano, enfim, um pouco de todo o mundo), com algumas sessoes precedidas ou seguidas de apresentacoes e discussao, sendo que alguns dos filmes tambem eram passados na TPA.

Pudemos assim tomar contacto com as tematicas, os realizadores e actores (nao que estes estivessem la’ fisicamente presentes, como agora parece ja’ vir acontecendo um pouco mais nesse tipo de eventos em Luanda...) que fizeram epoca, tanto na altura como em decadas passadas. Nomes como Bunuel, Wenders, Coppola, Polanski, Truffaut, Godard, entre muitos outros, enchiam-nos os olhos e as mentes de "outros mundos" e da vida “la’ fora” (... dois filmes que, por varias razoes, me marcaram particularmente naquela altura foram “Ana e as Suas Irmas”, de Woody Allen e “As Lagrimas Amargas de Petra Von Kant”, de Rainer Fassbinder).

Havia tambem regular e substantiva critica de cinema nas paginas do Vida e Cultura do “nosso Pravda” – claro que, em grande medida, era de teor ideologico, visando “guiar/condicionar” a “visao/opiniao” do espectador, mas a maravilha da setima arte e’ que a podemos ver sem qualquer “intermediacao” entre os nossos olhos e o screen, descontando a eventual censura previa, como e’ obvio...

E tudo se passava sem quaisquer fanfarras ou jamborees “inaugurais”... Talvez por isso, nunca vi nas sessoes daqueles ciclos de cinema certa(o)s “suma(o)s pontifices” que agora do FIC apenas nos dao conta da “vanity fair” que, a conta dele, protagonizam e que nada tem a ver com cinema...

O mesmo se poderia dizer, por exemplo, das “Makas a Quarta-Feira” na UEA naquela altura: eram abertas a tutti quanti, digo, a todo o mundo (eu so’ nao ia quando absolutamente impedida de o fazer, e isso muito antes de publicar o meu livro ou de fazer parte da UEA... e, ja' agora, isso sem qualquer relacao com um certo poeta errante, que tambem nunca me aconteceu ver na UEA...), mas nunca la’ vi tais “pontifices” (entre os quais se incluem neofitas vultas e intelectualoides a prova de bala e espinafre, kabungados, minions, epigonos e afins...). Por isso nunca a(o)s conheci! Por onde andariam? Nos “cavalos”? No lo creo, porque tanto os filmes como as makas eram a noite...

Anyway, este pretendia-se apenas um breve comentario a (des)proposito.



Mas, ja’ agora, sera’ de notar que tal como os habitos de leitura se devem criar desde cedo para se manterem e desenvolverem naturalmente ao longo da vida, o mesmo se passa com o (bom) cinema e, ja’ agora, com a (boa) musica.

No entanto, ficando-me apenas pelo cinema, levei o habito para Lisboa, onde, sempre que podia, ia ver pelo menos um filme por semana e fui tambem, ocasionalmente, a alguns ciclos de cinema especialisados. E isto lembra-me da forma como algumas pessoas (por sinal nao negras) minhas amigas viram “A Cor Purpura” do Spielberg (com base na obra de Alice Walker e onde se destacaram Whoopi Goldberg e Oprah Winfrey): uma, que ja’ o tinha visto, aconselhou-me a levar “muitos lencos de papel” porque me “ia fartar de chorar”; outro, anos mais tarde, tentando “adivinhar” qual o filme que mais me tinha marcado/emocionado na vida, saiu-se “perfeitamente seguro” com esta: “A Cor Purpura”!


Bom, lamentei ter que desiludi-los porque, embora "A Cor Purpura" me tenha certamente emocionado e marcado bastante, o filme que realmente me fez chorar “baba e ranho” (... e me apanhou sem lencos de papel...) foi um filme relativamente obscuro que vi num dos ciclos de cinema de Lisboa, sobre a vida da escultora francesa Camille Claudel, irma do poeta Paul Claudel, e o seu relacionamento com o igualmente escultor (mas considerado um “monstro sagrado” relativamente a ela, que dir-se-ia passar, na mente de alguns, como uma “pobre e insignificante criatura rejeitada”) August Rodin ...

Porque?... Vejam-se os processos de negacao, supressao e apagamento a que aqui me referi...

Soube mais tarde que Isabelle Adjani (nomeada, tal como Whoopi Goldberg pelo seu papel em "A Cor Purpura", para o Oscar de Melhor Actriz e premiada com varios outros premios internacionais de cinema por aquele papel) ficou de tal modo afectada pela encarnacao e representacao da personagem de Camille, que teve que ser submetida a tratamento psicoterapico...

E um dos efeitos colaterais que esses dois filmes me deixaram foi que, durante muito tempo, por "mais bonzinho", ou "melhor", que fosse o papel que visse o Gerard Depardieu ou o Danny Glover desempenhar, eu pura e simplesmente nao os conseguia "chupar", mas... ja' passou.

E' assim (tambem) no (bom) cinema.


Thursday, 2 September 2010

SIMONE DE BEAUVOIR IN AFRICA: ISSUES OF AFRICAN FEMINIST THOUGHT

It is one thing to honour de Beauvoir for her brave and pioneering work in 1949. It is quite another to exalt her as a model thinker and source of inspiration now, fifty years later, when so much has happened in the world and in the field of feminist thought, including the rich influx of non-Western feminist thinking.


In a recent interview, Toril Moi, a distinguished figure in the contemporary re-launching of Simone de Beauvoir, confirms that there are two major ideas in de Beauvoir’s The Second Sex. One idea is that “one is not born, but rather becomes, a woman.’ The other is that “in all known societies, woman has always been looked upon as the other” (Wenche Larsen 2000: 82). This paper sets out to question and investigate the second statement. Is it really so that in all known societies woman is and has always been looked upon as the other, the second sex? Looked upon – by whom? Does it have to be so forever? That “woman = the second sex” is a firmly grounded idea in the Western world is not up for discussion. But what about other parts of the world? What about Africa?

The point of the discussion is not empirical.[*] The point is not to show whether places do exist where this a priori othering of women does not occur. The point is to open the mind to different ways of thinking about gender, and for different ways of analyzing gender relations. Freeing ourselves from old mindsets will allow us to envision new kinds of gender relations as we look toward the future – both the future of Africa and the future of ourselves as Western (men and) women.

Post-Enlightenment (i.e. modern) thinkers have described women’s position in all ages and in all places according to their own androcentric models, models which subordinate women. In this way, concepts rooted in the time and space of the thinker him/herself have been universalized. At the moment, both in Western feminist thought and in Western feminist politics, the idea that women are the second sex and that they are universally subordinated is very strong indeed.

The argument in this paper is not that subordination of women does not take place. Of course it does, and increasingly so, and clearly, subordination and oppression of women should be fought against. The argument concerns lines of thinking and analysis: how and from which vantage points, in what kinds of theoretical/conceptual contexts, are women’s lives conceived and conceptualized? And what consequences do they have for strategy and politics?

[...]

The Female Body a Handicap

However much de Beauvoir is quoted for her opening sentence to book 2 of The Second Sex: “One is not born, but rather becomes, a woman,” her work is in contradiction with itself on exactly this issue. On one hand she believes – and shows – how the conditions of women are socially determined. When women are squeezed, torn, and suffering, it is not because of menstruation and menopause, but because of the ways that society deals with womanhood. This is her official and conscious position:

I am convinced that the greater part of the discomforts and maladies that overburden women are due to psychic causes, as gynaecologists, indeed, have told me. Women are constantly harassed to the limit of their strength because of the moral tension I have referred to, because of all the tasks they assume, because of the contradictions among which they struggle. This does not mean that their ills are imaginary: they are as real and destructive as the situation to which they give expression. But the situation does not depend on the body; the reverse is true.” (SdB 1949/1997: 706)

On the other hand there is her whole attitude to and description of the female body. Its capacity for pregnancy, childbirth, and lactation is never seen as a positive potential, as a source of pleasure or pride, but only and always as a curse, a drag, and a burden. Toril Moi (whose reading of The Second Sex at this point corresponds to my own) gives a poignant summary:

For Beauvoir women are the slaves of the species. Every biological process in the female body is a ‘crisis’ or a ‘trial’, and the result is always alienation. Her list of troubles and pains experienced during menstruation is impressive, to say the least, ranging from high blood pressure, impaired hearing and eyesight to unpleasant smells, destabilization of the central nervous system, abdominal pains, constipation and diarrhoea (Second Sex 61). But the discomfort of menstruation pales in comparison to the horrors of gestation. [...] Pregnancy, childbirth and breastfeeding all undermine the women’s health and even put her life at risk: “Childbirth itself is painful and dangerous [...] Nursing is also an exhausting obligation [servitude]; [...] the nursing mother feeds the newborn at the expense of her own strength” (Second Sex 62-63). (Moi 1994: 165)

The fact of the female enslavement to the species is a recurrent theme, especially of the first part of The Second Sex. The human male is free to create and transcend, whereas the female feels her enslavement more and more keenly, the conflict between her own interest and the reproductive forces is heightened. Parturition in cows and mares is much more painful and dangerous than it is in mice and rabbits [...] The woman is adapted to the needs of the egg rather than to her own requirements. From puberty to menopause woman is the theatre of a play that unfolds within her and in which she is not personally concerned. (SdB 1949/1997: 57, 60)

The idea conveyed here is “woman against her body”; from these descriptions it is abundantly clear that for women and their urge for transcendence the female body is a handicap. Obviously de Beauvoir cannot subscribe to Freud’s idea that “anatomy is destiny.” Thus she tries to convince herself that women’s situation does not depend on the body, and that the reverse is true — as indicated in the quote above. There is a shadow of doubt, however, as in the same context she confesses that “it is difficult to determine to what extent woman’s physical constitution handicaps her” (SdB 1949/1997: 706).

In my reading, de Beauvoir is insincere at this point. In her entire analysis, the female body remains a handicap which can only be overcome by minimizing it, which (fortunately) is increasingly possible thanks to (a) industrial development and suitable wage work opportunities for women, supplemented with child care facilities, and (b) contraceptives and other types of reproductive technology. If the contemporary possibilities of in vitro fertilization had been available, or even imaginable, in her time, I am sure that de Beauvoir would have embraced them as further steps on the road to female freedom. It is all contained within the logic of the female body as a handicap.

Regarding this model of female emancipation, socialism and liberalism by and large agree, as do large parts of the women’s movement that the notion that the female body is a handicap as persistent and pervasive as the idea of woman as the other. This idea is based of course on the assumption that the model body is male. But what if it isn’t? I assert, as do others with me, that it is time for feminist thought to overcome the phallocentric as well as the ethnocentric biases in this line of thinking.

[Extracts from a paper by Signe Arnfred]



[*] Yet, for some 'empirical evidence' on these issues, see, for example:


Poder no Feminino

The Great Wall of Feminism

Ciclos

Relendo Samora Pelo Pincel de Naguib (II)

SA (R.I.P.)?

A Menina que Nasceu em Cima da Arvore

Mais Uma Vez Revisitando Questoes de Genero

And...

"Porque que Todo o Mundo?"..., onde se pode ler: Ou, apenas, por "nao terem nascido mulheres", estarem agora, na terceira idade do 'segundo sexo', a tentar "fazer-se mulheres"?

Mulheres de Domingo, onde se pode ler:

(...) Onde andavam certas mulheres, quando... ou quando me lancei por minha conta e risco em busca do entendimento possivel das almas de Sylvia Plath, Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar, Elsa Triolet ou Simone de Beauvoir… Ou ainda, quando, depois de todos os desencantos, descobri Noemia de Sousa, Maya Angelou, Julianne Malveaux, Alice Walker, Toni Morrison, Bessie Head ou Wangari Mathaai? (...)
It is one thing to honour de Beauvoir for her brave and pioneering work in 1949. It is quite another to exalt her as a model thinker and source of inspiration now, fifty years later, when so much has happened in the world and in the field of feminist thought, including the rich influx of non-Western feminist thinking.


In a recent interview, Toril Moi, a distinguished figure in the contemporary re-launching of Simone de Beauvoir, confirms that there are two major ideas in de Beauvoir’s The Second Sex. One idea is that “one is not born, but rather becomes, a woman.’ The other is that “in all known societies, woman has always been looked upon as the other” (Wenche Larsen 2000: 82). This paper sets out to question and investigate the second statement. Is it really so that in all known societies woman is and has always been looked upon as the other, the second sex? Looked upon – by whom? Does it have to be so forever? That “woman = the second sex” is a firmly grounded idea in the Western world is not up for discussion. But what about other parts of the world? What about Africa?

The point of the discussion is not empirical.[*] The point is not to show whether places do exist where this a priori othering of women does not occur. The point is to open the mind to different ways of thinking about gender, and for different ways of analyzing gender relations. Freeing ourselves from old mindsets will allow us to envision new kinds of gender relations as we look toward the future – both the future of Africa and the future of ourselves as Western (men and) women.

Post-Enlightenment (i.e. modern) thinkers have described women’s position in all ages and in all places according to their own androcentric models, models which subordinate women. In this way, concepts rooted in the time and space of the thinker him/herself have been universalized. At the moment, both in Western feminist thought and in Western feminist politics, the idea that women are the second sex and that they are universally subordinated is very strong indeed.

The argument in this paper is not that subordination of women does not take place. Of course it does, and increasingly so, and clearly, subordination and oppression of women should be fought against. The argument concerns lines of thinking and analysis: how and from which vantage points, in what kinds of theoretical/conceptual contexts, are women’s lives conceived and conceptualized? And what consequences do they have for strategy and politics?

[...]

The Female Body a Handicap

However much de Beauvoir is quoted for her opening sentence to book 2 of The Second Sex: “One is not born, but rather becomes, a woman,” her work is in contradiction with itself on exactly this issue. On one hand she believes – and shows – how the conditions of women are socially determined. When women are squeezed, torn, and suffering, it is not because of menstruation and menopause, but because of the ways that society deals with womanhood. This is her official and conscious position:

I am convinced that the greater part of the discomforts and maladies that overburden women are due to psychic causes, as gynaecologists, indeed, have told me. Women are constantly harassed to the limit of their strength because of the moral tension I have referred to, because of all the tasks they assume, because of the contradictions among which they struggle. This does not mean that their ills are imaginary: they are as real and destructive as the situation to which they give expression. But the situation does not depend on the body; the reverse is true.” (SdB 1949/1997: 706)

On the other hand there is her whole attitude to and description of the female body. Its capacity for pregnancy, childbirth, and lactation is never seen as a positive potential, as a source of pleasure or pride, but only and always as a curse, a drag, and a burden. Toril Moi (whose reading of The Second Sex at this point corresponds to my own) gives a poignant summary:

For Beauvoir women are the slaves of the species. Every biological process in the female body is a ‘crisis’ or a ‘trial’, and the result is always alienation. Her list of troubles and pains experienced during menstruation is impressive, to say the least, ranging from high blood pressure, impaired hearing and eyesight to unpleasant smells, destabilization of the central nervous system, abdominal pains, constipation and diarrhoea (Second Sex 61). But the discomfort of menstruation pales in comparison to the horrors of gestation. [...] Pregnancy, childbirth and breastfeeding all undermine the women’s health and even put her life at risk: “Childbirth itself is painful and dangerous [...] Nursing is also an exhausting obligation [servitude]; [...] the nursing mother feeds the newborn at the expense of her own strength” (Second Sex 62-63). (Moi 1994: 165)

The fact of the female enslavement to the species is a recurrent theme, especially of the first part of The Second Sex. The human male is free to create and transcend, whereas the female feels her enslavement more and more keenly, the conflict between her own interest and the reproductive forces is heightened. Parturition in cows and mares is much more painful and dangerous than it is in mice and rabbits [...] The woman is adapted to the needs of the egg rather than to her own requirements. From puberty to menopause woman is the theatre of a play that unfolds within her and in which she is not personally concerned. (SdB 1949/1997: 57, 60)

The idea conveyed here is “woman against her body”; from these descriptions it is abundantly clear that for women and their urge for transcendence the female body is a handicap. Obviously de Beauvoir cannot subscribe to Freud’s idea that “anatomy is destiny.” Thus she tries to convince herself that women’s situation does not depend on the body, and that the reverse is true — as indicated in the quote above. There is a shadow of doubt, however, as in the same context she confesses that “it is difficult to determine to what extent woman’s physical constitution handicaps her” (SdB 1949/1997: 706).

In my reading, de Beauvoir is insincere at this point. In her entire analysis, the female body remains a handicap which can only be overcome by minimizing it, which (fortunately) is increasingly possible thanks to (a) industrial development and suitable wage work opportunities for women, supplemented with child care facilities, and (b) contraceptives and other types of reproductive technology. If the contemporary possibilities of in vitro fertilization had been available, or even imaginable, in her time, I am sure that de Beauvoir would have embraced them as further steps on the road to female freedom. It is all contained within the logic of the female body as a handicap.

Regarding this model of female emancipation, socialism and liberalism by and large agree, as do large parts of the women’s movement that the notion that the female body is a handicap as persistent and pervasive as the idea of woman as the other. This idea is based of course on the assumption that the model body is male. But what if it isn’t? I assert, as do others with me, that it is time for feminist thought to overcome the phallocentric as well as the ethnocentric biases in this line of thinking.

[Extracts from a paper by Signe Arnfred]



[*] Yet, for some 'empirical evidence' on these issues, see, for example:


Poder no Feminino

The Great Wall of Feminism

Ciclos

Relendo Samora Pelo Pincel de Naguib (II)

SA (R.I.P.)?

A Menina que Nasceu em Cima da Arvore

Mais Uma Vez Revisitando Questoes de Genero

And...

"Porque que Todo o Mundo?"..., onde se pode ler: Ou, apenas, por "nao terem nascido mulheres", estarem agora, na terceira idade do 'segundo sexo', a tentar "fazer-se mulheres"?

Mulheres de Domingo, onde se pode ler:

(...) Onde andavam certas mulheres, quando... ou quando me lancei por minha conta e risco em busca do entendimento possivel das almas de Sylvia Plath, Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar, Elsa Triolet ou Simone de Beauvoir… Ou ainda, quando, depois de todos os desencantos, descobri Noemia de Sousa, Maya Angelou, Julianne Malveaux, Alice Walker, Toni Morrison, Bessie Head ou Wangari Mathaai? (...)

Tuesday, 26 February 2008

MULHERES… DE DOMINGO (Recidivus)*





"Como Entender As Mulheres" (Primeiro Volume...)


Domingo e’, a todos os titulos, um dia especial. Tentar justificar essa evidencia e’ praticamente um “no brainer”, ou seja, e’ como tentar-se justificar porque que a chuva molha. Mas, digamos que e’ especial porque nao se trabalha, a excepcao daquelas ocupacoes – formais, como policia e bombeiros, ou informais, como ‘blogging’ – que a isso nos obrigam, ou naquelas sociedades, culturas e religioes que respeitam o “Sabath” literalmente ao Sabado. E’ tambem o dia em que, seja para uma ida a missa, ao mercado, a baixa da cidade, ao centro comercial, ou a uma visita a casa de familiares ou amigos, tentamos sempre apresentar-nos no nosso melhor – em termos de indumentaria ou comportamento. E nao ha’ ninguem melhor do que as mulheres para evidenciarem essa realidade domingueira.

Transportando essa evidencia para a vida mais quotidiana, encontro que… e’ muito dificil entender as mulheres (… nao estou sozinha nisto, sei-o bem: praticamente todos os homens, secundando Freud, disseram-no e continuam a dize-lo…). E isto muito simplesmente porque, pelo menos na vida social, elas tendem maioritariamente a comportar-se como e a vestir-se com as suas poses e vestimentas “domingueiras” que, a uma observacao mais proxima e/ou cuidada, nos revelam que nao passam disso mesmo: comportamento e vestes domingueiras… nada mais quotidiano, nada mais substantivo, nada mais profundo. Falar (de) assim, quando eu sou mulher e nunca me conheci outro genero ou inclinacao sexual, “soa mal” e e’ “politicamente incorrecto” – eu sei. Mas tambem sei que dificilmente havera’ inimigo pior de uma mulher do que outra mulher… dificilmente havera’, pelo menos em certas profissoes e niveis hierarquicos, pior colega de trabalho de uma mulher do que outra mulher. Sei tambem que nao estou sozinha nisto: ouvi-o de outras mulheres, desde ministras a empregadas domesticas, passando por escritoras, escriturarias e profissionais universitarias.

E sei-o, tambem, por experiencia propria: nao ha’ muito tempo, vi-me forcada a abandonar intempestivamente a que talvez tenha sido a melhor posicao profissional da minha vida por uma questao de principio: nao consegui encontrar espaco, ou instrumento, no meu vasto “arsenal” de defesas contra o sexismo e a discriminacao, para tolerar um ataque pornografico, completamente nao provocado (se e’ que e’ possivel “provocar-se” tal coisa…) e “out of the blue”, por parte de um colega de trabalho (por sinal, angolano)… e enquanto o perpetrador encontrava apoio entre os poderosos chefoes masculinos, eu vi-me completamente “desertada” por todas as colegas femininas, incluindo as igualmente poderosas, bem falantes, articuladas, feministas e activistas “burocratas do genero”… E estas nao eram daquelas “de trazer por casa” nao: eram precisamente das que andam pelas reunioes de alto nivel em plataformas internacionais a falar em nome das mulheres Africanas! (But then, again, in their “more African than thou” postures, I’m not African anyway and, presumably, I should have felt exhilarated, honoured and over the moon for having attracted that sort of unwanted attention… ‘cause, presumably, I should be “liberated enough” to accept pornography as a “pleasurable and normal thing”, even in the workplace, when it causes me nothing but disgust and distress…).

Anyway, antes que isto me leve ‘a tese que sempre quis escrever sobre “mulheres…”, mas que sei que nunca escreverei, porque e’ um assunto demasiado pesado para o meu arcaboico, deixem-me encurtar caminho: ja’ sabia bastante sobre a “verdadeira realidade” da “condicao feminina”, por a ter experimentado, vivido e escrito sobre (o artigo em anexo, escrito e publicado no Semanario Angolense ha’ cinco anos atras, e’ apenas disso uma amostra), mas nenhuma das minhas experiencias anteriores me tinha dito tanto sobre essa realidade como esta experiencia de ‘blogging’ nos ultimos meses… Talvez porque, sobretudo sob o anonimato ou mascaras e bandeiras de qualquer especie ou cor, e’ mais facil revelarem-se verdadeiras indumentarias, comportamentos e… identidades. Assim, este blog trouxe-me, ate’ agora, pelo menos duas experiencias ineditas: ver-me confrontada com, atacada, insultada, embaracada e coisificada publicamente por “mulheres” capazes de desferirem ataques pornograficos e violacoes, senao fisicas (e talvez apenas porque disso nao teem possibilidade…), certamente psicologicas e morais, contra outras mulheres, ‘apenas porque lhes da’ na real gana’, e “conhecer” mulheres com inexcediveis e vertiginosos niveis de arrogancia ignorante, racismo, xenofobia, elitismo, soberba e um misto de complexos de superioridade e de inferioridade, que nao sabia antes sequer possivel existirem! Certamente, tambem pude verificar, ate’ agora, excepcoes ‘a regra: pelo menos duas mulheres, so’ para mencionar as ‘bloggers’ que consistentemente se teem manifestado acima de comportamentos mesquinhos, invejas e ciumeiras irracionais, o teem demonstrado atraves das suas diversas participacoes neste blog. Mas receio bem que sejam pouco mais do que as excepcoes que confirmam a regra…

Essas experiencias ineditas, quanto mais nao seja, teem-me deixado a perguntar-me: onde e’ que andavam certas mulheres, em finais da decada de 70, principios da de 80, quando, em Luanda, tanto quanto eu tinha que marcar lugar na bicha para a carne, marcava lugar na bicha da livraria ‘Mensagem’, para poder comprar um exemplar da revista portuguesa “Mulheres” – onde tive os primeiros serios contactos com as lutas das “tres Marias”, o conceito de “Matria” da Natalia Correia (de quem, mais tarde, tive o prazer de ouvir cantar o “Summertime”, que aqui podemos ouvir tao eloquentemente na “voz” de Charlie Parker, numa casa de fados de Lisboa), ou as poesias de Sophia de Mello Breyner ou Florbela Espanca - essa geracao de Mulheres que rejeitavam liminarmente, entre outros "diminutivos", designacoes como "poetisa"? Ou quando, mesmo depois de ter conseguido assegurar uma subscricao que me poupava da bicha mensal (pelo menos teoricamente, porque meses havia em que chegava la’ e mesmo para os subscritores a revista estava “esgotada”…), me lancei, por minha conta e risco, em busca do entendimento possivel das almas de Sylvia Plath, Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar, Elsa Triolet ou Simone de Beauvoir… Ou ainda, quando, depois de todos os desencantos, descobri Noemia de Sousa, Maya Angelou, Julianne Malveaux, Alice Walker, Toni Morrison, Bessie Head ou Wangari Mathaai?

Onde andavam essas mulheres que nunca apreenderam o sentido de oprobio imbuido na pratica de se “fazerem ‘a vida” atraves de “lutas de galinheiro”, sem qualquer racionalidade a nao ser demonstrarem a sua “superioridade” em disputas pelo que supoeem ser e pretendem fazer passar por “ideias e conceitos”, mas que na verdade nao passam de “preconceitos reorganizados” para lhes servirem como armas de arremesso em competicoes imbecis e irracionais, em espacos virtuais, pela atencao de homens, por nenhuma outra razao objectiva senao obterem notoriedade e tentarem impor-se como “unicos seres pensantes” (normalmente por nenhuma "obvia razao" senao a cor da sua pele, embora tambem haja excepcoes a essa "regra"...) nos circulos em que se movimentam? Onde?! Em que mundo vivem essas mulheres completamente incapazes de se emanciparem dos mais retrogrados e ignorantes preconceitos e praticas que, com as suas vestes e comportamentos domingueiros, impingem, frequentemente atraves de alguns homens suficientemente “desprevenidos” para tal, sobre outras mulheres – via de regra, as mais desprotegidas economica, social e politicamente – fazendo retroceder a luta das mulheres pela igualdade de generos pelo menos um seculo? Onde?!

Nao sei, nem me interessa particularmente saber. Quanto mais nao seja porque todas essas interrogacoes tambem me deixam a perguntar-me: porque que eu nao torno a minha vida "mais facil" comportando-me da mesma maneira? Ja’ ouvi de pelo menos dois amigos meus, sem qualquer relacao entre si, esta afirmacao: “tu pensas muito…”! Nao me lembro de lhes ter dado qualquer resposta porque tal afirmacao apenas me remete a pensar mais ainda: sera’ que a minha “inocencia” em tecnicas e tacticas “tipicamente femininas” se deve ao facto de ter passado tantos anos (...num mundo em que, curiosamente, a maioria das mulheres, e em particular as que se demonstram mais afoitas e talentosas em desferirem ataques cobardes e inescrupulosos contra mulheres como eu, nao se atrevem a entrar...) a resolver complicadas equacoes econometricas, a tentar encontrar “Nash equilibria” para os mais diversos ‘conumdrums’ da historia, da cultura, da sociedade, do desenvolvimento economico ou da politica internacional, a aprimorar o meu jogo de xadrez, ou a cultivar e a desenvolver a capacidade de pensamento estrategico sobre os mais diversos desafios da condicao humana e da vida quotidiana num mundo, mais frequentemente do que nao, hostil? Nao sei. Fico-me com o Bob Marley: “What you gotta… that I don’t know! I’m trying to wonder, wonder… wonder why… wonder, wonder why you act so”!

Mulheres…

PS: No artigo em anexo, faco mencao particular 'as maes solteiras e nisso remeto-me, e aos leitores, ao que tem estado a ocupar o tempo de milhoes de leitores da J.K. Rowling, essa “fab (former) single mom”, autora de “Harry Potter”, neste domingo: o ultimo volume da serie, espectacularmente lancado aqui em Londres ha’ dois dias. Sinto-me proxima do mundo (antigo) dela por razoes muito particulares: somos contemporaneas da “cruzada do Blair contra as maes solteiras”; ela, enquanto mae solteira a viver de “benefits” quando tal “cruzada” se comecou a manifestar, comecou a escrever a serie num café na area onde eu vivo e onde me sentei pela primeira vez num café de Londres… apenas a imensa fortuna que ela acumulou na ultima decada (e a cor da pele?) nos separa.



Post Relacionado:

Woman To Woman


*(First published 22/07/07)




"Como Entender As Mulheres" (Primeiro Volume...)


Domingo e’, a todos os titulos, um dia especial. Tentar justificar essa evidencia e’ praticamente um “no brainer”, ou seja, e’ como tentar-se justificar porque que a chuva molha. Mas, digamos que e’ especial porque nao se trabalha, a excepcao daquelas ocupacoes – formais, como policia e bombeiros, ou informais, como ‘blogging’ – que a isso nos obrigam, ou naquelas sociedades, culturas e religioes que respeitam o “Sabath” literalmente ao Sabado. E’ tambem o dia em que, seja para uma ida a missa, ao mercado, a baixa da cidade, ao centro comercial, ou a uma visita a casa de familiares ou amigos, tentamos sempre apresentar-nos no nosso melhor – em termos de indumentaria ou comportamento. E nao ha’ ninguem melhor do que as mulheres para evidenciarem essa realidade domingueira.

Transportando essa evidencia para a vida mais quotidiana, encontro que… e’ muito dificil entender as mulheres (… nao estou sozinha nisto, sei-o bem: praticamente todos os homens, secundando Freud, disseram-no e continuam a dize-lo…). E isto muito simplesmente porque, pelo menos na vida social, elas tendem maioritariamente a comportar-se como e a vestir-se com as suas poses e vestimentas “domingueiras” que, a uma observacao mais proxima e/ou cuidada, nos revelam que nao passam disso mesmo: comportamento e vestes domingueiras… nada mais quotidiano, nada mais substantivo, nada mais profundo. Falar (de) assim, quando eu sou mulher e nunca me conheci outro genero ou inclinacao sexual, “soa mal” e e’ “politicamente incorrecto” – eu sei. Mas tambem sei que dificilmente havera’ inimigo pior de uma mulher do que outra mulher… dificilmente havera’, pelo menos em certas profissoes e niveis hierarquicos, pior colega de trabalho de uma mulher do que outra mulher. Sei tambem que nao estou sozinha nisto: ouvi-o de outras mulheres, desde ministras a empregadas domesticas, passando por escritoras, escriturarias e profissionais universitarias.

E sei-o, tambem, por experiencia propria: nao ha’ muito tempo, vi-me forcada a abandonar intempestivamente a que talvez tenha sido a melhor posicao profissional da minha vida por uma questao de principio: nao consegui encontrar espaco, ou instrumento, no meu vasto “arsenal” de defesas contra o sexismo e a discriminacao, para tolerar um ataque pornografico, completamente nao provocado (se e’ que e’ possivel “provocar-se” tal coisa…) e “out of the blue”, por parte de um colega de trabalho (por sinal, angolano)… e enquanto o perpetrador encontrava apoio entre os poderosos chefoes masculinos, eu vi-me completamente “desertada” por todas as colegas femininas, incluindo as igualmente poderosas, bem falantes, articuladas, feministas e activistas “burocratas do genero”… E estas nao eram daquelas “de trazer por casa” nao: eram precisamente das que andam pelas reunioes de alto nivel em plataformas internacionais a falar em nome das mulheres Africanas! (But then, again, in their “more African than thou” postures, I’m not African anyway and, presumably, I should have felt exhilarated, honoured and over the moon for having attracted that sort of unwanted attention… ‘cause, presumably, I should be “liberated enough” to accept pornography as a “pleasurable and normal thing”, even in the workplace, when it causes me nothing but disgust and distress…).

Anyway, antes que isto me leve ‘a tese que sempre quis escrever sobre “mulheres…”, mas que sei que nunca escreverei, porque e’ um assunto demasiado pesado para o meu arcaboico, deixem-me encurtar caminho: ja’ sabia bastante sobre a “verdadeira realidade” da “condicao feminina”, por a ter experimentado, vivido e escrito sobre (o artigo em anexo, escrito e publicado no Semanario Angolense ha’ cinco anos atras, e’ apenas disso uma amostra), mas nenhuma das minhas experiencias anteriores me tinha dito tanto sobre essa realidade como esta experiencia de ‘blogging’ nos ultimos meses… Talvez porque, sobretudo sob o anonimato ou mascaras e bandeiras de qualquer especie ou cor, e’ mais facil revelarem-se verdadeiras indumentarias, comportamentos e… identidades. Assim, este blog trouxe-me, ate’ agora, pelo menos duas experiencias ineditas: ver-me confrontada com, atacada, insultada, embaracada e coisificada publicamente por “mulheres” capazes de desferirem ataques pornograficos e violacoes, senao fisicas (e talvez apenas porque disso nao teem possibilidade…), certamente psicologicas e morais, contra outras mulheres, ‘apenas porque lhes da’ na real gana’, e “conhecer” mulheres com inexcediveis e vertiginosos niveis de arrogancia ignorante, racismo, xenofobia, elitismo, soberba e um misto de complexos de superioridade e de inferioridade, que nao sabia antes sequer possivel existirem! Certamente, tambem pude verificar, ate’ agora, excepcoes ‘a regra: pelo menos duas mulheres, so’ para mencionar as ‘bloggers’ que consistentemente se teem manifestado acima de comportamentos mesquinhos, invejas e ciumeiras irracionais, o teem demonstrado atraves das suas diversas participacoes neste blog. Mas receio bem que sejam pouco mais do que as excepcoes que confirmam a regra…

Essas experiencias ineditas, quanto mais nao seja, teem-me deixado a perguntar-me: onde e’ que andavam certas mulheres, em finais da decada de 70, principios da de 80, quando, em Luanda, tanto quanto eu tinha que marcar lugar na bicha para a carne, marcava lugar na bicha da livraria ‘Mensagem’, para poder comprar um exemplar da revista portuguesa “Mulheres” – onde tive os primeiros serios contactos com as lutas das “tres Marias”, o conceito de “Matria” da Natalia Correia (de quem, mais tarde, tive o prazer de ouvir cantar o “Summertime”, que aqui podemos ouvir tao eloquentemente na “voz” de Charlie Parker, numa casa de fados de Lisboa), ou as poesias de Sophia de Mello Breyner ou Florbela Espanca - essa geracao de Mulheres que rejeitavam liminarmente, entre outros "diminutivos", designacoes como "poetisa"? Ou quando, mesmo depois de ter conseguido assegurar uma subscricao que me poupava da bicha mensal (pelo menos teoricamente, porque meses havia em que chegava la’ e mesmo para os subscritores a revista estava “esgotada”…), me lancei, por minha conta e risco, em busca do entendimento possivel das almas de Sylvia Plath, Virginia Woolf, Marguerite Yourcenar, Elsa Triolet ou Simone de Beauvoir… Ou ainda, quando, depois de todos os desencantos, descobri Noemia de Sousa, Maya Angelou, Julianne Malveaux, Alice Walker, Toni Morrison, Bessie Head ou Wangari Mathaai?

Onde andavam essas mulheres que nunca apreenderam o sentido de oprobio imbuido na pratica de se “fazerem ‘a vida” atraves de “lutas de galinheiro”, sem qualquer racionalidade a nao ser demonstrarem a sua “superioridade” em disputas pelo que supoeem ser e pretendem fazer passar por “ideias e conceitos”, mas que na verdade nao passam de “preconceitos reorganizados” para lhes servirem como armas de arremesso em competicoes imbecis e irracionais, em espacos virtuais, pela atencao de homens, por nenhuma outra razao objectiva senao obterem notoriedade e tentarem impor-se como “unicos seres pensantes” (normalmente por nenhuma "obvia razao" senao a cor da sua pele, embora tambem haja excepcoes a essa "regra"...) nos circulos em que se movimentam? Onde?! Em que mundo vivem essas mulheres completamente incapazes de se emanciparem dos mais retrogrados e ignorantes preconceitos e praticas que, com as suas vestes e comportamentos domingueiros, impingem, frequentemente atraves de alguns homens suficientemente “desprevenidos” para tal, sobre outras mulheres – via de regra, as mais desprotegidas economica, social e politicamente – fazendo retroceder a luta das mulheres pela igualdade de generos pelo menos um seculo? Onde?!

Nao sei, nem me interessa particularmente saber. Quanto mais nao seja porque todas essas interrogacoes tambem me deixam a perguntar-me: porque que eu nao torno a minha vida "mais facil" comportando-me da mesma maneira? Ja’ ouvi de pelo menos dois amigos meus, sem qualquer relacao entre si, esta afirmacao: “tu pensas muito…”! Nao me lembro de lhes ter dado qualquer resposta porque tal afirmacao apenas me remete a pensar mais ainda: sera’ que a minha “inocencia” em tecnicas e tacticas “tipicamente femininas” se deve ao facto de ter passado tantos anos (...num mundo em que, curiosamente, a maioria das mulheres, e em particular as que se demonstram mais afoitas e talentosas em desferirem ataques cobardes e inescrupulosos contra mulheres como eu, nao se atrevem a entrar...) a resolver complicadas equacoes econometricas, a tentar encontrar “Nash equilibria” para os mais diversos ‘conumdrums’ da historia, da cultura, da sociedade, do desenvolvimento economico ou da politica internacional, a aprimorar o meu jogo de xadrez, ou a cultivar e a desenvolver a capacidade de pensamento estrategico sobre os mais diversos desafios da condicao humana e da vida quotidiana num mundo, mais frequentemente do que nao, hostil? Nao sei. Fico-me com o Bob Marley: “What you gotta… that I don’t know! I’m trying to wonder, wonder… wonder why… wonder, wonder why you act so”!

Mulheres…

PS: No artigo em anexo, faco mencao particular 'as maes solteiras e nisso remeto-me, e aos leitores, ao que tem estado a ocupar o tempo de milhoes de leitores da J.K. Rowling, essa “fab (former) single mom”, autora de “Harry Potter”, neste domingo: o ultimo volume da serie, espectacularmente lancado aqui em Londres ha’ dois dias. Sinto-me proxima do mundo (antigo) dela por razoes muito particulares: somos contemporaneas da “cruzada do Blair contra as maes solteiras”; ela, enquanto mae solteira a viver de “benefits” quando tal “cruzada” se comecou a manifestar, comecou a escrever a serie num café na area onde eu vivo e onde me sentei pela primeira vez num café de Londres… apenas a imensa fortuna que ela acumulou na ultima decada (e a cor da pele?) nos separa.



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Woman To Woman


*(First published 22/07/07)

Saturday, 8 September 2007

SALA SENTLÊ! - UM TRIBUTO AO BOTSWANA*

É verdade amigos, tenho que me despedir. Escrevo-vos de Gaborone, onde as tarefas que me esperam nos próximos tempos não me permitem continuar estas conversas quinzenais. Não posso deixar de agradecer ao Graça Campos por me ter convidado a participar e ao colectivo do Semanário Angolense por me ter deixado partilhar um pouco desta excitante empresa de construção de um espaço alternativo, forte e independente na imprensa nacional. Tenho também que agradecer profundamente a todos os amigos (conhecidos e desconhecidos) que me enviaram mensagens de felicitações e encorajamento. Estou certa de que este valioso espaço no SA será bem aproveitado e continuará a dar oportunidade a outros para expressarem as suas idéias sobre o que vai pela terra e pelo mundo.




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Mama Boregwe - Skizo (Afroblue/Native Tongues)

Deixei Londres, há cerca de três semanas, entregue à sua onda de greves e ao seu Tony Blair a tentar emular o machismo da Lady Thatcher e, ao mesmo tempo, articular uma boa razão para dispender na projectada guerra ao Iraque os fundos necessários à melhoria dos seus serviços públicos; aos seus muitos, quase diários, “celebrity and royal scandals”; à sua chuva miudinha e tempo cinzento e àquela sensação de estarmos parados no espaço, escrutinando o mundo a girar à nossa volta e o tempo a fugir de nós a toda a hora.


Neste meu regresso a Gabs, alguns meses depois de cá ter estado a trabalhar durante pouco mais de um ano, noto que ela continua a impressionar quem chega pela sua limpeza, cosmopolitismo e espírito empreendedor. Perdi a explosão púrpura dos jacarandás (diz-nos Alice Walker que Deus fica muito irritado – pior, fica “pissed off” – se a humanidade não repara na cor púrpura) que todos os Setembros prenuncia o início da época das chuvas, mas o vermelho das acácias e a profusão de cores das buganvílias continuam o seu perene, despudorado, romance com o dourado do sol. O imenso calor tende a fazer recolher os habitantes a espaços interiores durante a maior parte do tempo, deixando o exterior entregue quase exclusivamente a uma imensa variedade de répteis e insectos (que não perdem uma oportunidade para nos entrar pela casa adentro) e ao som do silêncio ou dos pássaros.




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Sombele - Skizo (Afroblue/Native Tongues)

Os Batswana continuam demasiado ocupados a dar à Àfrica algumas das suas poucas razões de orgulho para se permitirem desenvolver quaisquer complexos (muito menos o de “colonizado”, o que quer que seja que isso signifique). Embora esteja convencida de que ao Motswana médio escapará a relevância, ou mesmo o significado, que este tipo de questões assume em Angola, acredito que qualquer deles subscreverá a idéia de que muito mal está um país quando a mera sugestão da importância de uma clara definição de uma identidade cultural nacional, não necessáriamente tributária da situação política colonial, atrai sobre quem se atreva a fazê-lo a rasteira acusação de ser “complexado(a)”.

Aliás, suspeito que se Freud estivesse vivo, dedicaria o resto da sua vida à reinvenção total da Psicanálise, por forma a nela acomodar a vacuidade que a palavra “complexos” (sem qualquer indicação de em relação a quê, ou sobre se de inferioridade, de superioridade, de Édipo, ou de Electra…) parece ter assumido no léxico de alguns sectores da nossa sociedade.

Numa conjuntura histórica em que práticamente todos os sectores acadêmicos, técnicos e intelectuais internacionais começam a dar cada vez mais peso a factores culturais endógenos como variáveis explicativas de experiências de desenvolvimento sustentado em todo o mundo, o Botswana emerge como um “caso especial”: estamos perante um povo que construiu a sua cidade capital práticamente a partir do zero (Gaborone, que significa “nossa casa”, só começou a ser construída um ano antes da independência, obtida em 1966, quando o país já se encontrava sob um regime de auto-determinação); um povo que, a par do Inglês e de outras línguas locais, fala e escreve o seu principal idioma nacional, Setswana, em todas as instâncias da sua vida privada, social e profissional - desde os aviões da companhia aérea nacional, aos aeroportos, aos sinais de trânsito, aos painéis de publicidade, aos meios de comunicação social, às escolas e faculdades, ao parlamento, aos tribunais, às empresas, ou aos bancos.




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Fire - Wizards of the Desert (Khoisan Aristocracy)

Estamos perante um país cujo modo de governo é baseado no tradicional sistema de “Kgotla”, em que a autoridade suprema é investida numa legislatura que, compreendendo a Assembléia Nacional e o Presidente, age em mandatória consultação com a “Câmara dos Chefes Tradicionais”, a qual supervisiona e decide sobre todos os aspectos da acção governativa que afectem os valores, costumes e tradições nacionais. O próprio conceito de desenvolvimento inclusivo e harmonia social, “Kagisano”, que norteia a sua estratégia económica é derivado da cultura nacional - dele emanam os princípios de democracia, auto-suficiência e unidade que servem de contexto geral para a definição dos objectivos da nação.


Estamos perante um país que pôs no centro do seu programa de diversificação económica e desenvolvimento industrial o “empowerment” dos seus cidadãos, através de programas concretos, fundos específicos e mecanismos institucionais que promovem a sua efectiva implementação e o desenvolvimento de uma classe empresarial nacional em todos os sectores da economia, tendo-se o governo compromotido a estender as suas preferências a consultores nacionais e a comprar acções em empresas de proprietários locais que estejam a enfrentar dificuldades financeiras; um país cujo código de investimento estrangeiro estipula, por exemplo, que as empresas estrangeiras que envolvam accionistas locais podem beneficiar de uma diminuição do mínimo investimento que lhes é exigido para metade, ou um terço, dependendo do sector em que queiram investir, sendo que em alguns sectores as empresas estrangeiras são obrigadas a sub-contratar empresas locais, enquanto o governo se dispõe a reembolsar 50% dos custos de formação dos empregados locais e a pagar um montante entre 40 e 85%, dependendo da localização da empresa numa área urbana ou rural, dos custos de cada posto de trabalho criado na indústria manufactureira.




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Mama - Wizards of the Desert (Khoisan Aristocracy)


Perante tudo isso, não será certamente de espantar, especialmente aos olhos dos países ocidentais, que basearam as suas estratégias de crescimento económico nos direitos dos seus cidadãos e nas suas culturas e valores tradicionais (e que talvez partilhem com certos segmentos das elites urbanas angolanas um perfeito entendimento da importância fulcral da língua e da cultura como instrumentos de poder e dominação, bem como um indisfarçável nervosismo à simples menção do conceito de “identidade africana”), que o Botswana seja: o país com as taxas de crescimento mais impressivas e consistentes em África (cerca de 9% p.a. ao longo das últimas três décadas) e comparáveis às de “tigres asiáticos” como a Tailândia e a Coreia do Sul; o país com uma das políticas de combate ao SIDA mais coerentes e agressivas na região (a taxa de incidência sobre o seu comparativamente diminuto agregado populacional tem afectado negativamente o seu índice de desenvolvimento humano e constitui a maior ameaça ao futuro do país); o segundo país mais competitivo da SADC, depois das Maurícias; o país com as taxas de corrupção mais baixas em África e com uma melhor reputação nessa área do que países como França, Itália, Grécia ou Portugal; o país com taxas de juro reais comparáveis às dos principais mercados mundiais de capitais e até superiores, durante vários períodos, às do UK, EUA e África do Sul; ou o país com as melhores posições em África em termos de robustez económica e solvabilidade, acima da África do Sul ou de países como a Coreia do Sul e a Malásia.




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Ba Ntatola Ke Tshela - Franco (Ba Ntatola)

Complexo de colonizado? Definitivamente, esse é um conceito que não existe em nenhuma das línguas nacionais deste povo, mestre da estética da alma: pacato e de uma tocante cortezia e humildade, mas confiante, orgulhoso, soberano e internacionalmente respeitado. Despeço-me em Setswana: Sala Sentlê! (Fiquem Bem, na língua de Camões; Stay Well, na língua de Shakespeare).

P.S.: E que viva para sempre a memória da rainha NZinga – um dos expoentes maiores da nacionalidade Angolana!




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Issa - Franco (Ba Ntatola)


{*Cronica por mim publicada no SA ha' 5 anos (a ultima da serie “Factos e Ficcoes"). Foi parcialmente em resposta a um outro colunista do mesmo semanario que, embora nao citando o meu nome, mas de forma suficientemente directa e inequivoca, me acusava de ter "complexos de colonizado", ao mesmo tempo que invectivava contra a estatua da Rainha Nzinga…}




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Ma Africa - Franco (Ba Ntatola)



***
About the songs: these are some of the songs on Botswana airwaves’ top-10 in the last few years, with Franco invariably at number 1, lately closely followed by the Wizards. Except for ‘Mama Boregwe’, which conveys the sounds and voices of the Kalahari, with these choices I wanted to highlight a very interesting phenomenon in the country’s music trends, which can also be observed in almost all Sub-Saharan African countries these days: the adoption of Congolese sounds (soukous, rumba and that wild mix generally known as kwassa-kwassa), be it through remixes/covers – as in ‘Sombele’ or ‘Mama’ (remember Congolese Franco’s ‘Mario’?) or ‘legitimate appropriation’ – as in almost all Motswana Franco’s (Frank Lesokwane) music and his adopted name. The contagion is of such order that when I left the country about 2 years ago there was a public discussion going on whether the genre should be adopted as Botswana’s “national music”.


É verdade amigos, tenho que me despedir. Escrevo-vos de Gaborone, onde as tarefas que me esperam nos próximos tempos não me permitem continuar estas conversas quinzenais. Não posso deixar de agradecer ao Graça Campos por me ter convidado a participar e ao colectivo do Semanário Angolense por me ter deixado partilhar um pouco desta excitante empresa de construção de um espaço alternativo, forte e independente na imprensa nacional. Tenho também que agradecer profundamente a todos os amigos (conhecidos e desconhecidos) que me enviaram mensagens de felicitações e encorajamento. Estou certa de que este valioso espaço no SA será bem aproveitado e continuará a dar oportunidade a outros para expressarem as suas idéias sobre o que vai pela terra e pelo mundo.




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Mama Boregwe - Skizo (Afroblue/Native Tongues)

Deixei Londres, há cerca de três semanas, entregue à sua onda de greves e ao seu Tony Blair a tentar emular o machismo da Lady Thatcher e, ao mesmo tempo, articular uma boa razão para dispender na projectada guerra ao Iraque os fundos necessários à melhoria dos seus serviços públicos; aos seus muitos, quase diários, “celebrity and royal scandals”; à sua chuva miudinha e tempo cinzento e àquela sensação de estarmos parados no espaço, escrutinando o mundo a girar à nossa volta e o tempo a fugir de nós a toda a hora.


Neste meu regresso a Gabs, alguns meses depois de cá ter estado a trabalhar durante pouco mais de um ano, noto que ela continua a impressionar quem chega pela sua limpeza, cosmopolitismo e espírito empreendedor. Perdi a explosão púrpura dos jacarandás (diz-nos Alice Walker que Deus fica muito irritado – pior, fica “pissed off” – se a humanidade não repara na cor púrpura) que todos os Setembros prenuncia o início da época das chuvas, mas o vermelho das acácias e a profusão de cores das buganvílias continuam o seu perene, despudorado, romance com o dourado do sol. O imenso calor tende a fazer recolher os habitantes a espaços interiores durante a maior parte do tempo, deixando o exterior entregue quase exclusivamente a uma imensa variedade de répteis e insectos (que não perdem uma oportunidade para nos entrar pela casa adentro) e ao som do silêncio ou dos pássaros.




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Os Batswana continuam demasiado ocupados a dar à Àfrica algumas das suas poucas razões de orgulho para se permitirem desenvolver quaisquer complexos (muito menos o de “colonizado”, o que quer que seja que isso signifique). Embora esteja convencida de que ao Motswana médio escapará a relevância, ou mesmo o significado, que este tipo de questões assume em Angola, acredito que qualquer deles subscreverá a idéia de que muito mal está um país quando a mera sugestão da importância de uma clara definição de uma identidade cultural nacional, não necessáriamente tributária da situação política colonial, atrai sobre quem se atreva a fazê-lo a rasteira acusação de ser “complexado(a)”.

Aliás, suspeito que se Freud estivesse vivo, dedicaria o resto da sua vida à reinvenção total da Psicanálise, por forma a nela acomodar a vacuidade que a palavra “complexos” (sem qualquer indicação de em relação a quê, ou sobre se de inferioridade, de superioridade, de Édipo, ou de Electra…) parece ter assumido no léxico de alguns sectores da nossa sociedade.

Numa conjuntura histórica em que práticamente todos os sectores acadêmicos, técnicos e intelectuais internacionais começam a dar cada vez mais peso a factores culturais endógenos como variáveis explicativas de experiências de desenvolvimento sustentado em todo o mundo, o Botswana emerge como um “caso especial”: estamos perante um povo que construiu a sua cidade capital práticamente a partir do zero (Gaborone, que significa “nossa casa”, só começou a ser construída um ano antes da independência, obtida em 1966, quando o país já se encontrava sob um regime de auto-determinação); um povo que, a par do Inglês e de outras línguas locais, fala e escreve o seu principal idioma nacional, Setswana, em todas as instâncias da sua vida privada, social e profissional - desde os aviões da companhia aérea nacional, aos aeroportos, aos sinais de trânsito, aos painéis de publicidade, aos meios de comunicação social, às escolas e faculdades, ao parlamento, aos tribunais, às empresas, ou aos bancos.




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Estamos perante um país cujo modo de governo é baseado no tradicional sistema de “Kgotla”, em que a autoridade suprema é investida numa legislatura que, compreendendo a Assembléia Nacional e o Presidente, age em mandatória consultação com a “Câmara dos Chefes Tradicionais”, a qual supervisiona e decide sobre todos os aspectos da acção governativa que afectem os valores, costumes e tradições nacionais. O próprio conceito de desenvolvimento inclusivo e harmonia social, “Kagisano”, que norteia a sua estratégia económica é derivado da cultura nacional - dele emanam os princípios de democracia, auto-suficiência e unidade que servem de contexto geral para a definição dos objectivos da nação.


Estamos perante um país que pôs no centro do seu programa de diversificação económica e desenvolvimento industrial o “empowerment” dos seus cidadãos, através de programas concretos, fundos específicos e mecanismos institucionais que promovem a sua efectiva implementação e o desenvolvimento de uma classe empresarial nacional em todos os sectores da economia, tendo-se o governo compromotido a estender as suas preferências a consultores nacionais e a comprar acções em empresas de proprietários locais que estejam a enfrentar dificuldades financeiras; um país cujo código de investimento estrangeiro estipula, por exemplo, que as empresas estrangeiras que envolvam accionistas locais podem beneficiar de uma diminuição do mínimo investimento que lhes é exigido para metade, ou um terço, dependendo do sector em que queiram investir, sendo que em alguns sectores as empresas estrangeiras são obrigadas a sub-contratar empresas locais, enquanto o governo se dispõe a reembolsar 50% dos custos de formação dos empregados locais e a pagar um montante entre 40 e 85%, dependendo da localização da empresa numa área urbana ou rural, dos custos de cada posto de trabalho criado na indústria manufactureira.




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Complexo de colonizado? Definitivamente, esse é um conceito que não existe em nenhuma das línguas nacionais deste povo, mestre da estética da alma: pacato e de uma tocante cortezia e humildade, mas confiante, orgulhoso, soberano e internacionalmente respeitado. Despeço-me em Setswana: Sala Sentlê! (Fiquem Bem, na língua de Camões; Stay Well, na língua de Shakespeare).

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{*Cronica por mim publicada no SA ha' 5 anos (a ultima da serie “Factos e Ficcoes"). Foi parcialmente em resposta a um outro colunista do mesmo semanario que, embora nao citando o meu nome, mas de forma suficientemente directa e inequivoca, me acusava de ter "complexos de colonizado", ao mesmo tempo que invectivava contra a estatua da Rainha Nzinga…}




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***
About the songs: these are some of the songs on Botswana airwaves’ top-10 in the last few years, with Franco invariably at number 1, lately closely followed by the Wizards. Except for ‘Mama Boregwe’, which conveys the sounds and voices of the Kalahari, with these choices I wanted to highlight a very interesting phenomenon in the country’s music trends, which can also be observed in almost all Sub-Saharan African countries these days: the adoption of Congolese sounds (soukous, rumba and that wild mix generally known as kwassa-kwassa), be it through remixes/covers – as in ‘Sombele’ or ‘Mama’ (remember Congolese Franco’s ‘Mario’?) or ‘legitimate appropriation’ – as in almost all Motswana Franco’s (Frank Lesokwane) music and his adopted name. The contagion is of such order that when I left the country about 2 years ago there was a public discussion going on whether the genre should be adopted as Botswana’s “national music”.


Sunday, 8 July 2007

SUNDAY DREADS








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Natty Dread (Bob Marley, The Wailers & The I-Threes)








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Rebel Music (Bob Marley, The Wailers & The I-Threes)











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Am-A-Do (Bob Marley, The Wailers & The I-Threes)












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Revolution (Bob Marley, The Wailers & The I-Threes)









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Talking Blues (Bob Marley, The Wailers & The I-Threes)










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Them Belly Full (But We Hungry)-(Bob Marley, The Wailers & The I-Threes)








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Lively Up Yourself (Bob Marley, The Wailers & The I-Threes)





Extracts from Alice Walker’s introduction to “Dreads” by F. Mastalia and A. Pagano (© Artisan, New York, 1999)

[Except for Redemption Song that is still here, ALL SONGS IN THIS POST CAN BE LISTENED TO HERE]








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Extracts from Alice Walker’s introduction to “Dreads” by F. Mastalia and A. Pagano (© Artisan, New York, 1999)

[Except for Redemption Song that is still here, ALL SONGS IN THIS POST CAN BE LISTENED TO HERE]

Sunday, 11 February 2007

Jacarandas de Lisboa



"...It pisses God off
if Humanity doesn't notice
the Color Purple..."

Alice Walker

(mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa)


"...It pisses God off
if Humanity doesn't notice
the Color Purple..."

Alice Walker

(mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa)