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Saturday, 15 October 2011

Occupy...





LSX

“The words ‘corporate greed’ ring through the speeches and banners of protests across the globe. After huge bail-outs and in the face of unemployment, privatisation and austerity, we still see profits for the rich on the increase. But we are the 99%, and on October 15th our voice unites across gender and race, across borders and continents, as we call for equality and justice for all.
“In London, we will occupy the Stock Exchange. Reclaiming space in the face of the financial system and using it to voice ideas for how we can work towards a better future. A future free from austerity, growing inequality, unemployment, tax injustice and a political elite who ignores its citizens, and work towards concrete demands to be met.”

{extract from here}



Wall Street

Music has long been the soundtrack of protest: Fela Kuti, Bob Marley, Mos Def, Rage Against the Machine, Saul Williams, Public Enemy, Tupac, Bob Dylan, Woody Guthrie, Dead Prez – the list of musicians fighting on behalf of the people goes on and on and on and on.
And in the past few weeks, musicians from all walks of life have signed on to support the #Occupy movement, standing in solidarity with the protesters on Wall Street and around the country who are demanding change. Above (and here), a few folks you may recognize – ?uesto, Moby, Kweli, Kanye, Russell, Bilal, Angelique Kidjo, and Gbenga Akinnagbe (from The Wire!) (and many more vids from others coming soon!) - are asking you to help support this movement that grows more powerful each day.

{Extract from here}





LSX

“The words ‘corporate greed’ ring through the speeches and banners of protests across the globe. After huge bail-outs and in the face of unemployment, privatisation and austerity, we still see profits for the rich on the increase. But we are the 99%, and on October 15th our voice unites across gender and race, across borders and continents, as we call for equality and justice for all.
“In London, we will occupy the Stock Exchange. Reclaiming space in the face of the financial system and using it to voice ideas for how we can work towards a better future. A future free from austerity, growing inequality, unemployment, tax injustice and a political elite who ignores its citizens, and work towards concrete demands to be met.”

{extract from here}



Wall Street

Music has long been the soundtrack of protest: Fela Kuti, Bob Marley, Mos Def, Rage Against the Machine, Saul Williams, Public Enemy, Tupac, Bob Dylan, Woody Guthrie, Dead Prez – the list of musicians fighting on behalf of the people goes on and on and on and on.
And in the past few weeks, musicians from all walks of life have signed on to support the #Occupy movement, standing in solidarity with the protesters on Wall Street and around the country who are demanding change. Above (and here), a few folks you may recognize – ?uesto, Moby, Kweli, Kanye, Russell, Bilal, Angelique Kidjo, and Gbenga Akinnagbe (from The Wire!) (and many more vids from others coming soon!) - are asking you to help support this movement that grows more powerful each day.

{Extract from here}

Monday, 10 October 2011

NOBEL 2011: Macroeconomic Policy & Expectations



How are GDP and inflation affected by a temporary increase in the interest rate or a tax cut? What happens if a central bank makes a permanent change in its inflation target or a government modifies its objective for budgetary balance? This year's Laureates in economic sciences have developed methods for answering these and many of other questions regarding the causal relationship between economic policy and different macroeconomic variables such as GDP, inflation, employment and investments.

The Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel 2011 was awarded jointly to Thomas J. Sargent and Christopher A. Sims "for their empirical research on cause and effect in the macroeconomy."





Ora aqui esta’ um Premio Nobel da Economia que, tal como este e este, e ao contrario deste, por exemplo, me desperta particular interesse por incidir sobre uma area da ciencia economica especialmente relevante para a actual crise economica mundial e tambem para os meus proprios interesses academico-profissionais: “causas e efeitos em macroeconomia”, em particular “a complexa interrelacao entre o estado e a politica do banco central e as expectativas dos cidadaos e dos agentes economicos e, mais incisivamente, sobre como essas expectativas influenciam a formulacao de politicas e os possiveis impactos da sua implementacao.”

De acordo com a Academia Nobel, "One of the main tasks of macroeconomic research is to comprehend how both shocks and systematic policy shifts affect macroeconomic variables in the short and long run". "Sargent's and Sims's awarded research contributions have been indispensable to this work."

Lembro-me que foi nao sem algum desconforto, para dizer o minimo, que, no auge de uma certa ja’ tristemente celebre e estafada 'campanha' contra a minha pessoa, me vi confrontada com ‘insinuacoes’ e ate' mesmo ‘acusacoes’ de que, ao ‘demonstrar alguma relutancia em falar sobre economia neste blog’ eu estaria a consubstanciar “suspeitas de que tinha diplomas falsos”, o que para alem do mais “era corroborado por eu nao ter sido capaz de ‘antever’ esta crise”!...

Na altura limitei-me a “responder” a tais verdadeiros insultos e calunias de baixo coturno com a mui modesta (como convem a uma "professora primaria") mini-serie “Desembrulhando a Crise” , em cuja primeira parte remetia os leitores ao meu mui esforcado artigo “Politica, Futebol e Algumas Consideracoes sobre a Actual Conjuntura Economica Angolana”, recentemente respigado aqui a proposito dos ultimos relatorios do Forum Economico Mundial, com isso pretendendo indicar basicamente que os fundamentals da analise macroeconomica, em que me referia explicitamente ao papel das expectativas [*], que tinha feito naquele artigo, salvaguardadas as devidas proporcoes e distancias e considerados os diferentes contextos, mantinham-se validos para os factores explicativos da ‘crise financeira’ que de la’ a esta parte se transformou em ‘crise economica’ global.[**]

E e’ tambem um pouco essa a resposta dos laureados de hoje as expectativas que se geraram a volta da sua capacidade de oferecerem previsoes e solucoes para esta crise: "If I had a simple answer to that I would have been spreading it around the world ... It requires a lot of slow work looking at data, unfortunately", respondeu Sims, enquanto Sargent dizia "We're just bookish types that look at numbers and try to figure out what's going on". "We try to experiment in our models before we wreck the world." Mas, para ambos: "The methods that I have used and that Tom has developed are essential to finding our way out of this mess."
{extractos daqui}

Uma outra questao actual abordada nessa entrevista foi a da possivel "derrocada" do Euro: "Panics and crises, ... what's going on in Europe now with the euro, that's all about expectations about what other people are going to do". Sobre essa questao gostaria de sugerir aos leitores esta materia (que tambem pode servir como um exemplo do 'slow work looking at data' a que Sims se referia), em que nao so' me debruco sobre a (tortuosa) evolucao do Euro, como tambem sobre a "implosao" financeira da Argentina pelo menos em parte devido ao mesmo jogo de causas e efeitos macroeconomicos que estiveram na base da crise que estamos com ela.

Em suma, o que os laureados de hoje mui modesta e pacientemente nos ensinam acima de tudo (... para quem saiba ler e ainda precise dessa licao...) e' que there's no such thing as "macroeconomia 'a prova de balas"!...


[*] (...) "É neste contexto que, no quadro da teoria das expectativas racionais, se diz que, atravéz da ilusão monetária (ou do “fetichismo da moeda”, na versão marxista) e do desfasamento temporal entre as medidas de estabilização macroeconómica, “pode-se enganar alguns agentes económicos por algum tempo, mas não todos ao mesmo tempo, nem o tempo todo”… Na verdade, os factores que mais têm contribuido para uma melhoria das expectativas dos investidores estrangeiros e as condições mais favoráveis das linhas de crédito concedidas a Angola (para além, obviamente, das esperadas altas taxas de retorno do investimento nos sectores extractivo e terciário) são a paz, que parece consolidada, e as expectativas de estabilidade política e normalidade institucional que se esperam obter com a realização das eleições; não necessáriamente a “estabilidade macroeconómica” num país que, infelizmente, ainda se conta entre os mais corruptos do mundo e com um dos mais baixos índices de desenvolvimento humano, numa economia em que nem a própria classe dirigente parece ter confiança, a julgar pelos seus investimentos imobiliários e outros no estrangeiro e pela expatriação de capitais obtidos de forma pouco transparente para os mais famosos paraísos fiscais do mundo.(...)"

[**] "(...) Em suma, estamos perante uma economia ostentando um enorme “gap”, potencialmente suicidário (a menos que o sector secundário comece realmente a reerguer-se em força no mais curto prazo) entre os sectores primário (extractivo e exportador) e o terciário (liderado pela banca), o qual, à semelhança de qualquer dos balões de ar que venhem rebentando episódicamente nos mercados financeiros e de capitais internacionais, poderá estoirar quando menos se esperar ou, na melhor das hipóteses, continuar ainda por muito tempo a fluctuar, qual economia virtual, acima do real alcance do cidadão comum.(...)"



How are GDP and inflation affected by a temporary increase in the interest rate or a tax cut? What happens if a central bank makes a permanent change in its inflation target or a government modifies its objective for budgetary balance? This year's Laureates in economic sciences have developed methods for answering these and many of other questions regarding the causal relationship between economic policy and different macroeconomic variables such as GDP, inflation, employment and investments.

The Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel 2011 was awarded jointly to Thomas J. Sargent and Christopher A. Sims "for their empirical research on cause and effect in the macroeconomy."





Ora aqui esta’ um Premio Nobel da Economia que, tal como este e este, e ao contrario deste, por exemplo, me desperta particular interesse por incidir sobre uma area da ciencia economica especialmente relevante para a actual crise economica mundial e tambem para os meus proprios interesses academico-profissionais: “causas e efeitos em macroeconomia”, em particular “a complexa interrelacao entre o estado e a politica do banco central e as expectativas dos cidadaos e dos agentes economicos e, mais incisivamente, sobre como essas expectativas influenciam a formulacao de politicas e os possiveis impactos da sua implementacao.”

De acordo com a Academia Nobel, "One of the main tasks of macroeconomic research is to comprehend how both shocks and systematic policy shifts affect macroeconomic variables in the short and long run". "Sargent's and Sims's awarded research contributions have been indispensable to this work."

Lembro-me que foi nao sem algum desconforto, para dizer o minimo, que, no auge de uma certa ja’ tristemente celebre e estafada 'campanha' contra a minha pessoa, me vi confrontada com ‘insinuacoes’ e ate' mesmo ‘acusacoes’ de que, ao ‘demonstrar alguma relutancia em falar sobre economia neste blog’ eu estaria a consubstanciar “suspeitas de que tinha diplomas falsos”, o que para alem do mais “era corroborado por eu nao ter sido capaz de ‘antever’ esta crise”!...

Na altura limitei-me a “responder” a tais verdadeiros insultos e calunias de baixo coturno com a mui modesta (como convem a uma "professora primaria") mini-serie “Desembrulhando a Crise” , em cuja primeira parte remetia os leitores ao meu mui esforcado artigo “Politica, Futebol e Algumas Consideracoes sobre a Actual Conjuntura Economica Angolana”, recentemente respigado aqui a proposito dos ultimos relatorios do Forum Economico Mundial, com isso pretendendo indicar basicamente que os fundamentals da analise macroeconomica, em que me referia explicitamente ao papel das expectativas [*], que tinha feito naquele artigo, salvaguardadas as devidas proporcoes e distancias e considerados os diferentes contextos, mantinham-se validos para os factores explicativos da ‘crise financeira’ que de la’ a esta parte se transformou em ‘crise economica’ global.[**]

E e’ tambem um pouco essa a resposta dos laureados de hoje as expectativas que se geraram a volta da sua capacidade de oferecerem previsoes e solucoes para esta crise: "If I had a simple answer to that I would have been spreading it around the world ... It requires a lot of slow work looking at data, unfortunately", respondeu Sims, enquanto Sargent dizia "We're just bookish types that look at numbers and try to figure out what's going on". "We try to experiment in our models before we wreck the world." Mas, para ambos: "The methods that I have used and that Tom has developed are essential to finding our way out of this mess."
{extractos daqui}

Uma outra questao actual abordada nessa entrevista foi a da possivel "derrocada" do Euro: "Panics and crises, ... what's going on in Europe now with the euro, that's all about expectations about what other people are going to do". Sobre essa questao gostaria de sugerir aos leitores esta materia (que tambem pode servir como um exemplo do 'slow work looking at data' a que Sims se referia), em que nao so' me debruco sobre a (tortuosa) evolucao do Euro, como tambem sobre a "implosao" financeira da Argentina pelo menos em parte devido ao mesmo jogo de causas e efeitos macroeconomicos que estiveram na base da crise que estamos com ela.

Em suma, o que os laureados de hoje mui modesta e pacientemente nos ensinam acima de tudo (... para quem saiba ler e ainda precise dessa licao...) e' que there's no such thing as "macroeconomia 'a prova de balas"!...


[*] (...) "É neste contexto que, no quadro da teoria das expectativas racionais, se diz que, atravéz da ilusão monetária (ou do “fetichismo da moeda”, na versão marxista) e do desfasamento temporal entre as medidas de estabilização macroeconómica, “pode-se enganar alguns agentes económicos por algum tempo, mas não todos ao mesmo tempo, nem o tempo todo”… Na verdade, os factores que mais têm contribuido para uma melhoria das expectativas dos investidores estrangeiros e as condições mais favoráveis das linhas de crédito concedidas a Angola (para além, obviamente, das esperadas altas taxas de retorno do investimento nos sectores extractivo e terciário) são a paz, que parece consolidada, e as expectativas de estabilidade política e normalidade institucional que se esperam obter com a realização das eleições; não necessáriamente a “estabilidade macroeconómica” num país que, infelizmente, ainda se conta entre os mais corruptos do mundo e com um dos mais baixos índices de desenvolvimento humano, numa economia em que nem a própria classe dirigente parece ter confiança, a julgar pelos seus investimentos imobiliários e outros no estrangeiro e pela expatriação de capitais obtidos de forma pouco transparente para os mais famosos paraísos fiscais do mundo.(...)"

[**] "(...) Em suma, estamos perante uma economia ostentando um enorme “gap”, potencialmente suicidário (a menos que o sector secundário comece realmente a reerguer-se em força no mais curto prazo) entre os sectores primário (extractivo e exportador) e o terciário (liderado pela banca), o qual, à semelhança de qualquer dos balões de ar que venhem rebentando episódicamente nos mercados financeiros e de capitais internacionais, poderá estoirar quando menos se esperar ou, na melhor das hipóteses, continuar ainda por muito tempo a fluctuar, qual economia virtual, acima do real alcance do cidadão comum.(...)"

Wednesday, 28 September 2011

..."para quem sabe ler relatorios"...




"O quadro geral em Angola continua a melhorar. Afirmar isto não é bajular."


- De facto, ha' cinco anos, comecei por afirmar neste meu artigo que "seria necessária alguma dose de má fé para se não reconhecer e creditar devidamente os méritos do governo na obtenção do que se convencionou chamar “estabilização macroecónomica”." E afirmar isso tambem "nao e' bajular"...

- E... afirmar que "a economia angolana ainda tem um longo caminho a percorrer ate' se tornar minimamente competitiva, tanto a nivel regional como global", como o fiz naquele mesmo artigo e "reafirmei" ha' alguns dias aqui, tambem nao e' "cometer nenhum crime de lesa-patria"!


"Vejam os últimos relatórios sobre o crescimento e a competitividade das economias no mundo divulgados pelo Fórum Económico Mundial..."





"Vejam os sectores em que Angola era fraca e agora é forte. Não se olhe apenas para o “ranking”, onde o universo de países pode ser maior ou menor, o que altera a posição de cada um. Veja-se o “score”, o valor do aumento ou diminuição da avaliação."


- Colocando temporariamente de parte a "evidencia" de o "ranking" ser directamente determinado pelo "score" e de este ser determinado por todos os "pillars" considerados na avaliacao e indexacao, torna-se muito dificil, para nao dizer impossivel, fazer tal exercicio com alguma credibilidade, uma vez que Angola so' comeca a aparecer com alguma consistencia nesses relatorios nos ultimos dois anos. Assim, proponho um exercicio alternativo, muito simples e talvez mais revelador:

- Angola, o pais que, ao longo da ultima decada, tem batido todos os 'records' de Investimento Directo Estrangeiro em Africa e em boa parte do mundo, de 2010-2011 para 2011-2012, sobe apenas dois lugares na tabela, superando o Burundi apenas por um centesimo no 'score' e "ajudada" pela entrada no 'ranking' do Haiti - o pais mais pobre e mais devastado do mundo nos ultimos tempos...

- Angola, o pais que proclama, e por isso tem sido aclamado internacionalmente, ter "o quadro macroeconomico mais estavel e mais forte" da regiao e do continente nos ultimos anos, de um relatorio para o outro continua atras do Zimbabwe (o pais mais instavel a todos os niveis na regiao e no continente durante a ultima decada e por isso internacionalmente condenado e sancionado), o qual, entretanto, no mesmo periodo, consegue subir quatro lugares no 'rank', situando-se 7 posicoes acima da de Angola...

- Quando consideradas as variacoes na avaliacao, a posicao de Angola tambem nao compara favoravelmente: vejam-se, por exemplo, essas variacoes para pequenas economias como a Swazilandia (-8) ou o Lesotho (-7), ja' para nao falar em economias maiores como a Namibia (-9) ou a Tanzania (-7), as quais no entanto permanecem varias posicoes acima da de Angola (-1)...





"Mesmo em termos de “ranking”, para quem sabe ler relatórios, em relação à competitividade há claramente áreas em que Angola estava na cauda da tabela há alguns anos e agora está a meio, ultrapassando muitos países."


- O ultimo "ranking" inclui 142 paises, encontrando-se Angola na posicao 139 - ou seja, em termos de "ranking", ceteris paribus, Angola "ate' desceu" um lugar na tabela desde o ultimo relatorio onde se encontrava na posicao 138, como alias a variacao de -1 o indica... se isso e' estar "a meio da tabela", entao, definitivamente "nao sei ler relatorios" e tenho mesmo (!) "a mania do sabetudismo"!


"O estágio de desenvolvimento em que Angola está agora colocada pelo Fórum Económico Mundial é diferente do passado."


- O estabelecimento do "estagio de desenvolvimento" pelo FEM e' baseado primeiramente no nivel do PIB per capita o que nada diz sobre o "nivel de desenvolvimento" dos paises quando considerados criterios mais abrangentes, estruturais e estruturantes como a distribuicao desse mesmo PIB ou os seus indices de desenvolvimento humano, por exemplo.

- O segundo criterio adoptado pelo FEM e' baseado na composicao do PIB e na medida em que os paises sao 'factor driven', usando a percentagem de produtos mineiros no total das exportacoes. Assim, o "estagio de desenvolvimento" de Angola e' considerado como "de transicao do estagio 1 ('factor driven') para o estagio 2 ('efficiency driven')" ou, 'lido' de outro modo, Angola ainda nao e' uma economia "eficiente" - e nisso "nao sendo diferente do passado", ou seja, nao tendo mudado de estagio de um relatorio para o outro.


"O gráfico que compara a média de crescimento angolano à média dos países da África Subsaariana entre 2002 e 2010 é revelador do potencial conseguido."


- Para quem "saiba entender" de "crescimento economico", um fundamental e basico "facto estilizado" revela que economias que recebam um "boost" de investimento a partir de um nivel do PIB relativamente baixo (caso da Angola do pos-guerra - como aqui, entre outros lugares, o discuto) tendem a crescer a taxas relativamente mais elevadas do que economias com PIBs mais altos, ou que nao recebam tal "boost": tem a ver com algo designado "rendimentos decrescentes do capital" -
ja' Marx explicava!...

[...e eu, como nao passo de uma muito esforcada, mas modesta professora primaria, fico-me por aqui!...]

Portanto...

"Não vale (mesmo!) a pena esticar a corda"!


{Comentarios a esta materia}


P.S.: Apenas uma breve referencia ao Premio Nobel da Economia deste ano, anunciado depois da publicacao deste post, e ao que escrevi no artigo em questao sobre o papel das expectativas dos agentes economicos:

"(...) É neste contexto que, no quadro da teoria das expectativas racionais, se diz que, atravéz da ilusão monetária (ou do “fetichismo da moeda”, na versão marxista) e do desfasamento temporal entre as medidas de estabilização macroeconómica, “pode-se enganar alguns agentes económicos por algum tempo, mas não todos ao mesmo tempo, nem o tempo todo”… Na verdade, os factores que mais têm contribuido para uma melhoria das expectativas dos investidores estrangeiros e as condições mais favoráveis das linhas de crédito concedidas a Angola (para além, obviamente, das esperadas altas taxas de retorno do investimento nos sectores extractivo e terciário) são a paz, que parece consolidada, e as expectativas de estabilidade política e normalidade institucional que se esperam obter com a realização das eleições; não necessáriamente a “estabilidade macroeconómica” num país que, infelizmente, ainda se conta entre os mais corruptos do mundo e com um dos mais baixos índices de desenvolvimento humano, numa economia em que nem a própria classe dirigente parece ter confiança, a julgar pelos seus investimentos imobiliários e outros no estrangeiro e pela expatriação de capitais obtidos de forma pouco transparente para os mais famosos paraísos fiscais do mundo. (...)"



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ADENDA


"Aproveitando a deixa", e porque estamos em "mare' de SADC", decidi compilar o 'ranking' dos paises membros da SADC incluidos no ultimo relatorio do FEM [*]:















[*] O que podera' tambem servir de 'quadro ilustrativo' para o aquilatamento das pretensoes e expectativas sobre o papel de Angola na SADC no curto/medio prazo, em particular vis-a-vis a Africa do Sul, como aqui, entre outros lugares, se expressa.




"O quadro geral em Angola continua a melhorar. Afirmar isto não é bajular."


- De facto, ha' cinco anos, comecei por afirmar
neste meu artigo que "seria necessária alguma dose de má fé para se não reconhecer e creditar devidamente os méritos do governo na obtenção do que se convencionou chamar “estabilização macroecónomica”." E afirmar isso tambem "nao e' bajular"...

- E... afirmar que "a economia angolana ainda tem um longo caminho a percorrer ate' se tornar minimamente competitiva, tanto a nivel regional como global", como o fiz naquele mesmo artigo e "reafirmei" ha' alguns dias aqui, tambem nao e' "cometer nenhum crime de lesa-patria"!


"Vejam os últimos relatórios sobre o crescimento e a competitividade das economias no mundo divulgados pelo Fórum Económico Mundial..."





"Vejam os sectores em que Angola era fraca e agora é forte. Não se olhe apenas para o “ranking”, onde o universo de países pode ser maior ou menor, o que altera a posição de cada um. Veja-se o “score”, o valor do aumento ou diminuição da avaliação."


- Colocando temporariamente de parte a "evidencia" de o "ranking" ser directamente determinado pelo "score" e de este ser determinado por todos os "pillars" considerados na avaliacao e indexacao, torna-se muito dificil, para nao dizer impossivel, fazer tal exercicio com alguma credibilidade, uma vez que Angola so' comeca a aparecer com alguma consistencia nesses relatorios nos ultimos dois anos. Assim, proponho um exercicio alternativo, muito simples e talvez mais revelador:

- Angola, o pais que, ao longo da ultima decada, tem batido todos os 'records' de Investimento Directo Estrangeiro em Africa e em boa parte do mundo, de 2010-2011 para 2011-2012, sobe apenas dois lugares na tabela, superando o Burundi apenas por um centesimo no 'score' e "ajudada" pela entrada no 'ranking' do Haiti - o pais mais pobre e mais devastado do mundo nos ultimos tempos...

- Angola, o pais que proclama, e por isso tem sido aclamado internacionalmente, ter "o quadro macroeconomico mais estavel e mais forte" da regiao e do continente nos ultimos anos, de um relatorio para o outro continua atras do Zimbabwe (o pais mais instavel a todos os niveis na regiao e no continente durante a ultima decada e por isso internacionalmente condenado e sancionado), o qual, entretanto, no mesmo periodo, consegue subir quatro lugares no 'rank', situando-se 7 posicoes acima da de Angola...

- Quando consideradas as variacoes na avaliacao, a posicao de Angola tambem nao compara favoravelmente: vejam-se, por exemplo, essas variacoes para pequenas economias como a Swazilandia (-8) ou o Lesotho (-7), ja' para nao falar em economias maiores como a Namibia (-9) ou a Tanzania (-7), as quais no entanto permanecem varias posicoes acima da de Angola (-1)...





"Mesmo em termos de “ranking”, para quem sabe ler relatórios, em relação à competitividade há claramente áreas em que Angola estava na cauda da tabela há alguns anos e agora está a meio, ultrapassando muitos países."


- O ultimo "ranking" inclui 142 paises, encontrando-se Angola na posicao 139 - ou seja, em termos de "ranking", ceteris paribus, Angola "ate' desceu" um lugar na tabela desde o ultimo relatorio onde se encontrava na posicao 138, como alias a variacao de -1 o indica... se isso e' estar "a meio da tabela", entao, definitivamente "nao sei ler relatorios" e tenho mesmo (!) "a mania do sabetudismo"!


"O estágio de desenvolvimento em que Angola está agora colocada pelo Fórum Económico Mundial é diferente do passado."


- O estabelecimento do "estagio de desenvolvimento" pelo FEM e' baseado primeiramente no nivel do PIB per capita o que nada diz sobre o "nivel de desenvolvimento" dos paises quando considerados criterios mais abrangentes, estruturais e estruturantes como a distribuicao desse mesmo PIB ou os seus indices de desenvolvimento humano, por exemplo.

- O segundo criterio adoptado pelo FEM e' baseado na composicao do PIB e na medida em que os paises sao 'factor driven', usando a percentagem de produtos mineiros no total das exportacoes. Assim, o "estagio de desenvolvimento" de Angola e' considerado como "de transicao do estagio 1 ('factor driven') para o estagio 2 ('efficiency driven')" ou, 'lido' de outro modo, Angola ainda nao e' uma economia "eficiente" - e nisso "nao sendo diferente do passado", ou seja, nao tendo mudado de estagio de um relatorio para o outro.


"O gráfico que compara a média de crescimento angolano à média dos países da África Subsaariana entre 2002 e 2010 é revelador do potencial conseguido."


- Para quem "saiba entender" de "crescimento economico", um fundamental e basico "facto estilizado" revela que economias que recebam um "boost" de investimento a partir de um nivel do PIB relativamente baixo (caso da Angola do pos-guerra - como aqui, entre outros lugares, o discuto) tendem a crescer a taxas relativamente mais elevadas do que economias com PIBs mais altos, ou que nao recebam tal "boost": tem a ver com algo designado "rendimentos decrescentes do capital" -
ja' Marx explicava!...

[...e eu, como nao passo de uma muito esforcada, mas modesta professora primaria, fico-me por aqui!...]

Portanto...

"Não vale (mesmo!) a pena esticar a corda"!


{Comentarios a esta materia}


P.S.: Apenas uma breve referencia ao Premio Nobel da Economia deste ano, anunciado depois da publicacao deste post, e ao que escrevi no artigo em questao sobre o papel das expectativas dos agentes economicos:

"(...) É neste contexto que, no quadro da teoria das expectativas racionais, se diz que, atravéz da ilusão monetária (ou do “fetichismo da moeda”, na versão marxista) e do desfasamento temporal entre as medidas de estabilização macroeconómica, “pode-se enganar alguns agentes económicos por algum tempo, mas não todos ao mesmo tempo, nem o tempo todo”… Na verdade, os factores que mais têm contribuido para uma melhoria das expectativas dos investidores estrangeiros e as condições mais favoráveis das linhas de crédito concedidas a Angola (para além, obviamente, das esperadas altas taxas de retorno do investimento nos sectores extractivo e terciário) são a paz, que parece consolidada, e as expectativas de estabilidade política e normalidade institucional que se esperam obter com a realização das eleições; não necessáriamente a “estabilidade macroeconómica” num país que, infelizmente, ainda se conta entre os mais corruptos do mundo e com um dos mais baixos índices de desenvolvimento humano, numa economia em que nem a própria classe dirigente parece ter confiança, a julgar pelos seus investimentos imobiliários e outros no estrangeiro e pela expatriação de capitais obtidos de forma pouco transparente para os mais famosos paraísos fiscais do mundo. (...)"



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"Aproveitando a deixa", e porque estamos em "mare' de SADC", decidi compilar o 'ranking' dos paises membros da SADC incluidos no ultimo relatorio do FEM [*]:















[*] O que podera' tambem servir de 'quadro ilustrativo' para o aquilatamento das pretensoes e expectativas sobre o papel de Angola na SADC no curto/medio prazo, em particular vis-a-vis a Africa do Sul, como aqui, entre outros lugares, se expressa.

Wednesday, 30 June 2010

PAUL KRUGMAN: ECONOMISTA, ACADEMICO, BLOGGER E NOBEL [R]*



Paul Krugman foi, ha’ alguns dias, laureado com o Premio Nobel de Economia de 2008, pela sua “analise de padroes de comercio e localizacao da actividade economica”.

Ele e’, entre outras coisas (e.g. blogger e articulista do The New York Times), citado entre os notaveis alumni e membros associados do staff da London School of Economics, onde me lembro de ter assistido a uma das suas extra-curricular lectures e a qual tenho como minha alma mater – nao exactamente, ou apenas, por ser uma das escolas de Economia melhor conceituadas do mundo ou, pelo menos, a escola de Economia mais conceituada dentre as que frequentei, mas fundamentalmente porque foi ela que me libertou como ‘ser pensante’, que validou as questoes e inquietacoes com que, de outras latitudes, para ela entrei, que me facultou os instrumentos com que as pensar, repensar e reequacionar.

Nao acidentalmente, o seu nome consta da bibliografia da minha tese de Mestrado naquela escola (Krugman P., Regionalism versus multilateralism: analytical notes’), como um dos autores incluidos numa das obras a que mais recorri enquanto a preparava, New Dimensions in Regional Integration (Cambridge, Cambridge UP, 1993), e tambem das referencias deste meu artigo.*

A atribuicao do Nobel a Krugman acontece num momento em que a administracao Bush, da qual ele se notabilizou como um dos maiores criticos, parece cada vez mais anteceder a aurora de uma possivel administracao Obama (de notar, no entanto, que Krugman nao e’ exactamente um fan de Obama) e, crucialmente, num momento em que alguns intemporais prenunciadores da derrocada do sistema capitalista parecem nao se poupar esforcos para encontrar na actual crise financeira e crediticia global os fundamentos das suas crencas politico-ideologicas de todos os tempos… No que poderao ate’ ter alguma razao, mas conviria que nesse debate se separassem motivacoes ideologicas de fundamentacoes cientificas.

Nao me atreveria, em nenhuma circunstancia, a tentar falar por Krugman em suposta replica a alguns dos seus ‘ocasionais co-optadores’. Diria apenas que convem sempre ter em mente que ha’ alguma diferenca entre economistas e jornalistas e/ou analistas politicos, entre bloggers e academicos e entre criticos da administracao Bush e detractores do capitalismo enquanto sistema economico. Talvez abra uma excepcao para sugerir que o chamado ‘fordismo’ – e sera’ particularmente interessante notar aqui que Krugman e’ ‘Ford International Professor of Economics’ – nao e’, ou foi, pelo menos do meu ponto de vista, exactamente um ‘modelo capitalista’, mas apenas um ‘metodo de producao’ - o das linhas de montagem, da producao massiva e das economias de escala - adoptavel por qualquer sistema economico (que, talvez convenha lembrar, e' composto em qualquer sociedade moderna por pelo menos tres sectores, grosso modo assim definidos: o primario - agricultura e materias primas/industrias extractivas, o secundario - industria transformadora e o terciario - servicos, incluindo os financeiros, sendo as suas respectivas dimensoes determinadas em geral pela dotacao de recursos e factores de cada economia e pelo seu relativo nivel de desenvolvimento), independentemente da ideologia a ele subjacente; 'metodo de producao' esse (originado no sector secundario da economia) que sempre coexistiu com o 'capitalismo flexivel' das bolsas de valores e mercados de capitais em geral (sector terciario), bem como com graus diferentes de regulacao economica e/ou intervencao estatal e, o que e' talvez mais relevante para a crise actual, sobreviveu, tal como o sistema capitalista, a Grande Depressao dos anos 30, que foi, pelo menos ate' agora, bastante pior do que esta e que aconteceu muito antes dos anos 80 do seculo XX...

Mas sobre tudo isso Krugman diz melhor numa entrevista ao Editor-em-Chefe do Nobelprize.org, curiosamente de nome Adam Smith, da qual decidi traduzir para aqui os extractos que se seguem.

[AS] Parabens pelo premio. Que altura para se receber o Premio para as Ciencias Economicas!

[PK] Sim. Estou um pouco, de certo modo sentindo que nao tenho tempo para isto. E' muito bizarro.

[AS] Esta’ neste momento em Washington para reunioes, correcto?

[PK] Sim, estou. Para uma reuniao do Grupo dos Trinta, que e’ um grupo ao qual pertenco, incluindo membros de bancos centrais e por ai fora, associada as reunioes do Banco Mundial/FMI neste momento. E deveremos ouvir de Ben Bernanke e Jean-Claude Trichet (…).

[AS] Um momento critico, portanto. E’ muito bem conhecido, certamente nos EUA, como colunista, blogger e jornalista, mas no entanto o premio foi atribuido ao trabalho que fez em decadas anteriores.

[PK] Sim.

[AS] Gostaria de focar nisso inicialmente e depois falar sobre coisas mais recentes se me for possivel. Portanto, o Comite’ (Nobel) cita a sua ‘nova teoria do comercio’, que desenvolveu nos seus ‘papers’ de 1979 e 1980, essencialmente descrevendo como o comercio funciona num mundo em que paises produzem e usam os mesmos bens. E’ isso correcto?

[PK] Os paises produzem bens similares. Quero dizer, e’ realmente uma estoria sobre paises que nao sao muito diferentes em termos da sua tecnologia, em termos dos seus recursos, mas que apesar disso acabam por especializar-se em bens diferentes que poderao estar relacionados mas nao sao exactamente iguais, e que fazem isso para tirar vantagem das vantagens da producao em grande escala.** Portanto, a questao crucial e’ realmente a similaridade entre esses paises. E’ uma explicacao do porque que os paises comerciam entre si mesmo quando teem o mesmo clima, os mesmos recursos e a mesma tecnologia.***

[AS] E o que e’ que uma base teorica como a que desenvolveu lhe permite fazer?

[PK] Bom, de facto – primeiro e acima de tudo ela permite-nos pensar claramente. Poderemos descrever – e’ uma coisa um tanto estranha, mas neste momento eu posso explicar em linguagem que soa como simples Ingles os componentes essenciais da teoria. Mas eu nao poderia, de facto faze-lo antes de ter feito os modelos. Isso requereu os calculos matematicos para chegar ao Ingles simples. Portanto, em primeiro lugar, ha’ isso. Ha’ uma enorme clarificacao que tem lugar. Em seguida, este tipo de coisa pode ser, e ja’ foi usada, como base de trabalho empirico. Uma vez que se tenha um claro ‘statement’ de como as varias pecas encaixam umas com as outras, pode-se usa-lo para avaliar o ‘impacto de bem-estar’ de diferentes politicas comerciais, portanto tudo isto e’ necessario. Mas numa fase inicial a questao e’ a de ‘como pensamos sobre esta coisa claramente?’

(…)

[AS] Sim, sim, muito bem colocado. Voltando ao seu jornalismo, ve isso como uma consequencia natural do seu trabalho na academia, essa sua viragem para uma mais, digamos, abordagem publica do que faz?

[PK] Em certa medida foi. Quero dizer, eu acredito que a tarefa de reduzir um problema intelectual a sua essencia, o que e’ muito do que esta’ envolvido em construir modelos, e a tarefa de descobrir como falar sobre um problema bastante complexo numa linguagem bastante simples e natural estao relacionados. Eu sempre senti que o que faco quando tento explicar, digamos a crise financeira em 800 palavras e o que faco quando tento fazer um modelo para a crise financeira em meia duzia de equacoes sao muito o mesmo tipo de esforco.**** Dito isso, eu estava a fazer um bom bocado desse tipo de traducao antes de trabalhar para o The New York Times, e isso continua a ser uma das coisas que eu faco no The Times. Nao tinha previsto que acabaria num ambiente tao politicamente carregado, onde sinto que preciso de fazer mais do que explicar, mas isso pareceu-me natural. Eu passei de escrever pequenos modelos para escrever pequenos artigos. Parece-me uma transicao bastante natural.

[AS] O fisico Ernest Rutherford, acho, sempre disse que voce nao deveria estar a fazer algo que nao pudesse explicar ao seu tabaconista, portanto suponho que seja a mesma ideia.

[PK] Sim, quer dizer, ha’ aquela coisa de Alfred Marshall, ele argumentava que mesmo no trabalho profissional depois de se ter compreendido uma questao devia-se queimar as equacoes, coisa em que nao acredito, mas deve-se ser capaz de explicar o que se passa tanto quanto possivel sem o aparato.

[AS] Sim. Voce esta’ muito envolvido politicamente neste momento, ou pelo menos tem uma posicao politica sobre as questoes. Sera’ isso tambem uma consequencia necessaria de tentar explicar as coisas?

[PK] Nao sei. Em certa medida. Ponhamos as coisas deste modo, eu fui um critico da administracao Bush desde muito cedo porque acreditava que eles estavam a ser desonestos, e a razao que me levou a essa conclusao muito antes de outros foi realmente porque me parecia obvio que eles estavam a mentir sobre aritmetica orcamental. Portanto, num certo sentido, o meu treino em economia jogou ai um papel. Mas, obviamente, eu fui de alguma forma para alem do meu papel como economista na minha coluna, mas, hey, economistas tambem sao pessoas, tambem sao cidadaos, e teem opinioes politicas.
(...)




*Portanto se, por hipotese absurda, eu fiz um "mestrado em imitacao" , posso orgulhar-me de ter tido a possibilidade de "imitar" pelo menos dois Nobeis da Economia, o outro foi Douglass North.

**i.e. do ‘fordismo’, acrescentaria eu numa nota a margem.


***Introduziria aqui uma outra nota para chamar atencao para dois aspectos:
i. a relativa ruptura que esta abordagem significa em relacao as teorias das vantagens absolutas e comparativas de
Adam Smith e David Ricardo respectivamente, ou seja com a “Teoria Classica do Comercio Internacional” e, por extensao, com a “Teoria Economica Neo-Classica” (pontificada, entre outros pelo modelo Heckscher-Ohlin-Samuelson) tao frequentemente ‘mal misturada’ com o que vulgarmente se conhece como ‘neo-liberalismo’;
ii. como esta abordagem pode ser suportada pelas estatisticas do comercio intra-continental Africano que os graficos que inclui
neste artigo demonstram, em qualquer das suas versoes – devo dizer que a actual magnitude desse comercio, apesar de ainda longe da desejavel, foi para mim uma constatacao bastante positiva, mas isso sera’ provavelmente materia para outro artigo.

****Isto foi o que me propus fazer
nesta serie.



*[First posted 24/10/08 - "Repostado" em referencia a recente visita de Krugman a Angola, onde uma das suas afirmacoes mais destacadas tera' sido "Um país com carências na saúde e na educação não pode ser desenvolvido". Esse lembrete fez-me revisitar este artigo, onde uma das respostas que dou a pergunta "que fazer?" e' a atribuicao das maiores fatias do orcamento a Saude e a Educacao.]





Paul Krugman foi, ha’ alguns dias, laureado com o Premio Nobel de Economia de 2008, pela sua “analise de padroes de comercio e localizacao da actividade economica”.

Ele e’, entre outras coisas (e.g. blogger e articulista do The New York Times), citado entre os notaveis alumni e membros associados do staff da London School of Economics, onde me lembro de ter assistido a uma das suas extra-curricular lectures e a qual tenho como minha alma mater – nao exactamente, ou apenas, por ser uma das escolas de Economia melhor conceituadas do mundo ou, pelo menos, a escola de Economia mais conceituada dentre as que frequentei, mas fundamentalmente porque foi ela que me libertou como ‘ser pensante’, que validou as questoes e inquietacoes com que, de outras latitudes, para ela entrei, que me facultou os instrumentos com que as pensar, repensar e reequacionar.

Nao acidentalmente, o seu nome consta da bibliografia da minha tese de Mestrado naquela escola (Krugman P., Regionalism versus multilateralism: analytical notes’), como um dos autores incluidos numa das obras a que mais recorri enquanto a preparava, New Dimensions in Regional Integration (Cambridge, Cambridge UP, 1993), e tambem das referencias deste meu artigo.*

A atribuicao do Nobel a Krugman acontece num momento em que a administracao Bush, da qual ele se notabilizou como um dos maiores criticos, parece cada vez mais anteceder a aurora de uma possivel administracao Obama (de notar, no entanto, que Krugman nao e’ exactamente um fan de Obama) e, crucialmente, num momento em que alguns intemporais prenunciadores da derrocada do sistema capitalista parecem nao se poupar esforcos para encontrar na actual crise financeira e crediticia global os fundamentos das suas crencas politico-ideologicas de todos os tempos… No que poderao ate’ ter alguma razao, mas conviria que nesse debate se separassem motivacoes ideologicas de fundamentacoes cientificas.

Nao me atreveria, em nenhuma circunstancia, a tentar falar por Krugman em suposta replica a alguns dos seus ‘ocasionais co-optadores’. Diria apenas que convem sempre ter em mente que ha’ alguma diferenca entre economistas e jornalistas e/ou analistas politicos, entre bloggers e academicos e entre criticos da administracao Bush e detractores do capitalismo enquanto sistema economico. Talvez abra uma excepcao para sugerir que o chamado ‘fordismo’ – e sera’ particularmente interessante notar aqui que Krugman e’ ‘Ford International Professor of Economics’ – nao e’, ou foi, pelo menos do meu ponto de vista, exactamente um ‘modelo capitalista’, mas apenas um ‘metodo de producao’ - o das linhas de montagem, da producao massiva e das economias de escala - adoptavel por qualquer sistema economico (que, talvez convenha lembrar, e' composto em qualquer sociedade moderna por pelo menos tres sectores, grosso modo assim definidos: o primario - agricultura e materias primas/industrias extractivas, o secundario - industria transformadora e o terciario - servicos, incluindo os financeiros, sendo as suas respectivas dimensoes determinadas em geral pela dotacao de recursos e factores de cada economia e pelo seu relativo nivel de desenvolvimento), independentemente da ideologia a ele subjacente; 'metodo de producao' esse (originado no sector secundario da economia) que sempre coexistiu com o 'capitalismo flexivel' das bolsas de valores e mercados de capitais em geral (sector terciario), bem como com graus diferentes de regulacao economica e/ou intervencao estatal e, o que e' talvez mais relevante para a crise actual, sobreviveu, tal como o sistema capitalista, a Grande Depressao dos anos 30, que foi, pelo menos ate' agora, bastante pior do que esta e que aconteceu muito antes dos anos 80 do seculo XX...

Mas sobre tudo isso Krugman diz melhor numa entrevista ao Editor-em-Chefe do Nobelprize.org, curiosamente de nome Adam Smith, da qual decidi traduzir para aqui os extractos que se seguem.

[AS] Parabens pelo premio. Que altura para se receber o Premio para as Ciencias Economicas!

[PK] Sim. Estou um pouco, de certo modo sentindo que nao tenho tempo para isto. E' muito bizarro.

[AS] Esta’ neste momento em Washington para reunioes, correcto?

[PK] Sim, estou. Para uma reuniao do Grupo dos Trinta, que e’ um grupo ao qual pertenco, incluindo membros de bancos centrais e por ai fora, associada as reunioes do Banco Mundial/FMI neste momento. E deveremos ouvir de Ben Bernanke e Jean-Claude Trichet (…).

[AS] Um momento critico, portanto. E’ muito bem conhecido, certamente nos EUA, como colunista, blogger e jornalista, mas no entanto o premio foi atribuido ao trabalho que fez em decadas anteriores.

[PK] Sim.

[AS] Gostaria de focar nisso inicialmente e depois falar sobre coisas mais recentes se me for possivel. Portanto, o Comite’ (Nobel) cita a sua ‘nova teoria do comercio’, que desenvolveu nos seus ‘papers’ de 1979 e 1980, essencialmente descrevendo como o comercio funciona num mundo em que paises produzem e usam os mesmos bens. E’ isso correcto?

[PK] Os paises produzem bens similares. Quero dizer, e’ realmente uma estoria sobre paises que nao sao muito diferentes em termos da sua tecnologia, em termos dos seus recursos, mas que apesar disso acabam por especializar-se em bens diferentes que poderao estar relacionados mas nao sao exactamente iguais, e que fazem isso para tirar vantagem das vantagens da producao em grande escala.** Portanto, a questao crucial e’ realmente a similaridade entre esses paises. E’ uma explicacao do porque que os paises comerciam entre si mesmo quando teem o mesmo clima, os mesmos recursos e a mesma tecnologia.***

[AS] E o que e’ que uma base teorica como a que desenvolveu lhe permite fazer?

[PK] Bom, de facto – primeiro e acima de tudo ela permite-nos pensar claramente. Poderemos descrever – e’ uma coisa um tanto estranha, mas neste momento eu posso explicar em linguagem que soa como simples Ingles os componentes essenciais da teoria. Mas eu nao poderia, de facto faze-lo antes de ter feito os modelos. Isso requereu os calculos matematicos para chegar ao Ingles simples. Portanto, em primeiro lugar, ha’ isso. Ha’ uma enorme clarificacao que tem lugar. Em seguida, este tipo de coisa pode ser, e ja’ foi usada, como base de trabalho empirico. Uma vez que se tenha um claro ‘statement’ de como as varias pecas encaixam umas com as outras, pode-se usa-lo para avaliar o ‘impacto de bem-estar’ de diferentes politicas comerciais, portanto tudo isto e’ necessario. Mas numa fase inicial a questao e’ a de ‘como pensamos sobre esta coisa claramente?’

(…)

[AS] Sim, sim, muito bem colocado. Voltando ao seu jornalismo, ve isso como uma consequencia natural do seu trabalho na academia, essa sua viragem para uma mais, digamos, abordagem publica do que faz?

[PK] Em certa medida foi. Quero dizer, eu acredito que a tarefa de reduzir um problema intelectual a sua essencia, o que e’ muito do que esta’ envolvido em construir modelos, e a tarefa de descobrir como falar sobre um problema bastante complexo numa linguagem bastante simples e natural estao relacionados. Eu sempre senti que o que faco quando tento explicar, digamos a crise financeira em 800 palavras e o que faco quando tento fazer um modelo para a crise financeira em meia duzia de equacoes sao muito o mesmo tipo de esforco.**** Dito isso, eu estava a fazer um bom bocado desse tipo de traducao antes de trabalhar para o The New York Times, e isso continua a ser uma das coisas que eu faco no The Times. Nao tinha previsto que acabaria num ambiente tao politicamente carregado, onde sinto que preciso de fazer mais do que explicar, mas isso pareceu-me natural. Eu passei de escrever pequenos modelos para escrever pequenos artigos. Parece-me uma transicao bastante natural.

[AS] O fisico Ernest Rutherford, acho, sempre disse que voce nao deveria estar a fazer algo que nao pudesse explicar ao seu tabaconista, portanto suponho que seja a mesma ideia.

[PK] Sim, quer dizer, ha’ aquela coisa de Alfred Marshall, ele argumentava que mesmo no trabalho profissional depois de se ter compreendido uma questao devia-se queimar as equacoes, coisa em que nao acredito, mas deve-se ser capaz de explicar o que se passa tanto quanto possivel sem o aparato.

[AS] Sim. Voce esta’ muito envolvido politicamente neste momento, ou pelo menos tem uma posicao politica sobre as questoes. Sera’ isso tambem uma consequencia necessaria de tentar explicar as coisas?

[PK] Nao sei. Em certa medida. Ponhamos as coisas deste modo, eu fui um critico da administracao Bush desde muito cedo porque acreditava que eles estavam a ser desonestos, e a razao que me levou a essa conclusao muito antes de outros foi realmente porque me parecia obvio que eles estavam a mentir sobre aritmetica orcamental. Portanto, num certo sentido, o meu treino em economia jogou ai um papel. Mas, obviamente, eu fui de alguma forma para alem do meu papel como economista na minha coluna, mas, hey, economistas tambem sao pessoas, tambem sao cidadaos, e teem opinioes politicas.
(...)




*Portanto se, por hipotese absurda, eu fiz um "mestrado em imitacao" , posso orgulhar-me de ter tido a possibilidade de "imitar" pelo menos dois Nobeis da Economia, o outro foi Douglass North.

**i.e. do ‘fordismo’, acrescentaria eu numa nota a margem.


***Introduziria aqui uma outra nota para chamar atencao para dois aspectos:
i. a relativa ruptura que esta abordagem significa em relacao as teorias das vantagens absolutas e comparativas de
Adam Smith e David Ricardo respectivamente, ou seja com a “Teoria Classica do Comercio Internacional” e, por extensao, com a “Teoria Economica Neo-Classica” (pontificada, entre outros pelo modelo Heckscher-Ohlin-Samuelson) tao frequentemente ‘mal misturada’ com o que vulgarmente se conhece como ‘neo-liberalismo’;
ii. como esta abordagem pode ser suportada pelas estatisticas do comercio intra-continental Africano que os graficos que inclui
neste artigo demonstram, em qualquer das suas versoes – devo dizer que a actual magnitude desse comercio, apesar de ainda longe da desejavel, foi para mim uma constatacao bastante positiva, mas isso sera’ provavelmente materia para outro artigo.

****Isto foi o que me propus fazer
nesta serie.



*[First posted 24/10/08 - "Repostado" em referencia a recente visita de Krugman a Angola, onde uma das suas afirmacoes mais destacadas tera' sido "Um país com carências na saúde e na educação não pode ser desenvolvido". Esse lembrete fez-me revisitar este artigo, onde uma das respostas que dou a pergunta "que fazer?" e' a atribuicao das maiores fatias do orcamento a Saude e a Educacao.]



Tuesday, 22 June 2010

UK: a 'tough' budget...

... for 'tougher' times to come!



The most savage public spending cuts since Margaret Thatcher’s first term in office were announced today in the UK, accompanied by a sharp rise in VAT and the prospect of public sector workers facing a two-year pay freeze (here). The budget announced today imposes austerity measures on every family with a £40bn package of emergency tax increases, welfare cuts and government spending restraint - promising 'pain now and more pain later' (here) - all prompting fears that the country may plunge further into recession (here).


... for 'tougher' times to come!



The most savage public spending cuts since Margaret Thatcher’s first term in office were announced today in the UK, accompanied by a sharp rise in VAT and the prospect of public sector workers facing a two-year pay freeze (here). The budget announced today imposes austerity measures on every family with a £40bn package of emergency tax increases, welfare cuts and government spending restraint - promising 'pain now and more pain later' (here) - all prompting fears that the country may plunge further into recession (here).


Wednesday, 5 May 2010

UK: The return of Socialism?


Tomorrow is general election day here in the UK.
At the national level, although things are said to be still unpredictable, it looks like the Tories are about to reclaim power from Labour after more than a decade in opposition.
At the local level, I was pleased the other day to receive a visit by one of the local Councillors, the young Matt Sanders, whose first introduction to me was through the letter I commented on this post. We had a brief talk during which I assured him that “I quite like your team”…
Well, his team, the local Lib Dems, is headed by one Jo Shaw who is set against Frank Dobson (currently London’s longest-serving Labour MP and one of the “two prominent MPs” I referred to in the above-mentioned post) to represent this area in Westminster. I also quite like Frank Dobson, so I wish them both the best – which, unfortunately, in this case can only occur if both lose to some other candidate…
Then, there are the oddities. Like one John Chapman (could he be that other candidate?…) – Independent, 33 years a Whitehall civil servant and diplomat, 13 years a double award winning financial journalist – who has been campaigning “For a National Recovery and Redistribution Plan”!
It goes like this:

His diagnostic of the UK economy:

The financial crisis has given us the biggest budget deficit in the West. Our government let in the culprits, notable the hedge funds, to boost the City. Disgracefully, the UK is now blocking an EU directive to regulate them.

The huge earnings of US speculators have led the City into bloated bonuses. Earnings of chief executives of our top 100 companies have risen to 81 times the average wage, from 47 times in 2000 (CBI).

The Thatcher years made us a most unequal society. In the USA incomes of the top fifth of people are 8.5 times those of the bottom fifth. In the UK, the ratio is 7.2, France 5.6, Germany 5.2, Sweden 3.8 and Japan 3.4 (UN). Social costs, from feelings of inadequacy to violent crime, rise with inequality.

Manufacturing’s share of our economy has fallen from 26% in 1979 to 12%. Companies are crippled by short-termism – City preference for dividends over investment. Our research & development as a proportion of GDP is now 30% below Germany, 40% below USA, and 50% below Japan (Batelle).

The NHS is under-funded. UK spend on health is 8.4% of GDP, below the 9.7% average of 15 West European countries. We have 2.5 doctors per 1000 people, the West European average is 50% higher at 3.7 per 1000 (OECD).

The pupil/teacher ratio of our state secondary schools is 15, the West European average is 11. Our private schools have a ratio of only 7 (OECD).

Our state pension is the lowest in Europe (Aon). But our military spend is higher than Russia. We invaded Iraq “largely for oil” (Alan Greenspan).

His Plan:

A huge Budget deficit. A discredited City. Weekened manufacturing. Under-resourced health, education and pensions. Doubtful wars. Alarming inequality.

The “efficient markets” model no longer works – because of unregulated financiers, and because “Across the world, the free market is being overtaken by state capitalism” (US Council on Foreign Relations), from China, Russia, the Middle East, and South American countries like Brazil and Venezuela.

We need a government of all parties to tackle our crisis, bolstered by industrialists, businessmen, union leaders, consultants and the professions.

We need a 5 year National Plan to rescue Britain and make it fairer. Indicative plans for each sector should be made coherent by a National Planning Department, replacing the failed Treasury. Merited taxes should also avoid savage expenditure cuts that shed jobs and reduce services.

Reforming the City A tax on banks, and a tax on the privileged hedge funds. A tax on dividends where companies have R&D below international levels.

Reducing Inequality A wealth tax of 2%, as in France and Switzerland. An excessive earnings tax, with earnings over £1m at 60%, over £2m at 75%. Inheritance tax at 60% for estates over £5m, and 75% for estates over £10m.

New state/private British companies to compete with state capitalism
State equity companies to strengthen private companies to help medium-seized companies grow into world players, to develop green technologies, to boost employment and the work ethic, and to revive the “Made in Britain” label.

Public expenditure and public services
More hospitals, more doctors and more teachers to match international levels. A levy on private schools for their disproportionate use of teaching resources. Higher state pensions for lowly paid to avoid means testing of their savings. Less military expenditure. Support nuclear cut-backs by no to Trident. Leave Afghanistan. More control over North Sea oil instead of further wars for oil.

Tomorrow is general election day here in the UK.
At the national level, although things are said to be still unpredictable, it looks like the Tories are about to reclaim power from Labour after more than a decade in opposition.
At the local level, I was pleased the other day to receive a visit by one of the local Councillors, the young Matt Sanders, whose first introduction to me was through the letter I commented on this post. We had a brief talk during which I assured him that “I quite like your team”…
Well, his team, the local Lib Dems, is headed by one Jo Shaw who is set against Frank Dobson (currently London’s longest-serving Labour MP and one of the “two prominent MPs” I referred to in the above-mentioned post) to represent this area in Westminster. I also quite like Frank Dobson, so I wish them both the best – which, unfortunately, in this case can only occur if both lose to some other candidate…
Then, there are the oddities. Like one John Chapman (could he be that other candidate?…) – Independent, 33 years a Whitehall civil servant and diplomat, 13 years a double award winning financial journalist – who has been campaigning “For a National Recovery and Redistribution Plan”!
It goes like this:

His diagnostic of the UK economy:

The financial crisis has given us the biggest budget deficit in the West. Our government let in the culprits, notable the hedge funds, to boost the City. Disgracefully, the UK is now blocking an EU directive to regulate them.

The huge earnings of US speculators have led the City into bloated bonuses. Earnings of chief executives of our top 100 companies have risen to 81 times the average wage, from 47 times in 2000 (CBI).

The Thatcher years made us a most unequal society. In the USA incomes of the top fifth of people are 8.5 times those of the bottom fifth. In the UK, the ratio is 7.2, France 5.6, Germany 5.2, Sweden 3.8 and Japan 3.4 (UN). Social costs, from feelings of inadequacy to violent crime, rise with inequality.

Manufacturing’s share of our economy has fallen from 26% in 1979 to 12%. Companies are crippled by short-termism – City preference for dividends over investment. Our research & development as a proportion of GDP is now 30% below Germany, 40% below USA, and 50% below Japan (Batelle).

The NHS is under-funded. UK spend on health is 8.4% of GDP, below the 9.7% average of 15 West European countries. We have 2.5 doctors per 1000 people, the West European average is 50% higher at 3.7 per 1000 (OECD).

The pupil/teacher ratio of our state secondary schools is 15, the West European average is 11. Our private schools have a ratio of only 7 (OECD).

Our state pension is the lowest in Europe (Aon). But our military spend is higher than Russia. We invaded Iraq “largely for oil” (Alan Greenspan).

His Plan:

A huge Budget deficit. A discredited City. Weekened manufacturing. Under-resourced health, education and pensions. Doubtful wars. Alarming inequality.

The “efficient markets” model no longer works – because of unregulated financiers, and because “Across the world, the free market is being overtaken by state capitalism” (US Council on Foreign Relations), from China, Russia, the Middle East, and South American countries like Brazil and Venezuela.

We need a government of all parties to tackle our crisis, bolstered by industrialists, businessmen, union leaders, consultants and the professions.

We need a 5 year National Plan to rescue Britain and make it fairer. Indicative plans for each sector should be made coherent by a National Planning Department, replacing the failed Treasury. Merited taxes should also avoid savage expenditure cuts that shed jobs and reduce services.

Reforming the City A tax on banks, and a tax on the privileged hedge funds. A tax on dividends where companies have R&D below international levels.

Reducing Inequality A wealth tax of 2%, as in France and Switzerland. An excessive earnings tax, with earnings over £1m at 60%, over £2m at 75%. Inheritance tax at 60% for estates over £5m, and 75% for estates over £10m.

New state/private British companies to compete with state capitalism
State equity companies to strengthen private companies to help medium-seized companies grow into world players, to develop green technologies, to boost employment and the work ethic, and to revive the “Made in Britain” label.

Public expenditure and public services
More hospitals, more doctors and more teachers to match international levels. A levy on private schools for their disproportionate use of teaching resources. Higher state pensions for lowly paid to avoid means testing of their savings. Less military expenditure. Support nuclear cut-backs by no to Trident. Leave Afghanistan. More control over North Sea oil instead of further wars for oil.

Thursday, 2 April 2009

KARL MARX DIXIT (SUPPOSEDLY...)

"Owners of capital will stimulate the working class to buy more and more of expensive goods, houses and technology, pushing them to take more and more expensive credits, until their debt becomes unbearable. The unpaid debt will lead to bankruptcy of banks, which will have to be nationalised, and the State will have to take the road which will eventually lead to communism."

Karl Marx, Das Kapital, 1867

This message claims to contain an amazingly prescient quote from Karl Marx, supposedly written in 1867, in which he predicts the causes and ramifications of the current world economic crisis. The quote warns that "owners of capital" will offer more and more credit to the working class until the amount of debt becomes unbearable and leads to the bankruptcy and the subsequent nationalisation of banks. The quote has been bandied around Wall Street, circulates via email and has also been posted to numerous online discussion boards and blogs. Marx's supposed words have even been included in some financial news reports.



However, the quote is almost certainly not from Karl Marx at all. According to the message, the words were included in Marx's influential political treatise "Das Kapital", which he wrote in 1867. However, extensive searches of online versions of Das Kapital have failed to reveal any such quote. Even searches on Marx and Engels collected works do not come up with the quote or anything similar.

Keep reading here...
"Owners of capital will stimulate the working class to buy more and more of expensive goods, houses and technology, pushing them to take more and more expensive credits, until their debt becomes unbearable. The unpaid debt will lead to bankruptcy of banks, which will have to be nationalised, and the State will have to take the road which will eventually lead to communism."

Karl Marx, Das Kapital, 1867

This message claims to contain an amazingly prescient quote from Karl Marx, supposedly written in 1867, in which he predicts the causes and ramifications of the current world economic crisis. The quote warns that "owners of capital" will offer more and more credit to the working class until the amount of debt becomes unbearable and leads to the bankruptcy and the subsequent nationalisation of banks. The quote has been bandied around Wall Street, circulates via email and has also been posted to numerous online discussion boards and blogs. Marx's supposed words have even been included in some financial news reports.



However, the quote is almost certainly not from Karl Marx at all. According to the message, the words were included in Marx's influential political treatise "Das Kapital", which he wrote in 1867. However, extensive searches of online versions of Das Kapital have failed to reveal any such quote. Even searches on Marx and Engels collected works do not come up with the quote or anything similar.

Keep reading here...

Friday, 16 January 2009

'DESEMBRULHANDO A CRISE' (II)

Desde o primeiro numero desta serie, pode-se seguramente dizer que “a crise vai bem, obrigada”: alguns dos maiores gigantes do fordismo nos EUA e na Europa (em particular na industria automovel, incluindo a iconica Ford) seguiram-se aos ‘tigres de papel’ de Wall Street e da City de Londres na longa ‘bicha’ de pedintes de dinheiros publicos; os poderes publicos, por seu lado, nao se teem poupado a alargar os cordoes a bolsa para, por um lado, atender aos pedintes dos sectores produtivo e especulativo e, por outro, conceder todos os estimulos possiveis e imaginaveis, tanto fiscais como crediticios, aos deprimidos consumidores e, por via disso, foram descendo as taxas de juro ate’ ao nivel zero ou, numa outra analise, a linha de passe entre a recessao e a depressao.

Enquanto isso, varios operadores em todos os sectores economicos continuaram a afundar-se – com alguns casos de policia e tragicos suicidios pelo meio – e a generalidade dos consumidores continuaram a nao impedir que grandes nomes da ‘high/main street’ (do que a Woolworths – uma cadeia retalhista com mais de um seculo de existencia no mercado Britanico – tem sido nas ultimas semanas o caso mais emblematico) continuem a falir. Estaremos, assim, numa situacao que nos permite visualizar em termos praticos e reais aquilo que, em termos teoricos, e’ definido em macroeconomia como a “armadilha da liquidez”, ou seja, uma situacao em que, por mais barato que seja o dinheiro, as politicas monetaria e fiscal se demonstram incapazes por si sos de estimular a producao e o consumo e, consequentemente, o crescimento economico.

Essa situacao, porem, poder-se-ia restringir ao ocidente, nao estivessemos nos numa economia globalizada (globalizadora?) e nao fossem as restricoes impostas pela OPEP aos paises produtores de petroleo (Angola) que os deixam em nao tao ‘bons espiritos’ quanto em condicoes normais seria de prever, particularmente quando estes estao sobremaneira depedentes de, por um lado, emprestimos estrangeiros e, por outro, aplicacoes financeiras que, na actual conjuntura, se apresentam tao vulneraveis quanto quaisquer outras nas pracas financeiras internacionais. A tal ponto que, quando o estudo de viabilidade do recem-projectado Fundo Soberano Angolano estiver concluido, talvez ja’ nao haja fundos assim tao disponiveis para o instituir e manter… Ha’, contudo, neste contexto, uma noticia geralmente animadora: a China, neste momento maior parceiro economico de Angola, acaba de ascender a posicao de terceira maior economia mundial, depois dos EUA e do Japao, tendo destronado a Alemanha daquela posicao. Ate’ que ponto sera’ esta uma noticia particularmente animadora para Angola? Questao a acompanhar nos proximos tempos. Por agora, voltemos brevemente ao primeiro numero desta serie, que assim terminei:

Essa, do meu ponto de vista, a essencia da crise que se vem desenrolando aos nossos olhos. Se ha’ uma licao basica a retirar dela, e’ que nenhuma economia se pode dar ao luxo de perder o equilibrio essencial entre o sector de bens (e servicos) e o sector das financas, ou seja, entre a economia real e a economia monetaria. Este ‘lembrete’ torna-se particularmente relevante para algumas das questoes que levantei, bastante antes desta crise, no meu artigo “Politica, Futebol e Algumas Consideracoes sobre a Actual Conjuntura Economica Angolana”. A elas voltarei.

E, aqui volto a elas, como prometido. Nao directamente, mas atraves do economista no pensamento de quem se estruturou sobremaneira a minha formacao basica em Economia, John Maynard Keynes {ele que, tendo dito que “os homens praticos que acreditam estar imunes a qualquer influencia intelectual, sao normalmente escravos de um qualquer economista defunto” (tenho ca’ para mim que ele deveria estar a pensar no economista entao ja' defunto Karl Marx…), tem suscitado recentemente afirmacoes que o creditam como o unico economista (defunto) a quem recorrer neste momento em busca de solucoes para a actual crise, pelo facto de a sua analise de recessoes e depressoes economicas continuar a ser a fundacao da moderna macroeconomia, ou que, tendo ele famosamente afirmado que "no longo prazo (do ciclo historico-economico) estamos todos mortos", verifica-se agora que neste momento ele esta tudo menos morto , ao ponto de ter sido referido como o homem do ano - passado, que, pelo menos no que diz respeito a crise economica, continua neste ano que agora se inicia}, usando duas citacoes, que me parecem fulcrais no ambito da analise que sugeri naquele meu artigo do inicio de 2006, de uma celebre carta aberta que ele enderecou, em 1933, ao entao Presidente Roosevelt dos EUA, oferecendo o seu technical advice para a recuperacao da Grande Depressao que se vivia naqueles dias:

“(…) O objectivo da recuperacao e’ aumentar o produto nacional e colocar mais homens a trabalhar. No sistema economico do mundo moderno, o produto e’ primariamente para venda; e o volume do produto depende da quantidade do poder de compra, comparada com o custo primario da producao que se espera colocar no mercado. Genericamente falando, portanto, um aumento do produto nao se pode verificar a menos que opere um ou outro de tres factores. Os individuos devem ser induzidos a gastar mais dos seus rendimentos existentes; ou o mundo empresarial deve ser induzido, seja atraves de um aumento da confianca nas expectativas ou de uma mais baixa taxa de juro, a criar adicionais rendimentos correntes nas maos dos seus empregados, o que acontece quando ou o capital fixo, ou o capital operacional do pais esta’ a ser incrementado; ou a autoridade publica tem que ser chamada para ajudar a criar rendimentos correntes adicionais atraves de despesa ou de dinheiro emprestado ou imprimido. Em maus tempos nao se pode esperar que o primeiro factor funcione a uma escala suficiente. O segundo factor entrara’ em accao como a segunda onda de ataque a recessao depois da vaga ter sido contrariada pela despesa publica. E’, portanto, apenas do terceiro factor que se pode esperar o maior impulso inicial.”

Ora, como vimos nos paragrafos iniciais deste post, este diagnostico de Keynes e’ claramente evidenciado pela presente crise economica, nao apenas ocidental, mas global, incluindo o mercado domestico da China, apesar da sua recente ascensao a categoria de terceira potencia mundial -, sendo que, a par do consenso que se reune a volta da necessidade de conceder estimulos a economia, decorre neste momento um debate bastante interessante sobre os limites desses estimulos e as melhores vias para os tornarem mais eficazes. Vejamos entao qual a prescricao de Keynes:

“(…) Assim, como primordial incentivador no primeiro estagio da tecnica de recuperacao, eu ponho uma enfase avassaladora no aumento do poder de compra nacional, resultante da despesa governamental, que seja financiado por emprestimos e nao por tributacao dos rendimentos presentes. Nada mais conta em comparacao com isto. Numa situacao de expansao economica, a inflacao pode ser causada pela permissao de que o credito ilimitado apoie o entusiasmo excitado dos especuladores empresariais. Mas numa recessao, a despesa crediticia governamental e’ a unica forma segura de se garantir rapidamente um aumento do produto a precos crescentes. E’ por isso que uma guerra causa sempre uma intensa actividade industrial. No passado, o financiamento ortodoxo via uma guerra como a unica legitima desculpa para a criacao de emprego atraves da despesa governamental. Voce, Sr. Presidente, tendo deixado de lado tal pensamento, e’ livre de utilizar nos interesses da paz e da prosperidade a tecnica a qual ate’ agora apenas foi permitido servir os propositos da guerra e da destruicao.”

Nao se aplica isto bem a Angola, meus caros leitores? Eu diria que sim, especialmente tendo em conta o que ele diz num outro paragrafo da mesma carta quanto as areas em que a despesa publica se deveria aplicar, “(…) devera’ ser dada preferencia aquelas que poderao mais rapidamente madurar em grande escala, como por exemplo a reabilitacao das condicoes fisicas das linhas ferreas” (ao que poderiamos acrescentar outras obras publicas e investimentos em infra-estruturas, como a construcao de habitacoes e a reabilitacao de estradas, etc.). Mas diria tambem algo mais: que o diagnostico e prescricao de Keynes – onde ele diz, nomeadamente, que “o objectivo da recuperacao e’ aumentar o produto nacional e colocar mais homens a trabalhar” e que “eu ponho uma enfase avassaladora no aumento do poder de compra nacional” e, ja' agora, ao que ele tambem disse num outro contexto: "a politica monetaria e cambial de um pais devera’ ser inteiramente subordinada ao objectivo do aumento da producao e do emprego ao nivel certo" -, referem-se estritamente ao produto, ao emprego e ao poder de compra dos nacionais. Aplicar-se-ha’ isto inteiramente a Angola? Esse e’, do meu (humilde, il faut le dire…), ponto de vista, o prublema que ainda estamos kum ele
Desde o primeiro numero desta serie, pode-se seguramente dizer que “a crise vai bem, obrigada”: alguns dos maiores gigantes do fordismo nos EUA e na Europa (em particular na industria automovel, incluindo a iconica Ford) seguiram-se aos ‘tigres de papel’ de Wall Street e da City de Londres na longa ‘bicha’ de pedintes de dinheiros publicos; os poderes publicos, por seu lado, nao se teem poupado a alargar os cordoes a bolsa para, por um lado, atender aos pedintes dos sectores produtivo e especulativo e, por outro, conceder todos os estimulos possiveis e imaginaveis, tanto fiscais como crediticios, aos deprimidos consumidores e, por via disso, foram descendo as taxas de juro ate’ ao nivel zero ou, numa outra analise, a linha de passe entre a recessao e a depressao.

Enquanto isso, varios operadores em todos os sectores economicos continuaram a afundar-se – com alguns casos de policia e tragicos suicidios pelo meio – e a generalidade dos consumidores continuaram a nao impedir que grandes nomes da ‘high/main street’ (do que a Woolworths – uma cadeia retalhista com mais de um seculo de existencia no mercado Britanico – tem sido nas ultimas semanas o caso mais emblematico) continuem a falir. Estaremos, assim, numa situacao que nos permite visualizar em termos praticos e reais aquilo que, em termos teoricos, e’ definido em macroeconomia como a “armadilha da liquidez”, ou seja, uma situacao em que, por mais barato que seja o dinheiro, as politicas monetaria e fiscal se demonstram incapazes por si sos de estimular a producao e o consumo e, consequentemente, o crescimento economico.

Essa situacao, porem, poder-se-ia restringir ao ocidente, nao estivessemos nos numa economia globalizada (globalizadora?) e nao fossem as restricoes impostas pela OPEP aos paises produtores de petroleo (Angola) que os deixam em nao tao ‘bons espiritos’ quanto em condicoes normais seria de prever, particularmente quando estes estao sobremaneira depedentes de, por um lado, emprestimos estrangeiros e, por outro, aplicacoes financeiras que, na actual conjuntura, se apresentam tao vulneraveis quanto quaisquer outras nas pracas financeiras internacionais. A tal ponto que, quando o estudo de viabilidade do recem-projectado Fundo Soberano Angolano estiver concluido, talvez ja’ nao haja fundos assim tao disponiveis para o instituir e manter… Ha’, contudo, neste contexto, uma noticia geralmente animadora: a China, neste momento maior parceiro economico de Angola, acaba de ascender a posicao de terceira maior economia mundial, depois dos EUA e do Japao, tendo destronado a Alemanha daquela posicao. Ate’ que ponto sera’ esta uma noticia particularmente animadora para Angola? Questao a acompanhar nos proximos tempos. Por agora, voltemos brevemente ao primeiro numero desta serie, que assim terminei:

Essa, do meu ponto de vista, a essencia da crise que se vem desenrolando aos nossos olhos. Se ha’ uma licao basica a retirar dela, e’ que nenhuma economia se pode dar ao luxo de perder o equilibrio essencial entre o sector de bens (e servicos) e o sector das financas, ou seja, entre a economia real e a economia monetaria. Este ‘lembrete’ torna-se particularmente relevante para algumas das questoes que levantei, bastante antes desta crise, no meu artigo “Politica, Futebol e Algumas Consideracoes sobre a Actual Conjuntura Economica Angolana”. A elas voltarei.

E, aqui volto a elas, como prometido. Nao directamente, mas atraves do economista no pensamento de quem se estruturou sobremaneira a minha formacao basica em Economia, John Maynard Keynes {ele que, tendo dito que “os homens praticos que acreditam estar imunes a qualquer influencia intelectual, sao normalmente escravos de um qualquer economista defunto” (tenho ca’ para mim que ele deveria estar a pensar no economista entao ja' defunto Karl Marx…), tem suscitado recentemente afirmacoes que o creditam como o unico economista (defunto) a quem recorrer neste momento em busca de solucoes para a actual crise, pelo facto de a sua analise de recessoes e depressoes economicas continuar a ser a fundacao da moderna macroeconomia, ou que, tendo ele famosamente afirmado que "no longo prazo (do ciclo historico-economico) estamos todos mortos", verifica-se agora que neste momento ele esta tudo menos morto , ao ponto de ter sido referido como o homem do ano - passado, que, pelo menos no que diz respeito a crise economica, continua neste ano que agora se inicia}, usando duas citacoes, que me parecem fulcrais no ambito da analise que sugeri naquele meu artigo do inicio de 2006, de uma celebre carta aberta que ele enderecou, em 1933, ao entao Presidente Roosevelt dos EUA, oferecendo o seu technical advice para a recuperacao da Grande Depressao que se vivia naqueles dias:

“(…) O objectivo da recuperacao e’ aumentar o produto nacional e colocar mais homens a trabalhar. No sistema economico do mundo moderno, o produto e’ primariamente para venda; e o volume do produto depende da quantidade do poder de compra, comparada com o custo primario da producao que se espera colocar no mercado. Genericamente falando, portanto, um aumento do produto nao se pode verificar a menos que opere um ou outro de tres factores. Os individuos devem ser induzidos a gastar mais dos seus rendimentos existentes; ou o mundo empresarial deve ser induzido, seja atraves de um aumento da confianca nas expectativas ou de uma mais baixa taxa de juro, a criar adicionais rendimentos correntes nas maos dos seus empregados, o que acontece quando ou o capital fixo, ou o capital operacional do pais esta’ a ser incrementado; ou a autoridade publica tem que ser chamada para ajudar a criar rendimentos correntes adicionais atraves de despesa ou de dinheiro emprestado ou imprimido. Em maus tempos nao se pode esperar que o primeiro factor funcione a uma escala suficiente. O segundo factor entrara’ em accao como a segunda onda de ataque a recessao depois da vaga ter sido contrariada pela despesa publica. E’, portanto, apenas do terceiro factor que se pode esperar o maior impulso inicial.”

Ora, como vimos nos paragrafos iniciais deste post, este diagnostico de Keynes e’ claramente evidenciado pela presente crise economica, nao apenas ocidental, mas global, incluindo o mercado domestico da China, apesar da sua recente ascensao a categoria de terceira potencia mundial -, sendo que, a par do consenso que se reune a volta da necessidade de conceder estimulos a economia, decorre neste momento um debate bastante interessante sobre os limites desses estimulos e as melhores vias para os tornarem mais eficazes. Vejamos entao qual a prescricao de Keynes:

“(…) Assim, como primordial incentivador no primeiro estagio da tecnica de recuperacao, eu ponho uma enfase avassaladora no aumento do poder de compra nacional, resultante da despesa governamental, que seja financiado por emprestimos e nao por tributacao dos rendimentos presentes. Nada mais conta em comparacao com isto. Numa situacao de expansao economica, a inflacao pode ser causada pela permissao de que o credito ilimitado apoie o entusiasmo excitado dos especuladores empresariais. Mas numa recessao, a despesa crediticia governamental e’ a unica forma segura de se garantir rapidamente um aumento do produto a precos crescentes. E’ por isso que uma guerra causa sempre uma intensa actividade industrial. No passado, o financiamento ortodoxo via uma guerra como a unica legitima desculpa para a criacao de emprego atraves da despesa governamental. Voce, Sr. Presidente, tendo deixado de lado tal pensamento, e’ livre de utilizar nos interesses da paz e da prosperidade a tecnica a qual ate’ agora apenas foi permitido servir os propositos da guerra e da destruicao.”

Nao se aplica isto bem a Angola, meus caros leitores? Eu diria que sim, especialmente tendo em conta o que ele diz num outro paragrafo da mesma carta quanto as areas em que a despesa publica se deveria aplicar, “(…) devera’ ser dada preferencia aquelas que poderao mais rapidamente madurar em grande escala, como por exemplo a reabilitacao das condicoes fisicas das linhas ferreas” (ao que poderiamos acrescentar outras obras publicas e investimentos em infra-estruturas, como a construcao de habitacoes e a reabilitacao de estradas, etc.). Mas diria tambem algo mais: que o diagnostico e prescricao de Keynes – onde ele diz, nomeadamente, que “o objectivo da recuperacao e’ aumentar o produto nacional e colocar mais homens a trabalhar” e que “eu ponho uma enfase avassaladora no aumento do poder de compra nacional” e, ja' agora, ao que ele tambem disse num outro contexto: "a politica monetaria e cambial de um pais devera’ ser inteiramente subordinada ao objectivo do aumento da producao e do emprego ao nivel certo" -, referem-se estritamente ao produto, ao emprego e ao poder de compra dos nacionais. Aplicar-se-ha’ isto inteiramente a Angola? Esse e’, do meu (humilde, il faut le dire…), ponto de vista, o prublema que ainda estamos kum ele

Wednesday, 10 December 2008

O FIM DA ECONOMIA DE CASINO COMO FIM DAS IDEOLOGIAS...

Ja’ aqui toquei ao de leve na forma como alguns veem a actual crise economica global como “o fim da economia de casino”. Tambem ja’ aqui tinha feito uma breve alusao ao “ideologos de todo o mundo uni-vos!” como um possivel slogan a ser adoptado na nova “era Obama” que ai vem...

Mas em nenhuma dessas ocasioes me passou pela cabeca algo como isto:
O governador do Banco Central do Zimbabwe (Reserve Bank of Zimbabwe – RBZ), Gideon Gono, acaba de lancar um livro entitulado “A Economia de Casino do Zimbabwe: Medidas Extraordinarias para Desafios Extraordinarios”.

Segundo ele, “no meu humilde livro, nao lido tanto com a minha historia pessoal, mas tento principalmente lancar luz sobre as profundas questoes filosoficas que marcaram a orientacao e a conduta do RBZ sob a minha supervisao nos ultimos cinco anos. Assim que arregacei as mangas para comecar a trabalhar a 1 de Dezembro de 2003, fui confrontado pela crua realidade da nossa economia degenerando-se literalmente numa economia de casino, devido a ganancia individual e, em alguns casos, colectiva, indisciplina, corrupcao, fraude e uma geral falta de unidade de objectivos entre os stakeholders.”

Nao se poderia aplicar essa descricao a Wall Street dos ultimos anos? Veja-se, em particular, como a crise ali e' atribuida as facilidades de acesso ao credito habitacional concedidas, durante as administracoes Carter e Clinton, a comunidade negra na America e as analogias entre essa analise e a questao da redistribuicao da terra na base da crise no Zimbabwe... Nao poderia esse livro ter sido escrito por Alan Greenspan ou, talvez mais apropriadamente, por Ben Bernanke? Nao sera’ a possibilidade de pronunciar Gono, Greenspan e Bernanke (e, ja’ agora, Melo e Cockburn) numa mesma frase, o prenuncio do “fim das ideologias”?

Mas o fantastico desta historia nao termina ai. Diz Gono, recentemente reconduzido por Mugabe na governacao do RBZ, que George Bush e Condoleezza Rice lhe ofereceram um posto de chefia no Banco Mundial, tendo o board deste reunido tres vezes para o convencer a aceita-lo, mas... ele regeitou a oferta.

Ja’ aqui toquei ao de leve na forma como alguns veem a actual crise economica global como “o fim da economia de casino”. Tambem ja’ aqui tinha feito uma breve alusao ao “ideologos de todo o mundo uni-vos!” como um possivel slogan a ser adoptado na nova “era Obama” que ai vem...

Mas em nenhuma dessas ocasioes me passou pela cabeca algo como isto:
O governador do Banco Central do Zimbabwe (Reserve Bank of Zimbabwe – RBZ), Gideon Gono, acaba de lancar um livro entitulado “A Economia de Casino do Zimbabwe: Medidas Extraordinarias para Desafios Extraordinarios”.

Segundo ele, “no meu humilde livro, nao lido tanto com a minha historia pessoal, mas tento principalmente lancar luz sobre as profundas questoes filosoficas que marcaram a orientacao e a conduta do RBZ sob a minha supervisao nos ultimos cinco anos. Assim que arregacei as mangas para comecar a trabalhar a 1 de Dezembro de 2003, fui confrontado pela crua realidade da nossa economia degenerando-se literalmente numa economia de casino, devido a ganancia individual e, em alguns casos, colectiva, indisciplina, corrupcao, fraude e uma geral falta de unidade de objectivos entre os stakeholders.”

Nao se poderia aplicar essa descricao a Wall Street dos ultimos anos? Veja-se, em particular, como a crise ali e' atribuida as facilidades de acesso ao credito habitacional concedidas, durante as administracoes Carter e Clinton, a comunidade negra na America e as analogias entre essa analise e a questao da redistribuicao da terra na base da crise no Zimbabwe... Nao poderia esse livro ter sido escrito por Alan Greenspan ou, talvez mais apropriadamente, por Ben Bernanke? Nao sera’ a possibilidade de pronunciar Gono, Greenspan e Bernanke (e, ja’ agora, Melo e Cockburn) numa mesma frase, o prenuncio do “fim das ideologias”?

Mas o fantastico desta historia nao termina ai. Diz Gono, recentemente reconduzido por Mugabe na governacao do RBZ, que George Bush e Condoleezza Rice lhe ofereceram um posto de chefia no Banco Mundial, tendo o board deste reunido tres vezes para o convencer a aceita-lo, mas... ele regeitou a oferta.

Friday, 10 October 2008

'DESEMBRULHANDO A CRISE' (I)

Sub-entitulei este blog “deitando contas a vida” porque, sendo economista de formacao e exercendo a minha actividade profissional geralmente em ambientes, ou com responsabilidades, que nao me conferem facilmente o tempo necessario ou um espaco que me permita dedicar-me a outros interesses que sempre tive ao longo da vida e que durante varios anos tive que deixar completamente negligenciados, sentia necessidade de arranjar esse tempo e espaco.

Por isso a criacao deste blog, como um lugar onde pudesse fazer, dizer e discutir o que me desse ‘na real gana’, sem grandes formalidades ou preocupacoes de rigor profissional, academico ou diplomatico, mantendo embora a seriedade e honestidade que julgo serem devidas a qualquer espaco de publicacao. Portanto, como economista, se viesse a “deitar contas” a alguma coisa neste espaco seria apenas, e muito informalmente, “a vida” tomada na sua forma mais geral, despreocupada e descomprometida possivel.

Por essa razao, tenho evitado, tanto quanto possivel, trazer para aqui questoes que sejam, directa ou indirectamente, do meu ambito profissional. Assim, alguns dos artigos ou outros materiais de minha autoria sobre questoes relativas a economia ou a historia economica que aqui postei, ou ja’ tinham sido publicados noutros espacos, ou, se escritos durante a existencia deste blog, preferi publica-los noutros espacos online, como o Africanpath ou o Atlantic Community.

Vem isto em geito de introducao a esta nova serie, que entitulo ‘desembrulhando a crise’, porque pretendo com ela fazer isso mesmo: tentar desembrulhar os varios aspectos da actual crise economica global, quanto mais nao seja porque, como nenhuma outra na memoria recente, ela tem tido e vai continuar a ter por tempo ainda dificil de predizer os mais diversos impactos na vida de todos nos de forma geral, tornando-a menos despreocupada e descomprometida do que muito provavelmente todos gostariamos. Tentarei faze-lo malembe malembe, como convem a natureza das questoes envolvidas e ao tempo de que disponho, evitando, no entanto, o mais possivel, torna-la demasiado academica ou profissional, ate’ porque isso apenas “embrulharia” ainda mais as questoes em causa.

I. De ‘gigantes com pes de barro’, ‘tigres de papel’ e ‘baloes de ar rarefeito’

Como todos ja’ sabemos, os sinais mais preocupantes desta crise comecaram a anunciar-se ha’ pouco mais de um ano nos EUA, com o que ficou conhecido como a crise do “sub-prime”. O credito "sub-prime" (ou sub-prime lending) no mercado imobiliario e’ geralmente entendido como emprestimos habitacionais concedidos a individuos com um baixo credit rating (ou seja, que por varias razoes, desde relativamente baixos salarios e/ou inseguras fontes de rendimento a falta de pagamento de creditos anteriores, normalmente nao teriam acesso ao credito bancario para tais, ou mesmo outros, efeitos). O termo tambem se aplica a transaccoes financeiras sobre propriedades com um valor real, ou potencial, inferior aquele pelo qual tenham sido incialmente quotadas. A circunstancia de tao grande numero de propriedades ter caido nessa categoria nos EUA deveu-se fundamentalmente a duas ordens de factores:

1. Os bancos, de forma alarmantemente generalizada, vinham concedendo credito para a compra de habitacoes a segmentos populacionais que nao tinham condicoes reais de as pagar, isto e’, que caiam na categoria do sub-prime lending. Essa pratica tornou-se ainda mais danosa quando, como se verificou em muitos casos, se estendeu a habitacoes de baixo valor patrimonial, quer intrinseco, quer em termos da sua localizacao, as quais, caso os bancos credores tivessem – como foram tendo num relativamente curto espaco de tempo, a medida que os niveis de desemprego se iam tornando cada vez mais elevados –, necessidade de as retomar (atraves das chamadas foreclosures, ou execucao contenciosa de hipotecas) para as revenderem no mercado, nao lhes renderiam o suficiente, isto se lhes rendessem alguma coisa, para cobrirem as perdas devidas ao mau credito inicial que sobre elas tinham feito.
A piorar a situacao, a recessao que se vinha instalando noutros sectores da economia, fez com que grande numero de propriedades, mesmo com relativamente maior valor patrimonial, tambem se tornassem ‘pesos mortos’ nos seus inventarios e balancos, porque se colocadas ou recolocadas no mercado, quer primario (as casas propriamente ditas a novos compradores), quer secundario (as hipotecas, ou mortgages, das casas a outros agentes do sistema financeiro) dificilmente viriam a encontrar oportunidades de transaccao viaveis ou suficientemente lucrativas.

2. Paralelamente a divida contraida para a compra de habitacoes, os consumidores, no mercado sub-prime e nao so, foram tambem adquirindo do sistema financeiro outros creditos para consumo, ou para investimento pessoal (e.g. seguros de vida, ou para cuidados de saude e tratamento hospitalar – de notar que os EUA nao teem um servico publico de saude), em certos casos com base nas hipotecas de tais habitacoes, mesmo quando ainda nao as tivessem pago completamente, o que veio “embrulhar” ainda mais a crise. A este ponto voltarei mais tarde.

Esta crise remete-nos para a pedra basilar do funcionamento do sistema bancario ou, dito de outro modo, para a regra de ouro da concessao de credito: o emprestimo de qualquer valor monetario por qualquer credor, banco ou outro agente financeiro, tem que ter por base um valor real, que sirva de garantia para o reembolso de tal emprestimo, por parte do devedor. Isto e’, nao deve haver credito sem ‘colateral’ (ou seja, um bem tangivel que, no caso da actual crise, sao ou seriam as habitacoes sobre as quais os emprestimos privados, quer em termos de quantias monetarias, quer sob a forma de cartoes de credito, foram concedidos).

Ora, essa regra de ouro foi violada seria e serialmente pelo sistema bancario Americano que, ao faze-lo e perante uma recessao generalizada da economia, ficou exposto como um ‘gigante com pes de barro’, ‘tigre de papel’ ou ‘balao de ar rarefeito’: isto e’, perante a contraccao da economia real (devido ao que se poderia classificar como a ‘rarefaccao do oxigenio’ criado pelo emprego, a produtividade, o investimento e, em consequencia destes, pelo crescimento economico), o sistema financeiro – incluindo todos os seus sectores: o primario, constituido essencialmente pelos bancos comerciais e de credito (os que sustentam a chamada main street, ou seja, qualquer 'rua principal' onde se fazem os negocios particulares do dia a dia); o secundario, constituido essencialmente pelas companhias de seguros e resseguros (como a American International Group, AIG, operando sobretudo no seguro de bancos) e instituicoes operando na concessao de garantias a emprestimos (como a Federal Home Loan Mortgage Corporation, mais conhecida como Freddie Mac, e a Federal National Mortgage Association, mais conhecida como Fannie Mae); o terciario, constituido pelas bolsas de valores (proeminentemente a de Wall Street, ‘reinado’ de investidores como Lehman Brothers e Merril Lynch) e, ultimamente, com a aprovacao da ‘boia de salvacao’ de 700 bilioes de dolares pelo governo, ate’ o ‘emprestador de ultimo recurso’ do sistema, isto e’, o Banco Central (Federal Reserve, Fed) –, deixou de ter terra firme (os bens tangiveis, as casas) em que assentar os pes, transaccionando apenas com base em ‘papeis’ (notas de credito) sem qualquer valor real. Dai as falencias em catadupa de todos os operadores financeiros acima citados, uns completamente, outros temporariamente salvos pelo FED.

Essa, do meu ponto de vista, a essencia da crise que se vem desenrolando aos nossos olhos.
Se ha’ uma licao basica a retirar dela, e’ que nenhuma economia se pode dar ao luxo de perder o equilibrio essencial entre o sector de bens (e servicos) e o sector das financas, ou seja, entre a economia real e a economia monetaria. Este ‘lembrete’ torna-se particularmente relevante para algumas das questoes que levantei, bastante antes desta crise, no meu artigo “Politica Futebol e Algumas Consideracoes sobre a Actual Conjuntura Economica Angolana”.
A elas voltarei.
Sub-entitulei este blog “deitando contas a vida” porque, sendo economista de formacao e exercendo a minha actividade profissional geralmente em ambientes, ou com responsabilidades, que nao me conferem facilmente o tempo necessario ou um espaco que me permita dedicar-me a outros interesses que sempre tive ao longo da vida e que durante varios anos tive que deixar completamente negligenciados, sentia necessidade de arranjar esse tempo e espaco.

Por isso a criacao deste blog, como um lugar onde pudesse fazer, dizer e discutir o que me desse ‘na real gana’, sem grandes formalidades ou preocupacoes de rigor profissional, academico ou diplomatico, mantendo embora a seriedade e honestidade que julgo serem devidas a qualquer espaco de publicacao. Portanto, como economista, se viesse a “deitar contas” a alguma coisa neste espaco seria apenas, e muito informalmente, “a vida” tomada na sua forma mais geral, despreocupada e descomprometida possivel.

Por essa razao, tenho evitado, tanto quanto possivel, trazer para aqui questoes que sejam, directa ou indirectamente, do meu ambito profissional. Assim, alguns dos artigos ou outros materiais de minha autoria sobre questoes relativas a economia ou a historia economica que aqui postei, ou ja’ tinham sido publicados noutros espacos, ou, se escritos durante a existencia deste blog, preferi publica-los noutros espacos online, como o Africanpath ou o Atlantic Community.

Vem isto em geito de introducao a esta nova serie, que entitulo ‘desembrulhando a crise’, porque pretendo com ela fazer isso mesmo: tentar desembrulhar os varios aspectos da actual crise economica global, quanto mais nao seja porque, como nenhuma outra na memoria recente, ela tem tido e vai continuar a ter por tempo ainda dificil de predizer os mais diversos impactos na vida de todos nos de forma geral, tornando-a menos despreocupada e descomprometida do que muito provavelmente todos gostariamos. Tentarei faze-lo malembe malembe, como convem a natureza das questoes envolvidas e ao tempo de que disponho, evitando, no entanto, o mais possivel, torna-la demasiado academica ou profissional, ate’ porque isso apenas “embrulharia” ainda mais as questoes em causa.

I. De ‘gigantes com pes de barro’, ‘tigres de papel’ e ‘baloes de ar rarefeito’

Como todos ja’ sabemos, os sinais mais preocupantes desta crise comecaram a anunciar-se ha’ pouco mais de um ano nos EUA, com o que ficou conhecido como a crise do “sub-prime”. O credito "sub-prime" (ou sub-prime lending) no mercado imobiliario e’ geralmente entendido como emprestimos habitacionais concedidos a individuos com um baixo credit rating (ou seja, que por varias razoes, desde relativamente baixos salarios e/ou inseguras fontes de rendimento a falta de pagamento de creditos anteriores, normalmente nao teriam acesso ao credito bancario para tais, ou mesmo outros, efeitos). O termo tambem se aplica a transaccoes financeiras sobre propriedades com um valor real, ou potencial, inferior aquele pelo qual tenham sido incialmente quotadas. A circunstancia de tao grande numero de propriedades ter caido nessa categoria nos EUA deveu-se fundamentalmente a duas ordens de factores:

1. Os bancos, de forma alarmantemente generalizada, vinham concedendo credito para a compra de habitacoes a segmentos populacionais que nao tinham condicoes reais de as pagar, isto e’, que caiam na categoria do sub-prime lending. Essa pratica tornou-se ainda mais danosa quando, como se verificou em muitos casos, se estendeu a habitacoes de baixo valor patrimonial, quer intrinseco, quer em termos da sua localizacao, as quais, caso os bancos credores tivessem – como foram tendo num relativamente curto espaco de tempo, a medida que os niveis de desemprego se iam tornando cada vez mais elevados –, necessidade de as retomar (atraves das chamadas foreclosures, ou execucao contenciosa de hipotecas) para as revenderem no mercado, nao lhes renderiam o suficiente, isto se lhes rendessem alguma coisa, para cobrirem as perdas devidas ao mau credito inicial que sobre elas tinham feito.
A piorar a situacao, a recessao que se vinha instalando noutros sectores da economia, fez com que grande numero de propriedades, mesmo com relativamente maior valor patrimonial, tambem se tornassem ‘pesos mortos’ nos seus inventarios e balancos, porque se colocadas ou recolocadas no mercado, quer primario (as casas propriamente ditas a novos compradores), quer secundario (as hipotecas, ou mortgages, das casas a outros agentes do sistema financeiro) dificilmente viriam a encontrar oportunidades de transaccao viaveis ou suficientemente lucrativas.

2. Paralelamente a divida contraida para a compra de habitacoes, os consumidores, no mercado sub-prime e nao so, foram tambem adquirindo do sistema financeiro outros creditos para consumo, ou para investimento pessoal (e.g. seguros de vida, ou para cuidados de saude e tratamento hospitalar – de notar que os EUA nao teem um servico publico de saude), em certos casos com base nas hipotecas de tais habitacoes, mesmo quando ainda nao as tivessem pago completamente, o que veio “embrulhar” ainda mais a crise. A este ponto voltarei mais tarde.

Esta crise remete-nos para a pedra basilar do funcionamento do sistema bancario ou, dito de outro modo, para a regra de ouro da concessao de credito: o emprestimo de qualquer valor monetario por qualquer credor, banco ou outro agente financeiro, tem que ter por base um valor real, que sirva de garantia para o reembolso de tal emprestimo, por parte do devedor. Isto e’, nao deve haver credito sem ‘colateral’ (ou seja, um bem tangivel que, no caso da actual crise, sao ou seriam as habitacoes sobre as quais os emprestimos privados, quer em termos de quantias monetarias, quer sob a forma de cartoes de credito, foram concedidos).

Ora, essa regra de ouro foi violada seria e serialmente pelo sistema bancario Americano que, ao faze-lo e perante uma recessao generalizada da economia, ficou exposto como um ‘gigante com pes de barro’, ‘tigre de papel’ ou ‘balao de ar rarefeito’: isto e’, perante a contraccao da economia real (devido ao que se poderia classificar como a ‘rarefaccao do oxigenio’ criado pelo emprego, a produtividade, o investimento e, em consequencia destes, pelo crescimento economico), o sistema financeiro – incluindo todos os seus sectores: o primario, constituido essencialmente pelos bancos comerciais e de credito (os que sustentam a chamada main street, ou seja, qualquer 'rua principal' onde se fazem os negocios particulares do dia a dia); o secundario, constituido essencialmente pelas companhias de seguros e resseguros (como a American International Group, AIG, operando sobretudo no seguro de bancos) e instituicoes operando na concessao de garantias a emprestimos (como a Federal Home Loan Mortgage Corporation, mais conhecida como Freddie Mac, e a Federal National Mortgage Association, mais conhecida como Fannie Mae); o terciario, constituido pelas bolsas de valores (proeminentemente a de Wall Street, ‘reinado’ de investidores como Lehman Brothers e Merril Lynch) e, ultimamente, com a aprovacao da ‘boia de salvacao’ de 700 bilioes de dolares pelo governo, ate’ o ‘emprestador de ultimo recurso’ do sistema, isto e’, o Banco Central (Federal Reserve, Fed) –, deixou de ter terra firme (os bens tangiveis, as casas) em que assentar os pes, transaccionando apenas com base em ‘papeis’ (notas de credito) sem qualquer valor real. Dai as falencias em catadupa de todos os operadores financeiros acima citados, uns completamente, outros temporariamente salvos pelo FED.

Essa, do meu ponto de vista, a essencia da crise que se vem desenrolando aos nossos olhos.
Se ha’ uma licao basica a retirar dela, e’ que nenhuma economia se pode dar ao luxo de perder o equilibrio essencial entre o sector de bens (e servicos) e o sector das financas, ou seja, entre a economia real e a economia monetaria. Este ‘lembrete’ torna-se particularmente relevante para algumas das questoes que levantei, bastante antes desta crise, no meu artigo “Politica Futebol e Algumas Consideracoes sobre a Actual Conjuntura Economica Angolana”.
A elas voltarei.