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Monday, 1 December 2008

DESTAQUES (IRRESISTIVEIS…) DAS ULTIMAS EDICOES DOS SEMANARIOS ANGOLANOS

Tendo dito aqui que terminava a serie “Ecos da Imprensa Angolana”, tambem prometi na altura que continuaria, malgre tout, a dar conta neste blog das minhas leituras da dita imprensa. Assim, do que me chegou dos semanarios da ultima semana, nao resisto a postar aqui os seguintes registos:

O SA da-nos conta da instituicao de uma comissao mandatada pelo Presidente da Republica para divisar a criacao do primeiro Fundo Soberano Angolano (FSA), sobre o qual fonte abalizada me deixa saber que eu terei sido a primeira pessoa a sugerir na imprensa angolana (no meu artigo Que Fazer?):

[Aqui]

Ainda no SA, um relatorio compreensivo das conclusoes de uma auditoria da UNITA as ultimas eleicoes legislativas no pais, que se vem juntar a anteriores relatorios similares, nomeadamente o do Human Rights Watch, neste blog oportunamente apresentado e comentado:

[Aqui]
[Podera' tambem consultar o Relatorio Final da Missao de Observacao Eleitoral da Uniao Europeia aqui.]

E um comentario a vitoria do angolano Ricco no Big Brother Africa III:


O NJ tras esta ‘foto da semana’ que poderia ser entitulada “E’ Funge!”:


Ainda do NJ, os seguintes destaques:

Uma controversia a volta da “historia verdadeira de Cuba em Angola”, ocorrida durante a primeira edicao do FIC de Luanda, envolvendo alegados ‘problemas tecnicos’, ‘censura’ e a que podera’ ser tida como a ‘primeira tour de force’ da recem-nomeada Ministra da Cultura de Angola, Rosa Cruz e Silva:*

[Aqui]

E uma entrevista com Sara Moldoror, companheira de Mario Pinto de Andrade durante um periodo significativo da sua vida, cineasta e homenageada com o ‘Trofeu Homenagem’ do FIC, que lhe foi entregue pela acima citada Ministra da Cultura, pelo seu contributo ao cinema Angolano, nomeadamente com o filme “Sambizanga”:

[Aqui]

Entretanto, o novo semanario O Pais, que pode ser encontrado online aqui, ja' se encontra em circulacao e tras no seu primeiro numero uma interessante materia sobre a poligamia em Angola.

*****

*P.S.: Podera' encontrar aqui uma reportagem de O Pais sobre o FIC, onde se reporta que o alegadamente censurado documentario "Cuba - Uma Odisseia Africana" acabou por vencer o premio do certame para a sua categoria.

*P.P.S.: Finalmente, acabei por descobrir recentemente (Marco de 2009) em Luanda que este "Cuba - Uma Odisseia Africana" e', nem mais nem menos, o documentario que vi na BBC ha' dois anos, sob o titulo "Cuba!Africa!Revolution!", sobre o qual aqui reportei na altura.
Tendo dito aqui que terminava a serie “Ecos da Imprensa Angolana”, tambem prometi na altura que continuaria, malgre tout, a dar conta neste blog das minhas leituras da dita imprensa. Assim, do que me chegou dos semanarios da ultima semana, nao resisto a postar aqui os seguintes registos:

O SA da-nos conta da instituicao de uma comissao mandatada pelo Presidente da Republica para divisar a criacao do primeiro Fundo Soberano Angolano (FSA), sobre o qual fonte abalizada me deixa saber que eu terei sido a primeira pessoa a sugerir na imprensa angolana (no meu artigo Que Fazer?):

[Aqui]

Ainda no SA, um relatorio compreensivo das conclusoes de uma auditoria da UNITA as ultimas eleicoes legislativas no pais, que se vem juntar a anteriores relatorios similares, nomeadamente o do Human Rights Watch, neste blog oportunamente apresentado e comentado:

[Aqui]
[Podera' tambem consultar o Relatorio Final da Missao de Observacao Eleitoral da Uniao Europeia aqui.]

E um comentario a vitoria do angolano Ricco no Big Brother Africa III:


O NJ tras esta ‘foto da semana’ que poderia ser entitulada “E’ Funge!”:


Ainda do NJ, os seguintes destaques:

Uma controversia a volta da “historia verdadeira de Cuba em Angola”, ocorrida durante a primeira edicao do FIC de Luanda, envolvendo alegados ‘problemas tecnicos’, ‘censura’ e a que podera’ ser tida como a ‘primeira tour de force’ da recem-nomeada Ministra da Cultura de Angola, Rosa Cruz e Silva:*

[Aqui]

E uma entrevista com Sara Moldoror, companheira de Mario Pinto de Andrade durante um periodo significativo da sua vida, cineasta e homenageada com o ‘Trofeu Homenagem’ do FIC, que lhe foi entregue pela acima citada Ministra da Cultura, pelo seu contributo ao cinema Angolano, nomeadamente com o filme “Sambizanga”:

[Aqui]

Entretanto, o novo semanario O Pais, que pode ser encontrado online aqui, ja' se encontra em circulacao e tras no seu primeiro numero uma interessante materia sobre a poligamia em Angola.

*****

*P.S.: Podera' encontrar aqui uma reportagem de O Pais sobre o FIC, onde se reporta que o alegadamente censurado documentario "Cuba - Uma Odisseia Africana" acabou por vencer o premio do certame para a sua categoria.

*P.P.S.: Finalmente, acabei por descobrir recentemente (Marco de 2009) em Luanda que este "Cuba - Uma Odisseia Africana" e', nem mais nem menos, o documentario que vi na BBC ha' dois anos, sob o titulo "Cuba!Africa!Revolution!", sobre o qual aqui reportei na altura.

Friday, 17 October 2008

ECHOES FROM THE ANGOLAN PRESS (26 AND LAST)






Com um artigo meu que acaba de sair no ultimo numero do Semanario Angolense e ao qual dedicarei o proximo post, termino esta serie.

Deu-me muito prazer partilhar aqui as noticias da banda a medida que as ia lendo. Decidi faze-lo pelo prazer, mas tambem porque, vivendo como vivo ha' varios anos fora do pais, uma coisa que sempre me preocupa e' a forma como a informacao sobre Angola, e sobre Africa em geral, e' (mal)tratada em alguma (quase toda?) imprensa estrangeira (nao so' a ocidental).

Por isso tenho para mim que, apesar das insuficiencias de que a imprensa local possa sofrer neste ou naquele aspecto, ela deve ser, sempre que possivel, a primeira escolha para nos mantermos actualizados sobre o que realmente, mesmo que apenas atraves da leitura nas entrelinhas, se passa no terreno dos acontecimentos. Ela nao e', nem deve ser quanto a mim, a unica fonte de informacao sobre o pais, mas e' certamente uma fonte indispensavel.

Assim, espero ter contribuido com esta serie de alguma maneira para esse desiderato e tambem para demonstrar ao mundo (a dada altura pareceu-me que isso se tornara absolutamente necessario) que a imprensa Angolana, em particular a privada e/ou independente, is alive and kicking! O meu muito obrigada aos amigos que me facultaram essa possibilidade e espero que cada vez mais jornais e jornalistas Angolanos baseados em Angola passem a publicar online e a participar da blogosfera.

Blogosfera onde, by the way, ao contrario do que alguns parecem ter entendido, nunca me pretendi fazer passar por 'jornalista' - que de facto nao sou, nem pretendo ser, apesar da minha breve passagem pela profissao ha' ja' largos anos - e onde tambem ha' um debate muito interessante sobre as fronteiras entre o bloguismo e o jornalismo. Ja' agora gostaria de dizer que nao concordo inteiramente que se transporte completamente a pratica do jornalismo profissional dos jornais e de outros meios de informacao tradicionais para os blogs, a menos que tais meios de informacao tradicionais, como acontece com praticamente todos os jornais no ocidente, tenham os seus proprios sites online e a eles associem os seus blogs, continuando no entanto a pautar-se online pelos codigos e praticas do jornalismo tradicional e, sobretudo, mantendo-se sujeitos as normas deontologicas, eticas, morais e de responsabilizacao que devem reger a profissao, sob pena de incorrerem em penalizacao pelas igualmente tradicionais vias legais. Por isso julgo que a blogosfera, enquanto espaco de informacao e comunicacao atraves de um veiculo ainda quase completamente desregulado como e' a internet, se presta melhor a "fazer eco" do jornalismo do que propriamente a protagoniza-lo ou a emula-lo.

Continuarei, naturalmente, a ler a imprensa Angolana regularmente e disso darei aqui conta como sempre, mas penso que esta serie cumpriu o seu objectivo.

So, that's all folks, as far as the Echoes from the Angolan Press/Ecos da Imprensa Angolana are concerned. Hope you've enjoyed it!





Com um artigo meu que acaba de sair no ultimo numero do Semanario Angolense e ao qual dedicarei o proximo post, termino esta serie.

Deu-me muito prazer partilhar aqui as noticias da banda a medida que as ia lendo. Decidi faze-lo pelo prazer, mas tambem porque, vivendo como vivo ha' varios anos fora do pais, uma coisa que sempre me preocupa e' a forma como a informacao sobre Angola, e sobre Africa em geral, e' (mal)tratada em alguma (quase toda?) imprensa estrangeira (nao so' a ocidental).

Por isso tenho para mim que, apesar das insuficiencias de que a imprensa local possa sofrer neste ou naquele aspecto, ela deve ser, sempre que possivel, a primeira escolha para nos mantermos actualizados sobre o que realmente, mesmo que apenas atraves da leitura nas entrelinhas, se passa no terreno dos acontecimentos. Ela nao e', nem deve ser quanto a mim, a unica fonte de informacao sobre o pais, mas e' certamente uma fonte indispensavel.

Assim, espero ter contribuido com esta serie de alguma maneira para esse desiderato e tambem para demonstrar ao mundo (a dada altura pareceu-me que isso se tornara absolutamente necessario) que a imprensa Angolana, em particular a privada e/ou independente, is alive and kicking! O meu muito obrigada aos amigos que me facultaram essa possibilidade e espero que cada vez mais jornais e jornalistas Angolanos baseados em Angola passem a publicar online e a participar da blogosfera.

Blogosfera onde, by the way, ao contrario do que alguns parecem ter entendido, nunca me pretendi fazer passar por 'jornalista' - que de facto nao sou, nem pretendo ser, apesar da minha breve passagem pela profissao ha' ja' largos anos - e onde tambem ha' um debate muito interessante sobre as fronteiras entre o bloguismo e o jornalismo. Ja' agora gostaria de dizer que nao concordo inteiramente que se transporte completamente a pratica do jornalismo profissional dos jornais e de outros meios de informacao tradicionais para os blogs, a menos que tais meios de informacao tradicionais, como acontece com praticamente todos os jornais no ocidente, tenham os seus proprios sites online e a eles associem os seus blogs, continuando no entanto a pautar-se online pelos codigos e praticas do jornalismo tradicional e, sobretudo, mantendo-se sujeitos as normas deontologicas, eticas, morais e de responsabilizacao que devem reger a profissao, sob pena de incorrerem em penalizacao pelas igualmente tradicionais vias legais. Por isso julgo que a blogosfera, enquanto espaco de informacao e comunicacao atraves de um veiculo ainda quase completamente desregulado como e' a internet, se presta melhor a "fazer eco" do jornalismo do que propriamente a protagoniza-lo ou a emula-lo.

Continuarei, naturalmente, a ler a imprensa Angolana regularmente e disso darei aqui conta como sempre, mas penso que esta serie cumpriu o seu objectivo.

So, that's all folks, as far as the Echoes from the Angolan Press/Ecos da Imprensa Angolana are concerned. Hope you've enjoyed it!

Wednesday, 10 October 2007

O CIDADAO EM ANGOLA*

“14 anos”… Esse e’ um ‘periodo temporal’ que, qualquer que seja o contexto em que se insira, me sugere, invariavelmente, os 14 anos… “de luta armada” de que qualquer Angolano que tenha vivido suficientemente Angola e em Angola nas ultimas 3 decadas tera’ certamente ouvido falar a saciedade.
Pois bem, nos ultimos dias deu-me para ir reler um texto que escrevi, apresentei e publiquei em 1993, em Lisboa, e que aqui hoje ‘posto’ (infelizmente sem os acentos…).


O CIDADAO EM ANGOLA

Uma reflexao sobre a questao da cidadania em Angola obriga-nos, em primeiro lugar, a uma abordagem do proprio conceito de cidadao, o que nos remete a definicao classica, originaria da tradicao socio-politica europeia, segundo a qual “um cidadao e’ o habitante de uma cidade ou individuo que goze plenamente dos direitos civis e politicos de um Estado livre, nomeadamente do direito ao voto”.
(…) Chegamos entao a conclusao de que a “tradicao africana” como “factor impeditivo” do exercicio pleno de uma Democracia no nosso pais, nao e’ mais do que um debil subterfugio para a legitimacao do nepotismo e de todas as tentacoes totalitarias. Por outro lado, apesar de seculos de abusos contra a pessoa humana sob o regime colonial-fascista, os angolanos, enquanto cidadaos, souberam forjar uma tradicao de afirmacao e reivindicacao que confere o maximo fundamento a estruturacao da sociedade civil na Angola dos dias de hoje.
(…) Para tal contribuiram significativamente, desde o inicio deste seculo, varias associacoes de caracter civico, umas nascidas na entao metropole (como a Liga Ultramarina, a Liga Colonial, a Junta de Defesa dos Direitos de Africa e o Partido Africano, criados em Lisboa entre 1910 e 1912) e outras em Angola (como a Liga Angolana e o Gremio Africano de 1912 ou a Associacao dos Naturais de Angola – ANANGOLA – e a Liga Nacional Africana, nascidas em Luanda em 1930.



(…) O fenomeno do associativismo civico multiplica-se um pouco por todo o pais e, entre 1953 e 1957, assiste-se ao surgimento da Organizacao Cultural dos Angolanos (OCA) no Lobito, da Associacao Africana do Sul de Angola (AASA) no Huambo, do Grupo Avante no Bie’, do Grupo Ohio no Bailundo, ou da Uniao dos Naturais de Angola (UNATA) no Lubango e em Mocamedes. De sublinhar tambem o papel relevante na defesa dos direitos dos cidadaos que assumiram varias das publicacoes editadas por essas associacoes, como “A Defesa de Angola” de 1904, “A Voz de Angola” de 1908 e o “Angolense” de 1907 em Luanda, a “Folha do Sul” de 1905 em Novo Redondo, o “Boletim Anunciador de Benguela” de 1910, o “Correio de Mossamedes” de 1906, ou ainda “O Negro” de 1911 e a “Voz d’Africa” de 1912, editados em Lisboa.
(…) A imposicao da chamada “ditadura do proletariado” fez com que os cidadaos se vissem privados, durante quase duas decadas, quer do direito fundamental ao voto, quer do direito de emitirem livremente as suas opinioes, num pais onde a imprensa era, ate’ ha’ bem pouco tempo, inteiramente controlada pelo partido-estado; de professarem, sem constrangimentos, as suas confissoes religiosas; ou ainda de educarem os seus filhos de acordo com os valores eticos e morais, herdados quer da cultura tradicional angolana, quer do contacto com os europeus, que noutros tempos fizeram com que Angola pudesse ser considerada um "pais civilizado".


(…) Essa reelaboracao possibilitaria, no interior do pais, o exercicio de uma pratica politica quotidianamente democratica, que concederia aos cidadaos o controlo de todo o sistema de actividades que constituem a nossa base civilizacional e facilitaria o tao ansiado regresso a Patria de tantos de nos que pugnamos por uma organizacao social eficiente e por um relacionamento entre os individuos onde o comportamento social digno e honesto ou o respeito pela liberdade, individualidade e direito a diferenca do outro, sao valores a cumprir escrupulosamente, e temos dificuldade em adaptarmo-nos a uma ordem social onde, ao interesse do cidadao nacional se sobrepoe amiude o poder economico ou o prestigio social que, quantas vezes injustificada e injustamente, sao concedidos ao cidadao estrangeiro; onde aos direitos do individuo se sobrepoe o poder discricionario de um estado cujas instituicoes raramente funcionam sem que tambem funcionem os esquemas da corrupcao mais ou menos generalizada; onde ‘a dignidade dos grandes valores, se sobrepoe, voluntaria ou involuntariamente, a “nomenclatura” das “grandes familias”.
(…) Porque ja’ vai longa esta nossa intervencao, gostariamos, Caros concidadaos, de rogar a vossa atencao para alguns extractos de um discurso produzido, em 1754, por um dos protagonistas do nascimento do Estado moderno e um dos fundadores do conceito de cidadania, Jean-Jacques Rousseau: “Magnificos, Muito Honrados e Soberanos Senhores: (…) Se eu tivesse de escolher o lugar do meu nascimento, teria escolhido uma sociedade de uma grandeza limitada pelo alcance das faculdades humanas, ou seja, pela possibilidade de ser bem governada. (…)Teria querido viver e morrer livre, ou seja, de tal modo submetido as leis, que nem eu nem ninguem pudesse subverter o seu honroso jugo, esse jugo salutar e benigno que as cabecas mais nobres suportam com tanta mais docilidade quanto elas nao sao feitas para suportar qualquer outro.

(…) Nao poderia, minhas Senhoras e meus Senhores, deixar de fazer, antes de terminar, uma referencia particular a situacao da Mulher Angolana – essa fonte previligiada da cidadania, porque mae e educadora dos cidadaos. A mulher sera’, porventura, dentre o conjunto de cidadaos angolanos, quem mais frequente e pungentemente tem sido privada dos seus mais elementares direitos enquanto Pessoa.
(…) No discurso acima citado, Rousseau tambem nao se esqueceu das mulheres, tendo-se a elas assim dirigido: “Poderia eu esquecer essa preciosa metade da Republica que faz a felicidade da outra e cuja docura e sabedoria manteem a paz e os bons costumes? Amaveis e virtuosas cidadas, pertence-vos a vos manter sempre atraves do vosso poder amavel, o amor das leis no Estado e a concordia entre os cidadaos…”
(…) Convido-vos, pois, minhas Senhoras e meus Senhores, porque os cidadaos tambem teem deveres, a que contribuamos todos para que Angola possa ser a feliz Patria com que, tal como Rousseau ha’ mais de dois seculos atras, os nossos antepassados sempre sonharam.

*Texto de alocucao apresentada pela autora a um Encontro de Angolanos e Amigos de Angola, realizado em Lisboa em 1993. Publicado em “O Cidadao” – Revista da Associacao Portuguesa dos Direitos dos Cidadaos (Ano 1, No. 2, Segundo trimestre de 1993)

Ler texto integral aqui.


“14 anos”… Esse e’ um ‘periodo temporal’ que, qualquer que seja o contexto em que se insira, me sugere, invariavelmente, os 14 anos… “de luta armada” de que qualquer Angolano que tenha vivido suficientemente Angola e em Angola nas ultimas 3 decadas tera’ certamente ouvido falar a saciedade.
Pois bem, nos ultimos dias deu-me para ir reler um texto que escrevi, apresentei e publiquei em 1993, em Lisboa, e que aqui hoje ‘posto’ (infelizmente sem os acentos…).


O CIDADAO EM ANGOLA

Uma reflexao sobre a questao da cidadania em Angola obriga-nos, em primeiro lugar, a uma abordagem do proprio conceito de cidadao, o que nos remete a definicao classica, originaria da tradicao socio-politica europeia, segundo a qual “um cidadao e’ o habitante de uma cidade ou individuo que goze plenamente dos direitos civis e politicos de um Estado livre, nomeadamente do direito ao voto”.
(…) Chegamos entao a conclusao de que a “tradicao africana” como “factor impeditivo” do exercicio pleno de uma Democracia no nosso pais, nao e’ mais do que um debil subterfugio para a legitimacao do nepotismo e de todas as tentacoes totalitarias. Por outro lado, apesar de seculos de abusos contra a pessoa humana sob o regime colonial-fascista, os angolanos, enquanto cidadaos, souberam forjar uma tradicao de afirmacao e reivindicacao que confere o maximo fundamento a estruturacao da sociedade civil na Angola dos dias de hoje.
(…) Para tal contribuiram significativamente, desde o inicio deste seculo, varias associacoes de caracter civico, umas nascidas na entao metropole (como a Liga Ultramarina, a Liga Colonial, a Junta de Defesa dos Direitos de Africa e o Partido Africano, criados em Lisboa entre 1910 e 1912) e outras em Angola (como a Liga Angolana e o Gremio Africano de 1912 ou a Associacao dos Naturais de Angola – ANANGOLA – e a Liga Nacional Africana, nascidas em Luanda em 1930.


(…) O fenomeno do associativismo civico multiplica-se um pouco por todo o pais e, entre 1953 e 1957, assiste-se ao surgimento da Organizacao Cultural dos Angolanos (OCA) no Lobito, da Associacao Africana do Sul de Angola (AASA) no Huambo, do Grupo Avante no Bie’, do Grupo Ohio no Bailundo, ou da Uniao dos Naturais de Angola (UNATA) no Lubango e em Mocamedes. De sublinhar tambem o papel relevante na defesa dos direitos dos cidadaos que assumiram varias das publicacoes editadas por essas associacoes, como “A Defesa de Angola” de 1904, “A Voz de Angola” de 1908 e o “Angolense” de 1907 em Luanda, a “Folha do Sul” de 1905 em Novo Redondo, o “Boletim Anunciador de Benguela” de 1910, o “Correio de Mossamedes” de 1906, ou ainda “O Negro” de 1911 e a “Voz d’Africa” de 1912, editados em Lisboa.
(…) A imposicao da chamada “ditadura do proletariado” fez com que os cidadaos se vissem privados, durante quase duas decadas, quer do direito fundamental ao voto, quer do direito de emitirem livremente as suas opinioes, num pais onde a imprensa era, ate’ ha’ bem pouco tempo, inteiramente controlada pelo partido-estado; de professarem, sem constrangimentos, as suas confissoes religiosas; ou ainda de educarem os seus filhos de acordo com os valores eticos e morais, herdados quer da cultura tradicional angolana, quer do contacto com os europeus, que noutros tempos fizeram com que Angola pudesse ser considerada um "pais civilizado".


(…) Essa reelaboracao possibilitaria, no interior do pais, o exercicio de uma pratica politica quotidianamente democratica, que concederia aos cidadaos o controlo de todo o sistema de actividades que constituem a nossa base civilizacional e facilitaria o tao ansiado regresso a Patria de tantos de nos que pugnamos por uma organizacao social eficiente e por um relacionamento entre os individuos onde o comportamento social digno e honesto ou o respeito pela liberdade, individualidade e direito a diferenca do outro, sao valores a cumprir escrupulosamente, e temos dificuldade em adaptarmo-nos a uma ordem social onde, ao interesse do cidadao nacional se sobrepoe amiude o poder economico ou o prestigio social que, quantas vezes injustificada e injustamente, sao concedidos ao cidadao estrangeiro; onde aos direitos do individuo se sobrepoe o poder discricionario de um estado cujas instituicoes raramente funcionam sem que tambem funcionem os esquemas da corrupcao mais ou menos generalizada; onde ‘a dignidade dos grandes valores, se sobrepoe, voluntaria ou involuntariamente, a “nomenclatura” das “grandes familias”.
(…) Porque ja’ vai longa esta nossa intervencao, gostariamos, Caros concidadaos, de rogar a vossa atencao para alguns extractos de um discurso produzido, em 1754, por um dos protagonistas do nascimento do Estado moderno e um dos fundadores do conceito de cidadania, Jean-Jacques Rousseau: “Magnificos, Muito Honrados e Soberanos Senhores: (…) Se eu tivesse de escolher o lugar do meu nascimento, teria escolhido uma sociedade de uma grandeza limitada pelo alcance das faculdades humanas, ou seja, pela possibilidade de ser bem governada. (…)Teria querido viver e morrer livre, ou seja, de tal modo submetido as leis, que nem eu nem ninguem pudesse subverter o seu honroso jugo, esse jugo salutar e benigno que as cabecas mais nobres suportam com tanta mais docilidade quanto elas nao sao feitas para suportar qualquer outro.

(…) Nao poderia, minhas Senhoras e meus Senhores, deixar de fazer, antes de terminar, uma referencia particular a situacao da Mulher Angolana – essa fonte previligiada da cidadania, porque mae e educadora dos cidadaos. A mulher sera’, porventura, dentre o conjunto de cidadaos angolanos, quem mais frequente e pungentemente tem sido privada dos seus mais elementares direitos enquanto Pessoa.
(…) No discurso acima citado, Rousseau tambem nao se esqueceu das mulheres, tendo-se a elas assim dirigido: “Poderia eu esquecer essa preciosa metade da Republica que faz a felicidade da outra e cuja docura e sabedoria manteem a paz e os bons costumes? Amaveis e virtuosas cidadas, pertence-vos a vos manter sempre atraves do vosso poder amavel, o amor das leis no Estado e a concordia entre os cidadaos…”
(…) Convido-vos, pois, minhas Senhoras e meus Senhores, porque os cidadaos tambem teem deveres, a que contribuamos todos para que Angola possa ser a feliz Patria com que, tal como Rousseau ha’ mais de dois seculos atras, os nossos antepassados sempre sonharam.

*Texto de alocucao apresentada pela autora a um Encontro de Angolanos e Amigos de Angola, realizado em Lisboa em 1993. Publicado em “O Cidadao” – Revista da Associacao Portuguesa dos Direitos dos Cidadaos (Ano 1, No. 2, Segundo trimestre de 1993)

Ler texto integral aqui.