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Sunday, 16 September 2012

Mukanda as “Nossas Familias” [Actualizado]





Confesso que, ocasionalmente, tenho que dar razao a quem se sinta “justificado” para questionar a “minha inteligencia”…
E’ que, por vezes, perante coisas que parecem tornar-se imediatamente obvias para ‘todo o mundo’, eu sou de compreensao muiiiiito lennnnnnta!...
E’ o caso das varias vertentes da tristemente celebre campanha mediatica de que tenho sido alvo ha’ ja’ varios anos e especialmente desde que criei este blog.
Sao, efectivamente, varias essas vertentes, indo da pura inveja e odio irracionais por parte de gente que nunca me conheceu pessoalmente, ou do despeito de pessoas que se julgam mais merecedoras das coisas por que lutei e conquistei ate’ agora na vida, ou pelos ressaibos de quem um dia fantasiou, ou continua a fantasiar, ter um lugar na minha vida que nunca pode ou podera’ ter, indo ate’ as tacticas mais baixas de um jogo politico-partidario do qual nunca fiz, nem nunca quis fazer parte – o meu jogo, caso ainda seja necessario repeti-lo, e’ tao simples quanto isto: Paz, Democracia, Cidadania e Direitos Humanos para TODOS E TODAS – um jogo, portanto, que nao tem necessariamente que passar pelo campo politico-partidario e, muito menos, pelos seus mais baixos e sujos golpes; um jogo, portanto, em que “nao vale tudo”: nele vale acima de tudo a JUSTICA!

Assim, equacionar racional e congruentemente todas essas vertentes para compreender essa campanha, nao e’ tarefa facil, especialmente quando tudo se passa como num baile de mascaras com personagens cegos, surdos e mudos, escondidos por detras de cortinas de fumo e/ou de ferro… Por isso, perdoem-me os “questionadores da minha inteligencia” pela minha “comprensao lenta” sobre tudo isso!

Vem isto a proposito de apenas nos ultimos tempos (… alias, tal como me levou tempo demasiado para fazer a (radio) (bio) logi(c)a de “uma outra kampanha”…) se ter vindo a clarificar na minha mente uma dessas vertentes, que para outros ha’ muito se tera’ revelado obvia: chamemos-lhe “a questao das familias”… E essa clarificacao, devo-a a nas ultimas semanas ter sido levada a revisitar algumas vezes esta alocucao, da qual consta o seguinte paragrafo:

(…) 
"Essa reelaboracao possibilitaria, no interior do pais, o exercicio de uma pratica politica quotidianamente democratica, que concederia aos cidadaos o controlo de todo o sistema de actividades que constituem a nossa base civilizacional e facilitaria o tao ansiado regresso a Patria de tantos de nos que pugnamos por uma organizacao social eficiente e por um relacionamento entre os individuos onde o comportamento social digno e honesto ou o respeito pela liberdade, individualidade e direito a diferenca do outro, sao valores a cumprir escrupulosamente, e temos dificuldade em adaptarmo-nos a uma ordem social onde, ao interesse do cidadao nacional se sobrepoe amiude o poder economico ou o prestigio social que, quantas vezes injustificada e injustamente, sao concedidos ao cidadao estrangeiro; onde aos direitos do individuo se sobrepoe o poder discricionario de um estado cujas instituicoes raramente funcionam sem que tambem funcionem os esquemas da corrupcao mais ou menos generalizada; onde ‘a dignidade dos grandes valores, se sobrepoe, voluntaria ou involuntariamente, a “nomenclatura” das “grandes familias”."

Esta ultima frase, percebo-o agora, ter-me-ha’ colocado “em maus lencois”, ou “em rota de colisao” com as “nossas grandes familias”… E porque me levou tanto tempo a percebe-lo? Porque eu nao mencionei nomes e precedi-a das palavras “voluntaria ou involuntariamente”… Ou, dito de outro modo – e usando as palavras de Eleanor Roosevelt: “Great minds discuss ideas, average minds discuss events, small minds discuss people” –, nao tendo pretendido “discutir pessoas” (isso fazem o/as kuribotas), nem eventos (isso e’ suposto ser feito pelos “jornalistas”), eu tentei apenas “discutir ideias”, nao por me auto-considerar uma "great mind", mas sobretudo pelo respeito que me mereciam as pessoas (e familias) a quem dirigi aquela alocucao.

Mas, perante observacoes como esta, terei eu incorrido em alguma inverdade?

Qualquer que seja a resposta, devo aqui reiterar que nao pretendi visar nenhuma familia em particular, mas apenas o sistema de “nomenclatura” a que todos os angolanos teem estado sujeitos (incluindo, portanto, membros das tais “grandes familias”) desde a independencia.

[Publicado inicialmente a 17/06/2012]


CONTINUACAO


Tinha prometido continuar esta ‘mukanda’, mas entretanto outras prioridades se me impuseram.
A continuacao foi escrita ao mesmo tempo que a primeira parte que postei ha’ ja’ alguns meses e consistia basicamente em algumas ‘up-close and personal’ mensagens mais ou menos codificadas a alguns membros das nossas ‘grandes familias’ que conheci de mais ou menos perto, em alturas da vida do nosso pais Angola em que a bajulacao ainda nao era a moeda corrente em que se tornou hoje e em que alguns dos membros de tais familias ainda nao se tinham deixado ‘enclausurar’, voluntaria ou involuntariamente, nas “redomas de vidro” em que parecem viver em tempos mais recentes.

Em varios momentos desde que a escrevi cheguei a decidir nao a publicar precisamente por isso: para que se a nao confundisse com a bajulacao (ou ‘name dropping’) que ja’ nos vai enjoando (quando nao enojando) um pouco a todos, especialmente nestes tempos de Facebook e de "vale-tudismos" e "lambe-botismos" na luta pela "ascensao social" a qualquer preco.

E nao mudei de ideias, nao a vou publicar na sua versao original. Limitar-me-ei a mencionar alguns nomes que saberao, sem que eu as tenha que explicitar, as razoes porque os menciono neste contexto.  Nao o contexto de crispacao, animosidade e ate’ confrontacao que tem marcado um pouco os varios discursos – incluindo o meu, especialmente em situacoes que marcaram de forma problematica o curso da minha vida –, sobre o ‘lugar social’ dessas familias, em particular na Angola do pos-independencia, mas um contexto de tentativa de ‘racionalizacao’ de alguns conflitos, mais ou menos pessoais, que, se existem, nao teem sempre forcosamente que ser generalizados, nem a todas as familias envolvidas, nem a todas as situacoes e circunstancias a que se referem. E menos ainda, como cada vez mais se tem vindo a verificar, que ser oportunistica e manipulativamente usados por terceiros para criar conflitos pessoais ou inter-familiares onde eles nao teem qualquer cabimento.

E faco-o hoje especialmente porque a minha recente referencia ao Joao Vandunem (aqui) e ao Nazareth Vandunem (aqui) e os extractos que ontem postei (aqui) do ultimo “Hor@ga” do Gustavo Costa me levaram de volta a essa ja' quase esquecida ‘mukanda’.

Assim, sem mais delongas, para alem dos ja’ citados Joao e Nazareth, aqui ficam alguns outros nomes por quem tenho razoes para ter algum, maior ou menor, apreco – eles (excepto os que ja’ nao se encontram entre nos, ou talvez mesmo estes, onde quer que estejam…) saberao porque:

Zeca Vandunem, Quelinha Vandunem, Alda Vandunem, Francisca Vandunem, alguns dos irmaos Espirito Santo, Rui e Andre’ Mingas, Vicente e Justino Pinto de Andrade (… apesar dos ultimos pesares…) e seu falecido tio Mario, seu sobrinho homonimo ainda vivo, sua sobrinha Emilinha, a quem nao posso deixar de associar a Velha Guinhas, que foi um pouco Mae de todos eles e que tratou o meu filho, ainda bebe’, de “bucho virado”… e desculpem-me se a minha memoria nao me ajuda de momento a mencionar alguns outros que talvez devesse aqui rememorar. E falo apenas por mim, porque sei que alguns membros das geracoes mais velhas da minha familia terao as suas proprias razoes, provavelmente mais ponderosas, para se referirem sem azedume a alguns, os mesmos ou outros, membros dessas familias.

E pronto, ja’ nao podem dizer que “nunca vos fiz Boa Muxima”…

Tenham todos um bom Domingo em Familia!


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Rousseau +300




Confesso que, ocasionalmente, tenho que dar razao a quem se sinta “justificado” para questionar a “minha inteligencia”…
E’ que, por vezes, perante coisas que parecem tornar-se imediatamente obvias para ‘todo o mundo’, eu sou de compreensao muiiiiito lennnnnnta!...
E’ o caso das varias vertentes da tristemente celebre campanha mediatica de que tenho sido alvo ha’ ja’ varios anos e especialmente desde que criei este blog.
Sao, efectivamente, varias essas vertentes, indo da pura inveja e odio irracionais por parte de gente que nunca me conheceu pessoalmente, ou do despeito de pessoas que se julgam mais merecedoras das coisas por que lutei e conquistei ate’ agora na vida, ou pelos ressaibos de quem um dia fantasiou, ou continua a fantasiar, ter um lugar na minha vida que nunca pode ou podera’ ter, indo ate’ as tacticas mais baixas de um jogo politico-partidario do qual nunca fiz, nem nunca quis fazer parte – o meu jogo, caso ainda seja necessario repeti-lo, e’ tao simples quanto isto: Paz, Democracia, Cidadania e Direitos Humanos para TODOS E TODAS – um jogo, portanto, que nao tem necessariamente que passar pelo campo politico-partidario e, muito menos, pelos seus mais baixos e sujos golpes; um jogo, portanto, em que “nao vale tudo”: nele vale acima de tudo a JUSTICA!

Assim, equacionar racional e congruentemente todas essas vertentes para compreender essa campanha, nao e’ tarefa facil, especialmente quando tudo se passa como num baile de mascaras com personagens cegos, surdos e mudos, escondidos por detras de cortinas de fumo e/ou de ferro… Por isso, perdoem-me os “questionadores da minha inteligencia” pela minha “comprensao lenta” sobre tudo isso!

Vem isto a proposito de apenas nos ultimos tempos (… alias, tal como me levou tempo demasiado para fazer a (radio) (bio) logi(c)a de “uma outra kampanha”…) se ter vindo a clarificar na minha mente uma dessas vertentes, que para outros ha’ muito se tera’ revelado obvia: chamemos-lhe “a questao das familias”… E essa clarificacao, devo-a a nas ultimas semanas ter sido levada a revisitar algumas vezes esta alocucao, da qual consta o seguinte paragrafo:

(…) 
"Essa reelaboracao possibilitaria, no interior do pais, o exercicio de uma pratica politica quotidianamente democratica, que concederia aos cidadaos o controlo de todo o sistema de actividades que constituem a nossa base civilizacional e facilitaria o tao ansiado regresso a Patria de tantos de nos que pugnamos por uma organizacao social eficiente e por um relacionamento entre os individuos onde o comportamento social digno e honesto ou o respeito pela liberdade, individualidade e direito a diferenca do outro, sao valores a cumprir escrupulosamente, e temos dificuldade em adaptarmo-nos a uma ordem social onde, ao interesse do cidadao nacional se sobrepoe amiude o poder economico ou o prestigio social que, quantas vezes injustificada e injustamente, sao concedidos ao cidadao estrangeiro; onde aos direitos do individuo se sobrepoe o poder discricionario de um estado cujas instituicoes raramente funcionam sem que tambem funcionem os esquemas da corrupcao mais ou menos generalizada; onde ‘a dignidade dos grandes valores, se sobrepoe, voluntaria ou involuntariamente, a “nomenclatura” das “grandes familias”."

Esta ultima frase, percebo-o agora, ter-me-ha’ colocado “em maus lencois”, ou “em rota de colisao” com as “nossas grandes familias”… E porque me levou tanto tempo a percebe-lo? Porque eu nao mencionei nomes e precedi-a das palavras “voluntaria ou involuntariamente”… Ou, dito de outro modo – e usando as palavras de Eleanor Roosevelt: “Great minds discuss ideas, average minds discuss events, small minds discuss people” –, nao tendo pretendido “discutir pessoas” (isso fazem o/as kuribotas), nem eventos (isso e’ suposto ser feito pelos “jornalistas”), eu tentei apenas “discutir ideias”, nao por me auto-considerar uma "great mind", mas sobretudo pelo respeito que me mereciam as pessoas (e familias) a quem dirigi aquela alocucao.

Mas, perante observacoes como esta, terei eu incorrido em alguma inverdade?

Qualquer que seja a resposta, devo aqui reiterar que nao pretendi visar nenhuma familia em particular, mas apenas o sistema de “nomenclatura” a que todos os angolanos teem estado sujeitos (incluindo, portanto, membros das tais “grandes familias”) desde a independencia.

[Publicado inicialmente a 17/06/2012]


CONTINUACAO


Tinha prometido continuar esta ‘mukanda’, mas entretanto outras prioridades se me impuseram.
A continuacao foi escrita ao mesmo tempo que a primeira parte que postei ha’ ja’ alguns meses e consistia basicamente em algumas ‘up-close and personal’ mensagens mais ou menos codificadas a alguns membros das nossas ‘grandes familias’ que conheci de mais ou menos perto, em alturas da vida do nosso pais Angola em que a bajulacao ainda nao era a moeda corrente em que se tornou hoje e em que alguns dos membros de tais familias ainda nao se tinham deixado ‘enclausurar’, voluntaria ou involuntariamente, nas “redomas de vidro” em que parecem viver em tempos mais recentes.

Em varios momentos desde que a escrevi cheguei a decidir nao a publicar precisamente por isso: para que se a nao confundisse com a bajulacao (ou ‘name dropping’) que ja’ nos vai enjoando (quando nao enojando) um pouco a todos, especialmente nestes tempos de Facebook e de "vale-tudismos" e "lambe-botismos" na luta pela "ascensao social" a qualquer preco.

E nao mudei de ideias, nao a vou publicar na sua versao original. Limitar-me-ei a mencionar alguns nomes que saberao, sem que eu as tenha que explicitar, as razoes porque os menciono neste contexto.  Nao o contexto de crispacao, animosidade e ate’ confrontacao que tem marcado um pouco os varios discursos – incluindo o meu, especialmente em situacoes que marcaram de forma problematica o curso da minha vida –, sobre o ‘lugar social’ dessas familias, em particular na Angola do pos-independencia, mas um contexto de tentativa de ‘racionalizacao’ de alguns conflitos, mais ou menos pessoais, que, se existem, nao teem sempre forcosamente que ser generalizados, nem a todas as familias envolvidas, nem a todas as situacoes e circunstancias a que se referem. E menos ainda, como cada vez mais se tem vindo a verificar, que ser oportunistica e manipulativamente usados por terceiros para criar conflitos pessoais ou inter-familiares onde eles nao teem qualquer cabimento.

E faco-o hoje especialmente porque a minha recente referencia ao Joao Vandunem (aqui) e ao Nazareth Vandunem (aqui) e os extractos que ontem postei (aqui) do ultimo “Hor@ga” do Gustavo Costa me levaram de volta a essa ja' quase esquecida ‘mukanda’.

Assim, sem mais delongas, para alem dos ja’ citados Joao e Nazareth, aqui ficam alguns outros nomes por quem tenho razoes para ter algum, maior ou menor, apreco – eles (excepto os que ja’ nao se encontram entre nos, ou talvez mesmo estes, onde quer que estejam…) saberao porque:

Zeca Vandunem, Quelinha Vandunem, Alda Vandunem, Francisca Vandunem, alguns dos irmaos Espirito Santo, Rui e Andre’ Mingas, Vicente e Justino Pinto de Andrade (… apesar dos ultimos pesares…) e seu falecido tio Mario, seu sobrinho homonimo ainda vivo, sua sobrinha Emilinha, a quem nao posso deixar de associar a Velha Guinhas, que foi um pouco Mae de todos eles e que tratou o meu filho, ainda bebe’, de “bucho virado”… e desculpem-me se a minha memoria nao me ajuda de momento a mencionar alguns outros que talvez devesse aqui rememorar. E falo apenas por mim, porque sei que alguns membros das geracoes mais velhas da minha familia terao as suas proprias razoes, provavelmente mais ponderosas, para se referirem sem azedume a alguns, os mesmos ou outros, membros dessas familias.

E pronto, ja’ nao podem dizer que “nunca vos fiz Boa Muxima”…

Tenham todos um bom Domingo em Familia!


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Rousseau +300

Monday, 25 June 2012

"ASSUMINDO"…






“É tempo de quem está no poder perceber também que o Bloco Democrático é uma “Banda Desenhada”, como lhe chamam depreciativamente os seus opositores, que faz falta à nossa democracia. Não vale a pena ter medo do seu discurso.
Não vale a pena fugir dos seus adjectivos. É uma Banda intelectual necessária à nossa política que tendo todo o direito de criticar o que está a ser mal gerido – e há muita coisa a ser mal gerida em vários domínios - é tempo dela perceber também que há coisas – nem tudo é claro – bem feitas pelo Executivo e reconhecer isso não a diminui, nem desvaloriza a oposição.
Pensar assim, é pensar pequeno e a Banda não pode ser pequena. Porque quem gosta da democracia não quer, seguramente, ver a Banda desfazer-se e daqui há quatro anos mudar de sigla novamente….”


[Gustavo Costa, in “Fraka gente e fraku nivel…” - Novo Jornal # 231, 22/06/2012]




Assumindo-me como “madrinha de baptismo” do BD – Banda Desenhada nao posso deixar de manifestar o meu protesto por me ver classificada, num artigo cujo autor (…velada... mas abertamente…) assume que (afinale?!) le o meu blog (…nao que eu “suspeitasse”..), como “opositora” do BD – Bloco Democratico!...

O “meu afilhado” BD ficou a dever o seu cognome apenas e tao so’ ao facto de o comportamento de duas das suas mais fanaticas militantes relativamente a mim e a materias publicadas neste blog assim o ter sugerido!… Nada, portanto, a ver com o BD enquanto partido!...


Quanto ao resto, parece-me oportuno transcrever uma troca de opinioes que tive recentemente com o Luiz Araujo na sua pagina no FB:



Ana Koluki Caro Luiz Araújo: tenho acompanhado os seus pensamentos sobre essas questoes e, na generalidade, tenho concordado com os seus pontos de vista no sentido de se criar uma plataforma civica comum que possa servir de forca impulsionadora para a instauracao e manutencao de uma verdadeira democracia em Angola. No entanto, o que me parece faltar acima de tudo entre os "protagonistas" (... e, embora sendo "pintada" como tal eu nao me incluo entre eles!...) e' vontade e, em alguns casos, capacidade de comunicacao. Nao pode haver um "entendimento comum" sobre o que e' a "verdadeira democracia" e qual o "melhor metodo ou via" para se a obter dadas as circunstancias concretas e reais quer do "poder", quer da "oposicao", sem dialogo, troca de ideias, concertacao de opinioes diversas e, acima de tudo RESPEITO PELO OUTRO! Sim, estou por exigir DIGNIDADE COM DIGNIDADE nao apenas do poder politico, mas tambem, e sobretudo, dos meus concidadaos a quem nunca considerei inferiores a mim - antes pelo contrario, sempre tratei como irmaos!...


Luiz Araújo Ana Koluki, antes de mais agradeço a atenção que deste a este post e aos anteriores com que venho insistindo na necessidade da gestação duma agenda comum de resistência contra a ditadura. Concordo que a primeira e uma das mais graves carências que vimos constatando é de vontade para se dialogar. Comunicamos bastante mas principalmente de nós para os outros, feitos receptores do que consideramos como as coisas devem ser feitas, e muito pouco como emissores que também são receptores do que os outros nos endereçam abertos ao seu tratamento e acolhimento nos moldes que resultem na reflexão dialogada e na cooperacção para o alcance duma meta comum. A verdade dos factos demonstra-nos que, em geral, as formações da oposição, organizações cívicas e quase todas e todos nós temos pela frente o desafio comum de vencermos a ditadura para a tirarmos da nossas vidas mas não nos juntamos para isso, (é facto não um juizo) e cada um continua a agir como franco atirador como se a pudesse vencer sozinho, também o facto. Temos recursos que até nos permitem realizar o dialogo, temos computadores com que participamos aqui no Facebook e que podemos usar para conferências (via skype ex) em que realizemos o dialogo. Dialogo mesmo, não o comando dos outros. Suponho que a maioria de nós sabe pelo menos minimamente o que será uma verdadeira democracia e um Estado de direito que tenho e a maioria de nós diz também ser a sua meta. Podemos e devemos aprofundar esse conhecimento como forma de promovermos um projecto de sociedade livre. Mas o desafio que nos é colocado pelas circunstancias de opressão e dominação que a ditadura impõe á sociedade, portanto o desafio nº 1 é agir para que a ditadura tenha fim, depois disso o desafio nº 2 será a realização do projecto de sociedade livre. Para enfrentarmos o desafio nº 1 é que tenho apelado a gestação duma ampla frente/movimento ou rede, como se queira, em que deixemos de ser uma miríade de franco atiradores dispersos e passemos a agir em cooperação até á realização da meta correspondente ao desafio nº1. Respeito pelo outro, para terminar, suponho que não seja o que me falte e não tenho aos meus concidadãos como inferiores em termos de direitos e liberdades, de cidadania. Agora na política como em todos os domínios do ser humano alguns têm mais qualidades do que outros, porque as adquiriram e exercitara, desenvolveram capacidades etc. Por ex eu serei inferior a um atleta campeão de futebol ou dos 100 metros livres porque não tenho as qualidades que ele tem para correr e ou jogar futebol. Mas nalguns domínios da actividade intelectual ex alguns de nós desenvolvem mais capacidades e não se tornando superiores aos outros em termos de direitos temos que reconhecer que se tornam mais capazes nesse domínios, não será. Abraço.

Luiz Araújo Posso desenvolver mais o foco sobre alguns aspectos e referir outros mas depois


Ana Koluki Luiz Araújo, obrigada pela detalhada resposta. Creio que nao ha' aqui grandes divergencias de substancia entre os nossos pontos de vista. Talvez haja alguma dissonancia em termos de "estrategia", mas espero pelo desenvolvimento que prometeu fazer depois para voltar a essa questao. Quanto a questao das qualidades/capacidades e associadas "superioridades/inferioridades", o que tenho aprendido ao longo da minha vida e' que, em principio, nenhum ser humano e' "superior" a outro/a. O que ha' serao niveis diferentes de conhecimento e/ou experiencia num determinado dominio, seja ele intelectual, profissional ou outro. E, obviamente, concordo que essas diferencas devem ser respeitadas e, quanto a mim isso faz parte do principio de RESPEITO PELO OUTRO e pela DIVERSIDADE entre a HUMANIDADE que todos constituimos - e', alias, nesse principio que se fundamenta a filosofia dos DIREITOS HUMANOS. E para que todos possam ser igualmente respeitados, dentro da especificidade do que cada um tem para oferecer a sociedade como cidadao de PLENO DIREITO e' preciso que cada um saiba reconhecer as suas competencias/incompetencias e pontos fortes e pontos fracos em cada dominio, para que cada um possa contribuir com o que de melhor tem a dar, naquilo em que e' mais capaz do que outros. De outro modo, continuarao a vingar as estrategias destrutivas baseadas no egocentrismo sem limites e no total desrespeito pelo outro!... Abraco de volta.






“É tempo de quem está no poder perceber também que o Bloco Democrático é uma “Banda Desenhada”, como lhe chamam depreciativamente os seus opositores, que faz falta à nossa democracia. Não vale a pena ter medo do seu discurso.
Não vale a pena fugir dos seus adjectivos. É uma Banda intelectual necessária à nossa política que tendo todo o direito de criticar o que está a ser mal gerido – e há muita coisa a ser mal gerida em vários domínios - é tempo dela perceber também que há coisas – nem tudo é claro – bem feitas pelo Executivo e reconhecer isso não a diminui, nem desvaloriza a oposição.
Pensar assim, é pensar pequeno e a Banda não pode ser pequena. Porque quem gosta da democracia não quer, seguramente, ver a Banda desfazer-se e daqui há quatro anos mudar de sigla novamente….”


[Gustavo Costa, in “Fraka gente e fraku nivel…” - Novo Jornal # 231, 22/06/2012]




Assumindo-me como “madrinha de baptismo” do BD – Banda Desenhada nao posso deixar de manifestar o meu protesto por me ver classificada, num artigo cujo autor (…velada... mas abertamente…) assume que (afinale?!) le o meu blog (…nao que eu “suspeitasse”..), como “opositora” do BD – Bloco Democratico!...

O “meu afilhado” BD ficou a dever o seu cognome apenas e tao so’ ao facto de o comportamento de duas das suas mais fanaticas militantes relativamente a mim e a materias publicadas neste blog assim o ter sugerido!… Nada, portanto, a ver com o BD enquanto partido!...


Quanto ao resto, parece-me oportuno transcrever uma troca de opinioes que tive recentemente com o Luiz Araujo na sua pagina no FB:



Ana Koluki Caro Luiz Araújo: tenho acompanhado os seus pensamentos sobre essas questoes e, na generalidade, tenho concordado com os seus pontos de vista no sentido de se criar uma plataforma civica comum que possa servir de forca impulsionadora para a instauracao e manutencao de uma verdadeira democracia em Angola. No entanto, o que me parece faltar acima de tudo entre os "protagonistas" (... e, embora sendo "pintada" como tal eu nao me incluo entre eles!...) e' vontade e, em alguns casos, capacidade de comunicacao. Nao pode haver um "entendimento comum" sobre o que e' a "verdadeira democracia" e qual o "melhor metodo ou via" para se a obter dadas as circunstancias concretas e reais quer do "poder", quer da "oposicao", sem dialogo, troca de ideias, concertacao de opinioes diversas e, acima de tudo RESPEITO PELO OUTRO! Sim, estou por exigir DIGNIDADE COM DIGNIDADE nao apenas do poder politico, mas tambem, e sobretudo, dos meus concidadaos a quem nunca considerei inferiores a mim - antes pelo contrario, sempre tratei como irmaos!...


Luiz Araújo Ana Koluki, antes de mais agradeço a atenção que deste a este post e aos anteriores com que venho insistindo na necessidade da gestação duma agenda comum de resistência contra a ditadura. Concordo que a primeira e uma das mais graves carências que vimos constatando é de vontade para se dialogar. Comunicamos bastante mas principalmente de nós para os outros, feitos receptores do que consideramos como as coisas devem ser feitas, e muito pouco como emissores que também são receptores do que os outros nos endereçam abertos ao seu tratamento e acolhimento nos moldes que resultem na reflexão dialogada e na cooperacção para o alcance duma meta comum. A verdade dos factos demonstra-nos que, em geral, as formações da oposição, organizações cívicas e quase todas e todos nós temos pela frente o desafio comum de vencermos a ditadura para a tirarmos da nossas vidas mas não nos juntamos para isso, (é facto não um juizo) e cada um continua a agir como franco atirador como se a pudesse vencer sozinho, também o facto. Temos recursos que até nos permitem realizar o dialogo, temos computadores com que participamos aqui no Facebook e que podemos usar para conferências (via skype ex) em que realizemos o dialogo. Dialogo mesmo, não o comando dos outros. Suponho que a maioria de nós sabe pelo menos minimamente o que será uma verdadeira democracia e um Estado de direito que tenho e a maioria de nós diz também ser a sua meta. Podemos e devemos aprofundar esse conhecimento como forma de promovermos um projecto de sociedade livre. Mas o desafio que nos é colocado pelas circunstancias de opressão e dominação que a ditadura impõe á sociedade, portanto o desafio nº 1 é agir para que a ditadura tenha fim, depois disso o desafio nº 2 será a realização do projecto de sociedade livre. Para enfrentarmos o desafio nº 1 é que tenho apelado a gestação duma ampla frente/movimento ou rede, como se queira, em que deixemos de ser uma miríade de franco atiradores dispersos e passemos a agir em cooperação até á realização da meta correspondente ao desafio nº1. Respeito pelo outro, para terminar, suponho que não seja o que me falte e não tenho aos meus concidadãos como inferiores em termos de direitos e liberdades, de cidadania. Agora na política como em todos os domínios do ser humano alguns têm mais qualidades do que outros, porque as adquiriram e exercitara, desenvolveram capacidades etc. Por ex eu serei inferior a um atleta campeão de futebol ou dos 100 metros livres porque não tenho as qualidades que ele tem para correr e ou jogar futebol. Mas nalguns domínios da actividade intelectual ex alguns de nós desenvolvem mais capacidades e não se tornando superiores aos outros em termos de direitos temos que reconhecer que se tornam mais capazes nesse domínios, não será. Abraço.

Luiz Araújo Posso desenvolver mais o foco sobre alguns aspectos e referir outros mas depois


Ana Koluki Luiz Araújo, obrigada pela detalhada resposta. Creio que nao ha' aqui grandes divergencias de substancia entre os nossos pontos de vista. Talvez haja alguma dissonancia em termos de "estrategia", mas espero pelo desenvolvimento que prometeu fazer depois para voltar a essa questao. Quanto a questao das qualidades/capacidades e associadas "superioridades/inferioridades", o que tenho aprendido ao longo da minha vida e' que, em principio, nenhum ser humano e' "superior" a outro/a. O que ha' serao niveis diferentes de conhecimento e/ou experiencia num determinado dominio, seja ele intelectual, profissional ou outro. E, obviamente, concordo que essas diferencas devem ser respeitadas e, quanto a mim isso faz parte do principio de RESPEITO PELO OUTRO e pela DIVERSIDADE entre a HUMANIDADE que todos constituimos - e', alias, nesse principio que se fundamenta a filosofia dos DIREITOS HUMANOS. E para que todos possam ser igualmente respeitados, dentro da especificidade do que cada um tem para oferecer a sociedade como cidadao de PLENO DIREITO e' preciso que cada um saiba reconhecer as suas competencias/incompetencias e pontos fortes e pontos fracos em cada dominio, para que cada um possa contribuir com o que de melhor tem a dar, naquilo em que e' mais capaz do que outros. De outro modo, continuarao a vingar as estrategias destrutivas baseadas no egocentrismo sem limites e no total desrespeito pelo outro!... Abraco de volta.

Tuesday, 19 June 2012

Meanwhile on Facebook...


{My Dream House}

No, my dream house is not Facebook!...

Trago-a apenas para aqui porque foi no espaco de comentarios a essa foto no Facebook que se desenrolou a que ate' agora foi a conversa mais interessante que ja' tive na minha pagina naquele site.
Dela transcrevo este meu comentario:

"O nosso problema em Afrika e’ precisamente esse: pensamos sempre estar a “perder tempo” com causas que nos parecem “menores” e “estritamente pessoais” em face daquilo que nos parecem ser as “causas maiores” e do “interese comum”!... Ora bem: Aqui estou eu a lutar por justica num caso que e’ aparentemente “estritamente pessoal”. Mas sera’ apenas do meu interesse pessoal ver justica ser feita neste caso?! Sera’ que alguem que vem seguindo esta “saga” se sente “imune e completamente protegido” de ver a sua privacidade completamente invadida, a sua dignidade brutalizada, o seu nome difamado, caluniado e injuriado em praca publica?! Sera’ que alguem pensa que as “escutas e vigias” de que me queixo sao mera “ficcao” inventada por mim e que potencialmente todo e qualquer cidadao angolano nao esta’ sujeito a ser vitima dos crimes resultantes de um sistema policial completamente descontrolado?!...
Sera’ que denunciar e desmascarar quem pratica tais actos e se esconde por detras desse mesmo sistema e do seu “estatuto” como “jornalista” e membro do “conselho deontologico do sindicato da sua classe”, para alem dos seus “milhares de amigos” no FB depois de ter “vulturado” o meu blog para granjear uma audiencia que nunca conseguiu na blogosfera, etc. etc. etc., e’ apenas do meu “interesse individual”?!
Sera’ que tais actos, que passam pela supressao do meu direito a livre expressao, atraves do hacking e sabotagem do meu blog e das minhas paginas aqui no Facebook, nao sao atentatorios da Democracia – esse “bem maior” e do “interesse comum” porque dizemos lutar?!
Depois queixamo-nos de que sao sempre os “estrangeiros” que teem que lutar pelas nossas causas atraves das suas NGOs e organizacoes de defesa dos Direitos Humanos, nao e’?!..."



{My Dream House}

No, my dream house is not Facebook!...

Trago-a apenas para aqui porque foi no espaco de comentarios a essa foto no Facebook que se desenrolou a que ate' agora foi a conversa mais interessante que ja' tive na minha pagina naquele site.
Dela transcrevo este meu comentario:

"O nosso problema em Afrika e’ precisamente esse: pensamos sempre estar a “perder tempo” com causas que nos parecem “menores” e “estritamente pessoais” em face daquilo que nos parecem ser as “causas maiores” e do “interese comum”!... Ora bem: Aqui estou eu a lutar por justica num caso que e’ aparentemente “estritamente pessoal”. Mas sera’ apenas do meu interesse pessoal ver justica ser feita neste caso?! Sera’ que alguem que vem seguindo esta “saga” se sente “imune e completamente protegido” de ver a sua privacidade completamente invadida, a sua dignidade brutalizada, o seu nome difamado, caluniado e injuriado em praca publica?! Sera’ que alguem pensa que as “escutas e vigias” de que me queixo sao mera “ficcao” inventada por mim e que potencialmente todo e qualquer cidadao angolano nao esta’ sujeito a ser vitima dos crimes resultantes de um sistema policial completamente descontrolado?!...
Sera’ que denunciar e desmascarar quem pratica tais actos e se esconde por detras desse mesmo sistema e do seu “estatuto” como “jornalista” e membro do “conselho deontologico do sindicato da sua classe”, para alem dos seus “milhares de amigos” no FB depois de ter “vulturado” o meu blog para granjear uma audiencia que nunca conseguiu na blogosfera, etc. etc. etc., e’ apenas do meu “interesse individual”?!
Sera’ que tais actos, que passam pela supressao do meu direito a livre expressao, atraves do hacking e sabotagem do meu blog e das minhas paginas aqui no Facebook, nao sao atentatorios da Democracia – esse “bem maior” e do “interesse comum” porque dizemos lutar?!
Depois queixamo-nos de que sao sempre os “estrangeiros” que teem que lutar pelas nossas causas atraves das suas NGOs e organizacoes de defesa dos Direitos Humanos, nao e’?!..."


Tuesday, 22 May 2012

E POR FALAR EM "ESTADO DE DIREITO"...





(…)
A imposicao da chamada “ditadura do proletariado” fez com que os cidadaos se vissem privados, durante quase duas decadas, quer do direito fundamental ao voto, quer do direito de emitirem livremente as suas opinioes, num pais onde a imprensa era, ate’ ha’ bem pouco tempo, inteiramente controlada pelo partido-estado; de professarem, sem constrangimentos, as suas confissoes religiosas; ou ainda de educarem os seus filhos de acordo com os valores eticos e morais, herdados quer da cultura tradicional angolana, quer do contacto com os europeus, que noutros tempos fizeram com que Angola pudesse ser considerada um "pais civilizado".
(…)
Enterrada que esta’ essa fase obscura da vida do pais, mantem-se, no entanto, a questao de como compatibilizar a existencia de tais estruturas tradicionais com o principio da separacao de poderes, que e’ uma das exigencias basicas para a construcao de um verdadeiro Estado de direito.

[Extractos de "O Cidadao em Angola" - 1993]




(…)
A imposicao da chamada “ditadura do proletariado” fez com que os cidadaos se vissem privados, durante quase duas decadas, quer do direito fundamental ao voto, quer do direito de emitirem livremente as suas opinioes, num pais onde a imprensa era, ate’ ha’ bem pouco tempo, inteiramente controlada pelo partido-estado; de professarem, sem constrangimentos, as suas confissoes religiosas; ou ainda de educarem os seus filhos de acordo com os valores eticos e morais, herdados quer da cultura tradicional angolana, quer do contacto com os europeus, que noutros tempos fizeram com que Angola pudesse ser considerada um "pais civilizado".
(…)
Enterrada que esta’ essa fase obscura da vida do pais, mantem-se, no entanto, a questao de como compatibilizar a existencia de tais estruturas tradicionais com o principio da separacao de poderes, que e’ uma das exigencias basicas para a construcao de um verdadeiro Estado de direito.

[Extractos de "O Cidadao em Angola" - 1993]

Friday, 6 August 2010

Olhares Diversos (XX)

A Probidade e o Erro

Por Jose' Ribeiro


A Lei da Probidade foi saudada por toda a gente, até por aqueles que não têm uma conduta proba e honrada. Alguns sectores da nossa sociedade aplaudiram a medida porque, dizem, vai haver maior controlo dos dinheiros públicos e vão diminuir os casos de corrupção. É tudo verdade, mas apenas uma ínfima parte do que deve ser a dimensão dessa verdade.



A probidade aplica-se a todos os cidadãos, é um pressuposto e, em rigor, se todos fôssemos probos e honrados, a lei não tinha sequer razão de ser. Mas não é apenas desonesto aquele que esbanja fundos públicos ou se serve dos bens do Estado em proveito próprio. Esse é o fim da linha. Pelo meio há gestos e atitudes que marcam a fronteira entre quem é probo e não o é, entre quem vive no interior das fronteiras da honra e da dignidade e quem se coloca deliberadamente fora desse espaço que é o habitat das pessoas bem formadas e com princípios.

Não é probo aquele que se refugia no “errar é humano” para justificar a sua incompetência ou até deslealdade. Porque o erro tem uma escala de valores. Um automobilista estaciona mal a sua viatura e o agente de trânsito pode perfeitamente perdoar-lhe esse erro. Mas se for apanhado em excesso de velocidade, o erro já não merece perdão, porque pode causar graves prejuízos a quem errou e a terceiros que são inocentes. O erro de estacionamento proibido é pago com uma multa. O erro de excesso de velocidade muitas vezes é pago com a vida. Já não há margem para corrigi-lo.

O erro vive de mãos dadas com os jornalistas, por isso é que o rigor é um critério distintivo do jornalismo. Errar no jornalismo pode criar gravíssimos problemas à sociedade ou pode ser apenas um “fait-divers”. Mas, em qualquer caso, exige-se de todos os profissionais o exercício permanente de um grande rigor, para reduzir a zero a margem de erro. Pior estão os que trabalham em situações de alto risco. O mínimo erro pode custar-lhes amputações e até a morte. Esses dificilmente ficam em condições de invocar o “errar é humano”.

Faltar dias seguidos ao trabalho sem qualquer justificação é desonesto. Mais desonesto ainda é depois justificar essas faltas com falsificações. A probidade, nestes casos, é desrespeitada. Há trabalhadores de empresas que só são vistos no dia em que vão ao banco levantar o salário. Não são probos nem trabalhadores. Os que têm responsabilidades que não assumem e estão investidos em cargos que não exercem são desonestos, ainda que as benesses dos cargos dêem fatos e gravatas, carros e moradias, que garantem uma imagem pública de respeitabilidade. Viver à custa do trabalho alheio não é probo, não é honesto e revela uma chocante falta de princípios. Até revela falta de patriotismo, porque nesta fase o nosso país precisa muito de quem trabalhe e não de quem ande a parasitar o Orçamento de Estado.

O nosso país tem em vigor a Lei da Probidade. Espero que todos os angolanos a cumpram e vivam em conformidade e no respeito pelos princípios da honra e da dignidade. Ser mau profissional é pouco ou nada probo. Ser mau cidadão é indecoroso e condenável. Fazer das nossas repartições públicas e das nossas empresas espaços de lazer ou caixas de financiamento de vícios privados, sobretudo de quem nem sequer apresenta públicas virtudes, cai sob a alçada da lei.

A deslealdade para com os nossos colegas, chefes e até para com os nossos governantes, é uma desonestidade. Não é probo aquele que a troco de umas avenças ou de “comissões” atenta contra o seu país, seja em que sector da vida nacional for. E há empresários que o fazem. Existem profissionais – incluindo no jornalismo – que se arrogam de fazer render deslealdades e desonras, a troco de nada. Vender a honra é sempre um mau negócio. Porque quem a compra não pode fazer nada com ela e quem a vende fica irremediavelmente mais pobre, ainda que confortado com um prato de lentilhas que depressa desaparece na voragem dos dias.

Angola precisa de probidade e de honra, a todos os níveis. Ninguém pense que a Lei da Probidade só se aplica aos políticos ou aos titulares dos órgãos de soberania. Nem pensar. Aplica-se a todos, desde o mais humilde funcionário do Estado ao representante da sociedade civil e da Igreja. É altura de todos fazermos um balanço das nossas vidas. Os que concluírem que deram tudo pelo engrandecimento do país e fizeram o que podiam pelo bem comum são probos e nem sequer precisam de pensar na Lei da Probidade. Os que não encontrarem nas suas vidas motivos de que se orgulhem pelo que fizeram pela sociedade e pelo país é melhor começarem a cumprir a lei.

Ainda vamos a tempo de sermos cidadãos de corpo inteiro.


[Aqui]
A Probidade e o Erro

Por Jose' Ribeiro


A Lei da Probidade foi saudada por toda a gente, até por aqueles que não têm uma conduta proba e honrada. Alguns sectores da nossa sociedade aplaudiram a medida porque, dizem, vai haver maior controlo dos dinheiros públicos e vão diminuir os casos de corrupção. É tudo verdade, mas apenas uma ínfima parte do que deve ser a dimensão dessa verdade.



A probidade aplica-se a todos os cidadãos, é um pressuposto e, em rigor, se todos fôssemos probos e honrados, a lei não tinha sequer razão de ser. Mas não é apenas desonesto aquele que esbanja fundos públicos ou se serve dos bens do Estado em proveito próprio. Esse é o fim da linha. Pelo meio há gestos e atitudes que marcam a fronteira entre quem é probo e não o é, entre quem vive no interior das fronteiras da honra e da dignidade e quem se coloca deliberadamente fora desse espaço que é o habitat das pessoas bem formadas e com princípios.

Não é probo aquele que se refugia no “errar é humano” para justificar a sua incompetência ou até deslealdade. Porque o erro tem uma escala de valores. Um automobilista estaciona mal a sua viatura e o agente de trânsito pode perfeitamente perdoar-lhe esse erro. Mas se for apanhado em excesso de velocidade, o erro já não merece perdão, porque pode causar graves prejuízos a quem errou e a terceiros que são inocentes. O erro de estacionamento proibido é pago com uma multa. O erro de excesso de velocidade muitas vezes é pago com a vida. Já não há margem para corrigi-lo.

O erro vive de mãos dadas com os jornalistas, por isso é que o rigor é um critério distintivo do jornalismo. Errar no jornalismo pode criar gravíssimos problemas à sociedade ou pode ser apenas um “fait-divers”. Mas, em qualquer caso, exige-se de todos os profissionais o exercício permanente de um grande rigor, para reduzir a zero a margem de erro. Pior estão os que trabalham em situações de alto risco. O mínimo erro pode custar-lhes amputações e até a morte. Esses dificilmente ficam em condições de invocar o “errar é humano”.

Faltar dias seguidos ao trabalho sem qualquer justificação é desonesto. Mais desonesto ainda é depois justificar essas faltas com falsificações. A probidade, nestes casos, é desrespeitada. Há trabalhadores de empresas que só são vistos no dia em que vão ao banco levantar o salário. Não são probos nem trabalhadores. Os que têm responsabilidades que não assumem e estão investidos em cargos que não exercem são desonestos, ainda que as benesses dos cargos dêem fatos e gravatas, carros e moradias, que garantem uma imagem pública de respeitabilidade. Viver à custa do trabalho alheio não é probo, não é honesto e revela uma chocante falta de princípios. Até revela falta de patriotismo, porque nesta fase o nosso país precisa muito de quem trabalhe e não de quem ande a parasitar o Orçamento de Estado.

O nosso país tem em vigor a Lei da Probidade. Espero que todos os angolanos a cumpram e vivam em conformidade e no respeito pelos princípios da honra e da dignidade. Ser mau profissional é pouco ou nada probo. Ser mau cidadão é indecoroso e condenável. Fazer das nossas repartições públicas e das nossas empresas espaços de lazer ou caixas de financiamento de vícios privados, sobretudo de quem nem sequer apresenta públicas virtudes, cai sob a alçada da lei.

A deslealdade para com os nossos colegas, chefes e até para com os nossos governantes, é uma desonestidade. Não é probo aquele que a troco de umas avenças ou de “comissões” atenta contra o seu país, seja em que sector da vida nacional for. E há empresários que o fazem. Existem profissionais – incluindo no jornalismo – que se arrogam de fazer render deslealdades e desonras, a troco de nada. Vender a honra é sempre um mau negócio. Porque quem a compra não pode fazer nada com ela e quem a vende fica irremediavelmente mais pobre, ainda que confortado com um prato de lentilhas que depressa desaparece na voragem dos dias.

Angola precisa de probidade e de honra, a todos os níveis. Ninguém pense que a Lei da Probidade só se aplica aos políticos ou aos titulares dos órgãos de soberania. Nem pensar. Aplica-se a todos, desde o mais humilde funcionário do Estado ao representante da sociedade civil e da Igreja. É altura de todos fazermos um balanço das nossas vidas. Os que concluírem que deram tudo pelo engrandecimento do país e fizeram o que podiam pelo bem comum são probos e nem sequer precisam de pensar na Lei da Probidade. Os que não encontrarem nas suas vidas motivos de que se orgulhem pelo que fizeram pela sociedade e pelo país é melhor começarem a cumprir a lei.

Ainda vamos a tempo de sermos cidadãos de corpo inteiro.


[Aqui]

Wednesday, 21 July 2010

Dinheiro, dinheiro, para que te quero?...





O titulo desta mukanda poderia bem ser, mais uma vez, "Amizade, amizade, para que te quero?"...

Hoje a amizade e familia sao manobradas pelo contexto, cantava Bonga numa cancao ja' entradota nos anos, mas que se mantem perfeitamente aplicavel a sociedade angolana dos dias de hoje. Yannick Ngombo, o Afroman, tem uma cancao sobre o "amigo" que pede emprestado dinheiro e que depois nao paga, nem quer pagar e ainda se acha afrontado quando o credor lhe cobra... Numa outra cancao, o mesmo Yannick diz: "aqui (Angola) nao vale a pena voce ficar muito simpatico, senao te apanham a pata!..."

Ao que vem isto? Um pouco a proposito de este blog ser, desde o inicio, dedicado a "deitar contas a vida" (aqui gostaria de sugerir fortemente aos interessados a leitura deste post e, muito especialmente, do "amigavel aviso a navegacao" a ele anexo) e de, ironicamente, a experiencia e as 'descobertas' que com ele adquiri me terem forcado (naquilo que referi aqui ha dias como sendo possivelmente um novo ciclo de vida) a repensar todas as minhas perspectivas de futuro e relacoes pessoais, em particular as de amizade e familia - o que tambem passa por algumas "contas de deve e haver".

Nao me proponho aqui estender-me demasiado sobre tudo isso, mas ha' pelo menos uma coisa que se me impoe dizer: sempre pautei a minha vida por assumir plenamente todas as minhas responsabilidades e por seguir, entre outras, estas tres regras de conduta fundamentais: i) nunca me relacionar com quem quer que seja meramente na base do 'status social' ou do interesse material e/ou financeiro; ii) pagar escrupulosamente, e tanto quanto possivel em tempo util, todas as minhas dividas; iii) jamais fazer alarde do que, social, material, financeira, ou de qualquer outro modo, alguem me possa dever - esta, em particular, e' para mim uma regra de ouro que pratico como se de "sigilo bancario" se tratasse e que sempre pensei fosse tambem seguida por "todo o mundo"... ledo engano o meu, como me tenho vindo a dar conta recentemente atraves, entre outras, de mencoes por parte de gente oportunista com quem nunca privei e a quem muito menos devo alguma coisa, a "cuspir nos pratos em que debiquei"!

Uma das facetas mais perturbadoras da vida de dificuldades e carencias de toda a ordem que se vivem na sociedade angolana actual e' que ja' nao ha' principios, valores ou regras de conduta nao subvertidos: tudo e' manipulavel, e em particular a amizade e a familia... e em particular as vias de acesso a 'ascensao social', ao dinheiro e aos bens materiais de toda a ordem! E a manipulacao e' feita tanto pelos orgaos e titulares do poder publico aos mais diversos niveis, quanto pelos amigos e familiares nas mais diversas circunstancias.

E os manipulados sao potencialmente todos os membros da sociedade, mas muito especialmente os mais vulneraveis por uma razao ou por outra, que se veem assim praticamente impossibilitados de viver a sua vida com a estabilidade, dignidade e integridade por que sempre pugnaram e pelas quais sempre se pautaram. Esses sao geralmente, como aqui nota Julianne Malveaux (numa referencia a sociedade americana que pode perfeitamente ser aplicada a sociedade angolana - e aqui faco uma especial chamada de atencao para os preconceitos e estereotipos por detras do facto, por vezes revoltante na forma como se manifesta, de perante uma relacao familiar ou de amizade entre pessoas de cores diferentes, a tendencia ser invariavelmente para o outsider assumir a priori que "quem deve" e' invitavelmente a de "cor mais escura"...), para quem a questao real e' economica, sobre quem tem e quem nao tem, com questoes de raca (e eu acrescentaria 'e de etnia') sempre presentes no background, "aqueles cujas vozes raramente sao ouvidas: 'pais (maes) sozinho(a)s em casa' (e.g. maes solteiras), 'criancas descartaveis' (e.g. por pais irresponsaveis e seus "amigos e familiares") e quem quer que seja cuja cor, status economico ou genero os mantenha sem qualquer poder na sociedade."

Dai a minha devocao a causa do pleno funcionamento e transparencia das instituicoes publicas (a que me refiro, por exemplo, aqui), como forma de libertar os cidadaos (e em particular as cidadas; impondo-se-me aqui uma referencia muito especial a um grupo especialmente vulneravel em qualquer sociedade: os orfaos e viuvas) de relacoes de dependencia ao nivel particular que, talvez mais do que quaisquer outras (sem contudo descurar o papel que certa imprensa tem jogado no meu caso especifico...), tendem verdadeiramente a degradar a condicao humana e a corroer a amizade, a familia e, consequentemente, a sociedade.

E sobre este tema fico-me por aqui, por enquanto, nao deixando porem de reiterar uma afirmacao que ja' antes aqui fiz:

(...) Nao sao, portanto, capazes de perceber que haja gente por esse mundo fora, que no periodo pos-independencia, nunca contou, ou nao contou durante grande parte das suas vidas, com o estado (e, portanto, com o partido da "situacao") a que eles, salvo rarissimas excepcoes, devem praticamente tudo o que sao e teem em Angola e no mundo. E muito menos que gente da minha “geracao R”, como me, myself and I (que, apesar de “menor”, “insignificante” e “rejeitada”, se orgulha de nunca ter "lambido botas" de ninguem e muito menos de alguma vez ter “debicado” em pratos de quem quer que seja e de, quanto muito, ter visto “muito boa gente” debicar no seu prato e depois ingrata, descarada, arrogante e despudoradamete cuspir nele “de cima”, apenas para depois se arrependerem amargamente…), possa “pensar pela sua propria cabeca” e ter a dignidade de expressar imparcialmente opinioes, ou posicionar-se politica e culturalmente, segundo logicas absolutamente nao partidarias ou estatais e que, quando fala em "democracia", “sociedade civil”, “direitos humanos” ou “cidadania”, e’ exactamente disso, e apenas disso, que esta’ a falar!


Post (posterior) relacionado: "A Minha Amiga"


ADENDA

Ha’ certas experiencias da minha vida sobre as quais nunca confidenciei sequer com os meus familiares e amigos mais proximos e que muito menos alguma vez me ocorreu abordar num espaco como este, ainda que a titulo informal e privado, como e’ o caso. Mas o certo e’ que, e esta e’ tambem uma das ‘descobertas’ que me veem sendo reveladas pela experiencia adquirida com este blog, eu tenho sido frequentemente vitima do meu proprio silencio sobre certas questoes. E’ o caso do episodio que a seguir relato.

[Aqui]





O titulo desta mukanda poderia bem ser, mais uma vez, "Amizade, amizade, para que te quero?"...

Hoje a amizade e familia sao manobradas pelo contexto, cantava Bonga numa cancao ja' entradota nos anos, mas que se mantem perfeitamente aplicavel a sociedade angolana dos dias de hoje. Yannick Ngombo, o Afroman, tem uma cancao sobre o "amigo" que pede emprestado dinheiro e que depois nao paga, nem quer pagar e ainda se acha afrontado quando o credor lhe cobra... Numa outra cancao, o mesmo Yannick diz: "aqui (Angola) nao vale a pena voce ficar muito simpatico, senao te apanham a pata!..."

Ao que vem isto? Um pouco a proposito de este blog ser, desde o inicio, dedicado a "deitar contas a vida" (aqui gostaria de sugerir fortemente aos interessados a leitura deste post e, muito especialmente, do "amigavel aviso a navegacao" a ele anexo) e de, ironicamente, a experiencia e as 'descobertas' que com ele adquiri me terem forcado (naquilo que referi aqui ha dias como sendo possivelmente um novo ciclo de vida) a repensar todas as minhas perspectivas de futuro e relacoes pessoais, em particular as de amizade e familia - o que tambem passa por algumas "contas de deve e haver".

Nao me proponho aqui estender-me demasiado sobre tudo isso, mas ha' pelo menos uma coisa que se me impoe dizer: sempre pautei a minha vida por assumir plenamente todas as minhas responsabilidades e por seguir, entre outras, estas tres regras de conduta fundamentais: i) nunca me relacionar com quem quer que seja meramente na base do 'status social' ou do interesse material e/ou financeiro; ii) pagar escrupulosamente, e tanto quanto possivel em tempo util, todas as minhas dividas; iii) jamais fazer alarde do que, social, material, financeira, ou de qualquer outro modo, alguem me possa dever - esta, em particular, e' para mim uma regra de ouro que pratico como se de "sigilo bancario" se tratasse e que sempre pensei fosse tambem seguida por "todo o mundo"... ledo engano o meu, como me tenho vindo a dar conta recentemente atraves, entre outras, de mencoes por parte de gente oportunista com quem nunca privei e a quem muito menos devo alguma coisa, a "cuspir nos pratos em que debiquei"!

Uma das facetas mais perturbadoras da vida de dificuldades e carencias de toda a ordem que se vivem na sociedade angolana actual e' que ja' nao ha' principios, valores ou regras de conduta nao subvertidos: tudo e' manipulavel, e em particular a amizade e a familia... e em particular as vias de acesso a 'ascensao social', ao dinheiro e aos bens materiais de toda a ordem! E a manipulacao e' feita tanto pelos orgaos e titulares do poder publico aos mais diversos niveis, quanto pelos amigos e familiares nas mais diversas circunstancias.

E os manipulados sao potencialmente todos os membros da sociedade, mas muito especialmente os mais vulneraveis por uma razao ou por outra, que se veem assim praticamente impossibilitados de viver a sua vida com a estabilidade, dignidade e integridade por que sempre pugnaram e pelas quais sempre se pautaram. Esses sao geralmente, como aqui nota Julianne Malveaux (numa referencia a sociedade americana que pode perfeitamente ser aplicada a sociedade angolana - e aqui faco uma especial chamada de atencao para os preconceitos e estereotipos por detras do facto, por vezes revoltante na forma como se manifesta, de perante uma relacao familiar ou de amizade entre pessoas de cores diferentes, a tendencia ser invariavelmente para o outsider assumir a priori que "quem deve" e' invitavelmente a de "cor mais escura"...), para quem a questao real e' economica, sobre quem tem e quem nao tem, com questoes de raca (e eu acrescentaria 'e de etnia') sempre presentes no background, "aqueles cujas vozes raramente sao ouvidas: 'pais (maes) sozinho(a)s em casa' (e.g. maes solteiras), 'criancas descartaveis' (e.g. por pais irresponsaveis e seus "amigos e familiares") e quem quer que seja cuja cor, status economico ou genero os mantenha sem qualquer poder na sociedade."

Dai a minha devocao a causa do pleno funcionamento e transparencia das instituicoes publicas (a que me refiro, por exemplo, aqui), como forma de libertar os cidadaos (e em particular as cidadas; impondo-se-me aqui uma referencia muito especial a um grupo especialmente vulneravel em qualquer sociedade: os orfaos e viuvas) de relacoes de dependencia ao nivel particular que, talvez mais do que quaisquer outras (sem contudo descurar o papel que certa imprensa tem jogado no meu caso especifico...), tendem verdadeiramente a degradar a condicao humana e a corroer a amizade, a familia e, consequentemente, a sociedade.

E sobre este tema fico-me por aqui, por enquanto, nao deixando porem de reiterar uma afirmacao que ja' antes aqui fiz:

(...) Nao sao, portanto, capazes de perceber que haja gente por esse mundo fora, que no periodo pos-independencia, nunca contou, ou nao contou durante grande parte das suas vidas, com o estado (e, portanto, com o partido da "situacao") a que eles, salvo rarissimas excepcoes, devem praticamente tudo o que sao e teem em Angola e no mundo. E muito menos que gente da minha “geracao R”, como me, myself and I (que, apesar de “menor”, “insignificante” e “rejeitada”, se orgulha de nunca ter "lambido botas" de ninguem e muito menos de alguma vez ter “debicado” em pratos de quem quer que seja e de, quanto muito, ter visto “muito boa gente” debicar no seu prato e depois ingrata, descarada, arrogante e despudoradamete cuspir nele “de cima”, apenas para depois se arrependerem amargamente…), possa “pensar pela sua propria cabeca” e ter a dignidade de expressar imparcialmente opinioes, ou posicionar-se politica e culturalmente, segundo logicas absolutamente nao partidarias ou estatais e que, quando fala em "democracia", “sociedade civil”, “direitos humanos” ou “cidadania”, e’ exactamente disso, e apenas disso, que esta’ a falar!


Post (posterior) relacionado: "A Minha Amiga"


ADENDA

Ha’ certas experiencias da minha vida sobre as quais nunca confidenciei sequer com os meus familiares e amigos mais proximos e que muito menos alguma vez me ocorreu abordar num espaco como este, ainda que a titulo informal e privado, como e’ o caso. Mas o certo e’ que, e esta e’ tambem uma das ‘descobertas’ que me veem sendo reveladas pela experiencia adquirida com este blog, eu tenho sido frequentemente vitima do meu proprio silencio sobre certas questoes. E’ o caso do episodio que a seguir relato.

[Aqui]

Sunday, 17 February 2008

LOCAL VOICES OFFLINE (7)

Things someone, somewhere in the world, was talking about but you probably weren’t listening…






Free file hosting by Ripway.com



Where is My Citizenship


N.B.: Only recently has the Government of Botswana started to relax the law requiring applicants for citizenship in the country to be fluent in Setswana.
Things someone, somewhere in the world, was talking about but you probably weren’t listening…






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Where is My Citizenship


N.B.: Only recently has the Government of Botswana started to relax the law requiring applicants for citizenship in the country to be fluent in Setswana.

Friday, 26 October 2007

IN A STATELESSNESS STATE OF MIND…




… OU “A FUGA, OU O INSONDAVEL MISTERIO DA NACIONALIDADE SURRIPIADA (Parte 2)”

Following the news of the election of Mr. Lumengo, originally an Angolan, to the Swiss Parliament in the political environment in which it took place, and in the context of some agitation among the Angolan Diaspora over the denial to us of the right to vote in the upcoming Angolan general elections, expected to take place next year, I found it appropriate to bring to your attention the attached paper about the 2003 UN Report on “Denial of Citizenship and Statelessness” from the European Policy Centre.

The first time I came across that report, I was working for an organisation in Africa where at the time I was being made acutely aware, by some whom I’d always seen and related to as ‘fellow compatriots’ or just as ‘fellow Africans’, that in their books I was not as much the “bona fide regional citizen” as I might, could, should and was generally taken for. Ask me why and I’ll see if I can bring myself up to explain… because there’s an explanation… I then circulated the report to those same people, hoping that at least it would bring them to some reflection on their words and actions. Ask me if it was to any avail and I’ll say: no.

Nothing, however, would’ve prepared me for the many different versions of that same hostile attitude I was going to meet in the blogosphere, or more precisely the “lusosphere”… As a matter of fact, it has been not just about some questioning your “bona fide” status as an Angolan citizen, it’s also about naming you a “insignificant non-entity” (stateless therefore…), an outcast “capable of acts of terrorism” and a pariah who “fled with her parents in 1975 for not being capable to withstand your country’s independence”… ask me if there’s any substantiation to these dehumanising insults, claims and accusations – specially when coming, as they do, from people who do not know you personally and whom you’ve never met or ever talked to before – and I’ll simply say: no.

Never mind that the people making them are the very ones who precisely did that (i.e. fled the country, with or without their parents in 1974/75 for, as the word had it at the time, not bearing the thought of “being ruled by blacks” and never went back…) or those who, not having exactly physically fled the country, have always been spiritually absent from it, longing for the land of their ancestors somewhere in Southern Europe, or inventing “lands of their own” by attempting to appropriate themselves, through the most outrageous cultural vulturism, of at least one of the Angolan/African ancestral cultures, while reaping all the privileges awarded to them by state patronage… Never mind if they are citizens of the very countries in Europe, like Mr. Lumengo’s Switzerland, which have political parties constantly calling for the expulsion of African immigrants.

Never mind if the only, or the best, way they find to deal with their own insecurities over their own identity, or lack thereof, is to deprive you of yours… Never mind if the only way they find to assert their “right” over your ancestors’ land, culture and memory is to deny you any claim over, belonging to or even thought about it… or, as they often do, by trying, by all means necessary, to tarnish your personal reputation, mainly by incessantly calling you “racist” for the simple reason that you dare to react against their unprovoked racial, sexual (even if only “virtual”…) attacks and just about every other abuse known to humanity, and by throwing all sorts of stones and dirt at the memory of your ancestors! Never mind if their silly idea of concealing their glaring, deeply rooted, incurable racism is to, vainly, try to transfer and input it on you...

Never mind if all this destructive nonsense happens to you when the country in question has been devastated by war and political violence since independence, is currently experiencing the highest GDP growth rates in the world and is taken by just about everybody as “under-populated” and “under-developed”, thus calling in people from all corners of the earth (apparently provided that it’s not the “likes of you”…) and stating that it’s in dire need of qualified people to assist in its development… Never mind if the very State you are denied any bond to in this appalling way - based in what is generally understood as political and ethnic reasons but are in fact attacks based in sheer ignorance, irresponsibility, incompetence, carelessness, treachery, xenophobia, irrationality, insensitivity, unscrupulousness, opportunism, hypocrisy, amorality, greed, callousness, bigotry, spite, racism and hatred - is the one to which you’ve devoted the very best of your life and talent and is the one ultimately responsible for your very state of statelessness!

This paper deals with the very root causes of “Denial of Citizenship and Statelessness”. I sincerely hope you’ll devote to it the very best of your attention.

Thanks in advance!



… OU “A FUGA, OU O INSONDAVEL MISTERIO DA NACIONALIDADE SURRIPIADA (Parte 2)”

Following the news of the election of Mr. Lumengo, originally an Angolan, to the Swiss Parliament in the political environment in which it took place, and in the context of some agitation among the Angolan Diaspora over the denial to us of the right to vote in the upcoming Angolan general elections, expected to take place next year, I found it appropriate to bring to your attention the attached paper about the 2003 UN Report on “Denial of Citizenship and Statelessness” from the European Policy Centre.

The first time I came across that report, I was working for an organisation in Africa where at the time I was being made acutely aware, by some whom I’d always seen and related to as ‘fellow compatriots’ or just as ‘fellow Africans’, that in their books I was not as much the “bona fide regional citizen” as I might, could, should and was generally taken for. Ask me why and I’ll see if I can bring myself up to explain… because there’s an explanation… I then circulated the report to those same people, hoping that at least it would bring them to some reflection on their words and actions. Ask me if it was to any avail and I’ll say: no.

Nothing, however, would’ve prepared me for the many different versions of that same hostile attitude I was going to meet in the blogosphere, or more precisely the “lusosphere”… As a matter of fact, it has been not just about some questioning your “bona fide” status as an Angolan citizen, it’s also about naming you a “insignificant non-entity” (stateless therefore…), an outcast “capable of acts of terrorism” and a pariah who “fled with her parents in 1975 for not being capable to withstand your country’s independence”… ask me if there’s any substantiation to these dehumanising insults, claims and accusations – specially when coming, as they do, from people who do not know you personally and whom you’ve never met or ever talked to before – and I’ll simply say: no.

Never mind that the people making them are the very ones who precisely did that (i.e. fled the country, with or without their parents in 1974/75 for, as the word had it at the time, not bearing the thought of “being ruled by blacks” and never went back…) or those who, not having exactly physically fled the country, have always been spiritually absent from it, longing for the land of their ancestors somewhere in Southern Europe, or inventing “lands of their own” by attempting to appropriate themselves, through the most outrageous cultural vulturism, of at least one of the Angolan/African ancestral cultures, while reaping all the privileges awarded to them by state patronage… Never mind if they are citizens of the very countries in Europe, like Mr. Lumengo’s Switzerland, which have political parties constantly calling for the expulsion of African immigrants.

Never mind if the only, or the best, way they find to deal with their own insecurities over their own identity, or lack thereof, is to deprive you of yours… Never mind if the only way they find to assert their “right” over your ancestors’ land, culture and memory is to deny you any claim over, belonging to or even thought about it… or, as they often do, by trying, by all means necessary, to tarnish your personal reputation, mainly by incessantly calling you “racist” for the simple reason that you dare to react against their unprovoked racial, sexual (even if only “virtual”…) attacks and just about every other abuse known to humanity, and by throwing all sorts of stones and dirt at the memory of your ancestors! Never mind if their silly idea of concealing their glaring, deeply rooted, incurable racism is to, vainly, try to transfer and input it on you...

Never mind if all this destructive nonsense happens to you when the country in question has been devastated by war and political violence since independence, is currently experiencing the highest GDP growth rates in the world and is taken by just about everybody as “under-populated” and “under-developed”, thus calling in people from all corners of the earth (apparently provided that it’s not the “likes of you”…) and stating that it’s in dire need of qualified people to assist in its development… Never mind if the very State you are denied any bond to in this appalling way - based in what is generally understood as political and ethnic reasons but are in fact attacks based in sheer ignorance, irresponsibility, incompetence, carelessness, treachery, xenophobia, irrationality, insensitivity, unscrupulousness, opportunism, hypocrisy, amorality, greed, callousness, bigotry, spite, racism and hatred - is the one to which you’ve devoted the very best of your life and talent and is the one ultimately responsible for your very state of statelessness!

This paper deals with the very root causes of “Denial of Citizenship and Statelessness”. I sincerely hope you’ll devote to it the very best of your attention.

Thanks in advance!

Wednesday, 10 October 2007

O CIDADAO EM ANGOLA*

“14 anos”… Esse e’ um ‘periodo temporal’ que, qualquer que seja o contexto em que se insira, me sugere, invariavelmente, os 14 anos… “de luta armada” de que qualquer Angolano que tenha vivido suficientemente Angola e em Angola nas ultimas 3 decadas tera’ certamente ouvido falar a saciedade.
Pois bem, nos ultimos dias deu-me para ir reler um texto que escrevi, apresentei e publiquei em 1993, em Lisboa, e que aqui hoje ‘posto’ (infelizmente sem os acentos…).


O CIDADAO EM ANGOLA

Uma reflexao sobre a questao da cidadania em Angola obriga-nos, em primeiro lugar, a uma abordagem do proprio conceito de cidadao, o que nos remete a definicao classica, originaria da tradicao socio-politica europeia, segundo a qual “um cidadao e’ o habitante de uma cidade ou individuo que goze plenamente dos direitos civis e politicos de um Estado livre, nomeadamente do direito ao voto”.
(…) Chegamos entao a conclusao de que a “tradicao africana” como “factor impeditivo” do exercicio pleno de uma Democracia no nosso pais, nao e’ mais do que um debil subterfugio para a legitimacao do nepotismo e de todas as tentacoes totalitarias. Por outro lado, apesar de seculos de abusos contra a pessoa humana sob o regime colonial-fascista, os angolanos, enquanto cidadaos, souberam forjar uma tradicao de afirmacao e reivindicacao que confere o maximo fundamento a estruturacao da sociedade civil na Angola dos dias de hoje.
(…) Para tal contribuiram significativamente, desde o inicio deste seculo, varias associacoes de caracter civico, umas nascidas na entao metropole (como a Liga Ultramarina, a Liga Colonial, a Junta de Defesa dos Direitos de Africa e o Partido Africano, criados em Lisboa entre 1910 e 1912) e outras em Angola (como a Liga Angolana e o Gremio Africano de 1912 ou a Associacao dos Naturais de Angola – ANANGOLA – e a Liga Nacional Africana, nascidas em Luanda em 1930.



(…) O fenomeno do associativismo civico multiplica-se um pouco por todo o pais e, entre 1953 e 1957, assiste-se ao surgimento da Organizacao Cultural dos Angolanos (OCA) no Lobito, da Associacao Africana do Sul de Angola (AASA) no Huambo, do Grupo Avante no Bie’, do Grupo Ohio no Bailundo, ou da Uniao dos Naturais de Angola (UNATA) no Lubango e em Mocamedes. De sublinhar tambem o papel relevante na defesa dos direitos dos cidadaos que assumiram varias das publicacoes editadas por essas associacoes, como “A Defesa de Angola” de 1904, “A Voz de Angola” de 1908 e o “Angolense” de 1907 em Luanda, a “Folha do Sul” de 1905 em Novo Redondo, o “Boletim Anunciador de Benguela” de 1910, o “Correio de Mossamedes” de 1906, ou ainda “O Negro” de 1911 e a “Voz d’Africa” de 1912, editados em Lisboa.
(…) A imposicao da chamada “ditadura do proletariado” fez com que os cidadaos se vissem privados, durante quase duas decadas, quer do direito fundamental ao voto, quer do direito de emitirem livremente as suas opinioes, num pais onde a imprensa era, ate’ ha’ bem pouco tempo, inteiramente controlada pelo partido-estado; de professarem, sem constrangimentos, as suas confissoes religiosas; ou ainda de educarem os seus filhos de acordo com os valores eticos e morais, herdados quer da cultura tradicional angolana, quer do contacto com os europeus, que noutros tempos fizeram com que Angola pudesse ser considerada um "pais civilizado".


(…) Essa reelaboracao possibilitaria, no interior do pais, o exercicio de uma pratica politica quotidianamente democratica, que concederia aos cidadaos o controlo de todo o sistema de actividades que constituem a nossa base civilizacional e facilitaria o tao ansiado regresso a Patria de tantos de nos que pugnamos por uma organizacao social eficiente e por um relacionamento entre os individuos onde o comportamento social digno e honesto ou o respeito pela liberdade, individualidade e direito a diferenca do outro, sao valores a cumprir escrupulosamente, e temos dificuldade em adaptarmo-nos a uma ordem social onde, ao interesse do cidadao nacional se sobrepoe amiude o poder economico ou o prestigio social que, quantas vezes injustificada e injustamente, sao concedidos ao cidadao estrangeiro; onde aos direitos do individuo se sobrepoe o poder discricionario de um estado cujas instituicoes raramente funcionam sem que tambem funcionem os esquemas da corrupcao mais ou menos generalizada; onde ‘a dignidade dos grandes valores, se sobrepoe, voluntaria ou involuntariamente, a “nomenclatura” das “grandes familias”.
(…) Porque ja’ vai longa esta nossa intervencao, gostariamos, Caros concidadaos, de rogar a vossa atencao para alguns extractos de um discurso produzido, em 1754, por um dos protagonistas do nascimento do Estado moderno e um dos fundadores do conceito de cidadania, Jean-Jacques Rousseau: “Magnificos, Muito Honrados e Soberanos Senhores: (…) Se eu tivesse de escolher o lugar do meu nascimento, teria escolhido uma sociedade de uma grandeza limitada pelo alcance das faculdades humanas, ou seja, pela possibilidade de ser bem governada. (…)Teria querido viver e morrer livre, ou seja, de tal modo submetido as leis, que nem eu nem ninguem pudesse subverter o seu honroso jugo, esse jugo salutar e benigno que as cabecas mais nobres suportam com tanta mais docilidade quanto elas nao sao feitas para suportar qualquer outro.

(…) Nao poderia, minhas Senhoras e meus Senhores, deixar de fazer, antes de terminar, uma referencia particular a situacao da Mulher Angolana – essa fonte previligiada da cidadania, porque mae e educadora dos cidadaos. A mulher sera’, porventura, dentre o conjunto de cidadaos angolanos, quem mais frequente e pungentemente tem sido privada dos seus mais elementares direitos enquanto Pessoa.
(…) No discurso acima citado, Rousseau tambem nao se esqueceu das mulheres, tendo-se a elas assim dirigido: “Poderia eu esquecer essa preciosa metade da Republica que faz a felicidade da outra e cuja docura e sabedoria manteem a paz e os bons costumes? Amaveis e virtuosas cidadas, pertence-vos a vos manter sempre atraves do vosso poder amavel, o amor das leis no Estado e a concordia entre os cidadaos…”
(…) Convido-vos, pois, minhas Senhoras e meus Senhores, porque os cidadaos tambem teem deveres, a que contribuamos todos para que Angola possa ser a feliz Patria com que, tal como Rousseau ha’ mais de dois seculos atras, os nossos antepassados sempre sonharam.

*Texto de alocucao apresentada pela autora a um Encontro de Angolanos e Amigos de Angola, realizado em Lisboa em 1993. Publicado em “O Cidadao” – Revista da Associacao Portuguesa dos Direitos dos Cidadaos (Ano 1, No. 2, Segundo trimestre de 1993)

Ler texto integral aqui.


“14 anos”… Esse e’ um ‘periodo temporal’ que, qualquer que seja o contexto em que se insira, me sugere, invariavelmente, os 14 anos… “de luta armada” de que qualquer Angolano que tenha vivido suficientemente Angola e em Angola nas ultimas 3 decadas tera’ certamente ouvido falar a saciedade.
Pois bem, nos ultimos dias deu-me para ir reler um texto que escrevi, apresentei e publiquei em 1993, em Lisboa, e que aqui hoje ‘posto’ (infelizmente sem os acentos…).


O CIDADAO EM ANGOLA

Uma reflexao sobre a questao da cidadania em Angola obriga-nos, em primeiro lugar, a uma abordagem do proprio conceito de cidadao, o que nos remete a definicao classica, originaria da tradicao socio-politica europeia, segundo a qual “um cidadao e’ o habitante de uma cidade ou individuo que goze plenamente dos direitos civis e politicos de um Estado livre, nomeadamente do direito ao voto”.
(…) Chegamos entao a conclusao de que a “tradicao africana” como “factor impeditivo” do exercicio pleno de uma Democracia no nosso pais, nao e’ mais do que um debil subterfugio para a legitimacao do nepotismo e de todas as tentacoes totalitarias. Por outro lado, apesar de seculos de abusos contra a pessoa humana sob o regime colonial-fascista, os angolanos, enquanto cidadaos, souberam forjar uma tradicao de afirmacao e reivindicacao que confere o maximo fundamento a estruturacao da sociedade civil na Angola dos dias de hoje.
(…) Para tal contribuiram significativamente, desde o inicio deste seculo, varias associacoes de caracter civico, umas nascidas na entao metropole (como a Liga Ultramarina, a Liga Colonial, a Junta de Defesa dos Direitos de Africa e o Partido Africano, criados em Lisboa entre 1910 e 1912) e outras em Angola (como a Liga Angolana e o Gremio Africano de 1912 ou a Associacao dos Naturais de Angola – ANANGOLA – e a Liga Nacional Africana, nascidas em Luanda em 1930.


(…) O fenomeno do associativismo civico multiplica-se um pouco por todo o pais e, entre 1953 e 1957, assiste-se ao surgimento da Organizacao Cultural dos Angolanos (OCA) no Lobito, da Associacao Africana do Sul de Angola (AASA) no Huambo, do Grupo Avante no Bie’, do Grupo Ohio no Bailundo, ou da Uniao dos Naturais de Angola (UNATA) no Lubango e em Mocamedes. De sublinhar tambem o papel relevante na defesa dos direitos dos cidadaos que assumiram varias das publicacoes editadas por essas associacoes, como “A Defesa de Angola” de 1904, “A Voz de Angola” de 1908 e o “Angolense” de 1907 em Luanda, a “Folha do Sul” de 1905 em Novo Redondo, o “Boletim Anunciador de Benguela” de 1910, o “Correio de Mossamedes” de 1906, ou ainda “O Negro” de 1911 e a “Voz d’Africa” de 1912, editados em Lisboa.
(…) A imposicao da chamada “ditadura do proletariado” fez com que os cidadaos se vissem privados, durante quase duas decadas, quer do direito fundamental ao voto, quer do direito de emitirem livremente as suas opinioes, num pais onde a imprensa era, ate’ ha’ bem pouco tempo, inteiramente controlada pelo partido-estado; de professarem, sem constrangimentos, as suas confissoes religiosas; ou ainda de educarem os seus filhos de acordo com os valores eticos e morais, herdados quer da cultura tradicional angolana, quer do contacto com os europeus, que noutros tempos fizeram com que Angola pudesse ser considerada um "pais civilizado".


(…) Essa reelaboracao possibilitaria, no interior do pais, o exercicio de uma pratica politica quotidianamente democratica, que concederia aos cidadaos o controlo de todo o sistema de actividades que constituem a nossa base civilizacional e facilitaria o tao ansiado regresso a Patria de tantos de nos que pugnamos por uma organizacao social eficiente e por um relacionamento entre os individuos onde o comportamento social digno e honesto ou o respeito pela liberdade, individualidade e direito a diferenca do outro, sao valores a cumprir escrupulosamente, e temos dificuldade em adaptarmo-nos a uma ordem social onde, ao interesse do cidadao nacional se sobrepoe amiude o poder economico ou o prestigio social que, quantas vezes injustificada e injustamente, sao concedidos ao cidadao estrangeiro; onde aos direitos do individuo se sobrepoe o poder discricionario de um estado cujas instituicoes raramente funcionam sem que tambem funcionem os esquemas da corrupcao mais ou menos generalizada; onde ‘a dignidade dos grandes valores, se sobrepoe, voluntaria ou involuntariamente, a “nomenclatura” das “grandes familias”.
(…) Porque ja’ vai longa esta nossa intervencao, gostariamos, Caros concidadaos, de rogar a vossa atencao para alguns extractos de um discurso produzido, em 1754, por um dos protagonistas do nascimento do Estado moderno e um dos fundadores do conceito de cidadania, Jean-Jacques Rousseau: “Magnificos, Muito Honrados e Soberanos Senhores: (…) Se eu tivesse de escolher o lugar do meu nascimento, teria escolhido uma sociedade de uma grandeza limitada pelo alcance das faculdades humanas, ou seja, pela possibilidade de ser bem governada. (…)Teria querido viver e morrer livre, ou seja, de tal modo submetido as leis, que nem eu nem ninguem pudesse subverter o seu honroso jugo, esse jugo salutar e benigno que as cabecas mais nobres suportam com tanta mais docilidade quanto elas nao sao feitas para suportar qualquer outro.

(…) Nao poderia, minhas Senhoras e meus Senhores, deixar de fazer, antes de terminar, uma referencia particular a situacao da Mulher Angolana – essa fonte previligiada da cidadania, porque mae e educadora dos cidadaos. A mulher sera’, porventura, dentre o conjunto de cidadaos angolanos, quem mais frequente e pungentemente tem sido privada dos seus mais elementares direitos enquanto Pessoa.
(…) No discurso acima citado, Rousseau tambem nao se esqueceu das mulheres, tendo-se a elas assim dirigido: “Poderia eu esquecer essa preciosa metade da Republica que faz a felicidade da outra e cuja docura e sabedoria manteem a paz e os bons costumes? Amaveis e virtuosas cidadas, pertence-vos a vos manter sempre atraves do vosso poder amavel, o amor das leis no Estado e a concordia entre os cidadaos…”
(…) Convido-vos, pois, minhas Senhoras e meus Senhores, porque os cidadaos tambem teem deveres, a que contribuamos todos para que Angola possa ser a feliz Patria com que, tal como Rousseau ha’ mais de dois seculos atras, os nossos antepassados sempre sonharam.

*Texto de alocucao apresentada pela autora a um Encontro de Angolanos e Amigos de Angola, realizado em Lisboa em 1993. Publicado em “O Cidadao” – Revista da Associacao Portuguesa dos Direitos dos Cidadaos (Ano 1, No. 2, Segundo trimestre de 1993)

Ler texto integral aqui.