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Friday, 16 January 2009

'DESEMBRULHANDO A CRISE' (II)

Desde o primeiro numero desta serie, pode-se seguramente dizer que “a crise vai bem, obrigada”: alguns dos maiores gigantes do fordismo nos EUA e na Europa (em particular na industria automovel, incluindo a iconica Ford) seguiram-se aos ‘tigres de papel’ de Wall Street e da City de Londres na longa ‘bicha’ de pedintes de dinheiros publicos; os poderes publicos, por seu lado, nao se teem poupado a alargar os cordoes a bolsa para, por um lado, atender aos pedintes dos sectores produtivo e especulativo e, por outro, conceder todos os estimulos possiveis e imaginaveis, tanto fiscais como crediticios, aos deprimidos consumidores e, por via disso, foram descendo as taxas de juro ate’ ao nivel zero ou, numa outra analise, a linha de passe entre a recessao e a depressao.

Enquanto isso, varios operadores em todos os sectores economicos continuaram a afundar-se – com alguns casos de policia e tragicos suicidios pelo meio – e a generalidade dos consumidores continuaram a nao impedir que grandes nomes da ‘high/main street’ (do que a Woolworths – uma cadeia retalhista com mais de um seculo de existencia no mercado Britanico – tem sido nas ultimas semanas o caso mais emblematico) continuem a falir. Estaremos, assim, numa situacao que nos permite visualizar em termos praticos e reais aquilo que, em termos teoricos, e’ definido em macroeconomia como a “armadilha da liquidez”, ou seja, uma situacao em que, por mais barato que seja o dinheiro, as politicas monetaria e fiscal se demonstram incapazes por si sos de estimular a producao e o consumo e, consequentemente, o crescimento economico.

Essa situacao, porem, poder-se-ia restringir ao ocidente, nao estivessemos nos numa economia globalizada (globalizadora?) e nao fossem as restricoes impostas pela OPEP aos paises produtores de petroleo (Angola) que os deixam em nao tao ‘bons espiritos’ quanto em condicoes normais seria de prever, particularmente quando estes estao sobremaneira depedentes de, por um lado, emprestimos estrangeiros e, por outro, aplicacoes financeiras que, na actual conjuntura, se apresentam tao vulneraveis quanto quaisquer outras nas pracas financeiras internacionais. A tal ponto que, quando o estudo de viabilidade do recem-projectado Fundo Soberano Angolano estiver concluido, talvez ja’ nao haja fundos assim tao disponiveis para o instituir e manter… Ha’, contudo, neste contexto, uma noticia geralmente animadora: a China, neste momento maior parceiro economico de Angola, acaba de ascender a posicao de terceira maior economia mundial, depois dos EUA e do Japao, tendo destronado a Alemanha daquela posicao. Ate’ que ponto sera’ esta uma noticia particularmente animadora para Angola? Questao a acompanhar nos proximos tempos. Por agora, voltemos brevemente ao primeiro numero desta serie, que assim terminei:

Essa, do meu ponto de vista, a essencia da crise que se vem desenrolando aos nossos olhos. Se ha’ uma licao basica a retirar dela, e’ que nenhuma economia se pode dar ao luxo de perder o equilibrio essencial entre o sector de bens (e servicos) e o sector das financas, ou seja, entre a economia real e a economia monetaria. Este ‘lembrete’ torna-se particularmente relevante para algumas das questoes que levantei, bastante antes desta crise, no meu artigo “Politica, Futebol e Algumas Consideracoes sobre a Actual Conjuntura Economica Angolana”. A elas voltarei.

E, aqui volto a elas, como prometido. Nao directamente, mas atraves do economista no pensamento de quem se estruturou sobremaneira a minha formacao basica em Economia, John Maynard Keynes {ele que, tendo dito que “os homens praticos que acreditam estar imunes a qualquer influencia intelectual, sao normalmente escravos de um qualquer economista defunto” (tenho ca’ para mim que ele deveria estar a pensar no economista entao ja' defunto Karl Marx…), tem suscitado recentemente afirmacoes que o creditam como o unico economista (defunto) a quem recorrer neste momento em busca de solucoes para a actual crise, pelo facto de a sua analise de recessoes e depressoes economicas continuar a ser a fundacao da moderna macroeconomia, ou que, tendo ele famosamente afirmado que "no longo prazo (do ciclo historico-economico) estamos todos mortos", verifica-se agora que neste momento ele esta tudo menos morto , ao ponto de ter sido referido como o homem do ano - passado, que, pelo menos no que diz respeito a crise economica, continua neste ano que agora se inicia}, usando duas citacoes, que me parecem fulcrais no ambito da analise que sugeri naquele meu artigo do inicio de 2006, de uma celebre carta aberta que ele enderecou, em 1933, ao entao Presidente Roosevelt dos EUA, oferecendo o seu technical advice para a recuperacao da Grande Depressao que se vivia naqueles dias:

“(…) O objectivo da recuperacao e’ aumentar o produto nacional e colocar mais homens a trabalhar. No sistema economico do mundo moderno, o produto e’ primariamente para venda; e o volume do produto depende da quantidade do poder de compra, comparada com o custo primario da producao que se espera colocar no mercado. Genericamente falando, portanto, um aumento do produto nao se pode verificar a menos que opere um ou outro de tres factores. Os individuos devem ser induzidos a gastar mais dos seus rendimentos existentes; ou o mundo empresarial deve ser induzido, seja atraves de um aumento da confianca nas expectativas ou de uma mais baixa taxa de juro, a criar adicionais rendimentos correntes nas maos dos seus empregados, o que acontece quando ou o capital fixo, ou o capital operacional do pais esta’ a ser incrementado; ou a autoridade publica tem que ser chamada para ajudar a criar rendimentos correntes adicionais atraves de despesa ou de dinheiro emprestado ou imprimido. Em maus tempos nao se pode esperar que o primeiro factor funcione a uma escala suficiente. O segundo factor entrara’ em accao como a segunda onda de ataque a recessao depois da vaga ter sido contrariada pela despesa publica. E’, portanto, apenas do terceiro factor que se pode esperar o maior impulso inicial.”

Ora, como vimos nos paragrafos iniciais deste post, este diagnostico de Keynes e’ claramente evidenciado pela presente crise economica, nao apenas ocidental, mas global, incluindo o mercado domestico da China, apesar da sua recente ascensao a categoria de terceira potencia mundial -, sendo que, a par do consenso que se reune a volta da necessidade de conceder estimulos a economia, decorre neste momento um debate bastante interessante sobre os limites desses estimulos e as melhores vias para os tornarem mais eficazes. Vejamos entao qual a prescricao de Keynes:

“(…) Assim, como primordial incentivador no primeiro estagio da tecnica de recuperacao, eu ponho uma enfase avassaladora no aumento do poder de compra nacional, resultante da despesa governamental, que seja financiado por emprestimos e nao por tributacao dos rendimentos presentes. Nada mais conta em comparacao com isto. Numa situacao de expansao economica, a inflacao pode ser causada pela permissao de que o credito ilimitado apoie o entusiasmo excitado dos especuladores empresariais. Mas numa recessao, a despesa crediticia governamental e’ a unica forma segura de se garantir rapidamente um aumento do produto a precos crescentes. E’ por isso que uma guerra causa sempre uma intensa actividade industrial. No passado, o financiamento ortodoxo via uma guerra como a unica legitima desculpa para a criacao de emprego atraves da despesa governamental. Voce, Sr. Presidente, tendo deixado de lado tal pensamento, e’ livre de utilizar nos interesses da paz e da prosperidade a tecnica a qual ate’ agora apenas foi permitido servir os propositos da guerra e da destruicao.”

Nao se aplica isto bem a Angola, meus caros leitores? Eu diria que sim, especialmente tendo em conta o que ele diz num outro paragrafo da mesma carta quanto as areas em que a despesa publica se deveria aplicar, “(…) devera’ ser dada preferencia aquelas que poderao mais rapidamente madurar em grande escala, como por exemplo a reabilitacao das condicoes fisicas das linhas ferreas” (ao que poderiamos acrescentar outras obras publicas e investimentos em infra-estruturas, como a construcao de habitacoes e a reabilitacao de estradas, etc.). Mas diria tambem algo mais: que o diagnostico e prescricao de Keynes – onde ele diz, nomeadamente, que “o objectivo da recuperacao e’ aumentar o produto nacional e colocar mais homens a trabalhar” e que “eu ponho uma enfase avassaladora no aumento do poder de compra nacional” e, ja' agora, ao que ele tambem disse num outro contexto: "a politica monetaria e cambial de um pais devera’ ser inteiramente subordinada ao objectivo do aumento da producao e do emprego ao nivel certo" -, referem-se estritamente ao produto, ao emprego e ao poder de compra dos nacionais. Aplicar-se-ha’ isto inteiramente a Angola? Esse e’, do meu (humilde, il faut le dire…), ponto de vista, o prublema que ainda estamos kum ele…
Desde o primeiro numero desta serie, pode-se seguramente dizer que “a crise vai bem, obrigada”: alguns dos maiores gigantes do fordismo nos EUA e na Europa (em particular na industria automovel, incluindo a iconica Ford) seguiram-se aos ‘tigres de papel’ de Wall Street e da City de Londres na longa ‘bicha’ de pedintes de dinheiros publicos; os poderes publicos, por seu lado, nao se teem poupado a alargar os cordoes a bolsa para, por um lado, atender aos pedintes dos sectores produtivo e especulativo e, por outro, conceder todos os estimulos possiveis e imaginaveis, tanto fiscais como crediticios, aos deprimidos consumidores e, por via disso, foram descendo as taxas de juro ate’ ao nivel zero ou, numa outra analise, a linha de passe entre a recessao e a depressao.

Enquanto isso, varios operadores em todos os sectores economicos continuaram a afundar-se – com alguns casos de policia e tragicos suicidios pelo meio – e a generalidade dos consumidores continuaram a nao impedir que grandes nomes da ‘high/main street’ (do que a Woolworths – uma cadeia retalhista com mais de um seculo de existencia no mercado Britanico – tem sido nas ultimas semanas o caso mais emblematico) continuem a falir. Estaremos, assim, numa situacao que nos permite visualizar em termos praticos e reais aquilo que, em termos teoricos, e’ definido em macroeconomia como a “armadilha da liquidez”, ou seja, uma situacao em que, por mais barato que seja o dinheiro, as politicas monetaria e fiscal se demonstram incapazes por si sos de estimular a producao e o consumo e, consequentemente, o crescimento economico.

Essa situacao, porem, poder-se-ia restringir ao ocidente, nao estivessemos nos numa economia globalizada (globalizadora?) e nao fossem as restricoes impostas pela OPEP aos paises produtores de petroleo (Angola) que os deixam em nao tao ‘bons espiritos’ quanto em condicoes normais seria de prever, particularmente quando estes estao sobremaneira depedentes de, por um lado, emprestimos estrangeiros e, por outro, aplicacoes financeiras que, na actual conjuntura, se apresentam tao vulneraveis quanto quaisquer outras nas pracas financeiras internacionais. A tal ponto que, quando o estudo de viabilidade do recem-projectado Fundo Soberano Angolano estiver concluido, talvez ja’ nao haja fundos assim tao disponiveis para o instituir e manter… Ha’, contudo, neste contexto, uma noticia geralmente animadora: a China, neste momento maior parceiro economico de Angola, acaba de ascender a posicao de terceira maior economia mundial, depois dos EUA e do Japao, tendo destronado a Alemanha daquela posicao. Ate’ que ponto sera’ esta uma noticia particularmente animadora para Angola? Questao a acompanhar nos proximos tempos. Por agora, voltemos brevemente ao primeiro numero desta serie, que assim terminei:

Essa, do meu ponto de vista, a essencia da crise que se vem desenrolando aos nossos olhos. Se ha’ uma licao basica a retirar dela, e’ que nenhuma economia se pode dar ao luxo de perder o equilibrio essencial entre o sector de bens (e servicos) e o sector das financas, ou seja, entre a economia real e a economia monetaria. Este ‘lembrete’ torna-se particularmente relevante para algumas das questoes que levantei, bastante antes desta crise, no meu artigo “Politica, Futebol e Algumas Consideracoes sobre a Actual Conjuntura Economica Angolana”. A elas voltarei.

E, aqui volto a elas, como prometido. Nao directamente, mas atraves do economista no pensamento de quem se estruturou sobremaneira a minha formacao basica em Economia, John Maynard Keynes {ele que, tendo dito que “os homens praticos que acreditam estar imunes a qualquer influencia intelectual, sao normalmente escravos de um qualquer economista defunto” (tenho ca’ para mim que ele deveria estar a pensar no economista entao ja' defunto Karl Marx…), tem suscitado recentemente afirmacoes que o creditam como o unico economista (defunto) a quem recorrer neste momento em busca de solucoes para a actual crise, pelo facto de a sua analise de recessoes e depressoes economicas continuar a ser a fundacao da moderna macroeconomia, ou que, tendo ele famosamente afirmado que "no longo prazo (do ciclo historico-economico) estamos todos mortos", verifica-se agora que neste momento ele esta tudo menos morto , ao ponto de ter sido referido como o homem do ano - passado, que, pelo menos no que diz respeito a crise economica, continua neste ano que agora se inicia}, usando duas citacoes, que me parecem fulcrais no ambito da analise que sugeri naquele meu artigo do inicio de 2006, de uma celebre carta aberta que ele enderecou, em 1933, ao entao Presidente Roosevelt dos EUA, oferecendo o seu technical advice para a recuperacao da Grande Depressao que se vivia naqueles dias:

“(…) O objectivo da recuperacao e’ aumentar o produto nacional e colocar mais homens a trabalhar. No sistema economico do mundo moderno, o produto e’ primariamente para venda; e o volume do produto depende da quantidade do poder de compra, comparada com o custo primario da producao que se espera colocar no mercado. Genericamente falando, portanto, um aumento do produto nao se pode verificar a menos que opere um ou outro de tres factores. Os individuos devem ser induzidos a gastar mais dos seus rendimentos existentes; ou o mundo empresarial deve ser induzido, seja atraves de um aumento da confianca nas expectativas ou de uma mais baixa taxa de juro, a criar adicionais rendimentos correntes nas maos dos seus empregados, o que acontece quando ou o capital fixo, ou o capital operacional do pais esta’ a ser incrementado; ou a autoridade publica tem que ser chamada para ajudar a criar rendimentos correntes adicionais atraves de despesa ou de dinheiro emprestado ou imprimido. Em maus tempos nao se pode esperar que o primeiro factor funcione a uma escala suficiente. O segundo factor entrara’ em accao como a segunda onda de ataque a recessao depois da vaga ter sido contrariada pela despesa publica. E’, portanto, apenas do terceiro factor que se pode esperar o maior impulso inicial.”

Ora, como vimos nos paragrafos iniciais deste post, este diagnostico de Keynes e’ claramente evidenciado pela presente crise economica, nao apenas ocidental, mas global, incluindo o mercado domestico da China, apesar da sua recente ascensao a categoria de terceira potencia mundial -, sendo que, a par do consenso que se reune a volta da necessidade de conceder estimulos a economia, decorre neste momento um debate bastante interessante sobre os limites desses estimulos e as melhores vias para os tornarem mais eficazes. Vejamos entao qual a prescricao de Keynes:

“(…) Assim, como primordial incentivador no primeiro estagio da tecnica de recuperacao, eu ponho uma enfase avassaladora no aumento do poder de compra nacional, resultante da despesa governamental, que seja financiado por emprestimos e nao por tributacao dos rendimentos presentes. Nada mais conta em comparacao com isto. Numa situacao de expansao economica, a inflacao pode ser causada pela permissao de que o credito ilimitado apoie o entusiasmo excitado dos especuladores empresariais. Mas numa recessao, a despesa crediticia governamental e’ a unica forma segura de se garantir rapidamente um aumento do produto a precos crescentes. E’ por isso que uma guerra causa sempre uma intensa actividade industrial. No passado, o financiamento ortodoxo via uma guerra como a unica legitima desculpa para a criacao de emprego atraves da despesa governamental. Voce, Sr. Presidente, tendo deixado de lado tal pensamento, e’ livre de utilizar nos interesses da paz e da prosperidade a tecnica a qual ate’ agora apenas foi permitido servir os propositos da guerra e da destruicao.”

Nao se aplica isto bem a Angola, meus caros leitores? Eu diria que sim, especialmente tendo em conta o que ele diz num outro paragrafo da mesma carta quanto as areas em que a despesa publica se deveria aplicar, “(…) devera’ ser dada preferencia aquelas que poderao mais rapidamente madurar em grande escala, como por exemplo a reabilitacao das condicoes fisicas das linhas ferreas” (ao que poderiamos acrescentar outras obras publicas e investimentos em infra-estruturas, como a construcao de habitacoes e a reabilitacao de estradas, etc.). Mas diria tambem algo mais: que o diagnostico e prescricao de Keynes – onde ele diz, nomeadamente, que “o objectivo da recuperacao e’ aumentar o produto nacional e colocar mais homens a trabalhar” e que “eu ponho uma enfase avassaladora no aumento do poder de compra nacional” e, ja' agora, ao que ele tambem disse num outro contexto: "a politica monetaria e cambial de um pais devera’ ser inteiramente subordinada ao objectivo do aumento da producao e do emprego ao nivel certo" -, referem-se estritamente ao produto, ao emprego e ao poder de compra dos nacionais. Aplicar-se-ha’ isto inteiramente a Angola? Esse e’, do meu (humilde, il faut le dire…), ponto de vista, o prublema que ainda estamos kum ele…

Wednesday, 3 December 2008

COMO ENTENDO AS ESCOLHAS DE OBAMA

A pouco mais de um mes entre a sua historica vitoria eleitoral e a inauguracao formal da sua Administracao, Barack Obama (BO) comeca a mostrar “as suas garras” como Presidente Eleito dos EUA. Porque a etiqueta institucional dita que os EUA so’ podem ter um Presidente de cada vez (“one President at a time”), BO tem ocupado este interim, em primeiro lugar, com uma leitura que contem muito do que se podera’ esperar da sua Presidencia – a da experiencia do “Team of Rivals” (“Equipa de Rivais”) de Abraham Lincoln – e, em segundo lugar, com as primeiras nomeacoes para a sua Administracao, que parecem ser ditadas directamente por aquela leitura.

Se o primeiro sinal da transcricao a letra daquela leitura tera’ sido dado pelo seu encontro formal post-eleitoral com John McCain e mencoes a possibilidade de virem a trabalhar juntos - algo que, de algum modo, aqui ‘me cheirou’, por, em termos nao estritamente de politics (o que talvez mais directamente pudesse conduzir a um GUN ou GURN a nossa maneira...), mas de policy e como individuos, o changer e o maverick nao me parecerem muito distantes, excepto no que diz respeito a guerra no Iraque e aos pormenores relativos as medidas mais efectivas para ultrapassar a crise economica -, o full monty revela-se agora com as nomeacoes das suas equipas economica e de defesa e seguranca, respectivamente.

Quanto a equipa economica, em termos substantivos pouco ou nada me parece inusitado num contexto em que o mais notavel critico da politica economica da Administracao Bush, de seu nome Paul Krugman, expressa publicamente a sua concordancia com um dos mais notaveis conselheiros economicos de Bush, de seu nome Greg Mankiw, no que cada vez mais se vai tornando consensual para a resolucao da actual crise economica: uma seria revisitacao de Keynesian Economics.

Ja’ quanto a equipa de defesa e seguranca, as coisas parecem mais problematicas… ou talvez nao. Como aqui notei na altura, Hillary Clinton, agora nomeada para o posto de Secretaria de Estado, pareceu-me ter uma estrategia mais firmemente fundada na diplomacia do que qualquer dos outros candidatos Democratas, ainda mais que Obama ou Richardson – este agora em vias de ser nomeado Secretario para o Comercio –, estrategia que, no que respeita ao mundo em desenvolvimento, se apresenta potenciada (salvo em possiveis areas de conflito de interesses) pelos compromissos assumidos pelo seu marido sob o Clinton Global Initiative. No que respeita a mais controversa nomeacao de Robert Gates – por significar a manutencao no posto nao so’ de um Republicano, mas de alguem que serviu activamente a insensivel estrategia belicista de Bush como Secretario para a Defesa –, parece-me que o proprio disse o essencial sobre o assunto na sua conferencia de imprensa de ontem: “O Pentagono sera’ diferente sob a Administracao Obama; havera’ certamente discordancias entre membros da equipa, mas elas serao decididas pelo Presidente.” Ou seja, e traduzindo-o para o meu proprio entendimento, change is in the eye of the beholder, o beholder sendo, neste caso, o Presidente dos EUA, Barack Obama (mantendo, no entanto, em mente que beholders somos tambem todos nos, os que, com as mais diversas motivacoes, fizemos significar Obama com Change). Mas tambem pode ser que BO veja as coisas em termos mais pragmaticos, e.g.: “let them sort out the mess they started!”…

Em qualquer dos casos, BO justificou assim as suas nomeacoes: “as pessoas nao votaram por ideologias, mas sim por um governo inteligente e funcional, que esteja acima de ideologias” (ideologos de todo o mundo uni-vos!). Mas, questoes de leituras, personalidades e ideologias a parte, resta uma questao incontornavel, que julgo partilhar com nao poucos dos que povoam o vasto universo de apoiantes de BO durante a sua campanha presidencial: porque nao mais faces “negras” (controversias sobre a questao da “raca” oblige…) na nova Administracao? Well, talvez nos sirva (pelo menos ate' la’ mais para meados do seu mandato, i.e. de 2010 em diante, quando for possivel avaliar os impactos reais das suas politicas nas relacoes raciais nos EUA e, ja’ agora, no resto do mundo), a lembranca de que he ran on a post-racial ticket, ou seja, no unico ticket que permitiria a qualquer candidato nao-branco ser eleito para a Casa Branca, independentemente da questao real de estarmos ou nao numa post-racial era – questao que aqui se tenta avaliar de forma objectiva e aqui de forma satirica... Esperemos, pois, para ver.
A pouco mais de um mes entre a sua historica vitoria eleitoral e a inauguracao formal da sua Administracao, Barack Obama (BO) comeca a mostrar “as suas garras” como Presidente Eleito dos EUA. Porque a etiqueta institucional dita que os EUA so’ podem ter um Presidente de cada vez (“one President at a time”), BO tem ocupado este interim, em primeiro lugar, com uma leitura que contem muito do que se podera’ esperar da sua Presidencia – a da experiencia do “Team of Rivals” (“Equipa de Rivais”) de Abraham Lincoln – e, em segundo lugar, com as primeiras nomeacoes para a sua Administracao, que parecem ser ditadas directamente por aquela leitura.

Se o primeiro sinal da transcricao a letra daquela leitura tera’ sido dado pelo seu encontro formal post-eleitoral com John McCain e mencoes a possibilidade de virem a trabalhar juntos - algo que, de algum modo, aqui ‘me cheirou’, por, em termos nao estritamente de politics (o que talvez mais directamente pudesse conduzir a um GUN ou GURN a nossa maneira...), mas de policy e como individuos, o changer e o maverick nao me parecerem muito distantes, excepto no que diz respeito a guerra no Iraque e aos pormenores relativos as medidas mais efectivas para ultrapassar a crise economica -, o full monty revela-se agora com as nomeacoes das suas equipas economica e de defesa e seguranca, respectivamente.

Quanto a equipa economica, em termos substantivos pouco ou nada me parece inusitado num contexto em que o mais notavel critico da politica economica da Administracao Bush, de seu nome Paul Krugman, expressa publicamente a sua concordancia com um dos mais notaveis conselheiros economicos de Bush, de seu nome Greg Mankiw, no que cada vez mais se vai tornando consensual para a resolucao da actual crise economica: uma seria revisitacao de Keynesian Economics.

Ja’ quanto a equipa de defesa e seguranca, as coisas parecem mais problematicas… ou talvez nao. Como aqui notei na altura, Hillary Clinton, agora nomeada para o posto de Secretaria de Estado, pareceu-me ter uma estrategia mais firmemente fundada na diplomacia do que qualquer dos outros candidatos Democratas, ainda mais que Obama ou Richardson – este agora em vias de ser nomeado Secretario para o Comercio –, estrategia que, no que respeita ao mundo em desenvolvimento, se apresenta potenciada (salvo em possiveis areas de conflito de interesses) pelos compromissos assumidos pelo seu marido sob o Clinton Global Initiative. No que respeita a mais controversa nomeacao de Robert Gates – por significar a manutencao no posto nao so’ de um Republicano, mas de alguem que serviu activamente a insensivel estrategia belicista de Bush como Secretario para a Defesa –, parece-me que o proprio disse o essencial sobre o assunto na sua conferencia de imprensa de ontem: “O Pentagono sera’ diferente sob a Administracao Obama; havera’ certamente discordancias entre membros da equipa, mas elas serao decididas pelo Presidente.” Ou seja, e traduzindo-o para o meu proprio entendimento, change is in the eye of the beholder, o beholder sendo, neste caso, o Presidente dos EUA, Barack Obama (mantendo, no entanto, em mente que beholders somos tambem todos nos, os que, com as mais diversas motivacoes, fizemos significar Obama com Change). Mas tambem pode ser que BO veja as coisas em termos mais pragmaticos, e.g.: “let them sort out the mess they started!”…

Em qualquer dos casos, BO justificou assim as suas nomeacoes: “as pessoas nao votaram por ideologias, mas sim por um governo inteligente e funcional, que esteja acima de ideologias” (ideologos de todo o mundo uni-vos!). Mas, questoes de leituras, personalidades e ideologias a parte, resta uma questao incontornavel, que julgo partilhar com nao poucos dos que povoam o vasto universo de apoiantes de BO durante a sua campanha presidencial: porque nao mais faces “negras” (controversias sobre a questao da “raca” oblige…) na nova Administracao? Well, talvez nos sirva (pelo menos ate' la’ mais para meados do seu mandato, i.e. de 2010 em diante, quando for possivel avaliar os impactos reais das suas politicas nas relacoes raciais nos EUA e, ja’ agora, no resto do mundo), a lembranca de que he ran on a post-racial ticket, ou seja, no unico ticket que permitiria a qualquer candidato nao-branco ser eleito para a Casa Branca, independentemente da questao real de estarmos ou nao numa post-racial era – questao que aqui se tenta avaliar de forma objectiva e aqui de forma satirica... Esperemos, pois, para ver.

Friday, 1 February 2008

OBAMA VS. CLINTON: THE MOTHER OF ALL BATTLES? (Take 6)

ON THE RUN TO ‘SUPPA DUPPA TUESDAY’

It has been a little while since my last take on this battle and, gosh, what an awful lot happened since! Here’s some of it:

WHEN THE NAME OF THE GAME BECAME BILLARY…

When I started this series at the outset of this primary’s campaign, I was particularly interested in observing how race and gender would play out among the Democrats’ electorate. A number of episodes since have illustrated just how important these two sociological categories are in the wider Democratic campaign against the Republicans, but none has proven my gut instinct so close to reality on the ground as the one when Bill Clinton entered his wife’s campaign playing the ‘race card’ right, left and center, and race politics threatened to ruin everything for everyone.

Apparently, the ‘Billary’ strategy was to play the race card in such a way as to force Obama into a ‘black corner’ thus prompting the white electorate to vote Hillary as a backlash to any Obama wins in black majority states. The Obama camp aptly rose to the challenge (as evidenced by Barack’s victory speech in South Carolina) and much has been made of it all and related events in the conventional media and the blogosphere. There is, however, an angle of the “double bill” made up by the Clinton couple that makes me ask: what on earth was the husband doing trying to overtake the wife’s campaign? Isn’t she supposed to demonstrate that a woman is capable of winning on her own merits? Anyway, apparently they have since tried to mend their ways and cut their losses, because…

ENTER TED KENNEDY…

On the strength of his win in South Carolina, Barack Obama managed to get Senator Ted Kennedy’s endorsement, adding to the ranks of a number of democratic heavyweights who have been declaring their support for him. However, as cheerful as this is for the Obama camp, it raises some concerns about the extent to which Kennedy’s support might actually work against him. And this is because an important mass of Obama’s supporters is composed of people, especially young people, who are genuinely vying for “a change they can believe in” and don’t particularly favour the continued dominance of political dynasties in the White House, directly or indirectly, be they Republican (Bush) or Democrat (Kennedy).
In any event, there are more pressing concerns for the Democrats at the moment.

… AND THE REPUBLICANS

It would be ill-advised for anyone to take anything for granted in this campaign and, obviously, both Hillary and Obama, as front-runners in the Democratic camp, have to measure their strengths against the Republican heavyweights. On that side, John McCain is currently on the lead, having received soon after his (not too comfortable) win in Florida, the important endorsements of Schwarzenegger and Giuliani (just a note on this: as it can be gathered from one of my comments on ‘take 2’ of this series, as many other observers, I had placed more weight on Giuliani’s candidacy then it turned out to show. Nevertheless, my gut feeling is telling me that he might again take the frontline alongside McCain, as the Republican candidate for the Vice-Presidency).

… AND THE ECONOMY!

However, I wouldn’t, at least at this stage, completely rule out Mitt Romney’s chances – after all, McCain himself said that his win in Florida was “nothing to brag about”. And this simply because the economy has come creeping into this campaign like ‘its nobody’s business’ and neither camp can afford to ignore it – fears of a depression, brought about mainly by dodgy deals in the sub-prime mortgage market and a too thinly spread federal budget over the wars in Iraq and Afghanistan, have been bringing Keynesian Economics back from the dead, amidst calls by some (apparently including Obama...) for the return of "Reaganomics". This has forced the Bush administration to come up with such drastic measures as ‘stimulus packages’ in the form of tax cuts and transfers and attempts to balance the budget mainly through a clampdown on funding ‘earmarks’, with the FED successively performing the most dramatic cuts in interest rates in more than two decades, while the dollar reaches all time lows against the euro.

In this context, Mitt Romney’s background in economic management may play a role in the outcome of the Republican campaign. After all, he won Michigan – a state which today represents the face of American economic decline – and it could be expected, not just because it's his home state but perhaps also because of it, that ‘if he made it there, he can make it anywhere’, unlike Rudy Giuliani who, through a fatally misguided campaign strategy (by placing all his eggs on the Florida basket), didn’t even manage to give himself the chance to try, let alone make, it at home in New York, or John McCain, whose weight as a war hero rests to be measured against his economic management credentials, which are virtually none.

There is, however, an interesting statement by McCain that seems to say quite a lot about what's to come: "I am not running for the American presidency to be someone but to do something!" Well, surely he is not running to be the "first female president", or the "first black president" of the US of A...

It is against this wider background that the battle Obama vs. Clinton has to be measured up in the most immediate future…

So, let’s wait and see what ‘Suppa Duppa Tuesday’ brings.


[P.S.: YOU CAN READ ABOUT "THE ECONOMICS OF BARACK OBAMA" HERE]

ON THE RUN TO ‘SUPPA DUPPA TUESDAY’

It has been a little while since my last take on this battle and, gosh, what an awful lot happened since! Here’s some of it:

WHEN THE NAME OF THE GAME BECAME BILLARY…

When I started this series at the outset of this primary’s campaign, I was particularly interested in observing how race and gender would play out among the Democrats’ electorate. A number of episodes since have illustrated just how important these two sociological categories are in the wider Democratic campaign against the Republicans, but none has proven my gut instinct so close to reality on the ground as the one when Bill Clinton entered his wife’s campaign playing the ‘race card’ right, left and center, and race politics threatened to ruin everything for everyone.

Apparently, the ‘Billary’ strategy was to play the race card in such a way as to force Obama into a ‘black corner’ thus prompting the white electorate to vote Hillary as a backlash to any Obama wins in black majority states. The Obama camp aptly rose to the challenge (as evidenced by Barack’s victory speech in South Carolina) and much has been made of it all and related events in the conventional media and the blogosphere. There is, however, an angle of the “double bill” made up by the Clinton couple that makes me ask: what on earth was the husband doing trying to overtake the wife’s campaign? Isn’t she supposed to demonstrate that a woman is capable of winning on her own merits? Anyway, apparently they have since tried to mend their ways and cut their losses, because…

ENTER TED KENNEDY…

On the strength of his win in South Carolina, Barack Obama managed to get Senator Ted Kennedy’s endorsement, adding to the ranks of a number of democratic heavyweights who have been declaring their support for him. However, as cheerful as this is for the Obama camp, it raises some concerns about the extent to which Kennedy’s support might actually work against him. And this is because an important mass of Obama’s supporters is composed of people, especially young people, who are genuinely vying for “a change they can believe in” and don’t particularly favour the continued dominance of political dynasties in the White House, directly or indirectly, be they Republican (Bush) or Democrat (Kennedy).
In any event, there are more pressing concerns for the Democrats at the moment.

… AND THE REPUBLICANS

It would be ill-advised for anyone to take anything for granted in this campaign and, obviously, both Hillary and Obama, as front-runners in the Democratic camp, have to measure their strengths against the Republican heavyweights. On that side, John McCain is currently on the lead, having received soon after his (not too comfortable) win in Florida, the important endorsements of Schwarzenegger and Giuliani (just a note on this: as it can be gathered from one of my comments on ‘take 2’ of this series, as many other observers, I had placed more weight on Giuliani’s candidacy then it turned out to show. Nevertheless, my gut feeling is telling me that he might again take the frontline alongside McCain, as the Republican candidate for the Vice-Presidency).

… AND THE ECONOMY!

However, I wouldn’t, at least at this stage, completely rule out Mitt Romney’s chances – after all, McCain himself said that his win in Florida was “nothing to brag about”. And this simply because the economy has come creeping into this campaign like ‘its nobody’s business’ and neither camp can afford to ignore it – fears of a depression, brought about mainly by dodgy deals in the sub-prime mortgage market and a too thinly spread federal budget over the wars in Iraq and Afghanistan, have been bringing Keynesian Economics back from the dead, amidst calls by some (apparently including Obama...) for the return of "Reaganomics". This has forced the Bush administration to come up with such drastic measures as ‘stimulus packages’ in the form of tax cuts and transfers and attempts to balance the budget mainly through a clampdown on funding ‘earmarks’, with the FED successively performing the most dramatic cuts in interest rates in more than two decades, while the dollar reaches all time lows against the euro.

In this context, Mitt Romney’s background in economic management may play a role in the outcome of the Republican campaign. After all, he won Michigan – a state which today represents the face of American economic decline – and it could be expected, not just because it's his home state but perhaps also because of it, that ‘if he made it there, he can make it anywhere’, unlike Rudy Giuliani who, through a fatally misguided campaign strategy (by placing all his eggs on the Florida basket), didn’t even manage to give himself the chance to try, let alone make, it at home in New York, or John McCain, whose weight as a war hero rests to be measured against his economic management credentials, which are virtually none.

There is, however, an interesting statement by McCain that seems to say quite a lot about what's to come: "I am not running for the American presidency to be someone but to do something!" Well, surely he is not running to be the "first female president", or the "first black president" of the US of A...

It is against this wider background that the battle Obama vs. Clinton has to be measured up in the most immediate future…

So, let’s wait and see what ‘Suppa Duppa Tuesday’ brings.


[P.S.: YOU CAN READ ABOUT "THE ECONOMICS OF BARACK OBAMA" HERE]

Saturday, 22 September 2007

POLITICA, FUTEBOL E...






... ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A ACTUAL CONJUNTURA ECONÓMICA ANGOLANA*

A par da política e do futebol, a economia apresenta-se sempre como uma das áreas da vida social que mais se prestam a debates apaixonados, particularmente em períodos de grandes expectativas e de críticas decisões. Neste momento, o debate, ou melhor, as atenções da opinião pública, sobre a economia do país parecem centrar-se em três vectores fundamentais:

1. A solidez, ou falta dela, da corrente “estabilização macroeconómica”;
2. O “delírio criativo” que parece assolar o sector bancário nacional;
3. As opções estratégicas de desenvolvimento do país que, idealmente, deveriam ancorar-se no anunciado “plano de desenvolvimento para os próximos 25 anos” mas que, por esse estar ainda a ser alinhavado e dada a premência das questões a ele subjacentes, fazendo juz à afirmação de Keynes segundo a qual “no longo prazo estaremos todos mortos”, emergem um pouco de todas e quaisquer discussões sobre a vida diária do cidadão comum – e estas, mesmo que originadas no foro da economia, acabam por incluir a política e o futebol.

As considerações que se seguem, no entanto, pretendem ser estritamente económicas e versarão um pouco sobre cada um dos três vectores acima enunciados.
(...)

I. INFLAÇÃO E NÍVEL DE VIDA, OU O VELHO “FETICHISMO DA MOEDA”

Seria necessária alguma dose de má fe para se não reconhecer e creditar devidamente os méritos do governo na obtenção do que se convencionou chamar “estabilização macroecónomica”. No entanto, seria igualmente mal avisado tomar-se essa estabilização como um dado adquirido, total e irreversível. Quanto mais não seja porque ela parece resumir-se a pouco mais do que um melhor desempenho monetário e uma impressiva contenção da inflacão, ambos ancorados na chamada “política do Kwanza forte” (com o devido respeito, protestos da “equipa económica” não obstante…), obtida através de medidas que, sendo técnicamente sustentadas, não deixam, contudo, de ser conjunturais, tais como a injecção massiva de dólares no mercado e a manipulação “laboratorial” da taxa de câmbio (política que, paradoxalmente, não difere muito em termos substantivos da dos longos anos de câmbio fixo em que tivémos “por artes mágicas” USD1=KZ30).
(...)

II. DESEMPREGO, EXPECTATIVAS E O “FUTURO AMARELO”

Embora, em resultado da valorização do Kwanza, em condições normais se pudesse vaticinar um potencial aumento da propensão marginal a poupar, induzido por uma maior confiança dos agentes económicos (indiciada, aliás, pelo recentemente publicitado aumento dos depósitos em moeda nacional), as baixas taxas de juro que se esperam obter com a baixa inflação não irão incentivar a poupança líquida – certamente não no curto a médio prazo – o que é agravado por essa potencial tendência não ser acompanhada por uma diminuição da propensão marginal ao consumo, quer devido a algumas das nossas características culturais, quer porque esta é sempre tanto maior quanto menor fôr o rendimento disponível dos cidadãos – 98% dos quais vive com menos de 2 dólares por dia, o que, mesmo que por absurdo quisessem endividar-se para investir, não lhes chega para suportar as taxas de juro comerciais, mesmo que mais baixas e acessíveis sem compadrios.
(...)

III. ESTIMULAR E DIVERSIFICAR A ECONOMIA REAL, OU A CRIAÇÃO DE UM CICLO VIRTUOSO DE RIQUEZA

Quando tudo isso estiver a ser obtido, aí sim, quer a política, quer o futebol, passarão a fazer o mais pleno sentido para o cidadão (em particular a cidadã) comum e o governo (qualquer governo) terá licença de todos nós para soprar os seus trombones tão alto quanto quizer: porque em casa onde há pão, ninguém ralha e todos ganham votos, marcam golos e têm razão!

(Ler artigo integral AQUI)

*Artigo por mim publicado no SA em Janeiro de 2006







... ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE A ACTUAL CONJUNTURA ECONÓMICA ANGOLANA*

A par da política e do futebol, a economia apresenta-se sempre como uma das áreas da vida social que mais se prestam a debates apaixonados, particularmente em períodos de grandes expectativas e de críticas decisões. Neste momento, o debate, ou melhor, as atenções da opinião pública, sobre a economia do país parecem centrar-se em três vectores fundamentais:

1. A solidez, ou falta dela, da corrente “estabilização macroeconómica”;
2. O “delírio criativo” que parece assolar o sector bancário nacional;
3. As opções estratégicas de desenvolvimento do país que, idealmente, deveriam ancorar-se no anunciado “plano de desenvolvimento para os próximos 25 anos” mas que, por esse estar ainda a ser alinhavado e dada a premência das questões a ele subjacentes, fazendo juz à afirmação de Keynes segundo a qual “no longo prazo estaremos todos mortos”, emergem um pouco de todas e quaisquer discussões sobre a vida diária do cidadão comum – e estas, mesmo que originadas no foro da economia, acabam por incluir a política e o futebol.

As considerações que se seguem, no entanto, pretendem ser estritamente económicas e versarão um pouco sobre cada um dos três vectores acima enunciados.
(...)

I. INFLAÇÃO E NÍVEL DE VIDA, OU O VELHO “FETICHISMO DA MOEDA”

Seria necessária alguma dose de má fe para se não reconhecer e creditar devidamente os méritos do governo na obtenção do que se convencionou chamar “estabilização macroecónomica”. No entanto, seria igualmente mal avisado tomar-se essa estabilização como um dado adquirido, total e irreversível. Quanto mais não seja porque ela parece resumir-se a pouco mais do que um melhor desempenho monetário e uma impressiva contenção da inflacão, ambos ancorados na chamada “política do Kwanza forte” (com o devido respeito, protestos da “equipa económica” não obstante…), obtida através de medidas que, sendo técnicamente sustentadas, não deixam, contudo, de ser conjunturais, tais como a injecção massiva de dólares no mercado e a manipulação “laboratorial” da taxa de câmbio (política que, paradoxalmente, não difere muito em termos substantivos da dos longos anos de câmbio fixo em que tivémos “por artes mágicas” USD1=KZ30).
(...)

II. DESEMPREGO, EXPECTATIVAS E O “FUTURO AMARELO”

Embora, em resultado da valorização do Kwanza, em condições normais se pudesse vaticinar um potencial aumento da propensão marginal a poupar, induzido por uma maior confiança dos agentes económicos (indiciada, aliás, pelo recentemente publicitado aumento dos depósitos em moeda nacional), as baixas taxas de juro que se esperam obter com a baixa inflação não irão incentivar a poupança líquida – certamente não no curto a médio prazo – o que é agravado por essa potencial tendência não ser acompanhada por uma diminuição da propensão marginal ao consumo, quer devido a algumas das nossas características culturais, quer porque esta é sempre tanto maior quanto menor fôr o rendimento disponível dos cidadãos – 98% dos quais vive com menos de 2 dólares por dia, o que, mesmo que por absurdo quisessem endividar-se para investir, não lhes chega para suportar as taxas de juro comerciais, mesmo que mais baixas e acessíveis sem compadrios.
(...)

III. ESTIMULAR E DIVERSIFICAR A ECONOMIA REAL, OU A CRIAÇÃO DE UM CICLO VIRTUOSO DE RIQUEZA

Quando tudo isso estiver a ser obtido, aí sim, quer a política, quer o futebol, passarão a fazer o mais pleno sentido para o cidadão (em particular a cidadã) comum e o governo (qualquer governo) terá licença de todos nós para soprar os seus trombones tão alto quanto quizer: porque em casa onde há pão, ninguém ralha e todos ganham votos, marcam golos e têm razão!

(Ler artigo integral AQUI)

*Artigo por mim publicado no SA em Janeiro de 2006


Thursday, 1 March 2007

ON TYRANNY


“IT’S BETTER THAT A MAN SHOULD TYRANNIZE OVER HIS BANK BALANCE THAN OVER HIS FELLOW CITIZENS”

JOHN MAYNARD KEYNES

(Or a woman, I would say… but this is just me thinking outside the box of the “sisterhood of men”)

“IT’S BETTER THAT A MAN SHOULD TYRANNIZE OVER HIS BANK BALANCE THAN OVER HIS FELLOW CITIZENS”

JOHN MAYNARD KEYNES

(Or a woman, I would say… but this is just me thinking outside the box of the “sisterhood of men”)