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Sunday, 16 November 2008

E SE OS PAISES AFRICANOS FOSSEM OS ESTADOS UNIDOS DA AMERICA?


Eis uma hipotese tao ‘absurda’ quanto a que subjaz a interrogacoes do tipo “E se Obama fosse Africano?. Admitamos, portanto, que estamos em pleno ‘Reino do Absurdistao’ e tentemos imaginar uma Africa que fosse os Estados Unidos da Africa a moda Americana, ou os EUA Africanos.

1. Os EUA Africanos estariam independentes ha’ mais de dois seculos e nao teriam existido guerras de libertacao contra o colonialismo durante decadas. Caso, por alguma razao, tivessem existido ‘movimentos de libertacao’, estes tenderiam a perseguir os seus objectivos atraves de protestos, marchas, boicotes, discursos, musica, cancoes e sonhos, sendo pouco provavel que se organizassem em exercitos armados.

2. Os EUA Africanos teriam adoptado uma Constituicao guiada por ideais libertarios, tanto em termos de liberdade economica como individual e nao teriam adoptado regimes monopartidarios ou seguido estrategias de desenvolvimento socialista lideradas por ex-guerrilheiros marxistas ou maoistas coadjuvados por poetas e romancistas (por sinal quase exclusivamente brancos e mesticos), quando nao eles proprios poetas e romancistas, e auxiliados por acessores e conselheiros tecnicos estrangeiros.

3. Os lideres dos EUA Africanos, independentemente da sua raca, etnicidade, genero ou origem geografica, nao seriam simplesmente apontados e ‘entronados’ em posicoes governamentais ou empresariais com base na sua militancia partidaria, mais antiga ou mais recente, ou no seu nome de familia, mas teriam que, no primeiro caso, concorrer a eleicoes regulares sancionadas pelo sufragio universal, tanto a nivel do seu partido (a menos que concorressem como independentes) como a nivel nacional, em condicoes de igualdade com qualquer outro candidato elegivel e, no segundo caso, demonstrar as suas capacidades e competencias atraves de resultados positivos observaveis e sancionaveis pelos shareholders das suas empresas ou, dito de outro modo, teriam que ‘subir a pulso’.

4. Os tres pontos anteriores compoeem um quadro em que:

i) Caso tivessem sido instituidas por lei nos EUA Africanos ‘aberracoes’ institucionais como o “one drop rule”, o “estatuto do indigena” ou o “apartheid”, os grupos por elas excluidos, discriminados e prejudicados educacional, social e economicamente, teriam a dada altura – nao, porem, sem arduas lutas –, beneficiado de politicas como a “accao afirmativa” e a “discriminacao positiva”;

ii) Os proprietarios de terras nao o seriam apenas por expropriacao e confinamento a ‘reservas’, ou ‘bantustoes’, da maioria do resto da populacao, de tal modo que cerca de 98% da terra fertil ficasse na posse de cerca de 2% da populacao pertencente a apenas uma raca; os empresarios melhor sucedidos nao o seriam apenas por operarem em sectores protegidos pelo estado, cuja mao de obra era remunerada a uma taxa muito inferior a sua produtividade marginal e sem quaisquer direitos laborais. Em qualquer caso, nao o seriam apenas por pertencerem a uma infima minoria com acesso a educacao formal, a formacao tecnico-profissional e ao credito bancario.

iii) Salvo naqueles estados em que a constituicao o impedisse (mas, estando nos a navegar no ‘Reino do Absurdistao’ dos EUA Africanos, haveria apenas uma Constituicao que, tal como o enunciado em 2., o permitiria…), qualquer candidato a cargos publicos, incluindo a Presidencia dos nossos EUA, independentemente da sua raca ou de qualquer outro factor diferenciador, teria que passar pelo processo selectivo enunciado em 3., do qual ressalta o sufragio universal. Isto poderia permitir que, por exemplo – apenas por hipotese academica, ou ‘absurda’ se se preferir –, se Lucio Lara, mestico Angolano, se candidatasse a presidencia de Angola quando estava no auge da sua popularidade por altura da independencia, pudesse ter, dependendo da forma como articulasse e veiculasse a sua mensagem, organizasse a sua campanha e forjasse as suas aliancas, grandes chances de vencer o escrutinio popular. Mas, por outro lado, o mesmo processo impediria, por exemplo, que Jerry Rawlings, mestico Ghanense, tomasse o poder atraves de um golpe de estado militar e muito menos lhe permitiria que depois ainda viesse a ter um second coming… ou que Ian Khama, mestico Motswana, acedesse automaticamente a presidencia do Botswana ‘apenas’ por ser o numero dois do partido no poder desde a independencia ha’ mais de 40 anos, posicao a que nao foi de todo alheia a circunstancia de ser filho do presidente fundador daquele estado.


Sejamos claros: poderia o "mulato" Barack Obama ser eleito Presidente dos EUA Africanos?
YES HE COULD!

Eis uma hipotese tao ‘absurda’ quanto a que subjaz a interrogacoes do tipo “E se Obama fosse Africano?. Admitamos, portanto, que estamos em pleno ‘Reino do Absurdistao’ e tentemos imaginar uma Africa que fosse os Estados Unidos da Africa a moda Americana, ou os EUA Africanos.

1. Os EUA Africanos estariam independentes ha’ mais de dois seculos e nao teriam existido guerras de libertacao contra o colonialismo durante decadas. Caso, por alguma razao, tivessem existido ‘movimentos de libertacao’, estes tenderiam a perseguir os seus objectivos atraves de protestos, marchas, boicotes, discursos, musica, cancoes e sonhos, sendo pouco provavel que se organizassem em exercitos armados.

2. Os EUA Africanos teriam adoptado uma Constituicao guiada por ideais libertarios, tanto em termos de liberdade economica como individual e nao teriam adoptado regimes monopartidarios ou seguido estrategias de desenvolvimento socialista lideradas por ex-guerrilheiros marxistas ou maoistas coadjuvados por poetas e romancistas (por sinal quase exclusivamente brancos e mesticos), quando nao eles proprios poetas e romancistas, e auxiliados por acessores e conselheiros tecnicos estrangeiros.

3. Os lideres dos EUA Africanos, independentemente da sua raca, etnicidade, genero ou origem geografica, nao seriam simplesmente apontados e ‘entronados’ em posicoes governamentais ou empresariais com base na sua militancia partidaria, mais antiga ou mais recente, ou no seu nome de familia, mas teriam que, no primeiro caso, concorrer a eleicoes regulares sancionadas pelo sufragio universal, tanto a nivel do seu partido (a menos que concorressem como independentes) como a nivel nacional, em condicoes de igualdade com qualquer outro candidato elegivel e, no segundo caso, demonstrar as suas capacidades e competencias atraves de resultados positivos observaveis e sancionaveis pelos shareholders das suas empresas ou, dito de outro modo, teriam que ‘subir a pulso’.

4. Os tres pontos anteriores compoeem um quadro em que:

i) Caso tivessem sido instituidas por lei nos EUA Africanos ‘aberracoes’ institucionais como o “one drop rule”, o “estatuto do indigena” ou o “apartheid”, os grupos por elas excluidos, discriminados e prejudicados educacional, social e economicamente, teriam a dada altura – nao, porem, sem arduas lutas –, beneficiado de politicas como a “accao afirmativa” e a “discriminacao positiva”;

ii) Os proprietarios de terras nao o seriam apenas por expropriacao e confinamento a ‘reservas’, ou ‘bantustoes’, da maioria do resto da populacao, de tal modo que cerca de 98% da terra fertil ficasse na posse de cerca de 2% da populacao pertencente a apenas uma raca; os empresarios melhor sucedidos nao o seriam apenas por operarem em sectores protegidos pelo estado, cuja mao de obra era remunerada a uma taxa muito inferior a sua produtividade marginal e sem quaisquer direitos laborais. Em qualquer caso, nao o seriam apenas por pertencerem a uma infima minoria com acesso a educacao formal, a formacao tecnico-profissional e ao credito bancario.

iii) Salvo naqueles estados em que a constituicao o impedisse (mas, estando nos a navegar no ‘Reino do Absurdistao’ dos EUA Africanos, haveria apenas uma Constituicao que, tal como o enunciado em 2., o permitiria…), qualquer candidato a cargos publicos, incluindo a Presidencia dos nossos EUA, independentemente da sua raca ou de qualquer outro factor diferenciador, teria que passar pelo processo selectivo enunciado em 3., do qual ressalta o sufragio universal. Isto poderia permitir que, por exemplo – apenas por hipotese academica, ou ‘absurda’ se se preferir –, se Lucio Lara, mestico Angolano, se candidatasse a presidencia de Angola quando estava no auge da sua popularidade por altura da independencia, pudesse ter, dependendo da forma como articulasse e veiculasse a sua mensagem, organizasse a sua campanha e forjasse as suas aliancas, grandes chances de vencer o escrutinio popular. Mas, por outro lado, o mesmo processo impediria, por exemplo, que Jerry Rawlings, mestico Ghanense, tomasse o poder atraves de um golpe de estado militar e muito menos lhe permitiria que depois ainda viesse a ter um second coming… ou que Ian Khama, mestico Motswana, acedesse automaticamente a presidencia do Botswana ‘apenas’ por ser o numero dois do partido no poder desde a independencia ha’ mais de 40 anos, posicao a que nao foi de todo alheia a circunstancia de ser filho do presidente fundador daquele estado.


Sejamos claros: poderia o "mulato" Barack Obama ser eleito Presidente dos EUA Africanos?
YES HE COULD!

Saturday, 8 September 2007

SALA SENTLÊ! - UM TRIBUTO AO BOTSWANA*

É verdade amigos, tenho que me despedir. Escrevo-vos de Gaborone, onde as tarefas que me esperam nos próximos tempos não me permitem continuar estas conversas quinzenais. Não posso deixar de agradecer ao Graça Campos por me ter convidado a participar e ao colectivo do Semanário Angolense por me ter deixado partilhar um pouco desta excitante empresa de construção de um espaço alternativo, forte e independente na imprensa nacional. Tenho também que agradecer profundamente a todos os amigos (conhecidos e desconhecidos) que me enviaram mensagens de felicitações e encorajamento. Estou certa de que este valioso espaço no SA será bem aproveitado e continuará a dar oportunidade a outros para expressarem as suas idéias sobre o que vai pela terra e pelo mundo.




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Mama Boregwe - Skizo (Afroblue/Native Tongues)

Deixei Londres, há cerca de três semanas, entregue à sua onda de greves e ao seu Tony Blair a tentar emular o machismo da Lady Thatcher e, ao mesmo tempo, articular uma boa razão para dispender na projectada guerra ao Iraque os fundos necessários à melhoria dos seus serviços públicos; aos seus muitos, quase diários, “celebrity and royal scandals”; à sua chuva miudinha e tempo cinzento e àquela sensação de estarmos parados no espaço, escrutinando o mundo a girar à nossa volta e o tempo a fugir de nós a toda a hora.


Neste meu regresso a Gabs, alguns meses depois de cá ter estado a trabalhar durante pouco mais de um ano, noto que ela continua a impressionar quem chega pela sua limpeza, cosmopolitismo e espírito empreendedor. Perdi a explosão púrpura dos jacarandás (diz-nos Alice Walker que Deus fica muito irritado – pior, fica “pissed off” – se a humanidade não repara na cor púrpura) que todos os Setembros prenuncia o início da época das chuvas, mas o vermelho das acácias e a profusão de cores das buganvílias continuam o seu perene, despudorado, romance com o dourado do sol. O imenso calor tende a fazer recolher os habitantes a espaços interiores durante a maior parte do tempo, deixando o exterior entregue quase exclusivamente a uma imensa variedade de répteis e insectos (que não perdem uma oportunidade para nos entrar pela casa adentro) e ao som do silêncio ou dos pássaros.




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Sombele - Skizo (Afroblue/Native Tongues)

Os Batswana continuam demasiado ocupados a dar à Àfrica algumas das suas poucas razões de orgulho para se permitirem desenvolver quaisquer complexos (muito menos o de “colonizado”, o que quer que seja que isso signifique). Embora esteja convencida de que ao Motswana médio escapará a relevância, ou mesmo o significado, que este tipo de questões assume em Angola, acredito que qualquer deles subscreverá a idéia de que muito mal está um país quando a mera sugestão da importância de uma clara definição de uma identidade cultural nacional, não necessáriamente tributária da situação política colonial, atrai sobre quem se atreva a fazê-lo a rasteira acusação de ser “complexado(a)”.

Aliás, suspeito que se Freud estivesse vivo, dedicaria o resto da sua vida à reinvenção total da Psicanálise, por forma a nela acomodar a vacuidade que a palavra “complexos” (sem qualquer indicação de em relação a quê, ou sobre se de inferioridade, de superioridade, de Édipo, ou de Electra…) parece ter assumido no léxico de alguns sectores da nossa sociedade.

Numa conjuntura histórica em que práticamente todos os sectores acadêmicos, técnicos e intelectuais internacionais começam a dar cada vez mais peso a factores culturais endógenos como variáveis explicativas de experiências de desenvolvimento sustentado em todo o mundo, o Botswana emerge como um “caso especial”: estamos perante um povo que construiu a sua cidade capital práticamente a partir do zero (Gaborone, que significa “nossa casa”, só começou a ser construída um ano antes da independência, obtida em 1966, quando o país já se encontrava sob um regime de auto-determinação); um povo que, a par do Inglês e de outras línguas locais, fala e escreve o seu principal idioma nacional, Setswana, em todas as instâncias da sua vida privada, social e profissional - desde os aviões da companhia aérea nacional, aos aeroportos, aos sinais de trânsito, aos painéis de publicidade, aos meios de comunicação social, às escolas e faculdades, ao parlamento, aos tribunais, às empresas, ou aos bancos.




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Fire - Wizards of the Desert (Khoisan Aristocracy)

Estamos perante um país cujo modo de governo é baseado no tradicional sistema de “Kgotla”, em que a autoridade suprema é investida numa legislatura que, compreendendo a Assembléia Nacional e o Presidente, age em mandatória consultação com a “Câmara dos Chefes Tradicionais”, a qual supervisiona e decide sobre todos os aspectos da acção governativa que afectem os valores, costumes e tradições nacionais. O próprio conceito de desenvolvimento inclusivo e harmonia social, “Kagisano”, que norteia a sua estratégia económica é derivado da cultura nacional - dele emanam os princípios de democracia, auto-suficiência e unidade que servem de contexto geral para a definição dos objectivos da nação.


Estamos perante um país que pôs no centro do seu programa de diversificação económica e desenvolvimento industrial o “empowerment” dos seus cidadãos, através de programas concretos, fundos específicos e mecanismos institucionais que promovem a sua efectiva implementação e o desenvolvimento de uma classe empresarial nacional em todos os sectores da economia, tendo-se o governo compromotido a estender as suas preferências a consultores nacionais e a comprar acções em empresas de proprietários locais que estejam a enfrentar dificuldades financeiras; um país cujo código de investimento estrangeiro estipula, por exemplo, que as empresas estrangeiras que envolvam accionistas locais podem beneficiar de uma diminuição do mínimo investimento que lhes é exigido para metade, ou um terço, dependendo do sector em que queiram investir, sendo que em alguns sectores as empresas estrangeiras são obrigadas a sub-contratar empresas locais, enquanto o governo se dispõe a reembolsar 50% dos custos de formação dos empregados locais e a pagar um montante entre 40 e 85%, dependendo da localização da empresa numa área urbana ou rural, dos custos de cada posto de trabalho criado na indústria manufactureira.




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Mama - Wizards of the Desert (Khoisan Aristocracy)


Perante tudo isso, não será certamente de espantar, especialmente aos olhos dos países ocidentais, que basearam as suas estratégias de crescimento económico nos direitos dos seus cidadãos e nas suas culturas e valores tradicionais (e que talvez partilhem com certos segmentos das elites urbanas angolanas um perfeito entendimento da importância fulcral da língua e da cultura como instrumentos de poder e dominação, bem como um indisfarçável nervosismo à simples menção do conceito de “identidade africana”), que o Botswana seja: o país com as taxas de crescimento mais impressivas e consistentes em África (cerca de 9% p.a. ao longo das últimas três décadas) e comparáveis às de “tigres asiáticos” como a Tailândia e a Coreia do Sul; o país com uma das políticas de combate ao SIDA mais coerentes e agressivas na região (a taxa de incidência sobre o seu comparativamente diminuto agregado populacional tem afectado negativamente o seu índice de desenvolvimento humano e constitui a maior ameaça ao futuro do país); o segundo país mais competitivo da SADC, depois das Maurícias; o país com as taxas de corrupção mais baixas em África e com uma melhor reputação nessa área do que países como França, Itália, Grécia ou Portugal; o país com taxas de juro reais comparáveis às dos principais mercados mundiais de capitais e até superiores, durante vários períodos, às do UK, EUA e África do Sul; ou o país com as melhores posições em África em termos de robustez económica e solvabilidade, acima da África do Sul ou de países como a Coreia do Sul e a Malásia.




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Ba Ntatola Ke Tshela - Franco (Ba Ntatola)

Complexo de colonizado? Definitivamente, esse é um conceito que não existe em nenhuma das línguas nacionais deste povo, mestre da estética da alma: pacato e de uma tocante cortezia e humildade, mas confiante, orgulhoso, soberano e internacionalmente respeitado. Despeço-me em Setswana: Sala Sentlê! (Fiquem Bem, na língua de Camões; Stay Well, na língua de Shakespeare).

P.S.: E que viva para sempre a memória da rainha NZinga – um dos expoentes maiores da nacionalidade Angolana!




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Issa - Franco (Ba Ntatola)


{*Cronica por mim publicada no SA ha' 5 anos (a ultima da serie “Factos e Ficcoes"). Foi parcialmente em resposta a um outro colunista do mesmo semanario que, embora nao citando o meu nome, mas de forma suficientemente directa e inequivoca, me acusava de ter "complexos de colonizado", ao mesmo tempo que invectivava contra a estatua da Rainha Nzinga…}




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Ma Africa - Franco (Ba Ntatola)



***
About the songs: these are some of the songs on Botswana airwaves’ top-10 in the last few years, with Franco invariably at number 1, lately closely followed by the Wizards. Except for ‘Mama Boregwe’, which conveys the sounds and voices of the Kalahari, with these choices I wanted to highlight a very interesting phenomenon in the country’s music trends, which can also be observed in almost all Sub-Saharan African countries these days: the adoption of Congolese sounds (soukous, rumba and that wild mix generally known as kwassa-kwassa), be it through remixes/covers – as in ‘Sombele’ or ‘Mama’ (remember Congolese Franco’s ‘Mario’?) or ‘legitimate appropriation’ – as in almost all Motswana Franco’s (Frank Lesokwane) music and his adopted name. The contagion is of such order that when I left the country about 2 years ago there was a public discussion going on whether the genre should be adopted as Botswana’s “national music”.


É verdade amigos, tenho que me despedir. Escrevo-vos de Gaborone, onde as tarefas que me esperam nos próximos tempos não me permitem continuar estas conversas quinzenais. Não posso deixar de agradecer ao Graça Campos por me ter convidado a participar e ao colectivo do Semanário Angolense por me ter deixado partilhar um pouco desta excitante empresa de construção de um espaço alternativo, forte e independente na imprensa nacional. Tenho também que agradecer profundamente a todos os amigos (conhecidos e desconhecidos) que me enviaram mensagens de felicitações e encorajamento. Estou certa de que este valioso espaço no SA será bem aproveitado e continuará a dar oportunidade a outros para expressarem as suas idéias sobre o que vai pela terra e pelo mundo.




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Mama Boregwe - Skizo (Afroblue/Native Tongues)

Deixei Londres, há cerca de três semanas, entregue à sua onda de greves e ao seu Tony Blair a tentar emular o machismo da Lady Thatcher e, ao mesmo tempo, articular uma boa razão para dispender na projectada guerra ao Iraque os fundos necessários à melhoria dos seus serviços públicos; aos seus muitos, quase diários, “celebrity and royal scandals”; à sua chuva miudinha e tempo cinzento e àquela sensação de estarmos parados no espaço, escrutinando o mundo a girar à nossa volta e o tempo a fugir de nós a toda a hora.


Neste meu regresso a Gabs, alguns meses depois de cá ter estado a trabalhar durante pouco mais de um ano, noto que ela continua a impressionar quem chega pela sua limpeza, cosmopolitismo e espírito empreendedor. Perdi a explosão púrpura dos jacarandás (diz-nos Alice Walker que Deus fica muito irritado – pior, fica “pissed off” – se a humanidade não repara na cor púrpura) que todos os Setembros prenuncia o início da época das chuvas, mas o vermelho das acácias e a profusão de cores das buganvílias continuam o seu perene, despudorado, romance com o dourado do sol. O imenso calor tende a fazer recolher os habitantes a espaços interiores durante a maior parte do tempo, deixando o exterior entregue quase exclusivamente a uma imensa variedade de répteis e insectos (que não perdem uma oportunidade para nos entrar pela casa adentro) e ao som do silêncio ou dos pássaros.




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Sombele - Skizo (Afroblue/Native Tongues)

Os Batswana continuam demasiado ocupados a dar à Àfrica algumas das suas poucas razões de orgulho para se permitirem desenvolver quaisquer complexos (muito menos o de “colonizado”, o que quer que seja que isso signifique). Embora esteja convencida de que ao Motswana médio escapará a relevância, ou mesmo o significado, que este tipo de questões assume em Angola, acredito que qualquer deles subscreverá a idéia de que muito mal está um país quando a mera sugestão da importância de uma clara definição de uma identidade cultural nacional, não necessáriamente tributária da situação política colonial, atrai sobre quem se atreva a fazê-lo a rasteira acusação de ser “complexado(a)”.

Aliás, suspeito que se Freud estivesse vivo, dedicaria o resto da sua vida à reinvenção total da Psicanálise, por forma a nela acomodar a vacuidade que a palavra “complexos” (sem qualquer indicação de em relação a quê, ou sobre se de inferioridade, de superioridade, de Édipo, ou de Electra…) parece ter assumido no léxico de alguns sectores da nossa sociedade.

Numa conjuntura histórica em que práticamente todos os sectores acadêmicos, técnicos e intelectuais internacionais começam a dar cada vez mais peso a factores culturais endógenos como variáveis explicativas de experiências de desenvolvimento sustentado em todo o mundo, o Botswana emerge como um “caso especial”: estamos perante um povo que construiu a sua cidade capital práticamente a partir do zero (Gaborone, que significa “nossa casa”, só começou a ser construída um ano antes da independência, obtida em 1966, quando o país já se encontrava sob um regime de auto-determinação); um povo que, a par do Inglês e de outras línguas locais, fala e escreve o seu principal idioma nacional, Setswana, em todas as instâncias da sua vida privada, social e profissional - desde os aviões da companhia aérea nacional, aos aeroportos, aos sinais de trânsito, aos painéis de publicidade, aos meios de comunicação social, às escolas e faculdades, ao parlamento, aos tribunais, às empresas, ou aos bancos.




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Estamos perante um país cujo modo de governo é baseado no tradicional sistema de “Kgotla”, em que a autoridade suprema é investida numa legislatura que, compreendendo a Assembléia Nacional e o Presidente, age em mandatória consultação com a “Câmara dos Chefes Tradicionais”, a qual supervisiona e decide sobre todos os aspectos da acção governativa que afectem os valores, costumes e tradições nacionais. O próprio conceito de desenvolvimento inclusivo e harmonia social, “Kagisano”, que norteia a sua estratégia económica é derivado da cultura nacional - dele emanam os princípios de democracia, auto-suficiência e unidade que servem de contexto geral para a definição dos objectivos da nação.


Estamos perante um país que pôs no centro do seu programa de diversificação económica e desenvolvimento industrial o “empowerment” dos seus cidadãos, através de programas concretos, fundos específicos e mecanismos institucionais que promovem a sua efectiva implementação e o desenvolvimento de uma classe empresarial nacional em todos os sectores da economia, tendo-se o governo compromotido a estender as suas preferências a consultores nacionais e a comprar acções em empresas de proprietários locais que estejam a enfrentar dificuldades financeiras; um país cujo código de investimento estrangeiro estipula, por exemplo, que as empresas estrangeiras que envolvam accionistas locais podem beneficiar de uma diminuição do mínimo investimento que lhes é exigido para metade, ou um terço, dependendo do sector em que queiram investir, sendo que em alguns sectores as empresas estrangeiras são obrigadas a sub-contratar empresas locais, enquanto o governo se dispõe a reembolsar 50% dos custos de formação dos empregados locais e a pagar um montante entre 40 e 85%, dependendo da localização da empresa numa área urbana ou rural, dos custos de cada posto de trabalho criado na indústria manufactureira.




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Ba Ntatola Ke Tshela - Franco (Ba Ntatola)

Complexo de colonizado? Definitivamente, esse é um conceito que não existe em nenhuma das línguas nacionais deste povo, mestre da estética da alma: pacato e de uma tocante cortezia e humildade, mas confiante, orgulhoso, soberano e internacionalmente respeitado. Despeço-me em Setswana: Sala Sentlê! (Fiquem Bem, na língua de Camões; Stay Well, na língua de Shakespeare).

P.S.: E que viva para sempre a memória da rainha NZinga – um dos expoentes maiores da nacionalidade Angolana!




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Issa - Franco (Ba Ntatola)


{*Cronica por mim publicada no SA ha' 5 anos (a ultima da serie “Factos e Ficcoes"). Foi parcialmente em resposta a um outro colunista do mesmo semanario que, embora nao citando o meu nome, mas de forma suficientemente directa e inequivoca, me acusava de ter "complexos de colonizado", ao mesmo tempo que invectivava contra a estatua da Rainha Nzinga…}




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Ma Africa - Franco (Ba Ntatola)



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About the songs: these are some of the songs on Botswana airwaves’ top-10 in the last few years, with Franco invariably at number 1, lately closely followed by the Wizards. Except for ‘Mama Boregwe’, which conveys the sounds and voices of the Kalahari, with these choices I wanted to highlight a very interesting phenomenon in the country’s music trends, which can also be observed in almost all Sub-Saharan African countries these days: the adoption of Congolese sounds (soukous, rumba and that wild mix generally known as kwassa-kwassa), be it through remixes/covers – as in ‘Sombele’ or ‘Mama’ (remember Congolese Franco’s ‘Mario’?) or ‘legitimate appropriation’ – as in almost all Motswana Franco’s (Frank Lesokwane) music and his adopted name. The contagion is of such order that when I left the country about 2 years ago there was a public discussion going on whether the genre should be adopted as Botswana’s “national music”.