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Monday, 11 June 2007

AGORA LUANDA

Chega-me noticia de que o livro Agora Luanda, com fotografias de Ines Goncalves e Kiluanje Liberdade e textos de Jose Eduardo Agualusa e Delfim Sardo, recentemente publicado pela editora portuguesa Almedina, serviu de base a um documentario entitulado “Mae Ju” e a uma exposicao fotografica nas instalacoes do Centro Cutural Portugues de Luanda.



“Hoje, misturam-se pelas ruas de Luanda o umbundo oblongo dos ovimbundos. O lingala (língua que nasceu para ser cantada) e o francês arranhado dos regrês. O português afinado dos burgueses. O surdo português dos portugueses. O raro quimbundo das derradeiras bessanganas. A isso junte-se, com os novos tempos, uma pitada do mandarim elíptico dos chineses, um cheiro a especiarias do árabe solar dos libaneses; e ainda alguns vocábulos em hebreu ressuscitado, (...), colhidos sem pressa nas manhãs de domingo, em alguns dos mais sofisticados bares da Ilha. Mais o inglês, em tons sortidos, de ingleses, americanos e sul-africanos. O português feliz dos brasileiros. O espanhol encantado de um outro cubano que ficou para trás. E toda esta gente movendo-se pelos passeios, acotovelando-se nas esquinas, numa espécie de jogo universal da cabra-cega. Moços líricos. Moças tísicas. Empresas de esperança privada”, escreve Jose Eduardo Agualusa neste livro.

Chega-me noticia de que o livro Agora Luanda, com fotografias de Ines Goncalves e Kiluanje Liberdade e textos de Jose Eduardo Agualusa e Delfim Sardo, recentemente publicado pela editora portuguesa Almedina, serviu de base a um documentario entitulado “Mae Ju” e a uma exposicao fotografica nas instalacoes do Centro Cutural Portugues de Luanda.



“Hoje, misturam-se pelas ruas de Luanda o umbundo oblongo dos ovimbundos. O lingala (língua que nasceu para ser cantada) e o francês arranhado dos regrês. O português afinado dos burgueses. O surdo português dos portugueses. O raro quimbundo das derradeiras bessanganas. A isso junte-se, com os novos tempos, uma pitada do mandarim elíptico dos chineses, um cheiro a especiarias do árabe solar dos libaneses; e ainda alguns vocábulos em hebreu ressuscitado, (...), colhidos sem pressa nas manhãs de domingo, em alguns dos mais sofisticados bares da Ilha. Mais o inglês, em tons sortidos, de ingleses, americanos e sul-africanos. O português feliz dos brasileiros. O espanhol encantado de um outro cubano que ficou para trás. E toda esta gente movendo-se pelos passeios, acotovelando-se nas esquinas, numa espécie de jogo universal da cabra-cega. Moços líricos. Moças tísicas. Empresas de esperança privada”, escreve Jose Eduardo Agualusa neste livro.

Thursday, 3 May 2007

ANGOLAN AUTHOR AWARDED LITERARY PRIZE IN LONDON


"The Book of Chameleons", by Angolan journalist and author Jose Eduardo Agualusa, has won this year's “Independent Foreign Fiction Prize” by the London newspaper The Independent.

The author shares the £10,000 prize money with translator Daniel Hahn.
The prize celebrates a novel that has been translated into English and published in the UK in the past year.

(MAIS DETALHES AQUI)

"The Book of Chameleons", by Angolan journalist and author Jose Eduardo Agualusa, has won this year's “Independent Foreign Fiction Prize” by the London newspaper The Independent.

The author shares the £10,000 prize money with translator Daniel Hahn.
The prize celebrates a novel that has been translated into English and published in the UK in the past year.

(MAIS DETALHES AQUI)

Tuesday, 20 March 2007

CORACAO DOS BOSQUES




"CORACAO DOS BOSQUES" de Jose Eduardo Agualusa EM 'BOOKS OF LIFE'


E’ assim nos bosques: ha' olhares que se espreitam por entre folhagens... bocas que se desdizem por entre o oco dos troncos... coracoes que se desdobram por entre o vazio dos corpos... maos que se tocam por entre intersticios de alma... sombras que se atropelam por entre luzes difusas... passos que se entrecruzam por entre picadas esconsas... sons que se sussurram por entre palavras indiziveis... aguas que se separam por entre caminhos do rio. Coracoes. E’ assim.
(A.S. Mar 20, 07)

Coracao dos Bosques (1991): consta da obra de Jose’ Eduardo Agualusa como o seu unico volume de poesia. Foi-me dedicado. Por isso o seu lugar em ‘Books of Life’.





“A poesia acerta mais que a ciência. Na natureza, por exemplo, a beleza é utilitária, isto é, não existe no universo fulgor sem serventia. Se os cientistas fossem à procura da beleza ao invés da funcionalidade chegariam mais depressa à funcionalidade.”

José Eduardo Agualusa
(“Discurso sobre o fulgor da língua” in “Catálogo de sombras”)


Uma Voz Que Canta Convoca A Terra Perdida

Uma voz que canta convoca a terra perdida.
Quase em surdina, evoca os secretos lugares
da infância;
o sítio onde pousavam os pássaros
o quintal cheio de estórias
e - lembras-te?- a tarde em chamas.

A voz murmura:
O exílio é onde nada se recorda de ti
Nada te diz:
sou teu/és meu




O Homem Que Vinha Ao Entardecer

(Ouvindo “Sonho de Um Camponês”, por Teta Lando)

Falava com devagar, ajeitando
as palavras. Falava com cuidado,
houvesse lume entre as palavras.

Chegava ao entardecer, os sapatos
cheios de terra vermelha e do perfume
dos matos.

Cumpria rigorosamente os rituais.

Batia primeiro as palmas (junto
ao peito)

Depois falava.
Dos bois, das lavras, das coisas
simples do seu dia-a-dia. E todavia
era tal o mistério das tardes quando
assim falava
que doía.



Os Rios Atónitos

(Ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba)


Há palavras a dormir sobre o seu largo
assombro
Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo
é como se houvesse pronunciado os próprios
rios
Ou seja, as águas
pesadas de lama, os peixes todos e os perigos
inumeráveis
O musgo das margens, o escuro
mistério em movimento.

Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre
Lento
em tua boca.

Dizes Quanza
e o ar se preenche de perfumes perplexos.

E dizes Congo
e onde o dizes há grandes aves
e súbitos sons redondos e convexos.

E dizes Quanza, ou dizes Congo
e sempre que o dizes acorda em torno
um turbilhão de águas:
a vida, em seu inteiro e infinito assombro.




"CORACAO DOS BOSQUES" de Jose Eduardo Agualusa EM 'BOOKS OF LIFE'


E’ assim nos bosques: ha' olhares que se espreitam por entre folhagens... bocas que se desdizem por entre o oco dos troncos... coracoes que se desdobram por entre o vazio dos corpos... maos que se tocam por entre intersticios de alma... sombras que se atropelam por entre luzes difusas... passos que se entrecruzam por entre picadas esconsas... sons que se sussurram por entre palavras indiziveis... aguas que se separam por entre caminhos do rio. Coracoes. E’ assim.
(A.S. Mar 20, 07)

Coracao dos Bosques (1991): consta da obra de Jose’ Eduardo Agualusa como o seu unico volume de poesia. Foi-me dedicado. Por isso o seu lugar em ‘Books of Life’.





“A poesia acerta mais que a ciência. Na natureza, por exemplo, a beleza é utilitária, isto é, não existe no universo fulgor sem serventia. Se os cientistas fossem à procura da beleza ao invés da funcionalidade chegariam mais depressa à funcionalidade.”

José Eduardo Agualusa
(“Discurso sobre o fulgor da língua” in “Catálogo de sombras”)


Uma Voz Que Canta Convoca A Terra Perdida

Uma voz que canta convoca a terra perdida.
Quase em surdina, evoca os secretos lugares
da infância;
o sítio onde pousavam os pássaros
o quintal cheio de estórias
e - lembras-te?- a tarde em chamas.

A voz murmura:
O exílio é onde nada se recorda de ti
Nada te diz:
sou teu/és meu




O Homem Que Vinha Ao Entardecer

(Ouvindo “Sonho de Um Camponês”, por Teta Lando)

Falava com devagar, ajeitando
as palavras. Falava com cuidado,
houvesse lume entre as palavras.

Chegava ao entardecer, os sapatos
cheios de terra vermelha e do perfume
dos matos.

Cumpria rigorosamente os rituais.

Batia primeiro as palmas (junto
ao peito)

Depois falava.
Dos bois, das lavras, das coisas
simples do seu dia-a-dia. E todavia
era tal o mistério das tardes quando
assim falava
que doía.



Os Rios Atónitos

(Ouvindo "Kongo", por Miriam Makeba)


Há palavras a dormir sobre o seu largo
assombro
Por exemplo, se dizes Quanza ou dizes Congo
é como se houvesse pronunciado os próprios
rios
Ou seja, as águas
pesadas de lama, os peixes todos e os perigos
inumeráveis
O musgo das margens, o escuro
mistério em movimento.

Dizes Quanza ou dizes Congo e um rio corre
Lento
em tua boca.

Dizes Quanza
e o ar se preenche de perfumes perplexos.

E dizes Congo
e onde o dizes há grandes aves
e súbitos sons redondos e convexos.

E dizes Quanza, ou dizes Congo
e sempre que o dizes acorda em torno
um turbilhão de águas:
a vida, em seu inteiro e infinito assombro.