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Saturday, 17 September 2011

“Bantuismos na construção poética de Agostinho Neto”





O discurso poético de António Agostinho Neto foi largamente influenciado por uma série de “bantuísmos” como forma propositada de marcar a identidade bantu na poesia, numa sociedade colonial em que tal civilização era rejeitada.

A afirmação pertence ao historiador Simão Souinduila, consultor do Centro Internacional das Civilizações Bantu, quando comentava hoje, na União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, sobre o tema “Bantuismos na construção poética de Agostinho Neto”.

Souindoula, que é igualmente perito do Fundo da Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), considerou “muito influenciada, a poesia de Neto, no idioma materno (Kimbundo), o que levou que pouco depois da independência nacional, tomasse como algumas das suas principais decisões de cunho cultural a adopção do acordo sobre o estudo e valorização das línguas nacionais e a criação da UEA e consecutiva eleição dos corpos gerentes.

Disse que o “bantuismo” de Agostinho Neto reflectido de diversas formas, em língua materna kimbundo, representa um conjunto de vocábulos com sistema de concordância com línguas de países da África Central.

No caso específico de Angola, disse que o poeta Neto inculcava nas obras termos como “Kitanda”, “Kalunga”, “Mussunda”, “Kinaxixi”, “Ingombota” e “Kitandeira”, “cubata”, “Musekes”, entre vários outros.

Apontou como um dos exemplos de “pura influência bantu” a palavra Kitanda que, em Umbundo recebe um prefixo, chamando-se “Otchitanda”.

“Neto não estava preocupado a escrever para os timorenses e cabo-verdianos (não são bantu). A sua intenção era dar ênfase à sua civilização, por meio da poesia”, defendeu o perito da UNESCO, para quem, “se quisesse, Agostinho Neto teria feito poesia em linguagem clássica”.

Referiu ainda a introdução do “K” e “W” na escrita da moeda nacional, o Kwanza, ao contrário de “Cuanza”, como uma decisão histórico-cultural, que terá contribuído para introdução no alfabeto da língua de Camões (português), das consoantes “k”, “y” e “w”.

“Agostinho Neto deixa uma poesia platónica, de leitura legível (não obriga ao leitor recorrer ao dicionário para perceber o lê), uma obra que serviu de balizas e orientação para o nacionalismo angolano”, frisou Simão Souindoula, que reconhece a dimensão cultural e social da sua poesia como sendo provocatória para o regime da época.


[Aqui]


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No Dia do Heroi Nacional





O discurso poético de António Agostinho Neto foi largamente influenciado por uma série de “bantuísmos” como forma propositada de marcar a identidade bantu na poesia, numa sociedade colonial em que tal civilização era rejeitada.

A afirmação pertence ao historiador Simão Souinduila, consultor do Centro Internacional das Civilizações Bantu, quando comentava hoje, na União dos Escritores Angolanos (UEA), em Luanda, sobre o tema “Bantuismos na construção poética de Agostinho Neto”.

Souindoula, que é igualmente perito do Fundo da Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco), considerou “muito influenciada, a poesia de Neto, no idioma materno (Kimbundo), o que levou que pouco depois da independência nacional, tomasse como algumas das suas principais decisões de cunho cultural a adopção do acordo sobre o estudo e valorização das línguas nacionais e a criação da UEA e consecutiva eleição dos corpos gerentes.

Disse que o “bantuismo” de Agostinho Neto reflectido de diversas formas, em língua materna kimbundo, representa um conjunto de vocábulos com sistema de concordância com línguas de países da África Central.

No caso específico de Angola, disse que o poeta Neto inculcava nas obras termos como “Kitanda”, “Kalunga”, “Mussunda”, “Kinaxixi”, “Ingombota” e “Kitandeira”, “cubata”, “Musekes”, entre vários outros.

Apontou como um dos exemplos de “pura influência bantu” a palavra Kitanda que, em Umbundo recebe um prefixo, chamando-se “Otchitanda”.

“Neto não estava preocupado a escrever para os timorenses e cabo-verdianos (não são bantu). A sua intenção era dar ênfase à sua civilização, por meio da poesia”, defendeu o perito da UNESCO, para quem, “se quisesse, Agostinho Neto teria feito poesia em linguagem clássica”.

Referiu ainda a introdução do “K” e “W” na escrita da moeda nacional, o Kwanza, ao contrário de “Cuanza”, como uma decisão histórico-cultural, que terá contribuído para introdução no alfabeto da língua de Camões (português), das consoantes “k”, “y” e “w”.

“Agostinho Neto deixa uma poesia platónica, de leitura legível (não obriga ao leitor recorrer ao dicionário para perceber o lê), uma obra que serviu de balizas e orientação para o nacionalismo angolano”, frisou Simão Souindoula, que reconhece a dimensão cultural e social da sua poesia como sendo provocatória para o regime da época.


[Aqui]


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No Dia do Heroi Nacional

Saturday, 19 February 2011

Just Poetry (xxxvii)







Vultures

In the greyness
and drizzle of one despondent
dawn unstirred by harbingers
of sunbreak a vulture
perching high on broken
bones of a dead tree
nestled close to his
mate his smooth
bashed-in head, a pebble
on a stem rooted in
a dump of gross
feathers, inclined affectionately
to hers. Yesterday they picked
the eyes of a swollen
corpse in a water-logged
trench and ate the
things in its bowel. Full
gorged they chose their roost
keeping the hollowed remnant
in easy range of cold
telescopic eyes...

Strange
indeed how love in other
ways so particular
will pick a corner
in that charnel-house
tidy it and coil up there, perhaps
even fall asleep - her face
turned to the wall!

...Thus the Commandant at Belsen
Camp going home for
the day with fumes of
human roast clinging
rebelliously to his hairy
nostrils will stop
at the wayside sweet-shop
and pick up a chocolate
for his tender offspring
waiting at home for Daddy's
return...

Praise bounteous
providence if you will
that grants even an ogre
a tiny glow-worm
tenderness encapsulated
in icy caverns of a cruel
heart or else despair
for in the very germ
of that kindred love is
lodged the perpetuity
of evil.

[Chinua Achebe]


Agostinho Neto

Agostinho, were you no more
Than the middle one favored by fortune
In children's riddle; Kwame
Striding ahead to accost
Demons; behind you a laggard third
As yet unnamed, of twisted fingers?

No! Your secure strides
Were hard earned. Your feet
Learned their fierce balance
In violent slopes of humiliation;
Your delicate hands, patiently
Groomed for finest incisions,
Were commandeered brusquely to kill,
Your gentle voice to battle-cry.

Perhaps your family and friends
Knew a merry flash cracking the gloom
We see in pictures but I prefer
And will keep that sorrowful legend.
For I have seen how
Half a millennium of alien rape
And murder can stamp a smile
On the vacant face of the fool,
The sinister grin of Africa's idiot-kings
Who oversee in obscene palaces of gold
The butchery of their own people.

Neto, I sing your passing, I,
Timid requisitioner of your vast
Armory's most congenial supply.
What shall I sing? A dirge answering
The gloom? No, I will sing tearful songs
Of joy; I will celebrate
The man who rode a trinity
Of awesome fates to the cause
Of our trampled race!
Thou Healer, Soldier and Poet!

[Chinua Achebe]




Images: 'The Sleep of Reason Produces Monsters' by Yinka Shonibare








Vultures

In the greyness
and drizzle of one despondent
dawn unstirred by harbingers
of sunbreak a vulture
perching high on broken
bones of a dead tree
nestled close to his
mate his smooth
bashed-in head, a pebble
on a stem rooted in
a dump of gross
feathers, inclined affectionately
to hers. Yesterday they picked
the eyes of a swollen
corpse in a water-logged
trench and ate the
things in its bowel. Full
gorged they chose their roost
keeping the hollowed remnant
in easy range of cold
telescopic eyes...

Strange
indeed how love in other
ways so particular
will pick a corner
in that charnel-house
tidy it and coil up there, perhaps
even fall asleep - her face
turned to the wall!

...Thus the Commandant at Belsen
Camp going home for
the day with fumes of
human roast clinging
rebelliously to his hairy
nostrils will stop
at the wayside sweet-shop
and pick up a chocolate
for his tender offspring
waiting at home for Daddy's
return...

Praise bounteous
providence if you will
that grants even an ogre
a tiny glow-worm
tenderness encapsulated
in icy caverns of a cruel
heart or else despair
for in the very germ
of that kindred love is
lodged the perpetuity
of evil.

[Chinua Achebe]


Agostinho Neto

Agostinho, were you no more
Than the middle one favored by fortune
In children's riddle; Kwame
Striding ahead to accost
Demons; behind you a laggard third
As yet unnamed, of twisted fingers?

No! Your secure strides
Were hard earned. Your feet
Learned their fierce balance
In violent slopes of humiliation;
Your delicate hands, patiently
Groomed for finest incisions,
Were commandeered brusquely to kill,
Your gentle voice to battle-cry.

Perhaps your family and friends
Knew a merry flash cracking the gloom
We see in pictures but I prefer
And will keep that sorrowful legend.
For I have seen how
Half a millennium of alien rape
And murder can stamp a smile
On the vacant face of the fool,
The sinister grin of Africa's idiot-kings
Who oversee in obscene palaces of gold
The butchery of their own people.

Neto, I sing your passing, I,
Timid requisitioner of your vast
Armory's most congenial supply.
What shall I sing? A dirge answering
The gloom? No, I will sing tearful songs
Of joy; I will celebrate
The man who rode a trinity
Of awesome fates to the cause
Of our trampled race!
Thou Healer, Soldier and Poet!

[Chinua Achebe]




Images: 'The Sleep of Reason Produces Monsters' by Yinka Shonibare


Friday, 17 September 2010

No 'Dia do Heroi Nacional'


A Renúncia Impossível









Negação


Não creio em mim
Não existo
Não quero eu não quero ser

Quero destruir-me
- Atirar-me de pontes elevadas
e deixar-me despedaçar
sobre as pedras duras das calçadas

Pulverizar o meu ser
desaparecer
não deixar sequer traço de passagem
pelo mundo.

Quero matar-me
e deixar que o não-eu
se aposse de mim.

Mais do que um simples suicídio
quero que esta minha morte
Seja uma verdadeira novidade histórica
um desaparecimento total
até mesmo nos cérebros
daqueles que me odeiam
até mesmo no tempo
e se processe a História
e o mundo continue
como se eu nunca tivesse existido
como se nenhuma obra tivesse produzido
como se nada tivesse influenciado na vida
como se em vez de valor negativo
eu fosse Zero.

Quero ascender, subir
elevar-me até atingir o Zero
e desaparecer.
Deixai-me desaparecer!

Mas antes vou gritar
com toda a força dos meus pulmões
para que o mundo oiça:

- Fui eu quem renunciou à Vida!
Podeis continuar a ocupar o meu lugar
vós os que mo roubastes

Aí tendes o mundo todo para vós
para mim nada quero
nem riqueza nem pobreza
nem alegria nem tristeza
nem vida nem morte
nada.

Não sou. Não existo. Nunca fui.
Renuncio-me
Atingi o Zero

E agora,
Vivei, cantai, chorai
casai-vos, matai-vos, embriagai-vos
dai sêmolas aos pobres.
Nada me pode interessar
que eu não sou
Atingi o Zero!

Não contem comigo
para vos servir às refeições
nem para cavar os diamantes
que vossas mulheres irão ostentar em salões
nem para cuidar das vossas plantações
de café e algodão
não contem com operários
para amamentar os vossos filhos sifilíticos
não contem com operários
de segunda categoria
para fazer o trabalho de que vos orgulhais
nem com soldados inconscientes
para gritar com o estômago vazio
vivas ao nosso trabalho de civilização
nem com lacaios
para vos tirarem os sapatos
de madrugada
quando regressardes de orgias nocturnas
nem com pretos medrosos
para vos oferecer vacas
e vender molho a tostão
nem com corpos de mulheres
para vos alimentar de prazeres
nos ócios da vossa abundância imoral.

Não contem comigo
Renuncio-me.
Eu atingi o Zero
Não existo. Nunca existi.
Não quero vida nem morte
Nada!
Podeis agora queimar
os letreiros medrosos
que às portas dos bars, hotéis e recintos públicos
gritam o vosso egoísmo
nas frases: “SÓ PARA BRANCOS” ou “ONLY TO COLOURED MEN”
Negros aqui. Brancos acolá.








Podeis acabar
com os miseráveis bairros de negros
que vos atrapalham a vaidade
Vivei satisfeitos sem “colour lines”
sem terdes que dizer aos fregueses negros
que os hotéis estão abarrotados
que não há mais mesas nos restaurantes.
Banhai-vos descansados
nas vossas praias e piscinas
que nunca houve negros no mundo
que sujassem as águas
ou os vossos nojentos preconceitos
com a sua escura presença.

Podeis transformar em toureiros
ou em magarefes
os membros da Ku-klux-klan
para que matem a sua fome sanguinária
nas feridas dos touros que descem à arena.
Não há negros para linchar!

Porque hesitais agora!
Ao menos tendes oportunidade
para proclamardes democracias
com sinceridade

Podeis inventar uma nova História.
Inclusivamente podeis atribuir-vos a criação do mundo.
Tudo foi feito por vós
Ah!
que satisfação eu sinto
por ver-vos alegres no vosso orgulho
e loucos na vossa mania de superioridade.

Nunca houve negros!
A África foi construída só por vós
A América foi colonizada só por vós
A Europa não conhece civilizações africanas
Nunca um negro beijou uma branca
nem um negro foi linchado
nunca mataram pretos a golpes de cavalomarinho
para lhes possuírem as mulheres
nunca extorquiram propriedades a pretos
não tendes, nunca tivestes filhos com sangue negro
ó racistas de desbragada lubricidade
Fartai-vos agora dentro da moral.

Que satisfação eu sinto
por não terdes que falsear os padrões morais
para salvaguardar
o prestigio, a superioridade e o estômago
dos vossos filhos.

Ah!
O meu suicídio é uma novidade histórica
é um sádico prazer
de ver-vos bem instalados no vosso mundo
sem necessidade de jogos falsos.

Eu elevado até o Zero
eu transformado no Nada-historico
Eu no inicio dos Tempos
eu-Nada a confundir-me com vós-Tudo
sou o verdadeiro Cristo da Humanidade!

Não há nas ruas de Luanda
Negros descalços e sujos
a pôr nódoas nas vossas falsidades de colonização
em Lourenço Marques
em Nova York, em Leopoldville
em Cape-Town
gritam pelas ruas
a foguetear alegria nos ares:
-Não há negros nas ruas!
Nunca houve.
Não há negros preguiçosos
a deixar os campos por cultivar
e renitentes à escravização
já não há negros para roubar.
Toda a riqueza representa agora o suor do rosto
e o suor do rosto é a poesia da vida.







Não existe música negra
Nunca houve batuques nas florestas do Congo
Quem falou em spirituals?

Vá de encher os salões
de Debussy Strauss Korsakoff.
Já não há selvagens na terra.
Viva a civilização dos homens superiores
sem manchas negróides
a perturbar-lhe a estética!

Nunca houve descobrimentos
a África foi criada com o mundo.

O que é a colonização?
O que são massacres de negros?
O que são os esbulhos de propriedade?
Coisas que ninguém conhece.

A história está errada
Nunca houve escravatura
nunca houve domínio de minorias
orgulhosas da sua força

Acabai com as cruzadas religiosas
A fé está espalhada por todo mundo
sobre a terra só há cristãos
vós sois todos cristãos.

Não há infiéis por converter
Escusai de imaginar mais infidelidades religiosas
para justificar
Repugnantes actos de barbarismo.

Não necessitais enviar mais missionários
a África
nem aos bairros de negros
Nunca houve feitiços
nem concepções religiosas diferentes
nunca houve religiosos a auxiliar a ocupação militar.

Acabai tudo, tudo
e vós sois todos irmãos.
Podeis continuar com os vossos sistemas
socialistas ou capitalista
que isso não me interessa.
Explorai o proletariado
ou dai-lhe de comer
isso é convosco.

Continuai com os vossos sistemas políticos
ditaduras democracias.
Matai-vos uns aos outros
lutai pela glória
lutai pelo poder
criai minorias fortes
que protejam os seus comp…
apadrinhai os afilhados dos vossos amigos
criai mais castas
aburguesai as ideias
e tudo sem a complicação
de verdes intrusos
imiscuir-se na vossa querida
e defendida civilização
dos homens privilegiados.







Homens irmãos
dai-vos as mãos
gritai a vossa alegria de serdes sós
SÓS!
únicos habitantes da Terra.

Eu atingi o Zero!

Isto simplifica extraordinariamente
a vossa ética.
Ao menos não percais agora
a ocasião de serdes honestos.
Se houver terramotos
Calamidades, cheias ou epidemias
ou terras a defender da invasão das águas
ou motores parados nas lamas de selvas africanas
raios partam!
já não tereis de chamar-me
para acudir ás vossas desgraças
para reparar os vossos desastres
ou para carregar com a culpa das vossas incúrias.
Ide para o diabo!

Eu não existo
Palavra de honra que nunca existi.
Atingi o Zero
o Nada.
Abençoada a Hora
do meu super-suicidio
para vós
homens que construís sistemas morais
para enquadrar imoralidades
O sol brilha só para vós
a lua reflecte luz só para vós
nunca houve esclavagistas
nem massacres
Nem ocupações da África.
Como até a história
se transforma num Tratado Moral
sem necessidade de arranjos apressados!

Não existem os pretos dos cais e do caminho de
ferro.
Nos locais de trabalho nunca se ouviram cantos
dolentes
só há chiadeira dos guindastes.
Nunca pisaram os caminhos do mato
carregados com quilos às costas
são os motores que se queimam sob as cargas
Ó pretos submissos humildes ou tímidos
Sem lugar nas cidades
ou nos escaninhos da honestidade
ou nos recantos da força
com a alma poisada no sinal menos,
polígamos declarados
dançarinos de batuques sensuais
sabei que subistes todos de valor
Atingistes o Zero
sois Nada
e salvastes o Homem.







Acabou-se o ódio de raças
e o trabalho de civilização
e a náusea de ver meninos negros
sentados na escola
ao lado dos meninos de olhos azuis
e as extorsões e compulsões
e as palmatoadas e torturas
para obrigar inocentes a confessar crimes
e os medos de revolta
e as complicadas demarches politicas
para iludir as almas simples.

Acabaram-se as complicações sociais!
Atingi o zero
Cheguei à hora do inicio do mundo
E resolvi não existir.

Cheguei ao Zero-Espaço
ao nada-tempo
ao Eu coincidente com vós-Tudo.

E o que é mais importante
Salvei o mundo.












Afirmação


Ah!

Faça-se luz no meu espírito
LUZ!

Calem–se as frases loucas
Desta renúncia impossível.


Eu–todos nunca me enganei
nunca coincidirei com o nada
não me deitarei nunca debaixo dos comboios


Não fui eu quem falou
da salvação do mundo
à custa da minha existência
da transformação do valor negativo em Zero
por meio do castigo ao inocente
em super – suicídio novidade histórica


Quem falou não fui eu
foi a minha loucura.


O meu lugar está marcado
no campo da luta
para conquista da vida perdida


Eu sou. Existo
As minhas mãos colocaram pedras
nos alicerces do mundo
Tenho direito ao meu pedaço de pão


Sou um valor positivo
da humanidade
e não abdico,
nunca abdicarei!


Seguirei com os homens livres
O meu caminho
para a liberdade e para a Vida.
Perdoem–me os cinco minutos de loucura
que vivi.





A Renúncia Impossível









Negação


Não creio em mim
Não existo
Não quero eu não quero ser

Quero destruir-me
- Atirar-me de pontes elevadas
e deixar-me despedaçar
sobre as pedras duras das calçadas

Pulverizar o meu ser
desaparecer
não deixar sequer traço de passagem
pelo mundo.

Quero matar-me
e deixar que o não-eu
se aposse de mim.

Mais do que um simples suicídio
quero que esta minha morte
Seja uma verdadeira novidade histórica
um desaparecimento total
até mesmo nos cérebros
daqueles que me odeiam
até mesmo no tempo
e se processe a História
e o mundo continue
como se eu nunca tivesse existido
como se nenhuma obra tivesse produzido
como se nada tivesse influenciado na vida
como se em vez de valor negativo
eu fosse Zero.

Quero ascender, subir
elevar-me até atingir o Zero
e desaparecer.
Deixai-me desaparecer!

Mas antes vou gritar
com toda a força dos meus pulmões
para que o mundo oiça:

- Fui eu quem renunciou à Vida!
Podeis continuar a ocupar o meu lugar
vós os que mo roubastes

Aí tendes o mundo todo para vós
para mim nada quero
nem riqueza nem pobreza
nem alegria nem tristeza
nem vida nem morte
nada.

Não sou. Não existo. Nunca fui.
Renuncio-me
Atingi o Zero

E agora,
Vivei, cantai, chorai
casai-vos, matai-vos, embriagai-vos
dai sêmolas aos pobres.
Nada me pode interessar
que eu não sou
Atingi o Zero!

Não contem comigo
para vos servir às refeições
nem para cavar os diamantes
que vossas mulheres irão ostentar em salões
nem para cuidar das vossas plantações
de café e algodão
não contem com operários
para amamentar os vossos filhos sifilíticos
não contem com operários
de segunda categoria
para fazer o trabalho de que vos orgulhais
nem com soldados inconscientes
para gritar com o estômago vazio
vivas ao nosso trabalho de civilização
nem com lacaios
para vos tirarem os sapatos
de madrugada
quando regressardes de orgias nocturnas
nem com pretos medrosos
para vos oferecer vacas
e vender molho a tostão
nem com corpos de mulheres
para vos alimentar de prazeres
nos ócios da vossa abundância imoral.

Não contem comigo
Renuncio-me.
Eu atingi o Zero
Não existo. Nunca existi.
Não quero vida nem morte
Nada!
Podeis agora queimar
os letreiros medrosos
que às portas dos bars, hotéis e recintos públicos
gritam o vosso egoísmo
nas frases: “SÓ PARA BRANCOS” ou “ONLY TO COLOURED MEN”
Negros aqui. Brancos acolá.








Podeis acabar
com os miseráveis bairros de negros
que vos atrapalham a vaidade
Vivei satisfeitos sem “colour lines”
sem terdes que dizer aos fregueses negros
que os hotéis estão abarrotados
que não há mais mesas nos restaurantes.
Banhai-vos descansados
nas vossas praias e piscinas
que nunca houve negros no mundo
que sujassem as águas
ou os vossos nojentos preconceitos
com a sua escura presença.

Podeis transformar em toureiros
ou em magarefes
os membros da Ku-klux-klan
para que matem a sua fome sanguinária
nas feridas dos touros que descem à arena.
Não há negros para linchar!

Porque hesitais agora!
Ao menos tendes oportunidade
para proclamardes democracias
com sinceridade

Podeis inventar uma nova História.
Inclusivamente podeis atribuir-vos a criação do mundo.
Tudo foi feito por vós
Ah!
que satisfação eu sinto
por ver-vos alegres no vosso orgulho
e loucos na vossa mania de superioridade.

Nunca houve negros!
A África foi construída só por vós
A América foi colonizada só por vós
A Europa não conhece civilizações africanas
Nunca um negro beijou uma branca
nem um negro foi linchado
nunca mataram pretos a golpes de cavalomarinho
para lhes possuírem as mulheres
nunca extorquiram propriedades a pretos
não tendes, nunca tivestes filhos com sangue negro
ó racistas de desbragada lubricidade
Fartai-vos agora dentro da moral.

Que satisfação eu sinto
por não terdes que falsear os padrões morais
para salvaguardar
o prestigio, a superioridade e o estômago
dos vossos filhos.

Ah!
O meu suicídio é uma novidade histórica
é um sádico prazer
de ver-vos bem instalados no vosso mundo
sem necessidade de jogos falsos.

Eu elevado até o Zero
eu transformado no Nada-historico
Eu no inicio dos Tempos
eu-Nada a confundir-me com vós-Tudo
sou o verdadeiro Cristo da Humanidade!

Não há nas ruas de Luanda
Negros descalços e sujos
a pôr nódoas nas vossas falsidades de colonização
em Lourenço Marques
em Nova York, em Leopoldville
em Cape-Town
gritam pelas ruas
a foguetear alegria nos ares:
-Não há negros nas ruas!
Nunca houve.
Não há negros preguiçosos
a deixar os campos por cultivar
e renitentes à escravização
já não há negros para roubar.
Toda a riqueza representa agora o suor do rosto
e o suor do rosto é a poesia da vida.







Não existe música negra
Nunca houve batuques nas florestas do Congo
Quem falou em spirituals?

Vá de encher os salões
de Debussy Strauss Korsakoff.
Já não há selvagens na terra.
Viva a civilização dos homens superiores
sem manchas negróides
a perturbar-lhe a estética!

Nunca houve descobrimentos
a África foi criada com o mundo.

O que é a colonização?
O que são massacres de negros?
O que são os esbulhos de propriedade?
Coisas que ninguém conhece.

A história está errada
Nunca houve escravatura
nunca houve domínio de minorias
orgulhosas da sua força

Acabai com as cruzadas religiosas
A fé está espalhada por todo mundo
sobre a terra só há cristãos
vós sois todos cristãos.

Não há infiéis por converter
Escusai de imaginar mais infidelidades religiosas
para justificar
Repugnantes actos de barbarismo.

Não necessitais enviar mais missionários
a África
nem aos bairros de negros
Nunca houve feitiços
nem concepções religiosas diferentes
nunca houve religiosos a auxiliar a ocupação militar.

Acabai tudo, tudo
e vós sois todos irmãos.
Podeis continuar com os vossos sistemas
socialistas ou capitalista
que isso não me interessa.
Explorai o proletariado
ou dai-lhe de comer
isso é convosco.

Continuai com os vossos sistemas políticos
ditaduras democracias.
Matai-vos uns aos outros
lutai pela glória
lutai pelo poder
criai minorias fortes
que protejam os seus comp…
apadrinhai os afilhados dos vossos amigos
criai mais castas
aburguesai as ideias
e tudo sem a complicação
de verdes intrusos
imiscuir-se na vossa querida
e defendida civilização
dos homens privilegiados.







Homens irmãos
dai-vos as mãos
gritai a vossa alegria de serdes sós
SÓS!
únicos habitantes da Terra.

Eu atingi o Zero!

Isto simplifica extraordinariamente
a vossa ética.
Ao menos não percais agora
a ocasião de serdes honestos.
Se houver terramotos
Calamidades, cheias ou epidemias
ou terras a defender da invasão das águas
ou motores parados nas lamas de selvas africanas
raios partam!
já não tereis de chamar-me
para acudir ás vossas desgraças
para reparar os vossos desastres
ou para carregar com a culpa das vossas incúrias.
Ide para o diabo!

Eu não existo
Palavra de honra que nunca existi.
Atingi o Zero
o Nada.
Abençoada a Hora
do meu super-suicidio
para vós
homens que construís sistemas morais
para enquadrar imoralidades
O sol brilha só para vós
a lua reflecte luz só para vós
nunca houve esclavagistas
nem massacres
Nem ocupações da África.
Como até a história
se transforma num Tratado Moral
sem necessidade de arranjos apressados!

Não existem os pretos dos cais e do caminho de
ferro.
Nos locais de trabalho nunca se ouviram cantos
dolentes
só há chiadeira dos guindastes.
Nunca pisaram os caminhos do mato
carregados com quilos às costas
são os motores que se queimam sob as cargas
Ó pretos submissos humildes ou tímidos
Sem lugar nas cidades
ou nos escaninhos da honestidade
ou nos recantos da força
com a alma poisada no sinal menos,
polígamos declarados
dançarinos de batuques sensuais
sabei que subistes todos de valor
Atingistes o Zero
sois Nada
e salvastes o Homem.







Acabou-se o ódio de raças
e o trabalho de civilização
e a náusea de ver meninos negros
sentados na escola
ao lado dos meninos de olhos azuis
e as extorsões e compulsões
e as palmatoadas e torturas
para obrigar inocentes a confessar crimes
e os medos de revolta
e as complicadas demarches politicas
para iludir as almas simples.

Acabaram-se as complicações sociais!
Atingi o zero
Cheguei à hora do inicio do mundo
E resolvi não existir.

Cheguei ao Zero-Espaço
ao nada-tempo
ao Eu coincidente com vós-Tudo.

E o que é mais importante
Salvei o mundo.












Afirmação


Ah!

Faça-se luz no meu espírito
LUZ!

Calem–se as frases loucas
Desta renúncia impossível.


Eu–todos nunca me enganei
nunca coincidirei com o nada
não me deitarei nunca debaixo dos comboios


Não fui eu quem falou
da salvação do mundo
à custa da minha existência
da transformação do valor negativo em Zero
por meio do castigo ao inocente
em super – suicídio novidade histórica


Quem falou não fui eu
foi a minha loucura.


O meu lugar está marcado
no campo da luta
para conquista da vida perdida


Eu sou. Existo
As minhas mãos colocaram pedras
nos alicerces do mundo
Tenho direito ao meu pedaço de pão


Sou um valor positivo
da humanidade
e não abdico,
nunca abdicarei!


Seguirei com os homens livres
O meu caminho
para a liberdade e para a Vida.
Perdoem–me os cinco minutos de loucura
que vivi.




Tuesday, 29 September 2009

OLHARES DIVERSOS (XII)


Por ocasião da passagem do dia do Herói Nacional, assistimos à profusão de noticiário evocativo da figura de António de Agostinho Neto, ex-presidente de Angola, o primeiro da era pós-independência. Não fosse a memória reservada e certa de que heróis temos desde a chegada de Diogo Cão ao reino do Congo e estaríamos a induzir defeituosamente as gerações presentes e as vindouras na ideia vil, torpe e falsa de que antes de Neto eram ‹‹tudo maricas››, num deserto de actos de bravura e de heroísmo pelos ideais da resistência.

O que me inquieta afinal? Que os partidários de Agostinho Neto e os membros da sua família lhe promovam até à exaustão os feitos passados, ora com excessiva e divina lucidez ora com descomedida mas genuína intolerância. Que as sobreviventes ‹‹elites›› políticas, partidos incluídos, se remetam ao calar consentido que os torna cúmplices de narrativas que resultam em adulteração da história. Não pode ser por essas omissões que devemos assistir ao instalar da falta de clareza e a instalar-se com a cumplicidade leviana do perdão e da fraude em nome da mediocridade.

Há muito, e não apenas por razões de afecto, acompanho a vida e obra de Agostinho Neto. No seu colo andaria no tempo em que nascia, bem perto da casa que compartilhou com meu pai, seu amigo e companheiro, na velha e famosa 15 de Agosto da distante Malange dos anos quarenta e sete. Ele, então amanuense dos Serviços de Saúde, e meu pai enfermeiro, ambos destacados para servir naquela região. Lá está a lápide evocativa, no conjunto das vivendas coloniais, propriedade dos herdeiros do velho Clara.

Mas nada pode justificar que Neto seja erigido a mito. Neto tem obra e tem feitos suficientes para ser evocado e as circunstâncias da história fizeram dele um figura célebre, fosse quando fundou o seu MIA, fosse quando foi chamado a assumir a presidência do partido que ajudaria a erguer, fosse ainda quando se impôs como primeiro Presidente da nascente Nação Angolana. Coisa diferente é pois que assistamos, impávidos, ao contar da história com omissão dos demais dos seus protagonistas, e já não só hierarquizando-os como ainda lhes desqualificando as intervenções: como se fossem todos imberbes, todos abúlicos seguidores do iluminado que só tinha discípulos e que, por isso, lhes ditava as profecias. Não é admissível a ninguém com um mínimo de lucidez ignorar que a grandeza do partido que Agostinho Neto ajudaria a erguer, não a fundar, só o é na medida em que tenha sido feito e servido por homens e mulheres portadores de um manancial de competências fora do comum, a que não se pode deixar de juntar uma abnegação heróica em nome de causas superiores, que tão bem se propuseram e souberam servir até ao fim dos seus dias. É exactamente esse manancial de competências que terá dado lugar a lutas internas, dissensões e fracções, baseadas em ocorrências reais graves, a última das quais os viria a dividir para desgraça nossa, irremediavelmente. Não é como a kota Maria Eugénia diz, serem todos desonestos, protegendo o seu Camarada Presidente, que nunca quis afastar ninguém, assacando aos outros o ónus de um pretenso distanciamento voluntário, quando o processo começou a enfrentar maiores adversidades. Não é bom ouvir de uma militante abnegada e respeitável, a quem todos tanto devemos, o uso dos adjectivos desqualificativos com que mimoseia os companheiros do seu camarada Presidente Neto, no limite tendo-os como oportunistas, que mais não almejavam que abocanhar o pedaço do Leão (e quem era o leão Kota Maria Eugénia?). Os intelectuais, os políticos e os intervenientes da vida cívica têm de estar sempre à altura e ao serviço das circunstâncias, das urgências e das necessidades. O desejo de conservar o domínio da liderança fez Agostinho Neto negar aos demais a oportunidade da discussão interna dos problemas de que o movimento gravemente padecia, assim confirmando o autoritarismo de que era acusado, sempre frio, inclemente e rude nos propósitos e com total indiferença pelos outros.

Era mesmo esse leão (a expressão é sua, pois Gentil Viana preferiu cognominá-lo Taurus) agora já inebriado pelo poder que optaria por não mudar o rumo, porque não disposto a partilha-lo. E se a história é uma comparação permanente de factos, Neto viria a sofrer-lhes os efeitos num novo levantamento de militantes outra vez descontentes, no qual seria, por uns dado como vítima e por outros por carrasco, no tristemente célebre 27 de Maio de 1977. A sua história continua por contar.

Não se desvalorizam as convicções de Neto face às dos demais dos seus camaradas, mas não se pode, em perfeito juízo, ter por quimeras os factos que estão na origem do aparecimento da Revolta Activa e da Revolta do Leste. É excessivo, inadmissível e inqualificável tomá-los por oportunistas e criminosos como fez a Kota Maria Eugénia, na sua última e desastrada intervenção pública. Não pode e não deve vexar sem a menor dose de afecto os homens e as mulheres, personalidades empenhadas que mais não pretenderam que, por direito e em igualdade de circunstâncias, gritar pela res-ponsabilidade e pela cidadania e dessa forma bolear as arestas dos ódios que ciclicamente renasciam no seio do movimento. Sob pena de se prestar a, cada vez que lhe derem voz, apresentar a história como um conto de fadas e o seu Camarada Presidente como uma personalidade fictícia. Um reflexo povoado dos seus desejos. O seu véu de Maya!

Chipenda um servidor da PIDE? A FNLA um movimento de bárbaros que matava bailundos?! Ó Kota Maria Eugénia como é então você?!...


[Continue lendo Aqui]


[DECLARACOES DE EUGENIA NETO AQUI]

Por ocasião da passagem do dia do Herói Nacional, assistimos à profusão de noticiário evocativo da figura de António de Agostinho Neto, ex-presidente de Angola, o primeiro da era pós-independência. Não fosse a memória reservada e certa de que heróis temos desde a chegada de Diogo Cão ao reino do Congo e estaríamos a induzir defeituosamente as gerações presentes e as vindouras na ideia vil, torpe e falsa de que antes de Neto eram ‹‹tudo maricas››, num deserto de actos de bravura e de heroísmo pelos ideais da resistência.

O que me inquieta afinal? Que os partidários de Agostinho Neto e os membros da sua família lhe promovam até à exaustão os feitos passados, ora com excessiva e divina lucidez ora com descomedida mas genuína intolerância. Que as sobreviventes ‹‹elites›› políticas, partidos incluídos, se remetam ao calar consentido que os torna cúmplices de narrativas que resultam em adulteração da história. Não pode ser por essas omissões que devemos assistir ao instalar da falta de clareza e a instalar-se com a cumplicidade leviana do perdão e da fraude em nome da mediocridade.

Há muito, e não apenas por razões de afecto, acompanho a vida e obra de Agostinho Neto. No seu colo andaria no tempo em que nascia, bem perto da casa que compartilhou com meu pai, seu amigo e companheiro, na velha e famosa 15 de Agosto da distante Malange dos anos quarenta e sete. Ele, então amanuense dos Serviços de Saúde, e meu pai enfermeiro, ambos destacados para servir naquela região. Lá está a lápide evocativa, no conjunto das vivendas coloniais, propriedade dos herdeiros do velho Clara.

Mas nada pode justificar que Neto seja erigido a mito. Neto tem obra e tem feitos suficientes para ser evocado e as circunstâncias da história fizeram dele um figura célebre, fosse quando fundou o seu MIA, fosse quando foi chamado a assumir a presidência do partido que ajudaria a erguer, fosse ainda quando se impôs como primeiro Presidente da nascente Nação Angolana. Coisa diferente é pois que assistamos, impávidos, ao contar da história com omissão dos demais dos seus protagonistas, e já não só hierarquizando-os como ainda lhes desqualificando as intervenções: como se fossem todos imberbes, todos abúlicos seguidores do iluminado que só tinha discípulos e que, por isso, lhes ditava as profecias. Não é admissível a ninguém com um mínimo de lucidez ignorar que a grandeza do partido que Agostinho Neto ajudaria a erguer, não a fundar, só o é na medida em que tenha sido feito e servido por homens e mulheres portadores de um manancial de competências fora do comum, a que não se pode deixar de juntar uma abnegação heróica em nome de causas superiores, que tão bem se propuseram e souberam servir até ao fim dos seus dias. É exactamente esse manancial de competências que terá dado lugar a lutas internas, dissensões e fracções, baseadas em ocorrências reais graves, a última das quais os viria a dividir para desgraça nossa, irremediavelmente. Não é como a kota Maria Eugénia diz, serem todos desonestos, protegendo o seu Camarada Presidente, que nunca quis afastar ninguém, assacando aos outros o ónus de um pretenso distanciamento voluntário, quando o processo começou a enfrentar maiores adversidades. Não é bom ouvir de uma militante abnegada e respeitável, a quem todos tanto devemos, o uso dos adjectivos desqualificativos com que mimoseia os companheiros do seu camarada Presidente Neto, no limite tendo-os como oportunistas, que mais não almejavam que abocanhar o pedaço do Leão (e quem era o leão Kota Maria Eugénia?). Os intelectuais, os políticos e os intervenientes da vida cívica têm de estar sempre à altura e ao serviço das circunstâncias, das urgências e das necessidades. O desejo de conservar o domínio da liderança fez Agostinho Neto negar aos demais a oportunidade da discussão interna dos problemas de que o movimento gravemente padecia, assim confirmando o autoritarismo de que era acusado, sempre frio, inclemente e rude nos propósitos e com total indiferença pelos outros.

Era mesmo esse leão (a expressão é sua, pois Gentil Viana preferiu cognominá-lo Taurus) agora já inebriado pelo poder que optaria por não mudar o rumo, porque não disposto a partilha-lo. E se a história é uma comparação permanente de factos, Neto viria a sofrer-lhes os efeitos num novo levantamento de militantes outra vez descontentes, no qual seria, por uns dado como vítima e por outros por carrasco, no tristemente célebre 27 de Maio de 1977. A sua história continua por contar.

Não se desvalorizam as convicções de Neto face às dos demais dos seus camaradas, mas não se pode, em perfeito juízo, ter por quimeras os factos que estão na origem do aparecimento da Revolta Activa e da Revolta do Leste. É excessivo, inadmissível e inqualificável tomá-los por oportunistas e criminosos como fez a Kota Maria Eugénia, na sua última e desastrada intervenção pública. Não pode e não deve vexar sem a menor dose de afecto os homens e as mulheres, personalidades empenhadas que mais não pretenderam que, por direito e em igualdade de circunstâncias, gritar pela res-ponsabilidade e pela cidadania e dessa forma bolear as arestas dos ódios que ciclicamente renasciam no seio do movimento. Sob pena de se prestar a, cada vez que lhe derem voz, apresentar a história como um conto de fadas e o seu Camarada Presidente como uma personalidade fictícia. Um reflexo povoado dos seus desejos. O seu véu de Maya!

Chipenda um servidor da PIDE? A FNLA um movimento de bárbaros que matava bailundos?! Ó Kota Maria Eugénia como é então você?!...


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[DECLARACOES DE EUGENIA NETO AQUI]

Tuesday, 14 April 2009

FUNDACAO AGOSTINHO NETO

Acabo de receber este anuncio por um mailing de Irene Neto, filha de Agostinho Neto.
Acabo de receber este anuncio por um mailing de Irene Neto, filha de Agostinho Neto.

Tuesday, 8 April 2008

“ELOGIO DA MEDIOCRIDADE”



POEMAS DE ANTÓNIO JACINTO
(in “Sobreviver Em Tarrafal de Santiago”)

SENSAÇÕES

Inebriam-me as superfícies
Mas gosto mais dos
(Oh! volúpias sênsuas!)
Volumes dos sólidos de revolução.

Êxtase
a resolução gráfica de qualquer equação

O poema é uma resolução gráfica
Uma frémita resolução gráfica

O poeta circuncentro
da presença geométrica polidimensional
- HUMANIDADE!

C.T. Chão Bom, 13.2.68


AH! SE PUDÉSSEIS AQUI VER POESIA QUE NÃO HÁ!

Um rectângulo oco na parede caiada Mãe

Três barras de ferro horizontais Mãe
Na vertical oito varões Mãe
Ao todo
vinte e quatro quadrados Mãe
No aro exterior
Dois caixilhos Mãe
somam
doze rectângulos de vidro Mãe
As barras e os varões Mãe
projectam sombras nos vidros
feitos espelhos Mãe

Lá fora é noite Mãe
O campo
a povoação
a ilha
o arquipélago
O mundo que não se vê Mãe
Dum lado e doutro, a Morte, Mãe
A morte como a sombra que passa pela vidraça Mãe

A morte sem boca sem rosto sem gritos Mãe
E lá fora é o lá fora que se não vê Mãe

Cale-se o que não se vê Mãe
e veja-se o que se sente Mãe
que o poema está no que
e como se vê, Mãe
Ah! se pudésseis aqui ver poesia que não há!

Mãe
aqui não há poesia
É triste, Mãe
Já não haver poesia
Mãe, não há poesia, não há
Mãe

Num cavalo de nuvens brancas
o luar incendeia carícias
e vem, por sobre meu rosto magro
deixar teus beijos Mãe, teus beijos Mãe

Ah! se pudésseis aqui ver poesia que não há!

C.T. Chão Bom, 13.2.68


LOUCURA

“nem todos atingem a craveira de poderem ser doidos, risco inerente à verdade e ao ser”

“não é doido quem quer”
JACQUES LACAN

A loucura é uma confirmação
sangue
na coragem de ser louco
na natureza
e veios de oiro
e máscara

A loucura
é afirmação humana
crónica indiferença
da coragem-alienação
orelha de Vicente Van Gogh

Um passo em frente
iluminado o vegetal
(há clorofila no louco)
e tortura estimulante

sangue rítmico
em ondas insanas
amor-sexo-amor
mar-sal
e nada
ou noite
mitos e símbolos
loucos
e tu poesia
Tua beleza
vinho-rubi
lábios-sangue
sol lá fora
Poesia!

C.T. Chão Bom, 25.7.69


CENSURA

Deram-me o gabarit
Para edificar o poema
A área coberta e
Dos passeios a largura

Os cuidados de incêndio
Um pouco de sanidade urbana
Do compêndio
E abertos postigos às vigilâncias dos vizinhos

Tudo com reguladas vistorias
Ritos de aços e cadinhos
Irresponsabilidades frias

Mania impossível da comissão incrível
- Eia fantasmas de murquir estrelas
Poema não tem cota de nível!

C.T. Chão Bom, versão de 30.7.79

***

Caro Jacinto: Um abraço. São belíssimos os poemas. 6 vão já para Vida e Cultura. O conto e os dez serão para a Gazeta Lavra & Oficina, que sairá muito mais tarde, lá para o fim deste ano. Tens de publicar os teus inéditos: não é justo não os podermos conhecer e, até, como exemplo, na hora que passa, de qualidade e dignidade. Não são palavras só de amigo, ou de Secretário Geral (da União dos Escritores Angolanos - UEA), são de leitor de poesia…

ANTÓNIO CARDOSO
18.08.82
(Introdução a “Sobreviver Em Tarrafal de Santiago”)







Adeus a Hora da Largada (2006)- Ruy Mingas (Poema de Agostinho Neto)





Monangambe' (1974)- Ruy Mingas (Poema de Antonio Jacinto)



POEMAS DE ANTÓNIO JACINTO
(in “Sobreviver Em Tarrafal de Santiago”)

SENSAÇÕES

Inebriam-me as superfícies
Mas gosto mais dos
(Oh! volúpias sênsuas!)
Volumes dos sólidos de revolução.

Êxtase
a resolução gráfica de qualquer equação

O poema é uma resolução gráfica
Uma frémita resolução gráfica

O poeta circuncentro
da presença geométrica polidimensional
- HUMANIDADE!

C.T. Chão Bom, 13.2.68


AH! SE PUDÉSSEIS AQUI VER POESIA QUE NÃO HÁ!

Um rectângulo oco na parede caiada Mãe

Três barras de ferro horizontais Mãe
Na vertical oito varões Mãe
Ao todo
vinte e quatro quadrados Mãe
No aro exterior
Dois caixilhos Mãe
somam
doze rectângulos de vidro Mãe
As barras e os varões Mãe
projectam sombras nos vidros
feitos espelhos Mãe

Lá fora é noite Mãe
O campo
a povoação
a ilha
o arquipélago
O mundo que não se vê Mãe
Dum lado e doutro, a Morte, Mãe
A morte como a sombra que passa pela vidraça Mãe

A morte sem boca sem rosto sem gritos Mãe
E lá fora é o lá fora que se não vê Mãe

Cale-se o que não se vê Mãe
e veja-se o que se sente Mãe
que o poema está no que
e como se vê, Mãe
Ah! se pudésseis aqui ver poesia que não há!

Mãe
aqui não há poesia
É triste, Mãe
Já não haver poesia
Mãe, não há poesia, não há
Mãe

Num cavalo de nuvens brancas
o luar incendeia carícias
e vem, por sobre meu rosto magro
deixar teus beijos Mãe, teus beijos Mãe

Ah! se pudésseis aqui ver poesia que não há!

C.T. Chão Bom, 13.2.68


LOUCURA

“nem todos atingem a craveira de poderem ser doidos, risco inerente à verdade e ao ser”

“não é doido quem quer”
JACQUES LACAN

A loucura é uma confirmação
sangue
na coragem de ser louco
na natureza
e veios de oiro
e máscara

A loucura
é afirmação humana
crónica indiferença
da coragem-alienação
orelha de Vicente Van Gogh

Um passo em frente
iluminado o vegetal
(há clorofila no louco)
e tortura estimulante

sangue rítmico
em ondas insanas
amor-sexo-amor
mar-sal
e nada
ou noite
mitos e símbolos
loucos
e tu poesia
Tua beleza
vinho-rubi
lábios-sangue
sol lá fora
Poesia!

C.T. Chão Bom, 25.7.69


CENSURA

Deram-me o gabarit
Para edificar o poema
A área coberta e
Dos passeios a largura

Os cuidados de incêndio
Um pouco de sanidade urbana
Do compêndio
E abertos postigos às vigilâncias dos vizinhos

Tudo com reguladas vistorias
Ritos de aços e cadinhos
Irresponsabilidades frias

Mania impossível da comissão incrível
- Eia fantasmas de murquir estrelas
Poema não tem cota de nível!

C.T. Chão Bom, versão de 30.7.79

***

Caro Jacinto: Um abraço. São belíssimos os poemas. 6 vão já para Vida e Cultura. O conto e os dez serão para a Gazeta Lavra & Oficina, que sairá muito mais tarde, lá para o fim deste ano. Tens de publicar os teus inéditos: não é justo não os podermos conhecer e, até, como exemplo, na hora que passa, de qualidade e dignidade. Não são palavras só de amigo, ou de Secretário Geral (da União dos Escritores Angolanos - UEA), são de leitor de poesia…

ANTÓNIO CARDOSO
18.08.82
(Introdução a “Sobreviver Em Tarrafal de Santiago”)







Adeus a Hora da Largada (2006)- Ruy Mingas (Poema de Agostinho Neto)





Monangambe' (1974)- Ruy Mingas (Poema de Antonio Jacinto)

Friday, 21 March 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (2)

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”


Manuel Alegre






in Jornal de Angola, 20/03/08
[Clique na imagem para a ampliar]


OUTRAS REACCOES:


'O Comerciante Desalmado'
Agostinho Neto guiou o seu povo pelo caminho das estrelas. Que outro poeta na História Universal libertou a sua pátria com poemas e fuzis? A grandeza da obra literária de Agostinho Neto foi reconhecida em todo o mundo por académicos, professores, críticos literários e confrades.
Artur Queiroz, in Jornal de Angola, 18/03/08 (aqui)


'O Marketing Tem Dessas'
Escrevi e repito, que Agostinho Neto foi um extraordinário Poeta. Volto a dizê-lo. O Poeta da Libertação, o fundador com alguns de nós, da UEA, que dele não diz. Sou portanto, inapelavelmente, um total e irrecuperável ignorante de poesia...
Ndunduma, in Jornal de Angola, 21/03/08 (aqui)


'Em Defesa do José Eduardo Agualusa'
Um tal jornalista de nome Artur Queiroz atacou o Agualusa no Jornal de Angola de uma forma tão grosseira que reduz o que deveria ser um debate serio sobre a nossa herança cultural Angolana á uma briga entre bêbados num botequim. Eu admiro bastante o José Eduardo Agualusa que, sem duvida, deve ser o escritor mais serio da nossa geração; a sua capacidade de trabalho e determinação em sobreviver como escritor é impressionante. Lamento é o facto de ele não ter ido recentemente a nossa cidade natal do Huambo aonde tem havido muitas mudanças.
Sousa Jamba, in Semanario Angolense, 22/03/08 (aqui)


'Resposta de Artur Queiroz a Sousa Jamba'
Sousa Jamba quer que eu discuta a herança cultural dos angolanos com quem não tem nada a ver com a cultura ou as culturas de Angola. E Agualusa não tem.
Falta-lhe lastro e memória. Vivência. Estudo. Sentimento. Afinal falta-lhe tudo. É muito grave não é? Os colonialistas usaram sempre a arma da memória para imporem os seus valores e apagarem os nossos. Agualusa aprendeu a lição. Para ele, a Literatura Angolana começou no dia em que foi publicado o seu primeiro livro. Quando muito, o primeiro livro de Sousa Jamba. É uma táctica que os nazis adoptaram e dela abusaram. A Alemanha começou no dia em Hitler subiu ao Poder. O salazarismo fez o mesmo. Angola sem os portugueses nunca existiu.
Artur Queiroz, ao Semanario Angolense, 22/03/08 (aqui)
“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”


Manuel Alegre






in Jornal de Angola, 20/03/08
[Clique na imagem para a ampliar]


OUTRAS REACCOES:


'O Comerciante Desalmado'
Agostinho Neto guiou o seu povo pelo caminho das estrelas. Que outro poeta na História Universal libertou a sua pátria com poemas e fuzis? A grandeza da obra literária de Agostinho Neto foi reconhecida em todo o mundo por académicos, professores, críticos literários e confrades.
Artur Queiroz, in Jornal de Angola, 18/03/08 (aqui)


'O Marketing Tem Dessas'
Escrevi e repito, que Agostinho Neto foi um extraordinário Poeta. Volto a dizê-lo. O Poeta da Libertação, o fundador com alguns de nós, da UEA, que dele não diz. Sou portanto, inapelavelmente, um total e irrecuperável ignorante de poesia...
Ndunduma, in Jornal de Angola, 21/03/08 (aqui)


'Em Defesa do José Eduardo Agualusa'
Um tal jornalista de nome Artur Queiroz atacou o Agualusa no Jornal de Angola de uma forma tão grosseira que reduz o que deveria ser um debate serio sobre a nossa herança cultural Angolana á uma briga entre bêbados num botequim. Eu admiro bastante o José Eduardo Agualusa que, sem duvida, deve ser o escritor mais serio da nossa geração; a sua capacidade de trabalho e determinação em sobreviver como escritor é impressionante. Lamento é o facto de ele não ter ido recentemente a nossa cidade natal do Huambo aonde tem havido muitas mudanças.
Sousa Jamba, in Semanario Angolense, 22/03/08 (aqui)


'Resposta de Artur Queiroz a Sousa Jamba'
Sousa Jamba quer que eu discuta a herança cultural dos angolanos com quem não tem nada a ver com a cultura ou as culturas de Angola. E Agualusa não tem.
Falta-lhe lastro e memória. Vivência. Estudo. Sentimento. Afinal falta-lhe tudo. É muito grave não é? Os colonialistas usaram sempre a arma da memória para imporem os seus valores e apagarem os nossos. Agualusa aprendeu a lição. Para ele, a Literatura Angolana começou no dia em que foi publicado o seu primeiro livro. Quando muito, o primeiro livro de Sousa Jamba. É uma táctica que os nazis adoptaram e dela abusaram. A Alemanha começou no dia em Hitler subiu ao Poder. O salazarismo fez o mesmo. Angola sem os portugueses nunca existiu.
Artur Queiroz, ao Semanario Angolense, 22/03/08 (aqui)

Friday, 15 February 2008

MARIA, DALILA & A PURGA

Apenas nos ultimos dias tive oportunidade de ler a polemica entrevista que Maria Eugenia Neto, viuva de Agostinho Neto, concedeu recentemente ao semanario Expresso. Algumas das suas afirmacoes naquela entrevista levaram a investigadora Dalila Cabrita Mateus, autora do livro “A Purga” sobre o 27 de Maio de 1977 em Angola, a mover-lhe uma accao judicial: “Apresentei uma queixa-crime ontem à noite (quinta-feira à noite) no DIAP (Departamento de Investigação e Acção Penal) porque me senti difamada”, disse à Agência Lusa Dalila Cabrita Mateus. “Senti-me ofendida porque (Maria Eugénia Silva Neto) chamou-me mentirosa e desonesta. É o meu nome e o meu trabalho que está em causa”, sublinhou.”
(Mais detalhes aqui)

Entretanto, sem comentarios adicionais (a nao ser para notar o lamentavel erro do Expresso, que legenda uma fotografia de Nito Alves com estes dizeres: “Nito Alves, o lider da ‘Revolta Activa’…”), aqui ficam algumas passagens da entrevista em causa:

Ainda e’ portuguesa?
Sou, nao quis mudar de nacionalidade.

Tem dupla nacionalidade?
Sim, ofereceram-me a nacionalidade (angolana).

Tem passaporte portugues?
Tenho.

No bilhete de identidade de Angola vem mencionada a raca. Concorda?
Ha’ pessoas que ficam muito ofendidas, mas nao sei se isso e’ uma ofensa.

Quando entra em Portugal qual e’ que usa?
Uso sempre o angolano, e’ mais facil. O meu passaporte e’ diplomatico.

A senhora e’ militante do MPLA?
Sou mais que militante.

Mas nunca se inscreveu!
Sou uma militante acerrima, mas sem estar inscrita.

Havia casais mistos em Lisboa?
Eram rarissimos.

E em Luanda?
Tambem havia poucos.

Pensava fazer algum curso?
Nao houve hipotese, quis sempre estar ao pe’ dele. Sentia-me insegura, nunca tinha saido debaixo da saia da minha mae.


Como foi a chegada a Luanda?
Uma apoteose. Muito bonito. Um mar de gente no aeroporto.

Ultrapassou as vossas expectativas?
Sim. Pelo menos as dele.

Isso foi muito obra do MPLA do interior.
Sim, ele nunca deixou a 1a. Regiao nas maos de ninguem. Ele tinha um grande orgulho nos “meninos” da sua 1a. Regiao. E’ por essa razao que isso do Nito Alves e’ um grande drama historico.

O MPLA sofreu algumas convulsoes: Chipenda, a Revolta Activa…
Embora essa palavra ja’ nao se use, isso tudo e’ obra do imperialismo, porque nao interessava que Agostinho Neto chegasse la’ forte, e que ficasse a frente, so’, daquele pais. Estupidos! Ele era o homem da paz, da concordia e da amizade entre os povos, nao sei porque tinham medo.

Os Pinto de Andrade eram instrumentalizados pelo imperialismo?
Acho que sim. Quando fizeram a Revolta Activa, tiveram contactos com petroliferas e tudo! Nao sou eu que o digo, sao alguns deles que o dizem – inclusive o Belli-Bello.

Conheceu o Nito Alves, claro…
Nao o conheci profundamente. Nunca tive contactos pessoais.

Mas o Presidente tinha.
Sim, ele era do Bureau Politico.

Tinha sido da confianca pessoal de Neto.
Foi so’ no Congresso (de Lusaka, em 1974) que o conheceu.

E representou o MPLA no Congresso do Partido Comunista da Uniao Sovietica, em 1976.
Foi a asneira que ele fez.

Asneira porque?
Porque mostrou o que era: um canalha! O Presidente confiou nele, deu-lhe prestigio por ter sido resistente da 1a Regiao. Chegou la’ e disse aos Sovieticos: agora sou eu!

Isso deu forca ao Nito Alves?
Claro. Os sovieticos, em lugar de porem o retrato do Presidente Neto no congresso. puseram o do Nito Alves. Compraram-no logo.

Conhecia o Jose’ Vandunem?
Nao conheci.

E a ex-militante do PCP Sita Valles?
Nao, o senhor conheceu-os a todos, nao?

Nao, mas tenho procurado ler alguma coisa sobre o assunto.
O problema e’ que a maior parte das coisas que se le sao mentiras. Mesmo o primeiro livro do Iko Carreira. Ele diz que encontraram 200 culpados e que foram ao Presidente Neto, que homologou as listas – mas que estas desapareceram. Perguntei ao Iko onde estava o documento do Presidente a dizer que ninguem liquida ninguem sem a minha assinatura – e ele baixou a cabeca. Passou esse documento quando comecou a saber dos disparates que andavam a fazer.

Mas o seu marido tinha ido a televisao dizer que nao haveria perdao…
Nao! Essa e’ a frase em que os malandros pegam. Ele disse: eles mataram. Eles, eram os cabecilhas! Quem matou nao tinha sido a juventude.

Isso nao e’ nada claro no discurso televisivo.
Nao e’ claro para quem nao quiser. Eles mataram. Os miudos nao tinham morto. Eles, eram os cabecilhas, que nao teem perdao. Muitas maozinhas estiveram interessadas em fazer confusao.

O seu marido referia-se apenas aos cabecilhas?
Claro. Claro.

Mas isso nao foi entendido assim.
Porque nao quiseram entender. Quando foi da morte do Nito Alves, quiseram que ele assinasse – nao sei se assinou. Estava tao revoltado que me disse: “Aos miudos, que eram quase todos recuperaveis, mataram sem a minha assinatura; este que e’ culpado, querem que assine.” O Armenio Ferreira disse-me que ele nao assinou, foram 15 generais que assinaram.

Sabe que a Sita Valles estava gravida quando foi presa?
Nao quero entrar nesses pormenores. Nao estava dentro disso, nem fui eu que mandei fazer atrocidades… Mas olhe que nunca ninguem perguntou: e se eles tivessem ganho? O que nao teriam feito? Se, logo de inicio, mataram seis (os melhores e mais fieis ao Presidente Neto e os queimaram no Roque Santeiro), imagine o que nao iriam fazer. Nos tinhamos sido todos limpos!

Uma coisa e’ o Nito Alves, outra coisa sao os 30 mil mortos!
Isso e’ mentira. Essa senhora e’ desonesta, e’ mentirosa (referencia a Dalila Mateus, co-autora do livro “Purga em Angola”).

Entao quantas pessoas morreram?
No sei, nao estava dentro de nada. Mas isso e’ mentira.

Ja’ passaram 30 anos e ainda nao se sabe quantos foram os mortos!
Estou-lhe a dizer que nao sei. Nao estava dentro desses assuntos. Nem o meu marido devia estar, porque isso era uma coisa militar.

Conheceu Jonas Savimbi?
Nao muito bem.

Acha que foi mau para Angola?
Acha que foi bom?

Nao sei, estou a perguntar-lhe…
Acho que foi um criminoso terrivel. O meu marido, num discurso em Cabinda (em 1978, salvo erro), decretou o perdao para toda a gente: fraccionistas, Revolta Activa, todos. Inaugurou entao uma era de paz. Mas aqui em Portugal, durante estes anos todos, estao sempre a repisar no mesmo assunto. Nao falam nos crimes que se cometeram na Guine’, em que se cortou o Ansumane Mane’ aos bocados… Angola esta’ sempre na berlinda. E com um odio, de nao estar la’, ou de nao usufruir das riquezas. E’ uma coisa impressionante. E agora surge o livro dessa senhora… Ja’ no outro (“A Luta Pela Independencia”), tive uma discussao, porque nao deu a realidade dos pais fundadores… Li o outro, deste nem quero saber!

Ha’ democracia em Angola?
Olhe, o que eu acho e’ que quando havia partido unico as pessoas falavam muito mais do que hoje. De tal maneira eles tinham liberdade que ate’ montaram um golpe de Estado – e nas calmas…

Porque que o seu marido morreu na URSS?
Ele nao queria ir. Mas nao quero falar nisso.

Nao tinha confianca?
Nao devia ter.

Poderia ser bem tratado em Luanda?
Nao. Estava para la’ ir uma medica inglesa, mas nao chegou a tempo.

Quais eram as alternativas?
Ha’ tantas alternativas no mundo! E Angola tinha dinheiro, pagava!

Quem decidiu que iria para a URSS?
Foi o medico dele – e concerteza o partido tambem esteve de acordo. Mas nao sei, sao coisas em que nao meti o nariz.

O medico dele era…
… na altura era o dr. Eduardo dos Santos.

A senhora acompanhou-o ate’ Moscovo?
Mas nao adiantou nada – nao fui para a sala de operacoes e mesmo que fosse nao percebia nada.

Tem alguma reserva ou desconfianca?
Nao posso dizer nada, mas o que sei e’ que, nesta epoca, uma pessoa nao acordar de uma operacao e’ um bocado esquisito…

Foi operado concretamente a que?
Eles dizem que foi ao pancreas. Se foi ou nao…

Diz-se que tinha uma cirrose ja’ adiantada.
Sei la’ se e’ verdade!



Diz-se tambem que bebia muito.
Isso e’mentira! Isso e’ o que dizem. Como nao tinham mais nada em que pegar…

Mas olhe que e’ comum dizerem isso. Mesmo dento do MPLA…
Eu sei que e’. Mas e’ mentira. Eles sao terriveis. Nunca vi o meu marido bebado. Nem eu, nem os meus filhos. E como e’ que uma pessoa bebada podia ter tanto trabalho, preocupacoes e tomar aquelas decisoes tremendas? Os politicos sao assim. Quando ele bebia uisque, bebia um bocadinho e o copo cheio de agua.

Foi o seu unico amor?
Foi. Era um homem com um caracter tao nobre, tao humano, com um sentido de justica tal, que me penetrou profundamente. Tudo aquilo que ha’ de melhor em mim e’ tocado pela profundidade daquela poesia. Um homem daqueles, que escreve a Sagrada Esperanca, nao pode ser um criminoso. E eu nao estaria aqui a apoiar um criminoso. Se aconteceu essa desgraca, isso nao foi ele. Ha’ uma frase que ele disse no Palacio: “Aqui onde me puseram, onde nem ouco a chuva.” Isso, em termos africanos, quer dizer muito.
Ele queria sair, mas estava amarrado.
Apenas nos ultimos dias tive oportunidade de ler a polemica entrevista que Maria Eugenia Neto, viuva de Agostinho Neto, concedeu recentemente ao semanario Expresso. Algumas das suas afirmacoes naquela entrevista levaram a investigadora Dalila Cabrita Mateus, autora do livro “A Purga” sobre o 27 de Maio de 1977 em Angola, a mover-lhe uma accao judicial: “Apresentei uma queixa-crime ontem à noite (quinta-feira à noite) no DIAP (Departamento de Investigação e Acção Penal) porque me senti difamada”, disse à Agência Lusa Dalila Cabrita Mateus. “Senti-me ofendida porque (Maria Eugénia Silva Neto) chamou-me mentirosa e desonesta. É o meu nome e o meu trabalho que está em causa”, sublinhou.”
(Mais detalhes aqui)

Entretanto, sem comentarios adicionais (a nao ser para notar o lamentavel erro do Expresso, que legenda uma fotografia de Nito Alves com estes dizeres: “Nito Alves, o lider da ‘Revolta Activa’…”), aqui ficam algumas passagens da entrevista em causa:

Ainda e’ portuguesa?
Sou, nao quis mudar de nacionalidade.

Tem dupla nacionalidade?
Sim, ofereceram-me a nacionalidade (angolana).

Tem passaporte portugues?
Tenho.

No bilhete de identidade de Angola vem mencionada a raca. Concorda?
Ha’ pessoas que ficam muito ofendidas, mas nao sei se isso e’ uma ofensa.

Quando entra em Portugal qual e’ que usa?
Uso sempre o angolano, e’ mais facil. O meu passaporte e’ diplomatico.

A senhora e’ militante do MPLA?
Sou mais que militante.

Mas nunca se inscreveu!
Sou uma militante acerrima, mas sem estar inscrita.

Havia casais mistos em Lisboa?
Eram rarissimos.

E em Luanda?
Tambem havia poucos.

Pensava fazer algum curso?
Nao houve hipotese, quis sempre estar ao pe’ dele. Sentia-me insegura, nunca tinha saido debaixo da saia da minha mae.


Como foi a chegada a Luanda?
Uma apoteose. Muito bonito. Um mar de gente no aeroporto.

Ultrapassou as vossas expectativas?
Sim. Pelo menos as dele.

Isso foi muito obra do MPLA do interior.
Sim, ele nunca deixou a 1a. Regiao nas maos de ninguem. Ele tinha um grande orgulho nos “meninos” da sua 1a. Regiao. E’ por essa razao que isso do Nito Alves e’ um grande drama historico.

O MPLA sofreu algumas convulsoes: Chipenda, a Revolta Activa…
Embora essa palavra ja’ nao se use, isso tudo e’ obra do imperialismo, porque nao interessava que Agostinho Neto chegasse la’ forte, e que ficasse a frente, so’, daquele pais. Estupidos! Ele era o homem da paz, da concordia e da amizade entre os povos, nao sei porque tinham medo.

Os Pinto de Andrade eram instrumentalizados pelo imperialismo?
Acho que sim. Quando fizeram a Revolta Activa, tiveram contactos com petroliferas e tudo! Nao sou eu que o digo, sao alguns deles que o dizem – inclusive o Belli-Bello.

Conheceu o Nito Alves, claro…
Nao o conheci profundamente. Nunca tive contactos pessoais.

Mas o Presidente tinha.
Sim, ele era do Bureau Politico.

Tinha sido da confianca pessoal de Neto.
Foi so’ no Congresso (de Lusaka, em 1974) que o conheceu.

E representou o MPLA no Congresso do Partido Comunista da Uniao Sovietica, em 1976.
Foi a asneira que ele fez.

Asneira porque?
Porque mostrou o que era: um canalha! O Presidente confiou nele, deu-lhe prestigio por ter sido resistente da 1a Regiao. Chegou la’ e disse aos Sovieticos: agora sou eu!

Isso deu forca ao Nito Alves?
Claro. Os sovieticos, em lugar de porem o retrato do Presidente Neto no congresso. puseram o do Nito Alves. Compraram-no logo.

Conhecia o Jose’ Vandunem?
Nao conheci.

E a ex-militante do PCP Sita Valles?
Nao, o senhor conheceu-os a todos, nao?

Nao, mas tenho procurado ler alguma coisa sobre o assunto.
O problema e’ que a maior parte das coisas que se le sao mentiras. Mesmo o primeiro livro do Iko Carreira. Ele diz que encontraram 200 culpados e que foram ao Presidente Neto, que homologou as listas – mas que estas desapareceram. Perguntei ao Iko onde estava o documento do Presidente a dizer que ninguem liquida ninguem sem a minha assinatura – e ele baixou a cabeca. Passou esse documento quando comecou a saber dos disparates que andavam a fazer.

Mas o seu marido tinha ido a televisao dizer que nao haveria perdao…
Nao! Essa e’ a frase em que os malandros pegam. Ele disse: eles mataram. Eles, eram os cabecilhas! Quem matou nao tinha sido a juventude.

Isso nao e’ nada claro no discurso televisivo.
Nao e’ claro para quem nao quiser. Eles mataram. Os miudos nao tinham morto. Eles, eram os cabecilhas, que nao teem perdao. Muitas maozinhas estiveram interessadas em fazer confusao.

O seu marido referia-se apenas aos cabecilhas?
Claro. Claro.

Mas isso nao foi entendido assim.
Porque nao quiseram entender. Quando foi da morte do Nito Alves, quiseram que ele assinasse – nao sei se assinou. Estava tao revoltado que me disse: “Aos miudos, que eram quase todos recuperaveis, mataram sem a minha assinatura; este que e’ culpado, querem que assine.” O Armenio Ferreira disse-me que ele nao assinou, foram 15 generais que assinaram.

Sabe que a Sita Valles estava gravida quando foi presa?
Nao quero entrar nesses pormenores. Nao estava dentro disso, nem fui eu que mandei fazer atrocidades… Mas olhe que nunca ninguem perguntou: e se eles tivessem ganho? O que nao teriam feito? Se, logo de inicio, mataram seis (os melhores e mais fieis ao Presidente Neto e os queimaram no Roque Santeiro), imagine o que nao iriam fazer. Nos tinhamos sido todos limpos!

Uma coisa e’ o Nito Alves, outra coisa sao os 30 mil mortos!
Isso e’ mentira. Essa senhora e’ desonesta, e’ mentirosa (referencia a Dalila Mateus, co-autora do livro “Purga em Angola”).

Entao quantas pessoas morreram?
No sei, nao estava dentro de nada. Mas isso e’ mentira.

Ja’ passaram 30 anos e ainda nao se sabe quantos foram os mortos!
Estou-lhe a dizer que nao sei. Nao estava dentro desses assuntos. Nem o meu marido devia estar, porque isso era uma coisa militar.

Conheceu Jonas Savimbi?
Nao muito bem.

Acha que foi mau para Angola?
Acha que foi bom?

Nao sei, estou a perguntar-lhe…
Acho que foi um criminoso terrivel. O meu marido, num discurso em Cabinda (em 1978, salvo erro), decretou o perdao para toda a gente: fraccionistas, Revolta Activa, todos. Inaugurou entao uma era de paz. Mas aqui em Portugal, durante estes anos todos, estao sempre a repisar no mesmo assunto. Nao falam nos crimes que se cometeram na Guine’, em que se cortou o Ansumane Mane’ aos bocados… Angola esta’ sempre na berlinda. E com um odio, de nao estar la’, ou de nao usufruir das riquezas. E’ uma coisa impressionante. E agora surge o livro dessa senhora… Ja’ no outro (“A Luta Pela Independencia”), tive uma discussao, porque nao deu a realidade dos pais fundadores… Li o outro, deste nem quero saber!

Ha’ democracia em Angola?
Olhe, o que eu acho e’ que quando havia partido unico as pessoas falavam muito mais do que hoje. De tal maneira eles tinham liberdade que ate’ montaram um golpe de Estado – e nas calmas…

Porque que o seu marido morreu na URSS?
Ele nao queria ir. Mas nao quero falar nisso.

Nao tinha confianca?
Nao devia ter.

Poderia ser bem tratado em Luanda?
Nao. Estava para la’ ir uma medica inglesa, mas nao chegou a tempo.

Quais eram as alternativas?
Ha’ tantas alternativas no mundo! E Angola tinha dinheiro, pagava!

Quem decidiu que iria para a URSS?
Foi o medico dele – e concerteza o partido tambem esteve de acordo. Mas nao sei, sao coisas em que nao meti o nariz.

O medico dele era…
… na altura era o dr. Eduardo dos Santos.

A senhora acompanhou-o ate’ Moscovo?
Mas nao adiantou nada – nao fui para a sala de operacoes e mesmo que fosse nao percebia nada.

Tem alguma reserva ou desconfianca?
Nao posso dizer nada, mas o que sei e’ que, nesta epoca, uma pessoa nao acordar de uma operacao e’ um bocado esquisito…

Foi operado concretamente a que?
Eles dizem que foi ao pancreas. Se foi ou nao…

Diz-se que tinha uma cirrose ja’ adiantada.
Sei la’ se e’ verdade!



Diz-se tambem que bebia muito.
Isso e’mentira! Isso e’ o que dizem. Como nao tinham mais nada em que pegar…

Mas olhe que e’ comum dizerem isso. Mesmo dento do MPLA…
Eu sei que e’. Mas e’ mentira. Eles sao terriveis. Nunca vi o meu marido bebado. Nem eu, nem os meus filhos. E como e’ que uma pessoa bebada podia ter tanto trabalho, preocupacoes e tomar aquelas decisoes tremendas? Os politicos sao assim. Quando ele bebia uisque, bebia um bocadinho e o copo cheio de agua.

Foi o seu unico amor?
Foi. Era um homem com um caracter tao nobre, tao humano, com um sentido de justica tal, que me penetrou profundamente. Tudo aquilo que ha’ de melhor em mim e’ tocado pela profundidade daquela poesia. Um homem daqueles, que escreve a Sagrada Esperanca, nao pode ser um criminoso. E eu nao estaria aqui a apoiar um criminoso. Se aconteceu essa desgraca, isso nao foi ele. Ha’ uma frase que ele disse no Palacio: “Aqui onde me puseram, onde nem ouco a chuva.” Isso, em termos africanos, quer dizer muito.
Ele queria sair, mas estava amarrado.