«Gentios ultrapassaram os poetas na luta de libertação de Angola»Este o destaque de uma entrevista com Jaime Araújo Júnior, representante da FNLA em Portugal, publicada no “Notícias Lusófonas” no passado 03/02/07. Aqui ficam alguns extractos:
Notícias Lusófonas – A FNLA e o MPLA têm-se travado de razões relativamente ao início da luta armada contra o regime colonial. Afinal de contas, foi a 4 de Fevereiro ou a 15 de Março de 1961 que a mesma começou?
Jaime Araújo – A primeira acção armada foi a do 4 de Fevereiro já longamente programado pela UPA, aliás quem liderou esta acção foi o próprio Monsenhor Cónego Manuel Joaquim Mendes das Neves que era vice-presidente da UPA desde os idos de 1956/7. Foi ele que liderou a acção a par de outros nacionalistas que hoje integram o MPLA, mas que na altura eram militantes da UPA. Não se pode ocultar os factos retirando o valor histórico que tem o 4 de Fevereiro. O valor histórico do 4 de Fevereiro vem sendo retirado por estar a ser partidarizado. O líder do 4 de Fevereiro, Monsenhor Cónego Manuel das Neves, é um elemento aglutinador ao contrário dos outros.
NL – Quem são os “outros”?
JA – Os outros são os líderes partidários que não têm a coragem de se sentar à mesa para dirimirem questões pessoais e ideológicas e colocarem o interesse nacional acima de tudo. O interesse nacional obriga a que se tenha o 4 de Fevereiro como um marco aglutinador e não uma data que divida os angolanos como tem sido até agora.
NL – Disse há bocado que os “gentios” estiveram a frente da luta de libertação nacional. Quem são os “gentios” afinal?
JA – Os “gentios” são aqueles que mais sofrem e têm a capacidade de transformar o seu sofrimento num programa imediato de reivindicação. Independentemente do seu sofrimento sempre foram a frente. Foi assim no 4 de Fevereiro, foi assim no 15 de Março. A frente foram os “gentios” ou pelo menos considerados como tal por não terem estudado no Liceu Salvador Correia, no Diogo Cão ou ainda por não terem andado na cidade de Luanda.
NL – Os "gentios" são os da UPA/FNLA?
JA – Dizem uns que são, embora eu veja lá muita gente letrada. Mas são estes "gentios" que ainda hoje reivindicam que é a escola que deve ir ter com os alunos e não o inverso. Os actuais líderes sabem disso porque são homens que tiveram que percorrer inúmeros quilómetros para ir a escola. É bom que eles acordem e que apliquem o princípio "a escola junto de quem necessita". Ainda hoje são estes "gentios" que estão a reclamar isso porque não estão a escrever poesias nem livros nas grandes cidades, estão a reivindicar permanentemente por aquilo que lhes faz falta.
NL – Quando invoca a poesia está a falar de quem?
JA – Os poetas fazem parte do nosso património cultural nacional. Mas não podemos, face ao sofrimento, passar o tempo na poesia postergando a realidade para planos secundários. Primeiro a reivindicação para comer, para escola, hospital e depois então podemos perder o tempo na poesia. Porque nós, angolanos, somos bons na poesia. A poesia faz falta. Mas que seja como complemento quando ainda há imensa dor para resolver.
NL – Que lugares ocupam os "gentios" no contexto actual em Angola uma vez que sempre se antecederam na luta de libertação em relação aos poetas?
JA – Também não queríamos ter agora gentios no poder, se tomar a palavra à letra. Mas muitos deles não eram de tal modo "gentios" de todo que foram levados para o poder pelo MPLA para postos elevados.
NL – As reclamações dos "gentios" continuam actuais passados 30 anos de independência?
JA – Os "gentios" ainda continuam a clamar por liberdade. A liberdade continua a ser o elemento fundamental a reclamar em Angola. A liberdade de poder reivindicar e o poder perceber que ela, a reivindicação, tem fundamento. É que até hoje não há reivindicação em Angola em que o poder tenha reconhecido nela algum fundamento. E isso é a denegação da liberdade.
NL – Há um grande divórcio entre o povo e o poder?
JA – Isso é visível quando os ministros não conseguem passear na cidade capital sem guarda-costas. Os ministros não conseguem passear pelas ruas de Luanda com tranquilidade. Até as pessoas que assumem o poder em Angola não têm liberdade.
NL – Sei que militou na UPA, hoje FNLA. Uma pergunta: insere-se no grupo dos "gentios" que sempre reivindicou melhores condições para Angola e para os angolanos?
JA – Não tenho, nem nunca tive medo dos "gentios". Convivi sempre com eles. As pessoas valem como pessoas. Tinha 17 anos e no quintal da minha casa eu tinha uma escola para ensinar os serventes das casas do meu bairro, Vila-Alice. Todos os serventes do bairro iam a minha casa aprender e eu ensinava-os. Nunca tive problemas com os "gentios". Tive sempre problemas com os poetas. Não sei ler, nem entendo muito bem a poesia. Mas eles que fiquem calmos que também fazem falta à nação.
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Fotos: Monumento ao 4 de Fevereiro, Luanda (Angola Press)
