Showing posts with label ARCHITECTURE. Show all posts
Showing posts with label ARCHITECTURE. Show all posts

Thursday, 16 December 2010

Uma estorieta infantil [actualizado]



It is not Where you live but How you live that matters most
Maya Angelou


Era uma vez...

Corriam os anos “de todas as certezas”, entre finais da decada de 60 e principios da de 70.

Era Luanda e moravamos entao nas, na altura brand new, urbanizacoes da Cuca – na verdade, aquilo era mais Precol do que Cuca, uma vez que a separar-nos havia apenas a linha ferrea. Tratava-se, para a epoca e para aquela zona da cidade, de um moderno complexo habitacional, construido por uma das entao maiores cooperativas habitacionais do pais, com casas suficientemente amenas e condignas, todas de dois andares e varios quartos, jardim com varanda a frente e quintal atras (... invocando um pouco a imagem da “batata no cu, batata na boca” dos casorios de entao...).

Os jardins eram o espaco de todas as competicoes entre os vizinhos (to 'keep up with the joneses', como dizem os ingleses): 'quem mantinha melhor a relva', 'quem tinha as plantas mais bonitas'... Mas o meu espaco de ser, estar e crescer era o quintal, onde cultivavamos uma horta e o meu pai exercia um dos seus maiores especialismos: fertilizar mamoeiros machos!




Outros dos seus especialismos eram ouvir religiosamente o Angola Combatente num radio antigo muito parecido com o da imagem, ler bastante (foi nos livros dele que bebi as minhas primeiras “leituras serias”), fumar cachimbo (para alem dos imprescindiveis ACs) e... escrever poesia!






Um dos seus poemas que ficou mais celebre na familia, escrito em elaborada caligrafia gotica, era dedicado a sua primeira filha, a quem tinha dado o nome Elinar (embora a tenham baptizado Elisa Bernarda, nomes, respectivamente das minhas avos materna e paterna - Elinar era a combinacao dos dois) de onde lhe vem o diminutivo Nanay com que e’ geralmente conhecida ate’ hoje. Poema esse que sempre associo a balada Fur Elise de Beethoven...


E havia os vizinhos: familias negras, brancas, mesticas, cabo-verdianas (estas, geralmente, apenas se distinguiam pelo seu crioulo - que entao se referia apenas a linguagem em que comunicavam entre si...), suponho que quase todos vivendo pela primeira vez a experiencia de partilhar as mesmas ruas e ruelas, becos e vielas, maximbombos e boleias, lojas e cantinas. Enfim, andavamos todos ali a negociar as nossas respectivas identidades e a ver se (... em portugues...) nos entendiamos...

Mas os desentendimentos eram frequentes entre “nos” e os “outros”... Os “nos”, no meu caso particular, eram todo/as com quem eu me entendia e que nao me faziam chorar, ou “perder a paciencia”! Os “outros” eram... os outros! Em particular uns miudos cabo-verdianos muito mais escuros do que nos, mas que quando perdiam em algum jogo ou se saiam mal em alguma brincadeira na rua, iam a correr para casa gritando: “mama, bim ka bie’ ke esta’ faze pretito”! ... Os “pretitos” eramos nos, alguns dos quais mais claros do que eles...

“Outros” eram tambem as miudas brancas da vizinhanca. Um grupinho delas, um belo dia, por entre chorrilhos de insultos racistas, comecou a atirar-nos pedras (... nao, nada parecido com “brincando na serra enquanto o lobo nao vem”...)! Mas nos nao batemos em retirada, nem lhes devolvemos os insultos (... nao sabiamos como – eramos um tanto "gentias", “matumbas” e "bantus" nesse aspecto ...), mas devolvemos-lhes as pedradas... ate’ que eu lhes atirei com uma que acertou em cheio no olho de uma delas!

Bom... a miuda viu estrelas, ficou sem saber de que terra era e... ia perdendo a vista! Por outras palavras, ia ficando aveugle que nem uma cegueta!

Mas o meu pai quando chegou a casa naquele dia e ouviu o relato dos “acontecimentos”, saiu calmamente com a sua caixa de enfermagem, foi pedir desculpas aos pais dela e, durante semanas, como bom enfermeiro que (tambem) era, tratou profissionalmente do olho da miuda ate’ recupera-lo completamente.[*]

Porem, educador firme que (tambem) era, mas tambem sempre cumplice com a minha “paciencia curta” para com racismos e injusticas outras, o meu pai em nenhum momento durante todo aquele episodio, ou depois dele, me dirigiu uma palavra de repreensao... [**]

[Aqueles eram (tambem) os tempos do Milhorro’...]

Mas pergunto, agora “afectuosamente”: o que sera’ feito de ti, oh miuda?...






For many are the pleasant forms which exist in
numerous sins,
and incontinencies,
and disgraceful passions
and fleeting pleasures,

which (men) embrace until they become
sober
and go up to their resting place

And they will find me there,
and they will live
and they will not die again.
 [Toni Morrison, introduction to Paradise]
 
***



Pai,

Aparentemente, eu matei o mulato (santo) deles.
Aparentemente, eu matei o branco (alheio) deles.
Aparentemente, so’ nao te matei a ti, pai.
Nem matei Cristo.
Mas, aparentemente, Cristo pode ressuscitar e pedir:
pai afasta de mim esse calice de vinho tinto de sangue.
Tu nao podes ressuscitar, pai.
Nao podes afastar de mim essas pedras com que me lapidam em Madalena,
nem essa lama com que tentam sujar o bom nome que me deste.
Tu nao podes pai, nunca pudeste.
Por isso nao tenho arrependimentos de Madalena,
nem sentimentos de culpa,
nem complexos de colonizado, pai…
So’ revolta e uma vontade grande de ter respostas!

P.




[*] E isto lembra-me de uma vez, muitos anos depois, em que o artista fez uma feia contusao no dedo grande do pe’ e comecou a ser tratado por uma medica amiga que era vizinha dele, mas passada mais de uma semana nao se notavam nenhumas melhoras, ate’ que eu comecei a trata-lo e... em cerca de 3 dias as melhoras eram notaveis, ate’ que o dedo sarou completamente. Ele veio depois dizer-me que a medica tinha mandado perguntar qual tinha sido o “meu segredo”... Eu na altura "fiz caixinha" so' por gozo, mas revelo-o agora: anos a fio a ver o meu pai trabalhar!


[**] O que me traz a memoria um outro episodio alguns anos antes, quando ainda moravamos na Rua de Benguela [que era separada em duas pela Rua de S. Paulo: para quem viesse da Igreja do mesmo nome - onde fui baptizada e fiz a primeira comunhao e o crisma -, a nossa Rua de Benguela ficava do lado esquerdo, ou seja, no Bairro Operario, vulgo B.O. (ou seja, o SOWETO - South West Township - Luandense), e era a ultima antes da Antonio Enes que separava o B.O. do Miramar]. O meu pai trabalhava, na altura, como enfermeiro da, tambem na altura brand new, fabrica de texteis Textang num turno das 7 da manha as 3 da tarde. Entao o almoco dele era separado e colocado na mesa a sua espera. Num certo dia, o almoco era cozido de bacalhau e eu, por fome ou apenas gulodice ou vontade de comer, fui destapar o prato dele, de onde retirei apenas o ovo, comi-o e voltei a tapar o prato.

Quando o meu pai chegou e alguem lhe disse quem e’ que tinha comido o ovo dele, ele chamou-me, mandou-me sentar a mesa e ordenou-me que comesse todo o resto do prato e que bebesse ao mesmo tempo um litro de agua!

Bem, foi um verdadeiro ordeal para mim que nao tinha estomago para tudo aquilo (especialmente para as batatas enormes!) ... mas que, por entre lagrimas, comi e bebi tudo, la’ isso comi e bebi! E nao vomitei, nem nunca mais me esqueci da licao (sem qualquer outra violencia... alias, nao me lembro de alguma vez o meu pai ter levantado uma mao para me bater!) ou me atrevi a voltar a tocar no prato do pai antes de ele regressar do trabalho.... Era assim que se educavam (algumas) criancas naqueles tempos!




It is not Where you live but How you live that matters most
Maya Angelou


Era uma vez...

Corriam os anos “de todas as certezas”, entre finais da decada de 60 e principios da de 70.

Era Luanda e moravamos entao nas, na altura brand new, urbanizacoes da Cuca – na verdade, aquilo era mais Precol do que Cuca, uma vez que a separar-nos havia apenas a linha ferrea. Tratava-se, para a epoca e para aquela zona da cidade, de um moderno complexo habitacional, construido por uma das entao maiores cooperativas habitacionais do pais, com casas suficientemente amenas e condignas, todas de dois andares e varios quartos, jardim com varanda a frente e quintal atras (... invocando um pouco a imagem da “batata no cu, batata na boca” dos casorios de entao...).

Os jardins eram o espaco de todas as competicoes entre os vizinhos (to 'keep up with the joneses', como dizem os ingleses): 'quem mantinha melhor a relva', 'quem tinha as plantas mais bonitas'... Mas o meu espaco de ser, estar e crescer era o quintal, onde cultivavamos uma horta e o meu pai exercia um dos seus maiores especialismos: fertilizar mamoeiros machos!




Outros dos seus especialismos eram ouvir religiosamente o Angola Combatente num radio antigo muito parecido com o da imagem, ler bastante (foi nos livros dele que bebi as minhas primeiras “leituras serias”), fumar cachimbo (para alem dos imprescindiveis ACs) e... escrever poesia!






Um dos seus poemas que ficou mais celebre na familia, escrito em elaborada caligrafia gotica, era dedicado a sua primeira filha, a quem tinha dado o nome Elinar (embora a tenham baptizado Elisa Bernarda, nomes, respectivamente das minhas avos materna e paterna - Elinar era a combinacao dos dois) de onde lhe vem o diminutivo Nanay com que e’ geralmente conhecida ate’ hoje. Poema esse que sempre associo a balada Fur Elise de Beethoven...


E havia os vizinhos: familias negras, brancas, mesticas, cabo-verdianas (estas, geralmente, apenas se distinguiam pelo seu crioulo - que entao se referia apenas a linguagem em que comunicavam entre si...), suponho que quase todos vivendo pela primeira vez a experiencia de partilhar as mesmas ruas e ruelas, becos e vielas, maximbombos e boleias, lojas e cantinas. Enfim, andavamos todos ali a negociar as nossas respectivas identidades e a ver se (... em portugues...) nos entendiamos...

Mas os desentendimentos eram frequentes entre “nos” e os “outros”... Os “nos”, no meu caso particular, eram todo/as com quem eu me entendia e que nao me faziam chorar, ou “perder a paciencia”! Os “outros” eram... os outros! Em particular uns miudos cabo-verdianos muito mais escuros do que nos, mas que quando perdiam em algum jogo ou se saiam mal em alguma brincadeira na rua, iam a correr para casa gritando: “mama, bim ka bie’ ke esta’ faze pretito”! ... Os “pretitos” eramos nos, alguns dos quais mais claros do que eles...

“Outros” eram tambem as miudas brancas da vizinhanca. Um grupinho delas, um belo dia, por entre chorrilhos de insultos racistas, comecou a atirar-nos pedras (... nao, nada parecido com “brincando na serra enquanto o lobo nao vem”...)! Mas nos nao batemos em retirada, nem lhes devolvemos os insultos (... nao sabiamos como – eramos um tanto "gentias", “matumbas” e "bantus" nesse aspecto ...), mas devolvemos-lhes as pedradas... ate’ que eu lhes atirei com uma que acertou em cheio no olho de uma delas!

Bom... a miuda viu estrelas, ficou sem saber de que terra era e... ia perdendo a vista! Por outras palavras, ia ficando aveugle que nem uma cegueta!

Mas o meu pai quando chegou a casa naquele dia e ouviu o relato dos “acontecimentos”, saiu calmamente com a sua caixa de enfermagem, foi pedir desculpas aos pais dela e, durante semanas, como bom enfermeiro que (tambem) era, tratou profissionalmente do olho da miuda ate’ recupera-lo completamente.[*]

Porem, educador firme que (tambem) era, mas tambem sempre cumplice com a minha “paciencia curta” para com racismos e injusticas outras, o meu pai em nenhum momento durante todo aquele episodio, ou depois dele, me dirigiu uma palavra de repreensao... [**]

[Aqueles eram (tambem) os tempos do Milhorro’...]

Mas pergunto, agora “afectuosamente”: o que sera’ feito de ti, oh miuda?...






For many are the pleasant forms which exist in
numerous sins,
and incontinencies,
and disgraceful passions
and fleeting pleasures,

which (men) embrace until they become
sober
and go up to their resting place

And they will find me there,
and they will live
and they will not die again.
 [Toni Morrison, introduction to Paradise]
 
***



Pai,

Aparentemente, eu matei o mulato (santo) deles.
Aparentemente, eu matei o branco (alheio) deles.
Aparentemente, so’ nao te matei a ti, pai.
Nem matei Cristo.
Mas, aparentemente, Cristo pode ressuscitar e pedir:
pai afasta de mim esse calice de vinho tinto de sangue.
Tu nao podes ressuscitar, pai.
Nao podes afastar de mim essas pedras com que me lapidam em Madalena,
nem essa lama com que tentam sujar o bom nome que me deste.
Tu nao podes pai, nunca pudeste.
Por isso nao tenho arrependimentos de Madalena,
nem sentimentos de culpa,
nem complexos de colonizado, pai…
So’ revolta e uma vontade grande de ter respostas!

P.




[*] E isto lembra-me de uma vez, muitos anos depois, em que o artista fez uma feia contusao no dedo grande do pe’ e comecou a ser tratado por uma medica amiga que era vizinha dele, mas passada mais de uma semana nao se notavam nenhumas melhoras, ate’ que eu comecei a trata-lo e... em cerca de 3 dias as melhoras eram notaveis, ate’ que o dedo sarou completamente. Ele veio depois dizer-me que a medica tinha mandado perguntar qual tinha sido o “meu segredo”... Eu na altura "fiz caixinha" so' por gozo, mas revelo-o agora: anos a fio a ver o meu pai trabalhar!


[**] O que me traz a memoria um outro episodio alguns anos antes, quando ainda moravamos na Rua de Benguela [que era separada em duas pela Rua de S. Paulo: para quem viesse da Igreja do mesmo nome - onde fui baptizada e fiz a primeira comunhao e o crisma -, a nossa Rua de Benguela ficava do lado esquerdo, ou seja, no Bairro Operario, vulgo B.O. (ou seja, o SOWETO - South West Township - Luandense), e era a ultima antes da Antonio Enes que separava o B.O. do Miramar]. O meu pai trabalhava, na altura, como enfermeiro da, tambem na altura brand new, fabrica de texteis Textang num turno das 7 da manha as 3 da tarde. Entao o almoco dele era separado e colocado na mesa a sua espera. Num certo dia, o almoco era cozido de bacalhau e eu, por fome ou apenas gulodice ou vontade de comer, fui destapar o prato dele, de onde retirei apenas o ovo, comi-o e voltei a tapar o prato.

Quando o meu pai chegou e alguem lhe disse quem e’ que tinha comido o ovo dele, ele chamou-me, mandou-me sentar a mesa e ordenou-me que comesse todo o resto do prato e que bebesse ao mesmo tempo um litro de agua!

Bem, foi um verdadeiro ordeal para mim que nao tinha estomago para tudo aquilo (especialmente para as batatas enormes!) ... mas que, por entre lagrimas, comi e bebi tudo, la’ isso comi e bebi! E nao vomitei, nem nunca mais me esqueci da licao (sem qualquer outra violencia... alias, nao me lembro de alguma vez o meu pai ter levantado uma mao para me bater!) ou me atrevi a voltar a tocar no prato do pai antes de ele regressar do trabalho.... Era assim que se educavam (algumas) criancas naqueles tempos!


Thursday, 11 March 2010

Kinaxixi e seus amores

Entre a "Feira" da Maria da Fonte...

Uma mulher do Norte chegou ali. Vinha fazer uma guerra de armas de repetição e
carros de bois. Chamava-se Maria da Fonte (uma das sete, dizia-se) e montou ali
o seu kilombo. Kinaxixi meu amor falou, Kinaxixi Kiami aprendeu.
Um dia, olhou para trás e virou estátua, não de sal como a mulher da outra história (de amor, salvação, caminho de luz, fogo e cadela Minerva, a que morreu de
seus próprios partos), mas estátua de mármore, mulher e todos os membros do
kilombo mais as armas e peças de artilharia, tornados pedras no meio do
Kinaxixi, que é como quem diz no meio dos nossos corações e da cidade. Alguns
anos mais tarde, trezentas cargas de nitroglicerina transformaram o kilombo em
pedaços de pedra muito pequeninos. No chão nasceu erva de arranca pedras e chá,
outras histórias para contar.

Ana Paula Tavares, extracto
de "Kinaxixi, meu amor", in A Cabeça de Salomé - Editorial Nzila,
Luanda, 2004


...e o "Kilombo" da Nzinga Mbandi


Onde nao houve cargas de nitroglicerina - bastaram os pedacos de pedra muito pequeninos para fazerem a estatua virar sal de "mbakar" uteros e chao: nem partos de cadelas, nem gemidos de carros de bois (as armas de repeticao, essas ja' haviam sido caladas pela 'Maria do Blindado'); nem erva de arranca pedras, nem cha'... so' o vacuo, o nada e outras historias do meio do nosso coracao e da cidade para nao contar - Kinaxixi Kiami.
[Mas o olho d'agua da Kianda, esse continua la'...]


Obs.: Soube pelo amigo Augusto Nascimento, que a ela assistiu, da defesa de tese de doutoramento, no inicio desta semana em Lisboa, da Paula Tavares (de quem, ha' alguns meses, depois de muitos anos sem qualquer contacto, recebi uma bonita mensagem entitulada "Amizade", a que se seguiu uma interessante mutua "redescoberta": sobre este blog, nossas vidas, paradeiros, anseios, filhos, futuros...) - para ela os meus sinceros parabens!
Uma mulher do Norte chegou ali. Vinha fazer uma guerra de armas de repetição e
carros de bois. Chamava-se Maria da Fonte (uma das sete, dizia-se) e montou ali
o seu kilombo. Kinaxixi meu amor falou, Kinaxixi Kiami aprendeu.
Um dia, olhou para trás e virou estátua, não de sal como a mulher da outra história (de amor, salvação, caminho de luz, fogo e cadela Minerva, a que morreu de
seus próprios partos), mas estátua de mármore, mulher e todos os membros do
kilombo mais as armas e peças de artilharia, tornados pedras no meio do
Kinaxixi, que é como quem diz no meio dos nossos corações e da cidade. Alguns
anos mais tarde, trezentas cargas de nitroglicerina transformaram o kilombo em
pedaços de pedra muito pequeninos. No chão nasceu erva de arranca pedras e chá,
outras histórias para contar.

Ana Paula Tavares, extracto
de "Kinaxixi, meu amor", in A Cabeça de Salomé - Editorial Nzila,
Luanda, 2004


...e o "Kilombo" da Nzinga Mbandi


Onde nao houve cargas de nitroglicerina - bastaram os pedacos de pedra muito pequeninos para fazerem a estatua virar sal de "mbakar" uteros e chao: nem partos de cadelas, nem gemidos de carros de bois (as armas de repeticao, essas ja' haviam sido caladas pela 'Maria do Blindado'); nem erva de arranca pedras, nem cha'... so' o vacuo, o nada e outras historias do meio do nosso coracao e da cidade para nao contar - Kinaxixi Kiami.
[Mas o olho d'agua da Kianda, esse continua la'...]


Obs.: Soube pelo amigo Augusto Nascimento, que a ela assistiu, da defesa de tese de doutoramento, no inicio desta semana em Lisboa, da Paula Tavares (de quem, ha' alguns meses, depois de muitos anos sem qualquer contacto, recebi uma bonita mensagem entitulada "Amizade", a que se seguiu uma interessante mutua "redescoberta": sobre este blog, nossas vidas, paradeiros, anseios, filhos, futuros...) - para ela os meus sinceros parabens!

Thursday, 16 April 2009

LUANDANDO (V)


Picturei estes paineis, entitulados "Portugal no Mundo", atraves do gradeamento que da' acesso a um atrio no interior do edificio da Marinha de Guerra de Angola (sao claramente do periodo colonial, mas foi a primeira vez que os vi... nao estava la' ninguem, o gradeamento estava fechado a cadeado...), situado na continuacao do Largo Tristao da Cunha


Ao lado, (re)construcao de...


... "calcada portuguesa"!

Do outro lado da rua, o novo (renovado?) "Palacio das Comunicacoes"


{Bom, pelos vistos nem tudo o que e' (ou parece a alguns) "patrimonio nacional" esta' a ser destruido...}

E, por falar nisso, nao muito longe dali...


O tristemente celebre "Palacio de Dona Ana Joaquina"



Marco, 2009

Picturei estes paineis, entitulados "Portugal no Mundo", atraves do gradeamento que da' acesso a um atrio no interior do edificio da Marinha de Guerra de Angola (sao claramente do periodo colonial, mas foi a primeira vez que os vi... nao estava la' ninguem, o gradeamento estava fechado a cadeado...), situado na continuacao do Largo Tristao da Cunha


Ao lado, (re)construcao de...


... "calcada portuguesa"!

Do outro lado da rua, o novo (renovado?) "Palacio das Comunicacoes"


{Bom, pelos vistos nem tudo o que e' (ou parece a alguns) "patrimonio nacional" esta' a ser destruido...}

E, por falar nisso, nao muito longe dali...


O tristemente celebre "Palacio de Dona Ana Joaquina"



Marco, 2009

Tuesday, 31 March 2009

LUANDANDO (III)

O "Edificio Elinga" la' continua de pe' e esteve aberto no ultimo fim de semana para um espectaculo de variedades organizado por um grupo de jovens luandenses empenhados em que ele assim se mantenha...


Estive quase, mas acabei por nao ir, 'atraves' de um dia passado a viajar agradavelmente para sul, por entre picadas e riachos, ate' a Barra do Kwanza e ao Parque da Kissama e de volta a Luanda por baixo de uma chuvada (quase) torrencial e o trafego que, naturalmente, estava mais piormente engarrafado do que ja' e' vagarosamente habitual... Prazer e cansaco, foi o balanco.


Mas, quem la' esteve a cantar especialmente foi o Paulo Flores (tive pena de ter perdido tao boa oportunidade de o ver actuar pela primeira vez) e foi de la' que me trouxeram o ExCombatentes (por sinal, na vespera tinha finalmente ganho coragem - em todas as minhas idas anteriores tinha sempre desconseguido isso - sim, kate' ganhei korage para pedir que me levassem la', aos ExCombatentes, expressamente para ver, de caxexe, de fora, de baixo, o meu kubiko que la' me kassumbularam kum ele, ja' la' vai o que parece uma eternidade...) - sua ultima producao discografica (uma trilogia ja' antes aqui anunciada pelo proprio), integrando tres CDs entitulados, respectivamente, Viagem, Sembas e Ilhas. Do ultimo deixo aqui estes registos:


Free file hosting by Ripway.com
Eu Quero E' Paz

Free file hosting by Ripway.com
Amba

Free file hosting by Ripway.com
Rencontre (Sax by Nanuto)

Free file hosting by Ripway.com
Gepe'

Ja' agora, proponho que revisitemos o/as musico/as angolano/as cantado/as ai nesse Gepe' do Paulo Flores, em posts e comentarios anteriores neste e no de um (ex?)combatente deste blog:

Kabokomeu

Mamborro'

Milhorro'

Minguito

Mariana

Uzala Ute' Ute' (Rete' - Kassav)


E, ja' agora tambem, voltemos a este post... So' a proposito do blues do Eu Quero E' Paz (podia ser tambem a proposito de vozes melhores do que a do Paulo Flores... mas nao e'). Nao e' o Muddy Waters (ouviste, tu, meu filho que o tens andado ultimamente a explorar? By the way, ainda nao vi o tal filme com/sobre ele que me sugeriste...), de quem o Paulo Flores diz ter ganho a inspiracao. E' o BB King... o BB... o King!
O "Edificio Elinga" la' continua de pe' e esteve aberto no ultimo fim de semana para um espectaculo de variedades organizado por um grupo de jovens luandenses empenhados em que ele assim se mantenha...


Estive quase, mas acabei por nao ir, 'atraves' de um dia passado a viajar agradavelmente para sul, por entre picadas e riachos, ate' a Barra do Kwanza e ao Parque da Kissama e de volta a Luanda por baixo de uma chuvada (quase) torrencial e o trafego que, naturalmente, estava mais piormente engarrafado do que ja' e' vagarosamente habitual... Prazer e cansaco, foi o balanco.


Mas, quem la' esteve a cantar especialmente foi o Paulo Flores (tive pena de ter perdido tao boa oportunidade de o ver actuar pela primeira vez) e foi de la' que me trouxeram o ExCombatentes (por sinal, na vespera tinha finalmente ganho coragem - em todas as minhas idas anteriores tinha sempre desconseguido isso - sim, kate' ganhei korage para pedir que me levassem la', aos ExCombatentes, expressamente para ver, de caxexe, de fora, de baixo, o meu kubiko que la' me kassumbularam kum ele, ja' la' vai o que parece uma eternidade...) - sua ultima producao discografica (uma trilogia ja' antes aqui anunciada pelo proprio), integrando tres CDs entitulados, respectivamente, Viagem, Sembas e Ilhas. Do ultimo deixo aqui estes registos:


Free file hosting by Ripway.com
Eu Quero E' Paz

Free file hosting by Ripway.com
Amba

Free file hosting by Ripway.com
Rencontre (Sax by Nanuto)

Free file hosting by Ripway.com
Gepe'

Ja' agora, proponho que revisitemos o/as musico/as angolano/as cantado/as ai nesse Gepe' do Paulo Flores, em posts e comentarios anteriores neste e no de um (ex?)combatente deste blog:

Kabokomeu

Mamborro'

Milhorro'

Minguito

Mariana

Uzala Ute' Ute' (Rete' - Kassav)


E, ja' agora tambem, voltemos a este post... So' a proposito do blues do Eu Quero E' Paz (podia ser tambem a proposito de vozes melhores do que a do Paulo Flores... mas nao e'). Nao e' o Muddy Waters (ouviste, tu, meu filho que o tens andado ultimamente a explorar? By the way, ainda nao vi o tal filme com/sobre ele que me sugeriste...), de quem o Paulo Flores diz ter ganho a inspiracao. E' o BB King... o BB... o King!

Tuesday, 24 March 2009

Monday, 23 March 2009

LUANDANDO (I)






Sim, o "Edificio Elinga" ainda esta de pe' (21-03-09) ... apenas.





Sim, o "Edificio Elinga" ainda esta de pe' (21-03-09) ... apenas.

Thursday, 12 March 2009

A(S) MEMORIA(S) E O(S) PATRIMONIO(S) - PASSADO(S) E FUTURO(S)

La’ diz o velho ditado que nao ha’ duas sem tres…

Assim sendo, depois dos turbilhoes a volta da ‘transformacao’ do edificio conhecido como Palacio de Dona Ana Joaquina e, mais recentemente, da demolicao do antigo Mercado do Kinaxixe, novo turbilhao anda no ar em Luanda a volta da questao da preservacao do patrimonio historico da cidade. Desta vez trata-se do que e’ agora conhecido como Edificio Elinga e que ja’ foi, em tempos mais recuados, Centro Cultural Universitario (CCU) e Colegio Casa das Beiras.

Tenho conhecimento de pelo menos duas “frentes de combate” contra a sua planeada demolicao, diz-se que para dar lugar a um novo edificio e parque de estacionamento:

- Uma, iniciada por nostalgicos dos tempos do CCU que, algo resignados com a aparentemente inevitavel demolicao de um espaco do qual retinham experiencias de vida preciosas (e.g. o nascimento da Brigada Jovem de Literatura de Luanda), criaram uma corrente de partilha de memorias por email visando “comemorar” o desaparecimento daquele espaco, ate’ que… um dos contribuintes da corrente foi desencantar este despacho do Ministerio da Cultura datado de 1981, que, na letra e no espirito, parece conter o essencial para que se fale na existencia de uma politica de preservacao do patrimonio arquitectonico em Angola… excepto os necessarios mecanismos para a sua efectiva implementacao (questao que aqui abordei aquando da demolicao do Kinaxixe), falando-se, inclusive, na possibilidade de tal despacho poder ter sido ja’ revogado – do que nao parece haver confirmacao;

- Outra, que, certamente integrando alguns dos participantes da primeira, optou por uma posicao mais activamente politica (ideologica?), que decidiu expressar atraves deste Abaixo Assinado, correntemente aberto a subscricao por naturais e/ou residentes de Luanda.

Por entre as duas, vai-se movendo, como que em terreno minado, o responsavel pelo novo projecto, que se tem multiplicado em entrevistas e encontros publicos e privados, argumentando, por um lado, que o edificio esta mesmo tecnicamente condenado a morte (morrida, ou matada? – parece ser a questao no centro do debate, sendo certo que, como aqui tive ocasiao de notar, os edificios tambem morrem…) por, alegadamente, ja’ ter nascido “deficiente” e, por outro lado, dando garantias de que os mais directamente afectados pela planeada demolicao (nomeadamente o grupo de teatro Elinga e o pintor Antonio Ole, que la’ tem o seu attelier ha’ varios anos) terao espacos garantidos no novo edificio.

Esses, em resumo, os ‘factos’ que ate’ agora me chegaram ao conhecimento atraves da primeira “frente de combate” (atraves da qual recebi tambem copias 'scaneadas' de um artigo alusivo ao assunto publicado em Luanda no ultimo numero de "O Pais" e do despacho do Minicult acima mencionado, com que ilustro este post). Nas duas reconheco os meritos do activismo civico, as duas desejo sucesso – mesmo que sucesso neste caso possa eventualmente significar uma solucao de compromisso perante uma realidade que parece inevitavel, o que ja’ sera’ assinalavel dada a aparente resignacao inicial…

Agora, por entre os ‘factos’ e a memoria colectiva de toda uma geracao, ha’ um espacozinho para a minha propria memoria individual: lembro-me de, nos anos 80, ter naquele edificio frequentado um curso de guitarra classica, dado por dois professors Vietnamitas… lembro-me da vez em que, ja' no sec. XXI, fui la’ assistir a representacao pelo Elinga do “Quem Me Dera Ser Onda”, do Manuel Rui Monteiro… ou de ter la’ comemorado parte de um Dia Internacional da Mulher (uma memoria que, portanto, fez anos nos ultimos dias e que neste blog relatei aqui ha' uns tempos)… e lembro-me, sobretudo, das pessoas com quem partilhei aqueles momentos.

Memorias… sao elas que dao sentido a palavra “historico” ao lado da designacao “patrimonio arquitectonico”. Resta-nos sempre a consolacao de que, pelo menos enquanto somos vivos, elas sobrevivem a morte dos edificios. O problema e’ a preservacao dessas memorias, individuais e colectivas, para as geracoes futuras, nao perdendo de vista, contudo, que estas nao so’ teem direito ao conhecimento da historia, como tambem (alias, a semelhanca da "primeira frente de combate" aqui mencionada...) teem o direito a e a capacidade para criarem a sua propria historia e construirem as suas proprias memorias para o seu proprio futuro - que sera', afinal, o futuro da Nacao, portanto de todos nos.
La’ diz o velho ditado que nao ha’ duas sem tres…

Assim sendo, depois dos turbilhoes a volta da ‘transformacao’ do edificio conhecido como Palacio de Dona Ana Joaquina e, mais recentemente, da demolicao do antigo Mercado do Kinaxixe, novo turbilhao anda no ar em Luanda a volta da questao da preservacao do patrimonio historico da cidade. Desta vez trata-se do que e’ agora conhecido como Edificio Elinga e que ja’ foi, em tempos mais recuados, Centro Cultural Universitario (CCU) e Colegio Casa das Beiras.

Tenho conhecimento de pelo menos duas “frentes de combate” contra a sua planeada demolicao, diz-se que para dar lugar a um novo edificio e parque de estacionamento:

- Uma, iniciada por nostalgicos dos tempos do CCU que, algo resignados com a aparentemente inevitavel demolicao de um espaco do qual retinham experiencias de vida preciosas (e.g. o nascimento da Brigada Jovem de Literatura de Luanda), criaram uma corrente de partilha de memorias por email visando “comemorar” o desaparecimento daquele espaco, ate’ que… um dos contribuintes da corrente foi desencantar este despacho do Ministerio da Cultura datado de 1981, que, na letra e no espirito, parece conter o essencial para que se fale na existencia de uma politica de preservacao do patrimonio arquitectonico em Angola… excepto os necessarios mecanismos para a sua efectiva implementacao (questao que aqui abordei aquando da demolicao do Kinaxixe), falando-se, inclusive, na possibilidade de tal despacho poder ter sido ja’ revogado – do que nao parece haver confirmacao;

- Outra, que, certamente integrando alguns dos participantes da primeira, optou por uma posicao mais activamente politica (ideologica?), que decidiu expressar atraves deste Abaixo Assinado, correntemente aberto a subscricao por naturais e/ou residentes de Luanda.

Por entre as duas, vai-se movendo, como que em terreno minado, o responsavel pelo novo projecto, que se tem multiplicado em entrevistas e encontros publicos e privados, argumentando, por um lado, que o edificio esta mesmo tecnicamente condenado a morte (morrida, ou matada? – parece ser a questao no centro do debate, sendo certo que, como aqui tive ocasiao de notar, os edificios tambem morrem…) por, alegadamente, ja’ ter nascido “deficiente” e, por outro lado, dando garantias de que os mais directamente afectados pela planeada demolicao (nomeadamente o grupo de teatro Elinga e o pintor Antonio Ole, que la’ tem o seu attelier ha’ varios anos) terao espacos garantidos no novo edificio.

Esses, em resumo, os ‘factos’ que ate’ agora me chegaram ao conhecimento atraves da primeira “frente de combate” (atraves da qual recebi tambem copias 'scaneadas' de um artigo alusivo ao assunto publicado em Luanda no ultimo numero de "O Pais" e do despacho do Minicult acima mencionado, com que ilustro este post). Nas duas reconheco os meritos do activismo civico, as duas desejo sucesso – mesmo que sucesso neste caso possa eventualmente significar uma solucao de compromisso perante uma realidade que parece inevitavel, o que ja’ sera’ assinalavel dada a aparente resignacao inicial…

Agora, por entre os ‘factos’ e a memoria colectiva de toda uma geracao, ha’ um espacozinho para a minha propria memoria individual: lembro-me de, nos anos 80, ter naquele edificio frequentado um curso de guitarra classica, dado por dois professors Vietnamitas… lembro-me da vez em que, ja' no sec. XXI, fui la’ assistir a representacao pelo Elinga do “Quem Me Dera Ser Onda”, do Manuel Rui Monteiro… ou de ter la’ comemorado parte de um Dia Internacional da Mulher (uma memoria que, portanto, fez anos nos ultimos dias e que neste blog relatei aqui ha' uns tempos)… e lembro-me, sobretudo, das pessoas com quem partilhei aqueles momentos.

Memorias… sao elas que dao sentido a palavra “historico” ao lado da designacao “patrimonio arquitectonico”. Resta-nos sempre a consolacao de que, pelo menos enquanto somos vivos, elas sobrevivem a morte dos edificios. O problema e’ a preservacao dessas memorias, individuais e colectivas, para as geracoes futuras, nao perdendo de vista, contudo, que estas nao so’ teem direito ao conhecimento da historia, como tambem (alias, a semelhanca da "primeira frente de combate" aqui mencionada...) teem o direito a e a capacidade para criarem a sua propria historia e construirem as suas proprias memorias para o seu proprio futuro - que sera', afinal, o futuro da Nacao, portanto de todos nos.

Saturday, 16 August 2008

LUANDA DESAPARECIDA

Avenida dos Restauradores



Calcada de Sao Miguel


Rua Pereira Forjaz

Mercado da Caponte

Postais da serie "Luanda Antiga" editados na decada de 80, em Luanda, pela UNAP - Uniao Nacional dos Artistas Plasticos

[E'... os edificios, incluindo os mercados, morrem... seja de morte morrida ou de morte matada... independentemente dos 'tempos historicos']

Avenida dos Restauradores



Calcada de Sao Miguel


Rua Pereira Forjaz

Mercado da Caponte

Postais da serie "Luanda Antiga" editados na decada de 80, em Luanda, pela UNAP - Uniao Nacional dos Artistas Plasticos

[E'... os edificios, incluindo os mercados, morrem... seja de morte morrida ou de morte matada... independentemente dos 'tempos historicos']

Thursday, 14 August 2008

KINAXIXE (R.I.P.)


Desde a minha ultima morada em Luanda, no Largo do Kinaxixi, tenho vivido, entre outros lugares, naquela que pode, seguramente, ser considerada a cidade mais conservadora do mundo: Londres. Uma das manifestacoes desse conservadorismo e’ a forma como o planeamento, a edificacao, a arquitectura e o ambiente construido ('the built environment’ e’ uma disciplina que aqui tem uma faculdade inteira de pelo menos uma universidade a ela dedicada) sao levados muito a serio. Esta e’ uma cidade tradicionalmente construida extensiva e horizontalmente (por oposicao a intensiva e verticalmente) e onde as normas de construcao, manutencao e reconstrucao dos edificios sao para ser respeitadas a risca, desde os materiais usados (por norma o tijolo de tons entre o ocre, o castanho e o vermelho), a altura (basicamente, pode dizer-se que qualquer proposta de construcao de um edificio mais alto que o Big Ben e’ severamente escrutinizada e muitissimo raramente aprovada), sob pena de os edificios infractores poderem vir a ser demolidos, por mais dispendiosos, vistosos ou funcionais que se apresentem e por mais famosos e conceituados que sejam os arquitectos ou engenheiros neles envolvidos. As excepcoes mais notorias a essas regras sao as torres de habitacao social construidas nas decadas de 60 e 70 do seculo XX, em varias areas da cidade, para suprir as necessidades habitacionais criadas pelo crescimento populacional provocado pelo baby boom do post-Segunda Guerra Mundial, muitas das quais, entretanto, ja’ foram demolidas ou estao em vias disso.

No entanto, e precisamente por ser levada tao a serio, a implementacao das politicas de manutencao da arquitectura tradicional da cidade nao e’ deixada simplesmente ao sabor dos ventos, mares e calemas, ou aos caprichos, interesses, fantasias e preconceitos politico-ideologicos dos que podem gritar mais alto. Pelo contrario, existem organismos centrais e locais especificamente encarregues de velar pelo respeito dessas politicas, as quais sao definidas por leis e regulamentos, entre os quais se destaca um sistema de listagem e graduacao de acordo com estritos criterios de localizacao, significacao historica e valencia cultural, que impede que determinados edificios sejam construidos em determinados locais ou que outros possam ser estruturalmente alterados ou demolidos. Mas, em ultima instancia, o sucesso da implementacao dessas politicas depende, como em qualquer outro caso, da presenca, ou ausencia, de determinados factores, quer de ordem endogena (e.g. a nao degradacao dos edificios para la’ de qualquer possibilidade de reabilitacao), quer de ordem exogena (e.g. a ausencia de catastrofes, sejam elas naturais, ou provocadas, como guerras).

A existencia e a defesa de tais politicas de conservacao nao impede, todavia, que a arquitectura da cidade se adapte a novas necessidades economicas, tendencias arquitectonicas e/ou realidades socio-culturais, pelo que projectos ineditos e inovadores sao ocasionalmente aprovados. Assim, embora dificilmente se venha a ver algo tao dramatico como a piramide de vidro adjacente ao Louvre, em Paris, ser construido nas imediacoes, digamos, do Buckingham Palace, ha’ alguns edificios, embora se possam contar praticamente pelos dedos de uma mao, que ao longo das ultimas decadas teem conseguido, com sucesso, quebrar os moldes do landscape londrino e impor-se como landmarks na skyline da cidade, e.g. o Centre Point (este embora, nos ultimos tempos, marcado para demolicao por ter deixado de se coadunar com os principios e valencias socio-culturais que inicialmente garantiram a sua edificacao), o Gherkhin, a BT Tower, ou o conjunto do Canary Wharf.

Mas, voltando ao Kinaxixe (refiro-me aqui ao edificio demolido nos ultimos dias e nao ao espaco geografico do Kinaxixi que historica e culturalmente lhe antecede), em texto que escrevi por altura do anuncio, ha’ cerca de quatro anos, dos planos da sua transformacao (texto esse de que ainda ando a procura e que o facto de ate’ agora nao o ter encontrado me sugere que talvez o tenha publicado como comentario num sitio como o Angonoticias, ou numa das networks ou foruns de discussao em que na altura ocasionalmente participava), manifestei duas preocupacoes fundamentais: uma com o futuro da/os vendedora/es que nele ganhavam a sua vida e outra com o destino que se lhe pretendia dar, ou seja, a sua transformacao num shopping centre. Em relacao a primeira, sugeria que, caso a/os vendedora/es tivessem mesmo que ser evacuados do mercado, que os compensassem devidamente, quer com locais alternativos para a continuacao dos seus negocios, quer financeiramente, para que pudessem, caso assim o decidissem, recorrer a outras formas de ganhar a sua vida. Em relacao a segunda, sugeria que o Kinaxixe fosse transformado num mercado como o Covent Garden de Londres.

O Covent Garden e’ um mercado tradicional londrino que, durante grande parte da sua historia de pelo menos 3 seculos, era exclusivamente um mercado de flores, frutas e vegetais mas, com a crescente tercializacao da economia, a transformacao do local em que se encontra numa zona menos residencial e mais de servicos e de lazer e a gradual satisfacao das necessidades alimentares dos residentes locais por super-mercados, restaurantes e lojas de conveniencia (onde, by the way, o bife de atum e’ consideravelmente mais caro e melhor apreciado do que o ‘outro bife’), foi-se diversificando para o comercio de outros produtos e a integracao de algumas das lojas de marca tipicas das principais high streets da cidade, isto e’, foi-se transformando organicamente num shopping center, sem contudo perder a sua traca arquitectonica original, nem a sua atmosfera de mercado tradicional. Para alem do mais, tal como o Covent Garden, que esta’ rodeado de museus e outros edificios historicos no centro de Londres, o Kinaxixe tambem esta’(va) rodeado de outros edificios historicos e museus no centro de Luanda… E essa, propunha eu, seria uma das alternativas de transformacao do Kinaxixe, sem a criacao de desnecessarios custos humanos, ambientais ou patrimoniais.

A outra alternativa, que parece ser a defendida por alguns, seria o status quo, ou seja, mante-lo como era e como estava. Ora, e deixando de lado a 'brilhante ideia' segundo a qual "Africa nao deve ter shopping centers" (...), ha’ aqui varias questoes a considerar. Em primeiro lugar, que politicas, leis e regulamentos existem para a garantia da manutencao de tal status quo? Nao tenho conhecimento de nenhuns, mas caso existam, que mecanismos institucionais e sociais existem para a garantia da sua implementacao? A julgar pelas vozes que, como a minha, desde o inicio se manifestaram contra as intencoes do grupo privado que se decidiu pela transformacao daquele mercado e, finalmente, pela sua demolicao, nenhuns. Evidentemente, ha’ que salvaguardar aqui o que parece ser um facto, do qual apenas tive conhecimento muito recentemente: a impossibilidade de recuperacao das estruturas do edificio, de acordo com os responsaveis pela obra.

Mas, independentemente desse facto aparentemente incontestavel e para alem das vozes e do tom ou intensidade com que porventura se tenham ou nao manifestado ao longo desse tempo, urge colocar algumas questoes mais criticas sobre esse evento: e.g. nos quatro anos (lembremo-nos que, em condicoes normais, esse e’ o tempo de duracao de uma legislatura), que mediaram o anuncio da decisao e o acto final a que se assistiu nos ultimos dias, tera’ algum partido da oposicao com assento parlamentar interpelado o governo sobre os planos em questao? Tera’ algum deputado, de qualquer partido, agindo independentemente ou em associacao com outros, tomado tal iniciativa? Tera’ alguma organizacao da sociedade civil activa e sistematicamente advogado essa causa e/ou agido no sentido de impedir o que acabou por acontecer? Tera’ algum cidadao, agindo individualmente ou em grupo, tomado qualquer iniciativa seria naquele sentido? Terao quaisquer representantes de grupos de interesses economicos, culturais (em especial os 'premios nacionais de cultura' e dentre estes muito particularmente alguem que nao perde uma oportunidade para se auto-proclamar "mais angolana que a Angolanidade!"...), politicos, ideologicos ou outros, considerados afectados, directa ou indirectamente, por aquela medida, submetido alguma peticao, ou pressionado de outro modo, as autoridades competentes para evitar a consumacao daquele acto?

Nao tenho noticia de que qualquer dessas perguntas possa ser respondida positiva e satisfatoriamente. Ou seja, ao contrario do que se passa no pais do Covent Garden, ha’ um vacuo institucional no nosso sistema de tomada, implementacao e contestacao de decisoes que, nao dando lugar a accoes concretas e construtivas no sentido de se impedir que tais decisoes produzam resultados socialmente adversos e insatisfatorios aos mais diversos niveis, acaba por ser preenchido por toda a sorte de irracionalidades, improperios, histerias, racismos, oportunismos, sensacionalismos e ataques pessoais depois dos factos consumados…

Dito tudo isso, devo dizer tambem que a minha oposicao inicial ao projecto de transformacao (na altura nem sequer se falava ainda em demolicao) do Kinaxixe, para alem de uma preocupacao objectiva de ordem etica e humanitaria em relacao aos futuros modos de sobrevivencia da/os vendedora/es e suas familias, se devia menos a factores objectivos do que afectivos, em resultado do meu sentimento de ‘pertenca’ ao local e ao habito de, desde a infancia, quando estudava na Escola 8, que fica ali muito perto, ver ali o mercado, ou de ocasionalmente ir la’ as compras com as mais velhas, ou, na altura do boicote aos exames no Sao Jose’ de Cluny, em 74/75, para la’ fugir dos tiros (para o ar...) da tropa portuguesa e, alguns anos mais tarde, de o ter mesmo ao lado do meu local de trabalho, na Angop… De outro modo, durante os varios anos que ali morei no Largo do Kinaxixi, depois da independencia, em termos objectivos, aquele mercado, ao contrario dos outros mercados existentes na cidade, ja’ nao satisfazia qualquer necessidade economica, cultural, ou social dos residentes locais ou do resto da cidade: praticamente nao se vendiam la’ ja’ quaisquer produtos alimentares e as lojas e outros espacos ainda com alguma serventia nao se dedicavam exactamente ao comercio de bens ou servicos indispensaveis a sobrevivencia dos seus utentes.

Diga-se tambem que, ao contrario do que tem sido veiculado por alguns sectores de opiniao, o Kinaxixe nunca foi um mercado verdadeiramente popular ou tradicional – populares e tradicionais eram e sao mercados como o Sao Paulo, os Kongolenses, ou o (antigo) Xamavu e, mais recentemente, o Roque Santeiro e tenho poucas duvidas de que, a excepcao deste ultimo, a demolicao de qualquer deles teria um impacto economico e socio-cultural na cidade bastante mais dramatico do que a do Kinaxixe. E’ do Sao Paulo, por exemplo, que trago referencias mais marcantes e consistentes ao longo da minha vida, desde ir la' apanhar ingredientes para cozinhar nas ‘brincadeiras de casa’ da minha infancia na Rua de Benguela, ao fascinio pelas colas, gengibres, missangas, pembas, takulas, xas de kaxinde e outros produtos da cultura tradicional Africana que la’ sempre se venderam e que eu saiba, 'por qualquer razao', nunca o foram no Kinaxixe, a cruzar-me com a Joana Maluka a caminho do mercado ou da igreja… E’ com o dos Kongolenses, por outro exemplo, que tenho as maiores afinidades culturais e afectivas: desde as cores dos panos do Kongo e dos cachos de dendem, ao cheiro dos micates a serem fritos, da banana a ser assada, do bagre fumado e da fuba de bombo branquinha, ao sabor da kikwanga, da kizaka ou da mwamba de ginguba acabadas de fazer... E tenho a certeza que esse tipo de relacao afectiva, cultural, historica e funcional com os mercados verdadeiramente populares, tradicionais e culturais de Luanda marca o imaginario e a vida quotidiana de bastantes mais cidadaos Angolanos do que aqueles agora objectiva ou subjectivamente afectados pela demolicao do Kinaxixe.

Em suma, o Kinaxixe – que sempre foi destinado a classe media-alta do centro da cidade, que nas ultimas decadas tambem passou a satisfazer as suas necessidades alimentares basicas naqueles mercados populares ou, mais recentemente, nas lojas de elite da baixa de Luanda, classe essa a qual tambem se destina o projectado novo shopping centre, pelo que nao ha’ conflitos socio-culturais fundamentais entre o status quo e a proposta alternativa (excepto, talvez, que a composicao dessa classe se tera’ alterado significativamente em tempos mais recentes…) – tornou-se ao longo das decadas desde a independencia, em grande medida, um edificio morto para todos os efeitos praticos, utilitarios e socio-culturais, preenchendo apenas um lugar no imaginario de uma parte dos Kaluandas (e, provavelmente, de outros que, por nunca terem realmente vivido a maior parte, ou sequer alguma parte significativa, das suas vidas em Luanda e, em qualquer caso, certamente nao no Kinaxixi, dele apenas teem imagens livrescas e confabuladas, memorias emprestadas e deturpadas e ate' mesmo completamente inventadas, para ja’ nao falar nos que nunca foram dados a frequentar quaisquer mercados porque sempre tiveram empregada/os que o fizessem por eles). Ora, acontece que o imaginario, e por isso mesmo ele tem esse nome, quando nao impedido disso por empecilhos como o racismo, a ideologia, a hipocrisia ou a esquizofrenia, tem as suas formas de criar, re-criar, adaptar-se e afeicoar-se a novas imagens: como essa do novo proposto edificio, contra o qual nao tenho objeccoes inconciliaveis, assumindo que os tecnicos que o projectaram saibam bem o que estao a fazer com tanta vidraca e que de facto o facam tao ‘verde’ quanto as imagens do prototipo sugerem.

Claro que me ocorrem possibilidades arquitectonicas mais consentaneas com a historia, arte e cultura locais, mas para isso, a falta de exemplos nacionais, teria que fazer uma outra digressao, nao ja' por Londres, mas por algumas das principais cidades Sul-Africanas e de outros paises da Africa Austral. E tais possibilidades ainda se podem vir a concretizar no vasto espaco geografico e populacional circundante ao centro da cidade, caso em que depois sera’ uma questao de competicao por gostos e preferencias esteticas, funcionalidades socio-economicas e valencias culturais entre tais possiveis novos espacos e propostas arquitectonicas e o que agora nos e’ apresentado em substituicao do Kinaxixe, competicao em resultado da qual este podera’ vir a ter a mesma sorte agora destinada ao Centre Point de Londres…

Terminada esta longa digressao pelos escombros do Kinaxixe, onde e’ que entram aqui argumentos de ‘nacionalismos racicos’ nao e’ exactamente uma questao que me escape… Mas essa e’ uma ‘peixeirada’ de um ‘mercado’ em que nao pretendo ir apanhar, nem comprar nada e nem sequer entrar, ate’ porque os seus participantes, vociferando histrionicamente contra o desaparecimento de um certo Quinachiche encimado por uma certa Maria da Fonte e de tudo quanto seja reminiscente do ‘tempo da outra senhora’, sao muito dados a ‘ameacas de morte’ e sao gente para se levar muito a serio nessas coisas: afinal eles estiveram envolvidos, directa ou indirectamente, na maior matanca a que a Historia contemporanea Angolana ja’ assistiu… E, mesmo sabendo e tendo experimentado os efeitos do seu “braco comprido”, continuo na minha: “estou no mundo, a esquizofrenia fica longe, na cultura”!

O Kinaxixe morreu! Longa Vida ao Kinaxixi!!!

Desde a minha ultima morada em Luanda, no Largo do Kinaxixi, tenho vivido, entre outros lugares, naquela que pode, seguramente, ser considerada a cidade mais conservadora do mundo: Londres. Uma das manifestacoes desse conservadorismo e’ a forma como o planeamento, a edificacao, a arquitectura e o ambiente construido ('the built environment’ e’ uma disciplina que aqui tem uma faculdade inteira de pelo menos uma universidade a ela dedicada) sao levados muito a serio. Esta e’ uma cidade tradicionalmente construida extensiva e horizontalmente (por oposicao a intensiva e verticalmente) e onde as normas de construcao, manutencao e reconstrucao dos edificios sao para ser respeitadas a risca, desde os materiais usados (por norma o tijolo de tons entre o ocre, o castanho e o vermelho), a altura (basicamente, pode dizer-se que qualquer proposta de construcao de um edificio mais alto que o Big Ben e’ severamente escrutinizada e muitissimo raramente aprovada), sob pena de os edificios infractores poderem vir a ser demolidos, por mais dispendiosos, vistosos ou funcionais que se apresentem e por mais famosos e conceituados que sejam os arquitectos ou engenheiros neles envolvidos. As excepcoes mais notorias a essas regras sao as torres de habitacao social construidas nas decadas de 60 e 70 do seculo XX, em varias areas da cidade, para suprir as necessidades habitacionais criadas pelo crescimento populacional provocado pelo baby boom do post-Segunda Guerra Mundial, muitas das quais, entretanto, ja’ foram demolidas ou estao em vias disso.

No entanto, e precisamente por ser levada tao a serio, a implementacao das politicas de manutencao da arquitectura tradicional da cidade nao e’ deixada simplesmente ao sabor dos ventos, mares e calemas, ou aos caprichos, interesses, fantasias e preconceitos politico-ideologicos dos que podem gritar mais alto. Pelo contrario, existem organismos centrais e locais especificamente encarregues de velar pelo respeito dessas politicas, as quais sao definidas por leis e regulamentos, entre os quais se destaca um sistema de listagem e graduacao de acordo com estritos criterios de localizacao, significacao historica e valencia cultural, que impede que determinados edificios sejam construidos em determinados locais ou que outros possam ser estruturalmente alterados ou demolidos. Mas, em ultima instancia, o sucesso da implementacao dessas politicas depende, como em qualquer outro caso, da presenca, ou ausencia, de determinados factores, quer de ordem endogena (e.g. a nao degradacao dos edificios para la’ de qualquer possibilidade de reabilitacao), quer de ordem exogena (e.g. a ausencia de catastrofes, sejam elas naturais, ou provocadas, como guerras).

A existencia e a defesa de tais politicas de conservacao nao impede, todavia, que a arquitectura da cidade se adapte a novas necessidades economicas, tendencias arquitectonicas e/ou realidades socio-culturais, pelo que projectos ineditos e inovadores sao ocasionalmente aprovados. Assim, embora dificilmente se venha a ver algo tao dramatico como a piramide de vidro adjacente ao Louvre, em Paris, ser construido nas imediacoes, digamos, do Buckingham Palace, ha’ alguns edificios, embora se possam contar praticamente pelos dedos de uma mao, que ao longo das ultimas decadas teem conseguido, com sucesso, quebrar os moldes do landscape londrino e impor-se como landmarks na skyline da cidade, e.g. o Centre Point (este embora, nos ultimos tempos, marcado para demolicao por ter deixado de se coadunar com os principios e valencias socio-culturais que inicialmente garantiram a sua edificacao), o Gherkhin, a BT Tower, ou o conjunto do Canary Wharf.

Mas, voltando ao Kinaxixe (refiro-me aqui ao edificio demolido nos ultimos dias e nao ao espaco geografico do Kinaxixi que historica e culturalmente lhe antecede), em texto que escrevi por altura do anuncio, ha’ cerca de quatro anos, dos planos da sua transformacao (texto esse de que ainda ando a procura e que o facto de ate’ agora nao o ter encontrado me sugere que talvez o tenha publicado como comentario num sitio como o Angonoticias, ou numa das networks ou foruns de discussao em que na altura ocasionalmente participava), manifestei duas preocupacoes fundamentais: uma com o futuro da/os vendedora/es que nele ganhavam a sua vida e outra com o destino que se lhe pretendia dar, ou seja, a sua transformacao num shopping centre. Em relacao a primeira, sugeria que, caso a/os vendedora/es tivessem mesmo que ser evacuados do mercado, que os compensassem devidamente, quer com locais alternativos para a continuacao dos seus negocios, quer financeiramente, para que pudessem, caso assim o decidissem, recorrer a outras formas de ganhar a sua vida. Em relacao a segunda, sugeria que o Kinaxixe fosse transformado num mercado como o Covent Garden de Londres.

O Covent Garden e’ um mercado tradicional londrino que, durante grande parte da sua historia de pelo menos 3 seculos, era exclusivamente um mercado de flores, frutas e vegetais mas, com a crescente tercializacao da economia, a transformacao do local em que se encontra numa zona menos residencial e mais de servicos e de lazer e a gradual satisfacao das necessidades alimentares dos residentes locais por super-mercados, restaurantes e lojas de conveniencia (onde, by the way, o bife de atum e’ consideravelmente mais caro e melhor apreciado do que o ‘outro bife’), foi-se diversificando para o comercio de outros produtos e a integracao de algumas das lojas de marca tipicas das principais high streets da cidade, isto e’, foi-se transformando organicamente num shopping center, sem contudo perder a sua traca arquitectonica original, nem a sua atmosfera de mercado tradicional. Para alem do mais, tal como o Covent Garden, que esta’ rodeado de museus e outros edificios historicos no centro de Londres, o Kinaxixe tambem esta’(va) rodeado de outros edificios historicos e museus no centro de Luanda… E essa, propunha eu, seria uma das alternativas de transformacao do Kinaxixe, sem a criacao de desnecessarios custos humanos, ambientais ou patrimoniais.

A outra alternativa, que parece ser a defendida por alguns, seria o status quo, ou seja, mante-lo como era e como estava. Ora, e deixando de lado a 'brilhante ideia' segundo a qual "Africa nao deve ter shopping centers" (...), ha’ aqui varias questoes a considerar. Em primeiro lugar, que politicas, leis e regulamentos existem para a garantia da manutencao de tal status quo? Nao tenho conhecimento de nenhuns, mas caso existam, que mecanismos institucionais e sociais existem para a garantia da sua implementacao? A julgar pelas vozes que, como a minha, desde o inicio se manifestaram contra as intencoes do grupo privado que se decidiu pela transformacao daquele mercado e, finalmente, pela sua demolicao, nenhuns. Evidentemente, ha’ que salvaguardar aqui o que parece ser um facto, do qual apenas tive conhecimento muito recentemente: a impossibilidade de recuperacao das estruturas do edificio, de acordo com os responsaveis pela obra.

Mas, independentemente desse facto aparentemente incontestavel e para alem das vozes e do tom ou intensidade com que porventura se tenham ou nao manifestado ao longo desse tempo, urge colocar algumas questoes mais criticas sobre esse evento: e.g. nos quatro anos (lembremo-nos que, em condicoes normais, esse e’ o tempo de duracao de uma legislatura), que mediaram o anuncio da decisao e o acto final a que se assistiu nos ultimos dias, tera’ algum partido da oposicao com assento parlamentar interpelado o governo sobre os planos em questao? Tera’ algum deputado, de qualquer partido, agindo independentemente ou em associacao com outros, tomado tal iniciativa? Tera’ alguma organizacao da sociedade civil activa e sistematicamente advogado essa causa e/ou agido no sentido de impedir o que acabou por acontecer? Tera’ algum cidadao, agindo individualmente ou em grupo, tomado qualquer iniciativa seria naquele sentido? Terao quaisquer representantes de grupos de interesses economicos, culturais (em especial os 'premios nacionais de cultura' e dentre estes muito particularmente alguem que nao perde uma oportunidade para se auto-proclamar "mais angolana que a Angolanidade!"...), politicos, ideologicos ou outros, considerados afectados, directa ou indirectamente, por aquela medida, submetido alguma peticao, ou pressionado de outro modo, as autoridades competentes para evitar a consumacao daquele acto?

Nao tenho noticia de que qualquer dessas perguntas possa ser respondida positiva e satisfatoriamente. Ou seja, ao contrario do que se passa no pais do Covent Garden, ha’ um vacuo institucional no nosso sistema de tomada, implementacao e contestacao de decisoes que, nao dando lugar a accoes concretas e construtivas no sentido de se impedir que tais decisoes produzam resultados socialmente adversos e insatisfatorios aos mais diversos niveis, acaba por ser preenchido por toda a sorte de irracionalidades, improperios, histerias, racismos, oportunismos, sensacionalismos e ataques pessoais depois dos factos consumados…

Dito tudo isso, devo dizer tambem que a minha oposicao inicial ao projecto de transformacao (na altura nem sequer se falava ainda em demolicao) do Kinaxixe, para alem de uma preocupacao objectiva de ordem etica e humanitaria em relacao aos futuros modos de sobrevivencia da/os vendedora/es e suas familias, se devia menos a factores objectivos do que afectivos, em resultado do meu sentimento de ‘pertenca’ ao local e ao habito de, desde a infancia, quando estudava na Escola 8, que fica ali muito perto, ver ali o mercado, ou de ocasionalmente ir la’ as compras com as mais velhas, ou, na altura do boicote aos exames no Sao Jose’ de Cluny, em 74/75, para la’ fugir dos tiros (para o ar...) da tropa portuguesa e, alguns anos mais tarde, de o ter mesmo ao lado do meu local de trabalho, na Angop… De outro modo, durante os varios anos que ali morei no Largo do Kinaxixi, depois da independencia, em termos objectivos, aquele mercado, ao contrario dos outros mercados existentes na cidade, ja’ nao satisfazia qualquer necessidade economica, cultural, ou social dos residentes locais ou do resto da cidade: praticamente nao se vendiam la’ ja’ quaisquer produtos alimentares e as lojas e outros espacos ainda com alguma serventia nao se dedicavam exactamente ao comercio de bens ou servicos indispensaveis a sobrevivencia dos seus utentes.

Diga-se tambem que, ao contrario do que tem sido veiculado por alguns sectores de opiniao, o Kinaxixe nunca foi um mercado verdadeiramente popular ou tradicional – populares e tradicionais eram e sao mercados como o Sao Paulo, os Kongolenses, ou o (antigo) Xamavu e, mais recentemente, o Roque Santeiro e tenho poucas duvidas de que, a excepcao deste ultimo, a demolicao de qualquer deles teria um impacto economico e socio-cultural na cidade bastante mais dramatico do que a do Kinaxixe. E’ do Sao Paulo, por exemplo, que trago referencias mais marcantes e consistentes ao longo da minha vida, desde ir la' apanhar ingredientes para cozinhar nas ‘brincadeiras de casa’ da minha infancia na Rua de Benguela, ao fascinio pelas colas, gengibres, missangas, pembas, takulas, xas de kaxinde e outros produtos da cultura tradicional Africana que la’ sempre se venderam e que eu saiba, 'por qualquer razao', nunca o foram no Kinaxixe, a cruzar-me com a Joana Maluka a caminho do mercado ou da igreja… E’ com o dos Kongolenses, por outro exemplo, que tenho as maiores afinidades culturais e afectivas: desde as cores dos panos do Kongo e dos cachos de dendem, ao cheiro dos micates a serem fritos, da banana a ser assada, do bagre fumado e da fuba de bombo branquinha, ao sabor da kikwanga, da kizaka ou da mwamba de ginguba acabadas de fazer... E tenho a certeza que esse tipo de relacao afectiva, cultural, historica e funcional com os mercados verdadeiramente populares, tradicionais e culturais de Luanda marca o imaginario e a vida quotidiana de bastantes mais cidadaos Angolanos do que aqueles agora objectiva ou subjectivamente afectados pela demolicao do Kinaxixe.

Em suma, o Kinaxixe – que sempre foi destinado a classe media-alta do centro da cidade, que nas ultimas decadas tambem passou a satisfazer as suas necessidades alimentares basicas naqueles mercados populares ou, mais recentemente, nas lojas de elite da baixa de Luanda, classe essa a qual tambem se destina o projectado novo shopping centre, pelo que nao ha’ conflitos socio-culturais fundamentais entre o status quo e a proposta alternativa (excepto, talvez, que a composicao dessa classe se tera’ alterado significativamente em tempos mais recentes…) – tornou-se ao longo das decadas desde a independencia, em grande medida, um edificio morto para todos os efeitos praticos, utilitarios e socio-culturais, preenchendo apenas um lugar no imaginario de uma parte dos Kaluandas (e, provavelmente, de outros que, por nunca terem realmente vivido a maior parte, ou sequer alguma parte significativa, das suas vidas em Luanda e, em qualquer caso, certamente nao no Kinaxixi, dele apenas teem imagens livrescas e confabuladas, memorias emprestadas e deturpadas e ate' mesmo completamente inventadas, para ja’ nao falar nos que nunca foram dados a frequentar quaisquer mercados porque sempre tiveram empregada/os que o fizessem por eles). Ora, acontece que o imaginario, e por isso mesmo ele tem esse nome, quando nao impedido disso por empecilhos como o racismo, a ideologia, a hipocrisia ou a esquizofrenia, tem as suas formas de criar, re-criar, adaptar-se e afeicoar-se a novas imagens: como essa do novo proposto edificio, contra o qual nao tenho objeccoes inconciliaveis, assumindo que os tecnicos que o projectaram saibam bem o que estao a fazer com tanta vidraca e que de facto o facam tao ‘verde’ quanto as imagens do prototipo sugerem.

Claro que me ocorrem possibilidades arquitectonicas mais consentaneas com a historia, arte e cultura locais, mas para isso, a falta de exemplos nacionais, teria que fazer uma outra digressao, nao ja' por Londres, mas por algumas das principais cidades Sul-Africanas e de outros paises da Africa Austral. E tais possibilidades ainda se podem vir a concretizar no vasto espaco geografico e populacional circundante ao centro da cidade, caso em que depois sera’ uma questao de competicao por gostos e preferencias esteticas, funcionalidades socio-economicas e valencias culturais entre tais possiveis novos espacos e propostas arquitectonicas e o que agora nos e’ apresentado em substituicao do Kinaxixe, competicao em resultado da qual este podera’ vir a ter a mesma sorte agora destinada ao Centre Point de Londres…

Terminada esta longa digressao pelos escombros do Kinaxixe, onde e’ que entram aqui argumentos de ‘nacionalismos racicos’ nao e’ exactamente uma questao que me escape… Mas essa e’ uma ‘peixeirada’ de um ‘mercado’ em que nao pretendo ir apanhar, nem comprar nada e nem sequer entrar, ate’ porque os seus participantes, vociferando histrionicamente contra o desaparecimento de um certo Quinachiche encimado por uma certa Maria da Fonte e de tudo quanto seja reminiscente do ‘tempo da outra senhora’, sao muito dados a ‘ameacas de morte’ e sao gente para se levar muito a serio nessas coisas: afinal eles estiveram envolvidos, directa ou indirectamente, na maior matanca a que a Historia contemporanea Angolana ja’ assistiu… E, mesmo sabendo e tendo experimentado os efeitos do seu “braco comprido”, continuo na minha: “estou no mundo, a esquizofrenia fica longe, na cultura”!

O Kinaxixe morreu! Longa Vida ao Kinaxixi!!!

Sunday, 10 August 2008

OH XENTE!

O Kinaxixe…

Vai virar Quinaxixe!

Mas nao se xateiem muito nao (pelo menos nao mais do ke eu ja’ me xatiei desde ke esses planos foram anunciados ha’ varios anos – xaticia essa ke manifestei em eskrito publikado algures…) porke:

… assim ke dizem ke as novas torres a beira-mar plantadas, komo essa ai da Baia, vao ruir porke o mar gosta de reklamar o ke e’ seu, akela Kianda do Kinaxixi ke nunka ke ainda fez ruir nenhum predio ali no largo – nem o ‘meu’ ke fika mesmo ao lado da kacimba dela e onde ke ainda tem la’ mo kubiku ke me kassumbularam kum ele nuns tuga bue' malaikes e buerere' karrulas ainda por cima e ke agora dizem ke tem la’ uns xinokas (ja’ viram so’ o mo azar? Esses anos todos se eles me pagassem so' mbora mo kumbu essa hora eu ja’ ke podia subir tambem na torre da Baia, ne’? Pelo menos ate' ela ruir...); nem akele eskeleto ke lhe plantaram mesmo em cima da kacimba dela e ke por isso mesmo ela nunka ke deixou ke lhe kompletassem – num sei se ela vai deixar esse novo Quinaxixe dai vingar (ou sera’ Quinachiche?)… num sei nao!

Mas se kalhar essa e' uma maka pra Kianda e a Mma Nzinga resolverem la' no Kinaxixi delas, ne'?

[Mais dikas aki e aki]
O Kinaxixe…

Vai virar Quinaxixe!

Mas nao se xateiem muito nao (pelo menos nao mais do ke eu ja’ me xatiei desde ke esses planos foram anunciados ha’ varios anos – xaticia essa ke manifestei em eskrito publikado algures…) porke:

… assim ke dizem ke as novas torres a beira-mar plantadas, komo essa ai da Baia, vao ruir porke o mar gosta de reklamar o ke e’ seu, akela Kianda do Kinaxixi ke nunka ke ainda fez ruir nenhum predio ali no largo – nem o ‘meu’ ke fika mesmo ao lado da kacimba dela e onde ke ainda tem la’ mo kubiku ke me kassumbularam kum ele nuns tuga bue' malaikes e buerere' karrulas ainda por cima e ke agora dizem ke tem la’ uns xinokas (ja’ viram so’ o mo azar? Esses anos todos se eles me pagassem so' mbora mo kumbu essa hora eu ja’ ke podia subir tambem na torre da Baia, ne’? Pelo menos ate' ela ruir...); nem akele eskeleto ke lhe plantaram mesmo em cima da kacimba dela e ke por isso mesmo ela nunka ke deixou ke lhe kompletassem – num sei se ela vai deixar esse novo Quinaxixe dai vingar (ou sera’ Quinachiche?)… num sei nao!

Mas se kalhar essa e' uma maka pra Kianda e a Mma Nzinga resolverem la' no Kinaxixi delas, ne'?

[Mais dikas aki e aki]

Tuesday, 15 April 2008

OS PRUBULEMA KE'STAMOS KU ELES...

Este post destina-se primordialmente a parabenizar o Salucombo Jr. pelo seu terceiro aniversario na blogosfera. Parabens Attelier dos Mangueirinhas!
E' tambem, para mim, uma oportunidade para zuelar um pouco sobre a questao da preservacao da arquitectura urbana em Luanda e em Angola em geral, que tantos debates tem gerado, na blogosfera e nao so'. As consideracoes que se seguem constituem uma versao editada de um comentario meu no Attelier dos Mangueirinhas, em resposta ao Salucombo Jr., no contexto deste post dele, de onde as fotografias aqui expostas tambem foram tomadas de emprestimo.

1. Todas as ex-potencias coloniais se envolvem, de uma forma ou de outra, na defesa dos seus patrimonios culturais no mundo e especialmente nas suas ex-colonias e isso passa normalmente pelo investimento em projectos de reconstrucao e manutencao, particularmente se essas ex-colonias tiverem passado por longos periodos de guerra. No caso de Angola, tal investimento (incluindo nao so’ financiamento, mas tambem ‘educacao cultural’ sobre esse patrimonio) seria ainda mais justificado pelo facto de a ex-potencia colonial nao ter sido alheia as razoes da guerra – bastaria, por exemplo, ter promovido e garantido um processo de descolonizacao mais atempado, responsavel e assumido e, consequentemente, menos catastrofico…

2. Nos casos em que tal se verifica, tais projectos de investimento sao, via de regra, feitos em parceria com o pais alvo e sob acordos inter-governamentais: nao teem, portanto, necessariamente a ver com “neocolonizacao”. E, afinal, o que e’ mais passivel de ser considerado “neocolonizacao”? A manutencao de um patrimonio cultural, ou o dominio de praticamente todo o sector bancario (e seus respectivos recursos humanos) e outros sectores importantes da economia de um pais? E, ja’ agora, quantas dessas novas torres de vidro nao se destinarao, porventura, directa ou indirectamente, a bancos ou outros interesses economicos portugueses? Mas, independementemente de quem tem ou nao o ‘dever e obrigacao’, ou de quem tem ‘mais ou menos dinheiro’ (ja’ agora dir-te-ei que alguns projectos desse tipo sao patrocinados e financiados por instituicoes supra-nacionais, como a UE ou a UNESCO - veja-se, por favor, o caso de Mbanza Kongo, sem duvida o mais flagrante exemplo de destruicao de um patrimonio historico-cultural, nao so' de Angola, como da humanidade!), eu falei em Portugal “assumir a lideranca” e isso pode resumir-se apenas a apresentar propostas/projectos concretos ao governo Angolano nesse sentido. Toma, por exemplo, o caso da escola portuguesa que foi instalada, por Portugal, ha’ varios anos em Luanda: qual foi o seu objectivo? Certamente nao outro que a manutencao da lingua e da cultura portuguesa – porque nao pensar-se no mesmo tipo de investimento em relacao ao patrimonio arquitectonico portugues?

3. Agora, passemos aquele que e’ talvez o aspecto mais importante dessa questao: em qualquer economia bem gerida (excepto em paises socialistas/comunistas, que Angola, malgre’ tout, nunca foi… quando muito, Angola foi ate’ ha’ 6 anos atras uma economia de guerra) ha’ uma clara delimitacao do papel do estado na economia, mediante a qual os investimentos publicos devem ser reservados aos bens publicos. E a definicao de bens publicos pode ser mais ou menos lata, mas e’ clara o suficiente: em termos gerais, e’considerado “bem publico” aquele que pode ser usufruido por qualquer membro do publico. Aqui poder-se-ha defender que a traca arquitetonica portuguesa (tal como outros bens do patrimonio historico de Angola) e’ um “bem publico” na medida em que qualquer membro do publico ao apenas poder olhar para ela estara’ a usufruir de um “bem cultural”. Ate’ ai muito bem. Mas poe-se entao a questao de saber, em termos mais estritos, se um determinado bem considerado “cultural” e’ propriedade publica ou privada? Isto e’, esta' nas maos do estado ou de um particular? E aqui as aguas do orcamento do estado teem que ser rigorosamente separadas: se e’ publica, cabe ao estado nele investir, se e’ privada, isso cabe ao particular que a possui. O papel do estado ai deve limitar-se a legislar e regulamentar os criterios da sua planificacao e manutencao;

4. Do ponto anterior segue-se que: em qualquer pais, mas mais fundamentalmente num pais com os niveis de pobreza que Angola apresenta, quais devem ser as prioridades dos gastos publicos? Nao me parece haver muito lugar para duvidas que elas devem ser direccionadas para os “bens indubitavelmente publicos”, isto e’, aqueles sem os quais nao havera membros do publico suficientes para usufruirem de “bens culturais”, sejam eles portugueses ou nao e por melhor mantidos que sejam. Falamos aqui de Saude, Alimentacao, Educacao, Sanidade e Saneamento, Transportes e Emprego, so’ para citar os mais vitais. E e’ para essas areas que as reivindicacoes do “publico em geral” sao geralmente e devem ser direccionadas, nao so’ em Angola e nao so’ em paises subdesenvolvidos, como em todo o mundo. E e’ tambem por essa razao fundamental que os governos interessados na manutencao do seu patrimonio cultural no mundo, com ou sem o apoio de instituicoes financeiras ou culturais internacionais, teem interesse em investir nesse patrimonio – porque esse investimento nao cabe estritamente ao governo do “pais herdeiro”. Ora, tais governos interessados poderao tambem ter consideraveis restricoes aos seus orcamentos publicos disponiveis para esse efeito e nesses casos recorrem as suas instituicoes privadas, sejam elas bancos ou fundacoes culturais especificamente criadas para tal. E aqui o papel dos bancos privados, por isso falei nos bancos portugueses em Angola, na aquisicao desses bens e/ou na concessao de financiamento para a sua manutencao.

Portanto, em resumo, a mensagem que te pretendia transmitir e’ que, como “nativos” que todos somos, nao nos ficaria nada mal um pouco de humildade em relacao as nossas proprias limitacoes de todo o tipo. E, tambem, que precisamos, principalmente voces da geracao mais jovem, de ter uma atitude mais proactiva/positiva, e menos reactiva/negativa, mais racional e menos emotiva, mas sobretudo mais pragmatica e menos dogmatica, em relacao a reconstrucao do nosso pais em todos os dominios – ate’ porque ja’ deviamos andar todos cansados de guerras por causa de ideologias que pouco ou nada teem a ver connosco...
Nao pretendo com isto dar uma de ‘patriota’, e muito menos ‘patrioteira’, ate’ porque tambem tenho as minhas criticas em relacao ao modelo de crescimento, incluindo a essas torres de vidro, que esta’ a ser seguido em Angola – criticas essas que fiz publicar nacional e internacionalmente.

***

P.S. - (28/04/09) - Acabo de encontrar esta noticia no Jornal Angolense:

O património histórico-cultural de Angola e a problemática da sua conservação e restauração foi o tema da comunicação apresentada quinta-feira, pelo Embaixador-delegado permanente de Angola junto da UNESCO, Almerindo Jaka Jamba, num debate organizado pela Fundação Luso-Africana para a Cultura (FLAC).

[Ler mais aqui]

Este post destina-se primordialmente a parabenizar o Salucombo Jr. pelo seu terceiro aniversario na blogosfera. Parabens Attelier dos Mangueirinhas!
E' tambem, para mim, uma oportunidade para zuelar um pouco sobre a questao da preservacao da arquitectura urbana em Luanda e em Angola em geral, que tantos debates tem gerado, na blogosfera e nao so'. As consideracoes que se seguem constituem uma versao editada de um comentario meu no Attelier dos Mangueirinhas, em resposta ao Salucombo Jr., no contexto deste post dele, de onde as fotografias aqui expostas tambem foram tomadas de emprestimo.

1. Todas as ex-potencias coloniais se envolvem, de uma forma ou de outra, na defesa dos seus patrimonios culturais no mundo e especialmente nas suas ex-colonias e isso passa normalmente pelo investimento em projectos de reconstrucao e manutencao, particularmente se essas ex-colonias tiverem passado por longos periodos de guerra. No caso de Angola, tal investimento (incluindo nao so’ financiamento, mas tambem ‘educacao cultural’ sobre esse patrimonio) seria ainda mais justificado pelo facto de a ex-potencia colonial nao ter sido alheia as razoes da guerra – bastaria, por exemplo, ter promovido e garantido um processo de descolonizacao mais atempado, responsavel e assumido e, consequentemente, menos catastrofico…

2. Nos casos em que tal se verifica, tais projectos de investimento sao, via de regra, feitos em parceria com o pais alvo e sob acordos inter-governamentais: nao teem, portanto, necessariamente a ver com “neocolonizacao”. E, afinal, o que e’ mais passivel de ser considerado “neocolonizacao”? A manutencao de um patrimonio cultural, ou o dominio de praticamente todo o sector bancario (e seus respectivos recursos humanos) e outros sectores importantes da economia de um pais? E, ja’ agora, quantas dessas novas torres de vidro nao se destinarao, porventura, directa ou indirectamente, a bancos ou outros interesses economicos portugueses? Mas, independementemente de quem tem ou nao o ‘dever e obrigacao’, ou de quem tem ‘mais ou menos dinheiro’ (ja’ agora dir-te-ei que alguns projectos desse tipo sao patrocinados e financiados por instituicoes supra-nacionais, como a UE ou a UNESCO - veja-se, por favor, o caso de Mbanza Kongo, sem duvida o mais flagrante exemplo de destruicao de um patrimonio historico-cultural, nao so' de Angola, como da humanidade!), eu falei em Portugal “assumir a lideranca” e isso pode resumir-se apenas a apresentar propostas/projectos concretos ao governo Angolano nesse sentido. Toma, por exemplo, o caso da escola portuguesa que foi instalada, por Portugal, ha’ varios anos em Luanda: qual foi o seu objectivo? Certamente nao outro que a manutencao da lingua e da cultura portuguesa – porque nao pensar-se no mesmo tipo de investimento em relacao ao patrimonio arquitectonico portugues?

3. Agora, passemos aquele que e’ talvez o aspecto mais importante dessa questao: em qualquer economia bem gerida (excepto em paises socialistas/comunistas, que Angola, malgre’ tout, nunca foi… quando muito, Angola foi ate’ ha’ 6 anos atras uma economia de guerra) ha’ uma clara delimitacao do papel do estado na economia, mediante a qual os investimentos publicos devem ser reservados aos bens publicos. E a definicao de bens publicos pode ser mais ou menos lata, mas e’ clara o suficiente: em termos gerais, e’considerado “bem publico” aquele que pode ser usufruido por qualquer membro do publico. Aqui poder-se-ha defender que a traca arquitetonica portuguesa (tal como outros bens do patrimonio historico de Angola) e’ um “bem publico” na medida em que qualquer membro do publico ao apenas poder olhar para ela estara’ a usufruir de um “bem cultural”. Ate’ ai muito bem. Mas poe-se entao a questao de saber, em termos mais estritos, se um determinado bem considerado “cultural” e’ propriedade publica ou privada? Isto e’, esta' nas maos do estado ou de um particular? E aqui as aguas do orcamento do estado teem que ser rigorosamente separadas: se e’ publica, cabe ao estado nele investir, se e’ privada, isso cabe ao particular que a possui. O papel do estado ai deve limitar-se a legislar e regulamentar os criterios da sua planificacao e manutencao;

4. Do ponto anterior segue-se que: em qualquer pais, mas mais fundamentalmente num pais com os niveis de pobreza que Angola apresenta, quais devem ser as prioridades dos gastos publicos? Nao me parece haver muito lugar para duvidas que elas devem ser direccionadas para os “bens indubitavelmente publicos”, isto e’, aqueles sem os quais nao havera membros do publico suficientes para usufruirem de “bens culturais”, sejam eles portugueses ou nao e por melhor mantidos que sejam. Falamos aqui de Saude, Alimentacao, Educacao, Sanidade e Saneamento, Transportes e Emprego, so’ para citar os mais vitais. E e’ para essas areas que as reivindicacoes do “publico em geral” sao geralmente e devem ser direccionadas, nao so’ em Angola e nao so’ em paises subdesenvolvidos, como em todo o mundo. E e’ tambem por essa razao fundamental que os governos interessados na manutencao do seu patrimonio cultural no mundo, com ou sem o apoio de instituicoes financeiras ou culturais internacionais, teem interesse em investir nesse patrimonio – porque esse investimento nao cabe estritamente ao governo do “pais herdeiro”. Ora, tais governos interessados poderao tambem ter consideraveis restricoes aos seus orcamentos publicos disponiveis para esse efeito e nesses casos recorrem as suas instituicoes privadas, sejam elas bancos ou fundacoes culturais especificamente criadas para tal. E aqui o papel dos bancos privados, por isso falei nos bancos portugueses em Angola, na aquisicao desses bens e/ou na concessao de financiamento para a sua manutencao.

Portanto, em resumo, a mensagem que te pretendia transmitir e’ que, como “nativos” que todos somos, nao nos ficaria nada mal um pouco de humildade em relacao as nossas proprias limitacoes de todo o tipo. E, tambem, que precisamos, principalmente voces da geracao mais jovem, de ter uma atitude mais proactiva/positiva, e menos reactiva/negativa, mais racional e menos emotiva, mas sobretudo mais pragmatica e menos dogmatica, em relacao a reconstrucao do nosso pais em todos os dominios – ate’ porque ja’ deviamos andar todos cansados de guerras por causa de ideologias que pouco ou nada teem a ver connosco...
Nao pretendo com isto dar uma de ‘patriota’, e muito menos ‘patrioteira’, ate’ porque tambem tenho as minhas criticas em relacao ao modelo de crescimento, incluindo a essas torres de vidro, que esta’ a ser seguido em Angola – criticas essas que fiz publicar nacional e internacionalmente.

***

P.S. - (28/04/09) - Acabo de encontrar esta noticia no Jornal Angolense:

O património histórico-cultural de Angola e a problemática da sua conservação e restauração foi o tema da comunicação apresentada quinta-feira, pelo Embaixador-delegado permanente de Angola junto da UNESCO, Almerindo Jaka Jamba, num debate organizado pela Fundação Luso-Africana para a Cultura (FLAC).

[Ler mais aqui]

Tuesday, 19 February 2008

FANTAS... PORTO!

Quero dizer... anda aqui pelos meus lados uma onda de descobrir que ele ha' coisas fantasticas no Porto, cidade que, infelizmente, mal conheco...


Ha' tempos foi a Casa da Musica. Agora, ha pouco, por causa do ultimo post que aqui publiquei, fui a procura da website da Casa Fernando Pessoa, em cujo blog encontrei esta noticia, atraves da qual pude aceder a...


estas fantasticas


fotografias da Livraria Lello...


que foi eleita pelo jornal londrino The Guardian "A Terceira Livraria Mais Bela do Mundo"!

Quero dizer... anda aqui pelos meus lados uma onda de descobrir que ele ha' coisas fantasticas no Porto, cidade que, infelizmente, mal conheco...


Ha' tempos foi a Casa da Musica. Agora, ha pouco, por causa do ultimo post que aqui publiquei, fui a procura da website da Casa Fernando Pessoa, em cujo blog encontrei esta noticia, atraves da qual pude aceder a...


estas fantasticas


fotografias da Livraria Lello...


que foi eleita pelo jornal londrino The Guardian "A Terceira Livraria Mais Bela do Mundo"!