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CARPE DIEM
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June 05, 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (13)

Slowly but surely, a tragedia do 27 de Maio de 1977 comeca a fazer o seu caminho para as 'headlines':

No SA, Miguel Francisco, a.k.a. ‘Michel’ (dir.), autor do livro “Nuvem Negra”, endereca uma carta aberta ao escritor e deputado do MPLA Joao Melo (esq.):

Endereço-lhe esta modesta carta reagindo ao artigo que Vossa Excelência escreveu, publicado no Jornal de Angola, na edição do dia 26 do mês em curso, no habitual espaço intitulado «Palavras à Solta» (um espaço que só indivíduos da vossa estirpe política têm o privilégio de nele publicar as suas ideias, porque indivíduos como eu jamais conseguem fazê-lo), cuja epígrafe é: «O 27 e o 28 de Maio» , certamente em alusão aos tristes acontecimentos do dia 27 de Maio de 1977.
(…)
Fique desde já sabendo que eu, Miguel Francisco, vulgarmente conhecido por «Michel», autor do livro «Nuvem Negra», que relata apenas as situações duramente vividas naquele
terrível inferno, não integro nenhum grupo estruturado, e nem sequer recebo ordens de nenhuma direcção para falsear os acontecimentos que se seguiram àquele fatídico dia 27 de Maio.
(…)
Francamente! Se Vossa Excelência diz que há manipulação do número de vítimas é porque sabe qual é o número exacto (ou pelo menos aproximado) delas, logo, é porque
participou no massacre, ainda que indirectamente. Então porquê que não vem a público dizer quantas foram?
(…)
Quanto ao resto que escreveu no artigo, não comento. Sou de opinião que promova um debate público na União de Escritores Angolanos, enquanto escritor, naqueles vossos debates «Maka à Quarta-feira». Convide também os seus companheiros: o Nudunduma e o Pepetela, já que todos vós pertencestes à tristemente célebre «Comissão de Lágrimas».
[Aqui]

Wilson Dada, na sua Kuluna, escreve sobre “a preservacao da memoria, a homenagem merecida e a celebracao da amizade” durante o almoco anual evocativo do 27 de Maio:

Os organizadores já são suficientemente conhecidos e os objectivos da iniciativa igualmente. O contexto também, embora os mais novos na sua esmagadora maioria o desconheçam por razões fáceis de entender. Vivemos num país onde a história ainda é ministrada nas nossas escolas como uma disciplina de formação e condicionamento político-ideológico dos nossos jovens.
(… )
A comunicação social (estatal e privada) primou pela sua ausência, tendo a cobertura do evento ficado a cargo do seu organizador que está aqui exactamente a dar-vos notícias frescas do mesmo em primeira-mão em mais um rigoroso exclusivo deste colunista.
O ano passado o almoço foi marcado pelo lançamento do livro do Michel (Nuvem Negra) que este ano voltou a vender mais alguns books no "local do crime" conjuntamente com o Azevedo (Fias Ndombe) com a sua Maria Lixívia, uma novela que também tem muito a ver com o passado que estávamos ali a evocar.

O 'kulunista' evoca tambem “o passado e as omissões de uma história mal contada” a proposito do ja' referido artigo de Joao Melo…

No texto que o João Melo (JM) assinou na passada segunda-feira no Jornal de Angola sobre "O 27 e o 28 de Maio" há uma referência histórica feita por ele que me chamou particularmente a atenção. Em causa está uma omissão que é sintomática da forma como determinadas figuras e factos do passado são tratados no presente por determinados autores que depois acusam os outros de serem revisionistas.
A omissão está relacionada com a transmissão da ideia segundo a qual Nito Alves terá sido o único alto dirigente do MPLA da época a manifestar indisponibilidade para qualquer acordo com a Revolta Activa (RA) no sentido da sua reintegração como era desejo da maior parte dos membros que integravam aquela tendência do MPLA.
Com base numa breve investigação que a propósito realizei sobre o assunto, tendo como fontes elementos afectos à própria Revolta Activa cheguei a outras conclusões.

… e termina com “A necessidade de um breve esclarecimento: O Ernesto Bartolomeu, a TPA e a Censura”, em referencia a um seu artigo aqui publicado:

Foi com alguma surpresa que o nosso sócio e sósia, o RS, viu nas colunas do semanário "A Capital" o seu nome citado pelo Ernesto Bartolomeu (EB) como tendo sido de algum modo responsável pelo processo disciplinar que lhe foi instaurado e que culminou com o seu afastamento (esperemos que temporário) dos ecrãs da TPA.
(…)
A surpresa já referida e que está na origem deste esclarecimento tem a ver com o facto de, na entrevista concedida por EB, ter sido passada a ideia de que eu teria escrito no Angolense que ele disse que havia censura na TPA. Desde já e é bom que fique claro, no meu texto não há nada que aponte nessa direcção, sendo portanto falso que eu lhe tenha atribuído uma tal expressão.
[Aqui]

No Agora, uma entrevista com o Presidente da FNLA, Ngola Kabango:

Não há dúvidas de que a FNLA está a atravessar momentos difíceis e que é preciso envidarmos esforços para encontrarmos soluções. Mas, gostaria de fazer um pequeno historial sobre a situação. O presidente Holden Roberto, já nos últimos dias da sua vida, impulsionou o processo preparatório do congresso de 2007 e nós estávamos com ele para que a grande família preparasse o conclave e se reunisse. Infelizmente, tanto ele como nós, não fomos compreendidos pelos nossos irmãos.
(…)
Não estamos parados, estamos a trabalhar, pese embora as nossas mensagens passem com dificuldades, sobretudo nos órgãos de comunicação social estatais. Prova disso, temos agendada para o dia 30 a reunião do conselho político nacional que vai aprovar o programa de Governo e a estratégia eleitoral. Se, por um lado, estamos à procura de soluções para a crise interna, do outro estamos a trabalhar internamente e em todo o território nacional, obviamente, com grandes dificuldades porque a FNLA tem as suas verbas bloqueadas e até hoje não recebeu os subsídios que foram atribuídos aos fiscais credenciados.
[Aqui]

Voltando ao SA, Luis Kandjimbo apresenta-nos um “breve enquadramento historico e sociologico” da geracao literaria de 80:

Grande parte dos autores pertencentes a esta geração nasceu no período compreendido entre 1955 e 1965, durante o qual ocorreram factos de relevância histórica e sociológica. É o período das independências políticas em África e da continuação das resistências contra o colonialismo, através da luta armada, como são os casos de Angola, Guiné Bissau, Moçambique.
(…)
É nesse ambiente que ocorre a socialização da Geração de 80, a que denomino por Geração das Incertezas. Ela realiza a sua formação em circunstâncias marcadas por profundas incertezas do ponto de vista ontológico, além das experiências graves e catastróficas como a guerra. Esta geração alcança a maturidade em fins da década de 70, afirma-se na década de 80 com a publicação de livros, participação em concursos literários, a que se junta uma intensa e eufórica actividade associativa nos principais centros urbanos de Angola.
[Aqui]

Finalmente, no Novo Jornal, uma entrevista com Maria Joao Ganga:

Maria João Ganga está a concluir uma curta metragem - Restos de lixo. Na verdade, trata-se do argumento de uma peça de teatro transposta aos ecrãs, num espelho fiel de uma "sociedade doente". Mulher do Teatro, mas sobretudo do Elinga, apaixonada pela sétima arte, escalpeliza aqui também o seu pensamento sobre o cinema angolano.
"Restos de lixo", conta a história de um louco que encontra uma caixa de música dentro de um contentor de lixo... no seu imaginário, ele crê ter encontrado a bonequinha da caixa de música.
[Aqui]

May 30, 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (12)

Esta semana, no SA, uma interessante entrevista com o Embaixador de Franca em Angola:

"A visita do presidente francês provavelmente seja o reconhecimento de que, depois de há dez anos, o presidente (Jacques) Chirac efectuou uma visita de Estado a Angola, a paz finalmente reina entre os angolanos, que prevalece a reconciliação e que está em curso um processo de abertura do país (não só do lado económico, da abertura dos capitais ou financeira), uma abertura subjacente ao facto de Angola ter projectado o reembolso da divida externa (para com os países do Clube do Paris), com o que tomou uma decisão tão importante, que abriu Angola à obtenção de novo créditos financeiros, mas, sobretudo, a um novo crédito moral, pois trata-se do regresso de Angola à comunidade financeira internacional. Foi uma decisão implementada em Janeiro deste ano que se torna importante na medida em que representa o regresso de Angola à comunidade financeira internacional, o que quer dizer que Angola vai poder obter novos créditos. Pedimos que seja consignado dinheiro à Agência Francesa de Desenvolvimento a decisão de Angola (claro que o Clube de Paris ajudou Angola a tomar essa decisão que, no entanto, foi inteiramente angolana) foi uma decisão de grande elevação, porquanto trata-se de, por fim, retomar os laços com a comunidade internacional. Quer dizer que a «ilha» que se pensava que era Angola, aproximou-se um pouco mais do continente africano."
[
Aqui]

Ainda no SA, um dossier sobre um workshop que a Open Society organizou em Luanda sobre o Orcamento Geral do Estado:

"Conclusões e Recomendações do Workshop"

• A nossa economia tem tido um crescimento global bastante acentuado. Todavia, quando são analisados os principais indicadores que integram o índice de Desenvolvimento Humano, notamos uma evolução positiva apenas no que respeita ao valor do Pib per capita. Muitos dos restantes indicadores continuam a degradar-se. É isso que justifica o mantermo-nos ainda muito perto da cauda do ranking internacional.
• O anteriormente descrito induz-nos a recomendar que, no processo de elaboração do OGE, haja um crescente cuidado com o sector social e com os recursos humanos, como forma de se garantir não só a sustentabilidade do crescimento económico, mas, também, um maior respeito pelos direitos humanos.
[Aqui]

Sobre a questao, dois Economistas expoem os seus pontos de vista:

Alves da Rocha em "A Preparacao do Orcamento e os seus Principios"

"O Governo angolano tem vindo, sistematicamente, a ser questionado sobre a transparência do processo orçamental e as razões duma ausência de participação da sociedade civil na elaboração do Orçamento Geral do Estado. Os questionamentos e as pressões advêm de algumas organizações angolanas e, também, de muitas ONG estrangeiras, as quais, de certa maneira, têm procurado influenciar as suas congeners angolanas sobre a necessidade de a metodologia de elaboração do documento financeiro do Governo ser mais aberta e dialogante. Sobre esta matéria eu tenho uma opinião muito própria e estou, na verdade, bastante curioso em conhecer as experiências que irão ser apresentadas nesta conferência, para tentar perceber o que elas têm de demagógico e de efectivo, em termos de reforço dos sistemas democráticos nacionais."
[Aqui]

Fernando Heitor em "A Fiscalizacao do OGE pela AN"

"O Orçamento é uma previsão anual das despesas a realizar pelo Estado e dos processos de as cobrir, incluindo a autorização concedida ao Governo para realizar despesas públicas e cobrar receitas, limitando os poderes financeiros do Governo em cada ano. Exprime, a forma como o Estado vai obter e gastar os seus rendimentos durante o ano; Condensa a política financeira a executar durante esse ano; Orçamento, é portanto, a instituição jurídica fundamental e o quadro básico que orienta a actividade financeira dos Estados modernos, sejam eles, mais ou menos democráticos!"
[Aqui]

No Cruzeiro do Sul uma detalhada analise do surgimento do primeiro canal de televisao privado em Angola:

"Foi noticiado, em Portugal, o lançamento, ainda este ano, em Angola, da primeira televisão privada. O futuro canal, Segundo o jornal de notícias, vai chamar-se Zimbo TV e é propriedade da Medianova SA. De acordo com a mesma fonte, o projecto da primeira televisão privada conta com o apoio da TVI, o segundo canal privado português. Medianova que é uma Sociedade Anónima, mas, nos termos da lei de imprensa, as suas acções têm de ser nominativas e, para efeitos de respeito pela concorrência, a sua composição deve ser dada a conhecer ao conselho nacional de comunicação social. Tudo indica que a Medianova seja uma emanação dos serviços de apoio à Presidência da República.
No entanto, ao Jornal Público, de Portugal, Artur Queirós havia afirmado que o objective do grupo é o de assegurar "informação rigorosa, independente e profissional", sem interferência do poder político". Ainda em 2006, o Jornal público havia anunciado o lançamento de um projecto multifacetado na midia angolana. Já nessa altura, se dizia que o nome do grupo de comunicação seria Medianova e que o director de publicações seria Artur Queirós, um jornalista português próximo dos serviços de imprensa da presidência da república e também um dos seus mais radicais defensores em comentários no Jornal de Angola."
[Aqui]

O Novo Jornal da-nos conta de uma dissertacao de JMM Tali na Sorbonne:

"O Historiador Jean Michel Mabeko Tali irá dissertar uma palestra subordinada ao tema «0 problema de Cabinda e o processo de paz em Angola», na próxima segunda, 26 de Maio, na Universidade Sorbonne, em Paris. Esta conferência está inserida no âmbito dos seminários sobre «História de África Negra do Século XIX aos nossos dias» e «Fronteiras Dinâmicas de Transterritorialização», numa organização do historiador congolês Elikia Mbokolo, director da Escola de Altos Estudos Sociais daquela universidade."
[Aqui]


Ainda no NJ, uma entrevista com Paulo Flores:

"0 músico angolano Paulo Flores assinala 20 anos de carreira, após o lançamento do seu primeiro disco, Kapuete Kamundanda, em 1988. Neste sentido, para reavivar os seus fãs, Paulo Flores promete realizar no próximo mês de Julho um grande espectáculo ao vivo, na Cidadela Desportiva, em Luanda, que servirá igualmente para gravação de um CD e DVD ao vivo. Esta trilogia é um trabalho que irá sair na primeira semana de Dezembro, mas em Junho vamos fazer um volume com três músicas de cada CD e mais um «bónus track». Então, no fundo, será a primeira apresentação das músicas que no total serão 27.
(...)
Às vezes fica um pouco difícil sintetizar as 27 músicas, mas irei recuperar quatro músicas, às quais irei dar novos arranjos e acabamentos, o resto é tudo inédito. É um pouco difícil resumir, mas falase de esperança, de amor, do dia-adia. E faço uma releitura de alguns temas entre os quais uma música do David Zé, uma dos Ngola Ritmos, um tema antigo do Bana, faço uma versão em português do «Recontré», canto uma música com a Mayra Andrade, com letra do Vinicius de Moraes, gravei, no Rio de Janeiro, uma música com o Daniel Jobin, neto do Tom, no piano do Tom, chama-se «Interlúdio» e acredito que venha a ser um dos momentos altos da trilogia. Portanto, acredito que as pessoas irão gostar."
[Aqui]

May 16, 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (10)

Bom, parece que finalmente foram declaradas treguas na “Maka de 1 Jose’ contra 3 Antonios mais os Mukuaxis”…
Assim sendo, eh-me dada a oportunidade de trazer aqui alguns artigos publicados nas ultimas semanas, que ficaram na gaveta a espera do fim do ‘kibeto’, como por exemplo este, de Bonavena, no Agora:


Não faz muito tempo, o Centro de Estudos e Investigação Cientifica (CEIC) da Universidade Católica de Angola (UCAN) realizou uma conferência sobre a pobreza. O poder como sempre esteve ausente. Alguns intelectuais evitaram aparecer para não serem conotados com um acto que lhes cheirava à subversão. Nessa altura, fomos criticados, por alguns deles, por estar a promover uma conferência sobre a pobreza que era uma evocação negativa, numa altura em que o país estava a crescer a bom ritmo e o discurso oficial triunfalista exacerbava os ganhos do crescimento económico (que diziam que seria de 34%, o maior do mundo, depois tiveram que o rever pela metade) e afirmava que este crescimento, por si só, resolveria o problema da pobreza.
(...)
Agora, que há em vista as eleições 2008 e é preciso dar atenção as formas mais eficazes para caçar votos, a pobreza está na moda do discurso eleitoralista, a pobreza aparece à cabeça da tematização dos discursos políticos. Até mesmo o homem mais rico do país (e chefe de fila da burguesia predadora) não fala mais das muitas "oportunidades de negócios" mas da pobreza, apresentando-a como uma prioridade de governo. Os "negócios" serão feitos na calada da noite enquanto de dia se irá falando da necessidade de "combater e vencer a fome, o subdesenvolvimento" e de "criar condições para o bem-estar dos cidadãos".

[Aqui]

Esta semana, varios artigos de interesse no SA:

'Justino P. Andrade «oficializa» ruptura'

Justino Pinto de Andrade declarou esta semana ao Semanário Angolense estar descartada qualquer hipótese de voltar a integrar o Mpla, que realiza este fim-de-semana a sua terceira Conferência Nacional. O economista e analista político argumentou que deixou há muito tempo de se rever na política praticada pelo partido no poder em Angola. Segundo Justino Pinto de Andrade, o Mpla sofreu uma deriva dos princípios que defendia para a sociedade angolana nos primórdios da organização. «Este não é o Mpla que defendia os meus ideais. Este Mpla só pensa no petróleo e em enriquecer uma casta minúscula de privilegiados», afirmou. E disse mais: «É uma organização que governa sem a mais absoluta noção de justiça social, aprofundando as assimetrias sociais. Ora, eu não pactuo com isso. Não são esses os princípios de vida que defendo para a nossa sociedade».

[Aqui]

JPA tambem assina um artigo sobre as recentes polemicas declaracoes de Bob Geldof:

'Bob Geldof – o iconoclasta'

O músico e activista dos direitos humanos, Bob Geldof, quase que incendiou a pradaria, ao declarar que Angola está a ser «gerida por criminosos». Ele fez esta afirmação no contexto de uma Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável decorrida no dia 6 deste mês, num hotel de Lisboa, quando dissertava sobre um tema já por si provocador, denominado «Fazer a Diferença». Os seus anfitriões eram os dirigentes do Banco Espírito Santo (Bes) e também do semanário português Expresso. Estava entre um naipe de figuras do grande capital e, julgo eu, também diplomatas.
(…)
Admito que a frase pronunciada pelo músico e activista cívico irlandês peca por ser excessiva, uma vez que ainda alimento a esperança de haver entre nós também alguns governantes honestos e que respeitam as boas regras de convivência e de uso dos bens e do património públicos. Acredito que ainda haja quem não se tenha locupletado com o dinheiro alheio ou do povo. Guardo dentro de mim a esperança de que haja quem não confunda o seu partido com o Estado, e que não goste de misturar os «dois sacos». É por isso que eu penso que o Bob Geldof pode ter sido excessivo – só pela generalização – em respeito, pelo menos, por aqueles por quem ainda nutro respeito.

[Aqui]

Como muitos, incluindo o proprio, esperavam, Ernesto Bartolomeu foi punido pelas suas declaracoes sobre a TPA, aqui mencionadas na semana passada:

Não se sabe já que consequências haverão para Ernesto Bartolomeu, um dos pivots do telejornal da Tpa, na sequência do processo disciplinar que a direcção da estação lhe moveu por, na sua óptica, ter «quebrado» o sigilo profissional a que estaria obrigado pelas funções que desempenha. Ernesto Bartolomeu disse publicamente mais ou menos que, entre outras coisas, em relação aos partidos políticos, os noticiários daTpa não são feitos com base no que é recolhido pelos jornalistas, mas sim em função do que decidem os editores a partir de «orientações superiores», dirigidas em regra para favorecer o partido «maioritário». Numa palavra: há censura. E isto, para começar, valeu-lhe o inquérito. Não se sabe também o que terá motivado o «Bartolas» a lavar a «roupa suja» da empresa fora de portas, mas que é preciso tê-los no lugar para o que fez, lá isto é. Agora, é só aguentar o resto.

A questao e' tambem analisada no Angolense.

[Aqui]

Finalmente, Sousa Jamba fala (muito mal) do “melhor escritor vivo na lingua inglesa”:

'Naipaul é um sacana'

Como escritor VS Naipaul é uma unanimidade. É inigualável. Já como homem, porém, é visto como um ser desprezível. O escritor, que ganhou o Prémio Nobel de Literatura, já foi descrito como um racista (contra os negros), snobe, cruel e um egoísta da primeira classe. O homem é também tido como um grande mulherengo que, além de ter tido uma amante latino-americana (enquanto a sua esposa inglesa sustentava a casa), nunca parou de visitar prostitutas de todo o género. Os ingleses gostam de biografias – sobretudo de escritores. Em muitos casos, as pessoas preferem ler as biografias dos escritores do que as suas próprias obras. Como alguém já notou, há vezes em que uma abordagem da vida de um escritor é o melhor retrato dos tempos. Neste momento, o mundo das letras anglófono anda obcecado com o primeiro volume da biografia de Naipaul escrita pelo escritor Phillip French, que se tornou famoso por ter recusado uma condecoração da Rainha. Curiosamente, figuro numa das páginas dessa biografia: certa vez Naipaul pôs-me a correr da sua casa quando, a meio de uma entrevista, eu fiz perguntas que o irritaram.
(…)
Entre os anos 50 e 60, VS Naipaul escreveu romances que retratavam a vida nas Caraíbas, para onde os seus avôs indianos tinham sido enviados como trabalhadores contratados. Depois virou as suas atenções para o continente africano sobre o qual escreveu vários livros de viagem assim como romances – todos descrevendo as ilusões, fraquezas e os caos da África pós-colonial. Para Naipaul, que nos anos 60 foi conferente na Universidade de Makerere, no Uganda, o continente africano não tinha nenhum futuro. Esta afirmação enfureceu vários escritores africanos da sua geração. Escritores como o nigeriano Chinua Achebe e o queniano Ngugi Wa Thiogo, embora fossem críticos assumidos das elites políticas que predominavam em vários países africanos nos anos após a independência, tinham fé no futuro do continente africano e, por isso, viam Naipaul como um verdadeiro reaccionário.
(…)
Para Naipaul, os negros têm pouco valor. Derek Walcott, poeta e dramaturgo nascido na Ilha de Santa Lúcia, nas Caraíbas, vencedor do Prémio Nobel de Literatura em 1992, diz que uma das falhas principais de Naipaul é o seu ódio contra os negros. Além de abominar os negros, Naipaul também não «passava carta» à Índia e aos indianos. Para o grande escritor o que conta é a Inglaterra – isto é, a aristocracia inglesa. Segundo a biografia que está a fazer ondas, um dos grandes sonhos de Naipaul não era só casar com uma mulher branca – mas alguém oriundo da grande aristocracia. Só que a mulher que «preenchia as medidas» e que ele tentou conquistar não lhe deu bola. Essa foi uma das maiores dores de cotovelo na vida Naipaul. Depois que se tornou milionário instalou-se numa grande casa de campo no sul da Inglaterra, onde se fez rodear de mordomias compatíveis com um verdadeiro lorde. O problema é que os ingleses não gostam muito de estrangeiros extravagantes ou que fazem tudo – incluindo vender a alma - para tornar-se num deles. Os ingleses, mesmo a classe alta, aceitam sempre estrangeiros. Porém, para serem respeitados os estrangeiros devem ter amor-próprio.

[Aqui]

April 23, 2008

"RECOLONIZACAO": DUAS VARIACOES SOBRE O MESMO TEMA

O Semanario Portugues Expresso, publicou recentemente o seguinte artigo, sob o titulo "Rapidamente e em força para Angola":

"O Consulado Geral da República de Angola em Lisboa emitiu 342 vistos de trabalho em 2007, mais 271,7% que no ano anterior. As motivações que levam os quadros portugueses a ir trabalhar para Angola são várias, mas alguns especialistas em recrutamento garantem que o desemprego que agora se faz sentir em Portugal acaba por empurrar, de certa forma, muitas pessoas para uma ‘aventura’ em terras angolanas, onde as oportunidades se multiplicam em cada dia que passa.

O crescimento económico daquele país, que se mantém acima dos 27% ao ano, é a prova de que há ali muito por fazer. As empresas não hesitam em avançar, e pagam ordenados chorudos (entre 70 mil e 200 mil dólares americanos por ano) para convencerem profissionais qualificados a trocar Portugal por terras angolanas. “É inegável que se ganha muito bem em Angola. Mas também é preciso saber negociar os contratos de trabalho, que normalmente incluem casa e meio de transporte”, explica Mónica Guerreiro, a trabalhar em Angola desde 2002. Sublinha que, no seu caso, rumou para aquele país por falta de trabalho em Portugal e que, apesar de muitas contrariedades entretanto encontradas, não está arrependida da opção que fez.

O nome com que aqui se identifica é fictício, pois receia retaliações. Sublinha que já se sentiu discriminada por ser branca, e que domina um certo clima de angolanização no mercado de trabalho, nem sempre favorável à presença de quadros brancos em lugares que podem ser ocupados por naturais do país.
“Não está estabelecido por decreto, mas é verdade que se dá preferência a quadros angolanos”, nota uma fonte da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Angolana, que também pede para não ser identificada.“O problema é que Angola não dispõe de quadros superiores nem em quantidade nem em qualidade suficientes para suprir as necessidades das empresas que ali querem progredir”, explica Eduarda Luna Pais, directora da empresa de caça-talentos Egon Zender International."

[Continue lendo aqui]

Por seu turno, na sua ultima edicao, o Semanario Angolense publica, sob o titulo "
Jornalistas do Rossio em bicos de pés", a materia que se segue:

"Angola tornou-se nos últimos tempos bastante atractiva para expatriados e imigrantes de diversas nacionalidades, mas está mais ou menos verificado, ainda que pela observação empírica, que os portugueses estão entre os estrangeiros que chegam em maior número ao nosso país. Prova clara disso está no sotaque algarvio, trasmontano ou alentejano que marca os voos para Luanda provenientes de Lisboa, e que no aeroporto da capital angolana rapidamente se espalha pelos restaurantes, bares e hotéis superlotados da cidade. São os portugueses a correrem de regresso à antiga jóia da coroa.

Esta revoada migratória não é nociva para o país, e desde que contida em limites aceitáveis e que não periguem a nossa frágil estrutura de emprego, até se mostra positiva para os novos rumos da economia angolana. Em termos gerais, portanto, não há nada a objectar. É enterrar o machado do chauvinismo e da xenofobia. Porém, quando bem espremido, encontramos no fluxo da imigração portuguesa para Angola aspectos inquietantes em relação a um certo modus operandis. Trata-se de uma franja marginal, residual mesmo, no conjunto dos luso-cidadãos que aportam o país, mas que não deixa de fazer confusão. Não nos referimos aos comerciantes nem aos trolhas e pedreiros.

Em fuga do cada vez mais difícil mercado da media em Portugal, Angola também passou a ser apetecível a muitos profissionais da comunicação social portuguesa, sobretudo daqueles que possuem uma costela angolana ou que tenham vivido no nosso país na época colonial. A forma como esses últimos aterram em Angola não entra nos procedimentos comummente aceites pela ortodoxia migratória.

Basta um pouco mais de atenção para vermos como na imprensa portuguesa ou em órgãos de comunicação social do Estado angolano surgiram ultimamente jornalistas portugueses a assinarem artigos estranhos sobre Angola, cujo fito último é o de demonstrarem que tratam com maior profissionalismo os assuntos do país do que os seus colegas angolanos. Eivados de má-fé no plano deontológico, muitos destes artigos chegam a achincalhar a dignidade dos jornalistas angolanos."

[Leia mais aqui]

April 22, 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (6)

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

Bom, tudo parece indicar que enquanto os apetites do aparentemente interminavel numero de replicantes as implicancias de Agualusa sobre a poesia de Neto (e de Jacinto, e de Cardoso – mas parece que a maka, chamemos-lhe a “Maka de 1 Jose' contra 3 Antonios”, tanto por parte do implicante, como dos replicantes, se restringe mesmo a poesia daquele que tera' sido eleito 'por unanimidade e aclamacao', “Poeta Maior da Nacao Angolana”…) nao estiverem completamente saciados, o ‘kibeto’ promete continuar ad-infinitum. Dos ultimos episodios, destaque vai para o que se segue:

Celso Malavoloneke despacha, do seu canto no SA, recados tanto para o implicante como para o mais inflamado dos replicantes:

RECADO I
Ao José Eduardo Agualusa, uma réplica: se por gostar desalmadamente da
poesia de Agostinho Neto não percebo rigorosamente nada de poesia, então
o senhor percebe ainda menos -se é que isso é possível - do papel essencial
da Arte e Literatura na vida dos povos

RECADO II
Ao Artur Queiroz outro recado: a poesia de Agostinho Neto não precisa de
ser defendida com linguagem de carroceiros brigando por uma picha de
cerveja barata numa taberna qualquer

RECADO III
A não ser que vocês os dois decidam fazê-lo algures em terras lusas, onde
essas baixarias parecem confundidas com democracia. Então porquê não
irem para lá e entabernarem-se, que assim deixa de ser problema nosso?
[Aqui]

Por seu lado, o implicante provocador de ‘toda a maka no museke’, para alem de uma primeira reaccao, registada aqui, disse mais de sua justica ao Novo Jornal:

Para me fazer compreender melhor, quanto ao assunto que me traz aqui, talvez seja útil comparar a obra e o trajecto de Agostinho Neto com o de outro grande nome do nacionalismo africano: Leopold Sedar Senghor. Agostinho Neto e Leopold Senghor tiveram percursos aparentemente semelhantes. Senghor foi o primeiro presidente do Senegal. Agostinho Neto foi o primeiro presidente de Angola. Ambos publicaram livros de poesia. Olhando com mais atenção, porém, começam a perceber-se as diferenças. Agostinho Neto foi um político que frequentou a poesia -por razões políticas. Senghor foi um poeta que frequentou a política - por razões poéticas.
(…)
Talvez se justifique aqui acrescentar, para concluir, que gosto muito de escutar os versos de Agostinho Neto musicados por Rui Mingas. Gosto deles, como centenas de milhares de angolanos, devido à arte de Rui Mingas e também porque fazem parte do meu imaginário, e isto independentemente da sua qualidade literária. Quando quero ler grande poesia, então procuro outros autores. E era aqui que eu queria chegar na entrevista ao Semanário Angolense.
[Aqui]

Agora, quem, apesar de tao penosamente elaborada explicacao, continue com o apetite insaciado (eu creio ter percebido tudo, excepto uma coisa, e espero com isto nao dar mais alento a outros eventuais replicantes a espera de vez: porque que o implicante, nas suas replicas aos replicantes, continua repetidamente a referir-se ao Semanario Angolese?), talvez consiga encontrar alguma luz na ‘Teoria Geral dos Xinguilamentos’, cientificamente exposta por Mestre Paulo Mulembo no Agora:

Queremos reportar-nos ao debate que se gerou em torno da entrevista dada pelo escritor Agualusa ao Jornal Angolense, que ao exprimir numa frase a sua opinião sobre a poesia de Agostinho Neto ("Neto é um poeta medíocre"), provocou uma onda de mal estar em certos sectores, a ponto de provocar xinguilamentos ou vontades de xinguilar.
(…)
"Xingar o Kilamba faz Xinguilar", "Kidi Kidi, Kididi Kididi". O professor começa por esta bonita marcação de identidade cultural (linguística) pese embora o sincretismo da primeira expressão, onde a força da rima clássica, portanto exógena, é conseguida através da apropriação gramatical da conjugação portuguesa. Não é pecado. A interface cultural produz estes empréstimos ou apropriações em todo legitimas de ambas as partes, angolana e portuguesa. Mas é exactamente por esta primeira afirmação: Xingar o Kilamba faz Xinguilar que queremos começar, na sincera esperança de poder acalmar o xinguilamento do Professor. Elegemos esta expressão porque achamos que é sobre ela que assenta toda a estrutura profunda da reacção do Professor, objectivada no texto.
(…)
Sabemos que a FRENTE, a FpD, tem uma proposta de código de conduta social, que serviria de pauta reguladora para a coexistência saudável entre nós. Pedimos que aí seja inscrito o princípio seguinte:
"Não vale Xinguilar, quem xinguilar perde a razão".
[Aqui]

Entenderam, oh replicantes de insaciaveis apetites? Assumindo que sim, passemos entao a mais propostas da FpD, tal como apresentadas pelo Filomeno Vieira Lopes no museke onde toda a maka e respectivos xinguilamentos realmente comecaram, o Angolense:

Entendemos que após as eleições temos que ter um debate muito profundo, porque neste país nunca se sentou para se pensar de maneira profunda. Vivemos um período colonial, depois, a independência não produziu um debate entre todos os angolanos porque envolvemo-nos logo numa guerra que terminou há seis anos, período em que não criamos condições para o debate público efectivo para estabelecer as bases do Estado e a via estratégica consensual. Sentimos que há um controlismo claro sobre a esfera social. A grande opção prática da FpD é exactamente retirar todo este controlismo da esfera social. Em Angola há muita ideia perdida, muita coisa que deixa de ser feita e não acreditamos que seja possível governar um país como este sem o concurso muito claro da sociedade civil.
[Aqui]

E assim que passamos ja’ completamente (?) das makas literarias ‘as politicas, voltemo-nos entao para as mais substantivas makas da economia. Ou, mais especificamente, as makas do piteu que esta’ cada vez mais caro a nivel global e cujos efeitos se comecam a fazer sentir de forma dramatica em varias partes do mundo (so’ para citar os casos mais mediatizados, vimos nos ultimos dias violentos confrontos no Haiti e no Egipto por nao outra razao que o aumento vertiginoso dos precos de bens alimentares basicos). Dois artigos sobre essa questao chamaram a minha atencao:

No SA, Justino Pinto de Andrade estabelece o ‘background’ do fenomeno:

Começam a surgir notícias dando conta do aumento dos preços de alguns bens de consumo alimentar. Primeiro, falou-se do aumento do preço do trigo, a matéria-prima essencial para o fabrico do pão. Agora, apareceram informações preocupantes sobre a subida do preço do arroz, um bem que tem impacto na nossa dieta alimentar. Esses são dados inquietantes, pelo menos do ponto de vista da gestão dos orçamentos familiares. Eles ainda não tiveram grandes repercussões no nosso país, porém, em outros países, vão se verificado, inclusive, manifestações públicas de desagrado. Por isso, eu julgo que o assunto deve merecer a nossa atenção, para as devidas cautelas.
[Aqui]

No Novo Jornal, Fernando Pacheco, equaciona a crise alimentar em termos de proposicoes concretas para uma politica agricola mais autonoma e sustentavel em Angola:

Acabada a guerra, aumentou naturalmente o interesse na produção camponesa - que erradamente continua a ser considerada de subsistência, ignorando-se que ela foi responsável pela auto suficiência alimentar de Angola em termos líquidos até 1973 - pelo papel que pode ter na redução do peso do petróleo no Produto Interno Bruto. Como durante mais de trinta anos esta questão esteve longe do centro do debate nacional - excepto quando os preços do petróleo baixaram para níveis considerados inquietantes -, não há hoje ideias claras sobre a forma de lidar com ela.
[Aqui]

April 17, 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (5)

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

Numa longa entrevista ao jornal A Capital, o director do Semanario Angolense (SA), Graca Campos, disserta sobre a actual panaramica da imprensa privada em Angola:


[Aqui]


No Jornal Angolense, Wilson Dada (Reginaldo Silva), conduz-nos pelos intersticios da pre-campanha eleitoral ja' iniciada:

“Depois do que aconteceu com as passeatas e meetings (comícios/ bebidos/maratonas) organizados pelo MPLA no último fim-desemana um pouco por todo o país, generosamente amplificados e ampliados pela sempre fiel comunicação social estatal, pode-se dizer que oficialmente teve inicio a pré-campanha eleitoral, embora a lei eleitoral não preveja nenhum período com esta designação.”


O kulunista partilha tambem algumas recebidas 'licoes de jornalismo' com os seus leitores:

“O reino da objectividade é a informação, a notícia, a cobertura, a reportagem, a análise, assim como o reino da tomada de posição era a opinião, o comentário, o artigo, o editorial. E fundamental separar e distinguir informação de opinião, indicar as diferenças de conteúdo e forma dos géneros jornalísticos, e apresentar toda a produção jornalística ao leitor/telespectador de forma a que ele perceba imediatamente o que é a exposição da realidade e o que é o juízo de valor". [Aqui]

No SA, o linguista e tradutor Adérito Miranda introduz-nos o “Segmento Mba como música”, na sua serie sobre “Linguística Bantu a partir do Kimbundu”:

"Conhecemos o segmento Mba com dois significados, sendo um no reino animal (pessoas, animais, população), que já foi aqui tratado abundantemente, e outro na música, como se pode ver nos vocábulos acima referenciados. Na música, o Mba representa ou reproduz fonologicamente uma batida no tambor ou em qualquer outro instrumento de percussão. Façamos então uma breve análise sobre aqueles casos." [Aqui]

Ainda no SA, Luis Kandjimbo apresenta uma recensao critica da obra de Arnaldo Santos, detendo-se particularmente no seu romance “A Casa Velha das Margens”:

“O autor do romance em apreço é natural de Luanda, onde nasceu em 1935. Fez os estudos primários e secundários em Luanda. Na década de 50, integrou o chamado «grupo da Cultura». Colaborou em várias publicações periódicas luandenses, entre as quais a revista Cultura, o Jornal de Angola (da década de 60), Abc e Mensagem da Casa dos Estudantes do Império. É membro fundador da União dos Escritores Angolanos (Uea). Passou a infância e a adolescência no bairro do Kinaxixi, topónimo que ocupa um lugar privilegiado na sua produção narrativa. Aos vinte anos de idade, publicou a sua primeira colectânea de contos, intitulada Quinaxixi. Com o livro de crónicas Tempo do Munhungo, arrebatou em 1968 o Prémio Mota Veiga, um dos poucos existentes em Luanda, nas décadas de 60 e 70.

Preciosista na depuração do texto narrativo curto e avaro da economia dos seus elementos, Arnaldo Santos submete a língua portuguesa a um singular tratamento articulando formas de expressão resultantes de modelos de comunicação angolanos a correspondentes formas de conteúdo. No dizer de Jorge Macedo, ele usa «lexias-kimbundo no interior de um português de luzidia correcção». Devido a esse labor oficinal, a sua obra narrativa não conheceu variações até à década de 90, gravitando em torno da forma breve do texto narrativo, entre o conto (Kinaxixi) e a crónica (Tempo do Munhungo). O seu romance que anuncia um outro fôlego, A Boneca de Quilengues, é publicado em 1991. No panorama da ficção narrativa angolana, é uma referência incontornável.” [Aqui]

April 07, 2008

ECOS DA IMPRENSA ANGOLANA (4)

“Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.”

Manuel Alegre

O destaque das edicoes do fim de semana que passou vai para uma entrevista de Inocencia Mata, sobre a Literatura Angolana, ao Novo Jornal:

"Durante o tempo colonial descortinavam-se basicamente duas modalidades de escrita: uma que escrevia a "nação angolana" e outra que escrevia a "portugalidade" e a ideia de que Portugal ia do Minho a Timor, passando por Angola. Essa literatura colonial fazia a apologia do colonialismo e de Angola como uma região de Portugal. A outra literatura era a que dizia que Angola não era uma região de Portugal, mas sim uma nação, no sentido simbólico do termo e no sentido de uma comunidade imaginada.Actualmente, estamos numa fase não de consolidação, porque a literatura angolana, enquanto sistema, está completamente consolidada, mas numa fase de grande produtividade divergente. Assiste-se hoje, em Angola, a uma multiplicidade de géneros, de formas de escrever, de temáticas, de preocupações e de construções simbólicas, o que demonstra a maturidade da literatura."
(...)
"A literatura angolana poderá distinguir-se da literatura moçambicana, por exemplo, pelas preocupações evidentes na enunciação, pela linguagem política, pelos espaços (não apenas os espaço físicos), pela geografia e pela forma como se perspectiva a relação entre os vários agentes sociais em Angola. A diferença da literatura angolana é uma diferença inata, em termos de horizontes e em termos de expectativas."
(...)
"Há uma nova geração de escritores que aparece com novas ideias e com sangue novo. Há, porém, um handicap nesses escritores: lêem pouco e alguns são um pouco convencidos. E se há uma coisa que eu aprendi ao conversar com velhos é que nós temos que ser humildes em tudo o que fazemos. E quando digo humildade, não digo humildade perante o outro, digo humildade perante aquilo que nós próprios fazemos, no caso, que eles próprios escreveram. Os escritores mais novos escrevem hoje e já querem publicar amanhã e eu penso que isso é falta de humildade. 0 problema de muitos desses jovens é que não são humildes. Têm potencial mas não possuem ainda o domínio da técnica. "
(...)
"Não é por acaso que quando se dá o 25 de Abril de 1974 muitos poemas foram musicados. Esses poemas diziam ao povo aquilo que possivelmente as palavras dos políticos não eram capazes de dizer. Uma pessoa lê ou ouve um poema como o "Monangamba" (António Jacinto), ouve um poema como o "Adeus à hora da largada" (Agostinho Neto) e sente que para além das palavras há um universo, uma nação, uma comunidade. A literatura foi um instrumento subsidiário da luta, da guerrilha, e ajudou na libertação e na reconstrução do país. A literatura angolana antecipou inclusivamente algumas reflexões científicas e muitas das questões que hoje as ciências sociais estão a abordar, como a questão da corrupção, do neoliberatlismo, do capitalismo selvagem, do racismo e das diferenças étnicas e de classe. A literatura angolana aborda algumas destas questões desde os anos 80, o que é extraordinário e deve ser dos poucos países onde isto acontece. "
(...)
"Em todos os países que emergem de uma guerra há assuntos tabu e o 27 de Maio, em Angola, era um assunto tabu. Hoje toda a gente fala do assunto."
(...)
"Quem afirma que "uma pessoa que ache que Agostinho Neto foi um extraordinário Poeta é porque não conhece rigorosamente nada de poesia... o mesmo se podendo dizer de António Cardoso ou de António Jacinto", é um perfeito ignorante sobre o que é a literatura. Deve achar que pode falar sobre tudo e que sabe de tudo. Na realidade, deveria era ler um pouco mais para além de informação."

[Aqui]

'GOSTO UNICO'


Com algum atraso, mas ainda em tempo util, a resposta de Jose' Eduardo Agualusa as reaccoes as suas afirmacoes, publicada a 28/03/08 no A Capital:

"Não posso dizer que tenha ficado surpreendido com algumas das reacções a uma entrevista que concedi recentemente ao Semanário Angolense. Atravessamos um tempo um pouco estranho, de transição de um regime de pensamento único para aquilo que, espero, venha a ser uma verdadeira democracia. O que diferencia uma ditadura de uma democracia é a pluralidade de ideias e de opiniões sobre qualquer assunto, e a forma como essas ideias são recebidas não apenas pelos governantes, mas pela generalidade da população.Os ditadores esforçam-se por estabelecer primeiro uma determinada ideologia política, mas raramente se detêm aqui – tentam a seguir impor a toda a gente os seus próprios gostos sobre música, literatura, artes plásticas, desporto, sexo, ou mesmo moda."

[Aqui]

***
O post-mortem do desabamento do edificio da DNIC dominou as headlines

no Semanario Angolense:


[Aqui e Aqui]

e no Angolense:


[Aqui]

December 05, 2007

EXCLUSIVO: PRIMEIRA ENTREVISTA DE GRACA CAMPOS

E' com um misto de emocoes que publico aqui hoje, em exclusivo, a primeira entrevista do jornalista angolano Graca Campos desde que foi posto em liberdade ha' cerca de tres semanas. Misto de emocoes porque, para alem da alegria de o saber finalmente fora da cadeia e de ter a honra de ouvir detalhadamente, em primeira mao, "de sua justica" sobre o caso, nao posso deixar de partilhar as suas inquietacoes quanto ao futuro da imprensa privada angolana. Aqui fica, pois, o registo da nossa conversa:


FISICAMENTE, OS DANOS NÃO FORAM MUITO SIGNIFICATIVOS. MAS PSICOLÓGICA E MORALMENTE SAÍ DA PRISÃO COM ALGUNS «ARRANHÕES»

K: Graça, em primeiro lugar, como é que te sentes depois deste período de prisão? Recuperado? Pronto para outra?

GC: Fisicamente, os danos não foram muito significativos. Mas psicológica e moralmente saí da prisão com alguns «arranhões». Preocupam-me os rumos que este país está a tomar. É que tendo sido reconhecido por todos que a minha prisão decorreu de um erro processual crasso, é, no mínimo, estranho que se tivessem passado 35 dias para a correcção desse erro. Isso é algo que me inquieta bastante. Deverei tomar isso como um recado?

QUANTO AO APOIO FAMILIAR E DOS ADVOGADOS SÓ TENHO DE AGRADECER. A MINHA ESPOSA INTERROMPEU UM ESTÁGIO EM PORTUGAL. ELA FOI EFECTIVAMENTE INEXCEDÍVEL.

K: Como é que avalias a forma como foste tratado enquanto preso, particularmente em termos de atenção médico-medicamentosa, acesso familiar e por parte dos teus advogados e contacto com o exterior? Algum aspecto dessa experiência que te tenha marcado de forma particular, positiva ou negativamente?

GC: Fiquei particularmente surpreendido com a calorosa recepção que recebi dos reclusos que encontrei na prisão da Viana. No dia em que cheguei, de mãos vazias, sem nada para comer, um deles cedeu-me voluntariamente a sua cama e o seu lençol. Dir-se-ia que eles tinham-me como o futuro porta-voz das suas queixas e inquietações. Também recebi um tratamento muito respeitoso por parte da direcção da cadeia de Viana cujo director fez questão de saudar-me pessoalmente no dia em que ali cheguei. Portanto, do ponto de vista humano não tenho do que me queixar relativamente à minha estada em Viana. Mas as coisas mudaram completamente de tom na cadeia de S. Paulo. Ali fui tratado como um preso qualquer. De tal sorte que apenas no dia que antecedeu a minha soltura é que recebi autorização para fazer exercícios físicos matinais. E essa autorização só foi concedida depois de diligências de um vice-ministro do Interior e do próprio director da cadeia de Viana. Na cadeia de S. Paulo o que me marcou profundamente é exactamente a inexistente atenção médico-medicamentosa para os reclusos. Conhecida como enfermaria-prisão, paradoxalmente, aquela cadeia não tem condições sequer para fazer um simples teste de glicemia. Lembro-me que certo dia queixei-me, junto de um enfermeiro, de uma inflamação na face. Quase simultaneamente, um outro recluso queixou-se de uma intensa dor de cabeça. O enfermeiro «resolveu» o problema com uma aspirina para cada um. Resultado: a minha inflamação deu lugar a um quisto que agora só pode ser removido por via de uma intervenção cirúrgica. Quanto ao apoio familiar e dos advogados só tenho de agradecer. A minha esposa interrompeu um estágio em Portugal. Ela foi efectivamente inexcedível.

A SOCIEDADE CIVIL JÁ NÃO ESTÁ DISPOSTA A VIRAR A CARA AOS DESMANDOS DO PODER POLÍTICO, QUE, AO FIM E AO CABO, CONTROLA O PODER JUDICIAL

K: Esperavas a onda de solidariedade que se gerou a volta do teu caso, dentro e fora do país? Como é que recebeste, por exemplo, o facto de ele ter motivado um acontecimento tão inédito no país como a vigília organizada no largo Primeiro de Maio, em Luanda, por organizações da sociedade civil?

GC: Tenho de confessar que esperava alguma solidariedade, até mesmo porque sabia que os meus advogados iriam explorar devidamente o erro praticado pelo juiz. Mas confesso que não pensava que a minha prisão tivesse tanta repercussão, interna e externa. Acho que esses múltiplos gestos de solidariedade, nomeadamente a vigília, também foram recados que a sociedade civil quis enviar, por «meu intermédio», ao poder político. A sociedade civil já não está disposta a virar a cara aos desmandos do poder político, que, ao fim e ao cabo, controla o poder judicial.

O JORNAL TEM COMO PROVAR O ENVOLVIMENTO DE P. T. NO PROCESSO QUE BENEFICIOU PORTUGUESES. ISSO NÃO TEM NADA A VER COM UMA CRUZADA CONTRA PORTUGUESES

K: Indo um pouco às razões de fundo deste julgamento e da sentença que ele produziu, teve ou não o SA matéria de facto para envolver o nome de Paulo Tchipilica no alegado tráfico de influências relativo ao desconfisco de bens imobiliários a favor de cidadãos portugueses? De uma forma geral: está o SA empenhado numa alegada “cruzada contra os portugueses”?

GC: Tenho certeza absoluta que, se o Tribunal Provincial de Luanda aceitar o pedido de realização de um novo julgamento, como foi requerido pelos meus advogados, o SA será absolvido. O jornal tem como provar o envolvimento de P. T. no processo que beneficiou portugueses. Isso não tem nada a ver com uma cruzada contra portugueses. Aliás, não faz o menor sentido falar numa cruzada contra os portugueses.

NÃO SEI COMO ISSO VAI TERMINAR

K: Como é que perspectivas o desfecho deste caso: esperas que o Tribunal Supremo anule ou comute a pena? Se não, estas preparado para voltar para a cadeia?

GC: Não te direi, nunca, que tenho saudades da cadeia! Vejo três saídas para este caso: o Tribunal Provincial de Luanda manda realizar um julgamento em que eu esteja presente; o Tribunal mantém a sentença, mas converte a pena de prisão correccional em multa; o Tribunal reavalia a sentença. Não sei como isso vai terminar.

VEJO O FUTURO DO SA E DA IMPRENSA PRIVADA ANGOLANA COM MUITA APREENSÃO

K: Fala-nos um pouco do teu percurso profissional e de como encaras o presente e o futuro do SA e da imprensa angolana em geral?

GC: Ando «nisso» há mais de 20 anos. Iniciei-me na «velha e gloriosa» ANGOP e depois peregrinei pelos extintos Jornal Desportivo Militar e Jango ya Sualali, Jornal de Angola, TPA, F8, Correio da Semana, Angolense até «aterrar» no Semanário Angolense, de que sou co-proprietário e director-geral.
Vejo o futuro do SA e da imprensa privada angolana com muita apreensão. No momento em que respondo a estas perguntas, acabo de ser informado de que o chefe do Estado Maior General das FAA, Francisco Furtado, intentou uma acção judicial contra o SA e o seu director por suposto crime de injúrias contra a instituição militar. Neste momento, o director do SA tem «pendurados» no Tribunal Supremo dois processos: o que envolve Paulo Tjipilica e um recurso do primeiro-ministro a uma decisão de um tribunal de primeira instância que lhe foi desfavorável.
No Tribunal Provincial de Luanda deverão estar a correr os seus trâmites pelo menos mais dois processos contra o SA. Tudo isso conforma uma enorme pressão sobre o jornal. Como calcula, os advogados não trabalham gratuitamente. Em suma, temo pelo futuro do SA. O SA não é uma fonte inesgotável de recursos financeiros para pagar advogados e nem o seu director pode ser tomado como uma muralha intransponível de resistência psicológica e mental. A frequente associação do nome do SA e do seu director a tribunais e à Polícia Judiciária tende a criar nas pessoas a ideia de que ambos estão permanentemente em conflito com a lei. E isso pode estar a ser feito de modo deliberado e concertado. Nisso, não serve de consolação o facto de outros jornais privados também serem, com menos frequência, é verdade, também chamados a tribunal. Por isso, temo pelo futuro da imprensa privada. E mais: aumentaram os custos de impressão dos jornais e, pelo menos no que diz respeito ao SA, diminuiu drasticamente o volume da publicidade.

QUOTE OF THE MOMENT

“Toda a inveja reflecte um qualquer complexo de inferioridade e todo o complexo de inferioridade reflecte um qualquer complexo de superioridade (e.g. racismo; machismo; elitismo; exclusivismo; segregacionismo) frustrado...” A.K.

COMMENT OF THE WEEK:
"Boa tarde/dia, sou angolano residente e estudante nos EUA e escrevo para informa-la que gosto de ler o teu blog. O conteudo e a estrutura artistica em si assemelham-se muito as coisas que interessam-me. Keep up with good work!" Anonymous on "Notting Hill Carnival"