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Saturday, 3 March 2012

Da "ditadura da idade" e outros mambos enferrujados nao reciclaveis [*] - (actualizado)




Pior do que envelhecer, e' nao saber (ou nao querer, ou nao ser capaz de) envelhecer com dignidade, verticalidade, integridade e graciosidade e ter inteligencia, sensibilidade, responsabilidade e coragem suficientes para tentar deixar um 'legado' , humilde e diminuto que seja, digno desse nome as geracoes seguintes e vindouras, fazendo sempre questao de respeitar 'todo o mundo' - quem quer que seja e qualquer que seja a sua idade e sobretudo em publico (!) - para nao passar pela "humilhacao" de se ser desrespeitada/o...


Enfim, nao ter a minima nocao do que significa ser-se um/a "role model"!...


E isso e' tao valido para as pessoas - homens ou mulheres - como para as ideias, de esquerda ou de direita, ou para as instituicoes, e entre estas especialmente os partidos politicos, da situacao ou da oposicao!...





'A Mesa de um Café Londrino…


… Sentei-me, no sabado antepassado (portanto, antes de ter lido o artigo que motivou esta mukanda), com a minha amiga Zheena – uma Mulher da Etiopia (pais reputado como sendo produtor de algum do melhor cafe do mundo) nos seus 65-70 anos, mas muito confortavel com a sua idade, o seu corpo e a sua sexualidade.

Ela encomendou um pote de cha’ e eu um café macchiato. Olhamos deliciadas para os bolos – nao do tipo bolos de arroz ou pasteis de nata, mas bolos mesmo, feitos em casa, handmade, dos quais se pode pedir uma ou duas fatias – mas decidimos nao indulgir na gulodice… Enquanto esperavamos que nos viessem servir a uma das mesas de real wood (reciclavel), sentadas em cadeiras tradicionalmente estofadas, ‘enjoyamos’ o espaco que nos rodeava: uma exposicao de ceramica artesanal contemporanea nas prateleiras ao lado da nossa mesa, numa das paredes um ‘fresco’ em tamanho gigante retratando algumas das figuras maiores da musica anglosaxonica com destaque para Louis Armstrong e noutras paredes fotos autografadas de artistas que por ali passaram, posters e cartazes de eventos culturais e mais, muito mais!...

Ah, e tudo isso enquanto nos chegavam aos ouvidos acordes vindos de uma outra sala onde um grupo de musicos ensaiava – na noite anterior, disseram-nos, tinha la’ estado a actuar um dos melhores pianistas contemporaneos deste pais… e nao, nao era nenhum upper class café numa qualquer rua ou bairro upmarket de Londres – tratava-se apenas de um cafe'-estudio-galeria numa back street de uma area de Londres nao particularmente trendy: Kentish Town!


Depois de servidas por dois extremamente afaveis empregados, um Eritreu e uma Irlandesa, entre os nossos cha’ e café, a Zheena, sem nunca mencionar a sua idade, falou-me do seu processo de envelhecimento: da mudanca gradual dos seus habitos alimentares e do seu efeito no seu metabolismo; de como precisava de voltar ao gym que ela deixou de frequentar ha’ cerca de um ano, onde depois do exercicio fisico relaxava na spa – e nao, tal como eu, ela nao e’ rica!

Bom, claro que nem todos os cafes de Londres sao assim, mas este e’ apenas um de muitos exemplos do que esta cidade tem para oferecer em materia de cafes, que ja’ vao sendo mais do que os pubs, os quais, tal como varias outras instituicoes tradicionais ("velhas") deste pais, teem vindo gradualmente a fechar, ou a reconverter-se (reciclar-se). E mesmo que nao sejam em tao grande numero como, por exemplo, os de Paris, sei, por experiencia propria, que aquele precioso fim de tarde naquele café de Londres com a Zheena ter-nos-ia custado os olhos da cara em Paris – e isto se nao nos impedissem de la’ entrar, senao ostensivamente (afinal os parisienses sao supostamente peritos em “finesse”…), muito provavelmente, dada a sua igualmente famosa snobbery, pela frieza do tratamento que (nao) nos dispensariam!...

E isto apenas para dar a quem “nao conhece muitos mundos fora dos livros”, a ‘dica’ (ou 'bica' se preferir...) de que nao sao so’ os "Europeus" (continentais) que 'enjoyam' a cultura do café (‘o espaco’) e que… no mundo anglofono, para alem de Londres, talvez alguns dos melhores cafes do mundo se situam em cidades Americanas como New York!... Alias, so' com um grande stretch of the imagination se pode considerar a "cultura do cafe'" como uma "marca civilizacional" da Europa tao 'longeva' quanto a Grecia Antiga: isso porque o cafe' (tanto o espaco como o produto) e' pretty much um produto da colonizacao da Africa pela Europa... da qual, diga-se, a Grecia de 500 nao participou, ou seja, o seu PIB nunca foi alimentado por nenhuma colonia ou ex-colonia - o que tambem podera' ter algo a ver com o desespero em que se encontra neste momento porque, ao contrario de Portugal, por exemplo, nao tem uma "antiga joia da coroa" em Africa a que recorrer!...

E… porque, desde que a conheco, ela tem sabido granjear o meu respeito, eu jamais chamaria ‘a Zheena, nos seus sabios, sadios e confortaveis cerca de 70 anos de idade, “velhota, velhaca e bruaca”… beyond repair!...


"O MIT QUE CONHECO"

Podera' nao ser exactamente "a prova de balas", mas...

... E' um MIT que sabe que nao se pode permitir "envelhecer desgracadamente" sob pena de perder as suas credibilidade e respeitabilidade...

... E' um MIT que sabe que tem que respeitar e integrar o "sangue novo" da "juventude" para que nao falte vida 'as ideias que nele nascem, se desenvolvem e se reproduzem e para que estas nao morram de "morte matada"!...

... E' um MIT que nao tolera a arrogancia ignorante, nem a desonestidade intelectual, ou a cobardia, o plagiarismo e/ou o mimetismo, o oportunismo e menos ainda a total falta de etica e deontologia profissionais!!!...

...E', acima de tudo, um MIT suficientemente forte, robusto, maduro, idoneo, democratico e civilizado, para albergar e acomodar academicos dos mais diversos espectros politico-ideologicos!...


Esse e' o MIT do Chomsky (o linguista, filosofo, cognicientista e historiador - aquele que diz que "o papel historico dos intelectuais, se olharmos tao longe quanto pudermos no passado, infelizmente tem sido o de apoiar os sistemas de poder e justificar as suas atrocidades"... - nao necessariamente o 'activista politico-ideologico de esquerda' que, manifestamente, e' o unico que a "nossa catedratica-cientista" conhece!...) - digno, responsavel, respeitavel e perfeitamente reciclavel!



[*] 'Mukanda' a proposito de algumas passagens de um artigo publicado a paginas tantas da edicao do Semanario Angolense da semana passada, da autoria de alguem, certamente pertencente a geracao Y, mas definitivamente nao 'a minha e muito menos ao meu "espaco geo-politico" - este, o meu, pode encontrar-se mais facilmente aqui, do que em qualquer "ideia da Europa"!...

Embora nao possa deixar de notar a "coincidencia" das afirmacoes feitas nesse artigo com alguns dos argumentos mais "profundos" dos "eurocepticos" da direita Britanica que agora, perante o "colapso" da Grecia - e, dizem eles, for that matter da propria "ideia da Europa", qualquer que ela seja - proclamam: "nos bem vos avisamos!"...

E mais perturbador ainda do que isso e', para alem da "endogeneizacao" do euro-centrismo no mundo ocidental (e global?... muito proprio de uma mui zelosa "mae da negritude branca pos-colonial"!...), o "greci-centrismo" no mundo europeu (e ocidental?...) patenteado nesse artigo: e' que a Grecia Antiga pode bem ser "o berco (ou mae, se se preferir) da civilizacao europeia", mas a Europa Contemporanea ja' e' "o berco" de varias geracoes de cidadaos ("barbaros"?) das mais variadas origens civilizacionais de todo o mundo (... Portugal e'-o de certeza, sempre o foi e continuara' a se-lo, particularmente desde que se viu forcado a recorrer a sua "velha" joia da coroa em Africa, Angola, para se salvar da "tragedia Grega"... pelo que, se alguns politicos Portugueses dizem que "nos nao somos a Grecia!", terao certamente as suas (muitas, boas e novas) razoes!...) - e a assumpcao dessa realidade tambem faz parte de uma "ideia da Europa" inclusiva, multi-cultural, multi-etnica e multi-racial, que nao se ve retratada nas ideias de Steiner copied and pasted para esse artigo!... O que talvez se perceba com um melhor conhecimento da biografia e bibliografia de Steiner (e, em particular, o que Assaf Sagiv designou “George Steiner’s Jewish Problem”) e porque que ele considera a “ideia da Europa” como “um conto de duas cidades: Atenas e Jerusalém”...


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Enfim, nao ter a minima nocao do que significa ser-se um/a "role model"!...


E isso e' tao valido para as pessoas - homens ou mulheres - como para as ideias, de esquerda ou de direita, ou para as instituicoes, e entre estas especialmente os partidos politicos, da situacao ou da oposicao!...





'A Mesa de um Café Londrino…


… Sentei-me, no sabado antepassado (portanto, antes de ter lido o artigo que motivou esta mukanda), com a minha amiga Zheena – uma Mulher da Etiopia (pais reputado como sendo produtor de algum do melhor cafe do mundo) nos seus 65-70 anos, mas muito confortavel com a sua idade, o seu corpo e a sua sexualidade.

Ela encomendou um pote de cha’ e eu um café macchiato. Olhamos deliciadas para os bolos – nao do tipo bolos de arroz ou pasteis de nata, mas bolos mesmo, feitos em casa, handmade, dos quais se pode pedir uma ou duas fatias – mas decidimos nao indulgir na gulodice… Enquanto esperavamos que nos viessem servir a uma das mesas de real wood (reciclavel), sentadas em cadeiras tradicionalmente estofadas, ‘enjoyamos’ o espaco que nos rodeava: uma exposicao de ceramica artesanal contemporanea nas prateleiras ao lado da nossa mesa, numa das paredes um ‘fresco’ em tamanho gigante retratando algumas das figuras maiores da musica anglosaxonica com destaque para Louis Armstrong e noutras paredes fotos autografadas de artistas que por ali passaram, posters e cartazes de eventos culturais e mais, muito mais!...

Ah, e tudo isso enquanto nos chegavam aos ouvidos acordes vindos de uma outra sala onde um grupo de musicos ensaiava – na noite anterior, disseram-nos, tinha la’ estado a actuar um dos melhores pianistas contemporaneos deste pais… e nao, nao era nenhum upper class café numa qualquer rua ou bairro upmarket de Londres – tratava-se apenas de um cafe'-estudio-galeria numa back street de uma area de Londres nao particularmente trendy: Kentish Town!


Depois de servidas por dois extremamente afaveis empregados, um Eritreu e uma Irlandesa, entre os nossos cha’ e café, a Zheena, sem nunca mencionar a sua idade, falou-me do seu processo de envelhecimento: da mudanca gradual dos seus habitos alimentares e do seu efeito no seu metabolismo; de como precisava de voltar ao gym que ela deixou de frequentar ha’ cerca de um ano, onde depois do exercicio fisico relaxava na spa – e nao, tal como eu, ela nao e’ rica!

Bom, claro que nem todos os cafes de Londres sao assim, mas este e’ apenas um de muitos exemplos do que esta cidade tem para oferecer em materia de cafes, que ja’ vao sendo mais do que os pubs, os quais, tal como varias outras instituicoes tradicionais ("velhas") deste pais, teem vindo gradualmente a fechar, ou a reconverter-se (reciclar-se). E mesmo que nao sejam em tao grande numero como, por exemplo, os de Paris, sei, por experiencia propria, que aquele precioso fim de tarde naquele café de Londres com a Zheena ter-nos-ia custado os olhos da cara em Paris – e isto se nao nos impedissem de la’ entrar, senao ostensivamente (afinal os parisienses sao supostamente peritos em “finesse”…), muito provavelmente, dada a sua igualmente famosa snobbery, pela frieza do tratamento que (nao) nos dispensariam!...

E isto apenas para dar a quem “nao conhece muitos mundos fora dos livros”, a ‘dica’ (ou 'bica' se preferir...) de que nao sao so’ os "Europeus" (continentais) que 'enjoyam' a cultura do café (‘o espaco’) e que… no mundo anglofono, para alem de Londres, talvez alguns dos melhores cafes do mundo se situam em cidades Americanas como New York!... Alias, so' com um grande stretch of the imagination se pode considerar a "cultura do cafe'" como uma "marca civilizacional" da Europa tao 'longeva' quanto a Grecia Antiga: isso porque o cafe' (tanto o espaco como o produto) e' pretty much um produto da colonizacao da Africa pela Europa... da qual, diga-se, a Grecia de 500 nao participou, ou seja, o seu PIB nunca foi alimentado por nenhuma colonia ou ex-colonia - o que tambem podera' ter algo a ver com o desespero em que se encontra neste momento porque, ao contrario de Portugal, por exemplo, nao tem uma "antiga joia da coroa" em Africa a que recorrer!...

E… porque, desde que a conheco, ela tem sabido granjear o meu respeito, eu jamais chamaria ‘a Zheena, nos seus sabios, sadios e confortaveis cerca de 70 anos de idade, “velhota, velhaca e bruaca”… beyond repair!...


"O MIT QUE CONHECO"

Podera' nao ser exactamente "a prova de balas", mas...

... E' um MIT que sabe que nao se pode permitir "envelhecer desgracadamente" sob pena de perder as suas credibilidade e respeitabilidade...

... E' um MIT que sabe que tem que respeitar e integrar o "sangue novo" da "juventude" para que nao falte vida 'as ideias que nele nascem, se desenvolvem e se reproduzem e para que estas nao morram de "morte matada"!...

... E' um MIT que nao tolera a arrogancia ignorante, nem a desonestidade intelectual, ou a cobardia, o plagiarismo e/ou o mimetismo, o oportunismo e menos ainda a total falta de etica e deontologia profissionais!!!...

...E', acima de tudo, um MIT suficientemente forte, robusto, maduro, idoneo, democratico e civilizado, para albergar e acomodar academicos dos mais diversos espectros politico-ideologicos!...


Esse e' o MIT do Chomsky (o linguista, filosofo, cognicientista e historiador - aquele que diz que "o papel historico dos intelectuais, se olharmos tao longe quanto pudermos no passado, infelizmente tem sido o de apoiar os sistemas de poder e justificar as suas atrocidades"... - nao necessariamente o 'activista politico-ideologico de esquerda' que, manifestamente, e' o unico que a "nossa catedratica-cientista" conhece!...) - digno, responsavel, respeitavel e perfeitamente reciclavel!



[*] 'Mukanda' a proposito de algumas passagens de um artigo publicado a paginas tantas da edicao do Semanario Angolense da semana passada, da autoria de alguem, certamente pertencente a geracao Y, mas definitivamente nao 'a minha e muito menos ao meu "espaco geo-politico" - este, o meu, pode encontrar-se mais facilmente aqui, do que em qualquer "ideia da Europa"!...

Embora nao possa deixar de notar a "coincidencia" das afirmacoes feitas nesse artigo com alguns dos argumentos mais "profundos" dos "eurocepticos" da direita Britanica que agora, perante o "colapso" da Grecia - e, dizem eles, for that matter da propria "ideia da Europa", qualquer que ela seja - proclamam: "nos bem vos avisamos!"...

E mais perturbador ainda do que isso e', para alem da "endogeneizacao" do euro-centrismo no mundo ocidental (e global?... muito proprio de uma mui zelosa "mae da negritude branca pos-colonial"!...), o "greci-centrismo" no mundo europeu (e ocidental?...) patenteado nesse artigo: e' que a Grecia Antiga pode bem ser "o berco (ou mae, se se preferir) da civilizacao europeia", mas a Europa Contemporanea ja' e' "o berco" de varias geracoes de cidadaos ("barbaros"?) das mais variadas origens civilizacionais de todo o mundo (... Portugal e'-o de certeza, sempre o foi e continuara' a se-lo, particularmente desde que se viu forcado a recorrer a sua "velha" joia da coroa em Africa, Angola, para se salvar da "tragedia Grega"... pelo que, se alguns politicos Portugueses dizem que "nos nao somos a Grecia!", terao certamente as suas (muitas, boas e novas) razoes!...) - e a assumpcao dessa realidade tambem faz parte de uma "ideia da Europa" inclusiva, multi-cultural, multi-etnica e multi-racial, que nao se ve retratada nas ideias de Steiner copied and pasted para esse artigo!... O que talvez se perceba com um melhor conhecimento da biografia e bibliografia de Steiner (e, em particular, o que Assaf Sagiv designou “George Steiner’s Jewish Problem”) e porque que ele considera a “ideia da Europa” como “um conto de duas cidades: Atenas e Jerusalém”...


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When Wise Women Grow Old

Sunday, 27 November 2011

Paula Santana: "O Que Ficou Por Dizer"... (actualizado)




[imagem daqui]


Depois do percurso, muito ficou e ficara’ ainda por dizer.
Mas, para ja’, ha’ algumas coisas que nao podem deixar de ser ditas.
Nomeadamente, que toda esta campanha, que agora parece ter atingido o “extase”, na blogosfera, com a recente implosao (?) de Ana Clara Guerra Marques (ACGM) e a explosao (!) de Reginaldo Silva (RS) (... e' no que dao egos super-deficitarios e hiper-inflacionados: implodem ou explodem!... e nao sera' de todo despiciendo notar aqui, mais uma vez, a "coincidencia" de ambos serem "would be economists" frustrados e... extremamente arrogantes nessa materia!... e com a agravante de serem ambos racistas e sexistas - embora cada um "a sua maneira"...), teve alguns ‘temas recorrentes’ e um ‘nucleo duro’.

Dentre os 'temas recorrentes' ressaltam:

i) Os meus posicionamentos sobre a Identidade com particular incidencia nas questoes de genero, raca e etnia;

ii) A publicacao do meu primeiro livro, a poesia nele contida e a minha entrada
(... “prematura?”... “imerecida?”...) para a Uniao dos Escritores Angolanos (UEA) – na qual fui a primeira Mulher Negra a ser admitida e, durante alguns anos apos a minha entrada, o seu membro mais jovem;

iii) A minha vida privada e a minha (imaginada, fantasiada, conspurcada e vilipendiada!) sexualidade, associadas ao “ultrajante” facto de ter permanecido mae solteira, por entre insinuacoes de ter sido a “predadora” responsavel pela morte dos dois companheiros mais significativos da minha vida (Tirso Amaral e David Mestre)...;

iv) A minha alegada “fuga” do pais e os ditos “crimes de lesa-patria” que venho sendo acusada de entretanto ter cometido: e.g. a lideranca do “Movimento dos Estudantes pela Paz” e o seu “Manifesto pelo Direito a Vida”, considerados, no minimo, “inconvenientes” no explosivo contexto politico-militar em que ocorreram; ou o meu trabalho no/para o Secretariado da SADC, em que fui a primeira Angolana a entrar de forma independente do Estado Angolano e por concurso internacional e onde fui trabalhar, ao servico da UE, directamente com alguem considerado “o inimigo”, nao so' por ter encetado um processo de reestruturacao da organizacao que fez "muito boa gente" temer pelos seus postos que julgavam ser "para a vida" e hostilizar, ostracizar e perseguir "gente nova" como eu, mas tambem e sobretudo por representar um pais “atipico” na regiao e que nao fez parte dos paises da “Linha da Frente”, o qual assumiu o mais alto cargo na organizacao em detrimento da candidata de Angola...;

v) O facto de eu ter "ousado" denunciar as "bandeiras" de alguns angolanos na SADC (relatadas AQUI em algum detalhe) e, muito particularmente, a minha saida da organizacao em protesto por um ataque pornografico que me foi feito por um deles...;


Sobre todos esses temas, verdadeiramente nao pretendo dizer muito mais do que o que neste blog ja’ disse – de facto, nao tivessem eles sido forcados, ainda que cobarde, irresponsavel e aviltantemente por detras de cortinas de fumo e de ferro, para as “parangonas” da imprensa, por alguns dos agentes dessa campanha, e.g. Gustavo Costa (GC), Inocencia Mata (IM) e Elizabeth Ceita (EC) e, na blogosfera, por ACGM e RS, eu nunca os teria abordado em publico!

Ja’ sobre o ‘nucleo duro’ nao posso deixar de me expandir um pouco mais:

Esse ‘nucleo duro’ e’ constituido por gente como os ja’ citados RS, IM e EC, a que mais recentemente se foi juntar uma “nova geracao” constituida por gente como ACGM e, 'nos bastidores', por outros como os que prefiro continuar a referir aqui apenas pelas iniciais FVL e AM, so' para citar estes. Todos eles teem uma coisa em comum: a lideranca, filiacao ou associacao ao partido Bloco Democratico (BD), ex- FpD. E a alguns deles une algo mais longinquo, e por isso menos perceptivel, mas perene: a sua militancia em, ou simpatia por, grupos considerados de “extrema esquerda”, e acrescente-se “totalitaria!” - pelo menos, no contexto angolano, relativamente 'a ‘mainstream’ representada pelo MPLA -, desde os tempos do movimento Associativo Estudantil de Luanda durante o chamado PREC (Periodo Revolucionario em Curso) de 1974-76. Foi nesse periodo que os meus passos se cruzaram com os de alguns deles e foi tambem ali que se separaram...

Efectivamente, foi ali que me dei conta da sua postura sobranceira de “dedo em riste e nariz empinado” (a que aqui me referia) para com jovens como eu... E’ que, para eles, ja’ naquela altura, ser-se do MPLA ou da JMPLA significava ser-se “inferior”, “superficial”, “estupido”, “inculto”, “lambebotas”, “servidor do poder”, “pequeno-burgues(a)”, “lumpen” e outros epipetos do genero, como os entao equivalentes, para as raparigas, aos actuais “catorzinha” e “predadora”, para nao referir outros mais “pesados”!...

Assim (...o que, curiosamente, me faz recuar a este post e revisitar este poema...), se eu nao fazia parte dos seus grupos ou nao frequentava os seus circulos, rejeitava pedidos de namoro de alguns rapazes da "malta dos seus liceus", nao passava a vida a recitar trechos de Mao, Staline ou Enver Hoxha (sobretudo deste!) e, pior do que tudo isso, usava calcas LaFinesse ou outras roupas “da moda” na altura, para alguns membros (especialmente as 'cavalheiras') desse tal ‘nucleo duro’, que ja’ entao se auto-consideravam os “unicos e verdadeiros intelectuais e donos de toda a verdade sobre todo o mundo” (... porem, nao que se dedicassem exactamente a criacao, a arte, a poesia, a literatura, ou a musica - mas apenas e tao so' a leituras apressadas e mal digeridas de todo o tipo de ideologias de extrema esquerda importadas em decima primeira mao - e alguns, como RS, ao ponto de arrogantemente "dispensarem" os estudos superiores - do que agora se "arrependem (?)" amargamente!...), nao era porque eu realmente acreditava nos ideais que perseguia como outros jovens atraves da JMPLA, ou porque preferia ir trabalhar nas campanhas de producao ou de alfabetizacao, ou porque realmente nao gostava dos tais rapazes ao ponto de namorar com eles, ou porque preferia ler Marx, Engels, Lenine ou Freud (sobretudo este!), ou estudar para os exames do liceu e, mais do que tudo isso, as roupas que eu usava, ou tinha-as trazido de Portugal aquando das ferias familiares que recentemente la’ tinhamos passado, ou tinham sido desenhadas por mim e costuradas pela minha mae, ou tinham sido compradas numa 'boutique' ou nos entao pervasivos 'fardos' de rua com dinheiro do meu salario – sim!... o primeiro dinheirinho, ainda que apenas simbolico, que ganhei foi-me pago pelo MPLA quando trabalhei no DOM/DORGAN...

Portanto, tudo temas recorrentes que voltaram a aparecer nos intersticios da sordida campanha com que tenho sido vergastada nos ultimos tempos e... tudo temas recorrentes nos intersticios do discurso (aberto ou velado, mas em todo o caso cinico, hipocrita e de falsa moral!) do BD sobre “valores e principios”, atraves do qual mais nao teem do que revelado o que aqui designei a sua postura de "um radicalismo (embora raramente assumido abertamente) dito 'de esquerda' em termos politico-ideologicos e de ideais economicos, associado a um conservadorismo marcadamente 'de direita' e, no limite, de matizes a rocar o puro reaccionarismo (quando nao o mais despudorado neocolonialismo e racismo - em exacta equivalencia ao dito 'endocolonialismo' de que alguns acusam o partido no poder), em termos socio-culturais."! ...

Nao que eu tenha o que quer que seja contra os “valores e principios morais” – bem pelo contrario! De facto, tal como se verificou no periodo do PREC (... e continuo aqui a abster-me, quanto mais nao seja por uma questao de higiene e sanidade fisica, mental, intelectual e social, de abordar a vida privada e/ou a sexualidade dos meus atacantes mais do que o fiz aqui...), se alguma coisa se tem passado nessa campanha tem sido a tentativa, a golpes de (aka)martelo, por parte de pessoas que nem sequer me conhecem (!), de “(des)estruturacao” do meu sistema de valores e principios morais e etico-religiosos, “(des)caracterizacao” da minha personalidade e identidade e “(des)construcao” da minha estabilidade psicologica e integridade moral para aceitar, acomodar e praticar “valores e principios” como o racismo e a pornografia (viz. ACGM), a poligamia e/ou a objectificacao sexual da mulher, a sua anulacao intelectual, assassinio de caracter e tentativa de aniquilamento pessoal e profissional (viz. RS), ou os complexos de superioridade, os preconceitos sociais e etnico-tribais, o pretensiosismo obnoxio, o pseudo-intelectualismo obtuso, a demagogia ideologica e o extremo elitismo bacoco e anti-social (viz. IM e EC), ou ainda a total estigmatizacao social das maes solteiras e a completa desculpabilizacao da irresponsabilidade paterna comum a todos eles!... - O que nao deixa de ser notavel quando vindo de uma "geracao Y" cuja percentagem de "casamentos felizes para sempre" sera', se tanto, inferior a 0,001 por cento e de membros da "geracao R" cuja percentagem equivalente se situa ainda mais abaixo... Ja' para nao falar no numero de casos, sobretudo nesta ultima geracao, de maes solteiras com dois ou mais filhos de pais diferentes!...

E... menos ainda que eu seja militante do MPLA! Deixei de o ser em 1978/79 e nunca mais voltei para tras – ja’ o disse varias vezes e repito-o: nao tenho, nem pretendo ter, qualquer filiacao ou pretensao politico-partidaria!

Mas, mais uma vez, e’ aqui que os nossos passos se cruzam e descruzam: o ‘nucleo duro’ do BD continua a apelidar-me, aberta ou veladamente, “servidora do poder” que “deve ser posta no seu devido lugar” e, neste particular momento politico no pais, como RS fez questao de "deixar saber" na sua explosao usando as suas vestes de Big Brother: "a um ano das eleicoes, o ambiente aquece e... ha' que, nao so' recorrer ao 'hacking' e 'sabotagem' dos emails e blogs do/as 'servidore/as do poder', como "denuncia-las" como "predadoras" com nome completo e foto(s) a acompanhar, mais umas palavras "metidas na boca" para reforcar!... Mas, como aqui referia "(...) por forma a fazerem-me passar por "demente" e "elucubradora" de "fantasmas" que nunca existiram, caso eu sobre eles me pronunciasse, ou deles me tentasse defender!"

E e’ aqui que os “temas recorrentes” que mencionei no inicio assumem uma dimensao particularmente critica perante este ‘nucleo duro’:

- Nele pontifica um grupo cujos apelidos adquiriram uma “equivalencia automatica” 'a palavra “intelectual”: como “engolir” o facto de que 'todo o mundo' como eu tenha sido admitida na “catedral dos intelectuais angolanos” (a UEA) primeiro do que eles, ou que as suas 'damas', 'madames', 'donas', 'femeas' e 'cavalheiras'?!... Ou que 'todo o mundo' como eu tenha entre as suas amizades gente que eles julgavam dever pertencer exclusivamente aos seus "circulos restritos"?!... Ou ainda que a 'estrela candente da literatura angolana' se permitisse dedicar um livro de poemas a 'todo o mundo' como eu?!... Ou, mais ainda, que 'todo o mundo' como eu tivesse sido a primeira angolana a criar um blog bilingue e multitematico, com notavel sucesso tanto a nivel local como global?!...

- Nele pontifica um grupo predominantemente de ascendencia Caboverdiana e/ou Saotomense, ou seja, o sub-grupo "crioulo" a quem o regime colonial portugues concedeu "direitos especiais" relativamente aos "indigenas" de Angola (como aqui, ou aqui, se pode constatar) - independentemente de alguns deles reclamarem ter participado, directa ou indirectamente, na "luta anti-colonial", o que nao significa necessariamente "luta de libertacao nacional" em todo e cada um caso e contexto especifico, uma vez que a luta contra o colonialismo e o fascismo foi transversal a todas as ex-colonias portuguesas e a varios extractos socio-politicos e comum a Portugal - nao tera' sido certamente por acaso que um deles, durante o PREC, liderava em Luanda os designados "Comites Amilcar Cabral" (CACs)... o que talvez explique a sua defesa, ainda que "(mal) encapotada" dos ideais da "recolonizacao"... - assim, como "nao empolar" o facto circunstancial de alguem como eu, que afirma "nao se identificar como crioula", viver fora do pais, ainda que por razoes de forca maior e originadas no proprio pais (...e, em grande medida, com a nefasta contribuicao - leia-se "empurrao"! - de alguns deles!...), ao contrario deles cujas "raizes mais profundas" sao frequentemente questionadas?!... E apesar de alguns deles terem vivido, ou ainda viverem permanentemente fora do pais, e em alguns casos ha' mais tempo do que eu - tendo alguns deles (viz. IM e EC) o topete de me dirigirem ataques nessa base a partir das suas 'catedras' no estrangeiro, onde teem vivido confortavelmente a maior parte das suas vidas!... Como nao apoiar, implicita ou explicitamente, como elementos desse grupo o teem feito, alguem como ACGM nas suas posturas sobre questoes como a lingua, a arte, a cultura, a identidade, a sexualidade das mulheres negras, a raca e o racismo?!...

- Nele pontifica um grupo que, por via de regra e quanto mais nao seja devido as suas inclinacoes "libertarias (de 'libertinagem'!) de esquerda" - onde, de resto, a pornografia figura "ideologicamente" como uma "forma superior de arte"!... -, nao tem propriamente o que se pode chamar vidas familiares e/ou sexuais "estaveis e regradas" - apesar de nos ultimos anos tenderem a gravitar a volta das instituicoes da Igreja Catolica, como a Radio Ecclesia e a Universidade Catolica de Angola, como aqui referi... E isso ja' era assim, e sobretudo (!), durante o PREC, em que se algo se pode dizer sobre a minha conduta nesse dominio e' que eu nunca fiz parte das suas 'orgias e bacanais': como, entao, nao tratar a todo o custo e a qualquer preco de devassar a minha vida privada em busca de "razoes para justificar" o ataque pornografico que me foi feito na SADC enquanto me inventavam um qualquer "relacionamento intimo" com o Secretario Executivo daquela organizacao?!... E, pelo caminho, tentar "desculpabilizar a irresponsabilidade paterna do pai do meu filho" (... coisa que nem ele proprio alguma vez ousou fazer!...), como RS fez tema recorrente no seu blog, embora finalmente tenha acabado por confessar que NAO ME CONHECE de facto: "(...) ela nao tinha nada que se armar em virgem estuprada que ficou gravida!... Afinal trata-se de alguem que ja' esteve muito perto da sarjeta!"... E, mais ainda, fazendo "vista grossa" aos ataques pornograficos de ACGM sobre mim?! Alias, para eles, todo este desaguizado com ACGM mais nao passou do que uma "sexualmente excitante" mud fight a preto e branco entre duas "miudas" que, para o 'positivo' ou o 'negativo', representam (...supostamente "sem quaisquer diferencas reais ou imaginarias" ...) as suas "fantasias mais profundas - reais ou imaginarias"!...
BUT: guess who, in spite of having won all rounds, ends up completely down in the mud at their hands?... A PRETA!!!

- Nele pontifica um grupo que se pretende afirmar como "campeao da democracia e dos direitos humanos": como aceitar que 'todo o mundo' como eu tenha protagonizado, independentemente (e ate' 'a revelia!) deles, alguns actos significativos na luta pela democracia multipartidaria, supra-etnica e supra-racial, pela liberalizacao economica e pelos direitos humanos, civicos e politicos dos Angolanos, passando pelas minhas contribuicoes para as lutas pela paz e a cidadania (sendo de notar que eles se mantiveram conspicuamente ausentes, quando nao a ele abertamente hostis, do movimento a volta do "Manifesto pelo Direito a Vida" e de outras actividades da Comunidade Angolana em prol da paz e da democracia que na altura tiveram lugar em Portugal, onde os seus membros mais proeminentes na altura residiam...), pela liberdade de imprensa ou a equidade/paridade do genero?!... Ou como "aceitar" que 'todo o mundo' como eu, que julgavam "dever estar 'cega, lobotomizada e incondicionalmente' ao seu servico", se permita pronunciar assim sobre a forma como eles reagiram a sua derrota e (quase) extincao nas ultimas legislativas?!...

- Nele pontifica um grupo com um numero significativo de economistas: como "aceitar" que 'todo o mundo' como eu tenha um grau de qualificacao em economia superior ao seu e obtido numa das mais reputadas escolas de economia do mundo (e sem qualquer apoio do estado angolano!) e que tenha exercido funcoes tecnicas e academico-profissionais ao nivel regional ou internacional (atraves de concurso publico e, nunca sera' demais nota-lo: sem qualquer apoio do estado angolano!...) que nenhum deles ainda exerceu?!... Como "mastigar" o facto de o meu artigo "Angola, Petroleo e Economia Pos-Conflito: Que Fazer?" e, em geral, a minha serie de cronicas para o SA, tenham tido o impacto que tiveram, tanto dentro, como fora do pais?!... Como "engolir" o 'atrevimento' de 'todo o mundo' como eu questionar um dos seus lideres maximos nestes termos?!... Ou que tenha tido o "topete" de lhes fazer "sugestoes" como esta ou esta?!...

Perante tudo isso, nao me causa muita surpresa que eu apareca agora nas suas "parangonas" apelidada de "predadora!": era preciso "linchar-me" em praca publica de uma vez por todas! ... E' que, afinal de contas, tal como durante o PREC, a intromissao abusiva na vida privada e familiar (... para o que, infelizmente, encontram, ou teem sabido forjar, terreno fertil, na minha familia...), a manipulacao e a chantagem emocional, a intriga, a calunia, a difamacao, a conspiracao e o assassinio de caracter sempre foram as suas armas predilectas para o aniquilamento, real ou virtual, dos seus adversarios - reais ou imaginarios!

... "Mudanca para Melhor"?!... "Democracia"?!... "Tolerancia Politica"?!... "Modernidade"?!... "Esquerda Solidaria"?!... "Valores e Principios Morais, Eticos e Deontologicos"?!... "Intelectualismo"?!... "Preocupacoes com as Questoes de Genero, Raca e Etnia"?!... "Respeito pela Identidade e a Diversidade"?!... "Respeito pelas Mulheres, Criancas e Jovens"?!... "Defesa da Liberdade de Expressao e Opiniao"?!... "Defesa dos Mais Elementares Direitos Humanos e de Cidadania"?!...

[imagem daqui]

Meus caro/as, so' nao vos digo NAO ME FACAM RIR porque so' sao capazes de me fazer chorar, nem CRESCAM E APARECAM porque, como alias fazem sempre muita questao de frizar e "impor", sao todo/as muito "kotas", mais velho/as e "muito mais importantes" do que eu, mas, do alto da SOBRIEDADE e da MATURIDADE dos meus 50 anos + 1 de vida, sempre vos digo:


ENOUGH IS ENOUGH!!!

[... and please, pretty please, DON'T keep in touch!...]


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[imagem daqui]


Depois do percurso, muito ficou e ficara’ ainda por dizer.
Mas, para ja’, ha’ algumas coisas que nao podem deixar de ser ditas.
Nomeadamente, que toda esta campanha, que agora parece ter atingido o “extase”, na blogosfera, com a recente implosao (?) de Ana Clara Guerra Marques (ACGM) e a explosao (!) de Reginaldo Silva (RS) (... e' no que dao egos super-deficitarios e hiper-inflacionados: implodem ou explodem!... e nao sera' de todo despiciendo notar aqui, mais uma vez, a "coincidencia" de ambos serem "would be economists" frustrados e... extremamente arrogantes nessa materia!... e com a agravante de serem ambos racistas e sexistas - embora cada um "a sua maneira"...), teve alguns ‘temas recorrentes’ e um ‘nucleo duro’.

Dentre os 'temas recorrentes' ressaltam:

i) Os meus posicionamentos sobre a Identidade com particular incidencia nas questoes de genero, raca e etnia;

ii) A publicacao do meu primeiro livro, a poesia nele contida e a minha entrada
(... “prematura?”... “imerecida?”...) para a Uniao dos Escritores Angolanos (UEA) – na qual fui a primeira Mulher Negra a ser admitida e, durante alguns anos apos a minha entrada, o seu membro mais jovem;

iii) A minha vida privada e a minha (imaginada, fantasiada, conspurcada e vilipendiada!) sexualidade, associadas ao “ultrajante” facto de ter permanecido mae solteira, por entre insinuacoes de ter sido a “predadora” responsavel pela morte dos dois companheiros mais significativos da minha vida (Tirso Amaral e David Mestre)...;

iv) A minha alegada “fuga” do pais e os ditos “crimes de lesa-patria” que venho sendo acusada de entretanto ter cometido: e.g. a lideranca do “Movimento dos Estudantes pela Paz” e o seu “Manifesto pelo Direito a Vida”, considerados, no minimo, “inconvenientes” no explosivo contexto politico-militar em que ocorreram; ou o meu trabalho no/para o Secretariado da SADC, em que fui a primeira Angolana a entrar de forma independente do Estado Angolano e por concurso internacional e onde fui trabalhar, ao servico da UE, directamente com alguem considerado “o inimigo”, nao so' por ter encetado um processo de reestruturacao da organizacao que fez "muito boa gente" temer pelos seus postos que julgavam ser "para a vida" e hostilizar, ostracizar e perseguir "gente nova" como eu, mas tambem e sobretudo por representar um pais “atipico” na regiao e que nao fez parte dos paises da “Linha da Frente”, o qual assumiu o mais alto cargo na organizacao em detrimento da candidata de Angola...;

v) O facto de eu ter "ousado" denunciar as "bandeiras" de alguns angolanos na SADC (relatadas AQUI em algum detalhe) e, muito particularmente, a minha saida da organizacao em protesto por um ataque pornografico que me foi feito por um deles...;


Sobre todos esses temas, verdadeiramente nao pretendo dizer muito mais do que o que neste blog ja’ disse – de facto, nao tivessem eles sido forcados, ainda que cobarde, irresponsavel e aviltantemente por detras de cortinas de fumo e de ferro, para as “parangonas” da imprensa, por alguns dos agentes dessa campanha, e.g. Gustavo Costa (GC), Inocencia Mata (IM) e Elizabeth Ceita (EC) e, na blogosfera, por ACGM e RS, eu nunca os teria abordado em publico!

Ja’ sobre o ‘nucleo duro’ nao posso deixar de me expandir um pouco mais:

Esse ‘nucleo duro’ e’ constituido por gente como os ja’ citados RS, IM e EC, a que mais recentemente se foi juntar uma “nova geracao” constituida por gente como ACGM e, 'nos bastidores', por outros como os que prefiro continuar a referir aqui apenas pelas iniciais FVL e AM, so' para citar estes. Todos eles teem uma coisa em comum: a lideranca, filiacao ou associacao ao partido Bloco Democratico (BD), ex- FpD. E a alguns deles une algo mais longinquo, e por isso menos perceptivel, mas perene: a sua militancia em, ou simpatia por, grupos considerados de “extrema esquerda”, e acrescente-se “totalitaria!” - pelo menos, no contexto angolano, relativamente 'a ‘mainstream’ representada pelo MPLA -, desde os tempos do movimento Associativo Estudantil de Luanda durante o chamado PREC (Periodo Revolucionario em Curso) de 1974-76. Foi nesse periodo que os meus passos se cruzaram com os de alguns deles e foi tambem ali que se separaram...

Efectivamente, foi ali que me dei conta da sua postura sobranceira de “dedo em riste e nariz empinado” (a que aqui me referia) para com jovens como eu... E’ que, para eles, ja’ naquela altura, ser-se do MPLA ou da JMPLA significava ser-se “inferior”, “superficial”, “estupido”, “inculto”, “lambebotas”, “servidor do poder”, “pequeno-burgues(a)”, “lumpen” e outros epipetos do genero, como os entao equivalentes, para as raparigas, aos actuais “catorzinha” e “predadora”, para nao referir outros mais “pesados”!...

Assim (...o que, curiosamente, me faz recuar a este post e revisitar este poema...), se eu nao fazia parte dos seus grupos ou nao frequentava os seus circulos, rejeitava pedidos de namoro de alguns rapazes da "malta dos seus liceus", nao passava a vida a recitar trechos de Mao, Staline ou Enver Hoxha (sobretudo deste!) e, pior do que tudo isso, usava calcas LaFinesse ou outras roupas “da moda” na altura, para alguns membros (especialmente as 'cavalheiras') desse tal ‘nucleo duro’, que ja’ entao se auto-consideravam os “unicos e verdadeiros intelectuais e donos de toda a verdade sobre todo o mundo” (... porem, nao que se dedicassem exactamente a criacao, a arte, a poesia, a literatura, ou a musica - mas apenas e tao so' a leituras apressadas e mal digeridas de todo o tipo de ideologias de extrema esquerda importadas em decima primeira mao - e alguns, como RS, ao ponto de arrogantemente "dispensarem" os estudos superiores - do que agora se "arrependem (?)" amargamente!...), nao era porque eu realmente acreditava nos ideais que perseguia como outros jovens atraves da JMPLA, ou porque preferia ir trabalhar nas campanhas de producao ou de alfabetizacao, ou porque realmente nao gostava dos tais rapazes ao ponto de namorar com eles, ou porque preferia ler Marx, Engels, Lenine ou Freud (sobretudo este!), ou estudar para os exames do liceu e, mais do que tudo isso, as roupas que eu usava, ou tinha-as trazido de Portugal aquando das ferias familiares que recentemente la’ tinhamos passado, ou tinham sido desenhadas por mim e costuradas pela minha mae, ou tinham sido compradas numa 'boutique' ou nos entao pervasivos 'fardos' de rua com dinheiro do meu salario – sim!... o primeiro dinheirinho, ainda que apenas simbolico, que ganhei foi-me pago pelo MPLA quando trabalhei no DOM/DORGAN...

Portanto, tudo temas recorrentes que voltaram a aparecer nos intersticios da sordida campanha com que tenho sido vergastada nos ultimos tempos e... tudo temas recorrentes nos intersticios do discurso (aberto ou velado, mas em todo o caso cinico, hipocrita e de falsa moral!) do BD sobre “valores e principios”, atraves do qual mais nao teem do que revelado o que aqui designei a sua postura de "um radicalismo (embora raramente assumido abertamente) dito 'de esquerda' em termos politico-ideologicos e de ideais economicos, associado a um conservadorismo marcadamente 'de direita' e, no limite, de matizes a rocar o puro reaccionarismo (quando nao o mais despudorado neocolonialismo e racismo - em exacta equivalencia ao dito 'endocolonialismo' de que alguns acusam o partido no poder), em termos socio-culturais."! ...

Nao que eu tenha o que quer que seja contra os “valores e principios morais” – bem pelo contrario! De facto, tal como se verificou no periodo do PREC (... e continuo aqui a abster-me, quanto mais nao seja por uma questao de higiene e sanidade fisica, mental, intelectual e social, de abordar a vida privada e/ou a sexualidade dos meus atacantes mais do que o fiz aqui...), se alguma coisa se tem passado nessa campanha tem sido a tentativa, a golpes de (aka)martelo, por parte de pessoas que nem sequer me conhecem (!), de “(des)estruturacao” do meu sistema de valores e principios morais e etico-religiosos, “(des)caracterizacao” da minha personalidade e identidade e “(des)construcao” da minha estabilidade psicologica e integridade moral para aceitar, acomodar e praticar “valores e principios” como o racismo e a pornografia (viz. ACGM), a poligamia e/ou a objectificacao sexual da mulher, a sua anulacao intelectual, assassinio de caracter e tentativa de aniquilamento pessoal e profissional (viz. RS), ou os complexos de superioridade, os preconceitos sociais e etnico-tribais, o pretensiosismo obnoxio, o pseudo-intelectualismo obtuso, a demagogia ideologica e o extremo elitismo bacoco e anti-social (viz. IM e EC), ou ainda a total estigmatizacao social das maes solteiras e a completa desculpabilizacao da irresponsabilidade paterna comum a todos eles!... - O que nao deixa de ser notavel quando vindo de uma "geracao Y" cuja percentagem de "casamentos felizes para sempre" sera', se tanto, inferior a 0,001 por cento e de membros da "geracao R" cuja percentagem equivalente se situa ainda mais abaixo... Ja' para nao falar no numero de casos, sobretudo nesta ultima geracao, de maes solteiras com dois ou mais filhos de pais diferentes!...

E... menos ainda que eu seja militante do MPLA! Deixei de o ser em 1978/79 e nunca mais voltei para tras – ja’ o disse varias vezes e repito-o: nao tenho, nem pretendo ter, qualquer filiacao ou pretensao politico-partidaria!

Mas, mais uma vez, e’ aqui que os nossos passos se cruzam e descruzam: o ‘nucleo duro’ do BD continua a apelidar-me, aberta ou veladamente, “servidora do poder” que “deve ser posta no seu devido lugar” e, neste particular momento politico no pais, como RS fez questao de "deixar saber" na sua explosao usando as suas vestes de Big Brother: "a um ano das eleicoes, o ambiente aquece e... ha' que, nao so' recorrer ao 'hacking' e 'sabotagem' dos emails e blogs do/as 'servidore/as do poder', como "denuncia-las" como "predadoras" com nome completo e foto(s) a acompanhar, mais umas palavras "metidas na boca" para reforcar!... Mas, como aqui referia "(...) por forma a fazerem-me passar por "demente" e "elucubradora" de "fantasmas" que nunca existiram, caso eu sobre eles me pronunciasse, ou deles me tentasse defender!"

E e’ aqui que os “temas recorrentes” que mencionei no inicio assumem uma dimensao particularmente critica perante este ‘nucleo duro’:

- Nele pontifica um grupo cujos apelidos adquiriram uma “equivalencia automatica” 'a palavra “intelectual”: como “engolir” o facto de que 'todo o mundo' como eu tenha sido admitida na “catedral dos intelectuais angolanos” (a UEA) primeiro do que eles, ou que as suas 'damas', 'madames', 'donas', 'femeas' e 'cavalheiras'?!... Ou que 'todo o mundo' como eu tenha entre as suas amizades gente que eles julgavam dever pertencer exclusivamente aos seus "circulos restritos"?!... Ou ainda que a 'estrela candente da literatura angolana' se permitisse dedicar um livro de poemas a 'todo o mundo' como eu?!... Ou, mais ainda, que 'todo o mundo' como eu tivesse sido a primeira angolana a criar um blog bilingue e multitematico, com notavel sucesso tanto a nivel local como global?!...

- Nele pontifica um grupo predominantemente de ascendencia Caboverdiana e/ou Saotomense, ou seja, o sub-grupo "crioulo" a quem o regime colonial portugues concedeu "direitos especiais" relativamente aos "indigenas" de Angola (como aqui, ou aqui, se pode constatar) - independentemente de alguns deles reclamarem ter participado, directa ou indirectamente, na "luta anti-colonial", o que nao significa necessariamente "luta de libertacao nacional" em todo e cada um caso e contexto especifico, uma vez que a luta contra o colonialismo e o fascismo foi transversal a todas as ex-colonias portuguesas e a varios extractos socio-politicos e comum a Portugal - nao tera' sido certamente por acaso que um deles, durante o PREC, liderava em Luanda os designados "Comites Amilcar Cabral" (CACs)... o que talvez explique a sua defesa, ainda que "(mal) encapotada" dos ideais da "recolonizacao"... - assim, como "nao empolar" o facto circunstancial de alguem como eu, que afirma "nao se identificar como crioula", viver fora do pais, ainda que por razoes de forca maior e originadas no proprio pais (...e, em grande medida, com a nefasta contribuicao - leia-se "empurrao"! - de alguns deles!...), ao contrario deles cujas "raizes mais profundas" sao frequentemente questionadas?!... E apesar de alguns deles terem vivido, ou ainda viverem permanentemente fora do pais, e em alguns casos ha' mais tempo do que eu - tendo alguns deles (viz. IM e EC) o topete de me dirigirem ataques nessa base a partir das suas 'catedras' no estrangeiro, onde teem vivido confortavelmente a maior parte das suas vidas!... Como nao apoiar, implicita ou explicitamente, como elementos desse grupo o teem feito, alguem como ACGM nas suas posturas sobre questoes como a lingua, a arte, a cultura, a identidade, a sexualidade das mulheres negras, a raca e o racismo?!...

- Nele pontifica um grupo que, por via de regra e quanto mais nao seja devido as suas inclinacoes "libertarias (de 'libertinagem'!) de esquerda" - onde, de resto, a pornografia figura "ideologicamente" como uma "forma superior de arte"!... -, nao tem propriamente o que se pode chamar vidas familiares e/ou sexuais "estaveis e regradas" - apesar de nos ultimos anos tenderem a gravitar a volta das instituicoes da Igreja Catolica, como a Radio Ecclesia e a Universidade Catolica de Angola, como aqui referi... E isso ja' era assim, e sobretudo (!), durante o PREC, em que se algo se pode dizer sobre a minha conduta nesse dominio e' que eu nunca fiz parte das suas 'orgias e bacanais': como, entao, nao tratar a todo o custo e a qualquer preco de devassar a minha vida privada em busca de "razoes para justificar" o ataque pornografico que me foi feito na SADC enquanto me inventavam um qualquer "relacionamento intimo" com o Secretario Executivo daquela organizacao?!... E, pelo caminho, tentar "desculpabilizar a irresponsabilidade paterna do pai do meu filho" (... coisa que nem ele proprio alguma vez ousou fazer!...), como RS fez tema recorrente no seu blog, embora finalmente tenha acabado por confessar que NAO ME CONHECE de facto: "(...) ela nao tinha nada que se armar em virgem estuprada que ficou gravida!... Afinal trata-se de alguem que ja' esteve muito perto da sarjeta!"... E, mais ainda, fazendo "vista grossa" aos ataques pornograficos de ACGM sobre mim?! Alias, para eles, todo este desaguizado com ACGM mais nao passou do que uma "sexualmente excitante" mud fight a preto e branco entre duas "miudas" que, para o 'positivo' ou o 'negativo', representam (...supostamente "sem quaisquer diferencas reais ou imaginarias" ...) as suas "fantasias mais profundas - reais ou imaginarias"!...
BUT: guess who, in spite of having won all rounds, ends up completely down in the mud at their hands?... A PRETA!!!

- Nele pontifica um grupo que se pretende afirmar como "campeao da democracia e dos direitos humanos": como aceitar que 'todo o mundo' como eu tenha protagonizado, independentemente (e ate' 'a revelia!) deles, alguns actos significativos na luta pela democracia multipartidaria, supra-etnica e supra-racial, pela liberalizacao economica e pelos direitos humanos, civicos e politicos dos Angolanos, passando pelas minhas contribuicoes para as lutas pela paz e a cidadania (sendo de notar que eles se mantiveram conspicuamente ausentes, quando nao a ele abertamente hostis, do movimento a volta do "Manifesto pelo Direito a Vida" e de outras actividades da Comunidade Angolana em prol da paz e da democracia que na altura tiveram lugar em Portugal, onde os seus membros mais proeminentes na altura residiam...), pela liberdade de imprensa ou a equidade/paridade do genero?!... Ou como "aceitar" que 'todo o mundo' como eu, que julgavam "dever estar 'cega, lobotomizada e incondicionalmente' ao seu servico", se permita pronunciar assim sobre a forma como eles reagiram a sua derrota e (quase) extincao nas ultimas legislativas?!...

- Nele pontifica um grupo com um numero significativo de economistas: como "aceitar" que 'todo o mundo' como eu tenha um grau de qualificacao em economia superior ao seu e obtido numa das mais reputadas escolas de economia do mundo (e sem qualquer apoio do estado angolano!) e que tenha exercido funcoes tecnicas e academico-profissionais ao nivel regional ou internacional (atraves de concurso publico e, nunca sera' demais nota-lo: sem qualquer apoio do estado angolano!...) que nenhum deles ainda exerceu?!... Como "mastigar" o facto de o meu artigo "Angola, Petroleo e Economia Pos-Conflito: Que Fazer?" e, em geral, a minha serie de cronicas para o SA, tenham tido o impacto que tiveram, tanto dentro, como fora do pais?!... Como "engolir" o 'atrevimento' de 'todo o mundo' como eu questionar um dos seus lideres maximos nestes termos?!... Ou que tenha tido o "topete" de lhes fazer "sugestoes" como esta ou esta?!...

Perante tudo isso, nao me causa muita surpresa que eu apareca agora nas suas "parangonas" apelidada de "predadora!": era preciso "linchar-me" em praca publica de uma vez por todas! ... E' que, afinal de contas, tal como durante o PREC, a intromissao abusiva na vida privada e familiar (... para o que, infelizmente, encontram, ou teem sabido forjar, terreno fertil, na minha familia...), a manipulacao e a chantagem emocional, a intriga, a calunia, a difamacao, a conspiracao e o assassinio de caracter sempre foram as suas armas predilectas para o aniquilamento, real ou virtual, dos seus adversarios - reais ou imaginarios!

... "Mudanca para Melhor"?!... "Democracia"?!... "Tolerancia Politica"?!... "Modernidade"?!... "Esquerda Solidaria"?!... "Valores e Principios Morais, Eticos e Deontologicos"?!... "Intelectualismo"?!... "Preocupacoes com as Questoes de Genero, Raca e Etnia"?!... "Respeito pela Identidade e a Diversidade"?!... "Respeito pelas Mulheres, Criancas e Jovens"?!... "Defesa da Liberdade de Expressao e Opiniao"?!... "Defesa dos Mais Elementares Direitos Humanos e de Cidadania"?!...

[imagem daqui]

Meus caro/as, so' nao vos digo NAO ME FACAM RIR porque so' sao capazes de me fazer chorar, nem CRESCAM E APARECAM porque, como alias fazem sempre muita questao de frizar e "impor", sao todo/as muito "kotas", mais velho/as e "muito mais importantes" do que eu, mas, do alto da SOBRIEDADE e da MATURIDADE dos meus 50 anos + 1 de vida, sempre vos digo:


ENOUGH IS ENOUGH!!!

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Thursday, 17 December 2009

FALANDO DE INTELECTUALISMO(S) (IV)



Dada a exiguidade de tempo no run-up para a quadra festiva e porque nao a quero transportar para o proximo ano, dou aqui por finda esta refeicao de forma diferente da que havia inicialmente planeado - com uma sucessao de pelo menos mais dois pratos principais, sobremesa, cafe', digestivo e talvez um cigarro ou um charuto.

Coloco, em vez disso, a vossa disposicao um bem mais pratico e opcional buffet composto pelos seguintes kitutes que me parecem particularmente merecedores de alguma atencao no contexto que nos trouxe a esta mesa:

Intellectualism

Intellectualism is any of a number of views regarding the use or development of the intellect or the practice of being an intellectual. In non-specialized contexts, the term "intellectualism" is often used to describe an attitude of devotion or high regard for intellectual pursuits. The term is sometimes used to name the view in philosophy that is more often called "rationalism", the view that knowledge largely or wholly is derived from reason or reasoning. The term can carry negative connotations of two kinds: (1) single-mindedness or "too much attention to thinking" and/or (2) emotional coldness or the absence of emotion.

Female Public Intellectuals

There are a number of explanations for the lack of female public intellectuals as compared to their male counterparts. These explanations address issues such as institutionalized discrimination within the academy, the problems which arise from female intellectuals who strongly advocate feminist ideology and theory and the impact of the media and academy in the conceptualization of 'woman as her body'.

Marxism and Intellectuals

(...) Marx's theory of the rise of the proletariat was to rely on the intellectuals of that historical period. (...) In this situation, as with other areas of society, it is the intellectuals, not the proletariat, who are to define the emancipation of the workers. Lenin also maintained that the ideology of socialism was beyond the comprehension of the working classes. The intellectual level which was necessary for the development of such ideologies was, he maintained, out of the reach of the average worker.

Economic Liberal and Classical Liberal Views of Intellectuals

Every intellectual believes in freedom for himself, but he’s opposed to freedom for others... He thinks... there ought to be a central planning board that will establish social priorities.
(Milton Friedman)

Scientific Method

Scientific method refers to a body of techniques for investigating phenomena, acquiring new knowledge, or correcting and integrating previous knowledge. To be termed scientific, a method of inquiry must be based on gathering observable, empirical and measurable evidence subject to specific principles of reasoning.
A scientific method consists of the collection of data through observation and experimentation, and the formulation and testing of hypotheses

Bias

Bias is a term used to describe a tendency or preference towards a particular perspective, ideology or result, when the tendency interferes with the ability to be impartial, unprejudiced, or objective. In other words, bias is generally seen as a 'one-sided' perspective. The term biased refers to a person or group who is judged to exhibit bias. It is used to describe an attitude, judgment, or behavior that is influenced by a prejudice. Bias can be unconscious or conscious in awareness. Having a bias is part of a normal development. Labeling someone as biased in some regard implies they need a greater or more flexible perspective in that area, or that they need to consider more deeply the context.

Public Policy Debate

Like Sartre and Noam Chomsky, many public intellectuals hold knowledge across a vast array of subjects including: the international world order, the political and economic organisation of contemporary society, the institutional and legal frameworks that regulate the lives of ordinary citizens, the educational system, the media networks that control and disseminate information.

The role of a public intellectual may be to connect scholarly research with public policy. This process necessitates a dialogue between those in the academic sphere and the public, meant to bridge the gap which still exists between the more homogeneous world of academia and the diverse public sphere. It has been argued that social scientists who are well aware of the various thresholds crossed in passing from academic to public policy adviser are much more effective.

Ethics

Ethics (also known as moral philosophy) is a branch of philosophy which seeks to address questions about morality; that is, about concepts like good and bad, right and wrong, justice, virtue, etc.

Intellectual Rigour

An attempted short definition of intellectual rigour might be that no suspicion of double standard be allowed: uniform principles should be applied. This is a test of consistency, over cases, and to individuals or institutions (including the speaker, the speaker's country and so on). Consistency can be at odds here with a forgiving attitude, adaptability, and the need to take precedent with a pinch of salt.

Intellectual Honesty

Intellectual honesty is generally a best effort approach to solving problems in academia. This can be characterized by an unbiased, honest attitude, which can be displayed in a number of different ways:

One's personal beliefs do not interfere with the pursuit of truth;
Relevant facts and information are not purposefully omitted even when such things may contradict one's hypothesis;
Facts are presented in an unbiased manner, and not twisted to give misleading impressions or to support one view over another ;
References are acknowledged where possible, and the attribution of another's work to oneself is avoided.

Intellectual Dishonesty

Intellectual dishonesty is dishonesty in performing intellectual activities like thought or communication. Examples are:

the advocacy of a position which the advocate knows or believes to be false or misleading;
the conscious omission of aspects of the truth known or believed to be relevant in the particular context.

Pseudo-Intellectuals

The historic role of intellectuals, if you look, unfortunately, as far back as you go, has been to support power systems and to justify their atrocities. (Noam Chomsky)

Pedants

A pedant is a person who is overly concerned with formalism and precision, or who makes a show of his learning.

*****

E, para terminar, sugiro-lhes um "passeio higienico" por este case study.

Boa Digestao!





Dada a exiguidade de tempo no run-up para a quadra festiva e porque nao a quero transportar para o proximo ano, dou aqui por finda
esta refeicao de forma diferente da que havia inicialmente planeado - com uma sucessao de pelo menos mais dois pratos principais, sobremesa, cafe', digestivo e talvez um cigarro ou um charuto.

Coloco, em vez disso, a vossa disposicao um bem mais pratico e opcional buffet composto pelos seguintes kitutes que me parecem particularmente merecedores de alguma atencao no contexto que nos trouxe a esta mesa:

Intellectualism

Intellectualism is any of a number of views regarding the use or development of the intellect or the practice of being an intellectual. In non-specialized contexts, the term "intellectualism" is often used to describe an attitude of devotion or high regard for intellectual pursuits. The term is sometimes used to name the view in philosophy that is more often called "rationalism", the view that knowledge largely or wholly is derived from reason or reasoning. The term can carry negative connotations of two kinds: (1) single-mindedness or "too much attention to thinking" and/or (2) emotional coldness or the absence of emotion.

Female Public Intellectuals

There are a number of explanations for the lack of female public intellectuals as compared to their male counterparts. These explanations address issues such as institutionalized discrimination within the academy, the problems which arise from female intellectuals who strongly advocate feminist ideology and theory and the impact of the media and academy in the conceptualization of 'woman as her body'.

Marxism and Intellectuals

(...) Marx's theory of the rise of the proletariat was to rely on the intellectuals of that historical period. (...) In this situation, as with other areas of society, it is the intellectuals, not the proletariat, who are to define the emancipation of the workers. Lenin also maintained that the ideology of socialism was beyond the comprehension of the working classes. The intellectual level which was necessary for the development of such ideologies was, he maintained, out of the reach of the average worker.

Economic Liberal and Classical Liberal Views of Intellectuals

Every intellectual believes in freedom for himself, but he’s opposed to freedom for others... He thinks... there ought to be a central planning board that will establish social priorities.
(Milton Friedman)

Scientific Method

Scientific method refers to a body of techniques for investigating phenomena, acquiring new knowledge, or correcting and integrating previous knowledge. To be termed scientific, a method of inquiry must be based on gathering observable, empirical and measurable evidence subject to specific principles of reasoning.
A scientific method consists of the collection of data through observation and experimentation, and the formulation and testing of hypotheses

Bias

Bias is a term used to describe a tendency or preference towards a particular perspective, ideology or result, when the tendency interferes with the ability to be impartial, unprejudiced, or objective. In other words, bias is generally seen as a 'one-sided' perspective. The term biased refers to a person or group who is judged to exhibit bias. It is used to describe an attitude, judgment, or behavior that is influenced by a prejudice. Bias can be unconscious or conscious in awareness. Having a bias is part of a normal development. Labeling someone as biased in some regard implies they need a greater or more flexible perspective in that area, or that they need to consider more deeply the context.

Public Policy Debate

Like Sartre and Noam Chomsky, many public intellectuals hold knowledge across a vast array of subjects including: the international world order, the political and economic organisation of contemporary society, the institutional and legal frameworks that regulate the lives of ordinary citizens, the educational system, the media networks that control and disseminate information.

The role of a public intellectual may be to connect scholarly research with public policy. This process necessitates a dialogue between those in the academic sphere and the public, meant to bridge the gap which still exists between the more homogeneous world of academia and the diverse public sphere. It has been argued that social scientists who are well aware of the various thresholds crossed in passing from academic to public policy adviser are much more effective.

Ethics

Ethics (also known as moral philosophy) is a branch of philosophy which seeks to address questions about morality; that is, about concepts like good and bad, right and wrong, justice, virtue, etc.

Intellectual Rigour

An attempted short definition of intellectual rigour might be that no suspicion of double standard be allowed: uniform principles should be applied. This is a test of consistency, over cases, and to individuals or institutions (including the speaker, the speaker's country and so on). Consistency can be at odds here with a forgiving attitude, adaptability, and the need to take precedent with a pinch of salt.

Intellectual Honesty

Intellectual honesty is generally a best effort approach to solving problems in academia. This can be characterized by an unbiased, honest attitude, which can be displayed in a number of different ways:

One's personal beliefs do not interfere with the pursuit of truth;
Relevant facts and information are not purposefully omitted even when such things may contradict one's hypothesis;
Facts are presented in an unbiased manner, and not twisted to give misleading impressions or to support one view over another ;
References are acknowledged where possible, and the attribution of another's work to oneself is avoided.

Intellectual Dishonesty

Intellectual dishonesty is dishonesty in performing intellectual activities like thought or communication. Examples are:

the advocacy of a position which the advocate knows or believes to be false or misleading;
the conscious omission of aspects of the truth known or believed to be relevant in the particular context.

Pseudo-Intellectuals

The historic role of intellectuals, if you look, unfortunately, as far back as you go, has been to support power systems and to justify their atrocities. (Noam Chomsky)

Pedants

A pedant is a person who is overly concerned with formalism and precision, or who makes a show of his learning.

*****

E, para terminar, sugiro-lhes um "passeio higienico" por este case study.

Boa Digestao!



Tuesday, 17 November 2009

CLAUDE LEVI-STRAUSS REVISITADO

O Marxismo parecia-me evoluir no mesmo sentido da geologia e da psicanalise… Todos os tres mostravam que o entendimento consiste na reducao de um tipo de realidade a um outro; que a verdadeira realidade nunca e’ a mais obvia das realidades… em todos os casos, o problema e’ o mesmo: a relacao… entre a razao e a percepcao sensorial…

[Claude Levi-Strauss, 1908 – 2009]

Na pratica, a importancia da ideologia marxista para uma compreensao de Levi-Strauss e' dificil de determinar. O uso da dialetica por parte de Levi-Strauss, com a sequencia formal de tese-antitese-sintese, e' mais hegeliano do que marxista e a sua atitude para com a historia parece ser inteiramente contraria ao dogma marxista. Mas o quadro fica bastante confuso em virtude da interaccao dialetica entre o Existencialismo de Sartre e o Estruturalismo de Levi-Strauss.


Levi-Strauss encontrou-se pela primeira vez com Sartre em pessoa em Nova Iorque, corria o ano de 1946, mas ambos tinham relacoes comuns anteriores. Assim, Simone de Beauvoir e Merleau Ponty foram ambos estudantes normalistas com Levi-Strauss no Lycee Janson de Sailly (P.C.). Artigos de Levi-Strauss foram publicados amiude na revista de Sartre Les Temps Modernes mas, ao que parece, as relacoes pessoais entre os dois homens, por volta de 1955, estavam nitidamente tensas. Em Tristes Tropiques, Levi-Strauss comenta sobre o Existencialismo que:

Promover as preocupacoes particulares a categoria de problemas filosoficos e' perigoso e pode redundar numa especie de filosofia de vendeuse (W.W.: 62).

E todo o Capitulo 9 de La Pensee Sauvage e' dedicado a um ataque polemico contra a Critique de La Raison Dialectique, de Sartre. Levi-Strauss manifesta um especial desdem pela opiniao (aparente) de Sartre de que os membros de sociedades exoticas devem, necessariamente, ser incapazes de analise intelectual e dos poderes de demonstracao racional.

(...)

…a segunda fase do nosso empreendimento e’ que, embora nao nos apeguemos a elementos de qualquer sociedade, em particular, fazemos uso de todos eles para distinguir os principios da vida social que podem ser aplicados com o objectivo de reformar os nossos proprios costumes daqueles principios que regem os costumes que nos sao inteiramente estranhos… A nossa propria sociedade e’ a unica que podemos transformar e, apesar disso, nao destruir, dado que as mudancas introduzidas proviriam de dentro (W.W.: 391-2)

Como esta passagem nos mostra, Levi-Strauss e’ um visionario e o problema com os que teem visoes e’ que acham muito dificil reconhecer o mundo prosaico e trivial que o resto dos mortais ve a sua volta. Levi-Strauss empenha-se na sua antropologia porque concebe os povos primitivos como “modelos reduzidos” do que e’ essencial em toda a humanidade; mas os nobres selvagens resultantes, a maneira de Rousseau, habitam um mundo muito distante da imundicie e da miseria que e’ o terreno normalmente pisado pelo antropologo de campo.

Isto e’ importante. Um estudo cuidadoso de Tristes Tropiques revela que, em todo o curso de suas viagens brasileiras, Levi-Strauss nunca pode permanecer num lugar por mais de algumas semanas de cada vez e jamais esteve em condicoes de conversar facilmente com qualquer dos seus informantes nativos, na linguagem nativa deles. (…) Levi-Strauss nunca teve a oportunidade de sofrer essa experiencia desmoralizante nem se viu a bracos com as questoes envolvidas.

Existem muitas especies de investigacao antropologica mas o trabalho intensivo de campo, no estilo de Malinowski, empregando o vernaculo (...) e' um procedimento inteiramente diferente da cuidadosa mas menos abrangente descricao de maneiras e costumes, baseada no uso de informantes e interpretes especiais, que foi a fonte original para a maioria das observacoes etnograficas em que Levi-Strauss, como os seus predecessores frazerianos, preferiu confiar.

Em todos os seus escritos, Levi-Strauss pressupoe que o “modelo” simples, do primeiro estagio, gerado pelas impressoes originais do observador, corresponde fielmente a uma autentica (e muito importante) realidade etnografica – o “modelo consciente” que esta’ presente no espirito dos informantes do antropologo. Em contraste, aos antropologos que tiveram uma gama muito mais ampla e variada de experiencias de campo parece por demais obvio que esse modelo inicial pouco mais e’ do que uma amalgama de pressuposicoes tendenciosas do proprio observador.

A este respeito, muitos argumentaram que Levi-Strauss, como Frazer, e’ insuficientemente critico no tocante ao seu material basico de informacao. Ele parece ser capaz de descobrir justamente aquilo que estava procurando. Qualquer prova, por muito duvidosa que seja, e’ aceitavel – desde que se ajuste as expectativas logicamente calculadas; mas, sempre que os dados contrariam a teoria, Levi-Strauss contornara’ as provas ou mobilizara’ todos os recursos de sua poderosa invectiva para que a heresia seja expulsa, sem apelacao! Por isso e’ conveniente recordar que a formacao primordial de Levi-Strauss foi em Filosofia e Direito; ele comporta-se, sistematicamente, mais como um advogado defendendo uma causa do que como um cientista em busca da verdade ultima.

Mas o filosofo-advogado e’ tambem um poeta. The Seven Types of Ambiguity (1931), de William Empson, pertence a uma classe de critica literaria que e' inteiramente hostil aos estruturalistas contemporaneos; nao obstante, serve como excelente leitura introdutoria para quem quer que se candidate a estudar Levi-Strauss. Realmente, Levi-Strauss nao publicou poesia mas toda a sua atitude em relacao aos sons e significados, as combinacoes e permutas, dos elementos da linguagem denuncia a sua natureza. (...) Isso e' o terreno do poeta e os que se impacientam com a tortuosa ginastica da argumentacao de Levi-Strauss - como acontece com a maioria dos que o leem - precisam lembrar-se de que ele compartilha com Freud de uma capacidade sumamente extraordinaria: a de nos conduzir, sem que tenhamos consciencia disso, ate' aos mais profundos recessos das nossas emocoes secretas.

(…) Diga-se de passagem que todo o corpus dos escritos de Levi-Strauss esta’ repleto de referencias obliquas e jogos de palavras, que recordam a formula simbolista de Verlaine, pas de couleur, rien que la nuance. Davy (1965: 54) observou que os poetas simbolistas “insistiam em que a funcao da linguagem poetica e, particularmente das imagens, nao era ilustrar ideias mas consubstanciar uma experiencia indefinivel de qualquer outro modo”. "


[Copyright © Edmund Leach, 1970]


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O Marxismo parecia-me evoluir no mesmo sentido da geologia e da psicanalise… Todos os tres mostravam que o entendimento consiste na reducao de um tipo de realidade a um outro; que a verdadeira realidade nunca e’ a mais obvia das realidades… em todos os casos, o problema e’ o mesmo: a relacao… entre a razao e a percepcao sensorial…

[Claude Levi-Strauss, 1908 – 2009]

Na pratica, a importancia da ideologia marxista para uma compreensao de Levi-Strauss e' dificil de determinar. O uso da dialetica por parte de Levi-Strauss, com a sequencia formal de tese-antitese-sintese, e' mais hegeliano do que marxista e a sua atitude para com a historia parece ser inteiramente contraria ao dogma marxista. Mas o quadro fica bastante confuso em virtude da interaccao dialetica entre o Existencialismo de Sartre e o Estruturalismo de Levi-Strauss.


Levi-Strauss encontrou-se pela primeira vez com Sartre em pessoa em Nova Iorque, corria o ano de 1946, mas ambos tinham relacoes comuns anteriores. Assim, Simone de Beauvoir e Merleau Ponty foram ambos estudantes normalistas com Levi-Strauss no Lycee Janson de Sailly (P.C.). Artigos de Levi-Strauss foram publicados amiude na revista de Sartre Les Temps Modernes mas, ao que parece, as relacoes pessoais entre os dois homens, por volta de 1955, estavam nitidamente tensas. Em Tristes Tropiques, Levi-Strauss comenta sobre o Existencialismo que:

Promover as preocupacoes particulares a categoria de problemas filosoficos e' perigoso e pode redundar numa especie de filosofia de vendeuse (W.W.: 62).

E todo o Capitulo 9 de La Pensee Sauvage e' dedicado a um ataque polemico contra a Critique de La Raison Dialectique, de Sartre. Levi-Strauss manifesta um especial desdem pela opiniao (aparente) de Sartre de que os membros de sociedades exoticas devem, necessariamente, ser incapazes de analise intelectual e dos poderes de demonstracao racional.

(...)

…a segunda fase do nosso empreendimento e’ que, embora nao nos apeguemos a elementos de qualquer sociedade, em particular, fazemos uso de todos eles para distinguir os principios da vida social que podem ser aplicados com o objectivo de reformar os nossos proprios costumes daqueles principios que regem os costumes que nos sao inteiramente estranhos… A nossa propria sociedade e’ a unica que podemos transformar e, apesar disso, nao destruir, dado que as mudancas introduzidas proviriam de dentro (W.W.: 391-2)

Como esta passagem nos mostra, Levi-Strauss e’ um visionario e o problema com os que teem visoes e’ que acham muito dificil reconhecer o mundo prosaico e trivial que o resto dos mortais ve a sua volta. Levi-Strauss empenha-se na sua antropologia porque concebe os povos primitivos como “modelos reduzidos” do que e’ essencial em toda a humanidade; mas os nobres selvagens resultantes, a maneira de Rousseau, habitam um mundo muito distante da imundicie e da miseria que e’ o terreno normalmente pisado pelo antropologo de campo.

Isto e’ importante. Um estudo cuidadoso de Tristes Tropiques revela que, em todo o curso de suas viagens brasileiras, Levi-Strauss nunca pode permanecer num lugar por mais de algumas semanas de cada vez e jamais esteve em condicoes de conversar facilmente com qualquer dos seus informantes nativos, na linguagem nativa deles. (…) Levi-Strauss nunca teve a oportunidade de sofrer essa experiencia desmoralizante nem se viu a bracos com as questoes envolvidas.

Existem muitas especies de investigacao antropologica mas o trabalho intensivo de campo, no estilo de Malinowski, empregando o vernaculo (...) e' um procedimento inteiramente diferente da cuidadosa mas menos abrangente descricao de maneiras e costumes, baseada no uso de informantes e interpretes especiais, que foi a fonte original para a maioria das observacoes etnograficas em que Levi-Strauss, como os seus predecessores frazerianos, preferiu confiar.

Em todos os seus escritos, Levi-Strauss pressupoe que o “modelo” simples, do primeiro estagio, gerado pelas impressoes originais do observador, corresponde fielmente a uma autentica (e muito importante) realidade etnografica – o “modelo consciente” que esta’ presente no espirito dos informantes do antropologo. Em contraste, aos antropologos que tiveram uma gama muito mais ampla e variada de experiencias de campo parece por demais obvio que esse modelo inicial pouco mais e’ do que uma amalgama de pressuposicoes tendenciosas do proprio observador.

A este respeito, muitos argumentaram que Levi-Strauss, como Frazer, e’ insuficientemente critico no tocante ao seu material basico de informacao. Ele parece ser capaz de descobrir justamente aquilo que estava procurando. Qualquer prova, por muito duvidosa que seja, e’ aceitavel – desde que se ajuste as expectativas logicamente calculadas; mas, sempre que os dados contrariam a teoria, Levi-Strauss contornara’ as provas ou mobilizara’ todos os recursos de sua poderosa invectiva para que a heresia seja expulsa, sem apelacao! Por isso e’ conveniente recordar que a formacao primordial de Levi-Strauss foi em Filosofia e Direito; ele comporta-se, sistematicamente, mais como um advogado defendendo uma causa do que como um cientista em busca da verdade ultima.

Mas o filosofo-advogado e’ tambem um poeta. The Seven Types of Ambiguity (1931), de William Empson, pertence a uma classe de critica literaria que e' inteiramente hostil aos estruturalistas contemporaneos; nao obstante, serve como excelente leitura introdutoria para quem quer que se candidate a estudar Levi-Strauss. Realmente, Levi-Strauss nao publicou poesia mas toda a sua atitude em relacao aos sons e significados, as combinacoes e permutas, dos elementos da linguagem denuncia a sua natureza. (...) Isso e' o terreno do poeta e os que se impacientam com a tortuosa ginastica da argumentacao de Levi-Strauss - como acontece com a maioria dos que o leem - precisam lembrar-se de que ele compartilha com Freud de uma capacidade sumamente extraordinaria: a de nos conduzir, sem que tenhamos consciencia disso, ate' aos mais profundos recessos das nossas emocoes secretas.

(…) Diga-se de passagem que todo o corpus dos escritos de Levi-Strauss esta’ repleto de referencias obliquas e jogos de palavras, que recordam a formula simbolista de Verlaine, pas de couleur, rien que la nuance. Davy (1965: 54) observou que os poetas simbolistas “insistiam em que a funcao da linguagem poetica e, particularmente das imagens, nao era ilustrar ideias mas consubstanciar uma experiencia indefinivel de qualquer outro modo”. "


[Copyright © Edmund Leach, 1970]


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Thursday, 29 October 2009

OLHARES DIVERSOS (XV)



FERNANDO MOURAO ao JA

(…)
Aqui em Angola ou se dá o salto para altíssima tecnologia, principalmente para as Tecnologias de Informação e Comunicação ou seremos sempre importadores das ideias dos outros. Ficar só como receptor não dá. O Brasil rompeu com essa ideia depois da II Guerra Mundial, a Índia hoje tem tecnologia altamente sofisticada, o Paquistão também, a China está a lutar por isso. Que se produza matérias-primas alimentares é bom e é preciso, mas, do ponto de vista tecnológico, isso não serve para subir degraus. Ou partimos para tecnologias de ponta ou estamos sempre a importar técnicos especializados para fazer aquilo que não sabemos.
(…)
Acho que temos de apostar no ensino e na tecnologia. Mas num ensino que não seja uma reposição deste ensino tradicional do tempo colonial. Temos de ir para um ensino altamente qualificado e formar quadros.Sou professor de Direito e vejo muitos alunos com códigos na mão e eu digo-lhes: podem deitar fora o código. Eles ficam admirados. Entendo que o necessário é eles terem a racionalidade para entenderem o que está no código e, principalmente hoje, nas convenções internacionais.
(…)
Formação de quadros e reforma do ensino. O actual quadro do ensino em Angola é um quadro europeu do século passado, mas de europeu continental. Angola tem vizinhos que falam francês e inglês. Eu apostaria muito mais numa aproximação aos anglo-saxónicos. É preciso criar universidades bilingues pelas regiões do país e, de uma vez por todas, pôr os angolanos a falarem inglês, que é, cada vez mais, a língua universal. Enquanto os angolanos falarem só português e a língua materna ou, os que estão no Norte, um pouco de francês, estão sempre fora do comércio mundial. Hoje, quem está no comércio mundial é a Sonangol, mas não se pode ver o futuro de Angola só a partir do petróleo. O petróleo possibilitou a renovação das Forças Armadas, a reabilitação dos aeroportos, das estradas, mas se não se desenvolver uma classe média produtiva de pequenos e médios industriais eficientes e produtores, o país não vai para diante.
(…)
Temos de ultrapassar esta fase e passarmos a ser produtores. Para isso, o país precisa de quadros. Enquanto tiver um ensino tradicional, em que o jovem sai da universidade e não sabe nada, como é que vai conseguir criar?
(…)
O ensino técnico tem de arrancar juntamente com o ensino universitário. Mas que ensino universitário? De alunos que ficam por aí a papaguear códigos? Ou que vão ser preparados através de métodos de ensino racionais para que possam pensar?
(…)
Ou se aposta com coragem na formação de quadros ou não teremos desenvolvimento. Vejo Angola como uma nação em crescimento, que saiu do inchaço para um certo crescimento. Só lhe falta dar um empurrãozinho, que é a aposta no ensino. A saída para este país está na formação de quadros. Agora, há a mania de falar em desenvolvimento, mas muitos não sabem o que é isso. Só hoje já ouvi falar mais de 50 vezes sobre desenvolvimento sustentado, mas metade das pessoas não sabe o que é.
(…)
Se o país tiver boa formação de economistas, não apenas de econometristas. Acho que a matemática, as línguas e a filosofia deviam ser disciplinas obrigatórias para as pessoas abrirem o pensamento, saberem pensar.
(…)
Já chega de culpar os outros. Cada um de nós é que tem de sair do buraco. É preciso consciência e optar por um ensino racional, modelo anglo-saxónico. De contrário estaremos a formar papagaios.

[Aqui]


N.B.: Voltarei, tao logo quanto possivel, a esta entrevista, com alguns comentarios, nomeadamente as observacoes do Professor Mourão (que daqui saudo na distancia que vai ate' a este simposio, onde o conheci pessoalmente) sobre os planos integrativos da SADC:



P- Quais considera serem hoje os pontos fortes e os pontos fracos de Angola?

R- O ponto forte de Angola é ser um país fiável, que tem uma unidade e uma vocação universal. Dentro das suas particularidades faz um equilíbrio entre o lado tradicional, o moderno e a concepção nacional e regional. Hoje, estamos na dúvida se vamos ficar na África Central, na Austral ou nas duas. Sem querer ser agradável ao Presidente José Eduardo dos Santos, vejo nele uma qualidade extraordinária, assim como Agostinho Neto, que era o homem da praxis, de aguentar a luta. O Presidente José Eduardo dos Santos é um homem que criou um quarto poder. O que é isso? Existe o Legislativo, o Executivo e o Judicial. No Brasil, até há um século, tínhamos um quarto poder que é o moderador. Vejo na presença do Presidente José Eduardo dos Santos um elemento moderador da política interna. Este poder moderador do Presidente José Eduardo dos Santos está a permitir, de certa forma, um equilíbrio regional e internacional, e uma prudência da parte dele não ir na conversa de modelos. Agora inventaram transformar a SADC num mercado comum, começando por uma região aduaneira.

P – A ideia de um mercado comum não é benéfica para Angola?

R - Será bom quando os países da SADC tiverem condições de formar essa região aduaneira. O facto de Angola não ir nessa conversa é benéfico. Por exemplo, o Mercosul é, ainda hoje, uma união aduaneira imperfeita, porque há situações diversas em cada um dos países que o integra. Na Europa, há a Alemanha que pagou a conta dos que não têm dinheiro. Em África isso não existe. Têm de se dar compensações, como se deu na Europa. Aqui, em África, existe uma porção de países que ainda dependem das Alfândegas. Se acabam com elas, onde é que vão buscar dinheiro para pagar o médico, o polícia, o professor? Que isso seja uma meta, estou de acordo.

P– Qual seria afinal o papel da SADC?

R – Um aprendizado integrativo, que leva a uma prática integrativa aos poucos. No fundo, é a grande proposta das Nações Unidas, de não ficar só pelos acordos de natureza bilaterais. Uma coisa crucial que a SADC está a fazer é a integração dos sistemas das redes eléctricas dos países que compõem a região, certas políticas aduaneiras, certas políticas de rodovias, o problema central da água, que Angola tem resposta na mão. A África do Sul não tem água e os outros também não. Este é um problema seríssimo de que ninguém quer falar. A SADC, aos poucos, vai criando legislação, com esforços diplomáticos, no sentido de, daqui a alguns anos, se poder fazer, então, a União Aduaneira, mas não uma União Aduaneira só de conversa fiada. Penso que isso pode ser feito dentro de 20 anos, mais ou menos. Ainda hoje ouvi falar no NEPAD e apanhei um susto. Sinceramente, não acredito nisso. É uma ideia muito bonita, mas o que é que se fez em nome da NEPAD? Há alguma indústria criada em nome do NEPAD? Claro que não.



FERNANDO MOURAO ao JA

(…)
Aqui em Angola ou se dá o salto para altíssima tecnologia, principalmente para as Tecnologias de Informação e Comunicação ou seremos sempre importadores das ideias dos outros. Ficar só como receptor não dá. O Brasil rompeu com essa ideia depois da II Guerra Mundial, a Índia hoje tem tecnologia altamente sofisticada, o Paquistão também, a China está a lutar por isso. Que se produza matérias-primas alimentares é bom e é preciso, mas, do ponto de vista tecnológico, isso não serve para subir degraus. Ou partimos para tecnologias de ponta ou estamos sempre a importar técnicos especializados para fazer aquilo que não sabemos.
(…)
Acho que temos de apostar no ensino e na tecnologia. Mas num ensino que não seja uma reposição deste ensino tradicional do tempo colonial. Temos de ir para um ensino altamente qualificado e formar quadros.Sou professor de Direito e vejo muitos alunos com códigos na mão e eu digo-lhes: podem deitar fora o código. Eles ficam admirados. Entendo que o necessário é eles terem a racionalidade para entenderem o que está no código e, principalmente hoje, nas convenções internacionais.
(…)
Formação de quadros e reforma do ensino. O actual quadro do ensino em Angola é um quadro europeu do século passado, mas de europeu continental. Angola tem vizinhos que falam francês e inglês. Eu apostaria muito mais numa aproximação aos anglo-saxónicos. É preciso criar universidades bilingues pelas regiões do país e, de uma vez por todas, pôr os angolanos a falarem inglês, que é, cada vez mais, a língua universal. Enquanto os angolanos falarem só português e a língua materna ou, os que estão no Norte, um pouco de francês, estão sempre fora do comércio mundial. Hoje, quem está no comércio mundial é a Sonangol, mas não se pode ver o futuro de Angola só a partir do petróleo. O petróleo possibilitou a renovação das Forças Armadas, a reabilitação dos aeroportos, das estradas, mas se não se desenvolver uma classe média produtiva de pequenos e médios industriais eficientes e produtores, o país não vai para diante.
(…)
Temos de ultrapassar esta fase e passarmos a ser produtores. Para isso, o país precisa de quadros. Enquanto tiver um ensino tradicional, em que o jovem sai da universidade e não sabe nada, como é que vai conseguir criar?
(…)
O ensino técnico tem de arrancar juntamente com o ensino universitário. Mas que ensino universitário? De alunos que ficam por aí a papaguear códigos? Ou que vão ser preparados através de métodos de ensino racionais para que possam pensar?
(…)
Ou se aposta com coragem na formação de quadros ou não teremos desenvolvimento. Vejo Angola como uma nação em crescimento, que saiu do inchaço para um certo crescimento. Só lhe falta dar um empurrãozinho, que é a aposta no ensino. A saída para este país está na formação de quadros. Agora, há a mania de falar em desenvolvimento, mas muitos não sabem o que é isso. Só hoje já ouvi falar mais de 50 vezes sobre desenvolvimento sustentado, mas metade das pessoas não sabe o que é.
(…)
Se o país tiver boa formação de economistas, não apenas de econometristas. Acho que a matemática, as línguas e a filosofia deviam ser disciplinas obrigatórias para as pessoas abrirem o pensamento, saberem pensar.
(…)
Já chega de culpar os outros. Cada um de nós é que tem de sair do buraco. É preciso consciência e optar por um ensino racional, modelo anglo-saxónico. De contrário estaremos a formar papagaios.

[Aqui]


N.B.: Voltarei, tao logo quanto possivel, a esta entrevista, com alguns comentarios, nomeadamente as observacoes do Professor Mourão (que daqui saudo na distancia que vai ate' a este simposio, onde o conheci pessoalmente) sobre os planos integrativos da SADC:



P- Quais considera serem hoje os pontos fortes e os pontos fracos de Angola?

R- O ponto forte de Angola é ser um país fiável, que tem uma unidade e uma vocação universal. Dentro das suas particularidades faz um equilíbrio entre o lado tradicional, o moderno e a concepção nacional e regional. Hoje, estamos na dúvida se vamos ficar na África Central, na Austral ou nas duas. Sem querer ser agradável ao Presidente José Eduardo dos Santos, vejo nele uma qualidade extraordinária, assim como Agostinho Neto, que era o homem da praxis, de aguentar a luta. O Presidente José Eduardo dos Santos é um homem que criou um quarto poder. O que é isso? Existe o Legislativo, o Executivo e o Judicial. No Brasil, até há um século, tínhamos um quarto poder que é o moderador. Vejo na presença do Presidente José Eduardo dos Santos um elemento moderador da política interna. Este poder moderador do Presidente José Eduardo dos Santos está a permitir, de certa forma, um equilíbrio regional e internacional, e uma prudência da parte dele não ir na conversa de modelos. Agora inventaram transformar a SADC num mercado comum, começando por uma região aduaneira.

P – A ideia de um mercado comum não é benéfica para Angola?

R - Será bom quando os países da SADC tiverem condições de formar essa região aduaneira. O facto de Angola não ir nessa conversa é benéfico. Por exemplo, o Mercosul é, ainda hoje, uma união aduaneira imperfeita, porque há situações diversas em cada um dos países que o integra. Na Europa, há a Alemanha que pagou a conta dos que não têm dinheiro. Em África isso não existe. Têm de se dar compensações, como se deu na Europa. Aqui, em África, existe uma porção de países que ainda dependem das Alfândegas. Se acabam com elas, onde é que vão buscar dinheiro para pagar o médico, o polícia, o professor? Que isso seja uma meta, estou de acordo.

P– Qual seria afinal o papel da SADC?

R – Um aprendizado integrativo, que leva a uma prática integrativa aos poucos. No fundo, é a grande proposta das Nações Unidas, de não ficar só pelos acordos de natureza bilaterais. Uma coisa crucial que a SADC está a fazer é a integração dos sistemas das redes eléctricas dos países que compõem a região, certas políticas aduaneiras, certas políticas de rodovias, o problema central da água, que Angola tem resposta na mão. A África do Sul não tem água e os outros também não. Este é um problema seríssimo de que ninguém quer falar. A SADC, aos poucos, vai criando legislação, com esforços diplomáticos, no sentido de, daqui a alguns anos, se poder fazer, então, a União Aduaneira, mas não uma União Aduaneira só de conversa fiada. Penso que isso pode ser feito dentro de 20 anos, mais ou menos. Ainda hoje ouvi falar no NEPAD e apanhei um susto. Sinceramente, não acredito nisso. É uma ideia muito bonita, mas o que é que se fez em nome da NEPAD? Há alguma indústria criada em nome do NEPAD? Claro que não.

Saturday, 10 October 2009

FALANDO DE "INTELECTUALISMO(S)" (III)



Voltando a vaca fria… Ou seja, a esta ‘refeicao’ que ja’ se vai tornando um tanto espaçada (mas, convenhamos que ha’ pratos, e.g. sopa tipo gazpacho, que se comem melhor frios)…

Passemos entao ao primeiro prato principal.

Aqui ha’ uns oito anos, em Luanda, numa casa a beira-mar, alguem, por ironia tambem ‘usador de oculos’, saiu-se com esta (e nao, nao foi durante nem depois de uma funjada...): “eles consideram-se intelectuais so’ porque usam oculos!” Quem o disse, a quem, porque e a quem se referia, ou em casa de quem o fez, sao condimentos que tornariam esta ‘refeicao’ imensamente mais saborosa, mas que prefiro deixar discretamente na cozinha… Direi apenas que quem o afirmou poderia perfeitamente estar a referir-se a umas quaisquer “elas”…

E isto leva-me ao acima anunciado prato principal: a(s) definicao(coes) de “intelectual”.

Tratando-se este de um veiculo de comunicacao interactiva online, nada mais apropriado do que usar como fonte preferencial de referencia aquela que ja se tornou uma especie de 'biblia' do internauta: a Wikipedia. Nao apenas pela sua ja’ razoavelmente estabelecida autoridade como uma fonte o mais expurgada possivel (mesmo devido a forma como e’ construida) de biases politico-ideologicos ou tendenciosismos e/ou facciosismos pessoais, particulares, ou de grupo (especialmente quando se trata de temas de particular acuidade do ponto de vista academico-cientifico), mas tambem, e sobretudo, porque todos os leitores a podem consultar de forma livre, directa e imediata – colocando-nos a todos, democraticamente, ao mesmo nivel de informacao, ou, se se preferir, at a level-playing field.

Decidi, neste caso, trazer para aqui as definicoes constantes, respectivamente, das versoes em Portugues e em Ingles da Wikipedia, por duas ordens de razoes:

i) salientar, a partida, as nuances existentes nas definicoes do termo, senao estritamente em termos epistemologicos (e convira' nao confundir aqui epistemologia com etimologia, pois que a tal confusao podemos ser facil e inadvertidamente levados por alguns, “doutorada/os em letras” incluida/os…), seguramente em termos da enfase dada a um determinado angulo do objecto definido;
ii) chamar a atencao para as diferencas – tanto em termos de conteudo analitico e perspectivas historico-geograficas e de genero, como de diversidade e abrangencia dos pontos de vista apresentados, extensao da bibliografia utilizada e cruzamento de referencias e fontes – existentes entre as duas versoes.

Em todo o caso, limitar-me-ei aqui e agora a apresentacao e um pouco da evolucao historica do conceito, deixando o seu aprofundamento e problematizacao, bem como outros conceitos relativos, para os pratos que se seguem.

Aqui ficam:

A. Em Portugues

Um intelectual é uma pessoa que usa o seu "intelecto" para estudar, reflectir ou especular acerca de idéias, de modo que este uso do seu intelecto possua uma relevância social e coletiva. A definição do intelectual é realizada, principalmente, por outros intelectuais e acadêmicos. Estes definem o termo segundo seus próprios posicionamentos intelectuais, fato este que complexifica a definição. Autores como Bobbio, Lévy e Demo, citados na Bibliografia, concordam com um aspecto em comum: o intelectual é definido pelo meio social no qual vive e/ou no qual estabelece sua trajetória social.

(...)

Um dos principais espaços de atuação do intelectual é a Universidade. A ciência seria parte da ideologia do intelectual, assim como a dedicação à prática científica e o desejo do exercício de um cargo no ensino superior enquanto modo de distinção social. No caso brasileiro, bem como em alguns outros países, o intelectual procura as instituições superiores de ensino para apoio e para organização; partindo da sociedade, a esta retorna com propostas embasadas no conhecimento técnico-científico adquirido através dos estudos. Esta prática é claramente perceptível, por exemplo:

• na ação de pensadores da educação no Brasil, como Anísio Teixeira, Francisco Capanema, Manuel Lourenço Filho;
• na inserção de pesquisadores na vida política, como Fernando Henrique Cardoso e Darcy Ribeiro;
• na elaboração do programa de energia nuclear, onde os aspectos técnico-científicos envolvidos no processo de beneficiamento e utilização do urânio não se restringiam a espectos energéticos, mas também políticos, morais, econômicos, antropológicos, etc.

(…)

Devido à ação reflexiva, o intelectual é portador de uma autoridade científica quando se expressa. Como apresentado acima em relação à Universidade, o intelectual estabelece relações com a sociedade através de seu status de intelectual.

B. Em Ingles

An intellectual (from the adjective meaning "involving thought and reason") is a person who uses his or her intelligence and analytical thinking, either in a professional capacity, or for personal reasons.

"Intellectual" can be used to mean, broadly, one of three classifications of human beings:

1. An individual who is deeply involved in abstract erudite ideas and theories.
2. An individual whose profession solely involves the dissemination and/or production of ideas, as opposed to producing products (e.g. a steel worker) or services (e.g. an electrician). For example, lawyers, management consultants, educators, politicians, and scientists.
3. An individual of notable expertise in culture and the arts, expertise which allows them some cultural authority, which they then use to speak in public on other matters.

The English term "intellectual" conveys the general notion of a literate thinker. In its earlier uses, such as John Middleton Murry's The Evolution of an Intellectual (1920), there was little in the way of connotation of public rather than literary activity.

(…)

The term "man of letters" implied a distinction between those who could read and write, and those who could not. The distinction had great weight when literacy was not widespread. "Men of letters" were also termed literati (from the Latin), as a group; this phrase may also refer to 'citizens' of the Republic of Letters. Literati survives as a term of abuse and is used in journalism.
(…)

By the late eighteenth century, literacy was becoming more widespread in countries such as the United Kingdom. The concept of a "man of letters" shifted to a more specialised meaning, as a man who made his living by writing about literature - usually not creative writers as such, but rather essayists, journalists and critics. This kind of activity was gradually replaced in the twentieth century by a more academic approach, and the term "man of letters" fell into disuse, to be replaced by the more generic and gender-neutral term "intellectual."

(…)

One can notice a sharpening of terms, in the latter part of the nineteenth century. Just as the coinage scientist would come to mean a professional, the man of letters would more often be assumed to be a professional writer, perhaps having the breadth of a journalist or essayist, but not necessarily with the engagement of the intellectual.

(…)

The public intellectual is assumed to be a communicator and participant in public debates, accessible in mass media. Such a person communicates information and perspectives on a variety of societal issues, not just a specialist area. The role visibly overlaps with that of a journalist, therefore, so that the question is, what makes a "public" intellectual distinctive? This matter is linked to media as well as to the intellectual life.

Public intellectuals are primarily concerned with ideas and knowledge. Their social role means that they respond and react to society's issues and problems. They can provide a voice for others who may not have the skills, time or opportunity. They should be prepared to listen to a multitude of differing opinions and beliefs, and to construct their own conclusions taking these into account.

Intellectuals also involve themselves with issues not specifically related to their area of expertise. Intellectuals may ‘rise above the partial preoccupation of one’s own profession [...] and engage with the global issues of truth, judgement and taste of the time’. The contemporary scene offers many different forms of media such as an Internet blog, a lecture or forum, television and radio, and print.

The role, effectiveness and behaviour of public intellectuals have been debated since the phenomenon acquired a name. The debate is framed differently in different countries, and the very possibility of their place has been questioned. Although some intellectuals may and attempt to gain acceptance and recognition in contemporary society, according to Edward Said this has been virtually impossible: the

...real or “true” intellectual is therefore always an outsider, living in self-imposed exile and on the margins of society.’




Voltando a vaca fria… Ou seja, a
esta ‘refeicao’ que ja’ se vai tornando um tanto espaçada (mas, convenhamos que ha’ pratos, e.g. sopa tipo gazpacho, que se comem melhor frios)…

Passemos entao ao primeiro prato principal.

Aqui ha’ uns oito anos, em Luanda, numa casa a beira-mar, alguem, por ironia tambem ‘usador de oculos’, saiu-se com esta (e nao, nao foi durante nem depois de uma funjada...): “eles consideram-se intelectuais so’ porque usam oculos!” Quem o disse, a quem, porque e a quem se referia, ou em casa de quem o fez, sao condimentos que tornariam esta ‘refeicao’ imensamente mais saborosa, mas que prefiro deixar discretamente na cozinha… Direi apenas que quem o afirmou poderia perfeitamente estar a referir-se a umas quaisquer “elas”…

E isto leva-me ao acima anunciado prato principal: a(s) definicao(coes) de “intelectual”.

Tratando-se este de um veiculo de comunicacao interactiva online, nada mais apropriado do que usar como fonte preferencial de referencia aquela que ja se tornou uma especie de 'biblia' do internauta: a Wikipedia. Nao apenas pela sua ja’ razoavelmente estabelecida autoridade como uma fonte o mais expurgada possivel (mesmo devido a forma como e’ construida) de biases politico-ideologicos ou tendenciosismos e/ou facciosismos pessoais, particulares, ou de grupo (especialmente quando se trata de temas de particular acuidade do ponto de vista academico-cientifico), mas tambem, e sobretudo, porque todos os leitores a podem consultar de forma livre, directa e imediata – colocando-nos a todos, democraticamente, ao mesmo nivel de informacao, ou, se se preferir, at a level-playing field.

Decidi, neste caso, trazer para aqui as definicoes constantes, respectivamente, das versoes em Portugues e em Ingles da Wikipedia, por duas ordens de razoes:

i) salientar, a partida, as nuances existentes nas definicoes do termo, senao estritamente em termos epistemologicos (e convira' nao confundir aqui epistemologia com etimologia, pois que a tal confusao podemos ser facil e inadvertidamente levados por alguns, “doutorada/os em letras” incluida/os…), seguramente em termos da enfase dada a um determinado angulo do objecto definido;
ii) chamar a atencao para as diferencas – tanto em termos de conteudo analitico e perspectivas historico-geograficas e de genero, como de diversidade e abrangencia dos pontos de vista apresentados, extensao da bibliografia utilizada e cruzamento de referencias e fontes – existentes entre as duas versoes.

Em todo o caso, limitar-me-ei aqui e agora a apresentacao e um pouco da evolucao historica do conceito, deixando o seu aprofundamento e problematizacao, bem como outros conceitos relativos, para os pratos que se seguem.

Aqui ficam:

A. Em Portugues

Um intelectual é uma pessoa que usa o seu "intelecto" para estudar, reflectir ou especular acerca de idéias, de modo que este uso do seu intelecto possua uma relevância social e coletiva. A definição do intelectual é realizada, principalmente, por outros intelectuais e acadêmicos. Estes definem o termo segundo seus próprios posicionamentos intelectuais, fato este que complexifica a definição. Autores como Bobbio, Lévy e Demo, citados na Bibliografia, concordam com um aspecto em comum: o intelectual é definido pelo meio social no qual vive e/ou no qual estabelece sua trajetória social.

(...)

Um dos principais espaços de atuação do intelectual é a Universidade. A ciência seria parte da ideologia do intelectual, assim como a dedicação à prática científica e o desejo do exercício de um cargo no ensino superior enquanto modo de distinção social. No caso brasileiro, bem como em alguns outros países, o intelectual procura as instituições superiores de ensino para apoio e para organização; partindo da sociedade, a esta retorna com propostas embasadas no conhecimento técnico-científico adquirido através dos estudos. Esta prática é claramente perceptível, por exemplo:

• na ação de pensadores da educação no Brasil, como Anísio Teixeira, Francisco Capanema, Manuel Lourenço Filho;
• na inserção de pesquisadores na vida política, como Fernando Henrique Cardoso e Darcy Ribeiro;
• na elaboração do programa de energia nuclear, onde os aspectos técnico-científicos envolvidos no processo de beneficiamento e utilização do urânio não se restringiam a espectos energéticos, mas também políticos, morais, econômicos, antropológicos, etc.

(…)

Devido à ação reflexiva, o intelectual é portador de uma autoridade científica quando se expressa. Como apresentado acima em relação à Universidade, o intelectual estabelece relações com a sociedade através de seu status de intelectual.

B. Em Ingles

An intellectual (from the adjective meaning "involving thought and reason") is a person who uses his or her intelligence and analytical thinking, either in a professional capacity, or for personal reasons.

"Intellectual" can be used to mean, broadly, one of three classifications of human beings:

1. An individual who is deeply involved in abstract erudite ideas and theories.
2. An individual whose profession solely involves the dissemination and/or production of ideas, as opposed to producing products (e.g. a steel worker) or services (e.g. an electrician). For example, lawyers, management consultants, educators, politicians, and scientists.
3. An individual of notable expertise in culture and the arts, expertise which allows them some cultural authority, which they then use to speak in public on other matters.

The English term "intellectual" conveys the general notion of a literate thinker. In its earlier uses, such as John Middleton Murry's The Evolution of an Intellectual (1920), there was little in the way of connotation of public rather than literary activity.

(…)

The term "man of letters" implied a distinction between those who could read and write, and those who could not. The distinction had great weight when literacy was not widespread. "Men of letters" were also termed literati (from the Latin), as a group; this phrase may also refer to 'citizens' of the Republic of Letters. Literati survives as a term of abuse and is used in journalism.
(…)

By the late eighteenth century, literacy was becoming more widespread in countries such as the United Kingdom. The concept of a "man of letters" shifted to a more specialised meaning, as a man who made his living by writing about literature - usually not creative writers as such, but rather essayists, journalists and critics. This kind of activity was gradually replaced in the twentieth century by a more academic approach, and the term "man of letters" fell into disuse, to be replaced by the more generic and gender-neutral term "intellectual."

(…)

One can notice a sharpening of terms, in the latter part of the nineteenth century. Just as the coinage scientist would come to mean a professional, the man of letters would more often be assumed to be a professional writer, perhaps having the breadth of a journalist or essayist, but not necessarily with the engagement of the intellectual.

(…)

The public intellectual is assumed to be a communicator and participant in public debates, accessible in mass media. Such a person communicates information and perspectives on a variety of societal issues, not just a specialist area. The role visibly overlaps with that of a journalist, therefore, so that the question is, what makes a "public" intellectual distinctive? This matter is linked to media as well as to the intellectual life.

Public intellectuals are primarily concerned with ideas and knowledge. Their social role means that they respond and react to society's issues and problems. They can provide a voice for others who may not have the skills, time or opportunity. They should be prepared to listen to a multitude of differing opinions and beliefs, and to construct their own conclusions taking these into account.

Intellectuals also involve themselves with issues not specifically related to their area of expertise. Intellectuals may ‘rise above the partial preoccupation of one’s own profession [...] and engage with the global issues of truth, judgement and taste of the time’. The contemporary scene offers many different forms of media such as an Internet blog, a lecture or forum, television and radio, and print.

The role, effectiveness and behaviour of public intellectuals have been debated since the phenomenon acquired a name. The debate is framed differently in different countries, and the very possibility of their place has been questioned. Although some intellectuals may and attempt to gain acceptance and recognition in contemporary society, according to Edward Said this has been virtually impossible: the

...real or “true” intellectual is therefore always an outsider, living in self-imposed exile and on the margins of society.’


Sunday, 4 October 2009

OLHARES DIVERSOS (XIII)

JAKA JAMBA ao PAIS

A passagem pela UNESCO foi, de facto, o momento alto na minha carreira. Eu sou professor de filosofia, sou um homem voltado para a educação e para a formação, pelo que a minha passagem pela UNESCO permitiu-me complementar o entendimento da problemática da educação hoje, no mundo. Além de outras áreas de competência da UNESCO. Que não está vocacionada apenas para a educação, promove também a preservação e a conservação do património cultural. Volta-se, a UNESCO, também, para a informação, além do debate das questões mais candentes da actualidade. Por isso a UNESCO é o fórum mais privilegiado para a abordagem dos vários problemas e desafios do século XXI.

(…)


Na UNESCO temos o património histórico, em termos de abordagem, também o cultural, refiro-me a monumentos, aos sítios históricos de grande pertinência para a nossa história, fala-se também do património natural, temos paisagens bastante belas que merecem protecção e que sejam propostas para figurar na lista do património mundial. Por último temos o património imaterial, é este que envolve o legado de saberes, da nossa tradição, e também, levanta a questão de grande actualidade que é a ameaça que temos sobre o património linguístico, as nossas línguas de origem africana. Segundo alguns estudiosos, algumas dessas línguas são autónomas mas não ameaçadas de desaparecimento imediato.

Mas deve ter-se em conta que, em termos de políticas educacionais, em matéria da linguística, ainda não temos os equilíbrios mais desejáveis. Se essas línguas não forem inseridas no ensino, se não se voltarem para o quotidiano, se ficarem subalternas em relação as línguas de origem europeias, no nosso caso concreto do português, naturalmente, à medida que as novas gerações não se sintam utentes dessas línguas, que elas haverão de ter uma morte lenta e o seu desaparecimento, o que seria uma irresponsabilidade, se não protegermos um dos legados mais preciosos que temos da civilização banto. Não se perde apenas a forma de comunicar, também a cultura. Absolutamente. As línguas são veículos de cultura. São patrimónios únicos, as línguas têm carácter de unicidade. A língua é uma criação única no seu género, se desaparece também é uma cultura que desaparece.

(…)

A batalha em torno do património linguístico e sobre património histórico e cultural de Angola vai conhecendo altos e baixos. No quadro da cooperação com a UNESCO podemos ter apoios se ratificarmos as várias convenções voltadas para esses domínios. Falo da Convenção do Património Histórico, que ratificamos, mas a Convenção sobre o Património Imaterial, e outras de outros domínios, ainda não as ratificamos. Isso dificulta as diligências para a proposta de alguns sítios históricos para a lista do património mundial.

Tomemos o caso de MBanza Congo, há a vertente do património histórico, o Kulumbimbi, o cemitério dos reis,temos outros vestígios como a árvore sagrada. A árvore sagrada não só envolve o lado físico, material, mas envolve também a dimensão das tradições que vão para o quadro do património imaterial, cuja convenção ainda não reconhecemos. Desencadeamos o processo para ver se esse sítio histórico de grande valor e importância histórica para Angola, para os congos Brazzaville e Kinshasa, uma vez que o reino do Congo encontrado pelos portugueses, com MBanza Congo como centro, ia do actual território de Angola até ao Gabão. Todos esses países terão, certamente o interesse em promover o sítio de MBanza Congo para a lista do património Mundial, mas teremos primeiro de completar a ratificação das convenções necessárias para se completar a proposta do dossier .

(…)

Tudo o que faz parte do passado do nosso país merece ser protegido, merece ser salvaguardado, merece ser compreendido. O problema maior para contextos como o nosso, de passado colonial, é haver uma aparentemente maior visibilidade daquilo que foram as obras coloniais em detrimento do que foi a África antes da chegada dos europeus. Mesmo em termos linguísticos, não apenas histórico-culturais, a tendência, nalguns círculos das nossas comunidades, é voltar-se mais para aquilo que foi o legado da colonização, a língua da colonização, que aquilo que fomos antes da presença europeia. Por isso, em rigor, numa abordagem histórica mais completa, temos de recuar mesmo ao passado, encontrar metodologias que permitam, se preciso, avançarmos com a arqueologia, com a paleontologia e outras ciências históricas que permitam, cada vez mais, aprofundar o passado e o que foram os povos que viveram em Angola no passado. A história só será completa se abarcar todas as fontes cruzadas: as escritas, as orais e as fontes materiais.

(…)

O debate à volta da inserção da filosofia nos nossos currículos ainda não está muito aprofundado, embora seja incontornável. Em termos de património para a humanidade, a dimensão que permite que se crie espírito crítico, a capacidade de discernimento e a leitura da realidade em termos de concatenação lógica, só a filosofia o pode facultar. Mesmo a capacidade de problematizar, que faz parte da modernidade. E aquilo que são os instrumentos que definem o que o ocidente pode ter de mais pertinente, historicamente, é esta capacidade, do que se chama de dúvida metódica.

Desde Sócrates que dizia que tudo o que sei é que nada sei, a tal humildade para permitir que aquele que busca o saber tenha abertura, até a dúvida metódica cartesiana, tudo isto é um legado que faz falta a nós que temos que fazer uma aceleração na história, como dizia o Kizerbo, temos de sair do quasi neolítico para a idade moderna, há uma base histórica só a formação filosófica pode permitir. Desafios das tecnologias modernas, desafios em como potenciar os nossos países para competir neste mundo global. Sem a formação do espírito crítico, sem a formação filosófica, pensamos que não estaremos a altura de o fazer.

(…)

Há bem pouco tempo, estive num congresso mundial de filosofia, na Coreia do Sul, onde se levantou, com muita acuidade, a problemática de uma filosofia africana. É preferível falar da filosofia em África que falar de uma filosofia africana. A atitude filosófica como tal é uma capacidade do homem para levantar interrogações, de questionar o universo, quer na dimensão física como no devir histórico. A capacidade de questionamento é uma atitude do homem, seja ele europeu, americano, africano ou asiático. Em todo o caso, a filosofia decorre no espaço e no tempo. Os homens são produtos da sua época e da sua circunstância. Não há dúvidas que há iniciativas de abordagens filosóficas feitas por filhos de África de que podemos situá-las como pertencendo ao espaço africano, a contribuição que os pensadores africanos estão a dar para o pensamento filosófico.

No entanto, é preciso não confundir a filosofia com a étno-filosofia. Há um outro nível de legado histórico-cultural pertinente dos saberes tradicionais, que têm na sua base uma certa sedimentação de abordagem filosófica, mas que não podem imediatamente ser classificados como sendo, em última instância, de filosofia africana, porque à medida que as novas gerações vão tendo mais intercâmbio com as grandes correntes filosóficas da humanidade, vão aprofundando cada vez mais o que merece ser tido como abordagem filosófica. A filosofia é o espaço de uma certa elite intelectual. Em África, se houver tal elite, ela é menor e em Angola quase não temos pensadores.

Eu irei mais longe. A filosofia, para ser mesmo filosofia, não pode consagrar-se como estando numa torre de marfim. É um esforço de abordagem dos grandes problemas que dizem respeito ao homem mas, por outro lado, terá que ter implicações na vida, no quotidiano e na própria situação do homem de todos os tempos. A filosofia nem sempre foi a preocupação imediata. Daí o dito latino “Primum vivere dopo (deide) philosofarem”, é um facto de que ela não faz parte das necessidades mais imediatas. Contudo, à medida que vamos crescendo e que as novas gerações vão ganhando mais maturidade, mais inquietações, mais pensadores irão surgir.

É verdade que em filosofia é preciso, também, uma formação, e é preciso muita investigação. Tanto os pensadores, como os escritores, como muitos homens de cultura, têm muita dificuldade de fazer investigação porque a matéria que eles abordam não é uma matéria imediatamente consumível no mercado. Por isso também a tendência se se priorizarem certas carreiras e certas áreas do saber em detrimento da filosofia. Um filósofo só pode ser professor, quase não pode ganhar dinheiro noutras áreas. Direi que, por experiência pessoal, ensinar a filosofia, quando terminei o meu curso de filosofia e recebi o diploma, em Portugal, e fui prosseguir os estudos em Genebra, a grande frustração que tive no dia em que terminei, foi que era nesse dia que deveria começar o curso. Sentia-me cada vez mais pequeno face a pertinência da área em que penetrei e do que ainda merece ser aprofundado.

(…)

Há pouco perguntava se os filósofos serão mais para o professorado ou se poderão ser úteis noutras áreas. Direi que a capacidade de questionamento é necessária para todos os domínios. Há cientistas que começam pela física e que depois recuperam a base e a bagagem filosófica útil para a abordagem da física. Mesmo na política. No Parlamento não pode haver apenas juristas ou cientistas políticos, é preciso que haja pessoas com capacidade de levantar problemas, de ter uma leitura que leve a um ultrapassar-se permanente que permita olhar para novos horizontes.

Por exemplo, tendendo a política para uma certa dogmaticidade, uma vez que é a linha política dos partidos que prevalece, o que por vezes coloca os intelectuais em situações menos confortáveis, quando a leitura correcta da realidade aponta para um lado mas os estados maiores da política ordenam que o voto, a opção, a defesa, a advocacia, deve tender para a linha política do partido. Por isso é necessário que na sociedade, no nosso espaço público, a filosofia também ganhe o espaço que lhe é devido para ser a propulsora da inovação e que faça com que o homem se desgarre da inércia do quotidiano. Por isso a conjugação entre a política e a filosofia nem sempre foi serena ao longo dos tempos.

(…)

Não sei se é infeliz (um filósofo dentro de um partido político), depende do ângulo em que nos colocamos. Mas um filósofo pode sentir-se útil num partido político se no ordenamento jurídico-constitucional e, sobretudo nas grandes opções nacionais, chegarmos à conclusão de que não teremos democratização e Estado de direito sem partidos fortes e organizados . Se esses partidos políticos se fossilizarem nos tais pensamentos quase únicos, nessa altura a sociedade será mais pobre e com menos imaginação, com a falta de competitividade que hoje se vê em várias democracias. A capacidade de uma democracia pode ser também avaliada pela sua capacidade de debate dos grandes problemas que se levantam Os problemas levantam-se nas sociedades, nas instituições e nos partidos.

Angola é um país em transição, uma transição que se faz num quadro muito especial. Tivemos conflitualidade polarizada em contextos de pensamento quase único, em vez do debate. Entramos na democracia com a prevalência de uma certa conflitualidade. Há a prevalência dos mesmos actores históricos (um filósofo amigo questionou-me, em Moçambique, se os apóstolos do marxismo-leninismo podiam tornar-se em professores da democracia). Pode parecer uma piada de mau gosto, mas são circunstâncias históricas que estamos vivendo e é por isso que o debate se vai fazendo, com altos e baixos, mas, em termos de novas gerações parece que chegamos ao limiar do não retorno.

As novas gerações, querem uma Angola à altura do melhor que os outros povos têm, no quadro do debate, no quadro do conhecimento, numa melhor estruturação das nossas cidades, nas suas vidas, mesmo até no jornalismo onde podemos ver quadros angolanos de grande qualidade que estão surgindo. E as gerações anteriores que ainda detêm algum poder têm.

[Aqui]


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JAKA JAMBA ao PAIS

A passagem pela UNESCO foi, de facto, o momento alto na minha carreira. Eu sou professor de filosofia, sou um homem voltado para a educação e para a formação, pelo que a minha passagem pela UNESCO permitiu-me complementar o entendimento da problemática da educação hoje, no mundo. Além de outras áreas de competência da UNESCO. Que não está vocacionada apenas para a educação, promove também a preservação e a conservação do património cultural. Volta-se, a UNESCO, também, para a informação, além do debate das questões mais candentes da actualidade. Por isso a UNESCO é o fórum mais privilegiado para a abordagem dos vários problemas e desafios do século XXI.

(…)


Na UNESCO temos o património histórico, em termos de abordagem, também o cultural, refiro-me a monumentos, aos sítios históricos de grande pertinência para a nossa história, fala-se também do património natural, temos paisagens bastante belas que merecem protecção e que sejam propostas para figurar na lista do património mundial. Por último temos o património imaterial, é este que envolve o legado de saberes, da nossa tradição, e também, levanta a questão de grande actualidade que é a ameaça que temos sobre o património linguístico, as nossas línguas de origem africana. Segundo alguns estudiosos, algumas dessas línguas são autónomas mas não ameaçadas de desaparecimento imediato.

Mas deve ter-se em conta que, em termos de políticas educacionais, em matéria da linguística, ainda não temos os equilíbrios mais desejáveis. Se essas línguas não forem inseridas no ensino, se não se voltarem para o quotidiano, se ficarem subalternas em relação as línguas de origem europeias, no nosso caso concreto do português, naturalmente, à medida que as novas gerações não se sintam utentes dessas línguas, que elas haverão de ter uma morte lenta e o seu desaparecimento, o que seria uma irresponsabilidade, se não protegermos um dos legados mais preciosos que temos da civilização banto. Não se perde apenas a forma de comunicar, também a cultura. Absolutamente. As línguas são veículos de cultura. São patrimónios únicos, as línguas têm carácter de unicidade. A língua é uma criação única no seu género, se desaparece também é uma cultura que desaparece.

(…)

A batalha em torno do património linguístico e sobre património histórico e cultural de Angola vai conhecendo altos e baixos. No quadro da cooperação com a UNESCO podemos ter apoios se ratificarmos as várias convenções voltadas para esses domínios. Falo da Convenção do Património Histórico, que ratificamos, mas a Convenção sobre o Património Imaterial, e outras de outros domínios, ainda não as ratificamos. Isso dificulta as diligências para a proposta de alguns sítios históricos para a lista do património mundial.

Tomemos o caso de MBanza Congo, há a vertente do património histórico, o Kulumbimbi, o cemitério dos reis,temos outros vestígios como a árvore sagrada. A árvore sagrada não só envolve o lado físico, material, mas envolve também a dimensão das tradições que vão para o quadro do património imaterial, cuja convenção ainda não reconhecemos. Desencadeamos o processo para ver se esse sítio histórico de grande valor e importância histórica para Angola, para os congos Brazzaville e Kinshasa, uma vez que o reino do Congo encontrado pelos portugueses, com MBanza Congo como centro, ia do actual território de Angola até ao Gabão. Todos esses países terão, certamente o interesse em promover o sítio de MBanza Congo para a lista do património Mundial, mas teremos primeiro de completar a ratificação das convenções necessárias para se completar a proposta do dossier .

(…)

Tudo o que faz parte do passado do nosso país merece ser protegido, merece ser salvaguardado, merece ser compreendido. O problema maior para contextos como o nosso, de passado colonial, é haver uma aparentemente maior visibilidade daquilo que foram as obras coloniais em detrimento do que foi a África antes da chegada dos europeus. Mesmo em termos linguísticos, não apenas histórico-culturais, a tendência, nalguns círculos das nossas comunidades, é voltar-se mais para aquilo que foi o legado da colonização, a língua da colonização, que aquilo que fomos antes da presença europeia. Por isso, em rigor, numa abordagem histórica mais completa, temos de recuar mesmo ao passado, encontrar metodologias que permitam, se preciso, avançarmos com a arqueologia, com a paleontologia e outras ciências históricas que permitam, cada vez mais, aprofundar o passado e o que foram os povos que viveram em Angola no passado. A história só será completa se abarcar todas as fontes cruzadas: as escritas, as orais e as fontes materiais.

(…)

O debate à volta da inserção da filosofia nos nossos currículos ainda não está muito aprofundado, embora seja incontornável. Em termos de património para a humanidade, a dimensão que permite que se crie espírito crítico, a capacidade de discernimento e a leitura da realidade em termos de concatenação lógica, só a filosofia o pode facultar. Mesmo a capacidade de problematizar, que faz parte da modernidade. E aquilo que são os instrumentos que definem o que o ocidente pode ter de mais pertinente, historicamente, é esta capacidade, do que se chama de dúvida metódica.

Desde Sócrates que dizia que tudo o que sei é que nada sei, a tal humildade para permitir que aquele que busca o saber tenha abertura, até a dúvida metódica cartesiana, tudo isto é um legado que faz falta a nós que temos que fazer uma aceleração na história, como dizia o Kizerbo, temos de sair do quasi neolítico para a idade moderna, há uma base histórica só a formação filosófica pode permitir. Desafios das tecnologias modernas, desafios em como potenciar os nossos países para competir neste mundo global. Sem a formação do espírito crítico, sem a formação filosófica, pensamos que não estaremos a altura de o fazer.

(…)

Há bem pouco tempo, estive num congresso mundial de filosofia, na Coreia do Sul, onde se levantou, com muita acuidade, a problemática de uma filosofia africana. É preferível falar da filosofia em África que falar de uma filosofia africana. A atitude filosófica como tal é uma capacidade do homem para levantar interrogações, de questionar o universo, quer na dimensão física como no devir histórico. A capacidade de questionamento é uma atitude do homem, seja ele europeu, americano, africano ou asiático. Em todo o caso, a filosofia decorre no espaço e no tempo. Os homens são produtos da sua época e da sua circunstância. Não há dúvidas que há iniciativas de abordagens filosóficas feitas por filhos de África de que podemos situá-las como pertencendo ao espaço africano, a contribuição que os pensadores africanos estão a dar para o pensamento filosófico.

No entanto, é preciso não confundir a filosofia com a étno-filosofia. Há um outro nível de legado histórico-cultural pertinente dos saberes tradicionais, que têm na sua base uma certa sedimentação de abordagem filosófica, mas que não podem imediatamente ser classificados como sendo, em última instância, de filosofia africana, porque à medida que as novas gerações vão tendo mais intercâmbio com as grandes correntes filosóficas da humanidade, vão aprofundando cada vez mais o que merece ser tido como abordagem filosófica. A filosofia é o espaço de uma certa elite intelectual. Em África, se houver tal elite, ela é menor e em Angola quase não temos pensadores.

Eu irei mais longe. A filosofia, para ser mesmo filosofia, não pode consagrar-se como estando numa torre de marfim. É um esforço de abordagem dos grandes problemas que dizem respeito ao homem mas, por outro lado, terá que ter implicações na vida, no quotidiano e na própria situação do homem de todos os tempos. A filosofia nem sempre foi a preocupação imediata. Daí o dito latino “Primum vivere dopo (deide) philosofarem”, é um facto de que ela não faz parte das necessidades mais imediatas. Contudo, à medida que vamos crescendo e que as novas gerações vão ganhando mais maturidade, mais inquietações, mais pensadores irão surgir.

É verdade que em filosofia é preciso, também, uma formação, e é preciso muita investigação. Tanto os pensadores, como os escritores, como muitos homens de cultura, têm muita dificuldade de fazer investigação porque a matéria que eles abordam não é uma matéria imediatamente consumível no mercado. Por isso também a tendência se se priorizarem certas carreiras e certas áreas do saber em detrimento da filosofia. Um filósofo só pode ser professor, quase não pode ganhar dinheiro noutras áreas. Direi que, por experiência pessoal, ensinar a filosofia, quando terminei o meu curso de filosofia e recebi o diploma, em Portugal, e fui prosseguir os estudos em Genebra, a grande frustração que tive no dia em que terminei, foi que era nesse dia que deveria começar o curso. Sentia-me cada vez mais pequeno face a pertinência da área em que penetrei e do que ainda merece ser aprofundado.

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Há pouco perguntava se os filósofos serão mais para o professorado ou se poderão ser úteis noutras áreas. Direi que a capacidade de questionamento é necessária para todos os domínios. Há cientistas que começam pela física e que depois recuperam a base e a bagagem filosófica útil para a abordagem da física. Mesmo na política. No Parlamento não pode haver apenas juristas ou cientistas políticos, é preciso que haja pessoas com capacidade de levantar problemas, de ter uma leitura que leve a um ultrapassar-se permanente que permita olhar para novos horizontes.

Por exemplo, tendendo a política para uma certa dogmaticidade, uma vez que é a linha política dos partidos que prevalece, o que por vezes coloca os intelectuais em situações menos confortáveis, quando a leitura correcta da realidade aponta para um lado mas os estados maiores da política ordenam que o voto, a opção, a defesa, a advocacia, deve tender para a linha política do partido. Por isso é necessário que na sociedade, no nosso espaço público, a filosofia também ganhe o espaço que lhe é devido para ser a propulsora da inovação e que faça com que o homem se desgarre da inércia do quotidiano. Por isso a conjugação entre a política e a filosofia nem sempre foi serena ao longo dos tempos.

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Não sei se é infeliz (um filósofo dentro de um partido político), depende do ângulo em que nos colocamos. Mas um filósofo pode sentir-se útil num partido político se no ordenamento jurídico-constitucional e, sobretudo nas grandes opções nacionais, chegarmos à conclusão de que não teremos democratização e Estado de direito sem partidos fortes e organizados . Se esses partidos políticos se fossilizarem nos tais pensamentos quase únicos, nessa altura a sociedade será mais pobre e com menos imaginação, com a falta de competitividade que hoje se vê em várias democracias. A capacidade de uma democracia pode ser também avaliada pela sua capacidade de debate dos grandes problemas que se levantam Os problemas levantam-se nas sociedades, nas instituições e nos partidos.

Angola é um país em transição, uma transição que se faz num quadro muito especial. Tivemos conflitualidade polarizada em contextos de pensamento quase único, em vez do debate. Entramos na democracia com a prevalência de uma certa conflitualidade. Há a prevalência dos mesmos actores históricos (um filósofo amigo questionou-me, em Moçambique, se os apóstolos do marxismo-leninismo podiam tornar-se em professores da democracia). Pode parecer uma piada de mau gosto, mas são circunstâncias históricas que estamos vivendo e é por isso que o debate se vai fazendo, com altos e baixos, mas, em termos de novas gerações parece que chegamos ao limiar do não retorno.

As novas gerações, querem uma Angola à altura do melhor que os outros povos têm, no quadro do debate, no quadro do conhecimento, numa melhor estruturação das nossas cidades, nas suas vidas, mesmo até no jornalismo onde podemos ver quadros angolanos de grande qualidade que estão surgindo. E as gerações anteriores que ainda detêm algum poder têm.

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