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Friday, 2 March 2012

NO "DIA DA MULHER ANGOLANA"... [R]*




Pela estrada desce a noite...
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvilias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.

Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...

Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo Mãe-Negra!

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta, bem calada.

É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada

Alda Lara


( ... Ha' quem continue a "saber tudo" e quem continue a "nao saber nada"... a questao e': "quem e' quem e quem sabe o que sobre o que"...)


Ngongo ya Biluka (Lourdes Van Dunem)


(NB: a cancao da saudosa Lourdes Van Dunem que eu queria realmente colocar aqui era o Monami. Mas, como nao a tenho, podera' ouvi-la no Kurikutela)


(Foto daqui)




*[Postado inicialmente a 02/03/2007]

Post Relacionado:

Ainda Sobre o Dia da Mulher Angolana




Pela estrada desce a noite...
Mãe-Negra, desce com ela...

Nem buganvilias vermelhas,
nem vestidinhos de folhos,
nem brincadeiras de guisos,
nas suas mãos apertadas.

Só duas lágrimas grossas,
em duas faces cansadas.

Mãe-Negra tem voz de vento,
voz de silêncio batendo
nas folhas do cajueiro...

Tem voz de noite, descendo,
de mansinho, pela estrada...
Que é feito desses meninos
que gostava de embalar?...

Que é feito desses meninos
que ela ajudou a criar?...

Quem ouve agora as histórias
que costumava contar?...

Mãe-Negra não sabe nada...

Mas ai de quem sabe tudo,
como eu sei tudo Mãe-Negra!

Os teus meninos cresceram,
e esqueceram as histórias
que costumavas contar...

Muitos partiram p'ra longe,
quem sabe se hão-de voltar!...

Só tu ficaste esperando,
mãos cruzadas no regaço,
bem quieta, bem calada.

É tua a voz deste vento,
desta saudade descendo,
de mansinho pela estrada

Alda Lara


( ... Ha' quem continue a "saber tudo" e quem continue a "nao saber nada"... a questao e': "quem e' quem e quem sabe o que sobre o que"...)


Ngongo ya Biluka (Lourdes Van Dunem)


(NB: a cancao da saudosa Lourdes Van Dunem que eu queria realmente colocar aqui era o Monami. Mas, como nao a tenho, podera' ouvi-la no Kurikutela)


(Foto daqui)




*[Postado inicialmente a 02/03/2007]

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Ainda Sobre o Dia da Mulher Angolana

Tuesday, 11 January 2011

Kundera's "Ignorance" [R]*



IGNORÂNCIA, OU A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO REGRESSO






- O que é que ainda estás aqui a fazer? Perguntou S. indignada.
- Mas tu não vês que eu tenho aqui o meu trabalho, o meu apartamento, a minha vida?, I. retorquiu.
- Meu Deus, I.! O que se está a passar no teu país é tão fascinante! Numa situação como aquela tudo se pode resolver!
- Mas S., não são só as questões práticas, o trabalho, o apartamento. Eu tenho estado aqui a viver há 20 anos. A minha vida está aqui!
- Será o teu grande regresso, respondeu S. depois de um grande silêncio. Repetidas, as palavras adquiriram um tal poder que, no fundo de si, I. via-as escritas em letras capitais: Grande Regresso. Abandonou a sua resistência e deixou-se cativar por imagens súbitamente emergindo de livros lidos há muito tempo, de filmes, da sua própria memória e talvez da sua memória ancestral: o lar que todos carregamos dentro de nós; Odysseus vislumbrando a sua ilha depois de anos de vagueação; o regresso, o regresso, a grande magia do regresso.

A palavra grega para regresso é nostos. Algos significa sofrimento. Portanto, nostalgia é o sofrimento causado por um insaciado desejo de regressar. Para expressar essa noção fundamental, a maior parte dos europeus utiliza a palavra derivada do grego (nostalgia) assim como outras palavras com raízes nos seus idiomas nacionais: anoranza, dizem os espanhóis; saudade, dizem os portugueses. Em cada língua estas palavras têm uma diferente nuance semântica. Frequentemente elas significam apenas a tristeza causada pela impossibilidade de regressar ao país a que se pertence: o anseio pela terra, pelo lar. O que em Inglês se chama “homesickness”. Em espanhol anoranza vem do verbo anorar (sentir nostalgia), que vem do catalão enyorar, por sua vez derivado da palavra latina ignorare. Sob essa luz etimológica, nostalgia parece algo assim como a dor da ignorância, do não saber. Tu estás longe e eu não sei o que é feito de ti. O meu país está longe e eu não sei o que por lá se passa.

(…) A alvorada da antiga cultura grega trouxe o nascimento da Odisseia, o épico fundador da nostalgia. Enfatizemos: Odysseus, o maior aventureiro de todos os tempos, é também o maior nostálgico. Ele partira (não muito contente) para a guerra de Tróia e por lá ficara durante 10 anos. Depois tentou regressar à sua Ithaca nativa, mas as intrigas dos deuses prolongaram-lhe a viagem, primeiro durante 3 anos encalacrado no meio dos mais inusitados acontecimentos, depois por mais 7 anos que passou como refém e amante de Calypso, que na sua paixão não o deixava sair da ilha. Muito diferente da vida de pobre emigrada que I. tem levado por já bastante tempo. Odysseus viveu a verdadeira dolce vita lá na terra de Calypso, uma vida fácil, uma vida de delícias. No entanto, entre a dolce vita num lugar estrangeiro e o arriscado regresso a casa, ele escolheu o regresso.


Desde as primeiras semanas depois de ter emigrado, I. começou a ter estranhos sonhos: ela está num avião que muda de direcção e aterra num aeroporto desconhecido; homens armados e de uniforme esperam-na; num suor frio, ela reconhece a polícia. Noutra ocasião, ela está a caminhar numa pequena cidade quando vê um estranho grupo de mulheres, cada uma com uma caneca de cerveja, correndo em direcção a ela, chamando-a na sua língua com uma falsa cordialidade e, aterrorizada, I. realiza que está na sua terra. Ela grita e acorda. Depois, durante uma conversa com um compatriota também emigrado, I. dá-se conta de que todos os emigrados tinham esses sonhos, todos, sem excepção; primeiro ela ficou comovida pela fraternidade nocturna de pessoas desconhecidas umas das outras, mas depois ficou um tanto irritada: como é possível que uma experiência tão privada como um sonho seja um acontecimento colectivo? O que é que, então, é unico à nossa alma? Mas chega de perguntas que não têm resposta!

Uma coisa era certa: em qualquer noite, milhares de emigrados sonhavam o mesmo sonho num sem número de variantes. O sonho-emigração: um dos fenómenos mais estranhos da segunda metade do século vinte. Esses sonhos-pesadelos pareciam-lhe tanto mais estranhos quanto o facto de que ela era assaltada simultâneamente por uma incontrolável nostalgia e outra experiência completamente oposta: paisagens da sua terra não paravam de passar pela sua mente durante o dia. Durante todo o dia essas fugidias imagens visitavam-na para atenuar o anseio pela sua terra perdida. O dia era iluminado pela beleza da terra abandonada, a noite pelo horror de a ela regressar. O dia mostrava-lhe o paraíso que perdera; a noite, o inferno de que fugira.

Leais à tradição da revolução francesa, os países comunistas excomungavam a emigração, considerada a mais odiosa traição. Todos os que permanecessem no exterior eram condenados in absencia no seu país de origem e os seus compatriotas não se atreviam a ter qualquer contacto com eles. J. relembrou-se de uma antiga idéia sua, que na altura ele próprio considerara blasfema: a aderência ao comunismo não tinha nada a ver com Marx e as suas teorias, mas simplesmente com o facto de que proporcionava às pessoas uma forma de satisfazerem as suas mais diversas necessidades psicológicas: a necessidade de parecer não-conformista, ou de obedecer, ou de punir os maus, ou de ser útil, ou de ter uma grande família à volta. A razão pela qual as pessoas estão agora a abandonar o comunismo não se deve às suas idéias terem mudado ou a terem sofrido um choque, mas ao facto de o credo comunista já não responder a nenhuma necessidade. Tornou-se tão inútil, que toda a gente o deixa fácilmente cair, sem sequer se dar conta.

(…) J. pergunta: - se um país não é independente e nem sequer o quer ser, quererá alguém ainda morrer por ele?

– Querer morrer não é bem o que eu desejo para os meus filhos, N. retorquiu.
– Ponho a pergunta de outro modo, voltou J.: haverá alguém que ainda ame esse país? N. exclamou: - como é que foste capaz de emigrar J.?! Tu és um patriota! Morrer pelo país, isso já acabou! Talvez para ti o tempo tenha parado durante a tua emigração. Mas eles, eles ja não pensam como tu, eles estão noutra!

I. lamenta que os seus compatriotas pensem que todos os emigrados saem em busca de uma vida fácil: não sabem como é duro lutar por um lugar ao sol num país estrangeiro; deixar o país com crianças; perder o marido; criar as crianças sem dinheiro... Mas M. adverte-a: não vale a pena dizer-lhes isso. Até há pouco tempo toda a gente discutia sobre quem tinha passado pior sob o antigo regime. Todos queriam ser reconhecidos como vítimas. Mas esses concursos de sofrimento já passaram de moda. Agora as pessoas gabam-se do seu sucesso, não do seu sofrimento. Portanto, se eles decidirem conceder-te algum respeito, não será pela vida dura que tiveste, mas porque terás arranjado um homem rico!

(…) I. sempre tomara como um dado que emigrar era uma desgraça. Mas agora ela interroga-se se isso não seria uma ilusão sugestionada pela forma como as pessoas avaliam um emigrado. Não estaria ela a interpretar a sua própria vida de acordo com as instruções operativas de outros? Ocorre-lhe que, embora lhe tenha sido imposta de fora e contra a sua vontade, a sua emigração era talvez, sem ela se ter apercebido, a melhor coisa que lhe tinha acontecido na vida. As implacáveis forças da história que tinham atacado a sua liberdade tinham-na, de facto, libertado.

Durante os 20 anos da ausência de Odysseus, o povo de Ithaca retivera muitas recordações dele, mas nunca sentira nostalgia por ele. Por seu lado, Odysseus sofria de nostalgia mas não se lembrava de quase nada. Podemos compreender esta curiosa contradição se realizarmos que para que a memória funcione bem precisa de constante prática: se as recordações não são evocadas repetidamente, em conversas com amigos, desaparecem. Quanto maior a nostalgia, mais vazia de recordações ela se torna. Durante 20 anos, Odysseus não pensara em mais nada senão no seu regresso. Mas uma vez regressado, espantou-se com a realização de que a sua vida, a verdadeira essência da sua vida, o seu centro, o seu tesouro, estava fora de Ithaca, nos 20 anos das suas deambulações.



Os parágrafos precedentes constituem uma ‘colagem’ de extractos de “Ignorance” (Faber & Faber, Londres, 2002), a última obra de Milan Kundera, que tomei a liberdade de traduzir da versão inglesa. Não lia Kundera há mais de dez anos, desde “A Insustentável Leveza do Ser” – quando havia mais tempo para leituras não acadêmicas; mais tempo para partilhar leituras com amigos. Tal como então, (re)descubro a extraordinária capacidade do Checo de nos surpreender com ficções que sub-repticiamente se insinuam nos nossos próprios factos. Como se ele tivesse seguido de perto o percurso das nossas pulsões, memórias, sonhos, desencantos. De alguns de nós. Ou será de todos nós? Haverá mesmo essa coisa chamada “memória colectiva”? Ignoro. Mas sei de quantas vezes uma certa ‘arrogância ignorante’ nos persegue com bizarras noções de poder ou “patriotismo”, mais não visando que expulsar-nos do nosso espaço de pertença natural; mais não visando, de facto, que dele se usurpar. Regressamos, então, ao centro de nós, onde nos redescobrimos, reinventamos ou perdemos, mas permanecemos irrevogávelmente iguais a nós próprios.


A.S. (Publicado em "Factos & Ficções", Semanário Angolense - Luanda, Dezembro, 2002)




*[First posted 12/01/07]



IGNORÂNCIA, OU A INSUSTENTÁVEL LEVEZA DO REGRESSO






- O que é que ainda estás aqui a fazer? Perguntou S. indignada.
- Mas tu não vês que eu tenho aqui o meu trabalho, o meu apartamento, a minha vida?, I. retorquiu.
- Meu Deus, I.! O que se está a passar no teu país é tão fascinante! Numa situação como aquela tudo se pode resolver!
- Mas S., não são só as questões práticas, o trabalho, o apartamento. Eu tenho estado aqui a viver há 20 anos. A minha vida está aqui!
- Será o teu grande regresso, respondeu S. depois de um grande silêncio. Repetidas, as palavras adquiriram um tal poder que, no fundo de si, I. via-as escritas em letras capitais: Grande Regresso. Abandonou a sua resistência e deixou-se cativar por imagens súbitamente emergindo de livros lidos há muito tempo, de filmes, da sua própria memória e talvez da sua memória ancestral: o lar que todos carregamos dentro de nós; Odysseus vislumbrando a sua ilha depois de anos de vagueação; o regresso, o regresso, a grande magia do regresso.

A palavra grega para regresso é nostos. Algos significa sofrimento. Portanto, nostalgia é o sofrimento causado por um insaciado desejo de regressar. Para expressar essa noção fundamental, a maior parte dos europeus utiliza a palavra derivada do grego (nostalgia) assim como outras palavras com raízes nos seus idiomas nacionais: anoranza, dizem os espanhóis; saudade, dizem os portugueses. Em cada língua estas palavras têm uma diferente nuance semântica. Frequentemente elas significam apenas a tristeza causada pela impossibilidade de regressar ao país a que se pertence: o anseio pela terra, pelo lar. O que em Inglês se chama “homesickness”. Em espanhol anoranza vem do verbo anorar (sentir nostalgia), que vem do catalão enyorar, por sua vez derivado da palavra latina ignorare. Sob essa luz etimológica, nostalgia parece algo assim como a dor da ignorância, do não saber. Tu estás longe e eu não sei o que é feito de ti. O meu país está longe e eu não sei o que por lá se passa.

(…) A alvorada da antiga cultura grega trouxe o nascimento da Odisseia, o épico fundador da nostalgia. Enfatizemos: Odysseus, o maior aventureiro de todos os tempos, é também o maior nostálgico. Ele partira (não muito contente) para a guerra de Tróia e por lá ficara durante 10 anos. Depois tentou regressar à sua Ithaca nativa, mas as intrigas dos deuses prolongaram-lhe a viagem, primeiro durante 3 anos encalacrado no meio dos mais inusitados acontecimentos, depois por mais 7 anos que passou como refém e amante de Calypso, que na sua paixão não o deixava sair da ilha. Muito diferente da vida de pobre emigrada que I. tem levado por já bastante tempo. Odysseus viveu a verdadeira dolce vita lá na terra de Calypso, uma vida fácil, uma vida de delícias. No entanto, entre a dolce vita num lugar estrangeiro e o arriscado regresso a casa, ele escolheu o regresso.


Desde as primeiras semanas depois de ter emigrado, I. começou a ter estranhos sonhos: ela está num avião que muda de direcção e aterra num aeroporto desconhecido; homens armados e de uniforme esperam-na; num suor frio, ela reconhece a polícia. Noutra ocasião, ela está a caminhar numa pequena cidade quando vê um estranho grupo de mulheres, cada uma com uma caneca de cerveja, correndo em direcção a ela, chamando-a na sua língua com uma falsa cordialidade e, aterrorizada, I. realiza que está na sua terra. Ela grita e acorda. Depois, durante uma conversa com um compatriota também emigrado, I. dá-se conta de que todos os emigrados tinham esses sonhos, todos, sem excepção; primeiro ela ficou comovida pela fraternidade nocturna de pessoas desconhecidas umas das outras, mas depois ficou um tanto irritada: como é possível que uma experiência tão privada como um sonho seja um acontecimento colectivo? O que é que, então, é unico à nossa alma? Mas chega de perguntas que não têm resposta!

Uma coisa era certa: em qualquer noite, milhares de emigrados sonhavam o mesmo sonho num sem número de variantes. O sonho-emigração: um dos fenómenos mais estranhos da segunda metade do século vinte. Esses sonhos-pesadelos pareciam-lhe tanto mais estranhos quanto o facto de que ela era assaltada simultâneamente por uma incontrolável nostalgia e outra experiência completamente oposta: paisagens da sua terra não paravam de passar pela sua mente durante o dia. Durante todo o dia essas fugidias imagens visitavam-na para atenuar o anseio pela sua terra perdida. O dia era iluminado pela beleza da terra abandonada, a noite pelo horror de a ela regressar. O dia mostrava-lhe o paraíso que perdera; a noite, o inferno de que fugira.

Leais à tradição da revolução francesa, os países comunistas excomungavam a emigração, considerada a mais odiosa traição. Todos os que permanecessem no exterior eram condenados in absencia no seu país de origem e os seus compatriotas não se atreviam a ter qualquer contacto com eles. J. relembrou-se de uma antiga idéia sua, que na altura ele próprio considerara blasfema: a aderência ao comunismo não tinha nada a ver com Marx e as suas teorias, mas simplesmente com o facto de que proporcionava às pessoas uma forma de satisfazerem as suas mais diversas necessidades psicológicas: a necessidade de parecer não-conformista, ou de obedecer, ou de punir os maus, ou de ser útil, ou de ter uma grande família à volta. A razão pela qual as pessoas estão agora a abandonar o comunismo não se deve às suas idéias terem mudado ou a terem sofrido um choque, mas ao facto de o credo comunista já não responder a nenhuma necessidade. Tornou-se tão inútil, que toda a gente o deixa fácilmente cair, sem sequer se dar conta.

(…) J. pergunta: - se um país não é independente e nem sequer o quer ser, quererá alguém ainda morrer por ele?

– Querer morrer não é bem o que eu desejo para os meus filhos, N. retorquiu.
– Ponho a pergunta de outro modo, voltou J.: haverá alguém que ainda ame esse país? N. exclamou: - como é que foste capaz de emigrar J.?! Tu és um patriota! Morrer pelo país, isso já acabou! Talvez para ti o tempo tenha parado durante a tua emigração. Mas eles, eles ja não pensam como tu, eles estão noutra!

I. lamenta que os seus compatriotas pensem que todos os emigrados saem em busca de uma vida fácil: não sabem como é duro lutar por um lugar ao sol num país estrangeiro; deixar o país com crianças; perder o marido; criar as crianças sem dinheiro... Mas M. adverte-a: não vale a pena dizer-lhes isso. Até há pouco tempo toda a gente discutia sobre quem tinha passado pior sob o antigo regime. Todos queriam ser reconhecidos como vítimas. Mas esses concursos de sofrimento já passaram de moda. Agora as pessoas gabam-se do seu sucesso, não do seu sofrimento. Portanto, se eles decidirem conceder-te algum respeito, não será pela vida dura que tiveste, mas porque terás arranjado um homem rico!

(…) I. sempre tomara como um dado que emigrar era uma desgraça. Mas agora ela interroga-se se isso não seria uma ilusão sugestionada pela forma como as pessoas avaliam um emigrado. Não estaria ela a interpretar a sua própria vida de acordo com as instruções operativas de outros? Ocorre-lhe que, embora lhe tenha sido imposta de fora e contra a sua vontade, a sua emigração era talvez, sem ela se ter apercebido, a melhor coisa que lhe tinha acontecido na vida. As implacáveis forças da história que tinham atacado a sua liberdade tinham-na, de facto, libertado.

Durante os 20 anos da ausência de Odysseus, o povo de Ithaca retivera muitas recordações dele, mas nunca sentira nostalgia por ele. Por seu lado, Odysseus sofria de nostalgia mas não se lembrava de quase nada. Podemos compreender esta curiosa contradição se realizarmos que para que a memória funcione bem precisa de constante prática: se as recordações não são evocadas repetidamente, em conversas com amigos, desaparecem. Quanto maior a nostalgia, mais vazia de recordações ela se torna. Durante 20 anos, Odysseus não pensara em mais nada senão no seu regresso. Mas uma vez regressado, espantou-se com a realização de que a sua vida, a verdadeira essência da sua vida, o seu centro, o seu tesouro, estava fora de Ithaca, nos 20 anos das suas deambulações.



Os parágrafos precedentes constituem uma ‘colagem’ de extractos de “Ignorance” (Faber & Faber, Londres, 2002), a última obra de Milan Kundera, que tomei a liberdade de traduzir da versão inglesa. Não lia Kundera há mais de dez anos, desde “A Insustentável Leveza do Ser” – quando havia mais tempo para leituras não acadêmicas; mais tempo para partilhar leituras com amigos. Tal como então, (re)descubro a extraordinária capacidade do Checo de nos surpreender com ficções que sub-repticiamente se insinuam nos nossos próprios factos. Como se ele tivesse seguido de perto o percurso das nossas pulsões, memórias, sonhos, desencantos. De alguns de nós. Ou será de todos nós? Haverá mesmo essa coisa chamada “memória colectiva”? Ignoro. Mas sei de quantas vezes uma certa ‘arrogância ignorante’ nos persegue com bizarras noções de poder ou “patriotismo”, mais não visando que expulsar-nos do nosso espaço de pertença natural; mais não visando, de facto, que dele se usurpar. Regressamos, então, ao centro de nós, onde nos redescobrimos, reinventamos ou perdemos, mas permanecemos irrevogávelmente iguais a nós próprios.


A.S. (Publicado em "Factos & Ficções", Semanário Angolense - Luanda, Dezembro, 2002)




*[First posted 12/01/07]

Wednesday, 31 March 2010

IMAGINATIVE TRESPASSER [R]*



I so hate myself to be pinned down. My mind is always leaping ahead. People sense this. They resent it. Their little bit of truth is enough. Their life stops on their doorstep... I'd like to get a head start. I'd like to be a confederator in this new world. I've long outgrown my small little one. They have the signs up all over - trespassers will be prosecuted - but I am an imaginative trespasser. There are no real barriers then.

(Bessie Head, 3 October 1965)




(Souls) From Cape Town to Serowe and Back...

(...) There’s Bessie Head, of course, in extracts from “Imaginative Trespasser” (Letters between Bessie Head, Patrick and Wendy Cullinan 1963 - 1977) – a true literary treasure for me. I found it some three weeks ago and it took me to the good old days of the fine art of letter writing, which is all but dead nowadays, and has probably renewed in me this “bad habit” of writing to people… BJ, you certainly know her story: she eventually made peace with the ‘biggest African village’ and the village with her; she even came to deeply love the country, having at some point ‘fallen in love’ with the images and legacy of Khama the Great and Tshekedi – the very founder of the school where she had been given so much grief; built a little house with the proceedings of one of her books, became a citizen of the country and some sort of ‘honorary Mangwato’ even if only in her own complex and challenging (challenged?) mind…
You are one of the few I told about that afternoon I stormed out of Gabs and ended up in Serowe for the first time, where I spent a pleasant night in a thatched rondavel and the next day went around the place: visited the Kgotla, where the Chief (also a member of the clans Khama and Seretse) kindly received me, told me about the History of the place and the country and then offered to take me to the Khama graves, having walked me half the way till I asked him not to make the effort all the way uphill; went to the Khama Museum and even passed by the Tshekedi Memorial School. Unfortunately, at the time I didn’t know about the details of Bessie’s life in all those places, or of her arquives in the Museum, otherwise I would have certainly spent more time there just to find out more about her. I’m even tempted to go there again to complete the visit before I leave for Cape Town.
I had been wanting to go there since I read a book about a year ago by Gasebalwe Seretse, “Tshekedi Khama: The Master Whose Dogs Barked at - A critical look at Ngwato Politics”… Now, picture this: just now, I went to fetch this book to double check the author’s name and just ‘discovered’ that, among an all bunch of books on the Khamas and Botswana that I bought in the last year but still haven’t had the time to read, I have “A Question of Power” by Bessie, which I was in the last few days thinking about buying after reading “Imaginative Trespasser”… and more: Seretse actually quotes from Bessie's twice in his book to help the reader visualise Serowe… What a find!

(From a letter from me to some friends, SEP 2005)


*[First posted 25/01/07]


I so hate myself to be pinned down. My mind is always leaping ahead. People sense this. They resent it. Their little bit of truth is enough. Their life stops on their doorstep... I'd like to get a head start. I'd like to be a confederator in this new world. I've long outgrown my small little one. They have the signs up all over - trespassers will be prosecuted - but I am an imaginative trespasser. There are no real barriers then.

(Bessie Head, 3 October 1965)




(Souls) From Cape Town to Serowe and Back...

(...) There’s Bessie Head, of course, in extracts from “Imaginative Trespasser” (Letters between Bessie Head, Patrick and Wendy Cullinan 1963 - 1977) – a true literary treasure for me. I found it some three weeks ago and it took me to the good old days of the fine art of letter writing, which is all but dead nowadays, and has probably renewed in me this “bad habit” of writing to people… BJ, you certainly know her story: she eventually made peace with the ‘biggest African village’ and the village with her; she even came to deeply love the country, having at some point ‘fallen in love’ with the images and legacy of Khama the Great and Tshekedi – the very founder of the school where she had been given so much grief; built a little house with the proceedings of one of her books, became a citizen of the country and some sort of ‘honorary Mangwato’ even if only in her own complex and challenging (challenged?) mind…
You are one of the few I told about that afternoon I stormed out of Gabs and ended up in Serowe for the first time, where I spent a pleasant night in a thatched rondavel and the next day went around the place: visited the Kgotla, where the Chief (also a member of the clans Khama and Seretse) kindly received me, told me about the History of the place and the country and then offered to take me to the Khama graves, having walked me half the way till I asked him not to make the effort all the way uphill; went to the Khama Museum and even passed by the Tshekedi Memorial School. Unfortunately, at the time I didn’t know about the details of Bessie’s life in all those places, or of her arquives in the Museum, otherwise I would have certainly spent more time there just to find out more about her. I’m even tempted to go there again to complete the visit before I leave for Cape Town.
I had been wanting to go there since I read a book about a year ago by Gasebalwe Seretse, “Tshekedi Khama: The Master Whose Dogs Barked at - A critical look at Ngwato Politics”… Now, picture this: just now, I went to fetch this book to double check the author’s name and just ‘discovered’ that, among an all bunch of books on the Khamas and Botswana that I bought in the last year but still haven’t had the time to read, I have “A Question of Power” by Bessie, which I was in the last few days thinking about buying after reading “Imaginative Trespasser”… and more: Seretse actually quotes from Bessie's twice in his book to help the reader visualise Serowe… What a find!

(From a letter from me to some friends, SEP 2005)


*[First posted 25/01/07]

Friday, 25 May 2007

REVISITING SOUTH AFRICA - II

EXPERIENCING THE LANZERAC - STELLENBOSCH



I must confess that this was the most unique hotel experience I’ve ever had. Imagine being lodged in a huge classically decorated room with its own fireplace, a bathroom almost as big as the room and its own outdoor garden patio where you can enjoy the spells of good weather under a secular oak tree, while sipping from a glass of home-produced good old wine and facing nothing else in the horizon but the imposing view of the mountains and the sky… All this inside a private working wine farm located in the famous Jonkershoek Valley, surrounded by the picturesque Helderberg Mountains… This is the Lanzerac Hotel and Manor, in Stellenbosch - South Africa, where you are received with the phrase: “We’ve been preparing for your arrival for 300 years”!


Four years ago, in my first visit to Stellenbosch, I stayed for two weeks at the then newly built local Protea (for a series of workshops on International Trade sponsored by TRALAC, UNCTAD and the WTO), where the views from my room’s balcony were all vineyards, mountains and wondrous skies constantly changing with the mood of the local micro-climate. And I thought that was as good as you could possibly get as far as experiencing Stellenbosch went…


Then, about a year ago, I stayed for three days at the Stellenbosch Hydro Natural Health Resort, thus presented: “Nestled in the tranquillity of Ida's Valley just outside Stellenbosch, the surrounding woodlands, magical gardens and crisp mountain air make it one of the most beautiful and serene retreats on earth.” Again, that was a most memorable and reinvigorating experience.


Now, the Lanzerac is an altogether different (hi)story. As it goes: “In 1692, governor Simon van der Stel granted a considerable tract of land in the majestic Jonkershoek Valley of Stellenbosch to Isaac Schrijver who named the farm Schoongezicht (beautiful outlook) and planted the first vineyards. Over the years, the Estate passed through a succession of owners who each contributed by building on to the farm. Records show that Coenraad Fick built the cellar in 1815 and the U shaped homestead in 1830. This distinguished Manor House with its neo-classical main gable still stands today and exhibits a high level of sophistication for Cape Dutch architecture of the period.


In 1914, Schoongezicht was bought by Elizabeth Catherine English who changed the name to Lanzerac and bottled the first Lanzerac wine from grapes grown on her land. The two Rawdon brothers bought the farm in 1958 and converted the homestead and outbuildings to a luxury hotel furnished with English and Cape antiques. These buildings were declared national monuments.”


I was invited there by a group of institutional bodies and governmental think tanks sponsoring APORDE – “African Programme on Rethinking Development Economics”, a spinoff of CAPORDE - the "Cambridge Advanced Programme on Rethinking Development Economics", of the University of Cambridge, UK. It congregated a number of academics, researchers, government officials, development policy practitioners and civil society activists from different African countries and other parts of the world bent on turning Development Economics on its head.
They were expected to wrap-up their business today and I hope they’ve succeeded at their endeavours – I just felt compelled, for particular reasons, to leave them just at the beginning (yet, having arrived earlier, on my return from the Okavango Delta, I could still enjoy a good five days of the Lanzerac experience) and, I’m afraid, not totally convinced that they’ll succeed at their stated intentions… Still, all the best are my wishes, specially for the many enthusiastic Africans who took part (... there was even one talking of "a revolution about to happen" there, while wearing a t-shirt stating "Africa is not for sale", to which I responded "this revolution won't be televised"... it's being blogged though).
Afrika could well do with a serious change in mainstream development thinking and practice!
EXPERIENCING THE LANZERAC - STELLENBOSCH



I must confess that this was the most unique hotel experience I’ve ever had. Imagine being lodged in a huge classically decorated room with its own fireplace, a bathroom almost as big as the room and its own outdoor garden patio where you can enjoy the spells of good weather under a secular oak tree, while sipping from a glass of home-produced good old wine and facing nothing else in the horizon but the imposing view of the mountains and the sky… All this inside a private working wine farm located in the famous Jonkershoek Valley, surrounded by the picturesque Helderberg Mountains… This is the Lanzerac Hotel and Manor, in Stellenbosch - South Africa, where you are received with the phrase: “We’ve been preparing for your arrival for 300 years”!


Four years ago, in my first visit to Stellenbosch, I stayed for two weeks at the then newly built local Protea (for a series of workshops on International Trade sponsored by TRALAC, UNCTAD and the WTO), where the views from my room’s balcony were all vineyards, mountains and wondrous skies constantly changing with the mood of the local micro-climate. And I thought that was as good as you could possibly get as far as experiencing Stellenbosch went…


Then, about a year ago, I stayed for three days at the Stellenbosch Hydro Natural Health Resort, thus presented: “Nestled in the tranquillity of Ida's Valley just outside Stellenbosch, the surrounding woodlands, magical gardens and crisp mountain air make it one of the most beautiful and serene retreats on earth.” Again, that was a most memorable and reinvigorating experience.


Now, the Lanzerac is an altogether different (hi)story. As it goes: “In 1692, governor Simon van der Stel granted a considerable tract of land in the majestic Jonkershoek Valley of Stellenbosch to Isaac Schrijver who named the farm Schoongezicht (beautiful outlook) and planted the first vineyards. Over the years, the Estate passed through a succession of owners who each contributed by building on to the farm. Records show that Coenraad Fick built the cellar in 1815 and the U shaped homestead in 1830. This distinguished Manor House with its neo-classical main gable still stands today and exhibits a high level of sophistication for Cape Dutch architecture of the period.


In 1914, Schoongezicht was bought by Elizabeth Catherine English who changed the name to Lanzerac and bottled the first Lanzerac wine from grapes grown on her land. The two Rawdon brothers bought the farm in 1958 and converted the homestead and outbuildings to a luxury hotel furnished with English and Cape antiques. These buildings were declared national monuments.”


I was invited there by a group of institutional bodies and governmental think tanks sponsoring APORDE – “African Programme on Rethinking Development Economics”, a spinoff of CAPORDE - the "Cambridge Advanced Programme on Rethinking Development Economics", of the University of Cambridge, UK. It congregated a number of academics, researchers, government officials, development policy practitioners and civil society activists from different African countries and other parts of the world bent on turning Development Economics on its head.
They were expected to wrap-up their business today and I hope they’ve succeeded at their endeavours – I just felt compelled, for particular reasons, to leave them just at the beginning (yet, having arrived earlier, on my return from the Okavango Delta, I could still enjoy a good five days of the Lanzerac experience) and, I’m afraid, not totally convinced that they’ll succeed at their stated intentions… Still, all the best are my wishes, specially for the many enthusiastic Africans who took part (... there was even one talking of "a revolution about to happen" there, while wearing a t-shirt stating "Africa is not for sale", to which I responded "this revolution won't be televised"... it's being blogged though).
Afrika could well do with a serious change in mainstream development thinking and practice!

Thursday, 8 February 2007

WHOOPI'S AFRICAN ORIGINS TRACED BACK TO GUINE-BISSAU

Acabei de ver/ouvir esta noticia numa cadeia de televisao Americana:

Atraves de testes de DNA, as origens Africanas de Whoopi Goldberg foram tracadas a Guine-Bissau. Ao tomar conhecimento dessa descoberta, o governo Guineense tera' enviado uma carta a Whoopi convidando-a a visitar o pais... (o comentador chama a atencao para a forma incorrecta como o nome da "nova filha da Guine Bissau" e' escrito na carta e para "o facto de que, no fundo, o que o governo Guineense pretende e' atrair turistas ao pais"...).

Em resposta, os representantes da Whoopi afirmaram que tal carta nunca foi recebida pela destinataria... que esta evita ao maximo viajar de aviao e que nao tem quaisquer intencoes de viajar no futuro proximo... (o comentador acrescenta que, imediatamente apos a descoberta, os filmes da Whoopi comecaram a ser intensamente divulgados no pais, embora com legendas "lost in translation" e que, apesar de o pais nao ter quaisquer recursos naturais, ao governo de Bissau nao falta optimismo, pelo que continua a acreditar que Whoopi visitara' o pais brevemente e que, atras dela, irao os turistas...).

Ca' estaremos para aplaudir!
Acabei de ver/ouvir esta noticia numa cadeia de televisao Americana:

Atraves de testes de DNA, as origens Africanas de Whoopi Goldberg foram tracadas a Guine-Bissau. Ao tomar conhecimento dessa descoberta, o governo Guineense tera' enviado uma carta a Whoopi convidando-a a visitar o pais... (o comentador chama a atencao para a forma incorrecta como o nome da "nova filha da Guine Bissau" e' escrito na carta e para "o facto de que, no fundo, o que o governo Guineense pretende e' atrair turistas ao pais"...).

Em resposta, os representantes da Whoopi afirmaram que tal carta nunca foi recebida pela destinataria... que esta evita ao maximo viajar de aviao e que nao tem quaisquer intencoes de viajar no futuro proximo... (o comentador acrescenta que, imediatamente apos a descoberta, os filmes da Whoopi comecaram a ser intensamente divulgados no pais, embora com legendas "lost in translation" e que, apesar de o pais nao ter quaisquer recursos naturais, ao governo de Bissau nao falta optimismo, pelo que continua a acreditar que Whoopi visitara' o pais brevemente e que, atras dela, irao os turistas...).

Ca' estaremos para aplaudir!

Wednesday, 24 January 2007

CRÓNICA DE UMA DECISÃO DOCE E AMARGA (II)

Por José Cardoso Jr.

Dezembro, 2006

O fim do ano é, também, um tempo excelente para reflectir sobre aquilo que é parte de nós e que contribui para a paz e felicidade: as relações humanas. Com o aumento das dificuldades sociais, aumenta o desrespeito por coisas que eram sagradas entre nós. Aumenta a prostituição, aumenta o descaso para com os pobres, aumentam as mortes desnecessárias, aumentam as casas de lata, e, com tudo isso, aumenta a desconfiança e o descaso para com aqueles que outrora eram os pilares das comunidades, os governantes, os vizinhos, e, em muitos casos, os familiares. Mas tudo isso tende a diminuir paulatinamente. A criminalidade diminui quando a polícia se organiza humana e tecnologicamente; as mazelas sociais diminuem quando há um aumento da oferta de trabalho, quando a indústria, agricultura, saúde e educação são tratadas como sectores essências e recebem o devido apoio para seu desenvolvimento; a desordem social tende a diminuir à medida que o sistema judicial se torna independente, a oportunidade para educação se estenda a todo território nacional e as condições de vida do país permitem que muitos cidadãos regressem às províncias do interior e aos e seus municípios. A reconstrução da Europa levou 7 a 10 anos dependendo da referência que se usa, a do Japão levou quase uma década (meados dos anos 50), a de Angola levará mais tempo, porque o conflito angolano foi em muito mais devastador. Não temos o nível de desenvolvimento que a Europa e o Japão já tinham na altura. Além disso, somos africanos. Estes normalmente não recebem tão prontamente o apoio necessário para os seus programas de desenvolvimento. Mas lá se há-de chegar. É nisso que acredito neste Dezembro frio de Londres. O fim de ano é o tempo em que as pessoas se sentam, reavaliam as suas prioridades e, às vezes, mudam o rumo das suas vidas. Alguns deixam de fumar, outros passam a ir ao ginásio. Eu decidi voltar a Angola por algum tempo, na primeira oportunidade. Mas esta é uma decisão de grande impacto na minha vida. Depois de tantos anos, voltar não é fácil. A vida tornou-se confortável. Os pequenos já não são bebés. O emprego é estável e nele sinto-me em casa. A esposa não parece tão entusiasmada. Ela tem carreira e aspirações próprias. Os miúdos perguntam por isto e aquilo e a resposta nem sempre é a mais convincente. Mas somos angolanos vivendo em terra emprestada e quando é este o caso, o corpo pode estar satisfeito, mas a alma chora. Quando se olha para os vencimentos praticados no mercado de trabalho, vacila-se pois com estes é impossível viver. Mas continua a esperança de que algo se pode arranjar. Assim é o angolano, que anda com a esperança no bolso.
Por José Cardoso Jr.

Dezembro, 2006

O fim do ano é, também, um tempo excelente para reflectir sobre aquilo que é parte de nós e que contribui para a paz e felicidade: as relações humanas. Com o aumento das dificuldades sociais, aumenta o desrespeito por coisas que eram sagradas entre nós. Aumenta a prostituição, aumenta o descaso para com os pobres, aumentam as mortes desnecessárias, aumentam as casas de lata, e, com tudo isso, aumenta a desconfiança e o descaso para com aqueles que outrora eram os pilares das comunidades, os governantes, os vizinhos, e, em muitos casos, os familiares. Mas tudo isso tende a diminuir paulatinamente. A criminalidade diminui quando a polícia se organiza humana e tecnologicamente; as mazelas sociais diminuem quando há um aumento da oferta de trabalho, quando a indústria, agricultura, saúde e educação são tratadas como sectores essências e recebem o devido apoio para seu desenvolvimento; a desordem social tende a diminuir à medida que o sistema judicial se torna independente, a oportunidade para educação se estenda a todo território nacional e as condições de vida do país permitem que muitos cidadãos regressem às províncias do interior e aos e seus municípios. A reconstrução da Europa levou 7 a 10 anos dependendo da referência que se usa, a do Japão levou quase uma década (meados dos anos 50), a de Angola levará mais tempo, porque o conflito angolano foi em muito mais devastador. Não temos o nível de desenvolvimento que a Europa e o Japão já tinham na altura. Além disso, somos africanos. Estes normalmente não recebem tão prontamente o apoio necessário para os seus programas de desenvolvimento. Mas lá se há-de chegar. É nisso que acredito neste Dezembro frio de Londres. O fim de ano é o tempo em que as pessoas se sentam, reavaliam as suas prioridades e, às vezes, mudam o rumo das suas vidas. Alguns deixam de fumar, outros passam a ir ao ginásio. Eu decidi voltar a Angola por algum tempo, na primeira oportunidade. Mas esta é uma decisão de grande impacto na minha vida. Depois de tantos anos, voltar não é fácil. A vida tornou-se confortável. Os pequenos já não são bebés. O emprego é estável e nele sinto-me em casa. A esposa não parece tão entusiasmada. Ela tem carreira e aspirações próprias. Os miúdos perguntam por isto e aquilo e a resposta nem sempre é a mais convincente. Mas somos angolanos vivendo em terra emprestada e quando é este o caso, o corpo pode estar satisfeito, mas a alma chora. Quando se olha para os vencimentos praticados no mercado de trabalho, vacila-se pois com estes é impossível viver. Mas continua a esperança de que algo se pode arranjar. Assim é o angolano, que anda com a esperança no bolso.

CRÓNICA DE UMA DECISÃO DOCE E AMARGA (I)

Por José Cardoso Jr.

Dezembro, 2006

O fim de ano é um tempo de excitação, tempo de limpar o velho e olhar ansiosamente (no bom sentido) para o futuro. De olhar com alegria para as promessas futuras e contar as bênçãos do ano que se vai. Tempo de contabilidade, de elogios a quem merece, de sorrisos para os que respiram e de lágrimas para os que se foram. Este é tempo de reflexão. De ter a determinação de considerar as nossas acções de uma perspectiva diferente antes de as executarmos. Tempo de saudar alguns (mas de modo algum todos) pelas suas realizações e tentativas por esta Angola carente de carinho e dedicação de todos. Para mim cada ano que se vai, uma lágrima cai e um sorri aflora. Uma lágrima porque aumentam os cabelos grisalhos (que, surpreendentemente, estão a surgir, apesar dos meus 38 anos de idade), e um sorriso, por ter vivido mais um ano e desfrutar de alegrias que só os vivos podem. Este é, portanto, tempo de celebrar a vida. De vivê-la com prazer e humildade a cada minuto. Tempo de distribuir sorrisos aos que imploram por um, de abraçar amigos e adversários na certeza de que bem lá no fundo, nós gostamos muito uns de outros apesar das diferenças. Tempo de definir prioridades para o próximo ano, com a promessa de não repetir os erros deste ano. Para Angola, o próximo ano será, definitivamente, um ano excitante. Muitos dirão com justeza: «Estamos sempre a subir»; outros nem tanto, mas a verdade é que ao mesmo tempo que as críticas e frustrações aumentarão no que toca à qualidade de vida, dar-se-ão passos em frente, visto que o processo de reconstrução nacional, apesar de titubeante, continuará a sua marcha irreversível e com ele a melhoria das condições de vida. É impossível não pensar assim quando se olha para a grandeza deste país. Grandeza de riquezas. Grandeza de querer. Grandeza de potencial humano. As universidades (apesar de pouquíssimas) estão cheias. A juventude, cheia de força e capacidade de aprender, quer trabalhar, contribuir com seu vigor juvenil aí onde é necessário. O espírito empreendedor ganhará novo ímpeto com a consolidação do Banco de Desenvolvimento de Angola (espera-se que assim seja e que todos, sem distinção injusta, possam beneficiar dele). Acredito que as estradas e pontes começarão realmente a ser reconstruídas. Acredito que haverá gestores de projectos, engenheiros, técnicos, trabalhadores braçais no terreno e nos escritórios onde se tomarem decisões. Acredito que estas serão decisões puramente técnicas, tomadas por técnicos, gente que entende da coisa e pode levar a bom porto o que for minuciosamente planificado.
Por José Cardoso Jr.

Dezembro, 2006

O fim de ano é um tempo de excitação, tempo de limpar o velho e olhar ansiosamente (no bom sentido) para o futuro. De olhar com alegria para as promessas futuras e contar as bênçãos do ano que se vai. Tempo de contabilidade, de elogios a quem merece, de sorrisos para os que respiram e de lágrimas para os que se foram. Este é tempo de reflexão. De ter a determinação de considerar as nossas acções de uma perspectiva diferente antes de as executarmos. Tempo de saudar alguns (mas de modo algum todos) pelas suas realizações e tentativas por esta Angola carente de carinho e dedicação de todos. Para mim cada ano que se vai, uma lágrima cai e um sorri aflora. Uma lágrima porque aumentam os cabelos grisalhos (que, surpreendentemente, estão a surgir, apesar dos meus 38 anos de idade), e um sorriso, por ter vivido mais um ano e desfrutar de alegrias que só os vivos podem. Este é, portanto, tempo de celebrar a vida. De vivê-la com prazer e humildade a cada minuto. Tempo de distribuir sorrisos aos que imploram por um, de abraçar amigos e adversários na certeza de que bem lá no fundo, nós gostamos muito uns de outros apesar das diferenças. Tempo de definir prioridades para o próximo ano, com a promessa de não repetir os erros deste ano. Para Angola, o próximo ano será, definitivamente, um ano excitante. Muitos dirão com justeza: «Estamos sempre a subir»; outros nem tanto, mas a verdade é que ao mesmo tempo que as críticas e frustrações aumentarão no que toca à qualidade de vida, dar-se-ão passos em frente, visto que o processo de reconstrução nacional, apesar de titubeante, continuará a sua marcha irreversível e com ele a melhoria das condições de vida. É impossível não pensar assim quando se olha para a grandeza deste país. Grandeza de riquezas. Grandeza de querer. Grandeza de potencial humano. As universidades (apesar de pouquíssimas) estão cheias. A juventude, cheia de força e capacidade de aprender, quer trabalhar, contribuir com seu vigor juvenil aí onde é necessário. O espírito empreendedor ganhará novo ímpeto com a consolidação do Banco de Desenvolvimento de Angola (espera-se que assim seja e que todos, sem distinção injusta, possam beneficiar dele). Acredito que as estradas e pontes começarão realmente a ser reconstruídas. Acredito que haverá gestores de projectos, engenheiros, técnicos, trabalhadores braçais no terreno e nos escritórios onde se tomarem decisões. Acredito que estas serão decisões puramente técnicas, tomadas por técnicos, gente que entende da coisa e pode levar a bom porto o que for minuciosamente planificado.